[ARQUIVO] FAUSTO

Originalmente publicado em 21 de setembro de 2013

A ciência, a matemática, tudo estragaram. A moça despetalando, bem-me-quer, mal-me-quer não fala. Já calcula… como o atleta do dominó faria.

Jogar para quê, se sei que vou perder?

317: do “plágio” ou “inspiração”


Vol II P. 260 v.7.428-7.433

Se é mitológica, é única a mulher;

Recria-a o poeta como lhe prouver.

Não envelhece, nem fica madura,

Mais sedutora, sempre, sua figura.

Raptam-na, moça; idosa, ainda é do amor a meta;

Pois basta! não se atém ao tempo o poeta.


O próprio Fausto(s) é tão fragmentário quanto o MESSIA(S).

[ARQUIVO] NEUROMANCER+DOIDO DE ÁCIDO

Originalmente publicado em 21 de setembro de 2013

“como se uma centena de conversas, independentes umas das outras, tivesse atingido simultaneamente a mesma pausa.”

“Para Case, [24 anos] que havia vivido na incorpórea exaltação do ciberespaço, isso [ter sistema nervoso artificialmente danificado] constituiu a Queda.”

Linda Lee, a junkie.

“Depois de um ano de urnas, o quarto no 25º andar do Chiba Hotel parecia enorme.” Típico de um Japão do amanhã…

O quebra-gelo da Ciberguerra Fria: ICE—Instrumento de Contra-Espionagem.

“Estava lá quando eles inventaram a sua espécie.”

Julie Deane, homem.

“Em casa. A casa era o EMAB, o Eixo Metropolitano Atlanta-Boston, o Sprawl.”

Se alguém se acoplasse ao meu corpo e mente dessa mesma forma, a primeira coisa que sentiria seria um desconforto na bunda: “O que é isso, estou cagado? Tão cansado, inútil e impotente… E que vista suja!”

Guerra Penetrante é o Snatcher…

Zion

Simstin: a pessoa fica plugada na outra.

Por que quer me desligar? Sou indiferente!

 

[ARQUIVO] REFLEXÕES DE UM TOLO — Tomos II a IV

Originalmente publicado de 10 a 17 de setembro de 2013

Tomo II

Vocês são vermes com nutrientes riquíssimos que eu, o especialista, sei como aproveitar.

XXV

Monstro gorduroso, repelente

superpança, longe de atraente

Arrota, peida, hemorróidas

Cara inchada, pouca articulação

Igual os primos, inclusive reles vagabundo, incriador

O prato não está onde deveria estar, ó baleia!

Terás dinheiro, terás roupas e bons amigos,

quem sabe até beleza! Mas de nada vale

se não couber numa quarenta

Trinta e oito era o que eu queria usar…

Tomo IIb

Não sei por que meus parentes mais próximos não parecem se preocupar nem um pouco com a morte. Engano meu: com a minha morte. Isso é só o que me ocupa e sinto-me menos saudável que qualquer um dentre nós quatro. Sinto que há algo podre no meu interior. Seja o enxofre que vivo exalando, minha sempre manchada derme ou meus tecidos musculares…

Algo não processa! Da capacidade respiratória e a vista à finura e instabilidade dos dedos, nada consigo desempenhar bem. Minha vida está cheia de rasuras. Até a barba é falha!

Mas quanto ao que está escondido e ninguém pode ver—nem eu, o míope, mas posso sentir—, não pode ser só intelectual minha diferença (proeminência?) em relação a eles. Quase todo mês que vivo parece ser o último. Me arrasto para cumprir meu cotidiano e ninguém percebe. Cada carteira, caminhada, fisio, aula, livro ou jogo me deixa mais debilitado. A voracidade com que devoro meus alimentos não pode ser bom sinal. A porta do meu quarto parece a tampa da minha urna—só precisava ser um pouco mais escura.

Me assombra dormir a poucos metros de alguém que namora a morte com uma inconsciência e uma constância tão explícitas. Só mesmo diante da mais dormente das sensibilidades tal espetáculo não seria aterrador—ignorar o show o qual você dirige, UAU!

Me espanta a não-consideração da alternativa, em pessoas “tão velhas”. Falam do futuro como se já houvessem encomendado mais 30 anos!

GASES GAZES HOSPITAL HOSPÍCIO

le cahier de demain

“A vida inteira pela frente”

“O destino em suas mãos”

“Vontade de viver”

“Suicidas são pecadores”

A isso eu digo que sou vaso bom, e quebrarei cedo, que não depende de mim e não sei em que altura do túnel estou. Em que anel da minhoca… mas já é debaixo da terra.

Olaria é o meu rabo!

Falta o pathos antigo nessas pessoas contaminadas… Quem menos quer é quem mais se dedica, que flutuação em outra dimensão é essa, (…)?

Sou o contrário de Remo, nasci homem de animais impávidos, lobos que não querem me deixar ir rumo à cidade antropomorfa já fundada!

O caçula entra no casulo

Quem se envenena por dentro e embriaga por fora se pensa imortal. É tal sua soberba, a desse neandertal nada sóbrio!

“Nunca morri, logo não vou morrer”

A Pedra de Sísifo é só uma alegoria, mas a minha vida não! O que dizer de gente que só quer ser útil em momentos úteis? De imbecis que se isolam? De tudo e todos?!

Alguns são tão tolos que se fosse fisicamente possível dissecariam o próprio cadáver com prazer e zombeteiramente, sem saber que estão cavoucando suas tripas!

Somos pré-salame, já etiquetados, na fila, rolando numa esteira dentro de um imenso freezer.

Mas enfim… não sei minha posição e se alguns querem se jogar antes do tempo não vou impedir. Talvez eu seja mesmo rejeitado pelo controle de qualidade…

PENSANDO NO DESTERRO DO BEZERRO

Tomo III

A raiva está me comendo por dentro. Força vital lá embaixo. O mais trivial é o mais sofrível. Tudo dói. Não tenho energia para meus principais projetos e qualquer afazer cíclico-obrigatório cansa como um banquete no Mangai.

* * *

CORTINAS E LUAS / OU: PELO SIMPLES FATO DE

Sinto-me desconfortável em todo esse luxo

A luz azul que pisca e não se apaga

os travesseiros que quão mais numerosos mais me deixam na mão, alquebrado, dorido, retesado

Extensões dos meus olhos com os quais não posso ver senão contornos dos entornos

essas poderosas lentes

vaso sanitário de 5 em 5 minutos

dor nas pernas, a culpa é minha

fumo um cigarro, o chão está gelado

come uma maçã

podre pode-se lavar, o bom ovo é bom selecionar

*

Sonhos de estudos perdidos, não posso esquecer, dada minha natureza exigente, o quanto eu poderia ter exigido menos de mim todo esse tempo

Digita, digita, digita o manuscrito, estende a roupa, fecha a porta, dobra a trouxa

Dorme sem remédio para fracos

tudo menos trabalhos

escravidão a céu aberto

*

que gosto de nada no fim do cigarro

sim, gosto de água

70% de nosso corpo não existe

Tomo IV

Se eu morresse agora, qual seria meu preâmbulo?

[Inspirado pelo último episódio da série Lost.]

Não numa igreja; sem caixões. Incluiria pessoas de todas as épocas. (…)

Pode ser um grande Marreco’s Fest com um telão monstruoso mostrando a Libertadores de 2005. Todo mundo comemorando! Minha aparência? 16 anos.

Medo de que tudo esteja mais vazio e triste do que imagino…

Muitos parentes mortos, bem corados. Reunião da galera para jogar Mortal Kombat e Mario Kart. Uma ou duas aulas com alguns dos meus favoritos. Ah, e é claro, as melhores comidas! Prazeres são terrenos, temporário, lei do desapego/desapreço.

Dragon Ball. Uma espinha na testa, “pelos velhos tempos”. Aliás, estarei impecável de terno, farda e sapatos engraça…xados. Não procure representatividade no que não tem… Já escrevi demais, deixe agora que me leiam—tarde de autógrafos? Rádio Gisno (…) E o maior desejo ao final: poeira cósmica, chega de reencarnações!

Chegamos de dia, céu cinzento, partimos de noite… Grande antessala!

Talvez a antessala sejam os sonhos entrementes de todos os dias. As duas vidas irão se fundir, ao cabo.

[ARQUIVO] O DIA EM QUE BRASÍLIA ASSUMIU SUA VERDADEIRA FORMA

Originalmente publicado em 10 de setembro de 2013

Uma megalópole. Pessoas escorrendo pelo ladrão, como ratos, afobados, de cá pra lá. Quem sabe de longe façam sentido e sejam uma turba coordenada. É assim que um tempo se resume.

Mas falo do seguinte. Em um ponto que não chegou a vivenciar a realidade da superpopulação. Um oásis perdido de máscaras e parcos zumbis. É ainda mais estranho, ouso dizer, quando uma casa de um ou dois membros fica de repente vazia do que a deserção pós-festa ou banquete! Uma cidade que já era meio-fantasma, com a outra metade do copo finalmente vazia? Onde a normalidade não seria obtusamente diferente, mas aí é que está a sutileza do espanto. Pensávamos que estávamos acostumados ou que nos podíamos acostumar aos dias de solidão absoluta, quando ela era apenas relativa. E a solidão relativa é bastante acolhedora.

Olhei pela janela assim que acordei. Não notei nada de diferente. Saí do apartamento e desci pelas escadas, como de hábito, já que o elevador não funciona faz tempo. Ninguém na guarita. Nenhum carro em movimento. Ninguém dentro dos carros parados. A não ser que se ocultassem por trás dos vidros escuros. Um carro ou outro se encontrava parado no meio da rua, uma porta ou portas abertas. Percorri a quadra. Subi à W3. Ainda não senti vida, nem pombas ou pássaros. É de tarde, suponho. O silêncio não é ensurdecedor, como diz o clichê: ele só é ele mesmo, inacreditável tanto quanto a calma mantida pelo pulsar de meu organismo. Imaginei, um dia, que eu podia ser O Escolhido e que isso aconteceria, e então meu primeiro pensamento era poder correr pelado impune, invadir um frigorífico e ter com o que me suster por muito tempo. Agora que chegou, será realmente assim? A moral não me massacrará sempre? Ou eu me descobrirei a pior companhia tão rápido quanto o tédio me invadir e eu implorar pela “reversão”?

Devo começar lendo livros, praticando assaltos ou atingindo 200 por hora num veículo aleatório? Esperar inerte ou provocar a morte? Decidi escrever memórias antes de ter do que lembrar-me.

[ARQUIVO] IMPLICAÇÕES…

Originalmente publicado em 5 de setembro de 2013

Uma decepção tão copiosa quanto a de quem vê a Estátua da Liberdade parcialmente soterrada em areia. Falo da perspectiva de quem descobre que não há um último ideal: a) de homem; b) histórico em progresso. Que as guerras violentas das próximas castas não me dizem respeito. Mas não me dizem respeito não no sentido existencialista mesquinho e sim quando reparo que aquilo que os meus descendentes fazem, vingando-se por mim, não representa um acréscimo de valor, porque seria contraditório—dado o círculo—que eu fosse o acréscimo de valor deles mesmos. Nós somos os supra-homens. Que o cosmo se retroalimente e seja sempre novidade, isso nada tem que ver com o meu eterno. Ser o supra-homem é chegar a esta conclusão de inultrapassabilidade. Segue-se daí que na hesitação entre coroarmos o passado ou o futuro, coroamos a nós mesmos. Realizar-se sem suprimir-se.

Séculos áridos.

A principal implicação é para o Messias e sua busca infrutífera, posto que é perfeito.

Um alienígena mais bonito do que nós?

[ARQUIVO] OS PENSADORES — Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca & Marco Aurélio — Várias obras

Originalmente publicado em 31 de agosto de 2013


PRÓLOGO

“Ao contrário do que se propunha o socratismo, epicuristas e estóicos fazem da ciência sobre a natureza das coisas a base para suas construções morais.”

“Cícero foi o mais eminente representante da escola filosófica eclética”

“O neoplatonismo constituiu a mais perfeita manifestação de sincretismo religioso dessa época [séc. II ao séc. VI d.C.] e teve em Plotino (204-270) seu principal representante.” “o canto de cisne do pensamento da Grécia Antiga” “Antes de se calar, a filosofia medita sobre um último tema: o silêncio”

Epicuro: discípulo do discípulo de Demócrito. Um dos primeiros existencialistas ou o pai do existencialismo, no senso moderno.

“À dor do presente pode-se escapar por meio da lembrança dos prazeres passados ou pela expectativa de prazeres futuros.”

“Segundo Diógenes Laércio, a obra de Epicuro compreendia cerca de 300 títulos” Nenhum sobreviveu na íntegra.

Embora Zenão, o primeiro estóico, seja um apólogo da racionalidade cósmica absoluta, o espírito heraclitiano do eterno vir-a-ser nele reside.

Estóicos e epicuristas não se distanciam na busca pela SERENIDADE.

Zenão é, ainda, grego; Sêneca romano (nascido na Espanha).

“Cronologicamente, o segundo grande representante do estoicismo romano foi Epicteto (c. 50-130 ou 40-125)” Escreveu 8 livros e restaram 4. Marco Aurélio: seu ávido leitor. “Aos 11 (!) anos de idade, M.A. conheceu o estoicismo” Os dois são frasistas por excelência.


MARCO AURÉLIO

A) MEDITAÇÕES

Diz que seu pai, o imperador Antonino Pio, acabou com a pederastia.

“o entregar-se às tarefas habituais logo após os acessos de dor de cabeça, refeito e em pleno vigor” “o não tomar banho em hora imprópria” “não se preocupar com requintes à mesa” “o ter preservado minha juventude e não ter usado a virilidade antes do tempo, tendo-o, ademais, ultrapassado”

“é possível viver na côrte sem necessitar de guarda pessoal” “o ter-me curado das paixões amorosas concebidas ao depois”

Casou-se com a prima, filha de sangue de seu tio, quer seja, o antigo imperador e seu pai adotivo, pois foi órfão ainda cedo.

Ao mesmo tempo que se afirma livre de superstições e crendices, relata consultas com um oráculo. Estranhos tempos!

“Previne a ti mesmo ao amanhecer: ‘Vou encontrar um intrometido, um mal-agradecido, um insolente, um astucioso, um invejoso, um avaro’.” Às vezes tudo num só!

“Lança de ti a sede de leituras, para não morreres rezingando [resmungando] e sim com real contentamento, agradecendo de coração aos deuses.”

“desvairam, com efeito, aqueles que, ao cabo de tantas ações, se enfastiam da vida e carecem dum alvo para onde orientar todos os seus impulsos e, numa palavra, as suas cogitações.”

“Em todos os teus atos, ditos e pensamentos, procede como se houvesse de deixar a vida dentro de pouco.”

“Como tudo desaparece depressa! No espaço, os corpos mesmos; no tempo, sua memória!”

“Nada mais digno de pena do que aquele que a tudo faz a volta completa, investigando, como diz Píndaro, o âmago da terra”

“Mesmo se houveres de viver 3 mil anos ou 10 mil vezes esse tempo, [30 milhões de anos] lembra-te de que ninguém perde outra vida senão aquele que está vivendo, nem vive outra senão a que perde.”

“Heráclito, autor de tratados tão valiosos sobre a destruição do mundo pelo fogo, morreu cheio de água por dentro e todo untado de bosta.”

“Não esquece que o interesse por toda a Humanidade é conforme com a natureza humana.”

“seja o deus que há em ti, o superior de um ente viril (…), um príncipe que a si próprio tenha disciplinado”

“Quem é digno não encena dramas, não dá gemidos, prescindirá do isolamento e da multidão”

“A gente procura para si retiros nas casas de campo, na beira-mar, nas serras; tu também costumas anelar vivamente por isolamentos desse gênero. Tudo isso, porém, é o que há de mais estulto, quando podes retirar-te em ti mesmo à hora que o desejes.”

“Com efeito, com o que te irritas? Com a maldade humana? Sossega.”

“a gloríola te fascinará? (…) a volubilidade e falta de critério dos aparentes aplausos”

“O mundo é mudança; a vida opinião” Demócrito

“Suprime a opinião e estará suprimido o lesaram-me, suprime o lesaram-me e estará suprimido o dano.”

“A esses que hoje vêem em ti uma fera e um símio, dentro de dez dias parecerás um deus, se tornares atrás, aos princípios e ao culto da razão.”

A glória póstuma de Marco Aurélio

“Se as almas sobrevivem, como pode comportá-las o ar desde a eternidade? (…) Como aqui a transformação e dissolução de uns após alguma duração abrem para outros cadáveres, assim as almas transferidas pelo ar, depois de subsistirem algum tempo, se transformam, se derramam, ardem absorvidas pela razão seminal do universo e dessa maneira deixam lugar às que emigram depois.”

“Um apostema do mundo, quem se retira e aparta da razão da natureza comum por não se conformar com os acontecimentos; porque a natureza que os traz é a mesma que te trouxe.”

“Tudo é passageiro, logo se torna lendário, logo o olvido completo o sepulta. Isso digo daqueles que luziram de maneira admirável, porque os demais, apenas morrem, somem, são desconhecidos.

“Que é, afinal, a memória eterna? Um vazio apenas.”

“Todo ser é de certa forma a semente do que dele há de vir a ser.”

“ontem, um pouco de muco, amanhã, múmia ou cinzas.”

“Ser como o promontório onde se quebram incessantemente as ondas; ele queda-se ereto”

“Olha o abismo de tempo atrás de ti e o outro infinito à frente.” “Marco <O Plagiado por Jean-Paul Sartre> Aurélio

“mesmo a mais simpática das pessoas de teu convívio te custa suportar, para não dizer que a ela mesma custa agüentar-se.”

“De que tenho agora a alma? Duma criança? Dum adolescente? Duma mulherzinha? Dum tirano? Duma rês? Duma fera?” Provavelmente essa é sua hierarquia decrescente da pureza.

“V.13. Consisto em causa formal e material; das duas, nenhuma se desfará no não-ser, assim como não proveio do não-ser. Logo, cada parte de meu ser irá localizar-se, por via de transformação, numa parte do universo; esta, por sua vez, se mudará numa outra parte do universo e assim infinitamente. Por via de semelhante transformação surgi eu, bem como meus genitores; poder-se-ia remontar a outro infinito, pois nada impede se afirme isso, ainda que seja regido o universo por períodos delimitados.”

“Tu te irritas com quem tresanda bodum? Tu te irritas com quem tem mau hálito? Que queres que ele faça? Sua boca é assim; suas axilas são assim; tais partes hão de ter por força tais exalações.”

“O que tanto se estima na vida: vazios, podridões, ninharias, cães que se mordem, crianças briguentas, que riem e logo estão chorando.”

“A substância do universo é dócil e maleável; a razão que a rege não tem em si nenhum motivo de fazer o mal, não tem maldade, não faz mal nenhum e dela nada recebe nenhum dano.”

“A melhor maneira de arredá-los é não parecer com eles.”

Para euforia de Zagallo, os aforismos 13 são sempre os melhores.

“a presunção é uma embusteira formidável e quando mais te imaginas entregue a tarefas sérias, aí é que estás sendo mais ludibriado.”

“Como é estranha sua atitude! Não querem louvar os homens que vivem na mesma época e em sua própria companhia mas dão grande importância a terem o louvor da posteridade”

“A morte é o descanso das repercussões sensórias, do titerear dos impulsos, das divagações do intelecto e dos serviços à carne.”

“Que prazeres enormes terão experimentado os bandoleiros, os devassos, os parricidas, os tiranos!”

“Não vês como os artífices, com se adaptarem em certa medida aos profanos, nem por isso deixam de ater-se aos princípios de sua arte e não suportam afastar-se deles?”

“Quem viu o presente viu tudo, não só o que existiu desde a eternidade como tudo o que haverá no tempo infinito, pois tudo tem a mesma origem e o mesmo aspecto.”

“Assim como te enfadam as funções no anfiteatro e espetáculos semelhantes, assim deves sentir a respeito do curso da vida, pois tudo, de alto a baixo, são os mesmos efeitos das mesmas causas. Até quando?”

“Nada há de novo; tudo é corriqueiro, tudo é efêmero.”

“Ao homem é sumamente possível ser como um deus sem ser reconhecido por ninguém.”

“É cômico não fugir à própria maldade—o que é possível; e querer fugir à dos outros—o que é impossível.”

“Um dos fatos que contribuem para a despretensão é o de já não depender de ti o teres vivido toda a existência ou, pelo menos, desde a juventude, como filósofo.”

“Falar, quer no Senado, quer na presença de quem for; com apuro e clareza”

“Último de sua linhagem”

“Mecenas foi protetor de Horácio e Virgílio; seu nome tornou-se apelativo de todos os ricos que amparam escritores e artistas.”

“Ganhar sem orgulho e perder com abnegação.”

“A homem nenhum pode suceder nada que não seja contingência humana; nem ao boi que não seja de boi.”

“Comunicaram-te que fulano fala mal de ti. Comunicaram isso; que ficasses prejudicado não comunicaram.”

“Matam-te, espostejam-te, perseguem-te com maldições? Que há nisso que impeça tua mente de conservar-se pura, sensata, prudente, justa? É como se alguém, parado junto duma fonte clara e doce, a insultasse: ela não deixaria de manar sua água boa de beber.”

“Queres ser louvado por um homem que se maldiz três vezes por hora? Queres agradar a um homem que de si mesmo não se agrada?”

“As coisas, por si mesmas, param do lado de fora, sem nada saberem de si e nada manifestarem.”

“Qual a razão de dizeres que tudo saiu errado e que tudo sairá sempre errado e nenhum poder se encontrou jamais, entre tantos deuses, que venha a corrigi-lo, e que o mundo está condenado a afundar em misérias perpétuas?”

Receita de Epicuro: que o doente não converse sobre a doença e continue seus estudos habituais.

“Podia não haver impudentes no mundo? Não podia. Não reclames, portanto, o impossível” “Com a lembrança de que é impossível não existir essa espécie de gente, serás mais indulgente para com cada um.”

“O permaneceres tal qual tem sido até agora e te deixares nessa vida lacerar e conspurcar é próprio de indivíduo grosseiro e apegado à vida”

“O que querem os deuses? Não querem ser adulados e sim que a figueira faça o mister de figueira, o cão o de cão, a abelha o de abelha e o homem o de homem.”

“Quem depositou o sêmen na matriz retira-se; daí por diante outra causa se encarrega de completar e acabar o nascituro. O que foi e o que é!”

“Ninguém tão sortudo que à cabeceira de seu leito de morte não velem alguns jubilosos com o triste acontecimento.”

“por menos inteligência que tenha, o quarentão viu, em retrato, todo o passado e o futuro.”

“Que essa preparação [para a morte] provenha de um juízo próprio e não dum simples sectarismo, como o dos cristãos” Primeira menção à religião em seus escritos; surpreende a oposição!

“Crescer no mesmo tronco, som; adotar os mesmos princípios, não.”

“Desprezam-se mutuamente, mas mutuamente se bajulam; querem dominar uns aos outros, mas submetem-se uns aos outros.”

“O ente amado tudo compreende de imediato no olhar dos amantes.”

“Quão rançoso e falso quem diz: ‘Resolvi ser sincero contigo!’—Que fazes, homem? Esse preâmbulo não se usa. Sinceridade deliberada é cutelo. Nada mais ignóbil que amizade de lobo; foge dela mais que tudo.”

“O rato do mato e o caseiro; a timidez e fugacidade deste.”

“Quem beija um filhinho deve, ao que dizia Epicteto, murmurar no íntimo: ‘Talvez morras amanhã’.”

“Ladrão do livre-arbítrio não existe” Epicteto—e eu acresço: não se pode roubar o que inexiste!

“Não discutimos um tema qualquer, mas se estamos loucos ou não.”

“No uso dos princípios devemos ser como o pugilista e não como o gladiador; a este basta largar a espada e estará morto; aquele tem sempre a mão e não precisa mais do que fechá-la.”


SÊNECA

A) CONSOLAÇÃO A MINHA MÃE HÉLVIA

“Muitas vezes, minha boa mãe, estive a ponto de escrever-te para te consolar: sempre me detive. Muitas considerações levaram-me a ousar: principalmente, pensava que teria esquecido todas as minhas preocupações, se tivesse conseguido secar por um pouco tuas lágrimas, embora não podendo enxuga-las por completo; além disso, tinha certeza de que, se conseguisse confortar antes a mim mesmo, minha tentativa de tirar-te da prostração teria sido mais eficaz; enfim, temia que a sorte, sobre a qual fui vitorioso, pudesse vencer algum dos meus queridos; de qualquer maneira, pondo a mão sobre a minha chaga, era levado a querer curar tuas feridas.”

“nas doenças nada há mais danoso que um remédio intempestivo.”

“Toda dor que passa os limites do suportável tira necessariamente a faculdade de escolher as palavras”

“as pessoas que passaram toda a vida na desgraça devem suportar com forte e imutável constância mesmo as dores mais graves.”

“mas não há ninguém a quem uma madrasta ótima não tenha custado sempre demasiado caro.”

Filho do meio de três irmãos homens.

“Faz pouco tempo que recolheste os ossos de três netos no mesmo seio em que foram criados”—o filho de Sêneca é um deles; Sêneca que 20 dias depois é exilado.

“quão mais monumentais se erguem os tetos das salas de jantar, tanto mais todas essas coisas nos escondem o céu.”

“as mães, que, com feminina incapacidade de controle, querem controlar os poderes dos filhos”

“Nossos antepassados estabeleceram 11 meses de luto para as mulheres que choravam o marido”

“Se a ela [minha tia] fosse dado por sorte viver nos tempos antigos, tão simples em sua admiração pelas virtudes, quantos escritores, disputando entre si, celebrariam essa esposa que, esquecendo ser uma fraca mulher, esquecendo o mar, terrível mesmo para os corações mais fortes, expõe ao perigo sua própria vida para sepultar o cadáver [do marido]”

A província do Egito é sempre malfalada pelos homens públicos do Império: lugar instável, chacoalhado amiúde por intrigas e mexericos.

B) DA TRANQÜILIDADE DA ALMA

“que ninguém me roube um dia, pois jamais ele me indenizaria de uma tal perda”

“Escreve, pois, para ocupar teu tempo, escreve para ter proveito e não para tua glorificação, num estilo desprovido de brilho”

“Por Hércules!”

“O hipocondríaco considera como febre a menor impressão de calor.”

“tu não precisas mais nem lutar contra ti nem te censurar nem te atormentar. Estamos na etapa final: tem fé em ti mesmo e convence-te de que segues o bom caminho”

“A ausência de inquietações e o equilíbrio da alma a que aspiras são o que os gregos chamavam ‘euthymia’”

O transtorno do humor já era conhecido de há muito.

“sempre amam somente aquilo que abandonaram, como aqueles que só sabem suspirar e bocejar”

“é o cúmulo que um ancião carregado de anos seja incapaz de provar o quanto tem vivido, a não ser pela invocação de sua própria idade.”

“Por mais vasta que seja a parte do mundo que te é vedada, aquela que te é permitida será sempre maior.”

“outros não sabem dominar sua cólera e explodem com palavras imprudentes ao menor mau humor: para estes, o repouso é preferível à atividade”

“hoje em dia, [!] com tão grande penúria de pessoas honestas, deve-se ser menos exigente na escolha. [dos amigos]”

“Jamais um talento que se força produz o que se esperava; e forçar a natureza é sempre inútil.” “devemos sentir-nos sempre superiores à tarefa que realizamos” “As despesas de ordem literária, as mais justas de todas, não são estas mesmas razoáveis, a não ser que sejam moderadas.” “Para que servem inúmeros livros e bibliotecas, se o proprietário encontra apenas o tempo em sua vida para ler as etiquetas?” “Uma profusão de leituras sobrecarrega o espírito, mas não o ilustra.” “40 mil volumes foram queimados em Alexandria.” “Eu não vejo lá nem gosto nem solicitude, mas orgia da literatura; e quando digo da literatura minto, pois o cuidado pelas letras lá não era cultivado”

“Não invejemos as situações elevadas: pois o que julgamos ser o cume não é mais que a beira de um abismo.”

“Suas saídas absurdas e inúteis lembram as idas e vindas das formigas ao longo das árvores, quando elas sobem até o alto do tronco e tornam a descer até embaixo, para nada.” “preguiça agitada”

“devemos imitar Demócrito antes que Heráclito: este não podia aparecer em público sem chorar, o outro sem rir”

“o mais espontâneo de todos os sentimentos, a dor, tem também sua afetação.”

“Hércules queimado vivo”—mas acabei de ler na Divina Comédia que morreu envenenado vergando-se a uma túnica.

“Misturemos as duas coisas: alternemos a solidão e o mundo.”

“o sono também é necessário para restaurar nossas forças; mas se ele continua dia e noite é a morte. Suspensão e supressão não são absolutamente sinônimos.”

“É preciso, igualmente, ir passear em pleno campo, pois o céu aberto e o ar puro estimulam e avivam a inteligência”

“Pode-se mesmo, por vezes, chegar até a embriaguez: não, de modo algum, para nela mergulhar, mas para nela encontrar a calma, pois ela dissipa as inquietações, modifica totalmente o estado da alma e afasta as tristezas, assim como cura certas doenças.”

“É impossível alcançar o sublime e o inacessível, enquanto a alma pertencer a si mesma”

C) MEDÉIA (com um acento bem grande pra você!)

Iolco Ranma / Kurama Iolco

Rei Creonte

“Acasto, filho de Pélias, [o rei facínora assassinado por arte] subiu ao trono e perseguiu Jasão e Medéia, que fugiram para Corinto, onde foram recebidos pelo rei André Sanchez.”

Medéia, a verdadeira natureza da mulher.

“a tocha de pinho que precede o cortejo nupcial”

“Deixa de lado o medo feminino e reveste teu espírito com todas as crueldades do Cáucaso.”

“Mas são demais medíocres os crimes que agora estou lembrando… Tudo isso eu fiz, quando virgem; é preciso que minha dor se levante ainda mais terrível: agora que sou mãe, meus crimes devem ser maiores.”

A vida não é soldado para fazer sentido sempre que mandarem.

Jasão venceu Dioniso e venceu Apolo?

“tu que em tuas ações reúnes uma malvadez feminina a uma força viril e a uma completa inconsciência”

Cila, Sicília. Ex-ninfa siciliana do Peloro. Circe a transformou.

“Daqui a alguns séculos, chegará um momento em que o oceano abrirá as barreiras do mundo: uma imensa terra, Tétis descobrirá um novo mundo. E a Islândia não será mais o mais longínquo ponto da terra.”

“Caribde: O nome lhe adveio de um monstro feminino que, ao roubar os bois de Hércules, foi fulminado por Zeus e transformado em escolho”

Creonte é filho de Sísifo. Já Medéia, neta do Sol.

“O fruto de teus crimes é não considerar mais nada como criminoso. Apenas há lugar para a astúcia.”

“Vários são os mitos do fim de Orfeu: foi despedaçado pelas mênades [dionisíacas] enciumadas; ou foi dilacerado pelas mulheres trácias”

Aquiles se faz; Aquiles se paga.

Nem todos os Titãs juntos cometeram tantos crimes!

D) APOLOQUINTOSE DO DIVINO CLÁUDIO

“Em Atenas, as leis permitiam o casamento entre filhos do mesmo pai, não da mesma mãe; no Egito, também da mesma mãe.”

E) O PROBLEMA DO NIILISMO E DA VONTADE EM SÊNECA

“[Após descrever o perene estado de descontentamento do indivíduo consigo mesmo, que oscila de superexcitações à apatia] Tudo isto se agrava quando, superada uma tão odiosa angústia, nos refugiamos no ócio e nos estudos solitários, nos quais não se saberá resignar uma alma apaixonada, dotada de uma necessidade natural de movimento [calos nos pés!] e que não encontra em si mesmo [um poço cinza] quase nenhum consolo [como quando me estiro na cama pensando na Patrícia e leio o trecho mais vibrante e lúcido da Literatura Universal, o livro de cheiro de cola de capa verde, e sorrio para o amanhã ignoto] (…) De sorte que não mais suportamos nossa casa, nosso isolamento e as paredes de nosso quarto; e nos vemos com amargura abandonados a nós mesmos. (…) este redemoinho de uma que não se fixa em nada [deste blog que se repete, e a mensagem sai cada vez mais fraca] (…) esta sombria impaciência que nos causa nossa própria inércia (…) daí esta disposição para amaldiçoar seu próprio repouso, para lamentar-se por não ter nada a fazer e para invejar furiosamente todos os sucessos do próximo [E ainda rir disso. E rir, e rir, e rir de novo! O quão <sério> esse problema!] (…) [Então] começa o homem a se queixar do século, a se irritar contra a sorte, a se recolher cada vez mais em seu canto (…) qualquer coisa do mundo nos parece uma carga. Isto conduziu muitas pessoas ao suicídio”


EPICURO

A) ANTOLOGIA

“O ser bem-aventurado e imortal não tem incômodos nem os produz aos outros”

*

“Antes de mais, nada provem do nada”

Antes de mais nada, tudo provém do nada

*

“não deve supor-se que nos corpos limitados existe a possibilidade de continuar passando até o infinito a partes cada vez menores.”

As variedades de átomos não são infinitas. Eles, sim. “o universo também é infinito pela multidão dos corpos e pela extensão do vazio.” “Os [átomos] pesados não se moverão mais velozmente do que os pequenos e leves.” “É necessário que se movam com igual velocidade” “Nada impede a infinidade dos mundos.”

“não giramos em vão falando do bem”

“O homem que tenha alcançado o fim da espécie humana será honesto mesmo que ninguém se encontre presente…”

“Devemos escolher um homem bom e tê-lo sempre diante dos olhos, para vivermos como se ele nos observasse e para fazermos tudo como se ele nos visse.” Quem? Eu mesmo.


GLOSSÁRIO (português):

apostema: abscesso

bodum: cheiro forte de bode não-castrado

cutelo: arma de degolar

espostejar: esquartejar

saraiva: granizo

velo: pele de cordeiro, lã


GLOSSÁRIO (grego):

morón: idiota

[ARQUIVO] 2013: VELHOTES AUDAZES, LETRADOS & SARADOS!

Originalmente publicado em 20 de agosto de 2013

Trinta e cinco anos depois do (agora pen)último álbum de estúdio com Ozzy Osbourne, cerca de 45 anos após as primeiras reuniões da banda… a lenda negra revive. Sábado Negro, o quarteto que continua sendo o ápice e a referência máxima dentro do tema “música pesada”, dá uma volta completa no círculo: sua contemporaneidade são as próprias origens, com exceção do carcomido baterista. Muitos boatos há a respeito do seu não-retorno ao lado dos outros Três Cavaleiros do Apocalipse, mas pouco de confiável podemos entrever mediante tanta névoa—nem as entrevistas dos músicos deixam os entreveros claros. Mas, como a noite, essa banda nunca nasceu para ser clara!

O que esperar de [[[13]]], o álbum que nem precisaria ter saído numa sexta-feira para deixar todos de cabelos em pé? Mais do que uma revolução ou injeção de novo fôlego, é um pastiche que mostra que ninguém ali caducou de verdade, e todos sabem reprisar a velha fórmula das canções clássicas do Sabbath, aproveitando-se dos novos e tecnológicos instrumentos para maximizar o impacto.

“O Final do Começo” abre estrategicamente o CD. O clima é de faroeste. Versos-clichê, na boca de Ozzy, tornam-se uma verdade universal testada e consagrada pelo tempo. O ar “anti-científico” e pessimista das primeiras letras nos rememoram algumas incursões do Technical Ecstasy, embora a sonoridade esteja bem mais grave e intimidadora. Como sabemos, a lentidão do Black Sabbath é 50% de sua sensação de peso, e nem isso é capaz de manter os thrashers compulsivos e tarados por velocidade afastados da obra, graças ao virtuosismo não-aborrecido de Iommi e ao baixo sinistro de Butler, dobradinha que deixa qualquer malcriado dorme-sujo em casa onde quer que esteja ouvindo, estirado num sofá de veludo preto imaginário. Mas essa porrada foi só um aquecimento diante da faixa 02…

A faixa é 2, mas o número 4—Volume 4—é o que vem à tona de imediato. O jogo dialético sombra-luz não tem fim nas imediações do BS. Não que alguém esteja cansado por enquanto. O niilismo ataca novamente após hibernar quase meio siglo, e as filosofias do século XIX renovam sua fama de “as mais atuais” para o homem ou Homem, o que quer que ainda reste após o deicídio longamente anunciado pelas trombetas e promovido por nossas próprias mãos. Remanesce uma hesitação, uma dúvida. Ele realmente morreu? Continua, o evento, mero pressentimento de uma alma rancorosa e sem resposta no fundo da caverna…

Não é de um dia para o outro que o Além, cada vez mais desacreditado, perderá toda a sua importância paliativa, e que a esperança de sua existência de fato cessará. Até que a esperança se converta em maldição, nos agarraremos a qualquer indício de uma pós-vida. Interlocutor, você pode ajudar o eu-lírico perdido dessa canção-tumba? A agonia é muito mais longa que a duração das lamentações verbais, não se esqueça… Embora elas permaneçam como um eco surdo em nossas mentes por não poucos dias após escutarmos!

“Johnny Blade”: A Continuação? É o que parece. “Loner” é a revisitação de um tema muito conhecido pelos esquizóides fãs de Sabbath, incompreendidos entre seus pares inferiores. Ou superiores? Somos incapazes de adaptação por sermos além-do-medíocre ou sub-homens rapaces? Seria impossível tentar ser gregário sem culpa depois de ouvir o trecho:

I wonder if the loner can assimilate.

A life less lived alone plays devil’s advocate.

Através de uma música assim, comunica-se o incomunicável.

Em seguida, ninguém vai deixar de reparar que a Caravana de Planetas (não confundir com Caverna de Platão) ainda não terminou—também pudera, anos-luz são muita coisa para ser atravessados em décadas! Sabbath nunca foi sinônimo de clausura em um gênero só. Ele foi definidor, principalmente, de um (com seus diversos sub-ramos), mas isso não significa inaptidão para o restante. Lírico, melan(al)c(o)ólico, triste: assim é o lado sentimental dos quatro. Nada diferente do nosso, ou de uma criança. Só quando a Terra adquire as dimensões de um ponto perdido no espaço, oculto pelo brilho fraco e azul de Doppler de um Sol que já não é mais do que uma estrela semi-visível da galáxia vizinha, nos damos conta da nossa condição de desacompanhados de tudo e todos a não ser poeira que vaga sem gravidade por aí…

The love I feel as I fly endlessly through space

Lost in time I wonder will my ship be found

A idade da razão se sobrepuja ao desespero da nave perdida no abismo sem-fim e absurdo. Seu terror sobrepuja esse do viajante solitário, marujo do céu, porque talvez seja muito pior definhar na Terra, o falso lugar da lógica e do império da racionalidade. O relâmpago e o trovão—nessa ordem—são a síntese da desordem, e até hoje a ciência não os domou. Até hoje? Talvez estejamos no lucro de não termos sido tostados pela fúria vendética de uma nimbus gigantesca cansada de nós! Uma extinção sustentável a curto prazo é do que somos profetas. Como é viver sabendo-se que não há herdeiros para o que fize(r)mos? Nossa insônia é só um sintoma… Somos sementes estéreis, a despeito de podermos ser criativos acerca do nosso momento fatal.

Já se perguntou quando esses músicos morrerão? Se pensa que é heresia de fã, deveria, porque eles se perguntam o tempo todo. Como é isso de querer viver e morrer ao mesmo tempo? Ah, francamente… Todos nós sabemos! Somando o ontem, o hoje e o amanhã, ao menos. A vida carrega cores desbotadas de sonho, mas é melhor ter sonhos ruins e pesadelos do que afundar sem uma reminiscência, uma Musa a cantar suas desgraças…

Se existe uma canção que eu considero menos do que as outras nesse conjunto nada menos que semi-perfeito, é “Damaged Soul”, mas talvez seja só questão de tempo. Curiosamente, é a introdução mais intelectual do CD inteiro, me lembra o quase-jazz distorcido pelas assombrações do álbum seminal. O vocal de Ozzy também foi propositalmente trabalhado para parecer excepcionalmente jovem e altissonante aqui. “Evil” e “graveyard” já aparecem nas primeiras linhas. Isso que é saber pagar um tributo a si mesmo! “Age of Reason” e “Beginning of The End” refluem ainda neste ponto da trilha:

Religion won’t save me, the damage is done.

The future has ended before it’s begun.

Enquanto Deus e o Diabo duelam na Terra do Sol os perdedores somos apenas nós.

“Querido Pai”, o nome, havia me deixado cético quanto ao “fim” (proto-, ilusório) do ressurgimento. Mas não é só a chuva final que remete ao começo de tudo, senão a qualidade que perpassa todos os segundos da produção. Não se deixe enganar pelo título piegas como eu fui. Parece o cabeçalho duma carta, se pensar bem, algo já visto em Dehumanizer, sem o Ozzy. Até os “yeahs” do cantor se encaixam bem nessa música. Uma carta de despedida para deus, quem sabe. Quem sabe? Talvez o dentista de Ozzy que coleciona revistas TIME. Ou pode ser que “father” queira dizer aqui Padre. Crucificado numa cruz de espírito. Isso deve doer, sr. Frankenstein ao contrário! Somos melhores como formigas do formigueiro da fazenda de crianças ou como peças de um lego de um adulto? Em realidade esse foi um Juízo Final às avessas, com um martelo pesadíssimo segurado pelo povo.

Mas o epílogo era falso. Ainda tem o BÔNUS da orgia sonora. Quem um dia já fez um hino à maconha e outro tão poderoso ao pó agora está do lado de cá, do Proerd e da consciência da vaidade dos prazeres: “Methademic” é a vingança do corpo contra seus fugazes espoliadores. Titio Ozzy também é maxima moralia, meus amigos! Você jovem vive rápido demais, tão rápido quanto essa música, uma “Symptom of the Universe” deluxe edition. Uma Sabotagem tão gratuita quanto bem-vinda…

“Peace of Mind” e “Pariah” parecem nascidas do mesmo caldo, aquele caldo anticristão em eterna ebulição que, insaciável, depois de tanta porrada no disco ainda quis dar umas últimas chibatadas sádicas no mito do messias e seu ultra-ícone, Jesus:

A product of a virgin birth

Another god on earth

Yes that’s your fantasy (…)

Make your own truth, and get out of my way

Do outro lado do mundo foi onde tudo começou. O homem virou homem. Nada mais justo do que haver uma faixa exclusiva para os olhos-puxados, então. Faixa cujas iniciais equivalem a “N.I.B.”, um dos clássicos mais velhos da banda – fechando com chave negra.

[ARQUIVO] COMUNISTA CHATO

 

Originalmente publicado em 17 de agosto de 2013

Passa o ferro

carril, a mulher…

Jivagando pelas terras

De neve vermelha de sangue

onde o povaréu urra e geme

Ganharam, ganharam, aboliram a História

só o que sobra sobrou sobrará é um sobrado,

um chalé, um xale qualquer

fogão à lenha

Num ninho de palha se embrenha

Mas se o lobo uiva, não é nada mal!

[ARQUIVO] VIDANTE NOVANDANTE

 

Originalmente publicado em 16 de agosto de 2013


PURGATÓRIO & PARAÍSO

Mulder enganou a todos.

O que eu queria era encher a cara

Quebrou-se a jarra

Eu ouço um “E aí?” e acordo. Minha voz ou a do meu irmão. Mas que bela peça pregada!

Imploro aos Céus de Dante uma trégua.

Já sou ferido demais pela humanidade…


VIDA NOVA

Dante Alighieri não era “pedófilo” se ele também tinha 9 anos ao se apaixonar! Amor congelado.

Obedece ao tirano dos sonhos.

Sofria de “TOC das nove horas”. Vida Nove.

Adoeceu por 9 dias!

“como seja fato que se concede aos poetas maior licença no falar do que aos prosadores”

Corruptela:

Tem tal virtude em sua gostosura

Que nunca foi por outras penetrada,

Tida mulher fazendo andar pouco trajada

De decote, pós-plástica, a bunda dura

[ARQUIVO] FLORES VÃS

 

Originalmente publicado em 10 de agosto de 2013

As conversas com amigos. Inocentes. Sobre o futuro. Despretensiosas. De pé. Enrolando para haver a despedida. O estômago só roncará depois. O céu enegreceu. Sei que foi só fumaça, era como o interlocutor de dentro, eu quero crescer, estourar, enrugar, gemer, ah

O sofrimento é o que nos torna únicos. A música é a única prova. O único sofrer está nela.

Eu sou o que eu não posso ser na telinha jogando o jogo real da vida.

* * *

[untitled]

Já fui mais sozinho?

Me apegando a terapias

Rolando no vômito

Estudando

Sendo expulso, reentrando, descansando

Exasperando-me por coisas vãs

O pão comprando

Já fui mais sozinho?

Cinema sem amigos…

A família decepcionando

Não estou namorando

Quero pedir carona no coração de alguém

Muito ermo esta parada, este ponto.

* * *

VÃ VOCÊ

Você é o gato de Schroedinger do meu coração

viva e morta, puta e bela esposa, imprestável ex-amiga e vício mais vivo, meu amanhã, meu eterno e meu nada, insignificante a ponto de merecer meu poema.

*

Alguém mais interessante como um personagem que conservo.

Casca de carne.

*

Você é só isso

Casca de carne.

A musa inspiradora dum escritor

Mas eu prezo a escrita mais que qualquer coisa, então

Realmente isto está 20 mil léguas acima de 1 beijo.

*

Você é uma planta desprovida de atitude que tem pena de mim.

[ARQUIVO] BAUDELAIRE POR I. JUNQUEIRA (CCXXIII—Spleen 47)

 

Originalmente publicado em 1º de agosto de 2013

Chegado é o tempo em que, vibrando o caule virgem,

Cada flor se evapora igual a um incensório;

Sons e perfumes pulsam no ar quase incorpóreo;

Melancólica valsa e lânguida vertigem!

*

Cada flor se evapora igual a um incensório;

Fremem violinos como fibras que se afligem;

Melancólica valsa e lânguida vertigem!

É triste e belo o céu como um grande oratório.

*

Fremem violinos como fibras que se afligem;

Almas ternas que odeiam o nada vasto e inglório!

É triste e belo o céu como um grande oratório;

O sol se afoga em ondas que de sangue o tingem.

*

Almas ternas que odeiam o nada vasto e inglório

Recolhem do passado as ilusões que o fingem!

O sol se afoga em ondas que de sangue o tingem…

Fulge a tua lembrança em mim qual ostensório!

[ARQUIVO] REFLEXÕES DE UM TOLO — Tomo I

Originalmente publicado em 22 de julho de 2013

Pode alguém se desvincular da música? De uma paisagem, não é preciso ser cego, basta fechar os olhos. De uma sensação, recolher o corpo. Do olfato, prender a respiração. Do paladar, retrair a língua. Mesmo com todos os estímulos aos sentidos trabalhando ao mesmo tempo, mesmo diante de um furacão de sensações, o homem tem como, no olho do torvelinho, se concentrar, se controlar, se desligar, raciocinar só de si para consigo mesmo, ignorando qualquer coisa lá fora—ainda que digam que o “consigo mesmo” só pode estar em relações com os sons, os cheiros, os tatos, os gostos, as imagens…

Assim seria com os outros quatro sentidos mais fracos e mais simples, mais rasos, mais epiteliais. Mas A MÚSICA não é driblada por nenhuma finta ou artimanha da consciência. Ela é suprema. Os surdos ainda escutam. E não podemos falar aqui dos mortos. Estar vivo e centrado em si o suficiente para não ser desestabilizado pela música—este é o ponto. Só com outra música? Silêncio pode ser música?

O resultado de uma vitória é só outro confronto? Em última instância, outros combates ou a derrota, a agonia sempiterna seguida do sepulcro?

[ARQUIVO] DEMÔNIO AFRICANO, @ AfroDite

Originalmente publicado em 21 de julho de 2013

Pele sebosa

Vaca mimosa

Tábua rancorosa

Carne de porco

Espírito de freira,

quer dormir com

as freiras

e professoras

*

Garçonete cantora

Um boquete por hora

Para espantar a modorra

Se mete a ser mãe,

agora

*

Fora o dispêndio,

vai envelhecendo

se maltratando,

as ex peranças

ex fumando

*

Melhor amiga Maria

Mas em verdade

É Madalena,

A Quenga

Triste como as hienas

*

Por trás é que arde,

boa menina

Imigrante cuja sina

É fazer um Deus

virar Obina

*

Dorme ao meu lado

estuda comigo

joga os búzios

esfrega os lábios,

geme um pouquinho

ex-namorado

idólatra do umbigo

queimou meus fusos

ao dar pra larápios

*

Perfume da vagina

Imagina terrores

te amei tanto

comeria teu estrume

por que essa cara

de espanto, Dolores?

*

Sempre sem pensar 2x

Pra mim todo te quis

Sinto que a bala que

passou por um triz

Te tornou meretriz

O que foi que eu fiz?

[ARQUIVO] O PORTAL DAS SOMBRAS: O LUGAR, A PESSOA

Originalmente publicado em 17 de julho de 2013

Tem sempre algo extraordinário sobre castelos, não acha?—especialmente para nós filhos da América que nunca vimos nem entramos num pessoalmente! Muita coisa de épico pode acontecer em mansões, cidades-fantasmas, densas florestas e pântanos que nem deixam passar a luz do sol pelas copas das árvores mais altas… Mas um castelo é a forma mais pura do terror. Um castelo é… um castelo—e vice-versa, como diria o filósofo. Os vários pórticos e infindáveis corredores (como que talhados não para gente, mas para gigantes) que se imbricam em labirintos que desafiam qualquer evolução da arquitetura e da engenharia, todos os “ecossistemas” abrigáveis numa só propriedade de alguns quilômetros quadrados, num só terreno, numa só dimensão, numa mesma propriedade e território… Bibliotecas menos visitadas mas contendo mais volumes do que as de grandes centros universitários, capitais e sedes mundiais da intelligentsia, salas de banquete com louça de cristal e jardins encantadores que coexistem sem constrangimento algum com câmaras de tortura úmidas e fétidas no extremo subsolo! É, o castelo é um mundo em si, que representa a ambigüidade do homem diante da natureza e todos os estratos sociais ao mesmo tempo.

Um sem-par de figuras mitológicas tem espaço dentro do castelo. E das mitologias antitéticas e díspares, diga-se de passagem. O Portal das Sombras é uma viagem traumática pela orla de gaiolas de aberrações, caldo cultural forte para quem não tem o estômago preparado, um coquetel de folclores de deixar ébrios contumazes no chão.

Ah, é tão duro, mas necessário, voltar à realidade!…

Sou mais poético do que verdadeiro, saberia Fernando Pessoa!

[ARQUIVO] SOMBRAS QUE SE APROCHEGAM…

 

Originalmente publicado em 16 de julho de 2013

1855

Jack, O Estripador, o maior serial killer de todos os tempos, está relembrando um por um de seus assassinatos e tentando desvendar seus motivos mais profundos para cometê-los, se existirem, antes de terminar a sua grande obra chamada vida com o homicídio-apoteose: o próprio. Antes do suicídio se consumar, uma entidade interrompe Jack e diz que ele não conhece a sensação de poder como pensa que conhece, nem a de privar o ser humano, efetivamente, da existência, já que há muitas verdades metafísicas que ele ignora. Para ele se tornar um serial killer completo, deveria segui-lo. Seguir Legion. Aliciando Jack, ele quer que o estripador o ajude a erguer uma catedral do medo capaz de reunir todas as almas penadas do Outro Mundo, a ser batizada de Asilo, o pré-requisito para fazer os dois planos (o além e o aqui-e-agora) fundirem-se num só. Em troca, Jack ganharia o direito de ser o vice-pontífice desse reino do horror e a imortalidade: poderia, agora sim, se matar no mundo dos vivos, somente para ser eternizado como Jack, O Estripador, o morto-vivo—Jack, o Supra-Extirpador! E é o que ele faz…

… os guinchos dum patinho de borracha na banheira deserta, a risada dum bebê que não pressente o perigo, uma broca de dentista em funcionamento, e depois vários e intensos gritos de morte, de crianças e mulheres—acompanham a soturna e deliciosa melodia de Beethoven …

1999

Michael LeRoi jubilou no curso de literatura por vícios como o álcool, e como não queria voltar à casa dos pais, no estado natal, cabisbaixo e derrotado, tratou de achar um bico como taxista—a profissão mais legal do mundo, dizem—no mesmo local, a fim de ganhar a vida. Miserável vida. Numa noite de trabalho, um dos passageiros de Michael não era flor que se cheirasse e acabou sendo assassinado num linchamento coletivo, bem na sua frente, logo após descer do veículo. Temendo pela própria vida, Mike dá o fora da cena do crime cantando pneu. Algumas horas depois ele descobre que o passageiro falecido havia deixado uma sacola no banco de trás com muito dinheiro—20 mil dólares—… Pelo menos para ele, isso era muito dinheiro, sim. Grana, muita grana! Que Mike usa para comprar presentes para toda a família antes de passar merecidas férias em sua antiga residência, simulando que está tudo bem, que ele vai seguir carreira…

Os mesmos fulanos que tiraram a vida do passageiro desconhecido descobrem tudo sobre Michael LeRoi e sua vida precária e patética. Os pais e o irmão caçula de Mike são os primeiros a pagar—com a vida—pelo inocente uso dos 20 mil dólares… Como se a situação do taxista, ex-taxista ou seja lá o que ele for agora, não pudesse piorar!!

Drenando um pouco mais de seu vigor vital para chorar as mágoas num bar de quinta categoria, Mike é abordado por uma mulher muito suspeita, Agnetta, doravante apenas Nettie. Uma sacerdotisa de magia negra, poderosa manipuladora e rainha dos vodus. Ela seduz o bêbado e ambos dormem juntos essa noite. Com seu dom macabro, o propósito desse flerte é cedo revelado: ela costura uma máscara na altura do peito de Mike, que daqui em diante será conhecido somente pelo apodo Shadow Man, uma entidade capaz de fazer travessias entre as duas dimensões do universo, o Lado dos Vivos e o Lado dos Mortos. Isso porque agora ele não está nem vivo nem morto, propriamente falando… Na verdade, essa dicotomia é tão absurda quanto a descrença no absurdo!

… na poeira ou terra batida, é um som seco e áspero, como o de pequenas e frágeis pedras sendo esmigalhadas pela sola de sapatos frementes; atravessando canos, alumínio ou metal, o som é aquele típico clank, clank; superfícies molhadas farão aquele squish, squish análogo ao dos monstros do lago nessie …

Ultimamente, a ancestralmente sábia e bela Nettie, que não sabemos há quanto tempo co-habita com os vivos, anda tendo sonhos proféticos acerca da vinda do Apocalipse. São cinco—e não quatro—os arautos do Armageddon. A energia negra que possibilitará a invasão está próxima de ser finalmente reunida e despejada, ela o sente. Alguém passou os últimos séculos colecionando almas…

Michael, Jack, Legion, Nettie…

… o tempo está correndo e Shadow “Mike” Man, a mando de Nettie, precisa correr atrás das almas negras pendentes antes dos inimigos LOUCOS, ou será o fim dos tempos como a humanidade os conhece e concebe! A profecia interpretada por Nettie significa que, além de Jack, Legion tem outros subordinados super-eficazes no seu trabalho mesquinho de artesãos da carne podre: outros dos maiores serial killers da História se juntaram à dupla nessa cruzada | anti-cruzada, prótons e neutrinos no café-da-manhã …

[ARQUIVO] CARTAS CHILENAS — Tomás Antonio Gonzaga (Critilo)

 

Originalmente publicado em 11 de julho de 2013

“Há muitos fanfarrões no mundo, e talvez que tu sejas também um deles”

Reino estranhol

“E limpa, das pestanas carregadas,

O pegajoso humor, que o sono ajunta.”

*

“Que coisas, (tu dirás), que coisas podes

Contar que valham tanto, quanto vale

Dormir a noite fria em mole cama”

*

“Não falta tempo em que do sono gozes:

Então verás leões com pés de pato,

Verás voarem tigres e camelos,

Verás parirem homens”

*

O governante chileno que é um Sancho Pança às avessas.

*

“Nem Zeus pode tudo”

*

“De fogo devorante e ao longe soa,

De compridos trovões, o baixo estrondo.”

*

“Noutro tempo

Ninguém se retirava dos amigos,

Sem que dissesse adeus.

Agora é moda

Sairmos dos congressos em segredo.”

[ARQUIVO] REINAÇÕES OBSCURAS

Originalmente publicado em 17 de junho de 2013

Assim que entrou no bar sua figura se distorceu em três:

MOSCA FILOSÓFICA:

E o que acontecerá, num mundo sem dinheiro outra vez?

OCIDENTAL OBSCURO:

Como chegamos a isso?

MESTRE TRÁGICO DO EXISTIR:

Eu voltarei a reinar supremo!

OO:

Bobagem: não importa em qual mundo, sempre estaremos eclipsados! Nossos sonhos debaixo dos escombros, a promessa nunca cumprida. E você, Mosca Pensante?

MF:

Eu não estarei viva até lá, para mim isto basta.

MTE:

Seu nome é mesmo “Ocidental”? Pois parece que o Oriente, e o Sol, e a Lua, e todas as estrelas desta e de outras galáxias não passam de buracos negros, uma ruína perene, se é que isto não seria um contra-senso! Tem medo do amanhã?

OO:

O Mestre devia saber, eu sou o ocaso de todos os tempos e otimismo não posso enxergar. Fui ensinado desde cedo que é falácia. Mesmo que sejam mesmo, você impetuoso, o outro cavalheiro inseto esperto, superiores a mim, não importa, desde que do meu ponto de vista Deus, Gaia, o estrume e o escaravelho estão igualados.

MF:

Quem vai pagar a conta?

MTE:

Vocês não são moscas, são homens-tentáculos, sempre agarrando nossas pernas e nos fazendo descer do céu. O nosso céu pessoal. Mas ainda hoje e ainda na terra eu sou senhor. Como diz você, Sombrio: contra os fatos! Dentro do meu coração tenho espaço para todas as contradições, e até para o seu NÃO! E sobra um bocado para a indecisão.

OO:

Mas me conte do seu Reino, Quimera do Circo!

MTE:

Meu avesso regurgita moedinhas, eu sou o fliperama que despeja fichas ao invés de puxá-las. Quem quer ser um indigente? Moscas não conseguem se pensar sem seu açúcar, porque sem seu açúcar estão mortas. Mas eu sou massinha de modelar. Eu sou a esperança para frente e até para trás. Sabe escrever, não sabe? Sabe se ser—e ainda lamuria pelos cantos! O triste é que gostaria de lhe dizer que falta algo, mas não falta nada! Você já tem você. O resto são moscas na sopa, ou no refrigerante, certo? Vou zunir minha verdade estilizada: sou do topo da casta. O sonho com pés no subsolo, cabeça na estratosfera, banho gelado ou que escalda.

Com o tempo o Um vira nós 3—ou até nós 4, quando o Judeu Maometano quer ressuscitar—, as pessoas rumam cada uma para um canto, concertam seus solilóquios, treinam interações e depois festejam juntas, não importa se como escravos ou senhores. Saturno acabou, que venha Marte!

Quando as forças produtivas colapsam, o forte e seu instinto protetor é que cagam as regras!

…

[ARQUIVO] OS DONOS DO PODER: Formação do Patronato Político Brasileiro — Raymundo Faoro (3ª ed., 2001)

Originalmente publicado em 12 de junho de 2013

« J’adjouste, mais je ne corrige pas. » Montaigne

Portugal, esse outro Palmeiras, que só agoniza, tendo como fardo e simultâneo guindaste do ânimo seu passado cheio de glórias, conquistas e feitos notáveis. Antes seu fim honrado do que desse jeito se arrastar… Camões—Antiquado Imodesto. Os séculos foram inclementes com a Terrinha…

“Afonso Henriques, 1º rei de Portugal, no remoto ano de 1140”

“a carta de foral—pacto entre o rei e o povo”

“o estatuto da Covilhã, segundo o qual se cobrava das mulheres mundanas um soldo cada mês, pelo direito de exercerem a profissão”

“Justiça salomônica, cuja caricatura fez do governador Sancho Pança o modelo dos juízes do caso a caso, espectro racional ao serviço das decisões arbitrárias.”

O dinheiro é a medida de todos os homens-coisa.

“Portugal não conheceu o feudalismo.” O Estado—a máquina—tem um cunho invencível de obrigatoriedade; o mesmo não se podendo dizer dos senhores vassalos. O feudalismo foi um grande acidente europeu.

“A velha lição de Maquiavel, que reconhece dois tipos de principado: o feudal e o patrimonial, visto, o último, nas suas relações com o quadro administrativo, não perdeu o relevo e a sua significação.”

“A persistência de magnatas territoriais” na História não pode ser indício suficiente para decretar o feudalismo de um regime—nem mesmo entre as nações européias em sua idade medieva. A lista de exigências do modelo é mais ampla.

“Outro passo ainda e os legistas, doutores e letrados, conservando os fumos aristocráticos, serão sepultados na vala comum dos funcionários, onde a vontade do soberano os ressuscita para as grandezas ou lhes vota o esquecimento aniquilador.”

Camões entenderia perfeitamente bem as raízes do talento brasileiro para escavar o pré-sal.

A luta de classes que não houve. Se “sempre há luta de classes”, então nunca há. Pois guerra só é guerra pelo contraste com os períodos de paz.

“Perece uma dinastia, a dinastia afonsina, filha da infância do reino; em seu lugar, ergue-se a gloriosa dinastia de Avis (1385-1580), plataforma social e política da conquista do mundo desconhecido pelas audaciosas naus de Vasco da Gama. Nasce, assistida pela violência, pelo dissídio, pela guerra, a nação épica de Os Lusíadas, sonho de curta duração, meteórico, que deixou, na sua cauda de luz, uma constelação ainda íntegra.”

“Os estamentos governam, as classes negociam.”

“O vinho, o azeite, as frutas e o sal—as 4 pedras da economia portuguesa”

“Certo, um setor ficou alheio ao contágio, inassimilável: a burguesia judia, saliente no séc. XIV, ao ponto de ser preservada do ódio popular pelo Mestre de Avis. [trecho ambíguo] Mas ela pagaria caro pela diferença e autonomia.”

MUITO DIFERENTE DOS INGLESES: “Podemos, pois, concluir dizendo que até as reformas pombalinas a concepção dominante no nosso [português] país foi a da escolástica, aristotélica e tomista.”

“É dinheiro de encantamento que se converte em carvões” Diogo do Couto

“D. João II, O Príncipe Perfeito”—maquiavélico antes de Maquiavel.

A Índia interiorana jamais veio a ser colônia portuguesa.

“O reino, renascido e revigorado com a Revolução de Avis, incapaz de digerir a presa, entregava-a, na parte suculenta, aos banqueiros italianos e do norte da Europa, contentando-se com as sobras ostentatórias, que escorregavam para as garras ávidas da nobreza—militares e funcionários.”

“O comerciante [pecador maldisfarçado] não devia ser nobre, mas o capitão do navio, homem mais de guerra do que de comércio, devia ter o sangue azul.”

“Os cargos dos governos e das fortalezas davam-se por 3 anos para contentar quanto possível o maior número.”

“cada um dança segundo os amigos que tem na sala” “vê tudo e olha pouco” “a quem vela, tudo se lhe revela” “ouve e não escuta”

“Se basta hum Provedor em cada Província, para que são 5 ou 6? Se basta hum Corregedor para 20 léguas de destrito, para que são tantos” “Não há só multidão de funcionários: estes acumulam 2, 3 e 4 cargos, ajudados de muitos oficiais, no cultivo do ócio, agarrando com as unhas ardentes todo o comércio, a economia inteira.”

“Nem o açúcar do Brasil, nem o escravo africano, nem o ouro de Minas Gerais—nada salvará este mundo, condenado à mansa agonia de muitos séculos.”

“o Estado fonte de todos os milagres e pai de todas as desgraças.”

“mais contra a sombra de Rousseau do que contra o Rousseau histórico” No fundo somos todos sociopatas. Quando deveríamos ter medo dos fantasmas autoproduzidos por nossa esquizofrenia.

Raymundo Faoro é o gênio trágico que o Brasil teve mas ainda não descobriu: “A história não é senão um cemitério de elites, que correm, ao longo do leito secular, como um rio: a classe dirigente de hoje não será a mesma de ontem.”

Cuidado: para Faoro, uma democracia (classes) ou aristocracia (estamentos) não precisa ter uma elite. Alguns autores ainda trarão o estamento-líder como classe (não-social) ou intelligentsia (Manheim/Toynbee). Quase “casta”.

Montaigne, “o mais universal dos escritores europeus do seu século” + 100 anos: Hans Staden.

Contra Sombart e Sílvio Romero.

“As vilas se criavam antes da povoação, a organização administrativa precedia ao afluxo das populações. Prática que é modelo da ação do estamento, repetida no Império e na República: a criação da realidade pela lei, pelo regulamento.”

“Tomas Morus, na sua época, escreveu em vão a Utopia: só um século depois foi ela habitada, para decepção de muitos e engano de poucos.”

A Irlanda sempre foi o depósito de lixo—humano ou não—da Inglaterra.

“o inglês trouxe a sua mulher para a colônia, ao contrário do português”

“A riqueza dos colonos dos primeiros séculos é uma lenda, enganadoramente criada para embelezar a história.”

“Desde o primeiro século da história brasileira, a realidade se faz e se constrói com decretos, alvarás e ordens régias.”

“As minas aceleram o curso da disciplina americana às rédeas do soberano, rédeas firmes e curtas.” “O inconfidente é bem o protótipo do homem colonial: destemperado e afoito na conspiração, tímido diante das armas e, frente ao juiz, herege que renuncia ao pecado, saudoso da fé.”

“O funcionário é o outro eu do rei”

Como que uma “história do cargo público ou servidor no Brasil”. Essa é a minha escusa nos estudos!

“soldo estipulado em dinheiro e pimenta”

228: a genealogia do arbítrio militar brasileiro

238 et circa: a obstinação dos jesuítas

Importante lembrar que o lucro dos monocultores de cana era, em média, de apenas 8%. Os traficantes de escravos, que vendiam a rodo e a crédito, tinham-nos na mão.

Dois fracassos do Primeiro Reinado: o BB, que nasce para morrer, e a companhia siderúrgica, que só nasce no papel.

No duelo proto-imperial federação vs. confederação, a proa conservadora de José Bonifácio, que termina exilado.

“O Poder Moderador situa no Senado a barreira de defesa ao despotismo das maiorias parlamentares.”

“Na cúpula do sistema, a segunda Câmara, o Senado vitalício, cujo papel conservador e refreador da opinião pública foi ressaltado por dom Pedro I.” Enquanto isso, a Câmara temporária seria um vestibular-para-novos-conservadores maldisfarçado!

“O talhe de D. Pedro I não se coadunará com o arcabouço por ele montado, mas encontrará em D. Pedro II, conjugado à maturidade do plano, o príncipe para conduzir a máquina, maciamente.” “educado na neutralidade bonapartista” “o conservadorismo, estuário natural da vitória”

365: o juiz de paz (vs. juiz de direito). Inesperado poder da figura: “O centro do sistema estava no juiz de paz, armado com a truculência de seus servidores, os inspetores de quarteirão, de triste memória nos anais do crime e da opressão: ‘era talvez a 3ª autoridade depois da regência e dos ministros’.” “O juiz de direito, nomeado pelo imperador, era menos que um juiz de paz.” (!) Tudo isso no confuso código penal de 1832.

“A desconfiança ao poder—que levou à descentralização e à supressão do Conselho de Estado—leva ao poder sem freio, ao poder incontrolado, ao arbítrio do mandonismo impune.”

Engana-se quem tacha os movimentos sociais da Regência de “separatistas”. Era mero discurso, tática. Entre os enganados, Euclides da Cunha.

Teria sido aberto o parlamentarismo, para vigorar durante todo o II Reinado. Menos de 5% da população seria votante.

“O poder, se não corrompe, amansa e infunde o esquecimento das loucuras da mocidade.”

“O princípio ‘o rei reina, mas não governa’ seria formulação de Chateaubriand, [1816] treze anos antes que Thiers o lançasse diante da câmara dos deputados, dramaticamente.”

“Lucidamente, no cume da pirâmide, sabe a majestade que seu poder ocupa um espaço vazio, preenche o vácuo e, como Leviatã, nasce do mar, trazido nas naus portuguesas, indomesticável!”

“Não espanta que o Império, com seu cortejo solene de espectros, não resista a uma espada desembainhada simbolicamente, numa parada sem sangue.”

“Espalhar pelas cidades e pelo interior, onde o emprego era uma sorte grande, diplomas de eleitor era distribuir bilhetes de loteria para um sorteio sempre renovado”

Ao invés de ter sido incluído a posteriori, na verdade o voto do analfabeto foi excluído das eleições, após ser inicialmente válido.

“Tomem-se, ao acaso, 20 ou 30 brasileiros em qualquer lugar onde se reúna a nossa sociedade mais culta: todos eles ou foram ou são, ou hão de ser, empregados públicos; se não eles, seus filhos.” “Quem melhor do que Silveira Martins sentiu o espírito do insondável, ao dizer que ‘o poder é o poder’, como Jeová é o que é?” “Só vive, pensa e governa no Brasil o espírito burocrático.”

478: O Barão de Mauá, voz solitária pró-padrão papel-moeda, que, paradoxalmente, era o único meio realmente utilizado. O padrão-ouro era ambicionado por todos os outros agentes econômicos, única forma possível do Império tropical possuir moeda própria forte.

“todos os orçamentos [do império] foram encerrados com déficits.”

“Parentes, amigos e compadres, os comissários [empresários intermediadores] não dispensam os juros de 12 a 18%, calculados nos saldos das contas correntes” O latifundiário sempre refém desse adiantador de crédito, que movimentará o negócio a médio prazo da exportação (o café necessitava de meia década de cultivo, em cada safra). Por sua vez, os capitalistas ingleses farão dos comissários, brasileiros, seus servos no jogo de títeres global.

“O antigo fazendeiro trabalhava para o traficante que lhe fornecia escravos, como o atual trabalha para o correspondente (comissário) ou para o banco que lhe adianta capitais. Uma boa parte da riqueza nacional é eliminada do país pelo comércio de exportação, cujos lucros ficam em parte no estrangeiro” Joaquim Nabuco

“A frustração dos planos de Mauá [o industrialista precoce] não se deve a um capricho governamental, como capricho não foi a tarifa Alves Branco. O café cresce e se expande, pressionando, em todos os campos, [literalmente!] a política econômico-financeira.”

“Lançai uma estrada de ferro desde S. Cristovão até o Pará, desmontai as cachoeiras de S. Francisco e entupi desde a foz até a nascente com os clippers e os ericsons; fundai um banco, dois mais (…)” Cronista. O punch direto continua: “Iluminai o Corcovado, o Pão de Açúcar, a Gávea (…) fundai um hospital para as vítimas do ágio no dia supremo das tribulações.”

“Primeira aparição do termo “plantation” somente à página 511!

“Quarto Banco do Brasil”… e contando!

“seria um crime se não fosse uma lei”

“O império não subsistia apenas graças ao apoio do fazendeiro como se pretende na historiografia tradicional.”

“Não data do término da guerra do Paraguai, portanto, a divergência entre a ordem civil e a militar, conforme repetida e generalizada afirmação.”

“A embriaguez revela o sonho do homem sóbrio.”

“a voz grossa e altaneira do bandeirante ainda discernível no fiapo da arrogância cafeeira.”

“Nasce, aprovado pela Lei de 30 de dezembro de 1905, o 4º Banco do Brasil, que é o atual [?] BB.” “Banco central, cornucópia da União”

Instituto de Defesa Permanente do Café (1922). Tão permanente que durou 3 longos anos!

A industrialização não “começou” em 1930. É certo que havia surtos de fabricação têxtil desde a Colônia, brevemente arrefecidos. Ondas de um mar irregular. Porém, em se tratando de uma indústria moderna e mais diversificada, o “pontapé varguista” é mais um mito ou figura de linguagem: já nos anos da I Guerra Mundial a República se viu forçada a praticar uma maciça substituição de importações.

“Não se pode dizer, para o Brasil, o que se disse para a Rússia: esta não possui um Exército, mas o Exército possui a nação.” Engraçado como o exército é sempre pincelado como um poder neutro, de vocação apolítica, subordinado à Constituição Civil, incapaz—mantidos esses moldes—de vir a tomar o poder no futuro, menos de 20 anos depois do fim do livro [P.S. 2026: anos 50]. Os militares da transição Monarquia-República teriam sido meros agentes estabilizadores (o que a Constituição de 1988 sonhou que agora fossem).

“café puro se possível, café com leite se necessário”: <Federalismo>, no contexto da República Velha: <estadismos>, ou <são paulo-minas geraisismo>, uma vez que significava o enfraquecimento da União, o que hoje seria considerado o poder federal. E ao contrário de hoje, o Distrito Federal não elegia seu governador.

The Economist: não é de hoje que metem o bedelho.

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ADENDO NATALINO

Um idiota—parasita—só quer usar o telefone. O outro—esquizóide, pois está sempre a falar sozinho—a regulagem do sistema de som de sua caranga. Por fim, a intrometida só quer passar a imagem de altruísta para o resto da família em frangalhos: nada de refrigerantes pela metade. Tudo pelo verniz.

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“Não nos podemos embelecar com esses desmoralizados truques do mundo em que envelhecemos” Rui Barbosa

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O estilo peculiar de cada um abrir a porta do meu quarto:

  • duas batidinhas que assustam e o abrir em menos tempo do que o necessário para qualquer reação;

  • o girar da maçaneta tão discreto que é quase imperceptível;

  • um estardalhaço, parece um arrombamento.

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720: a questão trabalhista. O germe da CLT, já 20 anos antes.

“O poder no Brasil, não é senão uma tarima de senzala, acobertada de baixas pompas.”

“Mas, entre a mão e a espiga, há sempre o muro, e o muro importuno do poeta.”

“Enquanto a tempestade se arma, no palco o espetáculo continua”

“O coronel, antes de ser um líder político, é um líder econômico, não necessariamente, como se diz sempre, o fazendeiro que manda nos seus agregados, empregados ou dependentes.” “Ocorre que o coronel não manda porque tem riqueza, mas manda porque se lhe reconhece esse poder, num pacto não-escrito.”

“Sempre que o poder estadual se eleva e se fortalece decai o poder municipal, expressa a relação nas nomeações dos prefeitos.”

“Viver do alheio não se chama viver, senão fermentar e apodrecer.”

“As vozes isoladas enfeitavam os plenários monótonos, no gorjeio inocente das patativas entre os gaviões.”

GOVERNADOR e CORONEL eram assim assim.

{coronel burocrata

coronel autônomo}

“As despesas eleitorais cabem, em regra, ao coronel, por conta de seu patrimônio. Em troca, os empregos públicos, sejam os municipais ou os estaduais sediados na comuna, obedecem às suas indicações.” “O coronel é inseparável da sociedade agrária, matando-a, em morte lenta, a urbanização e a crescente comercialização dos interesses.” “quem tem padrinho não morre pagão” “A caracterização sociológica do fenômeno coronelista ainda não mereceu tratamento sistemático. Não raro é ele apresentado, ilegitimamente, como singularidade brasileira.” “não se compra o voto, ainda não transformado em objeto comercial” Sobre a figura do coronel, Weber diria: no limbo entre a dominação tradicional e a carismática. Raymundo Faoro vê o coronelismo no sistema inglês até 1868. “os tories se sustentavam nos grandes proprietários rurais, os pastores anglicanos e os mestres-escolas, enquanto os whigs arrimavam-se nos pregadores não-conformistas, nos agentes do correio, ferreiros, alfaiates e outros artesãos.” Tempos pré-burocráticos. Idem na Sicília.

Ceará, o estado mais coronelista, anulando até o unionismo do governador. “coronéis autônomos” “Tratado de Haia Mirim” Ao contrário de Pernambuco, em que foi mais fácil o Estado-Exército derrubar os coronéis a partir de Recife (e mais complicado no interior), no Ceará Fortaleza prosseguiu muito tempo rachada, palco de guerra civil. Há dialética nesses dois (e noutros) casos, com reascensão dos coronéis, mas rostos novos—até 1930.

Vale lembrar que Rui Barbosa (o super-republicano) é senador baiano.

Tempos em que as urnas eram apuradas nos casarões das elites!

794: os macacos de Kipling

“O Partido Comunista será fundado em 1922, dominado por intelectuais e cortado de dissidências e rivalidades, sem atuação no movimento operário.” “…até 30, quando Luiz Carlos Prestes adere ao credo vermelho”

Artur Bernardes antecipou algumas reformas trabalhistas, inclusive o feriado de 1º/5.

“Nós somos todos vinhos da mesma pipa.” “A palavra liberal, aliás, é um anacronismo ao meu modo de ver, e não tem significação real nos nossos tempos”

OS ANOS 20: “a guerra européia demonstra a inépcia dos parlamentos para resolver os conflitos. Na época das grandes crises, os homens superiores conseguem imprimir a sua direção, dominando a anarquia dos parlamentares, e não sendo por eles dirigidos”

819: o abraço da nação—e até dos paulistas—em Getúlio. “São Paulo amanheceu, a 5 de janeiro, estatelado. Como pôde acontecer tudo aquilo entre a gente pacata e fria da cidade dos nevoeiros?”

“o Exército brasileiro não se deixou seduzir pelo fascismo—como aconteceu com os exércitos italiano e alemão—, graças ao repúdio à teoria da obediência passiva.”

Já na década de 1940 se falava em “neoliberalismo”…

PRIMEIRA FACULDADE DE ENGENHARIA: “Em 1879 fundara-se a Escola de Minas, em Ouro Preto, sob a iniciativa de dom Pedro II”

“Me parece que uma casa não deveria ser construída por um arquiteto, nem autoconstruída por ela mesma, mas pelo próprio proprietário” Taine


Nota

“A distinção entre regime totalitário e autoritário, criada por Loewenstein, foi inspirada pelo estudo de uma época brasileira: Loewenstein, Karl. Brazil under Vargas”


GLOSSÁRIO (português):

bovarista: “Insatisfação romântica que consiste em querer evadir-se de sua condição, adotando uma personalidade idealizada, como o fez a heroína do romance Madame Bovary, de Flaubert.”

ismaelita: “Diz-se dos, ou os árabes que pretendiam descender de Ismael, filho de Abraão e Agar.”

jugular (verbo): [logicamente!] degolar

monhadego ou monaria: “o direito da Coroa de herdar os bens dos vilões (vilani) que morriam sem prole.”

patativa: poema; improvisação; concerto.

tarima: toldo


GLOSSÁRIO (francês):

belle époque: a febre do século, para não ser pouco literal dizendo “milênio”

[ARQUIVO] PERFEIÇÃO IMANENTE

 

Originalmente publicado em 1º de junho de 2013

Você zerou a vida. Sente-se incomodado, esvaziado, perturbado, entediado, em hiato?

Todos os pequenos aborrecimentos são reflexos da conclusão dos trabalhos de Hércules pela mente maravilhosa—poucos setores em sua cidade possuem poder tão concentrado. A morosidade devia sempre estar lá, mas eu não ligava para ela, eu estava somente em formação, não dependia estritamente de mim, o paraíso, a perfectibilidade do amanhã, estavam longe.

Consegue acompanhar meu raciocínio ou apenas ri? Tente fazer os dois ao mesmo tempo sentindo o frio subir a espinha, subir o fio delicado superexcitável da espinha!

A verdadeira natureza do meu ser é não ser mais aturado tal como é em média entre os semelhantes. A reflexão abstrata me leva a uma ponte, a mais uma—ó, eternas!—decisão: parar ou continuar? Com que fito? Brasil Colonial, forças mutantes e outras mais, continhos singelos infantis—vai ser divertido!

Fumo ou tusso? Fuço ou ignoro? Demência iminente na riqueza do lar vazio? Lar vazio e frio quer dizer muitas coisas, escutando o que estou a escutar.

Blow those chicks, campeão do boxe! Arraste a carcaça dos animais no chão.

*

*

Guerra consigo mesmo, é melhor não duvidar.

[ARQUIVO] QUEM É VOCÊ, BICHO-PAPÃO?

Originalmente publicado em 22 de maio de 2013

Você sempre vê na TV, lê nos jornais inúmeros casos. Ou então você é que se torna uma pessoa assim. Um adulto rancoroso. Que só quer, arrependido dos anos, voltar a ser criança, antes da Revolução Francesa ser livre de novo. Quando dar o dedo do meio para a pessoa que mais ama e de quem mais depende não tinha conseqüências amargas… Adeus talão de cheques. E eu nem sei jogar xadrez! Expediente, que expediente? Vão me demitir? Dessa vida eu prefiro mesmo. Eu sou asmático, mas no geral minha saúde está melhor. Parei de beber e de fumar.

Mas a criança não está isenta de sentar e refletir nas experiências passadas que teve. Hmm… Algo sinistro na penumbra. E quando eu voltei da caixa de areia, do parquinho no qual eu sou o gato miniatura, a melancolia baixou. Nadar, nadar, pode se afogar. Correr sem dor muscular. Os sintomas continuam.

Crianças do mundo, uni-vos! Cansamos das batalhas! Nossa constituição fraca não pode suportar nem longos comícios, então todos para casa! A Floresta de Varg e do Lobisomem me amedronta. Na verdade ouvi dizer que o pó da borboleta e o líquido do sapo cegam. A bruxa de Varginha, no quarto de empregada, esquenta o caldeirão e o salpica de vegetais, esperando eu, o prato principal. Na janela, lá fora, flutuando, sei que o Vampiro me observa. Vai me tornar imortal? Ou só um morcego? O rei de toda essa gangue é o bicho-papão, ele está debaixo da cama esperando um sinal, uma brecha. Quando súcubo sair de cima de mim ele ataca!

Eu tenho armas poderosas. Eu sou a inocência natural. Eu sou o sol que vos cega. Eu sou a caixa de areia protegida sem muros. Qualquer luzinha acesa da casa me conforta. Vos desmonta. Alô, Gênio! Meu pai e minha mãe. Meus guarda-costas. Invisibilidade. De olhos fechados ninguém pode me tocar. Porque estão na minha cabeça.

Mas isso termina? Gargalho me perdendo no labirinto da cidade, que é o que me resta. Ah, achei um abrigo longe do umbigo, uma casa. Deixe o mundo se estrepar lá fora. Eu vou matar o Bicho-Papão!

Fecho os olhos e ainda estou aqui, o azar é seu.

Com a faca na cela eu devo sair e encontrar umbrella, entrar no crisântemo.

“Matar ou morrer” é o moto aqui!

Zumbis com trombas mentirosas, eu os rasgo os corto. Triunfei. Como dizem os tuiteiros, zerei a vida, zerei Aquiles e a Mitologia. Eu até pensei estar salvando a humanidade, não só meu próprio rabo.

Você pode misturar ervas resultando em drogas mais potentes para me salvar do inferno.

Arquialquimista das emoções.

Estará no limiar de si mesmo esperando alguém entrar pela janela ou sair da jaula, suas janelas, suas jaulas, seus gorilas, lembre-se. Medo da minha sombra.

Voltar ao mundo real vai desapontá-lo tanto…

Ó!… Arrepios na espinha só um som. Geme geme geme.

(Não, não sou eu tresloucado pela falta de idéias sobre minha escrita!)

UUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUIIIII O Gemido. O orvalho.

Eu sou o irmão gêmeo do Leonardo Di Caprio!

Ó querida, parece que você acidentalmente se chocou com a parede e foi comida viva. Pela parede.

VIADO! . . .

Imagina se todos começassem loucos na terra e fossem paulatinamente se tornando sãos e coerentes, exatamente ao contrário do que acontece! Mas então o mundo seria dos sãos, porque hoje ele é dos mais velhos!

Maldita criança incoerente!

Desaprender a andar de bicicleta é necessário.

Se desfazer da última comunhão.

Recuperar a virgindade.

A razão está na imagem.

O que me irrita é que estou forte demais!