[ARQUIVO] O TRATADO DA CORREÇÃO DO INTELECTO, O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON & SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO

 

Originalmente publicado em 27 de dezembro de 2012

A) SPINOZA

“o homem e seu gosto pela contradição, que ordinariamente o leva a deformar e a interpretar mal mesmo as coisas proferidas com maior clareza”

“penso que teria de renunciar a contribuir para o progresso da filosofia, se quisesse ocupar-me em instruir a mocidade.” O polidor de lentes.

“não é necessário, para que eu saiba, que saiba que sei, e muito menos ser necessário que saiba que sei que sei”

29: propriedades do mundo fenomênico

Toda moral é provisória.

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B) SCOTT FITZGERALD

“aquela eterna inércia que vem viver conosco um dia e fica até o fim.”

Nosso suposto auge social é só uma mancha.

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C) SHAKESPEARE

Ares de Romeu & Julieta. O Direito (até pré-romano) de matar a filha caso esta não se case com o favorito do Pai-Deus. As escolhas são três: o casamento indesejado, o convento ou a morte.

“O Amor não vê com os olhos, mas com a mente; por isso é alado, e cego, e tão potente. Eterna criança: eis como é apelidado, por ser sempre na escolha malogrado.”

Bem como em Hamlet, a peça dentro da peça.

“Sou feia como um urso. Para feiúra tal não há recurso.”

“Com prosa lhana João pega Joana. Quem boa potranca tem, acha que tudo está bem.”

A peça é trágica, embora seu fim seja feliz. A peça dentro da peça é cômica, embora trágico tenha sido o roteiro.

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D) REPRODUZA ESSE POEMA, POR FAVOR!

Sinto-me tão pobre e bajulador!

Comparado à 10treza de Leoda20 eu devo ser um amputado.

Pois pra mim gramática é ciência exata

o que tenho de introjetado

aprendi dos mestres mas não sei a equação

Nossas mentes não suportam mais!

mal posso suportar a visão dum teclado ou duma lira

nanogênio, um novo conceito ®

[ARQUIVO] TEETETO

Originalmente publicado em 20 de novembro de 2012

“pois a rigor nada é ou existe, tudo devém”

“Sobre isso, com exceção de Parmênides, todos os sábios, por ordem cronológica, estão de acordo: Protágoras [‘o homem é a medida de todas as coisas’], Heráclito e Empédocles (…) e Homero.”

“o repouso estraga e destrói, e o seu contrário conserva.” Nossos sonhos agitados e multiformes são a prova cabal disso.

“Ou poderás afirmar que cada cor aparece para ti exatamente ecomo o faz para um cão ou para qualquer outro animal?”

“como é igual o tempo que dedicamos ao sono e o que passamos acordados”

“É de crer que, como mais velho, ele seja mais sábio do que nós. Se neste momento ele conseguisse sair da terra só até o pescoço, com toda a certeza me acusaria de dizer muita tolice, e a ti também, por concordar comigo, depois do que afundaria de novo na terra e desapareceria.”

“Tales (…) porque olhava para o céu, caiu num poço.” “Essa pilhéria se aplica a todos os que vivem para a filosofia. Realmente, um indivíduo assim alheia-se até dos vizinhos mais chegados e desconhece não somente o que eles fazem como até mesmo se se trata de homens ou de criaturas de espécie diferente.”

“sempre que nosso filósofo é forçado a tratar de assuntos que lhe caem sob a vista ou diante dos pés, torna-se alvo de galhofa não apenas por parte das raparigas da Trácia como de todo o povo. Sua irremediável inabilidade para as coisas práticas fá-lo passar por imbecil.”

Sócrates fala dos “abestados” (indiferentes, investigativos…) da polis que simplesmente não sabiam onde se julgam processos ou o que fizeram ontem na ágora. Talvez nem com todas as minhas forças e entranhas reviradas eu consiga cobrar um aluguel, isso é certo, mas não consigo deixar de me estupeficar com meu pai-alienígena, pois este nunca ouviu falar de Dante ou Goethe!

“Num revide de injúrias não sabe como atacar o adversário”

“o filósofo não merece ser vituperado por não saber amarrar os cobertores na hora de viajar nem temperar alimentos”

[ARQUIVO] CONTOS LIBERTINOS

Originalmente publicado em 20 de novembro de 2012

“o verdadeiro modo de se opor às enormes protuberâncias que ornam a cabeça de um marido é dar mostras de não desconfiar de as estar usando”

“falava latim como Cícero”

“é preciso adular um pouco o marido cuja mulher se deseja possuir”

Marquês pioneiro na descrição de beatos pedófilos?

15-16: “O esposo complacente”

Cardápio completo—esclarecimento invejável para a sexualidade recalcada do próprio século XX!

A SAFISTA: “Para os homens, Augustine era um verdadeiro desperdício.”

“é tão doce falar duas ou três horas sem nada dizer!”

“visava epicurianamente a uma vida voluptuosa”

[ARQUIVO] DISCURSO SOBRE A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA & OUTRAS CARTAS

Originalmente publicado em 20 de novembro de 2012

Etienne LA BOÉTIE—o amigo anti-semita de Montaigne. Fazia média, é óbvio, com os reis franceses em seus escritos.

Pisístrato foi um tirano, mas não fosse por ele talvez o Ocidente jamais conhecesse a Ilíada e a Odisséia, ou não soubesse ligar as obras, imaginando que pertenciam a dois autores distintos.

“Dos imperadores romanos se pode dizer que foram menos os que escaparam de qualquer perigo por intervenção dos arqueiros do que os que pelos próprios guardas foram mortos” “O Sátiro indiscreto, ao ver aceso o lume descoberto por Prometeu, achou-o tão belo que foi beijá-lo e se queimou.”

* * *

SAINT-SIMON

Nada mais antagônico a Stirner! Um governo dos sábios e gênios em prol do humanismo e do progresso…

Por outro lado, “o espírito acadêmico seguirá a rota contrária, procurando sempre manter-se entre as opiniões consagradas, considerando-se depositário da verdade, criticando-se a si mesmo se muda de opinião. (…) Com que encarniçamento perseguem os acadêmicos aos homens de gênio quando estes combatem suas opiniões”

“O despótico Richelieu, fundador da primeira academia da França”

As academias mais Iluminadas estão mergulhadas em treva.

“Felizes momentos aqueles em que a ambição só vê ambição e glória na aquisição de novos conhecimentos e abandona essas fontes impuras onde as paixões tratam de apagar sua sede, fontes de miséria e de orgulho (…) Não mais honremos a Alexandres; viva os Arquimedes!”

“É uma sorte que a tumba de Newton, lugar de reunião, esteja na Inglaterra, país que foi constantemente refúgio dos homens de gênio e dos sábios perseguidos de outras nações!”

20 postos seriam mais que suficientes para tal governança planetária. Eleições democráticas/meritocráticas.

“Vós sois a parte da humanidade que tem maior energia cerebral, vós sois aquela que possui maior aptidão para receber uma idéia nova, vós sois os mais diretamente interessados no êxito do abaixo-assinado e é a vós que corresponde vencer a inércia.”

“Na Rússia, quando um sábio não é do agrado do imperador, cortam-se-lhe o nariz e as orelhas, e se o envia à Sibéria. E os camponeses são tão ignorantes como os cavalos.”

“as matemáticas contêm os únicos materiais que se podem empregar na construção de um sistema geral”

“Os moralistas se contradizem quando criticam o egoísmo no homem e aprovam o patriotismo, porque o patriotismo não é mais que o egoísmo nacional”

“os matizes delicados de vossas sensações”

“Para falar ou escrever de maneira que os apraza, para fazer um quadro ou uma estátua que os agrade, para compor a música que os interessa, é mister trabalhar muito.”

“Se os revolucionários houvessem consultado os fisiólogos, ter-lhes-iam ensinado que o negro, de acordo com sua constituição, não é suscetível de uma educação igual, e de ser elevado à mesma altura de inteligência que os europeus.”

“o maior inimigo das Luzes (Robespierre) foi precipitado nas trevas e seu destino é permanecer eternamente agente e paciente da minha vingança” hipotéticas palavras de deus.

“Todo homem que não obedeça esta ordem será considerado e tratado pelos demais como um quadrúpede.”

Tão repugnante e asqueroso em seus planos normativos quanto Comte.

“Sabeis que os europeus são filhos de Abel. Sabeis que a Ásia e a África são habitadas pela posteridade de Caim. Vede como são sanguinários esses africanos. Observai a indolência dos asiáticos.”

[ARQUIVO] MI PUTA… MI PUTITA

Originalmente publicado em 25 de outubro de 2012

Estou enamorado

Toda vez que me debruço na janela para fumar, porque não tenho mais um cinzeiro, eu quebrei o cinzeiro, contemplo a mesma paisagem soturna. Tão próximo, mas tão distante, gesticula um objeto na penumbra. É como se estivesse nu. E quase está. Ela desempenha seu serão. Obviamente eu não sei seu nome. Obviamente, eu não sou um dos seus consumidores. E acho melhor conservar na utopia a brasa encendida chamada meu peito. Escura como está, e sem rosto, como manequim, ela é meu carvão. Ela pulsa. É a única viva esta noite. Como em todas as noites. São só sete minutos que a observo a cada dia.

Mas agora estou enlutado. Viro-me para baforar a fumaça pelas narinas e quando fixo de novo os olhos na reta—algumas árvores, uma pista, prédios nas laterais nos separam—ela desapareceu. Se foi minha putita.

Ouço pneus cantando no asfalto… Só a amo, só me enterneço, porque ela não é minha. Meia hora. Suja por dentro. Lubrificada. Que macho sou eu que não posso comprá-la? Comprar-lhe um pão com salsicha. Amanhã ela estará de pé ali de novo. Na vitrine de carne. Se bem que nunca está, para mim… Minha de uma forma secreta. Sei que é correspondido, porque ela ama o estranho que não a corrompe! Não a estiola. Quem mais pura do que a flor que sempre após ser estiolada outra vez desabrocha?

[ARQUIVO] O ÚNICO & SUA PROPRIEDADE — Max Stirner

Originalmente publicado em 19 de setembro de 2012

Ilustrado por Engels (!); tradução de João Barrento.

Não sabia que os semitas seriam capazes de ter uma “deusa do amor e da fertilidade”.

“suicidou-se, tendo sido ainda assim guilhotinado. [Babeuf]”

“Francis Bacon foi demitido dos seus cargos públicos sob acusação de aceitar subornos nos casos que julgava.”

“Não existe qualquer retrato de Stirner, embora a fotografia já se tivesse implantado, e os grandes autores do século da fotografia se tivessem feito retratar abundantemente.”

“um dandy, um fumador compulsivo, demasiado egoísta para ter amigos…” Marie Dänhardt é a autora da caracterização—a viúva e segunda esposa de Stirner, que teve sua riqueza herdada do pai praticamente dissipada em pouco tempo pelo marido!

Stirner: testudo. Nome de batismo: Johann Caspar Schmidt. [USP—publicado em 1845—autor morre em 1850]

“Depois de 1848 o livro deixa de ser citado, e será incitável fundamentalmente por aqueles que o leram profundamente inquietos, como é o caso de Marx e de Nitzsche.”

“Não é impossível que o Único seja uma enorme paródia da metafísica ocidental.”

“esforços de John MacKay [1º biógrafo e discípulo de Max, inglês], que dedicou boa parte de sua vida à causa stirneriana, mas que o trai reduzindo-o ao ‘anarquismo individualista’”

“Maldoror é a descrição de todos os crimes possíveis em busca de um crime absoluto.”

“Uma linha de fogo liga os malditos do Ocidente: Sade na literatura, La Mettrie na medicina, Lautréamont na poesia, Stirner na filosofia.”

“lágrimas têm o sabor do vinagre”

PREFACIADOR BOBALHÃO: “Tanto para Stirner como para Nietzsche ‘Deus tinha morrido’, mas Nietzsche tinha o ‘hiper-homem’ para ocupar o seu lugar.” E MS tinha o Nada, o Eu?! “é em Dostoievsky que ele ressurge com força inaudita.” “Nas Memórias do Subsolo, a voz do anônimo professor de colégio é a voz de Stirner”

“M.S. renuncia a tese hegeliana de que a filosofia tinha chegado ao fim, como mais tarde o fará Marx nas suas teses sobre Feuerbach, para extrair daí conseqüências muito distintas.”

“A estratégia do Único é a de circunscrever a dialética através de um círculo que a exorbita. Esta necessidade está encenada no próprio livro, que começa e termina com a mesma frase: ‘A minha causa não se funda em nada!’.”

“o Sistema do Saber hegeliano demonstra (dé-montre) que nenhuma filosofia posterior à data da sua redação o pode ‘ultrapassar’ pois este Sistema mostra que integra em si mesmo todas as filosofias ‘possíveis’.” Alexandre Kojève

É dito que a “onda” de livros de vampiros começou mais cedo que em 1897 (sintoma de décadence): John Polidori, Vampiro, 1819.

O FALATÓRIO DOS MARXISTAS: “Marx esforçou-se, e muito, por mostrar que Stirner não tinha a mínima idéia das condições reais da vida, que ele era mais uma vítima do imaginário teológico, que criava uma filosofia à imagem dos desejos da ‘alma’ pequeno-burguesa.”

“Conta Baumgartner, um discípulo, a quem Nietzsche recomendara a leitura do Único, que o último lhe teria afirmado então ser esse livro ‘o mais audaz e conseqüente que se pensou depois de Hobbes’.” “É por isso que Stirner faz do corpo uma questão central, e muito antes de Nietzsche.” “Baumgartner foi o aluno favorito de Nietzsche durante o período como professor de filosofia em Basiléia.” Sobre acusações póstumas de plágio de Nietzsche de Stirner: Safranski, Nietzsche. Biografía de su pensamiento. “Sabe-se que Fraud leu atentamente a ‘filosofia do inconsciente, publicada por Eduard von Hartmann em 1869. Hartmann, bom conhecedor de Stirner, será fortemente criticado por Nietzsche na sua II Intempestiva. Será este o principal argumento de Hartmann para acusar Nietzsche de plágio, pois como o seu livro continha largas análises sobre Stirner [?], isso seria sinal bastante de que Nietzsche não pudera deixar de conhecer as posições stirnerianas.”

“Daí, um certo selvagismo feito da impaciência por ter de escrever… o que está a escrever,” MS pregava o hedonismo hic et nunc, mas não era capaz de ser hedonista.

“Não há prova provada de que Foucault tenha sido leitor de Stirner”

O autor idiotamente cita Matrix como boa ilustração.

“mais vale a luz livre de uma grisette [puta] que mil virgens que a virtude fez cinzentas!”

Fala até de filme baseado em Stephen King (que ele sinaliza nãoi conhecer, aliás): Christine, o carro com moto próprio, assassino(a); só faltou citar o amigável Herbie!

“[Para Kant] Os fantasmas devem-se a um desencaminhamento metafísico.”

“David McLellan, um marxista sem quaisquer simpatias por M.S., reconhece que este se antecipou a Marx sobre a questão da ‘mais-valia’.”

“Com alguma ingenuidade, critica o tabu do incesto como se ainda estivesse em aberto”

“Stirner respeita melhor o Direito existente e as leis do que Marx”

“Nietzsche e Stirner são os únicos cujos livros releio com prazer.” Duchamp, o mesmo do urinol.

“Aliás, não existe em Stirner nenhum problema sobre os fundamentos, dramatizado por Nietzsche a um ponto inaceitável.”

* * *

“O bem-estar (hedone) dos epicuristas é a mesma sabedoria de vida dos estóicos: o mundo tem de ser enganado, porque é meu inimigo.”

“o egoísta involuntário (…) só se rebaixa ‘para poder ser elevado’” “Aquilo que tu és em cada instante é criação tua, e tu, o criador, não queres nem deves perder-te na tua ‘criatura’. Tu próprio és um ser superior a ti, superas-te a ti mesmo.”

“os nossos jornais regurgitam de política porque vivem na ilusão de que o homem nasceu para ser um zoon politikón”

“Se não vos agradar a palavra ‘possesso’, podeis substituí-la por convencido, ou então, por… entusiasmo espiritual—o entusiasmo perfeito se chama fanatismo.”

“Hoje em dia voltamos a ouvir louvar a ‘seriedade’, a ‘seriedade no tratamento de questões e fatos altamente importantes’, a ‘seriedade alemã’, etc.”

“Com Hegel vêm finalmente a lume a nostalgia do homem culto pelas coisas e o seu horror de toda a teoria oca.”

65: da criança no filósofo e da insipidez do inglês

“A Igreja católica excluiu de sua ordem sacerdotal o casamento profano e proibiu o seu clero de constituir família; a protestante declarou sagrados o casamento e os laços de família, que por isso são compatíveis com o estatuto de seus pastores.”

“Beijo sem malícia não pede polícia”

70: o luteranismo de Hegel

“há também vagabundos do espírito, para os quais o lugar de vida dos pais é demasiado estreito e opressivo para se poderem contentar com este espaço limitado.” “espíritos inquietos”

“Quando o proletário fundar realmente a ‘sociedade’ que sonhou, onde desaparecerão as diferenças entre ricos e pobres, então ele será miserável, porque nessa altura sabe que ser miserável é qualquer coisa, e a palavra ‘miserável’ poderá ganhar o sentido de tratamento de honra, tal como aconteceu com a palavra ‘burguês’ na Revolução. O miserável é o seu ideal, e todos devemos tornar-nos miseráveis.” “As reflexões e conclusões do comunismo parecem muito simples (…) o Estado tem de ser abolido.”

“o humanista responde: A instabilidade de tantos é um produto teu, filisteu!” “deveríeis dar ao ócio um significado humano.” “de novo um interesse celestial”

“Os homens do futuro lutarão ainda por muitas liberdades de que nós nem sentimos a falta.”

“Se achares que o teu valor é nadas antes de te tornares ‘homem’, então terás de esperar até ao dia do Juízo, até àquele dia em que o homem ou a humanidade terá alcançado a perfeição. Mas como vais certamente morrer antes, onde é que fica o prêmio da vitória?”

“Que fazer para não soltar o monstro inumano juntamente com o homem?”

“agora sou o único, sou—para teu horror—o egoísta, mas não o egoísta que se deixa medir pela medida do humano, do humanitário e do altruísta, mas o egoísta enquanto… único.”

“um espreguiçar dos membros sacode para longe de mim o tormento dos pensamentos, um salto lança o pesadelo do mundo religioso para fora do meu peito, um grito de júbilo alivia-me dos fardos de muitos anos.” “Enquanto os colocares, não os largarás, e eu não tenho nada contra o fato de tu quereres pensar e, pensando, criares milhares de pensamentos.”

“o próximo começa em nós próprios!”

“um cão tem um coração que bate, o dito cão morto, não, e por isso já não é cão.”

“E se alguém vos sugerisse mesmo inverter as coisas?”

“a ‘liberdade’ é e será sempre uma nostalgia, um lamento romântico, uma esperança cristã no além e no futuro; a ‘singularidade-do-próprio’, é uma realidade que, por si só, elimina tanta escravidão que atravanca o vosso próprio caminho.”

“até de vós próprios vos livrais!”

“Hei-de considerar a Lua sagrada, pelo fato de não lhe poder chegar, uma espécie de Astarte? (…) Se eu descobrir um meio de chegar aí acima, não és tu que me vais assustar!” Cem anos depois o homem ainda estaria ruminando Apolo.

“não me rendo, espero apenas pela minha oportunidade

São Bonifácio, o evangelizador bávaro, cortou o carvalho sagrado de Thor.

“Eu sou, de fato, a um tempo, humano e inumano, porque sou homem e ao mesmo tempo mais do que homem, ou seja, sou o eu dessa minha mera qualidade.”

“quando o Estado tiver levado às últimas conseqüências o seu princípio de não exigir aos seus membros nada mais além de serem homens, então terá cavado a sua própria sepultura.” “Os egoístas serão a ruína da ‘sociedade humana’.” “perfeita democracia—ou, como seria mais correto dizer, antropocracia.” “Fichte fala do eu ‘absoluto’, mas eu falo de mim, do eu transitório.” Assim como em Feuerbach.

“a espécie não é nada” “O homem é o último espírito maligno ou espectro, o mais enganador ou o mais familiar, o mais esperto dos mentirosos, com o seu semblante honesto, o pai da mentira.”

“E depois, por onde passa a fronteira entre as piadas inocentes e as culpabilizáveis?”

“Pede-se apenas que o Estado não seja tão rabugento, como um pai mal-humorado.”

“viram a casaca tão depressa: mal lhes concedem liberdade de imprensa, querem logo a censura.”

“não sois tão grandioso como um criminoso”

“na culpa está o valor de um homem.”

“O contraste precisa, antes, ser agudizado.”

“A nossa fraqueza não consiste em estarmos em oposição a outros, mas em não o estarmos de forma plena, i.e., em não estarmos totalmente separados deles”

O último e definitivo contraste, o do único contra o único, está, de fato, acima daquilo a que se chama ‘contraste’.”

159: as passagens apropriáveis pelos fascistas

“O crepúsculo dos povos e da humanidade será o advento da minha aurora.” “O povo morreu.—Viva eu!”

Em 1850 a Alemanha celebrava 1000(?) anos.

“O Constitucionalismo (…) é o Estado em vias de dissolução.”

“Se o erudito não tem particular interesse na situação do Estado, terá de se ocupar dele, só porque esse é o seu ‘mais sagrado dever’? Desde que o Estado satisfaça os seus desejos, ele não tem razão para se desviar dos seus estudos. Que se ocupem disso os outros.”

“Proudhon poderia ter poupado muito de sua retórica patética se tivesse dito: há certas coisas que só pertencem a alguns e que nós, os outros, agora pretendemos reclamar, ou a que queremos dar caça.”

“Se no mundo nós não podemos libertar-nos de todas as limitações, assim também o não pode a nossa escrita. Mas podemos tornar essa escrita tão livre quanto nós próprios formos livres.”

“Tu próprio só por um feliz acaso ou por caminhos ínvios consegue fazer chegar à opinião pública as idéias que professas no teu livro.” “a liberdade de imprensa estará sempre dependente da ‘ocasião propícia’, e nunca será uma liberdade absoluta”

“O fato de os comunistas e os liberais humanistas esperarem mais do homem que os cristãos não significa que não falem todos a partir do mesmo ponto de vista. O homem deverá chegar ao humano!”

Sobre o pórtico de entrada do nosso tempo não está inscrita aquela máxima apolínea que diz: Conhece-te a ti mesmo!, mas aquela outra que diz: Valoriza o que é teu!

240: a mesma distinção camusiana entre revolução (inútil) e revolta (egoísta)

“Por que razão hei-de eu pensar apenas de modo diferente dos outros a propósito de uma dada coisa? Porque não levar essa diferença de pensamento até as últimas conseqüências, nomeadamente até àquele ponto em que eu não reconheço à coisa o direito a ser pensada, em que penso o seu nada, em que a apago?”

“Feuerbach quer vencer o ‘pensamento absoluto’ de Hegel por meio do ser não-superável. Mas em mim, tanto o ser como o pensamento são superados.”

“em geral o que as pessoas pensam não vai mais longe que aquilo que pensaram os seus professores.”

O tempo todo: da esterilidade do crítico (II Intempestiva).

Falta alguma coisa.

[ARQUIVO] PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA DO DIREITO, a.k.a. Perfídia

Originalmente publicado em 10 de setembro de 2012

“[a filosofia hegeliana] permanece impenetrável” “o mais difícil dos livros de Hegel (…) penosa leitura” O animador prefaciador

“Como se viria a verificar, se há nesta concepção algo de decisivo para que o Direito seja possível como Filosofia do Direito, i.e., para que o Direito se afirme como sujeito ou capacidade formal de pensamento, não poderia ela ter lugar dentro de uma filosofia que se apresente como kantiana.”

“Oscilamos, nos vendavais da opinião, entre a geral irreflexão de um anarquismo informe e os particulares interesses de um estatismo formal.” Orlando Vitorino

“trapaceiros do livre-arbítrio”

“Bem podia Platão ter-se dispensado de recomendar às amas que nunca estivessem quietas com as crianças e incessantemente as embalassem nos braços, como Fichte de querer aperfeiçoar o policiamento das identificações a ponto de pretender que se pusesse nos bilhetes de identidade dos suspeitos não apenas os seus sinais, mas também os seus retratos.”

“o sistema do direito é o império da liberdade realizada” “a liberdade é um dado da consciência em que é forçoso acreditar.” “A representação mais vulgar que se faz da liberdade é a do livre-arbítrio”

“dificilmente se encontrará uma ciência que esteja num estado tão lamentável e de tanto abandono como a teoria do espírito comumente designada por psicologia.”

“A vontade que existe em si é verdadeiramente infinita porque é ela própria o seu objeto e não constitui, portanto, para si nem um outro nem um limite mas, antes um regresso a si.” “Compreende-se assim, quando apenas se fala de vontade livre, que se designa precisamente algo que não é a vontade livre.” = Direito As monstruosidades “individualistas” perpetradas por Hobbes, Rousseau, etc.

“O universal em si e para si é aquilo a que se chama o racional e só pode ser concebido de um modo especulativo.”

“Só o direito do Espírito do mundo é absoluto e sem limites.”

38: sua dialética positiva em detrimento da negativa de Platão&cia.

“A possessão do corpo e do espírito que se obtém por meio da cultura, do estudo, do trabalho, etc., constitui uma propriedade íntima do espírito e não deve ser aqui tratada.”

E MARX APANHA: “Não se pode falar de uma injustiça da natureza a propósito da desigual repartição da riqueza e da fortuna, pois a natureza, não sendo livre, não é justa nem injusta.”

Escravidão e a hegemonia paterna romanos como incompreensão do Direito do Espírito (este eterno, “a-histórico”, burguês).

“a idéia da liberdade só existe verdadeiramente na realidade do Estado.”

“Entre os dois extremos representados pela obra de arte e pela produção mecânica, há todos os termos intermediários, cada qual tendo mais ou menos afinidades com um ou com outro.”

“até que ponto a reprodução de uma obra literária constitui ou não um plágio[?]” “de tal modo se deixou de ouvir a palavra plágio ou roubo intelectual que temos de concluir ou que a honra já eliminou o plágio, ou que o plágio deixou de ser atentatório da honra e desapareceu o correspondente sentimento”

“Não se pode considerar o casamento dentro do conceito de contrato. Foi isso, no entanto, o que Kant estabeleceu e, é preciso dizê-lo, em todo o seu horror.”

“Também a natureza do Estado não consiste em relações de contrato, quer de um contrato de todos com todos, quer de todos com o príncipe ou o governo.”

“a legislação draconiana que pune todos os crimes com a morte”

“O exercício da vingança pelos heróis e pelos cavaleiros andantes é diferente da vingança privada, pois faz parte da formação dos Estados.”

“o direito da liberdade subjetiva constitui o ponto crítico e central na diferença entre a Antiguidade e os tempos modernos.”

“Para os olhos dos ‘criados de quarto psicológicos’ não há heróis, não porque estes não o sejam, mas porque aqueles é que não são mais do que criados de quarto.” Fenomenologia

“O Bem é a liberdade realizada, o fim final absoluto do mundo.”

“olhar circunstâncias [tais quais] a cegueira momentânea, a excitação apaixonada, a embriaguez e tudo o que se chama a força dos impulsos sensíveis como motivos de crime e supressoras da culpa é ofender o direito e a honra de homem do criminoso.” “Se tal acontecesse, o incendiário não passaria de um animal que só precisaria ser abatido.”

“não é possível nenhuma doutrina imanente do dever.”

“Quando o mundo existente da liberdade atraiçoou o seu ideal, a vontade já não se pode encontrar nos deveres em vigência, já não pode reconquistar a harmonia e, perdida na realidade, refugia-se na intrinsecidade ideal.” “o dever pelo dever”

“No mistério está a origem do mal, quer dizer, no caráter especulativo que necessariamente impõe à liberdade de sair da vontade natural e opor-se-lhe como interior.”

Todo homem mau é obstinado.

Sentir-se o tempo todo hipócrita.

“O modo de filosofar que apresenta o conhecimento da verdade como presunçosa vaidade que está para além do círculo do saber que apenas é aparência tem o dever de também na aparência fazer um princípio e assim situar a moralidade na visão do mundo própria ao indivíduo. A degradação em que assim cai a Filosofia, se começa a aparecer ao mundo como alheio acidente que apenas se opõe a um ocioso palavreado, necessariamente acaba por se transformar numa concepção da moralidade, como parte essencial da filosofia” Doravante, “só a convicção é que determina[ria] a natureza moral de uma ação” “já não há hipocrisia nem o mal em geral” “não há crime” “plena justificação”.

“Perdoai-lhes (…) eles não sabem o que fazem em Ética a Nicômaco, a ignorância é o próprio mal. Atavismo: expressão utilizada mesmo contra quem está absolutamente ciente (força de expressão).

“Constituição do Estado, que é o fim e a realidade em ato da substância universal e da vida pública nela consagrada.”

“a linguagem, que é a forma de existência mais espiritual do espírito”

109: da economia política e dos moralistas em contrário

“Em suma, a abstração da produção leva a mecanizar cada vez mais o trabalho e, por fim, é possível que o homem seja excluído e a máquina o substitua.”

“É quase sempre na juventude que o indivíduo primeiro se revolta contra a idéia de se decidir por uma classe particular, que considera como limitativa da sua vocação para o universal e como exigência puramente extrínseca. Essa revolta está, porém, ligada ao pensamento abstrato, preso ao universal ainda irreal, que não sabe que, para existir, o conceito se introduz na diferença entre o conceito e a realidade e, portanto, na determinação da particularidade”

“Sabe-se que o direito nacional inglês, ou direito comum, está contido em status (leis formais) e numa lei que se chama não-escrita. Mas esta lei não-escrita está tão bem-escrita como qualquer outra e nem se pode ter conhecimento dela senão através da leitura de numerosos in-quarto.”

“Recusar a uma nação culta ou à classe dos juristas capacidade para elaborar um código seria o mais grosseiro insulto que se poderia fazer a essa nação ou a essa classe”

“O aspecto da moral subjetiva e os imperativos morais, que só pela sua subjetividade e individualidade próprias se ligam com a vontade, esses não podem constituir objeto da legislação positiva.”

“Pode-se, por um lado, esperar de um código público regras gerais simples mas, por outro lado, a natureza da matéria finita conduz a determinações sem fim. O volume das leis deve constituir um todo fechado e acabado; mas há contínua exigência de novas regras jurídicas. Ora, esta antinomia desaparece com a especificação dos princípios universais que permanecem imutáveis”

…por quanto tempo?

“no direito privado, a exigida perfeição constitui uma aproximação perpétua”

Direito Alemão, segundo Hegel, pressupunha-se finalizado/ideal.

PREVISÃO—OU CONSTATAÇÃO—DE ALGUNS EFEITOS MALÉFICOS DA SOCIEDADE DO TRABALHO. PARECENDO UM AUTOR MARXISTA! “apesar do seu excesso de riqueza, não é a sociedade civil suficientemente rica, i.e.: na sua riqueza, não possui a sociedade civil bens suficientes para pagar o tributo ao excesso de miséria e à sua conseqüente plebe.”

Também estudou as condições no Reino Unido. Segundo H., não são eficazes um grande aparato beneficente, asilos e pensões: o melhor mesmo é tolerar certo nível de mendicância.

127: colonização

“os hindus, que se negaram às navegações, todos voltados para si mesmos e mergulhados nas mais horrorosas e desprezíveis superstições.” “as grandes nações procuram o mar”

“a vontade do fim pensado como existente em si e para si.”

Algo mais do que a simples soma das vontades individuais.

“O sentimento político, o patriotismo em geral, é como uma certeza que se funda na verdade e é o querer transformado em hábito.”

“a religião pode assumir formas tais que conduzem à mais dura escravidão nas cadeias da superstição e à degradação do homem abaixo do animal (o que acontece entre os egípcios e os hindus que veneram os animais como seres superiores).”

186: remeto ao “não-pagamento dos impostos para auto-exclusão do Estado” Hegel, na nota 7, refuta concepções anti-semitas.

“A evolução da idéia tem mostrado,”

“evolução orgânica, única digna do Espírito.”

“É um milagre (…) que não haja vergonha ainda em falar de constituição política.”

“Nota—O aperfeiçoamento do Estado em monarquia constitucional é obra do mundo moderno e nela a idéia substancial atingiu a forma infinita.”

“é essencial considerar a constituição como algo de incriado, embora produzido no tempo.” “divino e imutável”

“Cada povo tem a constituição que lhe convém e se lhe adéqua.”

“Sem o seu monarca, e sem a articulação que imediata e necessariamente dele provém, o povo é uma massa informe, deixa de ser um Estado e não possui qualquer das determinações que existem no todo organizado” “unidade decisiva de um iniciador”

“Pode-se ver no demônio de Sócrates o início do movimento que levaria a vontade a deslocar-se do além para si mesma e a conhecer-se no interior de si mesma.”

A hereditariedade do trono é dogma inquestionável. “o Império eletivo é a pior das instituições.”

“Não é pela personalidade natural e pelo nascimento que os indivíduos estão destinados às funções governamentais. Para que o estejam, intervém o elemento objetivo representado pelo exame e pela prova da sua aptidão.” “Com efeito, aqui o aspecto objetivo não reside no gênio (como, p.ex., acontece na arte.”

“necessariamente se dará a indiferença pelo sufrágio, que terá um aspecto insignificante para a massa e, embora se apresente o direito de voto como algo de muito elevado, os eleitores não comparecerão ao escrutínio.”

“Um grande espírito (Frederico, o Grande) submeteu um dia ao exame público este problema: ‘É permitido enganar o povo?’.”

170: a guerra; “a coragem mecânica”.

“A concepção kantiana de uma paz eterna assegurada por uma liga internacional que afastaria todos os conflitos e regularia todas as dificuldades como poder reconhecido por cada Estado, assim impossibilitando a solução que a guerra traz, supõe a adesão dos Estados” “a história do mundo como tribunal do mundo” “os momentos da razão”

VOILÀ! “Para os que não aceitam este pensamento [a perfectibilidade na educação do gênero humano], o espírito é uma palavra vã e a história um jogo superficial de paixões e resultados contingentes tratados como simplesmente humanos.”

“trânsito ao grau superior”—Roma, península ibérica, Amsterdã, Paris, Londres, Washingtom e Moscou, Pequim…

“A evolução particular de um povo histórico contém o desenvolvimento do seu princípio desde o estado embrionário até a sua defloração; aí, chegado à consciência de si objetivamente moral e livre, entra na história universal. Mas aquela evolução contém também o período da decadência, pois deste modo a aparição de um princípio superior nele se manifesta com a simples forma de negação do seu princípio próprio. Assim se anuncia o trânsito do espírito para o novo princípio, o da história universal para um outro povo.”

Estamos no círculo da história do homem. E eu não estou acima.

QUATRO IMPÉRIOS HISTÓRICOS: o oriental, o grego, o romano e o germânico. HA-HA. (o último, a “realidade legal”)

(1) “Neste conjunto [sequer internamente distinguível], a personalidade individual desaparece sem direitos, a natureza exterior é imediatamente divina ou um ornamento de Deus e a história da realidade é poesia.”

(2) “o espírita torna-se medida e claridade na beleza e na moralidade da liberdade e da alegria.” indivíduos pela 1ª vez + “casas de escravos”.

(3) vida privada e pública; “saturnificação da vida moral”; “arbitrariedade abstrata levada até a monstruosidade”.

(4) “consciência de si” “princípio nórdico”—ora, e ainda se reclama da apropriação pelos nazis!

[ARQUIVO] AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO

Originalmente publicado em 26 de agosto de 2012

“Essa intromissão da arte na ciência, que impede que esta se desenvolva, é aliás facilitada pelas circunstâncias mesmas que determinam o despertar da reflexão científica.” Engraçado como Durkheim aproxima a Arte do utilitarismo (reconfortante para o ser humano)!

29: os limites da “sociologia” (filosofia social) comteana

O MONOLITO DA SOCIOLOGIA: tudo o que é sólido perdura.

“no dia em que esse princípio do método sociológico for unanimemente reconhecido e praticado, veremos a sociologia progredir com uma rapidez que a lentidão atual de seu desenvolvimento não faria supor” Melindrado com o maior reconhecimento haurido pela psicologia.

Se Descartes é o fundador das ciências modernas, precisamos cancelar o progresso e refazer tudo de novo.

“A ciência pode muito bem iluminar o mundo, mas ela deixa a noite nos corações; compete ao coração mesmo fazer sua própria luz.”

“Em circunstâncias nas quais um homem não sofreria, acontece ao neurastênico experimentar uma sensação de gozo cuja natureza mórbida é incontestável.”

“seja como for, só se pode superar a ciência apoiando-se nela.”

“fazer o inventário de todas as características de um indivíduo é um problema insolúvel”

“e teremos a ocasião de expor um dia (…)”

“O Japão pode vir a incorporar nossas artes, nossa indústria, até mesmo nossa organização política; nem por isso deixará de pertencer a uma espécie social diferente da França e da Alemanha.”

“is pater est quem justae nuptial declarant” : é pai aquele que as núpcias indicam

“toda vez que um fenômeno social é diretamente explicado por um fenômeno psíquico, pode-se ter a certeza de que a explicação é falsa.”

“Uma pressão aceita e suportada de boa vontade não deixa de ser uma pressão.”


SOCIOLOGIA NEGATIVA (um guia de como não fazê-la)

Estado—Lula na Crista da Onda

carguinhos e cargões

por onde esperamos obter a salvação?

meus dilemas pessoais dependem de morfina

talante indifferent


Stuart Mill, essa cabeça estranha, misto de sociólogo, economista, filósofo, moralista.

87: historiadores e etnógrafos na periferia da “ciência dura”

[ARQUIVO] A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS — João do Rio

 

Originalmente publicado em 12 de junho de 2012

« Je suis la rue, femme èternellement verte »

“Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam.”

“o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos”

“Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas.” “O flâneur é o bon-homme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.” “…acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio.”

Quem há de pensar que vi este menino a engatinhar!

E as ruas sem nome, ou de nome-nº? Ou ruas não-ruas?

“A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias.”

“eubá, o esperanto das hordas selvagens”

“Os malandros e os garotos de uma olham para os de outra como para inimigos.” São cães infantes marcando território!

“homem-sandwich é o infeliz “cartaz ambulante”, metido num panfleto, a divulgar alguma marca ou ideologia na rua.

“O Esgoto a Céu Aberto na Sua Rua” “É quase sempre na rua que se fala mal do próximo.”

“A palavra tatuagem é relativamente recente. Toda a gente sabe que foi o navegador Loocks que a introduziu no ocidente, e esse escrevia tattou, termo da Polinésia de tatou ou totahou, desenho. Muitos dizem mesmo que a palavra surgiu no ruído perceptível da agulha na pele: tac, tac. Mas como é ela antiga! O primeiro homem, decerto, ao perder o pêlo, descobriu a tatuagem.” Crianças de 10 anos que sabem “marcar”, i.e., agulhar. “Pelo número de coroas da Monarquia que eu vi, quase todo esse pessoal é monarquista.”

Eu detesto tanto meu sinal no queixo

que a barba bem grande aí eu deixo

“É como um poeta sem emprego diante de um oligarca estadual”

Algumas rezas pudicas mais parecem magia negra!


Nós somos animais

Para o bem ou para o mal

para o mal, creio que é mais


“Cada sujeito desses pode passar a vida bem. As livrarias vendem baratíssimo os livrecos procurados. Em cada um, os vendedores ganham, no mínimo, 600%.” Sem falar na qualité dos volumes! “Só esse Carlos Magno tem causado mais mortes que um batalhão em guerra.”

“O testamento da pulga, do mosquito ou da saracura, não seria para fazer rebentar de riso os mortais, nem mesmo agora, neste mortal período de desinfecções e higiene à outrance.”

“Se nas obras populares aparecer alguma coisa de novo, com certeza teremos tolices maiores que as anteriores…”

“Era domingo, dia em que o trabalho é castigar o corpo com as diversões menos divertidas.”

“os prodígios do gramofone—essa maravilha do séc. XIX, que não deixa de ser uma calamidade para o séc. XX”

Tocador de realejo—há profissão mais mecânica dentro da arte?

“Uma sanfona faria Harpagon generoso e Lady Macbeth boa.”

“Herófilo pretendia que as pulsações das veias se fazem de acordo com o ritmo musical.”

“Há talvez em outras terras, mais gastas e mais frias, a miséria dos músicos ambulantes, sem fogo, sem pão, caindo sob a neve, depois de uma dolorosa vida.”

Mais uma testemunha de fim dos tempos gloriosos, bem à Levi-Strauss.

Tantas expressões sui generis… Parece até um outro idioma! Ex: cordão—o trio elétrico da época; camisa de meia—regata.

No princípio pensei que seria uma apologia idiotizante, mas é um autor tão ranheta quanto eu!

Quem diria: o Carnaval do Rio já era, e sem o samba! Só três dias de folia? Nem pensar!

“Ora, este país é essencialmente poético. Não há cidadão, mesmo maluco, que não tenha feito versos.” “São uns animais! Este país está todo errado. Há mais poetas que homens. Eu, governo, mandava trancafiar metade, pelo menos.”

“canção e lei eram a mesma palavra entre os helenos.”

Cerne do livro: a modinha, versos/cancioneiro popular que não pode ser considerado arte (tanto que não se conservam seus autores). De certa forma, se assemelha aos dizeres de Schopenhauer sobre a Música. “a musa da urbs”

“e esse estranho Álvares de Azevedo, o único genial do bando romântico, o único predestinado como os grandes vates, o único que no choro de praxe desamargurado de estilo tinha o soluço presciente de uma tumba a abrir-se, o único que conservava no torvelinho das paixões uma alma de rosa cujo perfume desejava o céu, o único que hoje, amanhã, ninguém lerá sem sentir o soluço, o travo da morte, o ai! das agonias e a tristeza que nos causa o desaparecer de um astro, o murchar de uma flor, o tombar de um pássaro cujo breve cantar não passou de uma alegria em torno do próprio ninho…”

“Os grandes poetas não fazem mais versos para toda gente (…) e os vates são parnasianos, são simbolistas, procuram a forma sensível e a essência oculta.”

“Outrora ela bebia para cantar. Agora canta para beber.”

“Dudu das Neves canta apenas as suas obras.” O youtube o desmente, João!

“O sucesso e a popularidade de Santos Dumont são devidos menos aos seus trabalhos de aviação que ao ter causado a admiração de Paris.”

“Vós me pedis, suponde, que eu faça a poesia para certa música. Crede que eu, imediatamente, sem mais reflexão, empunhe a pluma e a vaze do papel? Não. Há algumas dessas músicas que me fazem levar horas inteiras a interpretar-lhes os sentimentos, os queixumes, as mágoas de que sofrem os seus autores.” Catulo, Poeta da Calçada.

109: a hilária modinha sobre a peste bubônica


GLOSSÁRIO:

flanar: vadiar “é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, levado pela primeira impressão”

nefelibata: avoado; homem das letras que está sempre no mundo da maionese; escritor sem-estilo que não sabe conectar idéias e só diz disparates.

[ARQUIVO] VONTADE E REPRESENTAÇÃO

Originalmente publicado em 31 de maio de 2012

Sonhos em que me suicido… Eu e “meus outros 6 eus” finalmente chegando a um consenso na tórrida sala do júri interno? Até a ocasião do suicídio teria antes de cair do céu. Ou antes para o suicida—ou somente um tipo de suicida?—se trata sempre de achar essa hora para finalmente ser-se? Oportunistas. Isto é: ou não sou, nem nunca serei, não tenho sangue de suicida; ou todos os suicidas são tão covardes e apegados à vida quanto eu, exceto por um curto lapso, que não acontece com todo mundo.

Não pode ser que em um ano, digamos, tenha havido uma reformulação drástica de juízo! Ou que eu esteja contemplando esse musgo da árvore descascar… Mas deixemos de superstições e falemos do que sabemos! Qual seria o sentido, hoje, de um tal ato (tentando não ser hipócrita)?

O medo da decadência é tão forte que eu escolha selar o anel desde já, sem atender à curiosidade?

Do ângulo da infância: irremediável—tudo é ressignificado—até jogar videogame é chato e enjoa…

Arrependimento—os 24 anos que não voltam mais… Os “apesares de tudo” vindo na contramão…

Para o morto não interessa tanto o desfecho em si—mas o opróbrio causado pelo ato, que não pode ser mais que intermediário… Mesmo sem céu nem inferno não é possível ser mesquinha/maquinalmente um existencialista! Não dá para subtrair as conseqüências—parece que esse era o objetivo do suicídio… Do que adianta suprimir a dor se ela não será suprimida? “E do que adianta não suprimir”? O que é dar 360º na vida? Alguém sabe quando está no grau 0 ou “princípio da viagem”? Cabe-lhe receber e passar um bastão…

Qual é o Destino do Destino? Vagar…

O gorila chamado vida ainda não me soltou. Me sinto a loira do King Kong. Algum avião à vista?

Tenho ainda muita vida para trás!

Lembrancinhas do amanhã

E qual dúvida não é cruel?

Nós não sabemos

Toda vez que sentir vontade de se matar, durma…

* * *

DOS SEIOS REDONDINHOS

Pode falar

se seus peitos já

estiverem a

poucos centímetros

dos meus

*

Arfando, cintilantes

galantes, saltando

comprimidos

com pressa

*

De virem

subirem

às alturas

frontes duras

*

Bicos feitos

de âmbar

se excitam

– nos lamba!

* * *

Se Sísifo fosse condenado a rolar sobre uma pedra, seu sofrimento seria o mesmo.

Que se dane fique

O real filosofar é ser um bocadinho charlatão, já que tudo aqui é provisório e inútil, sem solução, sem resposta, sem folha corrida de serviços e sem currículo—filósofo competente é uma contradição em termos! O equivocado num quadro é sempre o mais certo no curso dum rio…

BUDISTA, em poucas palavras: o ateu inteligente.

Dez por cento do cérebro acham que só 10% do cérebro são utilizados. Talvez por percebermos o quão somos burros é provável que utilizemos 100% dele.

Principalmente o inconsciente quer dar cambalhotas. Deu para se mutilar—chilique de criança. Sabendo, com toda a carga, que não pode fazer isso, só representar assustadoramente. Uma rebeldia tal a essa altura? Os pontos corridos do devir se aproximam do, ou já estão no, returno. A ânsia pelo impossível. Vontade de exagerar um evento banal/não-evento. E ainda assim nem sabe o que é fazer hemodiálise, o capeta!

Goma de (ma)daga(scar)

Quando eu era pequeno tendia a querer demonstrar meu apreço a deus (ou nem tanto o apreço ao divino, mas a rejeição a Satanás) por uma abstração de duas colunas de “força” ou “energia”, uma azul e outra vermelha, uma que subia incessantemente na maior das velocidades, a outra que descia e rebentava os subsolos, e perfurava os infernos, e atravessava a imensidão do cosmo no sentido negativo, denotando queda de poder e derrota, cada vez mais fraca em contraste com a outra coluna, pujante. Ambas as colunas não podiam jamais chegar a seu destino—o caminho era só um reforço infinito, havia a necessidade de ser percorrido, de aparecer, não podia ser absoluto, tinha de ser uma quantidade dada, expressa em números, mas dentro de um invólucro para o qual não havia limites—o quanto era difícil para uma criança e continuará difícil para um adulto imaginar isso!

* * *

Em quantos anos o senso progressistóide terá sido perpassado? Isto é, quando mais ou menos será flagrante que a técnica, a tecnologia, não só avançam? Quando cessará de haver “melhores computadores e veículos”? A Idade Média tem má reputação porque neste período da humanidade não houve uma modernização, quão óbvio e irônico! Ferramentas mais simples, desmantelamento burocrático… Uma visão menos carregada (positiva ou negativamente) do futuro.

[ARQUIVO] O RIDÍCULO DA CLT

Originalmente publicado em 24 de julho de 2012

A introdução ou “Exposição de Motivos” da Consolidação das Leis do Trabalho, decreto de 1º de maio de 1943, em pleno getulismo, é um dos documentos mais estapafúrdios e risíveis da História legiferante brasileira. Acompanhe dois trechos (e antes que eu esqueça—o autor é Alexandre Marcondes Filho, grave esse nome!) demagógico-bajuladores da carta logo de cara:

“Durante quase um ano, em longas reuniões diárias entregaram-se à tarefa complexa e ilustre, com uma dedicação e um espírito público que bem demonstram o patriotismo que os inspirou. Desejo, por isso, antes de mais nada, e perante Vossa Excelência, patentear o meu reconhecimento e a minha admiração por esses notáveis colaboradores da obra ministerial.”

“A Consolidação corresponde a um estágio no desenvolvimento do progresso [sic—se bem que nossa bandeira faz apologia do ‘progresso estático’; bem como o mundo anda falando de desenvolvimento sustentável ou zero (!?)] jurídico. Entre a compilação ou coleção de leis e um código—que são, respectivamente, os momentos extremos de um processo de corporificação do direito—existe a consolidação. A Consolidação representa, não um ponto de partida, mas a maturidade de uma ordem social.”

O Brasil está maduro. Não poderia estar se não houvesse intelectuais à altura da “missão universal”. O que é a CLT? Nada menos do que leis trabalhistas, empregadas unanimemente Estados afora. Não com fins humanitários, deve-se deixar bem claro, mas apenas para que “a realidade e a filosofia do novo Direito”, para seguir com Marcondes, não sejam devastadas ou que sequer um perigo ou ameaça de tal ocorrência venham a espreitar de uma esquina distante ou cintilar no horizonte. Como se esses homens engravatados, mui bem-alinhados ou togados estivessem fazendo um favor, concedendo uma dádiva! E além do mais, não haveria prejuízo em publicar o tal proto-código (não sabemos realmente a diferença entre um conto infantil, um apanhado de leis e uma Constituição ou Código de aplicação distorcida e falha!) sem considerações prolixas e metalingüísticas, para não dizer auto-promocionais, contrastantes com a pretendida aura de “objeto atemporal” da peça, que em seis décadas já exibe sinais de sua caducidade e esclerose (e de todo modo, se já chegamos a um ordenamento social pleno, essa tal missão humanitária não seria o corolário da redundância?).

Tal glosa pueril, disfarce com belas e taxativas expressões, só irrita ainda mais o trabalhador brasileiro [essa expressão quase fere meus próprios ouvidos, se me leio em voz alta, tamanho é o emprego do binômio nos discursos mais vis imagináveis!] que, não bastasse ter de ser em quase todos os casos pobre e sem ter onde cair morto devido à especulação imobiliária, tem de suportar um Pai passando a mão em sua cabeça e o consolando: “É pelo seu bem!”. Porque se de bem-intencionados está repleto o Inferno, a biblioteca do lugar não é menos habitada por volumes e calhamaços similares a este aqui!

Para fechar, outras aspas que intermedeiam os ditames inócuos do sr. Marcondes e que são o acme de seu estilo-nada-estiloso e de ultimada decadência jurídica, que apela ao populacho e ainda tenta preservar ares aristocratas, apesar de tudo:

“vigorosa consciência sindical—prova plena de um regime social já radicado”, “evidenciando-se, do contraste de interesses, sob a luz de um pensamento público de bem comum [que ele pressupõe], a fórmula de composição harmônica das forças do capital e do trabalho [sem dúvida é bem harmônico puxar uma enxada, e a cara preta e cheia de fuligem do minerador ou do garimpeiro é simplesmente poética!].” “O que importa salientar é ter havido a preocupação dominante de subordinação às leis preexistentes [onde as faces de Janos não deixam mentir—um país que se quer modificar em todos os aspectos, porque é a encarnação da injustiça, ao mesmo tempo tratado como ‘pronto’, ‘maduro’, cujas Leis já são a ‘raiz’ do amanhã perpetuamente ligado ao ontem, ontem que se abomina! Resumo: já vivemos no Paraíso, e a quem discordar, a degola!]”, “sentimentos de humanismo cristão [na mais laica das constituições conhecidas] que encheram de generosidade e de nobreza os anais da nossa vida pública e social [comovente, mas não gostaria que mexessem nos meus anais!]”, “prefácio admirável da obra monumental [de lado com a falsa modéstia!]”, “documento resultante da instituição do gênio [Leonardo da Vinci voltou à vida só para assinar embaixo]”, “a carteira profissional, a primeira manifestação de tutela do Estado ao trabalhador”, “a ordem institucional prevalece”, “aniquilamento da juventude [um toque de drama é sempre bem-vindo, mas calma: você ainda não viu tudo!]”, “nesta hora dramática que o mundo sofre [havemos de perguntar quando ele está descansando de seus clímaxes de tensão e horror—até hoje, de Heródoto a Hobsbawm, nenhuma pista] (…) na escureza que envolve a humanidade, representa a expressão de uma luz que não se apagou”. Só espero que não me mande essa conta de luz, amigo!

[ARQUIVO] DA MITOLOGIA DOS DESENHOS ANIMADOS

Originalmente publicado em 27 de junho de 2012

Muito já se falou e ainda se fala a respeito do maniqueísmo. Muitos o consideram a única forma aceitável ou pelo menos a mais moral das maneiras de ensinar às crianças sobre conflitos interpessoais. Nos desenhos animados, versão do século XX para os contos de Charles Perrault ou dos Irmãos Grimm, a luta do Bem contra o Mal é encontrada sem disfarces ou maquiagem, em sua encarnação mais crua e plena. O Bem sempre vence o Mal. Uma parte da crítica se irrita com a invariabilidade desse roteiro e chega a fazer troça da ingenuidade da peça em questão. Pedagogicamente falando, como a função dos desenhos é em parte entreter e em parte moralizar, o objetivo é atingido com perfeição. Nuances como vilões que se redimem de seus erros passados ou de mocinhos que flertam com o “lado negro” da estória servem para temperar, apimentar, gerar expectativa, mas não transgridem as normas de forma decisiva.

Em defesa da sabedoria dessa tática (não em favor dela, num primeiro momento, mas tão-somente reconhecendo sua expertise), devo refutar aqueles que consideram esse modelo didático de expor conflitos e a complexidade humana como insípido, pueril e, em conseqüência, até mentiroso, o que desqualificaria os desenhos animados como fonte moral, uma vez que “quem mente não tem o direito de ensinar que não se deve mentir”. Todavia, sou obrigado a discordar. Nada mais “justo” ou, eu diria, realista do que uma estória maniqueísta saída do forno para o público jovem: como instâncias puramente relativas, o Bem e o Mal são definidos por aquele que conta, narra os fatos. Dado que o Bem sempre vence, é daí mesmo, por tabela, que ele é chamado Bem. O Mal não perde a disputa porque “é mal”, mas se torna o mal porque perdeu a disputa! Quando chega a era de sua exibição para o público, o desenho está produzido, está finalizado: quando o narrador começa a expor os acontecimentos, geralmente algum mal-entendido que vai gerando conseqüências cada vez mais graves, até o ponto de se tornar insustentável e exigir a interferência dos heróis, apesar de não o revelar, ele sabe como as coisas terminam. E foi depois de elas terem terminado que se batizou o lado vitorioso de Bem e o time perdedor de Mal. O vitorioso é o detentor da verdade e do discurso. Monopoliza a informação.

Se Shishio, da produção oriental Rurouni Kenshin, tem como lema “Só os fortes sobreviverão”, e em seguida é derrotado pela coalizão das forças de Himura – O Retalhador, Sanosuke Sagara e Saitou, isso não significa que sua afirmação estava errada, mas que simplesmente ele não era o mais forte, afinal. “Mas se muitos fracos se unirem, eles podem ganhar do forte; além de se utilizarem de sentimentos nobres nas horas críticas, como o amor”, redargüe-se. Procedendo ao estudo de caso da batalha entre o aspirante a ditador do Japão na era da Segunda Revolução Industrial Makoto Shishio contra os defensores do regime então em voga, verifica-se que Shishio possuía todos os atributos que poderiam defini-lo como mocinho, ou “do Bem”, desde que ele se sagrasse o vencedor do duelo mortal: tem um passado no qual foi vítima, “inocente”, de circunstâncias que o fizeram se fortalecer e buscar motivação; tem ele mesmo uma cara-metade, diante de quem sacrificaria todas as suas moedas (se ele acaba por fazer o contrário e utilizar sua amada como “escudo” entre ele e Himura, podemos alegar que o “amor pela causa” acaba por se mostrar maior que esse amor romântico – e como a própria mulher assentiu, ela também vivia pela meta de Shishio; na prática eles tinham pactuado, ambos compartilhavam da mesma meta, que transcendia a própria vida do casal); por fim, Shishio também tem seu séquito de seguidores, que ajudam a debilitar o elenco de heróis em combates prévios ao principal. Além disso, por mais que centenas se unissem para atacar Shishio, nenhum exército poderia derrotá-lo (como se vê em muitos desenhos animados, aliás): apenas Battousai, o alter ego de Kenshin Himura despertado quando ele está em seu limite de estafa física, detém a técnica especial que pode superar Makoto. E assim se sucede: os três guerreiros voltam para casa, Shishio morreu na explosão da própria base e seu plano de utilizar o petróleo para enriquecer sua nação foi por água (preta) abaixo… Mas se ele vencesse, não podemos afirmar que o mundo ganharia em brutalidade ou que de suas mãos não passaria a depender a felicidade de milhões de pessoas! Só que desde o início o narrador (o autor da estória, em última instância) já sabia a qual fim os envolvidos estavam destinados, então todos os personagens do lado do Bem apresentavam desde antes, dos primeiros capítulos, uma certa aura que justificaria suas futuras ações, fossem elas quais fossem. Os próprios bonzinhos, de vez em quando, sucumbem a dilemas éticos, nos quais têm de decidir “pelo menor de dois males”: nem todas as vidas podem ser salvas. Esse é o preço que o mundo paga pelo triunfo do Bem, que só pode se dar mediante a existência do Mal.

Apocalipse, dos X-Men, se comporta de forma parecida: considerando-se acima dos mutantes e dos humanos, como uma evolução dos primeiros (sendo os primeiros já uma nítida evolução dos segundos), arroga-se o direito de conquistar ou mesmo destruir todo o universo. Sua superioridade nos combates é mesmo extremamente óbvia. Mas se deixa de cumprir seus desígnios, invariavelmente, e devido a uma soma de coincidências e quase que milagres, é porque ele era o Mal, incapaz de vencer, já que a estória já estava escrita, e é contada pelo Bem. “Eu sou o poder!”, diz Apocalipse – O Imortal e Atemporal. Porém se depara com poderes montesquieusianos que conseguem freá-lo: no fim, é mais um fanfarrão que fala mais do que cumpre!

Hitler foi apenas um fraco com pretensões megalomaníacas, rezam os livros de História. Deus é o que é menos por ser o Bem do que por ser aquilo que não se pode bater, o dono dos discursos e criador das regras do jogo. Sendo assim, as crianças não estão sendo iludidas por um método pedagógico barato: já podem saber de antemão que apenas o mais forte sobrevive, porque ele é o Poder, ele é o Bem, autolegitimado.

[ARQUIVO] O SEGREDO DA LONGEVIDADE

Originalmente publicado em 4 de junho de 2012

O perfil da banda norte-americana Metallica, que completa 31 anos em plena forma

Bay Area, Los Angeles, Califórnia, costa oeste dos Estados Unidos. Maio de 1981. Lars Ulrich, baterista de ascendência dinamarquesa, participando da efervescência cultural da cidade, decide deixar de ser mero expectador e colecionador de fatos e informações para mergulhar de cabeça na agitação noturna como membro de uma banda. O rock ‘n’ roll – e mesmo o hard rock, bastante explorado nos anos 70 – tornava-se “coisa do passado”: ainda que os jovens bebessem da fonte e fossem influenciados por Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin e Mötley Crüe, o peso, a velocidade, o timbre e o tom precisavam de novo fôlego, de ser expressos, recriados, sob uma nova forma. Tempos mais agressivos e extremos precisavam de uma música que os refletissem melhor. Que espelhasse a angústia da nova geração, filhos da ressaca do Vietnã, os sobreviventes do auge das drogas (que nem todos puderam se gabar de vencer, como Jimi Hendrix e Janis Joplin). O novo barato musical (metafórico) seria diferente, mais sutil na proposta, mais arrasador por dentro…

Os novos expoentes de um tipo engajado, sério e ao mesmo tempo mais furioso de som ficaram conhecidos como os fundadores do thrash metal (termo que designa “pancada”, “baque”, ao mesmo tempo que solidez, frieza e permanência). Suas características básicas são seqüências rítmicas velozes e “quebradas” de guitarra, bateria seca e complexa, além de vocais rasgados, embora haja exceções. O figurino e a postura da banda (e dos fãs), pelo menos nos shows, são escolhidos a dedo. As letras das canções são de cunho pessimista, escolha que não deve ser confundida com uma pá de cal impiedosa jogada sobre as esperanças humanas, mas tão-somente uma forma à altura de revidar as agruras da vida: através do ataque e da revolta. Ataque a instituições seculares e discursos socialmente estabelecidos. Atmosfera apocalíptica, reflexão sobre a condição do indivíduo imerso em decadência política e preconceitos disseminados pelas classes dominantes. Sobretudo, o thrash metal era um grito cavernoso de descontentamento em relação a noções de cultura e estética até então em voga, claramente ultrapassadas.

O Metallica foi a grande banda-quarteto (com duas guitarras, sendo que um dos guitarristas acumulava a função de vocalista) do movimento thrash metal, estilo que embora ainda vivo em 2012 teve seu ápice nos anos 80 e se disseminou por vários países (inclusive o Brasil), depois de um começo explosivo na costa oeste dos EUA. A Califórnia sempre foi conhecida como o celeiro de vanguardas exóticas, muito devido à constituição peculiar da população do estado: nesta porção de terra ianque, as minorias, somadas, formam a maioria, e os princípios constitucionais de Liberdade e Fraternidade ganham sentido prático.

Resta que contemos como o jovem Lars Ulrich (então um menor de idade) conheceu James Hetfield, com quem estabeleceu grande amizade, e ao lado de quem selecionou cuidadosamente os outros dois membros do Metallica entre os músicos mais talentosos e irreverentes da cena.

A formação original do Metallica era: James Hetfield, Dave Mustaine, Ron McGovney e Lars Ulrich. Este último anunciou nos classificados que queria montar um quarteto de metal, em suas palavras, “sério”. Na época, o expediente de procurar gente com interesses afins através de seções interativas dos jornais locais era bastante comum. James foi o primeiro a responder ao anúncio. Com alguns amigos improvisados nos outros instrumentos, a protobanda (ainda sem nome) chegou a ensaiar em esparsas sessões e até gravar um cover (canção de outro artista) para uma coletânea de bandas incipientes da região, lançada em fita K-7. Todos se conheciam em Los Angeles, e Ulrich tinha facilidade em convencer os melhores contatos a abrir portas e em pescar oportunidades. No entanto, como quase todo músico do circuito já compunha outra banda, era complicado achar sujeitos ao mesmo tempo disponíveis e competentes. Foi após meio ano juntos que James Hetfield e Lars Ulrich conheceram um talentoso e problemático guitarrista chamado Dave Mustaine. Veio a gravação da primeira música, Hit The Lights, ainda com uma formação deficiente. A essa altura o nome Metallica já havia sido escolhido, por sugestão de um dos amigos de Ulrich, mas nas demos com compilações de bandas de metal californianas que se espalharam pelo cenário underground o nome foi impresso errado, com um “t” a mais…

De qualquer modo, o surgimento de um grupo de moleques ensandecidos, técnicos e ambiciosos (na época com 15, 16 anos) virou notícia e um baixista não tardaria a aparecer para completar o time. Com Ron McGovney, o Metallica gravou seu primeiro EP individual, “Power Metal”. Ao participarem de um evento num clube noturno, porém, descobriram um baixista várias vezes mais promissor, do grupo Trauma. Como McGovney não era verdadeiramente querido entre seus pares nem tecnicamente indispensável ou excepcional, foi demitido sem cerimônias. Sua estada no Metallica foi curtíssima!

O tal novo baixista de encher os olhos, por quem os outros três do grupo quase cometeram uma loucura, Clifford Burton (mais conhecido pelos futuros fãs apenas como Cliff), impôs algumas exigências e criou dificuldades até se tornar um músico do Metallica. Ele estava ansioso e assustado, pois não queria abandonar os companheiros do Trauma e trair suas origens, embora soubesse que sua habilidade incomum com o baixo cedo ou tarde lhe abriria convites e possibilidades inéditas, que ele contraditoriamente aguardava e rechaçava, por pudor ou insegurança. Por fim, Cliff cedeu e entrou oficialmente para o grupo. Já estávamos em 1983.

* * *

Os “moleques” aprendiam rápido e já tinham bagagem para lançar o primeiro vinil (o mesmo que um EP, mas com o dobro de músicas). Só não tinham o dinheiro. James, órfão de mãe, havia sido praticamente expulso de casa pelo pai, cuja religião não permitia um comportamento tão imoral quanto “montar uma banda de rock” por parte de um filho! Ulrich era o único abastado do quarteto, mas seu pai se decepcionara quando o rebento trocou uma brilhante carreira como atleta de tênis de quadra para se dedicar a um instrumento musical esquisito e barulhento e a incertezas e puerilidades juvenis… Os garotos chegaram a cruzar o país de ônibus, sem dinheiro para comer nem pagar diárias de hotel em Nova York, tudo a fim de tentar cair nas graças de algum bonado empresário do ramo da música. Depois de levantarem os recursos a duras penas, o “Kill ‘Em All” saiu do papel. Uma série de problemas acompanhou o período de gravação do álbum debutante. O primeiro deles é que o nome inicialmente aventado para batizá-lo (“Metal Up Your Ass”, algo como “Metal pelo seu Traseiro”) foi censurado pela gravadora por conter um palavrão e uma arte de capa considerada “de mau gosto”.

O segundo problema foi de ordem muitíssimo mais delicada: o alcoólatra e principal guitarrista do Metallica, Dave Mustaine, foi expulso do grupo, por consenso, devido a suas contínuas estripulias notívagas. A controvérsia do episódio não está no desligamento de Mustaine em si, mas no fato de que todos os jovens, não só ele, faziam uso abusivo de bebidas alcoólicas. Ao que parece, os outros três colegas foram mudando o jeito e adquirindo maturidade, levando a carreira de forma mais compenetrada, ao passo que Dave Mustaine não conseguiu acompanhar o ritmo. Além disso, segundo relatos de quem viveu essa época fervilhante no cenário da música pesada da Costa Oeste, Dave teria o gênio mais complicado e arredio, perdendo a cabeça com poucas doses de cerveja e provocando brigas. Faixa preta de karatê, Mustaine teria quebrado a perna de um músico de uma banda rival, quando este partira para cima de Lars Ulrich. O próprio Ulrich reconheceu à época que foi uma reação exagerada.

Ao ser obrigado a deixar a banda, o polêmico Mustaine, se possuía uma biografia atribulada, tinha também mostrado como era um artista prolífico. Até hoje se debate o que o Metallica pode ter perdido na área criativa ao ter tido que demiti-lo e como suas idéias ajudaram nos primeiros trabalhos da banda. Dave Mustaine não deixaria de ser creditado por isso, recebendo o seu quinhão pela co-autoria de faixas até mesmo do segundo álbum da banda, “Ride The Lightning”, que seria gravado apenas um ano depois de sua saída. Seja como for, Mustaine seguiria seu próprio rumo, fundando uma banda considerada ao mesmo tempo muito semelhante mas oposta conceitualmente ao Metallica, o Megadeth. Teria vivido décadas produtivas porém frustrado e amargo por dentro, pois apesar de o Megadeth ter feito sucesso, o Metallica o superava em todas as vendas, na proa da indústria fonográfica. Somente nos anos 2000 Mustaine, Lars Ulrich e James Hetfield fariam as pazes, voltando a tocar juntos pela América e Europa (embora cada um em sua banda).

Voltando à cronologia de nossa história, Kirk Hammett foi o escolhido para substituir Mustaine. Embora menos talentoso, Kirk trabalhava com afinco e aprendia as músicas em pouco tempo, além de que tinha um temperamento discreto, que encaixava perfeitamente em uma banda que já tinha dois líderes, pessoas com mais voz nas decisões internas.

Desde o lançamento do Kill ‘Em All o Metallica adquiriu o status de líder de uma geração. A estrutura progressiva e bem-acabada das músicas, aliada a certa dose de ingenuidade e utopia romântica da juventude, como que redigiram, na prática, o manifesto do gênero thrash metal: reuniam todas as características básicas do estilo, e na sua melhor forma, como fica evidente nas faixas “Os Quatro Cavaleiros” e “Caçar & Destruir” (*).

(*) Os nomes de canções em português deste texto são traduções livres (sem compromissos, intentadas pelo autor) dos nomes originais em inglês.

A ascensão meteórica da “mendicância musical” ao estrelato em pouco menos de 2 anos (1982-1984) possibilitou ao Metallica gravar seu segundo trabalho de peso (literalmente) do outro lado do mar, na terra natal do pai de Ulrich, a Dinamarca. Assim como o primeiro disco, esse tocava nas temáticas da morte e da violência, caras à banda durante todo o seu percurso. A capa desse vinil era uma sátira à condenação à cadeira elétrica, na opinião dos compositores uma prerrogativa de que o Estado se utilizava para ser uma espécie de Deus terreno, isto é, aquele que decide pela vida ou execução das pessoas. Ironicamente, a base da cidadania é que o contrato social deve proteger a existência dos indivíduos. O confinamento poderia proteger os cidadãos corretos e pacíficos dos homicidas, mas matar estes últimos seria como legitimar a própria ação irracional do homicídio, ou seja, “Combater Fogo com Fogo”, como reza uma das letras de Ride The Lightning.

A atmosfera do vinil de 1984 é mais soturna que a do antecessor e seus riffs, solos, viradas de bateria e linhas vocais menos rudimentares, como se dentro de poucos meses os garotos tivessem amadurecido intensamente. “Para Quem o Sino Toca” e “Desvanecer-se” eram existencialistas por excelência, e “O Chamado de Ktulu” era uma música instrumental (sem voz) inspirada num conto de terror do norte-americano H.P. Lovecraft. A extensão das músicas do Metallica já era planejada para afastar os leigos sem muita paciência para a aridez do gênero: de 6 a 8 minutos em cada música, o que tornava o produto da banda, embora de excelência técnica, incrivelmente inadequado para as rádios. Os “quatro cavaleiros” inclusive afirmavam em entrevista que “jamais gravariam um videoclipe”. Como dizem dois versos de uma canção do Kill ‘Em All, o Metallica “jamais desistiria”, justamente porque era “o Metallica”, e seria eternamente sustentado pela base de fãs.

Com efeito, o tráfico de fitas K-7 nos primeiros tempos ajudou e muito a alavancar a fama da banda. Apesar de soar inofensivo (diante de tantas mercadorias destrutivas que podem ser traficadas!), essa prática nunca foi apreciada pelas gravadoras. Fato é que a base de sustentação do Metallica já havia adquirido tais proporções que todos esperavam por um golpe ainda mais genial na seqüência, e os prognósticos não eram precoces: “Master of Puppets”, de 1986, é até hoje considerado o ápice do jeito antigo de se fazer metal. E o Metallica só alcançava resultados tão favoráveis através de intensas reformulações no som, que apesar de tudo conservava sua marca registrada, identificável em cada faixa, como a gritar nas entrelinhas: “isto é firme e forte, tanto quanto o logo metálico da banda!”

A capa do terceiro disco mostra um cemitério lotado de lápides. “Heróis Descartáveis” é um hino contra as guerras, a exaltar os honrados soldados que pereciam por motivos que sequer conheciam, na linha de frente, defendendo uma Pátria que existia somente no discurso das autoridades, dos generais e políticos que jogavam risonhos com argila e rios de sangue. Em termos sonoros o álbum era, em poucas palavras, uma selvageria bem-domada. Com formação estável depois do começo tumultuado, o Metallica havia aprendido a aparar as arestas do próprio talento jactante. Entretanto, do ângulo do ouvinte conservador, e do heavy metal mesmo, trata-se de um marco, de uma seqüência de pancadas sem dó, uma gema de agressividade concentrada, de verniz aristocrata. O som é mais encorpado nas faixas inaugural e final, “Batalhão” e “Dano S.A.”, sem dúvida as preferidas dos nostálgicos (não que o thrash tivesse, àquela altura, mais de 5 anos de existência!). Doses de virtuosismo temperavam o caldeirão, mediante uma balada a favor da loucura (“Sanatório”) e a continuação de Ktulu, dessa vez cantada, “A Coisa que Não Deveria Ter Sido”. E a própria voz de James mal podia lembrar aqueles gritos roucos e esganiçados do púbere do começo dos aos 80!

Um acontecimento brutal viria a interromper a ascensão vertiginosa da banda, como que para consumar uma profecia e justificar tantas letras amargas a narrar o funesto: a tragédia mora ao lado, e pode aparecer para um cafezinho sem ser convidada. Cliff Burton, tido como um deus do baixo, que solava nas grossas cordas de seu instrumento com a mesma facilidade de um guitarrista, fôra a vítima fatal do capotamento do ônibus de turnê do Metallica, em estrada congelada e escorregadia do norte europeu, na Suécia. Ao que parece, o motorista estava embriagado e teve estranhas visões, desviando-se do curso normal da rodovia.

* * *

Chegou-se a um ponto crucial na história do supergrupo de rock: sem o baixista clássico, a banda teria fôlego para continuar? Comercialmente falando, seria um suicídio – mesmo que os novos trabalhos não fossem tão bons – parar àquela altura, pois só o nome “Metallica” já continuaria gerando receita por muito tempo. Quem outrora apenas abrira concertos para outros grupos de renome como Venom, Slayer e Mercyful Fate, em 1986 era forçosamente o “cabeça” em qualquer turnê com bandas do estilo, inclusive essas três. Ultrapassou-as com sobras, em número de vendas mas também em talento genuíno. Seria uma grande honra para quem quer que fosse, à morte de Cliff Burton, estender os tapetes vermelhos aos 4… melhor dizendo, 3 desfalcados Cavaleiros. A “comunidade metaleira” não iria deixar os músicos do Metallica jogarem a toalha (negra), mesmo que os sobreviventes assim sinalizassem que desejavam fazer.

“Nós nunca vamos desistir…”, cantava uma das letras do Kill ‘Em All, lembram-se? O Metallica precisava de algo para chacoalhar as estruturas, ressuscitar a parte da banda que ainda podia ser salva de um destino trágico. Findo o período de luto, foi decidido que haveria um concurso para a sucessão do posto de baixista. O vencedor foi Jason Newsted, de uma promessa caçula do thrash, o grupo Flotsam and Jetsam. A curiosidade notória é que o Metallica era a banda favorita do rapagão. Da noite para o dia, ele se via como membro do grupo musical que mais o inspirava em seu próprio trabalho. Com ele o Metallica não só ganhava um jovem com tanta técnica e energia quanto Burton, mas um excelente showman, capaz de incendiar a platéia nas exibições e contribuir com backing vocals (vozes de fundo, em contraste com o cantor primordial James) em uma pá de músicas. Kirk Hammett ficava como que eclipsado em meio a tantos virtuoses com mais iniciativa.

A expectativa pelo primeiro trabalho de inéditas do Metallica desde o baque de 86 era muito grande. Seriam tempos difíceis e acres para a banda. Não havia mais garotos na formação. Porém, emocionalmente, havia carências no grupo que precisavam ser trabalhadas, e dessa época consta uma lista considerável de imaturidades dignas de um Dave Mustaine no auge da bebedeira! O fato é que “Findo o luto”, mais acima, é uma sentença algo mentirosa. Ainda condoídos pela partida de Burton, Hetfield e Ulrich se comportaram no fim dos 80 de modo duplo, ora saudando e louvando o novo companheiro, ora tratando-o de forma ostensiva, até mesmo praticando um “bullying” ou sabotagem interna, cujo enredo até o presente permanece não-esclarecido em muitos pontos. De brincadeiras de mau gosto com relativa inocência nos quartos de hotéis a mudanças deliberadas e insidiosas em estúdio, Newsted era limado em seu potencial pelos próprios companheiros. O novo disco, de meados de 1988, “…And Justice For All” (“…E Justiça para Todos”), veio com uma aparente falha crítica, apesar de estar muito bom: o baixo, instrumento de Newsted, não era audível! Está fora de questão a hipótese de que tal equívoco tenha partido de má mixagem acidental. Os técnicos de som escutam inúmeras vezes o material antes de prensá-lo em definitivo. Houve uma escolha, uma espécie de birra, como protesto contra a natureza e a fatalidade, que foram o que levou Cliff embora. Como dito, apesar disso, o álbum foi bem-recebido pela crítica e em 9 semanas recebeu platina, vendendo muito mais que os 3 primeiros. Jason não pôde contribuir com muitas idéias. Por alguma razão, só uma das 9 canções do And Justice teve seu nome entre os autores (e era uma das melhores do disco, abrindo-o soberbamente).

Em revelia com a má produção recebida pelo baixo, o quarto disco do Metallica era o que contava com linhas mais trabalhadas de bateria. Lars se encontrava no auge, e seu kit era tão enorme quanto eficaz. As faixas nunca foram tão extensas, pesadas e versáteis. James engrossou a voz para cantar com fúria. Os temas são todos mordazes sem exceção, falando do sistema de justiça falido do Estado ou até da criação questionável que James recebera dos pais. Kirk completava o caldo com alguns dos solos mais insanos da carreira da banda. A faixa instrumental, “Viver é Morrer”, era baseada em notações e fragmentos deixados pelo finado Cliff B. Posteriormente, os membros se arrependeriam de composições tão difíceis e preciosistas, alegando que era uma tortura tocar várias delas em seguida nos shows, de tanto que exigiam do físico.

Vinha por aí, ainda, a quebra de tabus. O antes intransigente Metallica, que dizia que jamais gravaria um videoclipe, cedeu aos apelos e gravou “One”, a faixa de destaque do disco, em formato audiovisual. Ainda assim, era praticamente uma obra caseira, com imagens em preto-e-branco num depósito abandonado entrecortadas por cenas de um filme “B” sobre a guerra. Por bem ou por mal, de guerreiros do underground, os caras do Metallica passaram rapidamente a queridinhos da MTV.

* * *

Em outubro de 90 começou a gravação do quinto álbum, o homônimo da banda, que ficou mais conhecido pelos fãs como “Black Album” (“Álbum Preto”), em contraposição ao épico trabalho dos Beatles, o “White Album”. Pela primeira vez o Metallica gravaria um CD de forma realmente luxuosa, com um produtor mainstream, Bob Rock. No processo de criação, Jason Newsted continuava desfavorecido, tendo crédito em apenas uma canção, “Through The Never” (“Através do Nunca”). O Black Album foi o disco mais vendido do Metallica em todos os tempos, estreou como número um nas principais listas e seus hits mais fortes estouraram nas rádios (dessa vez a banda investia em faixas mais curtas, de em média 4 ou 5 minutos). Além disso, o álbum foi agraciado com disco de platina 15 vezes nos Estados Unidos.

O Álbum Preto transcendia fronteiras, por motivos que agradavam e irritavam os headbangers ao mesmo tempo (headbangers são os “bate-cabeça”, isto é, os metaleiros, cuja principal forma de se agitar nos shows é balançando o membro superior do corpo – quem não tiver o pescoço resistente, melhor nem tentar!). Por um lado, nenhuma banda de thrash metal (ou mesmo de heavy metal, a vertente “mais leve e acessível, de guitarras menos distorcidas”) havia chegado tão longe; por outro, os fãs de raiz começaram a achar que o Metallica traía o movimento. Aí está o paradoxo de qualquer vanguarda subversiva: no momento em que conquista as massas, abdica dos propósitos iniciais e dos efeitos contestadores que seu som deveria provocar. Incontestavelmente, o Metallica foi o grupo mais grandioso do thrash metal. Exatamente por isso, o estilo ficou “pequeno” para os “Quatro Cavaleiros” e eles seguiram adiante, sem medo, explorando novas sendas.

Músicas como “Enter Sandman” e “Nothing Else Matters” passaram a fazer parte de toda e qualquer set list (seleção de músicas para um concerto) do Metallica dali em diante. Composições como “Wherever I May Roam” e “Of Wolf & Man” citavam escritores famosos e um despertar ecológico do homem, o fato de sentir-se mais animal e estreitar novamente suas relações com a natureza. “The Unforgiven” era o primeiro capítulo de uma longa balada em episódios que o Metallica começou a compor para ilustrar a vida de um homem que mal consegue se perdoar pelos erros do passado. Os riffs, seqüências rítmicas, se tornaram mais simples e diretos, a velocidade das músicas foi reduzida, e, em compensação, cada obra parecia de mármore, em harmonia e coerência interna, como se não houvesse notas fora do lugar. E como a duração das faixas era menor, cabiam mais delas no disco. James Hetfield deixou o orgulho de lado e recebeu aulas de canto. Sua voz já era uma das favoritas não só das mulheres mas também dos homens. Ao dom genético, só estava faltando um trabalho de lapidagem, como com uma pedra preciosa a princípio deformada.

Eventos curiosos tiveram lugar durante os muitos meses de turnês por todos os continentes que se seguiram ao Black Album, uma delas ao lado do então na crista da onda Guns N’ Roses. Em uma dessas noites de espetáculo para milhares de pessoas James Hetfield foi vitimado pelos fogos de um sofisticado porém desastrado aparato de efeitos especiais, ativado principalmente na introdução da música “One” (tradição da banda mantida até hoje). Devido a uma falha no raio de alcance do truque pirotécnico e ao posicionamento equivocado do cantor no palco, James saiu-se com queimaduras de segundo e terceiro graus em todo o corpo e a apresentação foi interrompida. Outro incidente famoso dessa época foi a semana em que James perdeu completamente a voz, durante a gravação do BA. Nem a vida dos músicos superestrelados é tão mole assim!

Em 1994, depois de rodar o mundo, era hora de se concentrar em estúdio para mais músicas inéditas. Dali a 2 anos seria lançado o “Load”, sexto disco do Metallica, como nº 1 da Billboard. E um novo choque atingiu os metaleiros conservadores: de repente, os membros da banda apareceram todos tosados (esse é bem o termo), isto é, sem suas respeitáveis cabeleiras, de caras comportadas, como a dizer: amadurecemos o som, estamos em outra! Novo visual, novo som: linhas de guitarra e baixo ainda mais limpas, efeitos modernos de mixagem, bateria soft e um vocal versátil e sem medo de inovar.

Já a capa do CD era um escândalo para muitos: o artista Andres Serrano, contratado pela banda, fotografou, dentro de um recipiente de plexiglass (vidro plástico), seu próprio sêmen misturado com sangue de boi. Dentro do encarte, os integrantes do Metallica encarnavam vários personagens em mil e uma situações, fantasiados de mafiosos, caipiras, dançarinos, mecânicos, etc. Era uma “autovenda” descarada, segundo os fãs oitentistas que não conseguiam reformular seus conceitos. O Metallica caía em definitivo nas graças da mídia, e o que antes era transgressão virou hábito: múltiplos clipes da banda bombaram na MTV e demais emissoras. A aproximação do Metallica aos gêneros do rock alternativo e do pop gerou convites inusitados, como estrelar o festival indie Lollapalooza ao lado da banda da viúva de Kurt Cobain, Hole.

A fase foi tão prolificamente criativa que ao invés de apenas um foram 2 álbuns: como as “raspas” de estúdio eram demasiadas, todas foram reunidas formando o duplo do Load, o “Reload”, lançado um ano depois. A capa, quase igual, foi outra sobreposição artística de Serrano, usando sangue e, dessa vez, urina. “Fuel” (“Gasolina”) foi de longe o maior sucesso destes tempos, embora (ou talvez por isso mesmo) fosse uma música excessivamente simples e de refrão clichê. “The Memory Remains” divagava sobre o estrelato, em um exercício metalingüístico interessante (“Enquanto o sol de Hollywood se põe às suas costas / A banda não pode continuar? / Apenas escute, eles tocam minha música!”), além de contar com uma “ponta” da cantora veterana Marianne Faithful. “Cadê sua coroa, Rei Nada?” é um dos refrões mais grudentos da carreira da banda e está na simples e eficiente “King Nothing”. “Devil’s Dance” é um hard rock direto e dançante, que não cairia mal em nenhuma festa com pista de dança. “The Unforgiven II” continua a composição original do Black Album e para alguns ainda a melhora. “Slither”, “Carpe Diem Baby” e “Attitude” são três exemplos de batidinhas viciantes, inebriantes nos vocais e radiofônicas até o talo, sem exatamente recair na breguice.

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Sem descanso, o Metallica continuou rumo ao fim da década de 90 esbanjando intensidade. Em 1998, remontando às origens, a banda decidiu lançar um álbum duplo só de regravações de seus sucessos favoritos, o “Garage, Inc.”. Ou melhor: dos sucessos favoritos que pertenciam a outros. Uma singela homenagem aos artistas que são considerados pelos próprios rapazes a razão de ser do Metallica.

Então cabe a pergunta: de onde é que o Metallica retirava sua vigorosa seiva? De um cardápio variado, pode-se imediatamente notar. O trabalho não era um saudosismo gratuito, mas o convite a inúmeros fãs jovens que não conheciam ainda as origens do verdadeiro rock ‘n’ roll: assim, poderiam garimpar, sem riscos de errar, o melhor do estilo. Essa matéria dividida em várias partes no jornal CAPPDiem ou publicada em bloco no meu blog se aproxima de seu ponto culminante e honra manifestamente o seu título: “O segredo da longevidade” do Metallica é cativar sempre um novo público enquanto mantém (pelo menos tenta ao máximo) uma velha clientela. “We’ll never quit, ‘cause we’re Metallica” – não desistir ou não sair de cena não significa se fossilizar ou manter uma homogeneidade, mas justamente se render a uma transformação perpétua e inesgotável, reinventar sua música, adaptar-se e não frear o ímpeto das descobertas, mutilando dogmas e preconceitos debatendo-se com a face mais antiquada da sociedade.

Entre as faixas selecionadas para ser regravadas “com um toque de Metallica” em estúdio, estão: “Free Speech” (um punk simplezinho); muitas de King Diamond e Diamond Head, dois ídolos diamantinos da banda (perdoem o trocadilho); um medley (fusão de várias canções em uma) do Black Sabbath; outras tantas do Mötorhead; a versão mais hard rock da clássica “Turn The Page” de Bob Seger, velho rockeiro de estrada americano, a qual muitos preferem em relação à original; “Loverman” (mostrando que hits românticos não escapavam dos olhos de lince da banda); “Astronomy”, do Blue Öyster Cult (o metal que precedeu imediatamente o estilo mais curto e grosso do Metallica, algo mais virtuoso e melódico); “Whiskey in The Jar” (considerada a melhor execução do ano no Grammy de 1998, por mais que a autoria não fosse do próprio Metallica!); “Tuesday’s Gone” (Lynyrd Skynyrd), “The Small Hours” (a mais pesada da coletânea, da britânica Holocaust); sem falar no visível apreço dos caras pelo Queen de Freddy Mercury.

Em 1999, chegou o “Symphony & Metallica” para fechar com chave de ouro a seqüência de álbuns duplos atrás de álbuns duplos dos últimos anos, também disponível em versão DVD, registrando as apresentações históricas do Metallica à frente da Orquestra de São Francisco (sua terra natal, nunca é demais lembrar) capitaneada pelo maestro Michael Kamen, um novo conceito em música (embora tenha havido essa mistura por iniciativa de grupos de rock anteriores, como o próprio Queen que acaba de ser citado, ou o Savatage, mas talvez não num tal grau de perfeição). Incrivelmente, não só sucessos remasterizados em grande estilo mas novas composições estavam no repertório dos dois grandes dias de show: a meiga “No Leaf Clover” e a respeitável “Human”. Destaque para a versão “anabolizada” de “Call of Ktulu”, a instrumental de Ride The Lightning, exibindo todo seu potencial assustador. Presenças naturais eram “Master of Puppets”, “The Thing That Should Not Be”, “For Whom The Bell Tolls” e “Battery”, massivamente entoadas pelo público. O parágrafo termina com o refrão tocante de No Leaf, que não é a primeira e nem seria a última metáfora do grupo ligada a trilhos de trem: “E então você vê uma luz no fim do túnel / é só um trem-bala vindo em sua direção”!

* * *

Ao mar de flores, sucedeu um período negro para a banda. O Metallica decidiu se engajar em uma guerra perdida contra as novas tecnologias, acusando alguns usuários e donos de softwares de serem patrocinadores de um “neo-barbarismo”, no caso digital. Tudo porque não enxergaram que o formato compact disc havia sido absolutamente ultrapassado pela disseminação das MP3, fazendo parte hoje apenas de um culto ou uma homenagem que os mais fanáticos sentem a necessidade de prestar aos músicos que tanto causaram impacto em suas vidas. Em outras palavras, tudo que começa como diversão (4 rapazes sendo “autênticos”) termina com a guerra da única coisa que passa sem deixar nada de significativo no coração humano, mas que outrossim é a única importante no mundo atual: do dinheiro. Direitos autorais, isso o artista tem de saber: são mera convenção, bem anterior ao capitalismo e ao “profissionalismo”, privilégio consensual direcionado aos mais talentosos de uma sociedade, sob diferentes formas de acordo com a era e a região. Não obstante, aquele que não é mais grato para com seu público perde a honra e o direito de estar sobre um palco, pois não há criação que se sustente sem quem a contemple, não há grandes espíritos sem mediocridade em torno deles e não há como não perder a dádiva dos deuses sendo avarento… Para o trio culpado, James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich, serve a antiqüíssima frase: “Aqui se faz, aqui se paga”. Por ironia do destino, o Metallica, que um dia proliferara graças ao troca-troca de cassetes piratas, resolveu atacar judicialmente o Napster – programa para baixar e compartilhar MP3 ilegalmente – e vários milhares de usuários que tinham feito download de músicas do Metallica através do serviço. Um autêntico papelão, pois era uma medida desproporcional contra muitos fãs de longa data da banda que não podiam ser chamados de criminosos. O episódio tinha mesmo de gerar o fim do Napster, ao menos como freeware (agora os usuários teriam de pagar taxas e só haveria compartilhamento de bandas que concordassem com os termos do site). Mas não só: a imagem e a credibilidade do Metallica em relação à comunidade de ouvintes ficou bem arranhada e chamuscada. Eles teriam de dar a volta por cima nos estúdios ou em cima do palco, porque nos bastidores, apesar de terem ganhado na justiça (a mesma que eles condenavam em seu quarto álbum), eles perderam feio.

A aurora do novo milênio realmente não foi nada agradável para o Metallica. Parecia um tempo de fechar para balanço. Ou mais que isso – a banda corria o risco de acabar. Em 2001 Jason Newsted, o baixista, se desligou do grupo. Sua motivação foi visivelmente dupla: não só teve danos físicos graves no braço direito devido aos intensos treinamento e agenda do grupo como parecia inevitável que um dia o desgaste na relação com os companheiros, que remontava à era …And Justice, estourasse.

Para além da carência na posição do baixo, o líder e porta-voz James H. decidiu que era o momento de se internar a fim de vencer a luta contra o alcoolismo e o estresse. O Metallica estava em cacos. A notícia das férias “pouco ortodoxas e nada agradáveis” de Hetfield caiu como uma bomba no QG dos músicos remanescentes (ia dizer rapazes, mas já devem saber que nos anos 2000 eles se tornaram verdadeiros coroas!), Ulrich e Hammett, onde, com a ajuda do produtor Bob Rock, assumindo o baixo, já se haviam iniciado as gravações do oitavo álbum oficial da banda, o primeiro de inéditas em 4 anos. Nada mais haveria que fazer a não ser esperar. O devenir do Metallica não passava de incógnita. A solidez encarnada do metal estava fraca e agonizante…

Dez meses depois, retornado do “exílio”, o quase-revigorado James espantou as especulações de que a banda terminaria naquele momento e, embora não pudesse estar tão presente como gostaria, o processo de composição voltou à regularidade do “segunda a sexta”. James fôra proibido pelos médicos de trabalhar mais do que 4h por dia, ao menos nesse começo, e sua reabilitação incluía dar mais atenção à família (o músico já era casado e tinha uma filha, bem como os outros dois da banda tinham as suas famílias). O novo baixista foi cirurgicamente escolhido: Robert Trujillo era membro do grupo Ozzy Osbourne, a carreira-solo do 1º vocalista do Black Sabbath, um dos principais responsáveis por Lars, James e Kirk terem traçado seus caminhos na música pesada. Da mesma faixa etária que seus colegas, o atlético e versátil Trujillo se adaptou rapidamente, recebendo diversos elogios de todos. Porém, na altura em que aterrissou, não pôde contribuir muito com o “St. Anger”, que estava prestes a sair do forno…

Sim, o novo CD do Metallica já tinha até nome, e expressava a intrincada antinomia em que a vida do recém-restabelecido quarteto se encontrava: Raiva Abençoada, vida e morte, fim e recomeço, céu e inferno, ressentimento e serenidade. Pensando bem, não há artista que sobreviva sem estes fatores. “Sem raiva, não se vence nada” – Aristóteles, filósofo grego.

As composições estavam carregadas de metalinguagem, refletindo o novo momento de auto-reconstrução da banda. Alguns temas eram meras ramificações das evocações simbólicas do Load-Reload, mas as músicas voltaram a ser mais compridas e era visível que os músicos se esforçaram por imprimir mais peso, voltando a suas origens. Mas o som era novo, relativamente inclassificável, impossível de rotular como heavy ou thrash metal. Era um hard rock com um feeling bem sujo e cru, notável nos timbres dos instrumentos, na voz intencionalmente rouca e expressiva de James e na bateria de Ulrich, cujos pratos traiçoeiros ficaram parecendo tampas de latas-de-lixo, para ódio da legião conservadora de fãs (ou eu deveria dizer “odiadores oficiais”?). A imprensa especializada torceu o nariz para o novo disco do Metallica, mas a prova de sua qualidade artística é que foi o quarto seguido do grupo a estrear em 1º lugar no ranking da Billboard, um feito inédito. Inclusive a música “Frantic”, sendo metal ou não, foi eleita pelo prêmio Grammy a melhor do gênero naquele ano (2003): apesar dos pesares, o Metallica se mantinha no topo! Então, bandas de rapazes de 20 e poucos anos que ouviam Metallica desde a infância já viravam sucesso e tinham a honra de dividir o palco com os mestres. Citarei alguns nomes à guisa de exemplo, mas apenas no final da matéria.

Uma coisa que desagradou muito o guitarrista Kirk Hammett foi a imposição do produtor Bob Rock de que não houvesse solos no St. Anger, o que limitava o desempenho de suas funções. A tal ponto que atualmente, quase 10 anos depois, o Metallica se nega a tocar músicas do St. Anger nos shows, bem como de sua fase mais light e de flerte com o pop – a Load –, com exceção da “mega-pedida” Fuel. Talvez parte disso seja pelas características muito peculiares do álbum: a canção “The Unnamed Feeling” (“O Sentimento Inefável”) tem linhas vocais tão sobrepostas e complicadas que seria quase impossível mantê-la razoavelmente parecida com a versão de estúdio em reprodução ao vivo, por exemplo.

Um detalhe engraçado é que durante esse período de estúdio o Metallica chegou a ter um terapeuta, para resolver seus problemas internos. Foi uma decisão polêmica, pitoresca e cara, que até hoje não sabemos se teve algum efeito. Não que os integrantes não tenham de fato resolvido suas diferenças e voltado a ser uma banda na acepção da palavra, mas atribuir o êxito somente ao terapeuta talvez fosse exagero. O que importa é que o Metallica estava consciente do que estava errado e se mexeu para buscar soluções. No fim das contas, o St. Anger parece, pelas letras, uma verdadeira sessão de terapia, pois está abarrotado de mantras e frases de auto-ajuda, enfáticas:

“Meu estilo de vida determina meu estilo de morte”, começa disparando a faixa-título. “Você vive ou você mente.” O teor autobiográfico é evidente: “A busca continua…” Nesse momento a banda está se debatendo com a pressão dos fãs, da imprensa, deles mesmos e do tempo. Para que a pressa para compor novos trabalhos sem esmero se for só para agradar os outros repetindo fórmulas? A cada novo dia os veteranos californianos tinham que provar que ainda mereciam sua boa reputação… A tal “busca” muitas vezes é frenética, e o refrão de Frantic é “tic-toc”, lembrando o badalar incessante do relógio.

O teor da ideologia do álbum oscila como um pêndulo entre o otimismo e o pessimismo. Versos do Kill ‘Em All são resgatados e reaparecem nas novas canções, misturados no furacão da raiva abençoada. Frantic, que cito pela terceira vez, representa quase um manifesto: “eu quero que minha raiva seja sadia, ela não pode me controlar”. Mas nisso, o eu-lírico aceita a raiva, sabe que ela é um ingrediente essencial do processo de criação. O Metallica pede às próprias forças inconscientes um terremoto produtivo. Na canção “Algum Tipo de Monstro”, tenta-se caracterizar o “monstro incorpóreo” do sentimento do descontentamento. “Essa é a voz do silêncio nunca mais / língua que fala por dentro / anda em círculos / [é] um deus nem tão santo”. Enfim, “é o fim que nunca termina”. Este momento (o da irracionalidade da raiva) somos nós. Temos de nos agüentar e a despeito de todos os reveses aprender a conviver.

Em outra música James berra: “sou juiz, júri e carrasco”. Alguns críticos se sentiram desconfortáveis em uma atmosfera de autismo e isolamento tão acentuados. A tônica do CD não os encantou: “eu me escondo, mas (se me cutucar) te mostrarei…” “Criança invisível” e “Meu Mundo” cutucam especialmente as feridas da infância: “Mamãe, por que chove no meu quarto? / neblina densa, nada eu vejo”. Minha favorita, particularmente, é “Shoot Me Again”: “manda bala de novo, ainda não morri / todos os tiros que levo cuspo de volta em você”. Às vezes o tom é altivo, seguro, quase arrogante. Noutras, cai no limbo da hesitação e do desespero.

Em outra passagem a entidade “raiva/fúria” reaparece: “Acorde o gigante adormecido / não, não, deixe-o hibernar!” Cabe espaço, nessa tempestade de desabafos, até para as relações amorosas, tema raríssimo no Metallica, ou cada vez mais freqüente, se se olhar a evolução temático-intelectual da banda: “Minto para obter um sorriso / doce fragrância do amor / será realmente doce? / Não danço com o que poderia ter sido / não danço com esqueletos”. Na continuação, insinua-se que o amor é raiva, mas também é controle dessa raiva. Até que ponto um dos amantes deve controlar o outro, já que se deixar levar pode ser o equivalente da indiferença mais insossa?

* * *

Depois de longas excursões, durante 3 anos, a banda estava ansiosa para se reunir de novo no “bunker” do estúdio, em 2006, para compor material novo, a parte mais divertida da vida do artista. O tema da morte jamais abandonava a banda: “Death Magnetic” veio a ser muito aclamado pela imprensa. Bob Rock foi demitido. O Metallica sentia que devia retomar o padrão de qualidade e evitar ingerências, re-insistir em complicados solos e agradar a fração da clientela que havia desistido há muito de ver um Metallica anos 2000 que ainda portasse um espírito parecido com o oitentista. Manter-se na vanguarda é uma tormenta, uma tarefa das mais árduas, como o leitor desvenda em cada nova iniciativa do Metallica!

Death Magnetic foi o álbum mais parecido com o …And Justice For All em anos. O disco possui 10 faixas, uma delas instrumental (que, inclusive, teve sua demo intitulada “K2LU”, em referência a “Call of Ktulu”, a faixa sem voz do distante mas ainda muito enaltecido Ride The Lightning). “Essa Era Só a sua Vida”, a música introdutória, já mostra que a banda não estava para brincadeira: vocais velocíssimos e um Kirk com solos ressuscitados e, aparentemente, mais cascudos, elaborados e invocados do que nunca! No fim, talvez a única escolha questionável do álbum inteiro tenha sido a bateria de bumbo único, abafado e homogêneo demais durante todas as composições. O vocal de James ficou bastante destacado em todos os trechos. Ao contrário da era Jason, Rob Trujillo teve maior participação na autoria, ou pelo menos os créditos o indicam – todas as canções são apresentadas como esforço conjunto dos 4 colegas. “O Fim da Linha” apresenta riffs dignos de e estrutura parecidíssima com a de “Master of Puppets”. A nietzscheana “Quebrado, Derrotado & Machucado” (de refrão “O que não te mata, te fortalece”) estoura os tímpanos com seu solo duplo sincronizado (às vezes a gente até se esquece que o Hetfiel ainda se desdobra na guitarra-base, para dar um suporte ao mais pirotécnico Hammett!).

A divulgação do álbum havia começado com o videoclipe de “O Dia Que Nunca Chega”, nova incursão do Metallica na crítica à guerra, reavivando “Heróis Descartáveis”, de 1986. Outro clipe gravado mais tarde, de “All Nightmare Long”, apresenta elementos de animação e filmagens propositalmente de baixo orçamento, deixando o produto com a mesma cara artesanal do Metallica antigo batendo cabeça num depósito abandonado, como em “One”. Para delírio dos fãs, o CD Death Magnetic ainda brinda o ouvinte com a suposta conclusão da “saga do alcoólatra cheio de remorsos”, “The Unforgiven III”, que aliás é uma espécie de estação tranqüila dentro de um álbum tão preenchido por pancadarias torrenciais! A banda, sempre produtiva, ainda gravou 4 outras faixas que não cabiam na mídia, que com as 10 canções originais possuía praticamente 1h de duração. Esse material excedente foi lançado em 2011 num EP sob a alcunha de “Além do Magnético”, só na internet (média com os fãs, depois de aprender algumas lições com o passado?), e apresenta canções mais longas e elaboradas, com passagens de voz melódicas de James: “Hate Train” (outra vez a metáfora do trilho e do fim da linha), “Just a Bullet Away” (o grande destaque, bem no estilo Pantera), “Rebelde da Babilônia” (o Metallica voltando a falar de religião) e “Ao Inferno e De Volta” (de letras românticas, apesar do título).

* * *

Falta pouco para chegar ao presente e finalizarmos nossa épica saga no CAPPDiem e no meu blog (O Esgoto a Céu Aberto na sua Rua) que narra a trajetória do eclético quarteto que virou um cânone da música pesada. Mas, antes, falta falar do último álbum de estúdio dos maus elementos: e eles fizeram das suas novamente – no melhor dos sentidos!

Algo tecnicamente inovador de artistas que já tinham tentado de tudo era, incrivelmente, possível. Um improvável encontro e troca de influências entre gerações foi o responsável por um dos trabalhos e experimentações mais diferentes que a indústria tem visto: o rockeiro “porra-louca” septuagenário Lou Reed, poeta do sórdido, Marquês de Sade do século XX, e o quarteto californiano de heavy metal, bem mais jovem, embora já veterano por si só, num mercado em que pululam jovens na casa dos 20 aninhos a cada dia! Só por essa razão já seria LOUvável (, Reed!) se não fizessem feio. Mas o projeto foi muito além disso…

Para variar, a inusitada parceria não coube num CD só, transformando-se em disco duplo, lançado no final de 2011. Certamente os fãs pagariam com prazer o custo extra. Mas é preciso especificar: os mais flexíveis dentre os fãs, somente, já que os headbangers ortodoxos e puristas continuam urrando irascivelmente e cuspindo abelhas africanas em todas as direções toda vez que o Metallica aparece em alguma operação arrojada que ultrapasse suas mentes limitadas. “Lulu”, o nome da empreitada radical, é uma peça de teatro de Frank Wedekind (um dramaturgo alemão que teria sido influência marcante de Bertold Brecht, este um cênico comunista bastante conhecido dos que aprenderam a História do século XX) convertida em música; com os versos geniais de Lou e o suporte instrumental dos desbravadores do metal por excelência, o ápice do lirismo foi atingido. James H. passa a maior parte do tempo apenas tocando a sua guitarra-base e só empresta a voz em 3 das 10 composições, não-raro no refrão. Lars volta com um kit de bateria mais diversificado. Hammett está ousado e nostálgico. Trujillo parece um bom árbitro de futebol – ajuda e dá substância porém sem ocupar os holofotes. A última música, “Junior Dad”, calhamaço de 20 minutos, teria arrancado lágrimas de todos da banda, devido ao tema ligado à paternidade, questão muito acintosa na vida de James, por exemplo. Lou Reed nunca havia perdido sua aura de bruxo ou feiticeiro dos palcos, mas alguns especialistas em sua carreira apontam este como seu melhor trabalho, além dele próprio. E temos razões para pensar que a declaração não se restringe a mero golpe de marketing!

Em quase toda a música “Mel Congelado” a guitarra de Hammett se parece com um zumbido de abelha. “Mistress Dread”, “Senhora Apavorada” ou “Senhora Pavor”, a depender da interpretação, parece tirada dos primeiros anos do Metallica, de tão potente. “Cheat On Me” tem um refrão leve e grudento, altamente cantante. “Pumping Blood” parece realmente fazer o sangue jorrar na frente do ouvinte. São detalhes tais que transportam o consumidor das ondas sonoras de Lulu a um mundo longe daqui e permitem afirmar que se trata de um novo clássico. As letras são muito polêmicas, soando a muitos críticos sem sensibilidade e tato, hiperbólicas e simples apologia da violência. Mas, não fosse a divergência de opiniões acerca de uma obra, não teria a menor graça! Podemos resumir a peça de Wedekind, cujo roteiro foi adaptado a devaneios filosóficos que tangem filmes de terror B de vez em quando, a algo que divaga principalmente sobre o vazio das relações amorosas e jogos de poder entre homem e mulher, muitas vezes preenchidos insuficientemente pelo prazer instantâneo da carne ou a inclusão do dinheiro, outra dinamite nesse coquetel já explosivo. Ora a perspectiva é a feminina, ora a masculina, às vezes na mesma canção. Lou não tem o menor pudor, e homossexualidade para ele nunca foi tabu.

A superficialidade e no fim das contas supremacia da beleza no amor é sentida principalmente entre os jovens, o que não escapa aos olhos perspicazes dos 5 que montaram Lulu em estúdio, ao longo de intensos meses. A canção de abertura grita: “Sou só uma garota de cidade pequena”, aquela que através do “coquetismo” hipnotiza e maltrata os homens desacostumados: “Eu cultivo a juventude / todo o resto me aborrece / Sua vida de razão / Você hesitando / quero te ver no chão”. E mais adiante: “Se eu sacudisse meu traseiro como uma prostituta obscena / Você pensaria mal de mim? / Você me cortaria, usaria uma faca em mim?”. Mas o homem também se humilha diante do sexo oposto, aliás como ninguém: “Você é perfeita, deixe-me seguir sua respiração e seus passos / Degrade-me! / Tem restos que eu possa beliscar?”. A mulher exibida aparece em incontáveis versos: “Muitos homens me amam / mas não amo nenhum deles”; “Acha que somos uma espécie de mesa / em que você descansa os pés quando bem entende? / nós te amamos, alteza / adoramos seu corpo perfeito / o seu cecê, o gosto da sua vulva e tudo nela / e você não tem significado / nunca nem ligou / pensar em você é uma outra forma de morrer / vou arrancar os seus mamilos! / seus azulejos brancos estão vermelhos agora / aquele que te rejeita é o vencedor”. Um drama psicológico reconhecidamente para poucos! Até o impulso sádico e inconsciente de muitos casais aparentemente harmônicos é descortinado: “Eu queria poder matar, machucar você / Case comigo, te quero como esposa”.

Alguns homens sentem-se afeminados diante de mulheres decididas e emocionalmente mais firmes: “Você é mais homem que eu / [Me sinto] seco e estéril sem-esperma como uma garota”. Outras vezes, os famosos milionários músicos expõem a crueldade da competição entre cãezinhos e grandes cães – na natureza, nada pode ser feito, mas no mundo humano o “tamanho” é comprável: “dinheiro te leva ao topo / a cadela não se importa com o resto / o cachorrinho com uma nota de 100 é um cachorrão, / [pois] já pode sentir o gostinho”.

* * *

Nem podemos descrever com detalhes e nem sabemos por onde começar para sintetizar a idéia do fenômeno que é esta banda chamada Metallica! Um exemplo bobo poderia ser o jogo de videogame Guitar Hero inteiramente dedicado à banda. Um segundo, a passagem do Metallica pelo Brasil no “Dia do Metal” do Rock in Rio 2011, altamente louvada. Outra ilustração, que todo dia 7 de Março é oficialmente o Dia do Metallica, baseado em decreto da prefeitura de SanFran! E nada de listas longas e fidedignas demais sobre os grupos musicais cuja maior influência é reconhecidamente o Metallica, caso contrário poderíamos gastar o dobro dos caracteres que já foram gastos na (extensa) matéria: Mastodon, Slipknot, Avenged Sevenfold e Vader são 4, só uma módica amostra de novos nomes em parte promissores – e que em parte já mostraram conteúdo o suficiente para deixarem de ser apenas promessas – que só chegaram aonde estão por intermédio do grupo de vastos horizontes que sempre idolatraram, o alvo de nossos esforços biográficos, o Metallica!

Amados ou odiados: esse é o renascível-das-cinzas-como-fênix-super-grupo-do-rock-‘n’-roll-e-metal Metallica! Lars, certa feita, em algum ponto dos anos 2000 que não me lembro, declarou que era muito provável que ainda se ouvisse falar das proezas desta banda musical incrível por mais uns 20 anos, pelo menos. E então, o que eles estarão aprontando neste exato momento? Não sei se conseguiremos esperar até 2013!

[ARQUIVO] LULU & OUTROS POEMAS

 

Originalmente publicado em 4 de junho de 2012

A MEMÓRIA PERSISTE (PRIMA-DONA)

E escurecer a luz de uma já apagada Prima Donna

Enquanto o sol de Hollywood se põe às suas costas

A banda não pode continuar?

Apenas escute, eles tocam minha música!

“Fade to black”

Pequena deusa de latão

Perfure a casca da maçã

Você morde mais do que precisa

Cuspa a semente da verdade!

O DRAMA DO NASCIMENTO

Toda criança toca o sol

Queima os dedos um por um…

Já aprende da guerra com soldados de plástico

Acorde, dorminhoco

Hora de salvar o mundo

*

Você traz o pobre cão da chuva

Só que ele só quer sair de novo

O espelho que eu quebrei

Para retratar a minha cara

Pode curar o que o pai fez?

Ou tapar o buraco no filho da mamãe?

LULUXO DA PRIMAVERA

Mas eu, estou feliz porque tenho minha fraldinha

e algum ópio para me deixar na linha

Realidade misturada com cachaça

Bread & Burger Gay

A frieza da maioria das belezas é um desafio que nossa juventude deve rapidamente transpor

Não há tempo para culpa

ou reflexão baseada no sentimento

Eu cultivo a juventude

todo o resto me aborrece

Sua vida de razão

quero te ver no chão

e no caixão

sua alma sacudindo

Você hesitando

em cada conhecimento acumulado

GORY

Tal qual abelhas no ar

Se eu sacudir meu traseiro como uma prostituta suja

Você pensaria menos de mim?

Você me cortaria, usaria uma faca em mim?

Violação suprema

Jack, eu te imploro!

Sangue na cozinha

Vou me render a sua lâmina mais afiada

como o pau de um homem de cor

O sangue esguichando

Perdão, perdão!

Você é perfeita, me deixe seguir sua respiração e seus passos

Degrade-me!

Tem restos que eu posso beliscar?

Cuspa na minha boca

Abra-me! Você é meu Golias

ASS: SENHORA APAVORADA

Você faz outros se sentirem gelatina

muitos homens me amam

mas não amo nenhum deles

*

Sou uma onda indiferente surfando o mar

Não tenho mais ninguém

*

No meu léxico do ódio

As batidas seguem num ritmo anormal

O medo percorre meu corpo

uma espada entre minhas coxas

Eu queria poder matar machucar você

case comigo, te quero como esposa

mas eu também amo seus olhos

ANATOMIA ANIMAL

Você é mais homem que eu

Estar seco e estéril sem-esperma como uma garota

o cachorrinho espera demais, é um monge

o cachorrão tomou seu lugar

ouça-o ganindo

ele quer entrar, ele quer entrar

*

um pintinho

dinheiro te leva ao topo

a cadela não se importa com o resto

enquanto puder aparentar

você pode sentir apenas o gostinho do que o cachorrão

tem à disposição

o cachorrinho com uma nota de 100 é um cachorrão

dinheiro pode fazer qualquer coisa

*

Você se acha especial

os outros são peões

para sua satisfação sexual

criatura penosa!

acha que somos uma espécie de mesa

em que você descansa os pés quando bem entende?

nós te amamos alteza

adoramos seu corpo perfeito

o seu cecê, o gosto da sua vulva e tudo nela

e você não tem significado

nunca nem ligou

pensar em você é uma outra forma de morrer

vou arrancar os seus mamilos

seu vestido de couro está guinchando

seus azulejos brancos estão vermelhos agora

aquele que te rejeita é o vencedor

tenho um truque na manga

chamado coração

as digitais correm seus cabelos que sensação

gloriosa

ser tão rejeitado!

REMIX ZURETA (SANTA RAIVA, MORTE MAGNÉTICA & CARGA)

Originalmente publicado em 9 de maio de 2012


You live it or lie it

Meu estilo de vida determina meu estilo de morte

Siga procurando

A busca continua…

Frenética tica tica tica tic-toc mente

*

PRA QUE A PRESSA?

*

ABENÇOADA RAIVA

*

Fuck it all and no regrets

I hit the lights on this dark sets

raiva no pescoço, eu me enforco, logo…

e eu quero que minha raiva seja sadia

só pra mim

ela não pode me controlar

*

ingrediente necessário

quero que ela seja eu

*

que ela se liberte! um terremoto produtivo

mensagens que beiram a redundância, é preciso estar vivendo ou ter vivido um período semelhante

*

ALGUM TIPO DE MONSTRO

*

Essa é a voz do silêncio nunca mais

língua que fala por dentro—explorando o corpo

ela anda em círculos

o deus nem tão santo

mais vivo do que nunca!

as garras que cutucam as feridas

é o fim que nunca termina

é uma nuvem de verdades

este momento somos…

*

Eu sou quem eu penso que sou?

julgamento, eu martelo—sou juiz, júri e carrasco

ambigüidade inerente

*

autismo, isolamento

preso no seu cérebro

qualquer um é suspeito

eu me escondo, mas (se me cutucar) te mostrarei…

me deixe desaparecer no horizonte

*

abra seu coração, estou batendo à porta

ó, que bom menino você é

desplugando de tudo

orbitando a si mesmo

foi invadido:

MEU MUNDO

Mamãe, por que chove no meu quarto?

anime-se, o tempo vai abrir

neblina densa, nada eu vejo

os filhos da puta tentam entrar na minha cabeça e me mudar

não é que eu não saiba a resposta

eu nem sei qual é a pergunta

manda bala de novo, ainda não morri

todos os tiros que levo

cuspo de volta em você

toda merda que atira

volta pra te assombrar

*

*

que diferença eu fiz?

*

*

Mesmo com uma bala nas costas, não sairei do lugar

Atire em mim, leve um tiro!

tô encalhado e por minha conta (TIC-TOC)

*

mordo minha língua tentando não revidar

*

acorde o gigante adormecido, a besta, o cão, não, deixe-me hibernar!

*

minto para obter um sorriso

doce âmbar—incenso (do amor)

quão doce é você

quão doce pode ficar?

*

gato e rato

eu fujo mas eu volto

*

já estive aqui antes

cada instante aqui morro um pouco mais

o sentimento inefável desperta e me domina

segurança na solidão

eu espero esse trem

joelhos sobre os trilhos-recorrentemente

*

tudo lavado, ficou branco, só sinto o cheiro doce do passado, não danço com o que poderia ter sido, não danço com esqueletos

*

amor é controle (raiva controlada?)

morrerei se me deixar levar

odeie-me

deixo-a correr depois puxo a rédea

*

só deixarei você respirar

o ar que eu te der

-se não quiser sufocar

depois veremos se deixarei me ama[ta]r

*

Desejo poder, desejo fazer

Satisfeito?

cuidado com o que deseja, pois pode obtê-lo! Você quer tirar a própria vida

*

você quer ficar só

*

desperdiçar o ódio

vou guardar pra mim

queria um abraço, mas só a pedra fria pode dá-lo

*

Enquanto nos reunimos hoje

Nos despedimos

O escravo se torna o senhor

Futuro e passado ambos discordam

vejo o fim em

mim…

[ARQUIVO] UMA ODE AOS COVERS

Originalmente publicado em 25 de abril de 2012

Há uma discussão tão longa e acalorada—principalmente entre os brasilienses, supostos habitantes de uma “cidade do rock”—que me propus a escrever sobre isso, para que não me repita em conversas por aí, além de poder ordenar melhor minhas idéias. Primeiramente, um pouco sobre mim: amo a música, mas não sou músico. Quando criança aprendi a tocar teclado como que obrigado pelos pais, portanto sem amor ou espontaneidade. Minha paixão por escutar bandas adveio somente na adolescência. Hoje tenho 24 anos, portanto obviamente haverá muitos leitores com mais experiência do que eu, podendo eu me desculpar desde já pela eventual leviandade de minhas palavras! Em segundo lugar, diria que durante 90% do tempo dedicado a ser ”expectador desta maravilhosa arte” estou ouvindo “metal e derivados” e disso são os shows que prefiro freqüentar. Considero que somente nesses meios tenho o que se pode chamar de amigos. Mas não me rotularia de metaleiro (ainda que meu vestuário cotidiano se componha quase totalmente de camisetas de bandas do gênero!), por não ser fechado a outros estilos nem me considerar pertencente a uma ideologia ou grupo exclusivamente de metalheads ou headbangers. A despeito das muitas pessoas brilhantes e visionárias que conheço e que se enquadram no rótulo, estas são as exceções. Devo retratar o metaleiro-padrão, o famoso “estereótipo”, como um ser desagradável e superficial, tanto quanto o pagodeiro-padrão, o indie médio ou o sertanejo-clichê. Creio que não preciso me alongar mais neste ponto.

Sem mais delongas à polêmica: incentivar ou não shows cover em Brasília? Dizem que “a cena morreu”, que “não se fazem mais bandas como antigamente”, “o pessoal não leva compromissos a sério”, “ninguém respeita os músicos”, “o preconceito ainda é grande contra nós roqueiros”, “não há casas de espetáculo disponíveis”, “não sabem produzir”, “a audiência não é fiel”, etc., etc. Não gostaria de repisar esses discursos, que ora refletem a realidade ipsis literis, ora não passam de falácia! Podemos contar nos dedos os eventos, a cada fim de semana ou mês, que contemplem a galera do heavy metal (procurando englobar gêneros adjacentes como punk, hard rock, hardcore, thrash, death, black, grindcore, grunge, stoner, crust na medida do possível) em todo o DF. Dentre estes, há(veria?) uma subdivisão do público: aqueles que preferem as bandas que tocam o som de outras bandas mais renomadas; e os que têm em mais alta conta os “artistas autorais”, isto é, que mandam ver com seu próprio som em cima do palco.

A meu ver, não existe música sem boa dose de ambas as vertentes, ainda que seja seu direito ter uma “favorita”. Estudar o passado é obrigatório para quem quer, por sua vez, fazer escola. E se ater exclusivamente ao passado é martelar pregos no caixão. Dos menores aos maiores nomes da música contemporânea, não vejo banda que não tenha dedicado tempo a regravar aqueles que os inspiraram, e que não tenha perdido noites pensando, rabiscando, compondo, ensaiando, enfim, criando material inédito…

À parte a dupla categorização, dizem que shows com apenas músicas próprias são economicamente inviáveis para bandas em seus começos, se não forem excepcionalmente qualificadas, porque não haveria demanda por procurá-las ou o menor interesse empresarial por revelá-las. Pode ser que sim. É até mais difícil cativar o público que não conhece as melodias (ou a falta delas, dependendo do estilo), as letras, às vezes nem o nome de quem está se apresentando! O que não entendo é por que isso se transforma, para alguns, em ódio manifesto aos concertos-tributos, de covers dos clássicos. Como se as bandas cover fossem as responsáveis pela propalada “decadência” do cenário das bandas independentes! Como se tais shows não ajudassem imensamente a divulgar aquele som e aquela cultura e a fomentar a criatividade em mentes férteis! Se os eventos cover são mais numerosos (e eu não sei se isso é mesmo verdade), mais bem-divulgados, vamos agradecer pela oportunidade de louvar os “deuses”—mortos ou vivos—do rock ‘n’ roll e do metal, ao invés de emburrar e nos lamentar por tal predomínio e pela escassez das “bandas de verdade” (como se um cover não fosse também uma performance autêntica, que exige energia e muito treino), como já me disseram.

Dever-se-ia militar por mais shows, de ambas as variedades (autorais e covers), por eventos que mesclassem ambas as tendências, não pela ABOLIÇÃO ou pelo BOICOTE de eventos cover. Sinto esse dissídio, essa eterna tensão entre dois extremos inconciliáveis, por onde passo. Posso estar pintando com cores exageradas e extravagantes, estilizando os pontos de vista um bocadinho. Talvez seja, ao cabo, uma percepção enganosa de minha parte, mas nas ruas, nos encontros e nas redes sociais é esse o teor da coisa. Sobre a credibilidade da testemunha, não posso opinar, porque qualquer auto-análise seria distorcida. Só gostaria de lembrar que a dita “cena” é construída por TODOS, ainda que não haja uníssono ou consenso entre as partes… E que todos que amam o estilo querem que ele cresça.

[ARQUIVO] CERVANTADAS

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

O lado bom de construir estádios monumentais, neo-Coliseus, para a Copa é que os pobres vão ter sua copa: se houver um desastre natural os desabrigados poderão contar com estas instalações como casa e escola—ao menos enquanto não houver jogo, não for sábado nem quarta, nem domingo, nem sexta, nem… show da Ivete, e que os polícias estejam de bom humor, valha-me Deus!

* * *

“se em seco faço tanto, que não faço no molhado?”

*

“deve contentar-se com dar cabeçadas na água”

*

“letra de processo, que nem Satanás entende.”

*

“A ninfa Eco, filha do Ar e da Terra, foi condenada por Juno [Hera] a só falar repetindo as duas últimas sílabas do que lhe diziam. Desprezada por Narciso, recolheu-se a uma gruta, onde se consumiu em pranto”

*

421: meu ancestral, Dom Pedro de Aguiar

* * *

Fazer coisas trabalhosas ou não fazer nada?

Eis a questão que posso me colocar—mas até qd?

Saudades infindáveis

de percorrer o minhocão como quem não quer nd

de pretender ser um trabalhador

saudade, ô saudade, de ainda não usar trajos sociais

e bater o ponto _____ xérox _____ café _____ cigarro ___ ônibus

a pé ______ tudo ____ cansa  até ___________ o tédio

cada obj concluído ______ plim ______ fumaça

os incomodados que se internem!

os abusado(re)s que se revelem!

olhar o horizonte e achar bom o inefável—

essa vidinha +-

* * *

Eu poderia te cor(o)ar com minhas macaquices, princesa!

*

“Fala por seis, bebe por doze”

*

O mais racional agora é esperar algo cair do céu

[ARQUIVO] ENTREVISTA COM O VAMPIRO — Anne Rice (na tradução de Clarice Lispector)

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

Visão em que os crucifixos não podem fazer nenhum mal e vampiros não podem virar vapor para passar pelo buraco de uma fechadura. Sangue demais dá enjôo. “podia me ver no espelho” “ele nos dizia para comermos tudo” “inofensivo, mas idiota, o produto de quatro gerações de casamentos entre primos de primeiro grau.” “Aos cochichos, as empregadas contavam como, por uma fenda da porta, nos viram jantar em pratos e baixelas vazios, levando copos vazios aos lábios, nossos rostos pálidos e fantasmagóricos sob a luz das velas”

“Pai e Filha. Amante e Amante.” “Havia algo terrivelmente sensual no modo como se estendia no sofá numa camisolinha de renda e pérolas.” “Era isto que ela era. Uma boneca mágica.” “apesar dela me evitar e me angustiar, como se tivesse sido minha noiva.”

“E suponha que o vampiro que o fez não sabia nada, e o vampiro que fez este vampiro não sabia nada, e que o vampiro anterior não sabia nada, assim por diante, o nada precedendo o nada, até o nada! E precisamos viver com o conhecimento de que não há conhecimento.”

“Acho que senti um arrepio de prazer quando ela disse tais palavras: Deixemos a carne guiar a mente.”

“Acho que vi Macbeth com ele umas quinze vezes.”

“O inferno é ódio, pessoas vivendo juntas em ódio eterno.” Um Big Brother.

Os vampiros deixam restos mortais! Mas o expediente da estaca no coração e da degola continua válido!

Pintores do grotesco: Brueghel, Bosch, Traini, Dürer, Boticelli.

“Não começava a tagarelar a cada pausa, nem a demonstrar que tinha compreendido algo antes do pensamento terminar, nem a discutir num impulso irresistível—as coisas que geralmente tornam um diálogo impossível.”

Vampiros, pela cessação da imortalidade, só podem suar sangue!

“Respiração”?

[ARQUIVO] STALIN(+)SKY

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

SOBRE A IMPORTÂNCIA QUE HITLER DÁ À ORALIDADE: “Esse critério de Hitler se baseia em grande parte, sem dúvida, em que não sabe escrever.” Stalin seria, por outro lado, péssimo orador.

“bêbado como um sapateiro”—ditado popular russo.

“Há só um povo no mundo que beba tanto vinho como os georgianos.”

“Não lhe apenou a prematura morte de seu pai; unicamente se sentiu mais livre.” “Desde sua juventude, a maquinação de tramas vingativas se converteu para ele num objetivo que dominava todos os seus esforços.” Os 3 irmãos mais velhos de Stalin morreram ainda bebês.

ESCOLA TEOLÓGICA: “As obras de Tolstoi, Dostoievski, Turgeniev e outros clássicos, permaneciam inacessíveis.” “O livro era o companheiro inseparável de José, que não se separava dele nem durante as refeições” <Expulso> da instituição, como eu! “Costumava replicar às bravatas de seus professores com suas risadinhas envenenadas e desdenhosas.”

Trostsklodyta

“A blusa suja, as botas sem engraxar, o cabelo despenteado eram também características gerais de todos os jovens agitadores”

“uma parte de Maquiavel com duas partes de Judas”

“ler durante a prisão o maior número possível de livros” “A onda terrorista alcançou sua culminância em 1907.” “estudava tranqüilamente o esperanto (estava convencido de que o esperanto era o idioma do porvir)”

“o sentimental semi-bolchevique Gorki”

“A preguiça, uma cautela desordenada, a falta absoluta de recursos literários, e, finalmente, uma indolência oriental extrema se combinavam para manter a pluma de Stalin pouco menos que improdutiva.”

T. tem raiva dos poetas.

“O Marxismo e o problema nacional é, indubitavelmente, a obra teórica de mais importância de Stalin.” 40 páginas

“Cada vez que os dirigentes do bolchevismo tinham que atuar sem Lenin, incorriam em erro, inclinando-se em geral à direita. Então surgia Lenin como um deus ex machina, e sinalizava o caminho certo.”

“Perezoso por naturaleza, Stalin puede trabajar a presión sólo cuando están en juego sus intereses; de otro modo, prefiere fumar una pipa y pasar el rato.” “Quanto mais calor há na atmosfera, mais frios são os manejos de Stalin.” “Ademais, inclusive os mais arrojados sentem algo de frio na boca do estômago em vésperas de uma insurreição.” “Stalin confiava na máquina muito mais que nas massas.” “Circunstâncias extraordinárias deram a sua ambição um vôo assombroso ainda para ele mesmo.” “Completamente distinto é o caráter da subida de Stalin. Não pode se comparar com nada de tempos passados. Parece não ter pré-história.”

“era heróica da Revolução”

“Contra a vontade de Lenin, por sua própria iniciativa, Stalin realizou a bolchevização ou estalinização de seu país natal…”

“O XII Congresso, que compreendeu a semana de 17 a 25 de abril de 1923, elevou Stalin do último ao primeiro posto dentro do triunvirato.”

“o cozinheiro dos pratos carregados de pimenta.”

“predecessores seus tais como César Bórgia.”

Seria mesmo possível que o da “boa-nova” amaria esse sofisticado maquiavelismo novecentino?

O envenenador de Nero, “o velho Locusta”.

Máximo Gorki foi morto no princípio do stalinismo. “Gorki nunca foi conspirador nem político. Era um velho bondoso, defensor do oprimido, um protestante sentimental.”

Trotsky vê nesses “hiatos morais no poder” encarnados em tiranos o indício de um novo modo de produção. “A vingança da História é mais terrível que a do mais poderoso secretário geral. Atrevo-me a dizer que isso é consolador.” Chama os tecnocratas de cupins.

436-7: a “arte”

“A atitude de Stalin ante esse crescente anti-semitismo era de amistosa neutralidade.”

Trotsky, esse desafortunado camarada-espelho de Robespierre. Rei do simplismo: “a propriedade privada é o único obstáculo sério que se opõe ao desenvolvimento adequado das forças produtivas.”

Os kulaks, os sobreviventes rurais dos “tempos de propriedade privada” (era necessário mantê-los vivos até a consolidação da revolução).

“Nem mesmo Napoleão I foi tão plebeu em suas origens como os ditadores de nosso tempo.” Napoleão III já era desprovido de talentos no campo de batalha. “Lenin vinha a ser um Cromwell moscovita.” Hitler assumiu na Alemanha 11 anos depois de Mussolini (“César + Siefried + Al Capone”). “a suástico não foi o escudo de Hitler, mas unicamente um símbolo roubado dos egípcios e dos indianos.” “Mussolini é a verdadeira personificação do egoísmo cínico e da covardia oculta detrás do disfarce de sua jactância.” “La societé c’est moi”

T. acima do Bem e do Mal, i.e., Bolcheviques e Mencheviques.

GLOSSÁRIO (espanhol):

encono: ressentimento

[ARQUIVO] PENSAMENTOS PASCALIANOS

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

“Dá-se hoje o nome de abismo de Pascal à dificuldade que certos problemas sociais ou morais oferecem em sua elucidação.”

Cromwell teria morrido por causa de um grão-de-areia em sua uretra.

Niilismo comendo pelas beiradas!

“Dediquem a esta leitura algumas das horas que tão inutilmente empregam fora: se alguma aversão experimentarem, talvez reconheçam ainda assim alguma coisa ou, pelo menos, não perderão muito.”

“As outras religiões, como as pagãs, são mais populares, porque se exteriorizam: não são, porém, para as pessoas hábeis.”

“Nenhuma outra religião pode, pois, agradar aos que odeiam a si mesmos e que procuram um ser verdadeiramente amável.”

“Quando se lê depressa ou devagar demais, não se entende nada.”

“Se considerarmos a nossa obra imediatamente depois de a termos executado, ainda somos bastante prevenidos; se muito tempo depois, não a entendemos mais.”

“Conhecemo-nos tão pouco que muitos pensam morrer quando estão passando bem; e muitos parecem passar bem quando estão próximos da morte.”

“Ora, em que pensa o mundo? (…) em dançar, em tocar alaúde, em cantar, em fazer versos, em correr o anel (…) em fazer-se rei”

“Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado.”

“toda a infelicidade dos homens provêm de uma só coisa, que é não saberem ficar em repouso num quarto.”

“Que quimera é então o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que motivo de contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, imbecil verme da Terra, depositário do verdadeiro, cloaca de incerteza e de erro, glória e escória do universo.”

Para Pascal, subsiste-se ora sendo pirroniano (estóico) ora sendo dogmatista.

“Por que me matais? Como! Não ficais do outro lado da água? Meu amigo, se ficásseis deste lado, eu seria um assassino, seria injusto matar-vos da mesma maneira; mas, desde que ficais do outro lado, sou um bravo, e isso é justo.” Sobre a divisão em nações.

“É preciso ter um ponto fixo para julgar. O porto julga os que estão no barco; mas, onde tomaremos um porto na moral?”

P.sacal

“Não mostramos nossa grandeza ficando numa extremidade, mas tocando as duas ao mesmo tempo e enchendo todo o intervalo.” “por mais elevados que estejam, unem-se aos menores dos homens por algum lugar.”

“Que tolo projeto teve Montaigne de se pintar!”

“César era muito velho, parece-me, para ir divertir-se em conquistar o mundo. Esse divertimento ficava bem em Alexandre: era um rapaz difícil de conter; mas César devia ser mais maduro.”

“Querei que se fale bem de vós? Não o faleis.”

Na segunda metade de seu trabalho, é um imoralista!

“Dois rostos semelhantes, dos quais nenhum faz rir em particular, fazem rir juntos pela sua semelhança.”

SIMPLESMENTE A ENUNCIAÇÃO DO ETERNO RETORNO (115, LXII): “A natureza recomeça sempre as mesmas coisas, os anos, os dias, as horas; os espaços também, e os números estão nos dois sentidos em seguida uns dos outros. Assim, faz-se uma espécie de infinito eterno. Não é que haja nada de tudo isso que seja infinito e eterno; mas, esses seres terminados se multiplicam infinitamente. Assim, parece-me, só o número que os multiplica é infinito.”

E A LEI DO TRÁGICO: “Tudo o que se aperfeiçoa por progresso perece também por progresso.”

“é preciso dizer como os outros, mas não pensar como eles.”