NIETZSCHE CONTRA TODOS, APOLOGÉTICA DO HOMEM

Publicado originalmente em 13 de janeiro de 2009

Sobre a imaturidade autoral: quando publicar imediatamente uma obra ou esperar mais tempo. Nietzsche já era auto-suficiente, se assim se pode definir, quando lançou O Nascimento da Tragédia. Zaratustra sem dúvida é outro píncaro, mas são aí dois autores cuja relação de linearidade não pode ser traçada.

Jesus e Nietzsche: os últimos transmutadores, os bodes expiatórios da Europa. É citado Copérnico,¹ e poderia ter sido lembrado Galileu: aqueles que não tiveram problemas para levar adiante suas revoluções em vida, ou que desistiram em um último momento porque não tinham a força requerida. Nietzsche é um contra-exemplo: não se ajoelhou, não pediu perdão. Foi este santo que pagou com o próprio sangue para que os preconceitos da época fossem revistos. Aquele que não gerasse polêmica – um wagneriano – estaria levando a Europa para o caminho mais fácil e equivocado. Jesus podia muito bem ser substituído por Sócrates, para ficarmos na filosofia. Um homem como Sartre, que se torna pop star e colhe os bons frutos em vida…? Não se se quiser a verdade. Hoje em dia parece ser fraco o apelo de Cristo: quem morreria por ele? De igual modo, não conheço outros filósofos tão proscritos… Lutero quase representa esse pathos fatalista. Mas esses cânones modernos, de Platão em diante, tiveram existências tranqüilas, uma posição por demais asceta. Nietzsche jogou fora, por assim dizer, uma carreira de talento precoce para enobrecer o homem niilista. Professor da Universidade da Basiléia aos 23 anos, trabalhos sobre os pensadores do helenismo que eram muito lidos e divulgados com prestígio. Era apadrinhado de dois influentes mestres, Ritschl e Richard Wagner. Só um louco ou idiota – para Dostoievsky – abriria mão de sua trajetória individual para conceder aos humanos do porvir, a essa massa cristã desesperançada, a chave da cela. O meio-dia da eternidade. Sua posteridade auto-sentida pode ser atestada pelos subtítulos de suas obras. Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. O irônico é que algumas tempestades sobrevêm sem aviso. A dinamite nietzscheana quase não tem explicação. Seu estado mental, talvez o corpo mais perfeito de todos, o mais intenso brilho da arte até o século XX, assimilou o que um mero humano com sêde de afronta e de desafio não lograria fazer. Pode-se dizer sem medo que a Prússia estava diante de um milagre. O filho de Deus voltou à Terra, pereceu, procrastinou o Juízo Final por mais 2 ou 3 mil anos e ninguém está ainda a par. Se eu achasse ainda por um segundo que vivo em vão haveria aí um grande desperdício. O engraçado é que, ao contrário de Sócrates, Friedrich jamais teve um intérprete a sua altura. Tendo escrito – muito –, talvez tenha reunido dois em um, professor e aluno. Não era seu filho espiritual esse tal de Zaratustra?

¹ My Sister and I, Introduction, por Oscar Levy

Pequeno pedido: que os Direitos Humanos, que nunca existiram, fossem declarados inutilizáveis por qualquer nação. Que seu uso como prerrogativa para o apodrecimento do homem seja proibido. A guerra, atitude que jamais deixará de ser nobre, da qual cada um de nós homens poderá tomar parte um dia, é a mais peremptória negação desse remendo brutal da oratória suja do século vinte: e assim deve ser. Que o direito – e até a obrigação – de matar o próximo seja olhado com carinho. Viver é matar todo dia.

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