[ARQUIVO] CEMITÉRIO GRADUADO & PARCAS-POSSIBILIDADES

Originalmente publicado em 7 de fevereiro de 2013

Todos nós temos uma espécie de superenergia escondida para realizar nossos sonhos. Caminhando e refletindo superexcitado concluí que sou imparável. Não sei bem como despertar esse “poder oculto”, mas quando ele vem à tona tenho certeza: não há chances para outros seres humanos—ao menos enquanto estiverem em dias comuns. Ah, sei que a carreira de professor, a despeito de todos os seus atrativos, não é para meu bico de luxo! Posso bem mais. Nunca mais pisarei em sala de aula com um giz na mão. Saiu o veredito. Os músculos respondendo prodigiosamente e nem o menor sinal de cansaço, de andar vergado. E se eu conseguisse infiltrar todo esse fluido sobrenatural-inconsciente dentro do meu âmbito—a escrita? Qual é minha meta realmente suprema? Permanece incognoscível. As tais das entidades soberanas, as três Parcas—talvez mais? Talvez apenas dobradiças de um evento só—acima de Zeus, hão de me retirar dos apuros e me conceder a felicidade cascalhar antes que minha exígua conta se anule. Energia para estudos, tanto quanto minha ambição abstrata permitir…

[ARQUIVO] TERCEIRO ANO

Originalmente publicado em 29 de janeiro de 2013

Toda noite o professor involui, entra num casulo, regride à condição de aluno. O diploma que ele tantas vezes obteve… as letras inscritas vão se apagando antes que ele desvende o tesouro ali escondido. Colegas de turma do lado de cá e do lado de lá. Kátia e o estágio que nunca houve. Uma mentira fabulosamente sustentada por 6 meses. Sou severo demais comigo mesmo? Deixe-os, os familiares, os amigos, falarem por mim. Tudo que eu tento obter ou ser, que já não esteja designado, parece furar.

Essa noite eu viajarei de novo por uma negra e suja Brasília central, onde na beira da rua espero abrir o sinal. Escorrerei pela W3 inutilmente, como o óleo dos carros. A sordidez da escola. A prisão na infância. O não-conseguir me relacionar no depois. Obituário no jornal. 1º/1/2006—corpo encontrado, sem nada dentro, só a casca. Estudante, ex, ex-estudante Rafael de Araújo Aguiar. Mas as idéias permanecem, elas são eternas.

Um café com seu antigo ídolo, hoje monologador parasita? Quantos professores desejam se aposentar emulando de certa forma pior e melhor do que eu mesmo que tenho a vida inteira pela frente (?) e me reformei antes de começar a carreira. Rafael Quimera. Que queres, além de uma mera pensão do Estado?

Cuzinho para concurso. Quero me cu alificar para te foder, tu traseiro caro e exigente, longe de inteligente. Como tu me chamas? Pelo telefone, via um número? Eu sou um número, uma matrícula no cadastro geral dos independentes coligados.

Frio na medula. Pesadelo vivo, ter de reprisar toda essa cerimônia, esse rito de passagem. Que já foi feito, não pode mais ser pervertido por nenhum contato ou contexto. Sete anos e só uma certeza: cada vez mais escolar.

Sempre na contramão da turma. O piadista soberano.

[ARQUIVO] O BANQUETE FEDE

Originalmente publicado em 27 de janeiro de 2013


BANQUETE

“A humanidade compreendia três sexos (um derivado do sol, outro da terra, um terceiro proveniente da lua). Mas Zeus os castigou, dividindo cada um desses em sexos de duas metades.

Os que são um pedaço daquele ser misto, o andrógino, gostam de mulheres, origem de muitos adultérios. As mulheres desejosas de homens procedem dessa variedade, fonte de adúlteras.

A mulher fragmento da mulher primitiva não pensa em homem; sente-se, entretanto, atraída por mulher. Essa variedade gera as companheirinhas.

O homem que é pedaço do macho primitivo corre atrás de homem. Ainda jovenzinhos, porções do macho primitivo, gostam de homens. Dormir com homens lhes dá prazer, enredam-se com homens.

Eles são, por natureza, másculos como ninguém. A masculinidade leva-os a se apegarem ao que se assemelha a eles. Querem prova? Maduros, são os únicos a ingressar na política. São machos e pronto!

Casamento e prole não lhes interessam, embora a lei os obrigue a isso. Se fosse por eles, passariam a vida um com o outro, solteiros.”

Anteriormente (sublinhados): sobre a pederastia e o soluço.

Enfim, como gosto de parar para escutar os sábios da rua, e não me visto tão mal, não recusaria o rótulo de “Sócrates Invertido”.


FÉDON

“Aristipo, o filósofo dos gozadores”

O escândalo de Xantipa, a mulher de Sócrates, à porta da prisão.

Preparei o almoço de Afrodite com muito arroz, feijão, carne e tomate, num prato próprio, enquanto ela esperava no quarto ou fugia.

SÓCRATES, O MUSICAL: “Várias vezes, no curso de minha vida, fui visitado por um mesmo sonho; não era através da mesma visão que ele sempre se manifestava, mas o que me dizia era invariável: ‘Sócrates, deves esforçar-te por compor música!’”

“haverá, com efeito, mais alta música do que a filosofia, e não é justamente o que eu faço?”

“não havias de querer mal a um ser de tua propriedade que se matasse sem que tal lhe tivesse permitido?” Comandos em Ação.

“Diz-lhe que vá às favas!”

“Julgas, por exemplo, que ele se interessará em possuir uma vestimenta ou uma sandália de boa qualidade?”

Monoteísmo—se bem que hesitante/intermitente—que já se ergue contra os polísofos contemporâneos seus.

“todo prazer e todo sofrimento possuem uma espécie de cravo com o qual pregam a alma ao corpo”

“Mas os homens, com o pavor que têm da morte, caluniam até os cisnes, aves de Apolo [que cantam belamente antes de morrer]”

“Em Atenas não se usavam cabelos longos” “Cortar os cabelos era prova de tristeza” “Então será amanhã, Fédon, que mandarás cortar esta soberba cabeleira?”

“inimigos da ciência, misólogos”

“os que se dedicam a demonstrar o pró e o contra afirmam ter encontrado o cume da sabedoria”

“exultei acreditando haver encontrado em Anaxágoras o explicador da causa, inteligível para mim, de tudo que existe.” “Lia o mais depressa que podia a fim de conhecer o que era o melhor e o pior.”

“Se alguém me diz por que razão um objeto é belo, e afirma que é porque tem cor ou forma, ou devido a qualquer coisa desse gênero—afasto-me sem discutir, pois todos esses argumentos me causam unicamente perturbação.”

VIVEMOS NUM BURACO DA TERRA: “Numa palavra, o que para nós representam a água e o mar em face de nossas necessidades, lá é o ar; e o que para nós é o ar, para esses homens é o éter.” “entram em contato com as divindades, face a face. E o sol, a lua e os demais astros são contemplados por esses homens, tais como verdadeiramente são em si mesmos.” O Tártaro é a subdivisão do Hades equivalente ao círculo mais fundo para Dante.


SOFISTAS

“chama-se aspaliêutica, ou pesca por anzol”


POLÍTICO

“por si mesmo, o Universo retoma o seu curso circular, em sentido inverso, em virtude da vida que o anime e a inteligência que lhe foi dada” “Somente ao que há de mais divino convém conservar sempre as mesmas qualidades, permanecer no mesmo estado e ser sempre o mesmo.” “Ser a causa contínua de sua própria rotação não é possível senão ao que rege tudo aquilo que se move.” “Ao realizar-se a inversão do movimento atual, os que sobrevivem sofrem toda espécie de estranhos e insólitos acidentes, dos quais o mais grave, que se deve à mudança de sentido do movimento do universo, é que todos os seres vivos pararam na idade em que estavam” E em seguida, Benjamin Button.

“o piloto do Universo, abandonando, por assim dizer, o leme, voltou a encerrar-se em seu posto de observação”

[ARQUIVO] ARISTÓTELES, O ESTAGIRITA

Originalmente publicado em 27 de janeiro de 2013

A) METAFÍSICA

Abelhas são surdas.

“quem ama os mitos é, de certa maneira, filósofo, porque o mito resulta do maravilhoso.”

OS PITAGÓRICOS E A OBSESSÃO DECIMAL: “Assim como a década parece um número perfeito e parece abarcar toda a natureza dos números, eles afirmam que os corpos em movimento no Universo são dez. E como os corpos celestes visíveis são somente nove, conceberam um 10º, a Anti-Terra.” “PROVA”: 1+2+3+4=10; sendo: 1—o ponto (0D); 2—a reta (1D); 3—o triângulo (2D); 4—o cubo (3D); ou seja: a realidade.


B) ÉTICA A NICÔMACO

“um jovem não é bom ouvinte de preleções sobre a ciência política. Com efeito, ele não tem experiência dos fatos da vida; tal estudo lhe será vão e improfícuo. A tais pessoas, como aos incontinentes, a ciência não traz proveito algum.”

Trocando em miúdos, em vários trechos Aristóteles parece dizer: “Sou/era muito amigo de Platão, mas ele escreveu um monte de besteiras…”

“o homem solitário e sem filhos não tem muitas probabilidades de ser feliz”

Low-profilósofo

“os homens são bons de um modo só, e maus de muitos modos.”

“ninguém censura os que são feios por natureza, censuramos os que o são por falta de exercício e de cuidado.”

“Os bêbados também se portam dessa maneira: tornam-se otimistas.”

“Nem guarda rancor por ofensas que lhe façam, já que não é próprio de um homem magnânimo ter a memória longa, particularmente no que toca a ofensas, mas antes relevá-las.” “um andar lento é considerado próprio do homem magnânimo, uma voz profunda e uma entonação uniforme” “[o humilde] parece não se conhecer; do contrário desejaria as coisas que merece”

“os irascíveis encolerizam-se depressa, com pessoas e coisas indébitas e mais do que convém, mas sua cólera não tarda a passar, e isso é o que há de melhor em tais pessoas.” “a natureza ardente as leva a revidar logo” “um homem colérico não se inclina a conspirar, nem o faz a própria cólera, que é aberta e franca”

“As pessoas birrentas são mais difíceis de apaziguar e conservam por mais tempo a sua cólera” “a vingança as alivia”

O que não vai pelo físico tem de ir pelo químico (pela descarga). Toda consciência tem seu chuveiro e seu ralo. Faça a manutenção!

“tais pessoas causam grandes incômodos a si mesmas e aos seus amigos mais chegados.”

102: da modéstia arrogante de Sócrates

O obstetra é o menos chocarreiro de todos.

“O Padre Chocarreiro” parece uma violência ao bom senso, um estupro à realidade.

112: Radamanto/Radamantis apud Hesíodo

“embora na arte possa haver uma excelência, na sabedoria prática ela não existe”

“o primeiro princípio de que decorre o que é cientificamente conhecido não pode ser objeto de ciência”

“a sabedoria deve ser a razão intuitiva combinada com o conhecimento científico”

“por que um menino pode tornar-se matemático, porém não filósofo, nem físico?” “É porque os objetos da matemática existem por abstração, enquanto os primeiros princípios das outras matérias mencionadas provêm da experiência.”

“devemos acatar, não menos que as demonstrações, os aforismos e opinião não-demonstradas de pessoas experientes e mais velhas (…) essas pessoas enxergam bem porque a experiência lhes deu um terceiro olho.”

“Ora, se o fim é nobre, a habilidade é digna de louvor, mas se o fim for mau, a habilidade será simples astúcia”

“os cães que ladram apenas ouvem bater à porta, sem procurar ver primeiro se se trata de uma pessoa amiga”

“a efeminação também é uma espécie de moleza.”

“O amigo de diversões é também considerado intemperante, mas na realidade é mole.”

“o intemperante é incurável e o incontinente, curável.”

“a incontinência é como a epilepsia, intermitente” “é como os que se embriagam depressa e com pouco vinho” “a incontinência é contrária à escolha, enquanto o vício segue o que escolheu.” A teimosia é uma espécie de incontinência.

“os ricos e aqueles que exercem autoridade e poder são os que mais precisam de amigos.”

“quando os homens são amigos não necessitam de justiça”

“o desejo da amizade pode surgir depressa, mas a amizade não.”

“A timocracia degenera em democracia.”

“A relação entre marido e mulher parece ser aristocrática” “se o homem governa em tudo, a relação degenera em oligarquia”

“quando os irmãos diferem muito em idade, a amizade já não é do tipo fraternal.” “A democracia é encontrada sobretudo nas famílias acéfalas e naquelas em que o chefe é fraco”

“pessoas da mesma idade se dão bem” Hm.

Antecipa conclusões de Durkheim sobre a família. O filho como um eterno endividado.

“Sobre estas questões dissemos o suficiente.”

“na amizade entre amantes, por vezes o amante se queixa de que o seu excesso de amor não é recompensado com amor, enquanto o amado se queixa com freqüência de que o amante, que outrora lhe prometia tudo, agora não cumpre nada.”

“o caso das amizades de infância: se um dos amigos permaneceu uma criança quanto ao intelecto, ao passo que o outro se tornou um homem na inteira acepção da palavra, como podem continuar amigos se não aprovam as mesmas coisas, nem se deleitam ou contristam juntos?” “Devemos, então, conduzir-nos para com ele como se nunca tivéssemos sido seu amigo? Certamente nos recordaremos de nossa antiga intimidade” “definimos um amigo como aquele que deseja e faz, ou parece desejar e fazer o bem no interesse de seu amigo, ou como aquele que deseja que seu amigo exista e viva, por ele mesmo; e isso é o que as mães fazem” “as mães têm mais amor a seus filhos do que os pais; pô-los no mundo lhes custou mais dores e elas sentem mais profundamente que os filhos lhes pertencem.” “A benevolência parece ser um começo de amizade, como o prazer dos olhos é o começo do amor.”

“ninguém desejaria possuir o mundo inteiro se para tanto lhe fosse preciso tornar-se uma outra pessoa (quanto a isso, Deus é quem tem a posse atual do bem).”

“o artífice ama a sua obra porque ama a existência.” “o que ele é em potência, sua obra o manifesta em ato.”

O que é agradável é a atividade do presente, a esperança do futuro e a memória do passado”

“o amor e os seus concomitantes são os atributos dos mais ativos entre os homens.”

“Ele próprio é o seu melhor amigo e por isso deveria amar a si mesmo acima de tudo.”

“não é fácil a quem está sozinha desenvolver uma atividade contínua”

“é considerado de bom alvitre não ser homem de muitos convidados, nem homem de nenhum.”

“as mulheres e os homens mulheris gostam de ter pessoas condoídas ao seu redor e amam-nas como amigos e companheiros de pesar.”

“alguns bebem juntos, outros associam-se no estudo da filosofia.” Que duro fardo amar e cultivar tão-somente a solidão! Games, futebol (teoria), loucura, otakus…

A única coisa que REALMENTE gera desprazer é ser subestimado. Daí a “dor” do trabalho. Daí a dor do convívio de perto. Mas daí também o stimulus… Cansar-se é um ponto de vista. Só os robôs se cansam. Você se cansa? Ultimamente deitar me cansa!

Até a idéia de seguir sendo um MERO LEITOR em longo alcance me apavora, paralisa, acabrunha…

A MONOmeta MONOlítica…

Antes ser assaltado ou metralhado pelo Y. que morrer de tédio, não é mesmo?

Não sei se eu conseguiria viver como uma faxineira… Pior: uma faxineira não-futriqueira, uma lavadeira de riacho não-cantante…

“no teatro as pessoas que gostam de doces os comem em maior quantidade quando os atores são medíocres.”

Apesar da palavra velha e desgastada, “felicidade”, o conceito é esse aí mesmo: “são desejáveis em si mesmas aquelas atividades em que nada mais se procura além da própria atividade.” “divertir-nos a fim de poder esforçar-nos, como se expressa Anacársis” “a contemplação da verdade pode ser mais contínua do que qualquer outra atividade” “o filósofo é o homem mais caro aos deuses” alô, mamãe, tô carente!

“a paixão não cede ao argumento, mas à força.”

“precisamos de mais leis”: pois eu digo que CHEGA DE LEIS! Toquem o parto!

“a educação privada leva vantagem à pública”

MORTE OFICIAL DO SENTIMENTO V. Descobri que “a mulher do vizinho” é exatamente como a “profissão do vizinho”: não é pro meu bico. Posso invejar por escassos minutos, mas no fundo trago na janela e desdenho casais humanos. Espero que NÃO HAJA ocasião, mais, de pôr esta tese à prova.


C) POÉTICA

“Nós contemplamos com prazer as imagens mais exatas daquelas mesmas coisas que olhamos com repugnância, p.ex., animais ferozes e cadáveres.”

Margites, obra cômica de Homero da qual restaram alguns fragmentos.

O METRO NA POESIA: “muitas vezes proferimos jambos na conversação, e só raramente hexâmetros, quando nos elevamos acima do tom comum.”

A gênese da comédia é mais nebulosa que a da tragédia.

“a epopéia não tem limite de tempo” Tragédia: mais completa (densa)

Os antigos também falam numa distinção antigos vs. eles mesmos (modernos).

“a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história”

“o poeta deve ser mais fabulador que versificador”

“Eurípides (…) revela-se-nos como o mais trágico de todos os poetas.”

“há uma bondade de mulher e uma bondade de escravo, se bem que o caráter de mulher seja inferior e o de escravo insignificante”

“Exemplo de impropriedade e inconveniência são as lamentações de Ulisses na Cila”

“Ao deus ex machina, pelo contrário, não se deve recorrer senão em acontecimentos que se passam fora do drama, ou nos do passado, ou nos que ao homem é vedado conhecer”

Não existiu alguém como Aquiles.

“há muitos que bem tecem a intriga e mal a desenlaçam”

“O como também deve ser considerado como um dos atores”

“Dos vários nomes, os duplos são os mais apropriados aos ditirambos”

“Homero não quis poetar toda a Guerra de Tróia”

“ninguém se serviu nunca de verso que não fosse o heróico para compor um poema extenso.”

“na epopéia chega a ser admissível o irracional [mas não na tragédia]”

“O poeta é imitador, como o pintor”

“na poesia, é de preferir o impossível que persuade ao possível que não persuade.”

“resulta mais grato o condensado que o difuso por largo tempo; imagine-se, p.ex., o efeito que produziria o Édipo de Sófocles em igual número de versos que a Ilíada.”

Antidamas, o autor de 240 dramas que, sem nenhuma exceção, se perderam em banquetes para as traças.

Ulisses teve um filho com Circe e foi morto por ele! Telégono.

Não encontrei a expressão catarse no livro!

“a Ilíada é uma epopéia catastrófica”

“a Odisséia é uma epopéia complexa [a mais superior]”

“Os trágicos têm sido parodiados por usarem palavras que ninguém emprega na linguagem; o Jambo é o Metro que mais se avizinha do ritmo natural da linguagem corrente.”

“a escultura na Grécia era colorida!”

“Dizem que foi Zenão de Eléia o primeiro que escreveu diálogos. Mas, segundo Favorino, em suas Memorabilia, assevera Aristóteles no diálogo Dos Poetas, que o primeiro foi Alexâmeno de Teo.” Diógenes Laércio

Os 3 nomes mais citados no legado aristotélico, nessa ordem: Platão, Homero e Empédocles.

Ditirambo é a onipresença do canto. A cada verso, a cada estrofe. Relata-se que a Tragédia nasceu do Ditirambo, mas suas relações cessam aí.

Polêmica: a comédia nasceu entre os dórios ou sicilianos? Mégara era o nome da Sicília outrora.

265: hamartía/“o erro exógeno”—heróis trágicos são semi-deuses (para despertar simpatia, mas nem tanta, repúdio, mas nem tanto)—intermediário entre humano e deus.

263-4: lista de tragédias por categoria (apud Gudeman) familial-criminológica! Ex: irmão mata irmão em Sete(…) de Ésquilo e em duas peças de Sófocles: Cólquidas e Citas. Irmão tenta matar irmão em Sófocles—Aletes e Sófocles/Eurípides—Alexandre. Todos os filhos que matam ou tentam matar o pai estão em Sófocles! Mãe mata filho: Eurípides—Medéia/Bacantes/Ino/Meleagro. E filho mata mãe (pai nunca mata filho, exceto na Teogonia?): mito de Electra, Eurípides—Alcmêon.

270: Homero como “meio”/filho (reciclou relatos mitológicos e historiográficos dos aqueus) e não como “precursor”

[ARQUIVO] DEUS E O ESTADO — Bakunin

 

Originalmente publicado em 27 de janeiro de 2013

“a revolução social terá a força de fechar ao mesmo tempo todos os cabarés e todas as igrejas.”

“estas pessoas se chamam socialistas burgueses. Nenhuma discussão é possível com elas. Elas são muito doentes.”

Elogio ao comtista Stuart Mill!

“É assim que, em nossos dias, em certas regiões da alta sociedade, o espiritismo tende a se instalar sobre as ruínas do cristianismo.” “É por isso que o cristianismo é a religião absoluta, a última religião, é por isso que a Igreja apostólica romana é a única conseqüente, a única lógica.”

REFUTAÇÃO DO SAINT-SIMONISMO: “Seria uma 2ª edição dessas missões do Paraguai (…) o mais baixo grau de idiotia.” “O maior gênio científico, no momento em que se torna acadêmico, um sábio oficial, reconhecido, decai inevitavelmente e adormece.”

UM LIVRO DA DÉCADA DE 1880 QUE NÃO PODE SENTIR CHEIRO DE CATÁSTROFE: “Na Itália, apesar desta decadência, passageira, esperemo-lo, pode-se viver e respirar humanamente, cercado de um povo que parece ter nascido para a liberdade.”

“Os heróis da Alemanha atual são Guilherme I, o feroz e ingênuo representante do Deus protestante, os Srs. Bismarck e Von Moltke, os generais Manteuffel e Werder.” “sempre a estender sobre os povos vizinhos seu próprio servilismo voluntário.”

“vós encontrareis sempre os idealistas em flagrante delito de materialismo prático”

“Começando pelo fetichismo, ela se procura e adora a si mesma, ora numa pedra, ora num pedaço de pau, ora num esfregão.”

“O governo da ciência e dos homens de ciência, ainda que fossem positivistas, discípulos de Auguste Comte, ou ainda discípulos da escola doutrinária do comunismo alemão, não poderia ser outra coisa senão um governo impotente, ridículo, cruel, malfazejo.”

“Se é um coelho, quanto mais bonito for o espécime, mais o cientista o dissecará com felicidade.”

Contra os iminentes cientistas sociais.

“A arte é o retorno da abstração à vida. A ciência é, ao contrário, a imolação perpétua da vida”

“É tempo de acabar com esses pontífices, ainda que se dessem o nome de democratas-socialistas.”

ACABA COM A VIRA-LATICE DE ROUSSEAU: “Aparentemente, o escritor democrático do séc. XVIII prepara em si mesmo o despotismo impiedoso do homem de Estado.”

“Victor Hugo, o democrata, o republicano, o quase-socialista de hoje”

Detestava os românticos alemães.

“A burguesia francesa pôs Chateaubriand de lado e recomeçou a ler Voltaire, mas não chegou até Diderot: seus nervos enfraquecidos não comportavam mais um alimento tão forte.”

[ARQUIVO] O VAZIO QUE É MAIS REAL DO QUE O MOMENTO

 

Originalmente publicado em 11 de janeiro de 2013

A pressão absurda da ação imediata. A música é inimiga da preguiça e diante dela nosso maior arrependimento é não ter feito coisas o bastante. Ficar paralisado aprisionado soterrado se torna por 3 minutos a maior dor do universo. Desorientação como barata sem cabeça—para onde eu vou? O que devo começar agora para não perder para o tempo? Depois o aparelho a máquina desliga e voltamos ao estado anestesiado anterior. Aquelas metas foram aniquiladas não podem ser lembradas a pulverização do heroísmo. Meta utopia ridículas. O cigarro que precisa ser aceso, para fazer ode (elegia?) a um precioso momento irrepetível. O coração batendo mais forte—ela vai voltar. Os anos dourados, a lembrança cor de sépia acinzentado… desmancham com prazer com o sereno do silêncio. Se bem que permanece o zunido cósmico de fundo. Seria uma troca de estilos de poder ao invés da perda de poderes? Sabemos que a música é a onda que leva o homem até a crista máxima, o acme do movimentar, estar vivo, deixar a vida passar… É a projeção da perfeição poética, o sumo do desejável, o supra-homem, sem carne. Mas não é dizer que seja professora dum projeto possível, carnoso! O homem tem seus limites, e quaisquer que sejam os futuros, eu—como eu—não pertenço a eles. Para mim, para mim, o que é a música, senão epilepsia, trânsito momentâneo do caótico? Eu sou o miúdo profeta do silêncio. Nele eu ajo ou fico em crisálida, porque minúsculos e discretos como somos só precisamos de um canto para ficarmos quietos.

A bolha chamada momento é impiedosamente circundada pelos nões do vazio. Assim que se evade, o curso normal segue. Pode soar chato, mas o som não se propaga no vácuo…

Misérias antepassadas. Rascunhos maravilhosos. Implosões no meio da obra.

Não devem me enganar, essas sensações. Sigo trilhando o meu caminho. Frio, que é o melhor…

A tranqüilidade escura de uma quina de porão.

[ARQUIVO] NIETZSCHE Y EL CÍRCULO VICIOSO

 

Originalmente publicado em 6 de janeiro de 2013


“É necessário que um doente possa fazer e modificar seus planos de acordo com o tamanho variável de sua esperança”

“a apoplexia libertadora estaria bastante próxima”

“derramei uma grande gota de azeite”

“sem poderosos contrapesos, teria que ficar louco.”

“nem uma profissão inapropriada pôde danificar meu sistema nervoso em suas sutileza e resistência maravilhosas!”

“A serenidade é apenas uma sorte de armistício entre impulsos inconciliáveis.”

“Nós burlaríamos inclusive do psiquiatra e ocultaríamos nosso ‘desejo’ de ‘curar’.”

“essa revelação não chegou a mim como uma reminiscência—nem como uma experiência de déjà vu.” “Foi necessário esquecer essa revelação para que se fizesse verdadeira!”

82: o esgotado; a embriaguez.

83/179: Dioniso e Apolo; a resistência e resignação que são força; o não-saber se somos emergentes ou decrépitos, a impossibilidade de pinçar no áporo “decadência” e “elevação”.

“manter a coesão a qualquer preço”

Pode alguém de “vida ruim” divinizar a vida, alguém menos que heróico? Ou somos, os adeptos, peixes n’água, oportunistas, nascidos no lugar certo, na hora certa—nascidos para reinar? Não é preciso fazer força para ser forte? “A radiante apoteose da vida, quintessência da doutrina do eterno retorno, que Nietzsche estabeleceu posteriormente, constituía uma contradição tão profunda com seu próprio sentimento atormentado da vida que nos dá a impressão de uma máscara inquietante.” Lou Salomé

96: a refutação de Spinoza

“A ‘vontade de poder’ é a vontade que Schopenhauer considera o ‘em si’ das coisas?” “O que ele chama vontade é uma expressão vazia.”

“Em lugar da ‘sociologia’, uma doutrina das formações de soberania” “Em lugar da ‘teoria do conhecimento, uma doutrina das perspectivas dos afetos, de sua ordem superior, de sua ‘espiritualidade’.”


Se Nietzsche situa “Deus” como “non plus ultra da vontade de potência”, e se a criação do Uno não foi o epílogo do universo, é porque ele não tem um (a energia prefere decair do que desaparecer—aliás, só há esse caminho). Como que “comprovação científica” da tese. Se o universo autossofre as mais tenebrosas das decadências, por que não eu? E o ponto mais baixo? Seria com Newton? Newton comeu a maçã dolorosa e Deus ressuscitou. O imortal, coitado, ficou com pinta de Semelhante diante das testemunhas mortais.


“a atração que exerce o nada só pode ser superada pelo desenvolvimento dos fantasmas que Buda se vangloria de liquidar.”

“paixão malthusiana”

137: Nietzsche e o fracasso do socialismo

138: Código de Manu

“humanidade (pura abstração no sentido de Stirner)”

145: “casta dos contemplativos” vs. casta escrava—já em curso

MARX, O FILÓSOFO MARCENEIRO: “Uma raça poderosa o bastante como para não necessitar da tirania nem do imperativo de virtude”

Devo agradecê-lo por possibilitar o fim do problema da PATERNIDADE, mediante o círculo. Se meu pai é meu filho, meu irmão é meu neto. A vida lúcida de Nietzsche termina antes da da sua mãe. Sua irmã e sua mãe, como últimos homens, demoram a passar…

“Meus dias se me aparecem agrupados, já sob um sinistro resplendor, já em uma dissolução gozosa.” N., aos 16

164: o lado gótico-sádico precoce do autor

“ódio a si mesmo como produto de um meio ao que se deixa de assimilar” “se pudesse encontrar a cabeça do meu duplo! Dissecar seu cérebro ou minha própria cabeça de criança com caracóis de ouro… ah… faz vinte anos… criança… que palavra estranha soa em meus ouvidos.” Por que em nenhum outro lugar consta esse tesouro literário? “a arte de converter os jovens em velhos a curto prazo… questão em que me tornei um mestre.”

“As bodas de seus amigos Rohde e Overbeck repercutem em sua própria existência fazendo com que algumas vezes seu celibato lhe pese e outras o fortaleça: uma companheira poderia ser sua enfermeira e discípula.”

“Frente à dupla Rée-Salomé, Nietzsche fracassa lamentavelmente em sua virilidade e por sua virilidade.”

“Querer explicar a criação de Zaratustra como compensação do desejo de ‘ter um filho’ é totalmente insensato.”

“sempre estive exposto aos avatares mais cruéis” a Overbeck

“A decisão que me havia imposto para este inverno—não aceitar mais cartas por essas bandas—já não é rigorosamente aplicável (não sou duro o bastante para isso).” “ajude-me a que me possa sustentar durante mais quinze meses”

“O bufão e o santo—os dois tipos humanos mais interessantes, estreitas afinidades entre o gênio e o ‘grande aventureiro e criminoso’, os enfermos e os débeis têm a vantagem da fascinação”

“A mim, p.ex., cada 5 semanas se me aparece um pequeno ideal de levantar vôo no curso de um passeio selvagem e solitário, no instante azulado de uma sorte fraudulenta. (…) semi-artista, semipássaro e metafísico, sem um sim ou um não para a realidade, a menos que de tempo em tempo a admitamos somente com a ponta dos pés como um bom bailarino” “nesses instantes intemporais que parecem cair na vida desde a Lua, durante os quais se esquece a idade”

“O testemunho que lhe brinda Strindberg não é—como as conferências de Brandes—somente um reconhecimento a sua autoridade” Ambos conversam sobre Lombroso. “Todas as cartas a meus amigos as termino com ‘leiam Nietzsche!’”

“[Ecce Homo] não é [meu] livro mais extenso: suponho que a edição francesa será um volume de 3,50 francos.” “[vem] em uma linguagem de dirigente mundial” “Para pôr-me a salvo das brutalidades alemãs (‘confiscação’), antes da publicação enviarei os primeiros exemplares ao príncipe Bismarck e ao jovem imperador com uma notificação de declaração de guerra, a que os militares não poderão responder com medidas policiais.—Sou um psicólogo.”

“de seu punho e letra [!!] magistrais” Strindberg.—seu último [único?] tradutor francês em vida. “Traduzido ao francês, [o senhor] penetrará até no mundo dos negros”


Mesmo assumindo que Nietzsche pudesse conservar seu corpo “intacto” ou em “meia-idade” por mais meio século do que o fez, ele não poderia evitar o fado de tornar-se menor que a sombra de si próprio nos tempos de vanguarda, pois, além de não ter nada a acrescentar, seus contemporâneos do século XX só confundiriam sua caberça e fá-lo-iam cair em excessos retóricos efêmeros e insignificantes, como o futurismo ou qualquer doutrinazinha vagabunda de esquerda ou de direita… O mais ostensivo anarquismo russo lhe pareceria uma gravura de jardim diante de suas próprias brochuras davincianas…


Quanto não sofreu Burckhardt!

“tão simples como criar a crônica do grande mundo”

“não se sentem ciúmes quando se é Deus, salvo entre os deuses.”

“O que o devora agora é pior que um Minotauro”


ORIGEM & FIM DA TRAGÉDIA

O Parto dos Babacas, Lassidão/Apatia da Inércia, Eu, Robô, O Sedentário e Sua Pança, Doutra Forma Teria Negado o Néscio Laico. Derrocada do Caos


GLOSSÁRIO (alemão):

Trugbild: simulacro

[ARQUIVO] OS PRÉ-SOCRÁTICOS — Bornheim (org.)

Originalmente publicado em 31 de dezembro de 2012

Tales também viajou ao Egito.

Anaximandro anunciou o eterno retorno.

“não é excesso beber sem desrespeitar os limites, a fim de poder voltar para casa sem auxílio, a não ser quando se é demasiado velho.”

“pela velocidade dos pés—a mais estimada entre todas as provas atléticas dos homens”

“E conta-se que passava Pitágoras, ao ser castigado um pequeno cão; sentiu piedade e pronunciou as seguintes palavras: ‘Pára de bater. Pois é a alma de um amigo meu, que reconheci ao ouvir os seus gemidos’.”

“Os etíopes dizem que os seus deuses são negros e de nariz chato, os trácios que têm olhos azuis e cabelos vermelhos.” Xenófanes

“Se Deus não tivesse feito o dourado mel, os homens julgariam os figos muito mais doces.” “Parmênides teria sido seu discípulo” “A natureza de Deus seria esférica” “pois um deus não pode dominar os outros”

“O Sol tem a largura de um pé humano” Heráclito

“O Sol é novo todos os dias” “Se todas as coisas se tornassem fumaça, conhecer-se-ia com as narinas.” “o mesmo é Hades e Dionísio” “Quanto maior for a morte, maiores os destinos” “O Uno, o único sábio, recusa e aceita ser chamado pelo nome de Zeus.” “Homero deveria ser expulso dos jogos públicos e ser castigado. Também Arquíloco.” expulsão post mortem!

“O caminho da espiral sem fim é reto e curvo, é um e o mesmo.” “O mar: a água mais pura e a mais abominável” “o relâmpago governa o universo.” “Pitágoras ancestral dos charlatães” “Movendo-se, descansa (o fogo etéreo do corpo humano).” “Um homem tolo assusta-se a cada palavra.” “O Sol não ultrapassará os seus limites” “Os cadáveres deveriam ser lançados fora como estrume.” “O caráter é o destino de cada homem.” “A mais bela harmonia cósmica é semelhante a um monte de coisas atiradas.” “O Sol é um fogo inteligente, vindo do mar.”

“Atingiu o acme de sua existência em 530 a.C.” (Pitágoras). Egito e Babilônia. Onde estão os xarás antigos? “os ferreiros, por hábito, já não ouvem as batidas de seu martelo.” “o mais excelente deve ocupar o lugar mais excelente; o fogo é mais excelente que a terra” (apud Aristóteles)

“aos homens só conjeturar é permitido.” “Os homens morrem porque não podem unir o princípio ao fim.” Alcmeão

“Pouco me importa por onde eu comece, pois para lá sempre voltarei novamente.” Parmênides

“Jamais se conseguirá provar que o não-ser é” “o ser deve ter um limite” “O mesmo é pensar e o pensamento de que o ser é” “Nada é e nada poderá ser fora do ser, pois Moira o encadeou de tal modo que seja completo e imóvel.” “não te deixes vencer pelo pensamento de nenhum mortal.”

Zenão, “fundador da dialética” (apud Aristóteles).

“Belo é dizer mesmo duas vezes o que é necessário.” Empédocles

“O mar, suor da Terra.” “O mesmo são: cabelos, folhas, penas e escamas.” “Afrodite, que uniu os elementos com os laços do Amor: os dois olhos produzem uma única visão.” “A água une-se melhor ao vinho, mas com o azeite não quer unir-se.” “a insistência da convicção sobre a alma é incômoda.” “Cáris odeia a intolerável Necessidade.” “Empédocles afirma que o mundo está atualmente sob o domínio do Ódio” (apud Aristóteles)

“No que é pequeno não há um último grau de pequenez, mas sempre um menor; pois é impossível que o que é cesse de ser pela divisão.” Anaxágoras

“O que se chama ‘leite de pássaro’ é a clara do ovo.” “Anaxágoras, filho de Hegesíbulo de Clazomena”

“Leucipo é a personalidade mais obscura de todos os pré-socráticos.”

“Demócrito foi o mais viajado dos filósofos pré-socráticos” Os átomos são infinitos. Químicos, escolhei outro patrono!

“A coabitação é uma pequena apoplexia.” Tudo posso ser, menos um apoplético voluntário.

“Belo é não participar da injustiça do homem injusto.” “Muitos que não aprenderam a razão, vivem segundo a razão.” “Os insensatos tornam-se razoáveis pela desgraça.” “Conhecer o belo e aspirar a ele supõe um dom inato” “Desejar sem medida é coisa de criança e não de um homem.” “Prazeres intempestivos provocam desgosto.” “A inimizade dos parentes é muito pior do que a dos estranhos.” “Amigos experimentados não suportam muito tempo um caráter difícil.” “Agradável é o ancião que sabe gracejos e pronunciar palavras sérias.” “Amigos são, não todos os que nos são aparentados, mas aqueles que concordam conosco naquilo que importa.” “A mulher não se deve preocupar com a fala; pois isto é desprezível.” “Ser dominado por uma mulher é, para um homem, a mais extrema ofensa.” “Pobre razão! A vitória será tua desgraça.” “A Música é uma arte jovem. Pois não foi a necessidade que a fez nascer, mas o supérfluo já existente.” “Homens que fogem da morte correm atrás dela.” “O autodomínio do pai é o maior exemplo para os filhos.” “A moderação aumenta o gozo e acresce o prazer.” “Dormir durante o dia manifesta uma perturbação do corpo ou tormento ou preguiça ou má formação da alma.” “Viril não é somente quem triunfa de seus inimigos, mas também dos prazeres. Alguns, contudo, são senhores de cidades, mas servos de mulheres.” “Amontoar riquezas excessivas para os filhos é um pretexto à cobiça, que com isto põe a nu o caráter.” “Uma vida sem festejos é um longo caminho sem hospedarias.” “pão de cevada e um leito de palha são os melhores remédios contra a fome e o cansaço.” “a pátria de uma alma virtuosa é o universo.” “É inevitável cometer erros, mas não é fácil encontrar o perdão dos homens.” “Justiça quer dizer: fazer o que é necessário.” “Quem tem sorte com o seu genro, encontra um filho; quem não tem sorte, perde também a sua filha.” “Educar crianças é inseguro. Quando é bem-sucedida, foi cheia de lutas e preocupações; quando não é bem-sucedida, a dor é inigualável.” “A procriação não me parece necessária. Pois vejo na posse dos filhos muitos grandes perigos e muita aflição; pouca satisfação” “Quem tiver a necessidade de ter um filho, parece-me que faz melhor adotando um de um amigo.” “Expulsa pela razão o sofrimento incontrolável de uma alma paralisada pela dor.” “Os olhos úmidos, portanto, são melhores para ver do que os endurecidos”

[ARQUIVO] O TRATADO DA CORREÇÃO DO INTELECTO, O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON & SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO

 

Originalmente publicado em 27 de dezembro de 2012

A) SPINOZA

“o homem e seu gosto pela contradição, que ordinariamente o leva a deformar e a interpretar mal mesmo as coisas proferidas com maior clareza”

“penso que teria de renunciar a contribuir para o progresso da filosofia, se quisesse ocupar-me em instruir a mocidade.” O polidor de lentes.

“não é necessário, para que eu saiba, que saiba que sei, e muito menos ser necessário que saiba que sei que sei”

29: propriedades do mundo fenomênico

Toda moral é provisória.

* * *

B) SCOTT FITZGERALD

“aquela eterna inércia que vem viver conosco um dia e fica até o fim.”

Nosso suposto auge social é só uma mancha.

* * *

C) SHAKESPEARE

Ares de Romeu & Julieta. O Direito (até pré-romano) de matar a filha caso esta não se case com o favorito do Pai-Deus. As escolhas são três: o casamento indesejado, o convento ou a morte.

“O Amor não vê com os olhos, mas com a mente; por isso é alado, e cego, e tão potente. Eterna criança: eis como é apelidado, por ser sempre na escolha malogrado.”

Bem como em Hamlet, a peça dentro da peça.

“Sou feia como um urso. Para feiúra tal não há recurso.”

“Com prosa lhana João pega Joana. Quem boa potranca tem, acha que tudo está bem.”

A peça é trágica, embora seu fim seja feliz. A peça dentro da peça é cômica, embora trágico tenha sido o roteiro.

* * *

D) REPRODUZA ESSE POEMA, POR FAVOR!

Sinto-me tão pobre e bajulador!

Comparado à 10treza de Leoda20 eu devo ser um amputado.

Pois pra mim gramática é ciência exata

o que tenho de introjetado

aprendi dos mestres mas não sei a equação

Nossas mentes não suportam mais!

mal posso suportar a visão dum teclado ou duma lira

nanogênio, um novo conceito ®

[ARQUIVO] TEETETO

Originalmente publicado em 20 de novembro de 2012

“pois a rigor nada é ou existe, tudo devém”

“Sobre isso, com exceção de Parmênides, todos os sábios, por ordem cronológica, estão de acordo: Protágoras [‘o homem é a medida de todas as coisas’], Heráclito e Empédocles (…) e Homero.”

“o repouso estraga e destrói, e o seu contrário conserva.” Nossos sonhos agitados e multiformes são a prova cabal disso.

“Ou poderás afirmar que cada cor aparece para ti exatamente ecomo o faz para um cão ou para qualquer outro animal?”

“como é igual o tempo que dedicamos ao sono e o que passamos acordados”

“É de crer que, como mais velho, ele seja mais sábio do que nós. Se neste momento ele conseguisse sair da terra só até o pescoço, com toda a certeza me acusaria de dizer muita tolice, e a ti também, por concordar comigo, depois do que afundaria de novo na terra e desapareceria.”

“Tales (…) porque olhava para o céu, caiu num poço.” “Essa pilhéria se aplica a todos os que vivem para a filosofia. Realmente, um indivíduo assim alheia-se até dos vizinhos mais chegados e desconhece não somente o que eles fazem como até mesmo se se trata de homens ou de criaturas de espécie diferente.”

“sempre que nosso filósofo é forçado a tratar de assuntos que lhe caem sob a vista ou diante dos pés, torna-se alvo de galhofa não apenas por parte das raparigas da Trácia como de todo o povo. Sua irremediável inabilidade para as coisas práticas fá-lo passar por imbecil.”

Sócrates fala dos “abestados” (indiferentes, investigativos…) da polis que simplesmente não sabiam onde se julgam processos ou o que fizeram ontem na ágora. Talvez nem com todas as minhas forças e entranhas reviradas eu consiga cobrar um aluguel, isso é certo, mas não consigo deixar de me estupeficar com meu pai-alienígena, pois este nunca ouviu falar de Dante ou Goethe!

“Num revide de injúrias não sabe como atacar o adversário”

“o filósofo não merece ser vituperado por não saber amarrar os cobertores na hora de viajar nem temperar alimentos”

[ARQUIVO] CONTOS LIBERTINOS

Originalmente publicado em 20 de novembro de 2012

“o verdadeiro modo de se opor às enormes protuberâncias que ornam a cabeça de um marido é dar mostras de não desconfiar de as estar usando”

“falava latim como Cícero”

“é preciso adular um pouco o marido cuja mulher se deseja possuir”

Marquês pioneiro na descrição de beatos pedófilos?

15-16: “O esposo complacente”

Cardápio completo—esclarecimento invejável para a sexualidade recalcada do próprio século XX!

A SAFISTA: “Para os homens, Augustine era um verdadeiro desperdício.”

“é tão doce falar duas ou três horas sem nada dizer!”

“visava epicurianamente a uma vida voluptuosa”

[ARQUIVO] DISCURSO SOBRE A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA & OUTRAS CARTAS

Originalmente publicado em 20 de novembro de 2012

Etienne LA BOÉTIE—o amigo anti-semita de Montaigne. Fazia média, é óbvio, com os reis franceses em seus escritos.

Pisístrato foi um tirano, mas não fosse por ele talvez o Ocidente jamais conhecesse a Ilíada e a Odisséia, ou não soubesse ligar as obras, imaginando que pertenciam a dois autores distintos.

“Dos imperadores romanos se pode dizer que foram menos os que escaparam de qualquer perigo por intervenção dos arqueiros do que os que pelos próprios guardas foram mortos” “O Sátiro indiscreto, ao ver aceso o lume descoberto por Prometeu, achou-o tão belo que foi beijá-lo e se queimou.”

* * *

SAINT-SIMON

Nada mais antagônico a Stirner! Um governo dos sábios e gênios em prol do humanismo e do progresso…

Por outro lado, “o espírito acadêmico seguirá a rota contrária, procurando sempre manter-se entre as opiniões consagradas, considerando-se depositário da verdade, criticando-se a si mesmo se muda de opinião. (…) Com que encarniçamento perseguem os acadêmicos aos homens de gênio quando estes combatem suas opiniões”

“O despótico Richelieu, fundador da primeira academia da França”

As academias mais Iluminadas estão mergulhadas em treva.

“Felizes momentos aqueles em que a ambição só vê ambição e glória na aquisição de novos conhecimentos e abandona essas fontes impuras onde as paixões tratam de apagar sua sede, fontes de miséria e de orgulho (…) Não mais honremos a Alexandres; viva os Arquimedes!”

“É uma sorte que a tumba de Newton, lugar de reunião, esteja na Inglaterra, país que foi constantemente refúgio dos homens de gênio e dos sábios perseguidos de outras nações!”

20 postos seriam mais que suficientes para tal governança planetária. Eleições democráticas/meritocráticas.

“Vós sois a parte da humanidade que tem maior energia cerebral, vós sois aquela que possui maior aptidão para receber uma idéia nova, vós sois os mais diretamente interessados no êxito do abaixo-assinado e é a vós que corresponde vencer a inércia.”

“Na Rússia, quando um sábio não é do agrado do imperador, cortam-se-lhe o nariz e as orelhas, e se o envia à Sibéria. E os camponeses são tão ignorantes como os cavalos.”

“as matemáticas contêm os únicos materiais que se podem empregar na construção de um sistema geral”

“Os moralistas se contradizem quando criticam o egoísmo no homem e aprovam o patriotismo, porque o patriotismo não é mais que o egoísmo nacional”

“os matizes delicados de vossas sensações”

“Para falar ou escrever de maneira que os apraza, para fazer um quadro ou uma estátua que os agrade, para compor a música que os interessa, é mister trabalhar muito.”

“Se os revolucionários houvessem consultado os fisiólogos, ter-lhes-iam ensinado que o negro, de acordo com sua constituição, não é suscetível de uma educação igual, e de ser elevado à mesma altura de inteligência que os europeus.”

“o maior inimigo das Luzes (Robespierre) foi precipitado nas trevas e seu destino é permanecer eternamente agente e paciente da minha vingança” hipotéticas palavras de deus.

“Todo homem que não obedeça esta ordem será considerado e tratado pelos demais como um quadrúpede.”

Tão repugnante e asqueroso em seus planos normativos quanto Comte.

“Sabeis que os europeus são filhos de Abel. Sabeis que a Ásia e a África são habitadas pela posteridade de Caim. Vede como são sanguinários esses africanos. Observai a indolência dos asiáticos.”

[ARQUIVO] MI PUTA… MI PUTITA

Originalmente publicado em 25 de outubro de 2012

Estou enamorado

Toda vez que me debruço na janela para fumar, porque não tenho mais um cinzeiro, eu quebrei o cinzeiro, contemplo a mesma paisagem soturna. Tão próximo, mas tão distante, gesticula um objeto na penumbra. É como se estivesse nu. E quase está. Ela desempenha seu serão. Obviamente eu não sei seu nome. Obviamente, eu não sou um dos seus consumidores. E acho melhor conservar na utopia a brasa encendida chamada meu peito. Escura como está, e sem rosto, como manequim, ela é meu carvão. Ela pulsa. É a única viva esta noite. Como em todas as noites. São só sete minutos que a observo a cada dia.

Mas agora estou enlutado. Viro-me para baforar a fumaça pelas narinas e quando fixo de novo os olhos na reta—algumas árvores, uma pista, prédios nas laterais nos separam—ela desapareceu. Se foi minha putita.

Ouço pneus cantando no asfalto… Só a amo, só me enterneço, porque ela não é minha. Meia hora. Suja por dentro. Lubrificada. Que macho sou eu que não posso comprá-la? Comprar-lhe um pão com salsicha. Amanhã ela estará de pé ali de novo. Na vitrine de carne. Se bem que nunca está, para mim… Minha de uma forma secreta. Sei que é correspondido, porque ela ama o estranho que não a corrompe! Não a estiola. Quem mais pura do que a flor que sempre após ser estiolada outra vez desabrocha?

[ARQUIVO] O ÚNICO & SUA PROPRIEDADE — Max Stirner

Originalmente publicado em 19 de setembro de 2012

Ilustrado por Engels (!); tradução de João Barrento.

Não sabia que os semitas seriam capazes de ter uma “deusa do amor e da fertilidade”.

“suicidou-se, tendo sido ainda assim guilhotinado. [Babeuf]”

“Francis Bacon foi demitido dos seus cargos públicos sob acusação de aceitar subornos nos casos que julgava.”

“Não existe qualquer retrato de Stirner, embora a fotografia já se tivesse implantado, e os grandes autores do século da fotografia se tivessem feito retratar abundantemente.”

“um dandy, um fumador compulsivo, demasiado egoísta para ter amigos…” Marie Dänhardt é a autora da caracterização—a viúva e segunda esposa de Stirner, que teve sua riqueza herdada do pai praticamente dissipada em pouco tempo pelo marido!

Stirner: testudo. Nome de batismo: Johann Caspar Schmidt. [USP—publicado em 1845—autor morre em 1850]

“Depois de 1848 o livro deixa de ser citado, e será incitável fundamentalmente por aqueles que o leram profundamente inquietos, como é o caso de Marx e de Nitzsche.”

“Não é impossível que o Único seja uma enorme paródia da metafísica ocidental.”

“esforços de John MacKay [1º biógrafo e discípulo de Max, inglês], que dedicou boa parte de sua vida à causa stirneriana, mas que o trai reduzindo-o ao ‘anarquismo individualista’”

“Maldoror é a descrição de todos os crimes possíveis em busca de um crime absoluto.”

“Uma linha de fogo liga os malditos do Ocidente: Sade na literatura, La Mettrie na medicina, Lautréamont na poesia, Stirner na filosofia.”

“lágrimas têm o sabor do vinagre”

PREFACIADOR BOBALHÃO: “Tanto para Stirner como para Nietzsche ‘Deus tinha morrido’, mas Nietzsche tinha o ‘hiper-homem’ para ocupar o seu lugar.” E MS tinha o Nada, o Eu?! “é em Dostoievsky que ele ressurge com força inaudita.” “Nas Memórias do Subsolo, a voz do anônimo professor de colégio é a voz de Stirner”

“M.S. renuncia a tese hegeliana de que a filosofia tinha chegado ao fim, como mais tarde o fará Marx nas suas teses sobre Feuerbach, para extrair daí conseqüências muito distintas.”

“A estratégia do Único é a de circunscrever a dialética através de um círculo que a exorbita. Esta necessidade está encenada no próprio livro, que começa e termina com a mesma frase: ‘A minha causa não se funda em nada!’.”

“o Sistema do Saber hegeliano demonstra (dé-montre) que nenhuma filosofia posterior à data da sua redação o pode ‘ultrapassar’ pois este Sistema mostra que integra em si mesmo todas as filosofias ‘possíveis’.” Alexandre Kojève

É dito que a “onda” de livros de vampiros começou mais cedo que em 1897 (sintoma de décadence): John Polidori, Vampiro, 1819.

O FALATÓRIO DOS MARXISTAS: “Marx esforçou-se, e muito, por mostrar que Stirner não tinha a mínima idéia das condições reais da vida, que ele era mais uma vítima do imaginário teológico, que criava uma filosofia à imagem dos desejos da ‘alma’ pequeno-burguesa.”

“Conta Baumgartner, um discípulo, a quem Nietzsche recomendara a leitura do Único, que o último lhe teria afirmado então ser esse livro ‘o mais audaz e conseqüente que se pensou depois de Hobbes’.” “É por isso que Stirner faz do corpo uma questão central, e muito antes de Nietzsche.” “Baumgartner foi o aluno favorito de Nietzsche durante o período como professor de filosofia em Basiléia.” Sobre acusações póstumas de plágio de Nietzsche de Stirner: Safranski, Nietzsche. Biografía de su pensamiento. “Sabe-se que Fraud leu atentamente a ‘filosofia do inconsciente, publicada por Eduard von Hartmann em 1869. Hartmann, bom conhecedor de Stirner, será fortemente criticado por Nietzsche na sua II Intempestiva. Será este o principal argumento de Hartmann para acusar Nietzsche de plágio, pois como o seu livro continha largas análises sobre Stirner [?], isso seria sinal bastante de que Nietzsche não pudera deixar de conhecer as posições stirnerianas.”

“Daí, um certo selvagismo feito da impaciência por ter de escrever… o que está a escrever,” MS pregava o hedonismo hic et nunc, mas não era capaz de ser hedonista.

“Não há prova provada de que Foucault tenha sido leitor de Stirner”

O autor idiotamente cita Matrix como boa ilustração.

“mais vale a luz livre de uma grisette [puta] que mil virgens que a virtude fez cinzentas!”

Fala até de filme baseado em Stephen King (que ele sinaliza nãoi conhecer, aliás): Christine, o carro com moto próprio, assassino(a); só faltou citar o amigável Herbie!

“[Para Kant] Os fantasmas devem-se a um desencaminhamento metafísico.”

“David McLellan, um marxista sem quaisquer simpatias por M.S., reconhece que este se antecipou a Marx sobre a questão da ‘mais-valia’.”

“Com alguma ingenuidade, critica o tabu do incesto como se ainda estivesse em aberto”

“Stirner respeita melhor o Direito existente e as leis do que Marx”

“Nietzsche e Stirner são os únicos cujos livros releio com prazer.” Duchamp, o mesmo do urinol.

“Aliás, não existe em Stirner nenhum problema sobre os fundamentos, dramatizado por Nietzsche a um ponto inaceitável.”

* * *

“O bem-estar (hedone) dos epicuristas é a mesma sabedoria de vida dos estóicos: o mundo tem de ser enganado, porque é meu inimigo.”

“o egoísta involuntário (…) só se rebaixa ‘para poder ser elevado’” “Aquilo que tu és em cada instante é criação tua, e tu, o criador, não queres nem deves perder-te na tua ‘criatura’. Tu próprio és um ser superior a ti, superas-te a ti mesmo.”

“os nossos jornais regurgitam de política porque vivem na ilusão de que o homem nasceu para ser um zoon politikón”

“Se não vos agradar a palavra ‘possesso’, podeis substituí-la por convencido, ou então, por… entusiasmo espiritual—o entusiasmo perfeito se chama fanatismo.”

“Hoje em dia voltamos a ouvir louvar a ‘seriedade’, a ‘seriedade no tratamento de questões e fatos altamente importantes’, a ‘seriedade alemã’, etc.”

“Com Hegel vêm finalmente a lume a nostalgia do homem culto pelas coisas e o seu horror de toda a teoria oca.”

65: da criança no filósofo e da insipidez do inglês

“A Igreja católica excluiu de sua ordem sacerdotal o casamento profano e proibiu o seu clero de constituir família; a protestante declarou sagrados o casamento e os laços de família, que por isso são compatíveis com o estatuto de seus pastores.”

“Beijo sem malícia não pede polícia”

70: o luteranismo de Hegel

“há também vagabundos do espírito, para os quais o lugar de vida dos pais é demasiado estreito e opressivo para se poderem contentar com este espaço limitado.” “espíritos inquietos”

“Quando o proletário fundar realmente a ‘sociedade’ que sonhou, onde desaparecerão as diferenças entre ricos e pobres, então ele será miserável, porque nessa altura sabe que ser miserável é qualquer coisa, e a palavra ‘miserável’ poderá ganhar o sentido de tratamento de honra, tal como aconteceu com a palavra ‘burguês’ na Revolução. O miserável é o seu ideal, e todos devemos tornar-nos miseráveis.” “As reflexões e conclusões do comunismo parecem muito simples (…) o Estado tem de ser abolido.”

“o humanista responde: A instabilidade de tantos é um produto teu, filisteu!” “deveríeis dar ao ócio um significado humano.” “de novo um interesse celestial”

“Os homens do futuro lutarão ainda por muitas liberdades de que nós nem sentimos a falta.”

“Se achares que o teu valor é nadas antes de te tornares ‘homem’, então terás de esperar até ao dia do Juízo, até àquele dia em que o homem ou a humanidade terá alcançado a perfeição. Mas como vais certamente morrer antes, onde é que fica o prêmio da vitória?”

“Que fazer para não soltar o monstro inumano juntamente com o homem?”

“agora sou o único, sou—para teu horror—o egoísta, mas não o egoísta que se deixa medir pela medida do humano, do humanitário e do altruísta, mas o egoísta enquanto… único.”

“um espreguiçar dos membros sacode para longe de mim o tormento dos pensamentos, um salto lança o pesadelo do mundo religioso para fora do meu peito, um grito de júbilo alivia-me dos fardos de muitos anos.” “Enquanto os colocares, não os largarás, e eu não tenho nada contra o fato de tu quereres pensar e, pensando, criares milhares de pensamentos.”

“o próximo começa em nós próprios!”

“um cão tem um coração que bate, o dito cão morto, não, e por isso já não é cão.”

“E se alguém vos sugerisse mesmo inverter as coisas?”

“a ‘liberdade’ é e será sempre uma nostalgia, um lamento romântico, uma esperança cristã no além e no futuro; a ‘singularidade-do-próprio’, é uma realidade que, por si só, elimina tanta escravidão que atravanca o vosso próprio caminho.”

“até de vós próprios vos livrais!”

“Hei-de considerar a Lua sagrada, pelo fato de não lhe poder chegar, uma espécie de Astarte? (…) Se eu descobrir um meio de chegar aí acima, não és tu que me vais assustar!” Cem anos depois o homem ainda estaria ruminando Apolo.

“não me rendo, espero apenas pela minha oportunidade

São Bonifácio, o evangelizador bávaro, cortou o carvalho sagrado de Thor.

“Eu sou, de fato, a um tempo, humano e inumano, porque sou homem e ao mesmo tempo mais do que homem, ou seja, sou o eu dessa minha mera qualidade.”

“quando o Estado tiver levado às últimas conseqüências o seu princípio de não exigir aos seus membros nada mais além de serem homens, então terá cavado a sua própria sepultura.” “Os egoístas serão a ruína da ‘sociedade humana’.” “perfeita democracia—ou, como seria mais correto dizer, antropocracia.” “Fichte fala do eu ‘absoluto’, mas eu falo de mim, do eu transitório.” Assim como em Feuerbach.

“a espécie não é nada” “O homem é o último espírito maligno ou espectro, o mais enganador ou o mais familiar, o mais esperto dos mentirosos, com o seu semblante honesto, o pai da mentira.”

“E depois, por onde passa a fronteira entre as piadas inocentes e as culpabilizáveis?”

“Pede-se apenas que o Estado não seja tão rabugento, como um pai mal-humorado.”

“viram a casaca tão depressa: mal lhes concedem liberdade de imprensa, querem logo a censura.”

“não sois tão grandioso como um criminoso”

“na culpa está o valor de um homem.”

“O contraste precisa, antes, ser agudizado.”

“A nossa fraqueza não consiste em estarmos em oposição a outros, mas em não o estarmos de forma plena, i.e., em não estarmos totalmente separados deles”

O último e definitivo contraste, o do único contra o único, está, de fato, acima daquilo a que se chama ‘contraste’.”

159: as passagens apropriáveis pelos fascistas

“O crepúsculo dos povos e da humanidade será o advento da minha aurora.” “O povo morreu.—Viva eu!”

Em 1850 a Alemanha celebrava 1000(?) anos.

“O Constitucionalismo (…) é o Estado em vias de dissolução.”

“Se o erudito não tem particular interesse na situação do Estado, terá de se ocupar dele, só porque esse é o seu ‘mais sagrado dever’? Desde que o Estado satisfaça os seus desejos, ele não tem razão para se desviar dos seus estudos. Que se ocupem disso os outros.”

“Proudhon poderia ter poupado muito de sua retórica patética se tivesse dito: há certas coisas que só pertencem a alguns e que nós, os outros, agora pretendemos reclamar, ou a que queremos dar caça.”

“Se no mundo nós não podemos libertar-nos de todas as limitações, assim também o não pode a nossa escrita. Mas podemos tornar essa escrita tão livre quanto nós próprios formos livres.”

“Tu próprio só por um feliz acaso ou por caminhos ínvios consegue fazer chegar à opinião pública as idéias que professas no teu livro.” “a liberdade de imprensa estará sempre dependente da ‘ocasião propícia’, e nunca será uma liberdade absoluta”

“O fato de os comunistas e os liberais humanistas esperarem mais do homem que os cristãos não significa que não falem todos a partir do mesmo ponto de vista. O homem deverá chegar ao humano!”

Sobre o pórtico de entrada do nosso tempo não está inscrita aquela máxima apolínea que diz: Conhece-te a ti mesmo!, mas aquela outra que diz: Valoriza o que é teu!

240: a mesma distinção camusiana entre revolução (inútil) e revolta (egoísta)

“Por que razão hei-de eu pensar apenas de modo diferente dos outros a propósito de uma dada coisa? Porque não levar essa diferença de pensamento até as últimas conseqüências, nomeadamente até àquele ponto em que eu não reconheço à coisa o direito a ser pensada, em que penso o seu nada, em que a apago?”

“Feuerbach quer vencer o ‘pensamento absoluto’ de Hegel por meio do ser não-superável. Mas em mim, tanto o ser como o pensamento são superados.”

“em geral o que as pessoas pensam não vai mais longe que aquilo que pensaram os seus professores.”

O tempo todo: da esterilidade do crítico (II Intempestiva).

Falta alguma coisa.

[ARQUIVO] PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA DO DIREITO, a.k.a. Perfídia

Originalmente publicado em 10 de setembro de 2012

“[a filosofia hegeliana] permanece impenetrável” “o mais difícil dos livros de Hegel (…) penosa leitura” O animador prefaciador

“Como se viria a verificar, se há nesta concepção algo de decisivo para que o Direito seja possível como Filosofia do Direito, i.e., para que o Direito se afirme como sujeito ou capacidade formal de pensamento, não poderia ela ter lugar dentro de uma filosofia que se apresente como kantiana.”

“Oscilamos, nos vendavais da opinião, entre a geral irreflexão de um anarquismo informe e os particulares interesses de um estatismo formal.” Orlando Vitorino

“trapaceiros do livre-arbítrio”

“Bem podia Platão ter-se dispensado de recomendar às amas que nunca estivessem quietas com as crianças e incessantemente as embalassem nos braços, como Fichte de querer aperfeiçoar o policiamento das identificações a ponto de pretender que se pusesse nos bilhetes de identidade dos suspeitos não apenas os seus sinais, mas também os seus retratos.”

“o sistema do direito é o império da liberdade realizada” “a liberdade é um dado da consciência em que é forçoso acreditar.” “A representação mais vulgar que se faz da liberdade é a do livre-arbítrio”

“dificilmente se encontrará uma ciência que esteja num estado tão lamentável e de tanto abandono como a teoria do espírito comumente designada por psicologia.”

“A vontade que existe em si é verdadeiramente infinita porque é ela própria o seu objeto e não constitui, portanto, para si nem um outro nem um limite mas, antes um regresso a si.” “Compreende-se assim, quando apenas se fala de vontade livre, que se designa precisamente algo que não é a vontade livre.” = Direito As monstruosidades “individualistas” perpetradas por Hobbes, Rousseau, etc.

“O universal em si e para si é aquilo a que se chama o racional e só pode ser concebido de um modo especulativo.”

“Só o direito do Espírito do mundo é absoluto e sem limites.”

38: sua dialética positiva em detrimento da negativa de Platão&cia.

“A possessão do corpo e do espírito que se obtém por meio da cultura, do estudo, do trabalho, etc., constitui uma propriedade íntima do espírito e não deve ser aqui tratada.”

E MARX APANHA: “Não se pode falar de uma injustiça da natureza a propósito da desigual repartição da riqueza e da fortuna, pois a natureza, não sendo livre, não é justa nem injusta.”

Escravidão e a hegemonia paterna romanos como incompreensão do Direito do Espírito (este eterno, “a-histórico”, burguês).

“a idéia da liberdade só existe verdadeiramente na realidade do Estado.”

“Entre os dois extremos representados pela obra de arte e pela produção mecânica, há todos os termos intermediários, cada qual tendo mais ou menos afinidades com um ou com outro.”

“até que ponto a reprodução de uma obra literária constitui ou não um plágio[?]” “de tal modo se deixou de ouvir a palavra plágio ou roubo intelectual que temos de concluir ou que a honra já eliminou o plágio, ou que o plágio deixou de ser atentatório da honra e desapareceu o correspondente sentimento”

“Não se pode considerar o casamento dentro do conceito de contrato. Foi isso, no entanto, o que Kant estabeleceu e, é preciso dizê-lo, em todo o seu horror.”

“Também a natureza do Estado não consiste em relações de contrato, quer de um contrato de todos com todos, quer de todos com o príncipe ou o governo.”

“a legislação draconiana que pune todos os crimes com a morte”

“O exercício da vingança pelos heróis e pelos cavaleiros andantes é diferente da vingança privada, pois faz parte da formação dos Estados.”

“o direito da liberdade subjetiva constitui o ponto crítico e central na diferença entre a Antiguidade e os tempos modernos.”

“Para os olhos dos ‘criados de quarto psicológicos’ não há heróis, não porque estes não o sejam, mas porque aqueles é que não são mais do que criados de quarto.” Fenomenologia

“O Bem é a liberdade realizada, o fim final absoluto do mundo.”

“olhar circunstâncias [tais quais] a cegueira momentânea, a excitação apaixonada, a embriaguez e tudo o que se chama a força dos impulsos sensíveis como motivos de crime e supressoras da culpa é ofender o direito e a honra de homem do criminoso.” “Se tal acontecesse, o incendiário não passaria de um animal que só precisaria ser abatido.”

“não é possível nenhuma doutrina imanente do dever.”

“Quando o mundo existente da liberdade atraiçoou o seu ideal, a vontade já não se pode encontrar nos deveres em vigência, já não pode reconquistar a harmonia e, perdida na realidade, refugia-se na intrinsecidade ideal.” “o dever pelo dever”

“No mistério está a origem do mal, quer dizer, no caráter especulativo que necessariamente impõe à liberdade de sair da vontade natural e opor-se-lhe como interior.”

Todo homem mau é obstinado.

Sentir-se o tempo todo hipócrita.

“O modo de filosofar que apresenta o conhecimento da verdade como presunçosa vaidade que está para além do círculo do saber que apenas é aparência tem o dever de também na aparência fazer um princípio e assim situar a moralidade na visão do mundo própria ao indivíduo. A degradação em que assim cai a Filosofia, se começa a aparecer ao mundo como alheio acidente que apenas se opõe a um ocioso palavreado, necessariamente acaba por se transformar numa concepção da moralidade, como parte essencial da filosofia” Doravante, “só a convicção é que determina[ria] a natureza moral de uma ação” “já não há hipocrisia nem o mal em geral” “não há crime” “plena justificação”.

“Perdoai-lhes (…) eles não sabem o que fazem em Ética a Nicômaco, a ignorância é o próprio mal. Atavismo: expressão utilizada mesmo contra quem está absolutamente ciente (força de expressão).

“Constituição do Estado, que é o fim e a realidade em ato da substância universal e da vida pública nela consagrada.”

“a linguagem, que é a forma de existência mais espiritual do espírito”

109: da economia política e dos moralistas em contrário

“Em suma, a abstração da produção leva a mecanizar cada vez mais o trabalho e, por fim, é possível que o homem seja excluído e a máquina o substitua.”

“É quase sempre na juventude que o indivíduo primeiro se revolta contra a idéia de se decidir por uma classe particular, que considera como limitativa da sua vocação para o universal e como exigência puramente extrínseca. Essa revolta está, porém, ligada ao pensamento abstrato, preso ao universal ainda irreal, que não sabe que, para existir, o conceito se introduz na diferença entre o conceito e a realidade e, portanto, na determinação da particularidade”

“Sabe-se que o direito nacional inglês, ou direito comum, está contido em status (leis formais) e numa lei que se chama não-escrita. Mas esta lei não-escrita está tão bem-escrita como qualquer outra e nem se pode ter conhecimento dela senão através da leitura de numerosos in-quarto.”

“Recusar a uma nação culta ou à classe dos juristas capacidade para elaborar um código seria o mais grosseiro insulto que se poderia fazer a essa nação ou a essa classe”

“O aspecto da moral subjetiva e os imperativos morais, que só pela sua subjetividade e individualidade próprias se ligam com a vontade, esses não podem constituir objeto da legislação positiva.”

“Pode-se, por um lado, esperar de um código público regras gerais simples mas, por outro lado, a natureza da matéria finita conduz a determinações sem fim. O volume das leis deve constituir um todo fechado e acabado; mas há contínua exigência de novas regras jurídicas. Ora, esta antinomia desaparece com a especificação dos princípios universais que permanecem imutáveis”

…por quanto tempo?

“no direito privado, a exigida perfeição constitui uma aproximação perpétua”

Direito Alemão, segundo Hegel, pressupunha-se finalizado/ideal.

PREVISÃO—OU CONSTATAÇÃO—DE ALGUNS EFEITOS MALÉFICOS DA SOCIEDADE DO TRABALHO. PARECENDO UM AUTOR MARXISTA! “apesar do seu excesso de riqueza, não é a sociedade civil suficientemente rica, i.e.: na sua riqueza, não possui a sociedade civil bens suficientes para pagar o tributo ao excesso de miséria e à sua conseqüente plebe.”

Também estudou as condições no Reino Unido. Segundo H., não são eficazes um grande aparato beneficente, asilos e pensões: o melhor mesmo é tolerar certo nível de mendicância.

127: colonização

“os hindus, que se negaram às navegações, todos voltados para si mesmos e mergulhados nas mais horrorosas e desprezíveis superstições.” “as grandes nações procuram o mar”

“a vontade do fim pensado como existente em si e para si.”

Algo mais do que a simples soma das vontades individuais.

“O sentimento político, o patriotismo em geral, é como uma certeza que se funda na verdade e é o querer transformado em hábito.”

“a religião pode assumir formas tais que conduzem à mais dura escravidão nas cadeias da superstição e à degradação do homem abaixo do animal (o que acontece entre os egípcios e os hindus que veneram os animais como seres superiores).”

186: remeto ao “não-pagamento dos impostos para auto-exclusão do Estado” Hegel, na nota 7, refuta concepções anti-semitas.

“A evolução da idéia tem mostrado,”

“evolução orgânica, única digna do Espírito.”

“É um milagre (…) que não haja vergonha ainda em falar de constituição política.”

“Nota—O aperfeiçoamento do Estado em monarquia constitucional é obra do mundo moderno e nela a idéia substancial atingiu a forma infinita.”

“é essencial considerar a constituição como algo de incriado, embora produzido no tempo.” “divino e imutável”

“Cada povo tem a constituição que lhe convém e se lhe adéqua.”

“Sem o seu monarca, e sem a articulação que imediata e necessariamente dele provém, o povo é uma massa informe, deixa de ser um Estado e não possui qualquer das determinações que existem no todo organizado” “unidade decisiva de um iniciador”

“Pode-se ver no demônio de Sócrates o início do movimento que levaria a vontade a deslocar-se do além para si mesma e a conhecer-se no interior de si mesma.”

A hereditariedade do trono é dogma inquestionável. “o Império eletivo é a pior das instituições.”

“Não é pela personalidade natural e pelo nascimento que os indivíduos estão destinados às funções governamentais. Para que o estejam, intervém o elemento objetivo representado pelo exame e pela prova da sua aptidão.” “Com efeito, aqui o aspecto objetivo não reside no gênio (como, p.ex., acontece na arte.”

“necessariamente se dará a indiferença pelo sufrágio, que terá um aspecto insignificante para a massa e, embora se apresente o direito de voto como algo de muito elevado, os eleitores não comparecerão ao escrutínio.”

“Um grande espírito (Frederico, o Grande) submeteu um dia ao exame público este problema: ‘É permitido enganar o povo?’.”

170: a guerra; “a coragem mecânica”.

“A concepção kantiana de uma paz eterna assegurada por uma liga internacional que afastaria todos os conflitos e regularia todas as dificuldades como poder reconhecido por cada Estado, assim impossibilitando a solução que a guerra traz, supõe a adesão dos Estados” “a história do mundo como tribunal do mundo” “os momentos da razão”

VOILÀ! “Para os que não aceitam este pensamento [a perfectibilidade na educação do gênero humano], o espírito é uma palavra vã e a história um jogo superficial de paixões e resultados contingentes tratados como simplesmente humanos.”

“trânsito ao grau superior”—Roma, península ibérica, Amsterdã, Paris, Londres, Washingtom e Moscou, Pequim…

“A evolução particular de um povo histórico contém o desenvolvimento do seu princípio desde o estado embrionário até a sua defloração; aí, chegado à consciência de si objetivamente moral e livre, entra na história universal. Mas aquela evolução contém também o período da decadência, pois deste modo a aparição de um princípio superior nele se manifesta com a simples forma de negação do seu princípio próprio. Assim se anuncia o trânsito do espírito para o novo princípio, o da história universal para um outro povo.”

Estamos no círculo da história do homem. E eu não estou acima.

QUATRO IMPÉRIOS HISTÓRICOS: o oriental, o grego, o romano e o germânico. HA-HA. (o último, a “realidade legal”)

(1) “Neste conjunto [sequer internamente distinguível], a personalidade individual desaparece sem direitos, a natureza exterior é imediatamente divina ou um ornamento de Deus e a história da realidade é poesia.”

(2) “o espírita torna-se medida e claridade na beleza e na moralidade da liberdade e da alegria.” indivíduos pela 1ª vez + “casas de escravos”.

(3) vida privada e pública; “saturnificação da vida moral”; “arbitrariedade abstrata levada até a monstruosidade”.

(4) “consciência de si” “princípio nórdico”—ora, e ainda se reclama da apropriação pelos nazis!

[ARQUIVO] AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO

Originalmente publicado em 26 de agosto de 2012

“Essa intromissão da arte na ciência, que impede que esta se desenvolva, é aliás facilitada pelas circunstâncias mesmas que determinam o despertar da reflexão científica.” Engraçado como Durkheim aproxima a Arte do utilitarismo (reconfortante para o ser humano)!

29: os limites da “sociologia” (filosofia social) comteana

O MONOLITO DA SOCIOLOGIA: tudo o que é sólido perdura.

“no dia em que esse princípio do método sociológico for unanimemente reconhecido e praticado, veremos a sociologia progredir com uma rapidez que a lentidão atual de seu desenvolvimento não faria supor” Melindrado com o maior reconhecimento haurido pela psicologia.

Se Descartes é o fundador das ciências modernas, precisamos cancelar o progresso e refazer tudo de novo.

“A ciência pode muito bem iluminar o mundo, mas ela deixa a noite nos corações; compete ao coração mesmo fazer sua própria luz.”

“Em circunstâncias nas quais um homem não sofreria, acontece ao neurastênico experimentar uma sensação de gozo cuja natureza mórbida é incontestável.”

“seja como for, só se pode superar a ciência apoiando-se nela.”

“fazer o inventário de todas as características de um indivíduo é um problema insolúvel”

“e teremos a ocasião de expor um dia (…)”

“O Japão pode vir a incorporar nossas artes, nossa indústria, até mesmo nossa organização política; nem por isso deixará de pertencer a uma espécie social diferente da França e da Alemanha.”

“is pater est quem justae nuptial declarant” : é pai aquele que as núpcias indicam

“toda vez que um fenômeno social é diretamente explicado por um fenômeno psíquico, pode-se ter a certeza de que a explicação é falsa.”

“Uma pressão aceita e suportada de boa vontade não deixa de ser uma pressão.”


SOCIOLOGIA NEGATIVA (um guia de como não fazê-la)

Estado—Lula na Crista da Onda

carguinhos e cargões

por onde esperamos obter a salvação?

meus dilemas pessoais dependem de morfina

talante indifferent


Stuart Mill, essa cabeça estranha, misto de sociólogo, economista, filósofo, moralista.

87: historiadores e etnógrafos na periferia da “ciência dura”

[ARQUIVO] A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS — João do Rio

 

Originalmente publicado em 12 de junho de 2012

« Je suis la rue, femme èternellement verte »

“Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam.”

“o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos”

“Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas.” “O flâneur é o bon-homme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.” “…acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio.”

Quem há de pensar que vi este menino a engatinhar!

E as ruas sem nome, ou de nome-nº? Ou ruas não-ruas?

“A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias.”

“eubá, o esperanto das hordas selvagens”

“Os malandros e os garotos de uma olham para os de outra como para inimigos.” São cães infantes marcando território!

“homem-sandwich é o infeliz “cartaz ambulante”, metido num panfleto, a divulgar alguma marca ou ideologia na rua.

“O Esgoto a Céu Aberto na Sua Rua” “É quase sempre na rua que se fala mal do próximo.”

“A palavra tatuagem é relativamente recente. Toda a gente sabe que foi o navegador Loocks que a introduziu no ocidente, e esse escrevia tattou, termo da Polinésia de tatou ou totahou, desenho. Muitos dizem mesmo que a palavra surgiu no ruído perceptível da agulha na pele: tac, tac. Mas como é ela antiga! O primeiro homem, decerto, ao perder o pêlo, descobriu a tatuagem.” Crianças de 10 anos que sabem “marcar”, i.e., agulhar. “Pelo número de coroas da Monarquia que eu vi, quase todo esse pessoal é monarquista.”

Eu detesto tanto meu sinal no queixo

que a barba bem grande aí eu deixo

“É como um poeta sem emprego diante de um oligarca estadual”

Algumas rezas pudicas mais parecem magia negra!


Nós somos animais

Para o bem ou para o mal

para o mal, creio que é mais


“Cada sujeito desses pode passar a vida bem. As livrarias vendem baratíssimo os livrecos procurados. Em cada um, os vendedores ganham, no mínimo, 600%.” Sem falar na qualité dos volumes! “Só esse Carlos Magno tem causado mais mortes que um batalhão em guerra.”

“O testamento da pulga, do mosquito ou da saracura, não seria para fazer rebentar de riso os mortais, nem mesmo agora, neste mortal período de desinfecções e higiene à outrance.”

“Se nas obras populares aparecer alguma coisa de novo, com certeza teremos tolices maiores que as anteriores…”

“Era domingo, dia em que o trabalho é castigar o corpo com as diversões menos divertidas.”

“os prodígios do gramofone—essa maravilha do séc. XIX, que não deixa de ser uma calamidade para o séc. XX”

Tocador de realejo—há profissão mais mecânica dentro da arte?

“Uma sanfona faria Harpagon generoso e Lady Macbeth boa.”

“Herófilo pretendia que as pulsações das veias se fazem de acordo com o ritmo musical.”

“Há talvez em outras terras, mais gastas e mais frias, a miséria dos músicos ambulantes, sem fogo, sem pão, caindo sob a neve, depois de uma dolorosa vida.”

Mais uma testemunha de fim dos tempos gloriosos, bem à Levi-Strauss.

Tantas expressões sui generis… Parece até um outro idioma! Ex: cordão—o trio elétrico da época; camisa de meia—regata.

No princípio pensei que seria uma apologia idiotizante, mas é um autor tão ranheta quanto eu!

Quem diria: o Carnaval do Rio já era, e sem o samba! Só três dias de folia? Nem pensar!

“Ora, este país é essencialmente poético. Não há cidadão, mesmo maluco, que não tenha feito versos.” “São uns animais! Este país está todo errado. Há mais poetas que homens. Eu, governo, mandava trancafiar metade, pelo menos.”

“canção e lei eram a mesma palavra entre os helenos.”

Cerne do livro: a modinha, versos/cancioneiro popular que não pode ser considerado arte (tanto que não se conservam seus autores). De certa forma, se assemelha aos dizeres de Schopenhauer sobre a Música. “a musa da urbs”

“e esse estranho Álvares de Azevedo, o único genial do bando romântico, o único predestinado como os grandes vates, o único que no choro de praxe desamargurado de estilo tinha o soluço presciente de uma tumba a abrir-se, o único que conservava no torvelinho das paixões uma alma de rosa cujo perfume desejava o céu, o único que hoje, amanhã, ninguém lerá sem sentir o soluço, o travo da morte, o ai! das agonias e a tristeza que nos causa o desaparecer de um astro, o murchar de uma flor, o tombar de um pássaro cujo breve cantar não passou de uma alegria em torno do próprio ninho…”

“Os grandes poetas não fazem mais versos para toda gente (…) e os vates são parnasianos, são simbolistas, procuram a forma sensível e a essência oculta.”

“Outrora ela bebia para cantar. Agora canta para beber.”

“Dudu das Neves canta apenas as suas obras.” O youtube o desmente, João!

“O sucesso e a popularidade de Santos Dumont são devidos menos aos seus trabalhos de aviação que ao ter causado a admiração de Paris.”

“Vós me pedis, suponde, que eu faça a poesia para certa música. Crede que eu, imediatamente, sem mais reflexão, empunhe a pluma e a vaze do papel? Não. Há algumas dessas músicas que me fazem levar horas inteiras a interpretar-lhes os sentimentos, os queixumes, as mágoas de que sofrem os seus autores.” Catulo, Poeta da Calçada.

109: a hilária modinha sobre a peste bubônica


GLOSSÁRIO:

flanar: vadiar “é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, levado pela primeira impressão”

nefelibata: avoado; homem das letras que está sempre no mundo da maionese; escritor sem-estilo que não sabe conectar idéias e só diz disparates.

[ARQUIVO] VONTADE E REPRESENTAÇÃO

Originalmente publicado em 31 de maio de 2012

Sonhos em que me suicido… Eu e “meus outros 6 eus” finalmente chegando a um consenso na tórrida sala do júri interno? Até a ocasião do suicídio teria antes de cair do céu. Ou antes para o suicida—ou somente um tipo de suicida?—se trata sempre de achar essa hora para finalmente ser-se? Oportunistas. Isto é: ou não sou, nem nunca serei, não tenho sangue de suicida; ou todos os suicidas são tão covardes e apegados à vida quanto eu, exceto por um curto lapso, que não acontece com todo mundo.

Não pode ser que em um ano, digamos, tenha havido uma reformulação drástica de juízo! Ou que eu esteja contemplando esse musgo da árvore descascar… Mas deixemos de superstições e falemos do que sabemos! Qual seria o sentido, hoje, de um tal ato (tentando não ser hipócrita)?

O medo da decadência é tão forte que eu escolha selar o anel desde já, sem atender à curiosidade?

Do ângulo da infância: irremediável—tudo é ressignificado—até jogar videogame é chato e enjoa…

Arrependimento—os 24 anos que não voltam mais… Os “apesares de tudo” vindo na contramão…

Para o morto não interessa tanto o desfecho em si—mas o opróbrio causado pelo ato, que não pode ser mais que intermediário… Mesmo sem céu nem inferno não é possível ser mesquinha/maquinalmente um existencialista! Não dá para subtrair as conseqüências—parece que esse era o objetivo do suicídio… Do que adianta suprimir a dor se ela não será suprimida? “E do que adianta não suprimir”? O que é dar 360º na vida? Alguém sabe quando está no grau 0 ou “princípio da viagem”? Cabe-lhe receber e passar um bastão…

Qual é o Destino do Destino? Vagar…

O gorila chamado vida ainda não me soltou. Me sinto a loira do King Kong. Algum avião à vista?

Tenho ainda muita vida para trás!

Lembrancinhas do amanhã

E qual dúvida não é cruel?

Nós não sabemos

Toda vez que sentir vontade de se matar, durma…

* * *

DOS SEIOS REDONDINHOS

Pode falar

se seus peitos já

estiverem a

poucos centímetros

dos meus

*

Arfando, cintilantes

galantes, saltando

comprimidos

com pressa

*

De virem

subirem

às alturas

frontes duras

*

Bicos feitos

de âmbar

se excitam

– nos lamba!

* * *

Se Sísifo fosse condenado a rolar sobre uma pedra, seu sofrimento seria o mesmo.

Que se dane fique

O real filosofar é ser um bocadinho charlatão, já que tudo aqui é provisório e inútil, sem solução, sem resposta, sem folha corrida de serviços e sem currículo—filósofo competente é uma contradição em termos! O equivocado num quadro é sempre o mais certo no curso dum rio…

BUDISTA, em poucas palavras: o ateu inteligente.

Dez por cento do cérebro acham que só 10% do cérebro são utilizados. Talvez por percebermos o quão somos burros é provável que utilizemos 100% dele.

Principalmente o inconsciente quer dar cambalhotas. Deu para se mutilar—chilique de criança. Sabendo, com toda a carga, que não pode fazer isso, só representar assustadoramente. Uma rebeldia tal a essa altura? Os pontos corridos do devir se aproximam do, ou já estão no, returno. A ânsia pelo impossível. Vontade de exagerar um evento banal/não-evento. E ainda assim nem sabe o que é fazer hemodiálise, o capeta!

Goma de (ma)daga(scar)

Quando eu era pequeno tendia a querer demonstrar meu apreço a deus (ou nem tanto o apreço ao divino, mas a rejeição a Satanás) por uma abstração de duas colunas de “força” ou “energia”, uma azul e outra vermelha, uma que subia incessantemente na maior das velocidades, a outra que descia e rebentava os subsolos, e perfurava os infernos, e atravessava a imensidão do cosmo no sentido negativo, denotando queda de poder e derrota, cada vez mais fraca em contraste com a outra coluna, pujante. Ambas as colunas não podiam jamais chegar a seu destino—o caminho era só um reforço infinito, havia a necessidade de ser percorrido, de aparecer, não podia ser absoluto, tinha de ser uma quantidade dada, expressa em números, mas dentro de um invólucro para o qual não havia limites—o quanto era difícil para uma criança e continuará difícil para um adulto imaginar isso!

* * *

Em quantos anos o senso progressistóide terá sido perpassado? Isto é, quando mais ou menos será flagrante que a técnica, a tecnologia, não só avançam? Quando cessará de haver “melhores computadores e veículos”? A Idade Média tem má reputação porque neste período da humanidade não houve uma modernização, quão óbvio e irônico! Ferramentas mais simples, desmantelamento burocrático… Uma visão menos carregada (positiva ou negativamente) do futuro.

[ARQUIVO] O RIDÍCULO DA CLT

Originalmente publicado em 24 de julho de 2012

A introdução ou “Exposição de Motivos” da Consolidação das Leis do Trabalho, decreto de 1º de maio de 1943, em pleno getulismo, é um dos documentos mais estapafúrdios e risíveis da História legiferante brasileira. Acompanhe dois trechos (e antes que eu esqueça—o autor é Alexandre Marcondes Filho, grave esse nome!) demagógico-bajuladores da carta logo de cara:

“Durante quase um ano, em longas reuniões diárias entregaram-se à tarefa complexa e ilustre, com uma dedicação e um espírito público que bem demonstram o patriotismo que os inspirou. Desejo, por isso, antes de mais nada, e perante Vossa Excelência, patentear o meu reconhecimento e a minha admiração por esses notáveis colaboradores da obra ministerial.”

“A Consolidação corresponde a um estágio no desenvolvimento do progresso [sic—se bem que nossa bandeira faz apologia do ‘progresso estático’; bem como o mundo anda falando de desenvolvimento sustentável ou zero (!?)] jurídico. Entre a compilação ou coleção de leis e um código—que são, respectivamente, os momentos extremos de um processo de corporificação do direito—existe a consolidação. A Consolidação representa, não um ponto de partida, mas a maturidade de uma ordem social.”

O Brasil está maduro. Não poderia estar se não houvesse intelectuais à altura da “missão universal”. O que é a CLT? Nada menos do que leis trabalhistas, empregadas unanimemente Estados afora. Não com fins humanitários, deve-se deixar bem claro, mas apenas para que “a realidade e a filosofia do novo Direito”, para seguir com Marcondes, não sejam devastadas ou que sequer um perigo ou ameaça de tal ocorrência venham a espreitar de uma esquina distante ou cintilar no horizonte. Como se esses homens engravatados, mui bem-alinhados ou togados estivessem fazendo um favor, concedendo uma dádiva! E além do mais, não haveria prejuízo em publicar o tal proto-código (não sabemos realmente a diferença entre um conto infantil, um apanhado de leis e uma Constituição ou Código de aplicação distorcida e falha!) sem considerações prolixas e metalingüísticas, para não dizer auto-promocionais, contrastantes com a pretendida aura de “objeto atemporal” da peça, que em seis décadas já exibe sinais de sua caducidade e esclerose (e de todo modo, se já chegamos a um ordenamento social pleno, essa tal missão humanitária não seria o corolário da redundância?).

Tal glosa pueril, disfarce com belas e taxativas expressões, só irrita ainda mais o trabalhador brasileiro [essa expressão quase fere meus próprios ouvidos, se me leio em voz alta, tamanho é o emprego do binômio nos discursos mais vis imagináveis!] que, não bastasse ter de ser em quase todos os casos pobre e sem ter onde cair morto devido à especulação imobiliária, tem de suportar um Pai passando a mão em sua cabeça e o consolando: “É pelo seu bem!”. Porque se de bem-intencionados está repleto o Inferno, a biblioteca do lugar não é menos habitada por volumes e calhamaços similares a este aqui!

Para fechar, outras aspas que intermedeiam os ditames inócuos do sr. Marcondes e que são o acme de seu estilo-nada-estiloso e de ultimada decadência jurídica, que apela ao populacho e ainda tenta preservar ares aristocratas, apesar de tudo:

“vigorosa consciência sindical—prova plena de um regime social já radicado”, “evidenciando-se, do contraste de interesses, sob a luz de um pensamento público de bem comum [que ele pressupõe], a fórmula de composição harmônica das forças do capital e do trabalho [sem dúvida é bem harmônico puxar uma enxada, e a cara preta e cheia de fuligem do minerador ou do garimpeiro é simplesmente poética!].” “O que importa salientar é ter havido a preocupação dominante de subordinação às leis preexistentes [onde as faces de Janos não deixam mentir—um país que se quer modificar em todos os aspectos, porque é a encarnação da injustiça, ao mesmo tempo tratado como ‘pronto’, ‘maduro’, cujas Leis já são a ‘raiz’ do amanhã perpetuamente ligado ao ontem, ontem que se abomina! Resumo: já vivemos no Paraíso, e a quem discordar, a degola!]”, “sentimentos de humanismo cristão [na mais laica das constituições conhecidas] que encheram de generosidade e de nobreza os anais da nossa vida pública e social [comovente, mas não gostaria que mexessem nos meus anais!]”, “prefácio admirável da obra monumental [de lado com a falsa modéstia!]”, “documento resultante da instituição do gênio [Leonardo da Vinci voltou à vida só para assinar embaixo]”, “a carteira profissional, a primeira manifestação de tutela do Estado ao trabalhador”, “a ordem institucional prevalece”, “aniquilamento da juventude [um toque de drama é sempre bem-vindo, mas calma: você ainda não viu tudo!]”, “nesta hora dramática que o mundo sofre [havemos de perguntar quando ele está descansando de seus clímaxes de tensão e horror—até hoje, de Heródoto a Hobsbawm, nenhuma pista] (…) na escureza que envolve a humanidade, representa a expressão de uma luz que não se apagou”. Só espero que não me mande essa conta de luz, amigo!

[ARQUIVO] DA MITOLOGIA DOS DESENHOS ANIMADOS

Originalmente publicado em 27 de junho de 2012

Muito já se falou e ainda se fala a respeito do maniqueísmo. Muitos o consideram a única forma aceitável ou pelo menos a mais moral das maneiras de ensinar às crianças sobre conflitos interpessoais. Nos desenhos animados, versão do século XX para os contos de Charles Perrault ou dos Irmãos Grimm, a luta do Bem contra o Mal é encontrada sem disfarces ou maquiagem, em sua encarnação mais crua e plena. O Bem sempre vence o Mal. Uma parte da crítica se irrita com a invariabilidade desse roteiro e chega a fazer troça da ingenuidade da peça em questão. Pedagogicamente falando, como a função dos desenhos é em parte entreter e em parte moralizar, o objetivo é atingido com perfeição. Nuances como vilões que se redimem de seus erros passados ou de mocinhos que flertam com o “lado negro” da estória servem para temperar, apimentar, gerar expectativa, mas não transgridem as normas de forma decisiva.

Em defesa da sabedoria dessa tática (não em favor dela, num primeiro momento, mas tão-somente reconhecendo sua expertise), devo refutar aqueles que consideram esse modelo didático de expor conflitos e a complexidade humana como insípido, pueril e, em conseqüência, até mentiroso, o que desqualificaria os desenhos animados como fonte moral, uma vez que “quem mente não tem o direito de ensinar que não se deve mentir”. Todavia, sou obrigado a discordar. Nada mais “justo” ou, eu diria, realista do que uma estória maniqueísta saída do forno para o público jovem: como instâncias puramente relativas, o Bem e o Mal são definidos por aquele que conta, narra os fatos. Dado que o Bem sempre vence, é daí mesmo, por tabela, que ele é chamado Bem. O Mal não perde a disputa porque “é mal”, mas se torna o mal porque perdeu a disputa! Quando chega a era de sua exibição para o público, o desenho está produzido, está finalizado: quando o narrador começa a expor os acontecimentos, geralmente algum mal-entendido que vai gerando conseqüências cada vez mais graves, até o ponto de se tornar insustentável e exigir a interferência dos heróis, apesar de não o revelar, ele sabe como as coisas terminam. E foi depois de elas terem terminado que se batizou o lado vitorioso de Bem e o time perdedor de Mal. O vitorioso é o detentor da verdade e do discurso. Monopoliza a informação.

Se Shishio, da produção oriental Rurouni Kenshin, tem como lema “Só os fortes sobreviverão”, e em seguida é derrotado pela coalizão das forças de Himura – O Retalhador, Sanosuke Sagara e Saitou, isso não significa que sua afirmação estava errada, mas que simplesmente ele não era o mais forte, afinal. “Mas se muitos fracos se unirem, eles podem ganhar do forte; além de se utilizarem de sentimentos nobres nas horas críticas, como o amor”, redargüe-se. Procedendo ao estudo de caso da batalha entre o aspirante a ditador do Japão na era da Segunda Revolução Industrial Makoto Shishio contra os defensores do regime então em voga, verifica-se que Shishio possuía todos os atributos que poderiam defini-lo como mocinho, ou “do Bem”, desde que ele se sagrasse o vencedor do duelo mortal: tem um passado no qual foi vítima, “inocente”, de circunstâncias que o fizeram se fortalecer e buscar motivação; tem ele mesmo uma cara-metade, diante de quem sacrificaria todas as suas moedas (se ele acaba por fazer o contrário e utilizar sua amada como “escudo” entre ele e Himura, podemos alegar que o “amor pela causa” acaba por se mostrar maior que esse amor romântico – e como a própria mulher assentiu, ela também vivia pela meta de Shishio; na prática eles tinham pactuado, ambos compartilhavam da mesma meta, que transcendia a própria vida do casal); por fim, Shishio também tem seu séquito de seguidores, que ajudam a debilitar o elenco de heróis em combates prévios ao principal. Além disso, por mais que centenas se unissem para atacar Shishio, nenhum exército poderia derrotá-lo (como se vê em muitos desenhos animados, aliás): apenas Battousai, o alter ego de Kenshin Himura despertado quando ele está em seu limite de estafa física, detém a técnica especial que pode superar Makoto. E assim se sucede: os três guerreiros voltam para casa, Shishio morreu na explosão da própria base e seu plano de utilizar o petróleo para enriquecer sua nação foi por água (preta) abaixo… Mas se ele vencesse, não podemos afirmar que o mundo ganharia em brutalidade ou que de suas mãos não passaria a depender a felicidade de milhões de pessoas! Só que desde o início o narrador (o autor da estória, em última instância) já sabia a qual fim os envolvidos estavam destinados, então todos os personagens do lado do Bem apresentavam desde antes, dos primeiros capítulos, uma certa aura que justificaria suas futuras ações, fossem elas quais fossem. Os próprios bonzinhos, de vez em quando, sucumbem a dilemas éticos, nos quais têm de decidir “pelo menor de dois males”: nem todas as vidas podem ser salvas. Esse é o preço que o mundo paga pelo triunfo do Bem, que só pode se dar mediante a existência do Mal.

Apocalipse, dos X-Men, se comporta de forma parecida: considerando-se acima dos mutantes e dos humanos, como uma evolução dos primeiros (sendo os primeiros já uma nítida evolução dos segundos), arroga-se o direito de conquistar ou mesmo destruir todo o universo. Sua superioridade nos combates é mesmo extremamente óbvia. Mas se deixa de cumprir seus desígnios, invariavelmente, e devido a uma soma de coincidências e quase que milagres, é porque ele era o Mal, incapaz de vencer, já que a estória já estava escrita, e é contada pelo Bem. “Eu sou o poder!”, diz Apocalipse – O Imortal e Atemporal. Porém se depara com poderes montesquieusianos que conseguem freá-lo: no fim, é mais um fanfarrão que fala mais do que cumpre!

Hitler foi apenas um fraco com pretensões megalomaníacas, rezam os livros de História. Deus é o que é menos por ser o Bem do que por ser aquilo que não se pode bater, o dono dos discursos e criador das regras do jogo. Sendo assim, as crianças não estão sendo iludidas por um método pedagógico barato: já podem saber de antemão que apenas o mais forte sobrevive, porque ele é o Poder, ele é o Bem, autolegitimado.