LITERATURA INGLESA

A BALADA DO VELHO MARINHEIRO — Samuel Coleridge (trad. Adriano Scandolara)

A BIOGRAFIA LITERÁRIA DE COLERIDGE

“Mesmo que nunca tenha lido Coleridge, nem estudado teoria literária, você já deve estar familiarizado com o termo ‘suspensão de descrença’ – i.e. o esforço extra para não se pensar ‘que besteira, isso nunca aconteceria!’ que o leitor faz ao ler um texto ficcional que, a rigor, lide em algum grau com o fantástico (apesar de existirem várias narrativas não-fantásticas que forçam a barra no quesito suspensão de descrença, mas tudo bem). Coleridge, de quem já tratamos aqui no escamandro num post anterior sobre o seu ‘Kubla Khan’, pensou nesse termo como um modo de defender a sua ‘Balada do Velho Marinheiro’, publicada no volume Baladas Líricas, de autoria conjunta com Wordsworth, que deu início ao romantismo inglês.”

“É um velho Marinheiro,

E detém um, de três que vê:

– Por tua barba branca e cintilante olhar,

Tu me deténs por quê?


Agora o noivo escancarou as suas portas,

E eu sou seu familiar.

O comensal se apresta, principia a festa;

Ouve o alegre exultar.”


“Solta-me! Solta-me barbado vagabundo!”


“Agora a noiva já ingressara no salão,

Rubor rosa tem;

A inclinar as cabeças, menestréis alegres

À sua frente vêm.


O ouvinte contrafeito aqui bateu no peito,

Mas é forçado a ouvir;

E sua fala prossegue o Marinheiro antigo

De olhar a refulgir.”


“E de repente nos envolvem névoa e neve,

Com um frio assassino;

E, alto de um mastro ao vê-lo, flutuava gelo

De um verde esmeraldino.”

 

“Enfim passou por nós, bem no alto, um Albatroz,

Vindo da cerração;

Em nome do Senhor nós o saudamos,

Como se fosse outro cristão.


Comeu o que jamais comera, e lá na altura

Volteava sobranceiro;

Rompeu-se o gelo então com o estrondo de um trovão…

Passou o timoneiro!


E do sul um bom vento nos soprava alento;

O Albatroz nos seguia,

E à nossa saudação, por fome ou diversão,

Buscava todo dia!”


“Mas ave não se via

Que à nossa saudação, por fome ou diversão,

Acorresse algum dia!”


“Justo era, em seu pensar, tal pássaro matar

Que traz névoa e neblina.

A branda brisa arfava, a espuma alva voava,

E o sulco solto a esfiar…

Jamais humana voz soara antes de nós

Naquele mudo mar.”


“Água, água, quanta água em toda a parte,

E a madeira a encolher;

Água, água, quanta água em toda a parte,

Sem gota que beber.”


“Seus lábios eram rubros; seu olhar, lascivo;

Sua trança, auri-amarela;

Sua pele, como a lepra, era de um branco forte;

Ela era o próprio Pesadelo VIDA-EM-MORTE,

Que o sangue humano gela.”


“Apagam-se as estrelas, densa é a escuridão;

Lívida a face do piloto à luz junto ao timão!

Nas velas o orvalho é um suor…

Até que a Lua sobe ao longe no oriente,

Nos cornos envolvendo estrela refulgente

Junto à porta inferior.”


“Quatro vezes cinquenta a soma de homens vivos

Que, sem suspiro e sem gemido algum,

Com um baque pesado, quais massas inertes,

Caíram um por um.”


“Mesmo à alma superior a maldição de um órfão

Pode danar com seu poder;

Mais horrível, porém,

É quando o olhar de um morto

A nós vem maldizer!

Sete dias e noites vi tal maldição,

E não podia morrer.”


“E o albatroz, meu colar,

Se desprendeu de meu pescoço,

E mergulhou como chumbo no mar.”


“Mesmo em sonho, era estranho ver tanto homem morto

Do chão se levantar.”


“Instrumentos sem vida tornam-se seus membros…

Que tétrica equipagem!“


“Porém o que, sem vento ou vaga,

a esse navio ir tão depressa faz?”


“Ó sonho jubiloso! É o topo do farol

O que avisto afinal?

Aquilo é promontório?

Aquilo é mesmo a igreja?

É o meu país natal?”


“Tenho um estranho dom do verbo; e, como a noite,

Errar de terra em terra é meu destino;

No momento em que vejo um rosto num lugar,

Eu sei que é o homem que precisa me escutar,

E meu caso lhe ensino.”


SOBRE “A BALADA DO VELHO MARINHEIRO”

Superestimado.


GLOSSÁRIO:

albatroz

“substantivo masculino

Ave de habitat marinho, da família dos diomedeídeos, migradoras, de cor branca, corpo robusto, asas longas e cauda curta; com mais 3,5 metros de envergadura, sendo encontrada no hemisfério sul, é considerada a maior ave voadora do mundo.

Etimologia (origem da palavra albatroz). Do árabe al-gattas; do inglês albatross; pelo francês albatros.”

arrebol

“Cor avermelhada das nuvens quando o sol nasce ou se põe no horizonte.”

besta

“Arma portátil composta por um arco de madeira, ou de aço, cujas extremidades estão ligadas por uma corda que, ativada pelo gatilho, é esticada para arremessar setas ou balas de metal (pelouros).”

bruma

“Nebulosidade causada por gotículas de água que ficam suspensas e diminuem a visibilidade; nevoeiro.”

cambaxirra

“Nome comum a várias aves da família dos trogloditídeos, também chamada carriça, camaxirra, corruíra, garrincha, garriça.”

ovém

“Náutica Nome genérico do calabre que se fixa (ovém de avante e ovém de ré) para servir de apoio aos mastros e mastaréus de um navio.”

penha

“Rochedo grande, saliente e de localização isolada, normalmente numa encosta ou serra; penedo, penhasco, rocha.”

29 de November de 2025, 21:17 0 boosts 0 favoritos

AS AVENTURAS DE TOM SAWYER

PRIMEIRO CAPÍTULO

“old fools is the biggest fools there is. Can’t learn an old dog new tricks, as the saying is.”

“tolo velho é os mais tolos que tem. Não pode cachorro velho aprender truque novo, como diz o ditado.”

“Spare the rod and spile the child, as the Good Book says.”

“Deixa pra lá’ vara e’straga’ criança, como diz na Bíblia.”

“ele é o garoto da minha falecida irmã, tadinho, não tenho coragem de surrá-lo. Toda vez que deixo barato, minha consciência dói, e toda vez que o castigo meu coração só falta espedaçar. Seja como for, homem que nasceu de mulher vive pouco e cheio de problema e aflição, como diz o Livro Sagrado, e assim creio.”

“É mui difícil fazer ele trabalhar sábado, quando todo outro garoto dá de descanso.”

“Em 2 minutos, ou talvez menos, ele esqueceu todos os seus problemas. Não porque seus problemas fossem agora um iota a menos em carga e amargura, como são os problemas para os homens, mas porque outro interesse, forte e novo, obnubilou-os de sua mente por ora – como as desgraças dos homens são olvidadas na excitação de novas empreitadas.”

“Ele se sentiu como um astrônomo se sente quando descobre um planeta novo – sem dúvida, tanto quanto prazeres podem ser puros, profundos e poderosos, a vantagem estava com o garoto agora, não com o astrônomo!”

“Alguém novo de qualquer idade e qualquer sexo era a curiosidade mais incrível na pobre e arruinada cidadezinha de St. Petersburg.”

“– Posso te bater!

– Vamos ver se tem coragem!

– Posso fazer sim.

– Não, não tem coragem.

– Posso!

– Não pode!

– Posso.

– Não!

Uma pausa desconfortável. Então Tom abriu o bico:

– Qual seu nome?

– Não é da sua conta, talvez.

– Hmm… Tá bom, mas vou fazer ser.

– Então por que não faz?

– Se é o que você quer, tá feito.

– Ó, muito, muito, muito. Como despertou meu interesse.

– Ah, se acha muito esperto, né? Podia te derrubar com uma mão amarrada nas costas, se eu quiser.

– Então por que não derruba, você diz que pode.

– E eu vou, se você vacilar.

– Ah, não é o primeiro nem o último que canta de galo.

– Espertinho! Se acha, né, né não? Vai pa’ casa do chapéu, fi’.

– Chapéu. Tenta amassar esse ‘chapéu’ se você é o cara. Eu te desafio. Eu te desafio a amassar o meu chapéu. Nem é tocar em mim. O primeiro que tentar vai bancar o trouxa.

– Você é um mentiroso!

– E você outro.

– Você chama pra briga mas na hora amarela.

– Vai ver se tô na esquina.

– Vem cá – se você me dá mais uma dessas respostas vou tacar uma pedra na tua cabeça!

– Ah, sim, claro.

– Eu vou.

– Então… Taca, fazendo favor. Pra que você fica dizendo tudo que quer fazer? Por que não faz em vez? É porque é menino medroso.

– Não sou medroso.

– É.

– Não.

– Você é.”

“– Dá o fora!

– Vai você primeiro!

– Não.

– Eu também não.”

“– Você é um covarde e um pirralho. Vou dar o recado pro meu irmão mais velho. Ele pode te arrebentar com o mindinho. E eu vou falar pra ele fazer isso.

– E eu com teu irmão mais velho, cria? Meu irmão é maior que o teu. Ele pode atirar o teu por cima daquela cerca ali. (Ambos os irmãos eram imaginários.)

– Tá mentindo.

– Só porque você diz que tô mentindo não quer dizer que tô mentindo.

Tom riscou uma linha na poeira com seu dedão, e disse:

– Eu te desafio a pisar nessa linha. Se pisar vou te moer de pancada até ficar no chão. É a mesma coisa que tentar roubar uma ovelha dum rebanho. Vai pagar.

O novo menino logo pisou a linha, e retrucou:

– Agora que você disse que ia fazer, mas ver você fazer.

– Não chega perto, truta, tô avisando.

– Você já avisou mil vezes. Por que não pára de avisar?

– Desafiou! Faço até por 2 centavos, fi’.

O novo menino pegou dois moedões do bolso e os segurou em provocação. Tom deu um tapa e os derrubou no chão. Num instante os dois garotos rolavam agarrados na terra, impossíveis de desembolar, como dois gatos. E por bons 60 segundos cada um puxou e torceu o cabelo do outro, as roupas do outro, socou, arranhou o nariz, e cada um se sujou com glória o mais que pôde. A confusão estava armada, já não se via mais nada na poeira. Depois, a silhueta de Tom surgiu primeiro do bololô, triunfante, montado no novo garoto. Tom é quem socava.

– Grita ‘desisto’!

O menino se limitava a tentar se livrar de Tom. Já chorava – principalmente de raiva.

– Grita ‘desisto’! – e continuava com seus socos.

Finalmente o estranho cedeu e gritou seu DESISTO. Tom deixou ele se soltar e se erguer e disse:

– Aprendeu a lição. Melhor prestar atenção com quem vacila na próxima, fi’.

O novo menino saiu sacudindo e batendo a roupa tentando deixá-las o mais brancas, gemendo, convulsivo, seu fim de choro, fungando e olhando para trás de vez em quando e balançando a cabeça para ameaçar Tom: dá próxima, você tá ferrado! Tom respondeu com risadas, e se pavoneou todo. Assim que Tom virou as costas levou uma pedrada do garoto, acertando-o entre os ombros. O menino recuou num átimo e correu feito um antílope. Tom o perseguiu até em casa, e descobriu onde morava. Espreitou perto dos portões um tempo, como que desafiando o outro a sair, se ousasse. Mas o menino só estava interessado em fazer-lhe caretas pela janela. Já havia desistido. Por fim apareceu a mãe do rival, chamando Tom de mau, vicioso, criança vulgar, e ordenou que desse no pé. Assim Tom fez, mas dizendo que estava ansioso para agarrar de novo seu algoz.

Ele chegou em casa bem tarde aquela noite, e quando escalou com cuidado até a janela descobriu uma embocada, isto é, sua tia, esperando-o. E quando ela notou o estado de suas roupas se decidiu a tornar o sábado festivo do garoto em cativeiro e trabalho duro, sem falta.

SEGUNDO CAPÍTULO

“– Ela! Ela nunca trisca em ninguém – nem dar um cascudo na cabeça com aquele dedal – e quem é que liga, tô curioso pra saber. Ela fala feio, mas fala não ofende – pelo menos se ela não fala chorando. Jim, você vai ver uma maravilha. As melhores bolinhas de gude!

Jim começou a ceder.”

“Existem gentlemen ricos na Inglaterra que dirigem carros de 4 cavalos de 20 a 30 milhas diariamente, no verão, em estradas reservadas para a elite. Ricos, porque o privilégio lhes custa um bom dinheiro! Mas pense: se lhes fosse oferecido ordenado pelo serviço, isso se tornaria um trabalho, coisa de lacaio, e dele abdicariam.”

TERCEIRO CAPÍTULO

“ele se sentou num tronco à beira do rio e contemplou a monótona vastidão da corrente, desejando, quase inconscientemente, na verdade, se possível, se afogar e ali ficar, assim sem mais nem menos, para não necessitar passar pelas rotinas incessantes programadas pela natureza.”

QUARTO CAPÍTULO

“Tom gastou todas as suas energias para decorar 5 versos, e escolheu parte do Sermão da Montanha, porque não encontrou versos mais curtos. Depois de meia hora Tom tinha uma vaga idéia geral de sua lição, mas nada mais; sua mente atravessava todo o campo do pensamento humano, e suas mãos se encontravam ocupadas em distrações recreativas. Mary pegou seu livro para ouvir-lhe a recitação, e Tom tentou percorrer o caminho de volta em meio à neblina:

– Abençados são os-ã-ã—

– Pobres-

– Isso – pobres; abençoados são os pobres em espírito, pois eles-eles—

– É deles…

– Pois é deles. Abençoados são os pobres em espírito, pois é deles o reino dos céus. Abençados são aqueles que lamentam, porque eles-eles—

– De-

– Porque eles-ã-ã—

– D, E, V,…

– Porque eles D, E – Ai, eu não sei o que é!

– Devem!

– Ah, devem! Porque eles devem – porque eles devem-ã-ã-devem… lamentar-ãã-ãã-abençoados são aqueles que devem—aqueles que—ãã—aqueles que devem lamentar, porque eles devem—ãã—devem o quê?! Por que você não me diz, Mary? – pra que tanta crueldade?

– Ah, Tom, pobre Tom cabeça-de-vento… Não faço por mal. Não é do meu feitio. Você deve se concentrar e tentar aprender outra vez. Não se desencoraje, Tom, você vai conseguir! – e se conseguir, vou dar-lhe um presente. Um presente que você irá gostar. Tudo bem, Tom, Tom, bom menino.

– Tá bom, Mary, mas o que é então, me fala o que é.

– Nada de mais, Tom. Só que quando digo que você irá gostar, saiba que é a verdade.

– Aposto que sim, Mary, eu acredito. Eu vou tentar de novo!

E Tom “tentou de novo” – e sob a dupla pressão da curiosidade e da esperança do ganho ele tentou com tanto espírito que obteve um grande sucesso. Mary deu-lhe uma Barlow¹ novinha em folha, vendida a 12 centavos e meio. As convulsões de alegria de Tom sacudiram seu sistema até seus fundamentos. (…) É claro que essa faca não tinha fio nenhum, mas “com certeza era” uma Barlow, e havia uma grandeza inconcebível nisso – embora fosse um mistério essa noção dos meninos ocidentais de que esta faca pudesse ser falsificada só para seu descontentamento ao arranjar uma Barlow que não fosse uma Barlow… Foi e deverá continuar sendo eternamente um mistério.”

¹ Uma faca negra famosa à época, uma das primeiras de seu tipo: uma faca de bolso, que hoje chamaríamos de canivete, pois a lâmina era retrátil em relação ao cabo de madeira.

“ele achava que cachos eram algo afeminado, e seus próprios cachos enchiam-no de amargura”

“Ele se encontrava tão desconfortável quanto aparentava estar. Havia qualquer coisa que tornava rapazes rígidos em trajes completos e tão asseados. Ele desejava que Mary esquecesse seus sapatos, mas sabia que era um desejo destinado ao fracasso; pois ela os ensebou bem-ensebados, como era o costume, e os retirou do guarda-roupa. Ele perdeu as estribeiras e gritou que sempre era forçado a fazer o que não queria.”

“e as três crianças partiram para a missa de domingo – uma cerimônia que Tom odiava com todo o coração; já Sid e Mary adoravam a ocasião.

As horas do Sabá iam de 9 às 10:30. E depois o serviço da igreja. Duas das crianças sempre permaneciam para o sermão voluntariamente, e os outros também permaneciam – por razões de força maior.”

“Todas as classes de Tom tinham o mesmo padrão – agitadas, barulhentas, problemáticas. Quando a turma recitava as lições, nenhum aluno sabia seus versos direito, tinha que recebê-los soprados.”

“Quantos de meus leitores teriam a indústria e a aplicação para memorizar 2 mil versos, ainda que fosse por um exemplar da Bíblia de Doré?¹ E não obstante assim foi que Mary ganhou duas Bíblias de Doré – um paciente trabalho de 2 anos – sem falar no garoto de ascendência alemã que ganhou quatro ou cinco delas! Uma vez ele recitou 3 mil versos sem parar; mas o esforço custou a suas faculdades mentais, e ele era pouco mais que um rapaz idiota desse dia em diante – uma calamidade para a escola, uma vez que, em ocasiões especiais, diante de grandes públicos, o superintendente (como Tom mesmo falava) invariavelmente chamava o mesmo rapaz para ‘exercitar-se’.”

¹ Gustave Doré (1833-1883) não só ilustrou várias passagens da Bíblia como famosamente passagens da Divina Comédia de Dante.

“Quando um superintendente de missa de domingo faz sua costumeira pregação, um livro de salmos à mão é uma necessidade incontornável, igual escrituras musicais para um cantor que desempenhará um concerto-solo. Se bem que por que isto é assim é que não sabemos: nem o solista nem o superintendente fazem uso, realmente, dos papéis a sua frente.”

“O homem de meia-idade revelou-se um personagem prodigioso – nada menos que o juiz do condado – a mais augusta autoridade que essas crianças já haviam contemplado na vida – e as crianças se perguntavam de que ele era feito – simultaneamente queriam que ele esbravejasse e discursasse, mas temiam-no também ao máximo. Ele era de Constantinopla, a 12 milhas dali – é o quanto ele tinha viajado – uma enormidade, percorrendo o mundo – esses mesmos olhos já se tinham posto sobre a côrte do condado – que, diziam, tinha um telhado de metal.”

“O bibliotecário ‘se exibia a todos’ – correndo de lá pra cá com vários livros em punho, aproveitando-se de cada burburinho e algazarra, que autoridades-insetos sempre acolhiam como bom sinal. As jovens professorinhas ‘se exibiam a todos’, inclinando-se com meiguice sobre alunos atrasados para compor as filas, erguendo dedinhos deliciosamente advertidores aos menininhos mais malvadinhos e acarinhando os menininhos mais bonzinhos na mesma medida, afetuosamente. Os jovens professorzinhos ‘se exibiam a todos’, com pequenas broncas e outras exibições de autoridade, manifestações de atenção em disciplinar qualquer polegada em seu entorno. E, sobretudo, professorzinhos de ambos os sexos sempre achavam que fazer à biblioteca, ou então perto do púlpito. Eram sempre emergências e que necessitavam ser refeitas uma, duas vezes até. Havia muito apuro nessas providências candentes. As menininhas ‘se exibiam a todos’ de várias formas, e os menininhos ‘se exibiam a todos’ com tamanha diligência que o ar parecia mais carregado do que nunca de papéis e brochuras importantes e dos sons de disputas controladas, limitadas a murmúrios. E acima de tudo o mais o grande homem sentado e a emanar um majestoso e judicial sorriso para a contemplação dos presentes, aquecendo-se no sol de sua própria importância – porque sem dúvida ele também estava ‘se exibindo a todos’.”

“E agora, quando não havia mais esperanças, Tom Sawyer se pôs à frente com nove bilhetes amarelos, novo vermelhos e dez azuis, e requereu sua bíblia. Foi um trovão em pleno céu aberto. Walters jamais esperava uma aplicação dessa proveniência pelos próximos dez anos. Mas não havia nem como duvidar – ali estavam todos os bilhetes certificados, e Walters os inspecionou e não encontrou nada de errado. Tom foi elevado, perfilado com o juiz e os demais vencedores, e as grandes notícias logo tomaram a vila. Foi a maior surpresa da década, tão profunda sensação causou nos moradores o novo herói, investido agora da proteção até da autoridade judicial. A escola tinha não só uma maravilha, a autoridade, mas duas para contemplar aquele domingo. Todos os meninos se mordiam de inveja – mas quem mais se angustiou foram os que se aperceberam tarde demais que contribuíram diretamente para esse esplendor odioso, trocando seus próprios cartões pela riqueza que Tom acumulara vendendo sua cal. Esses agora menosprezavam a si mesmos, como os tolos do mais capcioso ardil, da cobra no jardim que seduziu-os todos.

O prêmio foi entregue a Tom com tanta efusão quanto o superintendente era capaz de demonstrar; só faltou talvez aquela reverência ou bajulação devida a um legítimo ganhador, porque os instintos do pobre senhor adivinhavam a existência de circunstâncias misteriosas rondando a ocasião, impossíveis de resolver em tão pouco tempo. Era ilógico imaginar que esse garoto tinha registrado na cabeça duas mil linhas da sabedoria das Escrituras – uma dúzia só já parecia exceder seus limites, disso o superintendente não tinha dúvida.

Amy Lawrence era só orgulho e contentamento, e ela tentou chamar a atenção de Tom como pôde para demonstrar-lhe – Tom, todavia, nem a olhava. Ela se pôs pensativa, espantada mas introspectiva. Com os minutos foi-se pondo desconfiada. A seguir, tentava se prender a alguma hipótese pouco nobre. Observava furtivamente como quem devia entender o inexplicável focando o olhar em qualquer coisa no salão. Foi então que seu coração partiu, sentiu ciúmes, revolta, lágrimas jorraram e passou a odiar todos em volta. Tom principalmente (ela assim pensava no momento).

Tom foi apresentado ao juiz. Sua língua se encontrava travada. Seu fôlego era escasso, o ar vinha com dificuldade. Seu coração chacoalhava – parte pela grandeza do homem, parte porque ele era o pai da menina. Ele teria adorado se prostrar e adorar este homem, se fosse no escuro e ninguém pudesse ver. O juiz colocou a mão na cabeça de Tom e disse que ele era um belo dum rapazinho, perguntando em seguida seu nome. O rapazinho balbuciou, engasgou, mas conseguiu emitir:

– Tom.

– Ah, Tom não, deve ser—

– Thomas.

– Isso! Foi o que pensei, que era um nome mais longo. Mas eu ouso dizer que ele é ainda mais longo, não? Não quer dizê-lo por completo?

– Diga ao senhor seu outro nome, Thomas – disse Walters, – e diga ‘senhor’. Não esqueça das maneiras!

– Thomas Sawyer – senhor!”

“– Creio que você não se importe em contar a mim e a esta dama algumas das coisas que aprendeu. Não, tenho certeza que não se importaria! Pois temos muito orgulho de jovens que aprendem bem. É evidente que você sabe o nome dos doze discípulos, não é assim? Por que não diz, por exemplo, o nome dos dois primeiros que foram nomeados pelo Senhor?

(…) As tripas do senhor Walters deram um nó. Ele disse a si mesmo: é impossível que o garoto responda a mais simples das questões! Por que o juiz foi perguntá-lo? Assim mesmo ele se sentiu na obrigação de falar algo, e interveio:

– Responda o juiz, Thomas – nada receie!

A garganta de Tom ainda parecia arder em chamas.

– Ah, eu sei que você sabe – atalhou a dama. Que os nomes dos dois primeiros discípulos eram…

– Davi e Golias!…

Baixemos as cortinas da cortesia e da caridade sobre a continuação desta cena.”

QUINTO CAPÍTULO

“Tom não tinha cachecol. E achava que os meninos que tinham era uns esnobes.”

“Havia, há certo tempo, um coro de igreja que não era nada mal, mas esqueci onde ele ficava. Isso foi há muito tempo. Lembro apenas de soslaio, mas devia ser num país estrangeiro.”

“Nas reuniões sociais da igreja ele sempre era chamado para declamar poesia; e assim que ele terminava as madames erguiam suas mãos só para deixá-las recair sobre seus colos, depois tapavam a vista, de repente úmida, vibravam as cabecinhas, como que querendo dizer que palavras não podiam expressar o que sentiam. Tão belo, belo DEMAIS para este mundo mortal.

Depois de cantado o hino, o Reverendo Senhor Sprague se dirigia a um quadro de avisos e lia lembretes de encontros e cerimônias da comunidade e mais este e aquele jantar beneficente, até que a lista parecia que iria até o juízo final e… um costume estranho, talvez ainda corrente na América, mesmo nas cidades, subsistente nessa idade dos jornais… Muitas vezes quanto menos razões há para preservar um costume, mais difícil é se livrar dele!

O ministro então passava a rezar. Uma oração boa e generosa. Muito específica: pedia o bem da própria igreja, o bem das criancinhas da igreja, o bem das outras igrejinhas do vilarejo, o bem do vilarejo em si, o bem da prefeitura, o bem do estado, o bem dos funcionários do estado, o bem Estados Unidos da América, o bem das igrejas de todos os Estados Unidos da América, o bem do Congresso, o bem do Presidente, o bem dos funcionários do governo norte-americano, o bem dos pobres marinheiros, à mercê de tempestades marítimas, o bem de milhões oprimidos e gemendo sob a tirania dos monarcas europeus, e também dos déspotas do Oriente, o bem a todos os que têm em si a luz da razão e uma boa alma, mas que ainda não têm olhos para ver nem ouvidos para ouvir, por assim dizer; o bem dos pagãos nas ilhas mais remotas; e fechava, esta oração bem-feitinha, com uma súplica para que as palavras que ele acabava e que ainda ia acabar de dizer fossem agraciadas com o favor divino, como sementes num solo fértil, fortalecendo, devagar e com o tempo, o bem, frutificando as coisas boas deste mundo maravilhoso. Amém.”

“ele considerava acréscimos injustos e torpes. No meio da pregação uma mosca pousou na parte de trás do banco justo diante de si. Uma mosca que parecia torturar seu próprio espírito como um crente em penitência. Esfregava calmamente as patas, depois esfregando-as na cabeça, tão vigorosamente que a cabeça parecia se descolar do corpo – o fio que era o pescoço da criatura se pôs à mostra. Raspando as asas com suas patas traseiras, aplainando-as com o resto de seu corpo, parecia agora que a mosca vestia um fraque. E seguia nessa espécie de higiene individual com a tranqüilidade de quem se sabe segura. De fato a mosca estava plenamente segura. Não importa quão intenso fosse o ímpeto das mãos de Tom, se coçando para esmagar ou espantar aquela mosca, Tom acreditava que sua alma seria sumariamente destruída no caso de cometer tal ato durante o sermão.”

“O ministro não só leu toda sua exortação costumeira como seguiu, no tom monocórdio possível, auto-resolvendo um argumento tão prosaico, na continuação da leitura, que não foram poucas as cabeças que começaram a pescar – e não deixava pela mundanidade de ser um argumento envolto em fogo imorredouro e enxofre e parecia reduzir a casta dos predestinados a uma companhia tão pequena que, no fim das contas, não valia o esforço da redenção. Tom contou as páginas do sermão. Depois da igreja ele sempre sabia quantas páginas haviam no discurso, porque ele se concentrava em contá-las; mas nada do conteúdo lhe era familiar.”

“Tom olhou, e esperou. Mas estava fora de alcance. É de confessar que outros fiéis desinteressados do sermão encontraram alívio no besouro, e passaram a fitá-lo também. De repente um cachorro de rua entrou, parecendo tristonho, lerdo devido à calidez do verão, muito comportado, cansado, talvez, do repouso e preguiça do estar parado o dia todo, arfando por uma mudança de ares. Ele mesmo observou o besouro. O rabo se ergueu começou a abanar. Ele começou a avaliar o prêmio. Circundou-o. Cheirou-o de distância segura, voltou a rodeá-lo com cautela. Avalentonou-se, cheirou de mais perto. Elevou seu focinho e tentou uma captura escrupulosa do inseto, mas errou de mira. Mais uma vez, e outra, e o besouro se desviava. O cão começava a gostar do esporte. Mera presa de seu estômago a roncar com o besouro já em suas patas, continuou seus experimentos. Uma hora fatigou-se e, indiferente, parecia não ligar para o alvo, nem para os objetos em torno. Dispersou-se. Balançou a cabeça, de pouco em pouco o queixo foi caindo e encostou mesmo no besouro, que não recusou a interação. O cão ganiu, chacoalhou a cabeça e o besouro caiu várias jardas para lá. E caiu mais uma vez de costas, inofensivo. Os vizinhos humanos, espectadores do espetáculo, deram risotas de uma alegria terna e interna, muitos dos rostos, consternados em ser assim flagrados, esconderam-se atrás de leques e lenços, e Tom, Tom também ficou contente! O cão parecia um tolo, e na verdade parecia ter alguma consciência disso. Não pensem que cães são incapazes de rancor, porque ele foi para se vingar. Aproximando-se do besouro iniciou um ataque mais desconfiado que todas as investidas anteriores, pululando em derredor cobrindo todos os pontos de um círculo imaginário, ameaçando com suas grandes patas a uma polegada da criatura, tentando a captura bucal com seus dentes rangidos, balouçando a cabeça até suas orelhas se porem eretas novamente. Mas esse cão não podia persistir por muito tempo, e se distraiu outra vez. Tentou se divertir com uma mosca próxima, mas isso era demasiado pouco. Seguiu os passos duma formiga, o nariz colado no chão da igreja, bocejou, suspirou, já havia esquecido do besouro inteiramente, a ponto de simplesmente sentar nele sem querer. Agora o uivo foi mais estridente que da outra vez, pareceu denotar muita dor. O cachorro foi em direção à nave da igreja, querendo distância dali. Ganiu ainda por um tempo. Ele cruzou a passagem entre os fiéis e o altar. Depois já estava na outra nave, saiu pelas portas. Já estava bom de se espreguiçar por hoje! Sua angústia aumentava a cada passo, era essa a impressão pelo menos, e no fim ele parecia um ponto de lã no horizonte em trajetória errática, cedendo talvez à força da gravidade, cometa que se aproximava em elipse a algum corpo celeste pesado. Mas o sofredor se recompôs e se dirigiu então… para aquele que era seu dono, então ele tinha uma casa um dono! Alguns latidos tristes ainda foram ouvidos, mas logo foram abafados pela janela recém-fechada…

Nesse ponto, a audiência da igreja já está sufocando, de cara vermelha, prendendo o riso, e o sermão chegou no fundo do poço, como se o tempo tivesse parado. O sermonista notou-o e interrompeu-se por um hiato, depois dos barulhos da aventura anterior; o retorno à lide foi célere, no entanto, e não pareceu a nenhum ouvinte, por isso, mais instigante nem ao menos ter sido afetado por qualquer traço emocional, o que era desabonador. Nada o alteraria até o fim. Mesmo risotas que escapassem eram recebidas com a mesma gravidade inalterável, tanto faz se sensível às risotas ou não. Só o que se ouvia além da voz e de alguns sons da platéia, para ser franco, era o ranger dos bancaços de madeira.

(…) Tom Sawyer caminhou aquele dia para casa um pouco alegre, pensando consigo que havia no fim de contas alguma satisfação a ser retirada dos serviços divinos quando as circunstâncias fossem favoráveis.”

SEXTO CAPÍTULO

“A segunda-feira de manhã encontrou Tom Sawyer no estado mais lamentável. Segundas de manhã sempre encontravam Tom deste jeito – porque eram o vagaroso reinício dos sofrimentos escolares semanais. Geralmente ele começava o dia desejando que o sabá nunca tivesse existido – ser liberado só fazia voltar à prisão algo mais dorido e odioso.”

“De repente ele se deu conta de algo. Um de seus dentes da frente e de cima estava frouxo. Isso significava sorte. Ele começava instintivamente a gemer, o <gatilho>, como ele mesmo costumava dizer, de, quando se lhe ocorresse propício, ganhar uma causa no tribunal – até que Tom lembrou de que talvez tudo terminasse com sua tia realmente arrancando seu dente – e decerto doeria.”

“Em pouco tempo Tom estava diante do pária juvenil do vilarejo, Huckleberry Finn,¹ filho do alcóolatra local.”

¹ Novela que é a seqüência direta desta.

“Huckleberry ia e vinha de acordo com sua própria vontade. Dormia no batente das portas no tempo bom e em barris vazios quando estava úmido. Ele não tinha de ir à escola ou à igreja, nem tinha qualquer adulto por mestre ou amo; não obedecia a ninguém. Ele podia ir pescar ou nadar quando e onde escolhesse, e demorar o quanto quisesse. Ninguém o proibia de brigar tampouco. E nem o mandava ir para a cama. (…) também não tinha de tomar banho, nem vestir roupas limpas. Podia xingar e praguejar que era uma beleza. Em resumo, tudo o que fazia a vida de um menino a mais preciosa, ‘Huck’ tinha.”

“Tom cumprimentou o romântico pária:

– Olá, Huckleberry!

– Olá você, sinta-se servido.

– O que é isso que você tem aí?

– Gato morto.

– Deixa eu ver, Huck. Ó, ele tá bem duro. Onde você achou?

– Comprei dum garoto.

– Com o quê?

– Dei um bilhete azul e uma bexiga que consegui no açougue.

– Onde você achou o bilhete azul?

– Comprei do Ben Rogers faz duas semanas por um bastão de arco de ginástica.

– Fala… o que dá pra fazer com gatos mortos, Huck?

– O que dá pra fazer? Espremer verruga.

– Não! Sério? Eu sei uma coisa melhor.

– Duvido. O que é?

– Ora, água de gambá!

– Água de gambá! Eu não dava um vintém por água de gambá.

– Tem certeza que não? Já tentou tirar verruga com água de gambá alguma vez?

– Não, nunca, mas o Bob Tanner já.

– Quem disse?!

– Ué, ele disse pro Jeff Thatcher, e o Jeff contou pro Johnny Baker, e o Johnny contou pro Jim Hollis, e o Jim contou pro Ben Rogers, e o Ben contou prum negro, e o negro me contou. Aí tem!

– Sim, mas e então? Todos eles mentem. Todos isto é, menos o negro. Eu não conheço ele. Mas eu nunca vi um negro que não mentiria. Porra! Agora me diz como o Bob Tanner fez, Huck.

– Ué, ele afundou a mão numa poça depois da chuva.

– Durante o dia?

– Acho que sim.

– Com a cara pra poça?

– Sim. Pelo menos eu diria.

– Ele falou alguma coisa?

– Eu não diria que falou. Eu não sei.

– Arrá! Curar verruga com água de gambá desse jeito não dá! Não, isso não ia dar em nada. Você tem que ir sozinho, até o meio do bosque, onde você sabe que tem uma poça velha lá, e assim que der meia-noite você fica de costas pra água podre, enfia sua mão nela e então diz: Grão de cevada, grão de cevada, comida de índio, água de gambá, água de gambá, engole essas verrugas;

e depois ir embora correndo, 11 passos, com seus olhos fechados, e depois se virar umas 3 vezes e ir direto pra casa sem falar com ninguém. Porque se você falar, o charme quebra.

– Ué, parece legal. Mas não foi o jeito que o Bob Tanner fez.

– Não senhor, com certeza absoluta não, porque ele é o moleque mais verruguento da cidade! Se ele tivesse feito ele não ia ter verruga! Eu tirei umas mil verrugas da minha mão desse jeito, Huck. Eu brinco tanto com sapo que sempre me dá verruga! Eu tiro com vagem.

– Feijão é muito bom, já fiz isso.

– Já? Como você faz?

– Você pega e divide a vagem, e corta a verruga até sair um pouco de sangue, aí você põe o sangue num pedaço do feijão e pega e cava um buraco e enterra o feijão mais ou menos meia-noite na encruzilhada na sombra da lua, e depois você queima o resto do feijão. O pedaço com sangue vai virar um ímã e vai puxar a outra metade que você cortou, aí é só você usar isso pra ressecar a verruga, e puxar ela da sua pele.

– É, é isso aí, Huck, é isso aí! Mas quando você tá enterrando o feijão, se você diz ‘Desce feijão, cai verruga, não vem mais me perturbar!’, é melhor! É assim que o Joe Harper faz, e ele já foi em Coonville, e um bando de lugar. Mas me diz – como é pra sarar com gato morto?

– Ué, você pega seu gato e vai e chega no cemitério perto de meia-noite, ou na hora do enterro de alguém mau. E meia-noite um diabo vai aparecer, ou talvez dois, três… Mas o negócio é que você não pode ver eles, você só ouve uma coisa que parece co’ vento, ou uns burburinhos. E quando eles tão levando o cadáver do homem mau, você lança o gato pra eles e grita: ‘Diabo segue corpo, gato segue diabo, verruga segue gato, sai de mim verruga!’. Isso vai curar qualquer verruga.

– É, faz sentido. Você já tentou, Huck?

– Não, mas a velha madre Hopkins que me disse.

– Hm, eu acho que é verdade então. Porque falam que ela é uma bruxa.

– Falam! Ué, Tom, eu sei que ela é. Ela enbruxou meu pai. Meu pai sabe. Ele vinha vindo um dia, aí ele viu que ela tava embruxando ele, então ele pegou uma pedra, e se ela não tivesse desviado tinha peg’em chei’! A mesma noite ele caiu rolando dum barracão em que ele tava bebendo, e quebrou o braço, cê ‘credita?!

– Cara, que horrível! Como ele sabia que ela tava embruxando ele?

– Deus, meu pai jura de mão junta. Ele diz que se elas tão olhando fixo pra você, tão embruxando você. Se elas tão murmurando é certeza, certeza! Quando elas tão murmurando elas tão falando o pai-nosso de trás pra frente!

– Hucky, me diz… Quando você vai fazer a parada com o gato?

– Essa noite. Eu acho que vão vir pro velho Hoss Williams.

– Mas o enterro foi sábado. Não pegaram o corpo dele sábado de noite?

– Ué, sabe-tudo! Com’é que o charme funciona até meia-noite então? E aí meia-noite de sábado já é domingo. Os demônios não vadiam domingo, eu diria.

– Nunca pensei nisso. Deve ser assim. Deixa eu ir contigo?

– Claro! Se você não tiver com medo…

– Com medo!! Duvido muito. Você vai miar?

– Sim. E você mia de volta, se escutar. A última vez, você me fez ficar miando um tempão até o velho Hays me tacar pedra! E ele falou: ‘Maldito seja esse gato!’. E pra me vingar eu atirei um tijolo na janela dele. Mas você não me ouviu.

– Não ouvi. Eu não pude miar aquela noite, porque minha tia tava me vigiando. Mas dessa vez eu vou miar. Ei, o que é aquilo?

– Só um carrapato.

– Onde conseguiu?

– Na floresta.

– Quer vender pelo quê?

– Não sei. Não quero vender, eu acho.

– Tá bom. É um carrapatinhozinho pequenininho mesmo.

– Qualquer um pode pegar um carrapato que não tem dono. Tô satisfeito com esse. É um carrapato bom pra mim.

– Lógico, tem carrapato pra caraca! Eu podia ter mil se eu quisesse.

– Por que você não arranja uns? Ah, você não consegue! É um carrapato recém-nascido. É o primeiro que espio esse ano!

– Ei, Huck… Eu te dou meu dente pelo carrapato.

– Hm, deixa ver.

Tom tirou um pedaço de papel do bolso e com cuidado desenrolou-o. Huckleberry estudou o dente com certa nostalgia. Era uma bagatela. Então ele disse:

– É genhuíno?

Tom levantou o beiço e mostrou a banguela.

– Ué, muito bom! – disse Huckleberry, satisfeito – Negócio fechado.

Tom encerrou o carrapato numa lata velha daquelas de armazenar balas de armas, a mesma caixa em que ultimamente Tom vinha confinando um besouro-veado. E então os garotos se separaram, cada um achando que saiu no lucro.

“– Thomas Sawyer!

Tom sabia que quando seu nome era pronunciado inteiro significa problema.

– Senhor!

– Venha aqui. Agora, senhor, por que está atrasado, como aliás quase sempre?

Tom estava para se refugiar em uma de suas mentiras cultivadas, quando viu duas longas tranças de cabelo amarelas repousando ao fundo, que ele imediatamente reconheceu pelo processo elétrico chamado simpatia do amor. E ao lado da portadora dessas tranças, eis o único lugar vago restante. Ele então preparou novo discurso direto das entranhas:

– Eu parei para conversar com Huckleberry Finn!

O pulso do professor até parou, dir-se-ia. Ficou sem reação. O barulho da sala também virou silêncio. Sem dúvida todos começaram a se perguntar mentalmente se aquele toleimas tinha virado o fio de vez.

– Você—você o quê?!

– Parei para conversar com Huckleberry Finn.

Não havia confusão na audição de qualquer palavra.

– Thomas Sawyer, essa é a mais espantosa confissão que jamais ouvi. Não é qualquer palmatória que limpará tamanha ofensa! Tire sua jaqueta.

O braço do mestre executou os golpes até se cansar, de modo que as estaladas foram aumentando de intervalo entre uma e outra até pararem por completo. Em seguida veio a ordem:

– Agora, senhor, vá, e se sente com as meninas! Que isso lhe sirva de máxima lição.

O tititi que percorreu a sala pareceu desconcertar o garoto. Mas o resultado externo, essa feição de abatimento, fôra em verdade causado por sua adoração infinita ao novo ídolo e aquele medo ou frio na barriga decorrente do ambíguo prazer de receber a honra de sentar-se ao seu lado. Ele sentou na extremidade do grande banco de pinheiro e a garota retraiu-se a sua passagem, jogando a cabeça para o lado. Cotoveladas e piscadinhas e sussurros atravessaram o cômodo, mas Tom sentou quieto, em postura tranqüila, de braços estendidos sobre a longa e baixa carteira diante de si, pelo menos afetando ler seu livro.”

“Então o garoto começou a olhar às furtadelas para a garota. Ela não deixou de notar, franziu os lábios em sentido de repulsa e virou o rosto em relação a ele por completo por um minuto inteiro. Quando ela cautelosamente volveu à posição antiga, viu um pêssego sobre sua carteira. Ela o jogou longe. Tom, com ternura, devolveu-o ao mesmo lugar. Ela o jogou longe de novo, mas com menos animosidade. Tom pacientemente retornou a fruta ao mesmo sítio. Então ela deixou o pêssego ficar lá. Tom garatujou em sua ardósia: ‘Por favor, fique com ele. – Eu tenho mais’. A garota mirou as palavras, mas pareceu não saber interpretá-las. Agora o garoto começou a desenhar alguma coisa, escondendo ao mesmo tempo o conteúdo com a mão esquerda. Por um tempo a garota simplesmente se negou a reparar; mas sua curiosidade humana começou a se manifestar por sinais orgânicos bastante finos e bem-disfarçados. O garoto continuava em seu trabalho, aparentemente inconsciente desses sinais. A garota entrou numa postura como que de uma tentativa passiva de enxergar algo do desenho, mas o garoto não demonstrou nenhuma perturbação diante dessa nova tática. Por fim ela cedeu e cochichou, hesitante:

– Deixa eu ver.

Tom descobriu parcialmente uma horrível caricatura duma casa de duas cumeeiras e uma chaminé com fumaça em espiral. Isso fez com que o interesse da garota pela parte ainda oculta da figura se intensificasse. Ela esqueceu de afetar qualquer discrição. Quando o desenho terminou, e Tom deixou-o a descoberto, ela olhou um instante, depois cochichou:

– É bonito. Desenha um homem.

O artista então compôs um homem no jardim frontal. O homem parecia um guindaste. Pelo seu tamanho ele podia pisar na casa e usá-la como degrau. Mas a garota não era hipercrítica. Satisfez-se com o monstro, e cochichou:

– É um homem bonito. Agora me põe do lado dele.

Tom desenhou uma ampulheta com uma lua cheia no topo, com riscos por membros, sem dizer que armou os dedos protuberantes com um portentoso leque. A garota disse:

– É muito, muito bonita. Eu gostaria de saber desenhar.

– É fácil – cochichou Tom. Eu vou te ensinar.

– Sério? Quando?

– Meio-dia. Você vai pra casa almoçar?

– Eu fico se você ficar.

– Bom – negócio fechado. Qual seu nome?

– Becky Thatcher. Qual o seu? Ah, eu já sei: é Thomas Sawyer.

– Esse é o nome por que me chamam aqui. Eu sou Tom para os íntimos. Você vai me chamar de Tom, não vai?

– Vou.

(…)

– Se eu mostrar, você vai contar.

– Não, eu não vou. Juro, juro, beijo, beijo, que não vou contar.

– Não vai contar pra ninguém? Nunca, enquanto viver?

– Não, nunca vou contar pra ninguém. Agora deixa eu ver.

– Ah, você não quer ver isso!

– Já que você me trata assim, eu vou ver. – E ela pôs sua mãozinha sobre a dele e uma ligeira luta decorreu, Tom fingindo que resistia sinceramente, mas deixando-se vencer aos milímetros até revelar as palavras EU TE AMO.

– Ai, seu malvado! – e deu uma palmada na mão trigueira de Tom, mas corou e pareceu feliz com a situação.

Exatamente nesta conjuntura o garoto sentiu um lento, fatídico agarrão que envolveu sua orelha, e um empuxo firme. Foi dessa maneira, agarrado pela aba, que ele foi conduzido através de toda a sala para seu assento de origem, debaixo de gargalhadas ardentes de toda a classe. Então o professor continuou de pé olhando para baixo, ao seu lado, por agoniantes segundos; até decidir deslocar-se a seu trono, sem mais palavras. Muito embora a orelha de Tom ardesse como o inferno, seu coração rejubilava.”

“na aula de leitura Tom estava de dar pena; na aula de geografia, trocou lagos por montanhas, montanhas por rios, e rios por continentes; na aula de pronúncia e ortografia as palavras mais básicas davam nós em sua língua e em sua pena. Era como esmigalhar com um pisão a medalha platinada que ganhara com tanto esforço no fim de semana.”

SÉTIMO CAPÍTULO

“Enquanto um menino importunasse o carrapato com interesse absorvente, o outro se interessaria na mesma medida. Ambos inclinavam a cabeça sobre a ardósia em sincronia, e ambos estavam tão entretidos que excluíam a existência do mundo exterior.”

“– Não vou deixar ele quieto!

– Você deve – ele tá do meu lado da linha.

– Ei, Joe Harper, de quem é esse carrapato?

– Eu não tô nem aí de quem é o carrapato – ele tá do meu lado da linha, e você não deve tocar nele.

– Então, só vou apostar que vou, e ponto. Ele é meu carrapato e eu vou fazer a merda que eu quiser com ele ou morrer!”

“– Não, não ligo muito pra ratos. Eu gosto é de chiclete.

– Bem lembrado – queria ter um agora.

– Mesmo? Eu tenho alguns. Eu vou deixar você mascar um bocado, mas você tem que me devolver depois!

Isso era vantajoso, então ambos passaram a mascar em turnos, e balançavam as pernas contra o banco, de tanta satisfação.

– Já ‘teve no circo? – perguntou Tom.

– Já, e meu pai vai me levar de novo já, já, se eu me comportar.”

“– Como é? Não tem comparação com nada. Você só fala pra um garoto que não vai ter nenhum outro garoto, a vida toda, só ele! Nenhum outro garoto, nunca, nunca, nunca, e depois vocês se beijam e isso é tudo. Todo mundo pode fazer isso!

– Beijar? Mas pra que beijar?

– Hm, beijar é, você sabe, é—ué, todo mundo beija.

– Todo mundo?!

– É, todo mundo que se ama! Você lembra o que eu escrevi na ardósia?

– Si-im.

– O que foi?

– Não posso te contar.

– Eu posso te contar?

– Si-im… Mas… não agora.

– Não, agora.

– Não, agora não. Ama-anhã…

– Nana nina! Agora. Por favor, Becky. – eu vou cochichar, eu vou cochichar bem baixinho.

Becky hesitava. Tom interpretou o silêncio como consentimento, passou o braço pela sua cintura e sussurrou a frase batida no tom mais brando que encontrou, com seus lábios o mais próximo possível da orelha de Becky. E ainda acrescentou:

– Agora você cochicha pra mim – igualzinho.

Ela resistiu, pelo menos por um hiato, então falou:

– Você olha pra lá pra não me ver, então eu cochicho. Mas você nunca vai contar pra ninguém, tá entendendo, Tom?! Você NÃO vai, Tom, tá bom?!

– Não, deixa. Pode deixar que eu não vou. Vamo’, Becky.

Ele virou o rosto. Ela se inclinou com timidez se aproximando até seu hálito fazer os cachinhos de Tom se moverem, e sussurrou:

– Eu… amo… você!

Então ela o repeliu e correu para longe, circulando as carteiras e bancos, Tom seguindo-a de perto. Becky se refugiou numa das quinas, com seu lencinho cobrindo o rosto. Tom amaciou seu pescoço e implorou:

– Vem, Becky, tá tudo bem. Quase acabando. Falta só o beijo! Não tem por que ter medo – é uma bobagem! Por favor, Becky! – E ele a puxou pelo lenço e as mãos.

Ela foi cedendo aos poucos, deixando as mãozinhas caírem. Seu rosto, fulgurante de tanta resistência, se aproximou do de Tom e se submeteu. Tom encostou sua boca na boca vermelha de Becky e disse:

– Agora terminou, Becky! Está feito! E depois disso, pra sempre, você nunca vai amar ninguém, só eu, e você vai poder casar com ninguém, só comigo, pra todo o sempre e a eternidade. Né?

– Não, nunca vou amar ninguém sem ser você, Tom, e eu nunca vou casar com ninguém, só com você, Tom… E você também não pode casar, só se for comigo, Tom.

– É claro! É óbvio! É parte do ritual. E sempre, indo pra escola, ou quando a gente ‘tiver indo pra casa, você tem que andar comigo… quando ninguém ‘tiver olhando… E você me escolhe e eu te escolho nas duplas, você é sempre meu par, eu sou sempre seu par, porque é assim que se faz quando um casal se compromete.

– É tão legal! Nunca tinha ouvido falar…

– É sempre tudo de bom! Sabe, eu e a Amy Lawrence—

Os olhos arregalados contaram a Tom que ele tinha pisado em ovos – e ele parou, aturdido.

– Ai, Tom! Então eu não sou a primeira que você jurou que ia…!!!

A criança desatou a chorar. Tom disse:

– Não chora, Becky, eu não ligo pra ela mais!!

– Sim, você liga, Tom – você sabe que liga.

Tom tentou circunvolver Becky pelo pescoço, mas ela o empurrou e virou a cara para a parede, sem que as lágrimas parassem de deslizar pelo seu rosto. Tom tentou de novo, cheio de consolações em suas palavras, mas foi repelido outra vez. Era o cume para seu orgulho. Ele escapuliu e se viu a céu aberto. Parou um tempo, em frenesi e aflito, fincando o olhar na porta pelo lado de fora, desejando mil vezes que ela se arrependeria e viria atrás dele. Mas ela não o fez.”

“Ela ouvia com atenção, mas não houve resposta. Ela não tinha como companheiros senão o silêncio e a solidão. Então ela se sentou novamente com o intuito de chorar e infligir um castigo a si mesma. Nesse meio-tempo os alunos começaram a se reagrupar, e ela teve de esconder toda sua tristeza, embora seu coração partido não fosse se emendar. Viver aquela tarde seria um longo calvário, sem ninguém dentre pessoas estranhas que lhe dirigisse um olhar terno ou com quem pudesse desabafar.”

OITAVO CAPÍTULO

“Dava-lhe a impressão que a vida não passava de uma grande peça pregada, na melhor das hipóteses, e ele muito invejava Jimmy Hodges, morto recentemente. Deve ser muito tranqüilo, ele pensava, parar e descansar e sonhar pra sempre, acompanhado do uivar do vento nas folhas e sentindo o contato com a relva e as flores, ali em cima do túmulo. Nada para encher nem lamentar, nunca, nunca mais! (…) Ele quis o melhor, e até ali fôra tratado como um cão – como o mais rueiro dos cães. Ela se arrependeria um dia – talvez quando fosse tarde demais. Se ele pudesse morrer, nem que temporariamente!

“E se ele virasse as costas agora e desaparecesse misteriosamente? E se ele fosse para longe – tão longe, para países desconhecidos além dos mares – e não voltasse jamais! Como ela se sentiria então? A idéia de se tornar um palhaço voltava recorrentemente, só para terminar enchendo-lhe de desgosto no presente. A frivolidade, as piadas e suspensórios de bolinhas soavam-lhe ofensivos, pelo menos quando bancavam os intrusos num espírito desassossegado nos augustos reinos do romance como o seu. Não, melhor seria se converter em soldado, e retornar após longos, longos anos, coroado de medalhas, famoso em todo o país. Não – melhor ainda: ele se aliaria aos índios e caçaria búfalos e seguiria as trilhas montanhosas e as planícies ainda não-documentadas do Extremo Oeste, e no futuro distante se sagraria o pajé de seu povo, todo adornado de penas, temível em pintura de guerra, pavoneando-se à entrada da igreja num domingo qualquer, como se nada, com um grito de desafio que anunciava a derramada de sangue – arrancaria os olhos de seus antigos companheiros de maneira implacável. Não, não, havia algo ainda mais satisfatório que isso! Ele seria um pirata! É isso! agora sim o futuro corria nítido diante de seus olhos, brilhando em esplendor inimaginável. Seu nome encheria as páginas dos jornais do mundo, todos estremeceriam ao ouvi-lo! Com que glória ele iria de porto em porto sacando riquezas, e como sey navio de casco negro dançaria sobre as ondas – ele já tinha um nome, o Espírito da Tempestade, com sua apavorante bandeira à frente!”

“Quem vem é Tom Saywer, o Pirata! – o Vingador Negro da Esquadra Espanhola!”

“A verdade é que uma superstição sua tinha falhado, aqui, uma que ele e tdos os seus camaradas tinham considerado como infalível. Se você enterrasse a bola de gude com certos encantamentos e deixasse-a intocada por 2 semanas, reabrindo o lugar com os mesmos encantamentos na hora indicada, com sílabas perfeitamente espelhadas, você constataria que todas as bolinhas de gude que perdera em toda sua vida estariam agora reunidas num só lugar, não importa quão longe estivessem antes de tudo. Mas agora tudo tinha ido água abaixo, sem lugar a dúvidas. Toda a fé de Tom chacoalhou até as fundações. Ele ouvira muitas vezes de sucessos semelhantes, mas nunca de fracassos. E ele nem sequer lembrava que já havia tentado muitas vezes antes… mas no fim ele esquecia onde havia enterrado a bola de gude, então deixava a questão de lado.”

“Ele sabia que era inútil discutir com bruxas, então deu de ombros. Mas de repente se lembrou da bola de gude que perdera, dando-se ao trabalho de procurá-la com a maior paciência. Nada feito. Voltando a sua casa dos tesouros, postou-se igual se havia postado quando jogou a bola de gude fora. Depois pegou outra bola do bolso e atirou-a de maneira análoga, dizendo:

– Irmão, vá procurar seu irmão!

Ele assistiu o trajeto da bola e depois correu para o lugar. Mas ou o impulso foi fraco ou forte demais. Ele ainda tentou seu plano mais duas vezes. A última repetição, quem diria, deu resultado. As duas bolas de gude estavam a cerca de 30 centímetros uma da outra.”

“– Quem és tu que ousas falar em tal linguagem?

– Eu, tu perguntas! Eu sou Robin Hood, como tua carcaça verminosa logo há de atestar!

– Ó, então és aquele famoso fora-da-lei? Com muita satisfação disputarei contigo quem manda nesses bosques! Em guarda!

Ambos sacaram suas espadas de ripa, largaram seus trapos no chão e começaram uma disputa de esgrima ferrenha, pé ante pé, com cautela e seriedade, em uma melhor de três. Tom disse:

  • Vamos ver do que és feito! Mais ímpeto!

Eles realmente injetaram mais ímpeto, pintando o sete e transpirando muito. De quando em vez Tom gritava coisas como:

  • Cai! Cai! Por que não cais?

  • Não devo, não posso! Por que não cais tu?! Irás te arrepender!

  • Ora, isso nada é! Não sou homem de cair. Não é o que está escrito no livro. O livro diz, ‘Então, com uma só estocada por trás, ele matou o infeliz Guy de Guisborne.’ Você agora tem que girar e me deixar acertar suas costas!

Não tinha como disputar a autoridade. Joe se virou, recebeu a pancada e simulou a queda.

  • Agora – disse Joe, se levantando – você tem que deixar eu matar você. Mais que justo!

  • Ué, não posso, não tá no livro!

  • Isso é muita sacanagem! Pra mim chega.”

“Os garotos se vestiram, esconderam seus equipamentos e foram embora, lamentando-se de não haver mais bandidos, se perguntando o que a civilização poderia oferecer em troca por tamanha perda. E cada um dizia que preferia mil vezes ser um fora-da-lei por um ano Na Floresta Sherwood que ser Presidente dos Estados Unidos para sempre.”

NONO CAPÍTULO

“Ele ficou feliz, porque o tempo cessou e a eternidade começou. Ele foi caindo no sono a despeito do esforço. O relógio bateu onze vezes, mas Tom não escutou.”

“Huckleberry Finn estava ali, acompanhado de seu gato morto. Os dois se moveram e desapareceram no imenso breu. Depois de meia hora já avançavam pela grama alta do cemitério.”

“– Eu não sabia o que fazia. Eu quero morrer nesse minuto se eu sabia. Era culpa do uísque e da empolgação, eu acho. Nunca usei uma arma na vida, Joe. Sempre briguei, é claro, mas nunca armado. Todos sabem disso. Joe, não abre o bico! Por favor, Joe – você é um bom sujeito! Sempre gostei de você joe, sempre ‘tive do seu lado, e você do meu, é claro. Não lembra? Você não vai contar, vai, Joe?

E a pobre criatura se pôs de joelhos diante do apático assassino, e juntou suas bonitas mãos.

– Não, você sempre foi honesto e direito comigo, Muff Potter, nunca vou dedurar você. É isso o mais justo que um homem pode ser, concorda?

– Joe, você é um anjo. Eu vou sempre lembrar até o fim da vida que você é o cara e me salvou.

E Potter começou a chorar.

– Vamos, vamos, não precisa disso. E nem é hora dessas coisas. Nada de abrir o berreiro aqui. Você sai por um lado, eu por outro – vai logo, e não deixa nenhuma pegada.

Potter foi num trote que logo se converteu numa corrida desabalada. O mestiço ficou olhando ele se distanciar.

DÉCIMO CAPÍTULO

“Huck Finn e Tom Sawyer juram que não vão contar nada pra mãe sobre

Isso e

Eles desejam que

Eles vão

Cair mortos

De cara no chão

Na hora

Se

Eles

Contarem

E vão apodrecer pra sempre.

Huckleberry estava repleto de admiração diante da facilidade de Tom para escrever, e da sublimidade de sua linguagem.”

“– Eu conheço essa voz, é Bull Harbison.(*)

(*) Nota do Autor: Se o Senhor Harbison tivesse um escravo chamado Bull, ele diria simplesmente dele como Bull do Harbison, mas um filho ou cachorro era um nome próprio e completo, nada mais, nada menos que Bull Harbison.

– Ué, isso é bom. Tom, eu estava morrendo de medo. Eu podia apostar que era um cachorro vadio!

O cachorro voltou a uivar. Os corações dos garotos pareciam querer parar novamente.

– Não, esse não é Bull Harbinson! – sussurrou Huckleberry. – …Tom?!

Tom, tremendo de pavor, sucumbium e fitou a rachadura. Seu sussuro ira quase inaudível:

– Ai, Huck, é um cachorro vadio!

– Rápido, Tom, rápido! Quem ele quer?

– Huck, acho que ele quer nós dois. A gente tá junto!

– Ué, Tom, acho que agora tamos fudidos. Eu acho que eu sei muito bem pr’onde tô indo! Eu fui muito malvado.

– Merda! Tudo isso é por ficar matando aula e fazer tudo que as pessoas boas falavam não faz isso, não faz!. Eu podia ser bom, como o Sid, se eu tivesse tentado. Mas não, eu não ia tentar ser, é óbvio. Mas se por um milagre eu escapar… Eu juro, eu juro que vou virar uma pedra na missa de domingo!”

Tom não chegou a chorar, mas fungou.

– Você mau!! – Huckleberry começou a fungar também. – Vamo’ entrar de acordo, Tom Sawyer, você é fichinha, um nabo do que eu sou! Não passa nem raspando! Seu pior lado é melhor que meu lado mais bom! Ai, Jesus, Jesus, Jesusinho… Se eu tivesse metade das suas chances…

Tom engasgou e disse:

– Olha, Hucky, olha! Ele ficou des costas pra gente!

Hucky de fato olhou, e não sem estar prenho de alegria!

– Pelo pajé! Ele tá des costas! Ele ‘tav’assim?

– ‘Tava, mas eu ‘tava tão tonto que não pensei. Isso é uma peça… o tinhoso faz enigma… Agora quem você acha que ele tá atrás?

O uivo parou. Tom tapou as orelhas.”

“– Fala, Tom… Dizem que um cachorro vadio veio uivando perto da casa do Johnny Miller, lá pra meia-noite, umas duas semanas atrás! E um noitibó pousou no corrimão e começou a cantar, nessa mesma noite! E ninguém morreu por lá até hoje!

– Ora, eu sabia dessa. E suponho que não morreu. Gracie Miller não caiu na cozinha e se queimou feio no fogo, logo no próximo sábado?

– Sim, sim, mas ela não morreu. E pior, ela tá melhorando da queimadura.

– ‘Tá tudo bem, mas você espera e verá. Ela tá marcada pra ir, tão finada quanto o Muff Potter! É o que os pretos dizem, e eles sabem mais dessas coisas, Huck!

Então eles se separaram, sem deixar, cada qual, de cogitar.”

“Ele chorou, pediu perdão, prometeu se endireitar de novo e de novo, depois disse que podia ir embora, sentindo que vencera na argumentação, mas não de modo perfeito: estava com um mínimo de confiança.

A verdade é que ele saiu de lá tão miserável que nem teve vontade de se vingar de Sid. Era debalde, portanto, que Sid tinha empreendido a fuga pelo portão traseiro. Ele se arrastou absolutamente arrasado até a escola, e recebeu o costumeiro açoite, com Joe Harper, por matar aula no dia anterior. Mas sua mente não estava no castigo em momento algum. Na verdade, seu coração: ele tinha coisas mais pesadas que suportar. Nenhuma dessas bagatelas lhe suscetibilizava as veias.”

DÉCIMO PRIMEIRO CAPÍTULO

“Não era nem meio-dia e a vila inteira já estava eletrizada com as péssimas notícias. Ninguém precisava de nenhum telegrama doutra parte. Não, não havia telegramas ainda na vila! Mas a estória foi de pé de ouvido em pé de ouvido, de bípede para bípede, como costumava ser. De grupo em grupo, de casa em casa, com pouco menos do que a velocidade miraculosa dos cabos e feixes elétricos. O diretor declarou que após as doze seria feriado. Seria muito estranho que o não fizesse.

Uma faca suja foi encontrada perto do cadáver, e testemunhas declararam reconhecê-la como pertencendo a Muff Potter (…) também foi espalhado por aí que a cidade foi saqueada por esse ‘assassino’ (o povo nunca é devagar quando o assunto é eleger evidências e chegar a vereditos definitivos), porém ele não pôde ser encontrado.”

“Toda a cidade estava em procissão ao cemitério. Tom não sentia mais seu coração pesado, e se juntou à procissão, e não porque ele preferiria mil vezes estar em qualquer outro lugar, mas porque uma fascinação indescritível e assustadora o puxava.”

“Sid disse:

– Tom, você se mexe e fala tanto no seu sono que não consigo dormir metade do tempo.

Tom ficou pálido e baixou os olhos.

– É um mau sinal – atalhou tia Polly, com severidade. – O que é que você tem na cabeça, Tom?

– Nada. Nada qu’eu saiba. – E no entanto a mão do garoto tremeu a ponto de derramar o café.

– E você fala cada coisa! – Sid continuou. – De madrugada você disse: É sangue, é sangue, é o que é!… Você não parou de repetir isso. E você disse também: Pára de me atormentar, eu vou contar! Contar o quê? O que é que você vai contar?

Tudo dançava diante de Tom. Não tinha como adivinhar o que iria acontecer mas, por sorte, tia Polly deixou de ligar muito para o estado de Tom e sem saber ela foi um tranqüilizante para ele. Indagou:

– Xi! É esse maldito assassinato… Eu mesma sonho com isso toda noite. Às vezes até sonho que sou eu a assassina.

Mary disse que ela se sentia do mesmo jeito, ficou muito afetada. Sid pareceu satisfeito. O fato é que Tom se afastou de todas as testemunhas de sua sofreguidão o mais rápido que pôde. Depois disso ele ainda reclamaria de dor de dente uma semana inteira. Toda noite ele amarraria um lenço em sua mandíbula. Vai saber se Sid não estava à espreita do corpo adormecido de Tom! E é o que ele fazia, e ele ainda removia a bandagem e ficava a escutar os murmúrios de Tom, captando cada sílaba discernível. Ele fazia de modo que quando Tom acordava não podia suspeitar de que a bandagem fôra desamarrada e amarrada de novo. Mas o pesar e a intranqüilidade notívaga de Tom foram reduzindo a cada dia e a estória da dor de dente já não convencia mais ninguém, nem fazia sentido para ele, e foi deixada de lado.”

DÉCIMO SEGUNDO CAPÍTULO

“Ele não queria mais saber de guerra, nem de ser pirata.”

“Ela acreditava em tudo que se publicava nesses jornais sobre “medicina”, e comprava qualquer teoria frenológica. A ignorância solene daquelas páginas era seu oxigênio. Toda esse besteirol sobre ventilação, e como dever-se-ia ir para a cama, e como acordar melhor, o que comer, o que beber, quanto se exercitar, qual postura mental conservar durante o dia, que roupa vestir, tudo era palavra sagrada para ela. Ainda assim, ela era incapaz de observar que todas as recomendações do número atual não faziam senão contradizer todas as indicações do número anterior. Ela era tão simples de coração e confiada como o dia era longo; a vítima perfeita. Ela reunia seus periódicos medicinais de charlatania e seus remédios-engodo e, armada para a guerra, cavalgava seu cavalo de batalha espectral, com ‘o inferno atrás’. Mas o que ela não podia suspeitar é que estava longe de ser um anjo que curava e o bálsamo de Gileade reencarnado, verdadeira bênção da vizinhança.”

“Tom, de forma anti-natural, foi ficando mais e mais melancólico, lívido, deprimido, enfim. Ela acrescentava banhos quentes, banhos sentado, banhos de ducha, e até imersões. O garoto continuava tão lúgubre quanto um ataúde. Ela começou a receitar, junto com tudo que continha água na higiene, farinha de aveia fina à dieta do garoto, sem falar em bandagens em pontos ‘vitais’ das articulações. Para ela, era como calcular quantos miligramas ou mililitros de algo iam para a panela – o garoto era sua cobaia de placebos que ninguém sabia placebos.”

“– Eu nunca vi nada igual. O que pode ter feito esse gato ficar assim?

– Eu sei lá, tia Polly. Gatos gostam de pregar peças em humanos.”

“– Pois então, senhor, por que raios você faria uma coisa dessas com uma pobre criatura incapaz de se defender, pode-se saber?

– Foi por pena – porque ele não tem nenhuma tia.

– Não tem nenhuma tia! – seu paspalho. O que é que tem a ver isso?

– Pra caramba! Porque se ele tivesse uma ela é que queimaria ele! Ela ia fritar as tripas dele com a mesma maldade dm homem!”

“Tom chegou à escola com tempo de sobra. Aliás, foi logo notado que esse acontecimento extraordinário vinha se repetindo todos os dias. E agora ele ficava ali perto do portão do parquinho em vez de jogando com seus camaradas. Ele estava doente, ele dizia, e parecia estar.”

DÉCIMO TERCEIRO CAPÍTULO

“Joe opinava que podia-se viver como ermitão, nos recessos profundos da caverna mais remota; e daí que se morresse em poucos anos de frio, fome, solidão? Depois de ouvir Tom, porém, ele percebeu que havia vantagens conspícuas numa vida dedicada ao crime, então consentiu em se tornar pirata.”

“Quem seriam as vítimas de suas piratarias ainda não era um problema na cabeça dos garotos. Foram atrás de Huckleberry Finn, que aderiu de pronto, porque para ele tudo era indiferente. Eles se separaram, combinando de se reencontrar na margem do rio duas milhas acima da vila, na melhor hora – meia-noite.”

“– Quem é?

– Tom Sawyer, o Sombrio Vingador da Marinha Espanhola. Digam seus nomes.

– Huck Finn, o Mão-Rubra, e Joe Harper, o Terror dos Mares.

Tom é que havia concebido esses títulos, das estórias de pirata que conhecia.

– Tá bom. Hey! Dêem a contrasenha.

Dois ásperos sussurros entregaram as mesmas sílabas malditas simultaneamente, ecoando na noite escura:

– San-gue!”

“O Sombrio Vingador seguia imóvel, de braços cruzados, “pensando pela última vez” nas cenas de sua felicidade pregressa, e também seus sofrimentos recentes, e desejando que “ela” pudesse vê-lo agora, longe, em alto-mar, encarando o perigo e a morte de coração aberto, dirigindo-se à destruição com um sorriso cruel nos lábios.”

“Aproximadamente às duas da madrugada a jangada ancorou na barreira 200 metros acima da cabeça da ilha, e ela ficou a balançar de um lado pro outro até a toda a carga fosse desembarcada.”

“– A verdade é que um pirata não faz nada, Joe, quando ele está em terra. Mas um ermitão fica rezando toda hora, e nunca se diverte, é um solitário.

– É, é assim mesmo – disse Joe. – mas eu nunca pensei a sério sobre isso, sabe? Eu preferia mesmo é ser pirata, agora que sei como é.

– A verdade é que as pessoas não falam dos ermitões, hoje, igual falavam. Mas um pirata… um pirata é sempre respeitado! E um ermitão tem que dormir nos lugares mais duros, e pôr andrajos e cinzas na cabeça, e ficar parado na chuva e—

– Mas pra que colocar andrajos e cinzas na cabeça? – perguntou de repente Huck.

– Eu sei-lá! Mas eles têm que fazer isso! Ermitões têm que fazer essas coisas. Não dá pra ser ermitão e não fazer essas coisas.

– A merda que eu ia fazer! – respondeu Huck.

– Ué, o que você ia fazer?

– Eu sei-lá! Mas eu não ia fazer essa porra!

– Mas Huck, você ia ter que fazer. Como você ia se safar?

– Uai, só não ia agüentar. Sairia pro mundo, fugiria.

– Fugir! Ora, você ia ser um bom dum ermitão de araque! Uma desgraça dos ermitões!”

“Mas os outros garotos lhe disseram que as roupas boas viriam logo, assim que começassem a saquear. Fizeram-no entender que sua roupa de maltrapilho já eram o bastante pra começar, se bem que piratas mais ricos já se lançavam aos mares com o vestuário adequado.”

“Eles começaram a pressentir que fizeram mal em fugir assim. Logo pensaram na carne roubada, e a tortura de verdade começou. Eles começaram a lembrar de quantas maçãs e guloseimas já não tinham roubado antes. Mas veja, a consciência e a memória não se alimentam sem a comida real.”

“Eles então concordaram que enquanto continuassem no ramo o negócio da pirataria não seria manchado pelo do roubo. Aí sim a consciência deu uma trégua, e esses curiosamente inconsistentes piratas conseguiram cair no sono dos justos.”

DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO

“‘Besourinha, besourinha, voe logo para casa, sua casa está em chamas, seus filhos sozinhos’, e então a besouro-fêmea estendeu as asas e saiu voando, o que em nada não surpreendeu o garoto”

“Eles não sabiam que quão mais rápido um peixe de água fresca é assado após a pesca melhor fica. E também não pensaram muito sobre como dormir ao relento, passar o dia em atividades silvícolas, banhos de rio e tudo o mais agiam como excelentes temperos para qualquer comida.”

“Mesmo Finn, o Mão-Rubra, já sonhava com o alpendre de sua casa e sua coleção de tambores vazios. Mas cada qual se envergonhava de sua fraqueza, e ninguém era valente o bastante para emitir o que pensava.”

“Subitamente uma aura de heroísmo os revestia. Um tremendo triunfo. Estavam perdidos. Estavam sendo lamentados no vilarejo. Corações se rompiam por causa deles, ou da ausência deles. Lágrimas jorravam, denunciando culpas reprimidas perante esses pobres garotos finalmente aparecendo à luz do dia, desvelando arrependimentos e remorso. E o melhor de tudo: não podia haver outro assunto na cidade inteira, e os outros garotos sentiriam inveja, tanto quanto uma notoriedade tão macabra pudesse ser invejada. Tudo isso estava ótimo. Valia a pena ser pirata, afinal.”

DÉCIMO QUINTO CAPÍTULO

“– Sid! – Tom sentiu o olhar da velha sobre si, mesmo que não pudesse vê-la. – Nenhuma palavra contra o meu Tom, agora que ele se foi! Deus vai tomar conta dele – jamais se preocupe com essas coisas, senhor! Ah, senhora Harper, eu não sei como fazer isso passar! Eu não consigo fazer passar! Ele era tão querido pra mim, mesmo atormentando meu coração e quase botando meus bofes pra fora!

– O Senhor dá e o Senhor tira – Abençoado seja o nome do Senhor! Mas é muito duro – Ah, como é duro! No último sábado meu Joe estourou uma bombinha bem debaixo do meu nariz e eu dei-lhe um bofetão que deixou ele no chão. Se eu soubesse que logo mais… Ah, se eu pudesse voltar no tempo eu teria dado um abraço no meu Joe e dado as bênçãos pelo que ele fez!”

DÉCIMO SEXTO CAPÍTULO

“Uma dificuldade se apresentava: índios hostis não podiam entrar em guerra sem primeiro fazer as pazes, e isso não era concebível sem fumar um cachimbo da paz. Não havia nenhum outro processo do qual eles tivessem ouvido falar. Dois dos selvagens quase desejaram em voz alta naquele momento não ter deixado de ser piratas. Mas, as coisas como eram, não havia outro jeito. Fingindo estar à vontade como melhor podiam, providenciaram o cachimbo e passaram de mão em mão, cada qual dando sua baforada, na forma estabelecida.

E finalmente os garotos estavam gratos de terem se tornado selvagens, porque tinham ganho algo: podiam dar umas baforadas sem ter de passar o tempo procurando uma faca perdida. Não estavam fora de si o bastante para se sentirem aporrinhados de verdade. Não queriam jogar essa oportunidade única fora por falta de esforço. Não, eles praticaram cautelosamente, depois da refeição, com êxito razoável, e passaram uma tarde esplêndida. Sentiam-se mais orgulhosos e contentes em suas novas posições do que se estivessem de fato no escalpo e na pele das Seis Nações.¹”

¹ As tribos nativas norte-americanas Mohawks, Oneidas, Onandagas, Cayugas, Senecas (todos somados eram os iroqueses) e os Tuscaroras, inimigos daqueles.

DÉCIMO SÉTIMO CAPÍTULO

“Houve então uma disputa para determinar quem vira os meninos mortos por último, e cada um puxava a lúgubre façanha para si, e fornecia até provas, mais ou menos adulterada pela testemunha. E quando finalmente ficou estabelecido quem afinal viu os meninos mortos por último, e quem foi o último a trocar palavras com eles, os partidos eleitos ganharam uma espécie de aura, e foram objeto da estupefação e inveja de todo o resto. Um pobre rapaz, sem muito de que se gabar, disse com orgulho se lembrar de que ‘Tom Sawyer me deu uma sova certa vez’.

Mas essa tentativa de ter uma recordação venerável foi por água abaixo. Maioria dos garotos da vila podia dizer o mesmo, o que nivelava a distinção.”

“Um hino enternecedor foi cantado, e assim dizia a letra: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’.

À medida que o serviço funerário prosseguiu, o pároco, pintando uma tal figura e uma tal imagem dos garotas perdidos, dessas promessas abortadas, da rareza de cada alma do bando, passou a acreditar na própria imagem que construía e foi abatido pelo remorso de, durante suas vidas, não ter-lhes dado o devido crédito, tendo olhos apenas para seus pecados e falhas. O ministro relatou ainda uma anedota para quase cada garoto da comitiva, que demonstrava suas naturezas doces e generosas, e para as pessoas se tornou mais fácil enxergar quão nobres e edificantes eram genuinamente tais episódios, mas a memória de que no passado tais momentos tivessem se assemelhado a velhacarias e torpezas das grandes só tornava o presente mais amargo e difícil de conciliar. A congregação se sensibilizava mais e mais pela vida das pobres criaturas, que antes só recebiam desconfiança e o jugo do chicote. As carpideiras não foram portanto as únicas a chorar no enterro. Mesmo o pastor não se conteve e se desmanchou sobre o púlpito.

Houve um farfalhar na galeria, não notado por ninguém. Um momento depois a porta da igreja rangeu, o ministro ergueu seus olhos úmidos para enxergar por sobre o lenço e pôs-se transfixo! Primeiro um par de olhos, depois dois, depois mais, seguiram o gesto do ministro. Como que fundida num só organismo, a congregação ergueu-se e fitou três garotos mortos caminhando pela nave, Tom na frente, Joe a seguir, Huck por último, todos em absolutos farrapos, mas Huck pior que os outros dois! Eles tinham se escondido na galeria abandonada durante todo o sermão!

Tia Polly, Mary e os Harpers se jogaram para abraçar seus restaurados ao reino dos vivos, cobriram-nos de beijos e deram as graças aos céus, enquanto o pobre Huck seguia cabisbaixo e pouco à vontade, sem saber o que fazer ou onde se esconder de tantos olhares perscrutantes.”

“– Tia Polly, não é justo. Alguém tem de estar feliz por ver o Huck.

– E tem mesmo. Eu estou feliz por ver ele, pobre coisa órfã!

E a atenção amorosa que a tia Polly prestou a Huck foi justamente a única coisa capaz de deixar o menino ainda mais embaraçado do que já estava.

De repente o ministro gritou com todo o ímpeto de sua voz:

– Louvai a Deus por todas as bênçãos que Ele derrama – cantai! – e ponde todos os vossos corações nisto!”

“Tom Sawyer o Pirata olhou ao redor entre todos os garotos cheios de inveja e confessou diante de seu coração que esse era o momento de sua vida que lhe dava mais orgulho.”

“Tom recebeu mais abraços e beijos aquele dia – baseado nos humores de tia Polly – do que em todo o ano anterior. E ele tinha dificuldade em saber se o que eles mais expressavam era agradecimento ao bom Deus ou afeição pelo pequeno.”

DÉCIMO OITAVO CAPÍTULO

“Esse era o grande segredo de Tom – o plano para regressar ao lar com seus irmãos-piratas e assistir seus próprios funerais.”

“Tia Polly e Mary foram muito amáveis com Tom, e muito atentas a suas necessidades. Havia uma quantidade infreqüente de conversa. No decurso de uma delas tia Polly disse:

– Sabe, não digo que não tenha sido uma ótima piada, Tom, deixar todo mundo sofrendo bas’camente uma semana pra vocês garotos ficarem no bem-bom. Mas é uma pena que você pudesse ter o coração tão duro a ponto de fazer essa piada justo comigo. Se você podia vir num tronco para ver seu funeral, creio que podia ter vindo me ver só para me dar uma pista de que não estava morto de verdade.

– É, você podia, Tom – disse Mary – e eu acho que você teria se tivesse pensado nisso.

– Teria, Tom? – perguntou tia Polly, sua face reluzindo melancolicamente – Teria, se tivesse pensado nisso?

– Eu… não sei. Teria estragado tudo.

– Tom, eu esperava que você me amasse desse tanto. – respondeu tia Polly num tom enlutado que desconcertou o garoto – Já seria algo se você se importasse o bastante para pensar a respeito, mesmo que não fizesse.”

– Sid teria pensado. E aliás Sid teria pensado e vindo fazer. Tom, você vai olhar pra trás um dia, quando for muito tarde, e vai querer ter se importado um pouquinho mais comigo, quando não custava absolutamente nada!

– Não é nada de mais. Um gato seria capaz de sonhar com alguém. Mas é melhor que nada, eu acho. Com o que você sonhou?

– Quarta-feira à noite sonhei que você estava sentada ali do lado da cama, e Sid sentado perto da caixa de lenha, e Mary perto dele.

– Aconteceu isso mesmo. Acontece sempre. Fico feliz que seu sonho tenha se preocupado em nos mostrar como somos de verdade.

– Sonhei também que a mãe do Joe Harper estava aqui.

– Ué, ela tava aqui! Você sonhou algo mais?

– Ah, muita coisa. Mas já esqueci quase tudo agora.

– Tente se lembrar; não consegue?

– De algum jeito acho que o vento – o vento soprou a – a

– Tente com mais ímpeto, Tom! O vento realmente soprou alguma coisa. Vamos!

Tom apertou os dedos em sua testa por um ansioso minuto e então pronunciou:

– Lembrei! Lembrei! O vento apagou a vela!

– Misericórdia de nós! Continue, Tom, continue!

– E se não me engano nesse momento você falou: “Ué, eu acho que aquela porta—”

– Prossiga, Tom!

– Deixa eu pensar um pouco. Só um momento. Ah sim, você disse que acreditava que a porta estava aberta.

– Assim como estava sentada aqui, eu fiz isso! Não fiz, Mary? Continue!

– E depois… e depois… Não tem como ter certeza, mas era como se você mandasse o Sid conferir e… e…

– E então, e então?!? O que eu fiz o Sid fazer, Tom? O quê, o quê?

– Você fez ele… você… Ah, você mandou ele fechar a porta!

– Pela nossa terra santa! Eu nunca ouvi uma coisa assim em toda a minha vida! Não me diga que não existe nada nos sonhos… Sereny Harper tem que saber disso antes que eu seja uma hora mais velha. Quero só ver ela desmerecer esse sonho com aquele papinho anti-superstição. Que mais, Tom?

– Ah, tudo tá mais claro como o dia agora. Depois você disse que eu não era ruim, só muito malcriado e bicho-do-mato, e de modo algum mais responsável que… que… eu acho que você disse que um potro ou coisa assim.

– E foi isso mesmo! Deus é o maior! Continue, Tom!

– E depois você começou a chorar.

– E foi isso mesmo. Foi isso mesmo que eu fiz. Não a primeira vez. E depois…

– Depois a senhora Harper também começou a chorar e disse que o Joe era igual, e desejou que ela não tivesse chicoteado ele por pegar o creme que ela mesma tinha vomitado…

– Tom! O períspirito estava sobre você! Você estava profetizando – é o que você estava fazendo! Ó terra bendita do Senhor, continue, continue, Tom!

– Então o Sid disse… disse…

– Eu acho que eu não falei nada, não – interpolou Sid.

– Sim, você disse, Sid – atalhou Mary.

– Aquietem suas cabeças e deixem o Tom falar. O que foi que ele disse, Tom?

– Ele disse – eu acho que ele disse que esperava que eu ‘tivesse melhor pr’onde eu tinha ido, mas que se eu tivesse sido melhor algumas vezes…

– É isso, você escutou isso?!? Foram essas mesmas as suas palavras!

– E você calou a boca dele de modo ríspido.

– Eu calei sim! Acho que foi um anjo que me auxiliou. Tinha um anjo lá, nalgum lugar!

– E a senhora Harper contou do Joe assustando ela com uma bombinha, e você falou de Pedro e do calmante…

– Tão genuíno quanto eu estar viva!

– E acho que depois falaram sobre drenar o rio pra procurar a gente, e sobre o funeral ser domingo, e depois você e irmã Harper mais velha se abraçaram e choraram, e elas foram embora.

– Aconteceu assim mesmo! Assim tintim por tintim, tão certo como eu estar sentada aqui com essas pernas! Tom, você não podia contar com mais precisura nem que ‘tivesse aqui na hora! E depois o quê? Desembucha, Tom!

– Acho que você rezou pra mim – e eu podia ver você e ouvir cada palavra que você disse. Você foi pra cama, e eu fiquei com tanta pena que escrevi num pedaço de casca de sicômoro “Não morremos… A gente só deu um tempo sendo piratas”. E deixei na mesa do lado da vela. E depois você parecia tão em paz dormindo… acho que eu fui e me inclinei e te dei um beijo nos lábios.

– Você fez isso, Tom? Fez isso? Eu te desculpo por tudo por esse gesto! E ela prendeu o garoto num abraço tão apertado que fê-lo se sentir o pior dos vilões.

– Muito bonito, Tom, mesmo sendo só um sonho – Sid, soliloquando, deixou-se ouvir.

“Que herói não tinha se tornado Tom! E ele não andava mais saltitando e empinando o nariz, como antes, mas numa postura digna, não sem molejo, como a de um pirata que sabe que é alvo das atenções. Ele tentava não transparecer que reparava nos olhares ou escutava os comentários que despertava ao passar, mas eles eram como manjares para Tom. Os garotos mais novos que ele se apinhavam em seus tornozelos, orgulhosos por estarem por perto e por serem tolerados por Tom tanto quanto alguém se junta à bateria à cabeça duma procissão ou sobe ao elefante que capitaneia a caravana à cidade. Garotos da sua idade tentavam fingir que ele nunca esteve ausente da vila, mas a verdade é que estavam corroídos de inveja. Dariam tudo pela mesma pele bronzeada de Tom, ou sua reluzente notoriedade súbita. E Tom agradecia o fato de ter tantos puxa-sacos, não desejando o fim do espetáculo, que ele achava inclusive mais divertido que a chegada de um circo.

“Nessas circunstâncias, seria estranho que o silêncio de Joe e Tom perdurasse por mais tempo. E então eles cederam e começaram a desabafar e aumentar suas histórias. Foi o acme da glória.

Tom decidiu que estava oficialmente em condições de declarar a independência em relação a Becky Thatcher agora. Bastava-lhe a glória não-amorosa. Agora tão distinguido por suas façanhas, quem sabe ela é que não se arrastasse atrás dele desejando ‘fazer as pazes’. Que ela tentasse, pois ele bancaria o perfeito indiferente. E chegou o dia em que ela apareceu em seu campo de visão. Tom fingiu que não a viu. Ele se moveu e se juntou a um grupo de garotas e garotos, puxando conversa. E ele percebeu que ela tentava capturar sua atenção, com o rosto vermelho e se movendo com graça e alegria para trás e para diante, o olhar nunca parado. Mas ela queria dar a impressão que na verdade estava atrás de outros garotos, ou sempre ocupada com alguém, para despertar-lhe ciúmes. E constantemente ela gargalhava alto para demonstrar que não estava carente de nada. Tom não era tolo e percebeu que ela sempre agia do modo mais eufórico bem perto dele, o que era suspeito. Toda a vaidade viciada de Tom se alimentava dessa atitude de Becky. Portanto, a tática da garota ia mal, e Tom só aumentava seu distanciamento e presunção. Becky se deu conta eventualmente e acabou desistindo. Ela notou que Tom se aproximara de Amy Lawrence mais que de qualquer outra pessoa em particular. Ela não conseguiu conter o desconforto. Mesmo tentando sair de cena, o fato era que seus pés tinham-na fincado no chão, e ela se sentia imobilizada. Ela disse a uma garota, praticamente às costas de Tom, com vivacidade simulada:

– Ora, Mary Austin! Marota, por que não apareceu no domingo?

– Mas eu vim; você não me viu?

– Ora, de modo algum. Você veio mesmo? Onde você sentou?

– Na sala da senhora Peters, como sempre. Inclusive, eu te vi.

– Você me viu? Ora, que engraçado, porque não te notei. Eu queria te falar do piquenique.

– Ah, que legal! Quem vai dar?

– Minha mãe vai dar um piquenique.”

– Ai, maravilha, espero que ela deixe eu participar!

– Vai sim! O piquenique é pra mim mesmo. Ela vai deixar qualquer um que eu queira, e quero que você apareça.

– Muito obrigada pela gentileza. E quando vai ser?

– Hm, acho que perto do período de férias.

– Vai ser muito divertido! Você vai chamar todos os garotos e garotas?

– Sim, todo mundo que é meu amigo – ou que queira ser. – Então ela olhou em direção de Tom, furtivamente, mas continuou falando com Amy Laurence sobre a terrível tempestade na ilha e como um relâmpago deixou o grande sicômoro em pedaços, caindo a um metro dele.

– Ei, posso ir? – disse Grace Miller.

– Sim.

– E eu? – essa foi Sally Rogers.

– Sim.

– Eu também? – Susy Harper dessa vez. – Com o Joe?

– Podem.

E essa cena continuou, cheio de bater de palmas, até que todo o grupo tinha, indivíduo após indivíduo pedido sua permissão, exceto Tom e Amy. Tom se virou e afastou com cálculo, ainda conversando, puxando Amy consigo. Os lábios de Becky tremeram e seus olhos umedeceram.”

“Os ciúmes borbulharam no sangue de Tom. Ele começou a se odiar por jogar fora a chance de reconciliação que Becky lhe oferecera.”

“ela sabia que estava ganhando a guerra, e estava contente por vê-lo sofrer enquanto ela mesma sofria.”

– Qualquer outro garoto! – Tom pensou, rangendo os dentes. – Qualquer outro da cidade, menos aquele espertinho de Saint Louis que acha que se veste como um dândi e que é aristocracia! Muito bem, eu te dei uma sova a primeira vez que você pisou nessa cidade, senhor, e vou te dar outra sova! Espere pelo seu! Só espere! Eu só vou—

E ele acompanhou a ameaça mental pelos gestos físicos de espancar um garoto invisível.

“Becky continuou seu teatro com Alfred, mas como os minutos fossem passando e um Tom amargurado e mordido pelos ciúmes não apareceu sua vitória parecia agora um céu feio e cinzento, e ela foi perdendo o interesse. Ela foi ficando sisuda e distraída, logo depois melancólica. Duas ou três vezes ela focou a audição ao ouvir passos, mas eram falsos alarmes. Tom não veio. Ela por fim se arrependeu de levar sua provocação tão longe.”

DÉCIMO NONO CAPÍTULO

“– Auntie, I know now it was mean, but I didn’t mean to be mean. I didn’t, honest. And besides, I didn’t come over here to laugh at you that night.

– What did you come for, then?

– It was to tell you not to be uneasy about us, because we hadn’t got drowned.”

VIGÉSIMO CAPÍTULO

“– What a curious kind of a fool a girl is! Never been licked in school! Shucks! What’s a licking! That’s just like a girl – they’re so thin-skinned and chicken-hearted. Well, of course I ain’t going to tell old Dobbins on this little fool, because there’s other ways of getting even on her, that ain’t so mean; but what of it? Old Dobbins will ask who it was tore his book. (…) Girls’ faces always tell on them. They ain’t got any backbone. She’ll get licked. Well, it’s a kind of a tight place for Becky Thatcher, because there ain’t any way out of it.”

VIGÉSIMO PRIMEIRO CAPÍTULO

“There is no school in all our land where the young ladies do not feel obliged to close their compositions with a sermon; and you will find that the sermon of the most frivolous and the least religious girl in the school is always the longest and the most relentlessly pious. But enough of this. Homely truth is unpalatable.”

VIGÉSIMO SEGUNDO CAPÍTULO

“to promise not to do a thing is the surest way in the world to make a body want to go and do that very thing. Tom soon found himself tormented with a desire to drink and swear”

“The dreadful secret of the murder was a chronic misery. It was a very cancer for permanency and pain.

Then came the measles. [catapora ou sarampo?]

During 2 long weeks Tom lay a prisoner, dead to the world and its happenings. He was very ill, he was interested in nothing. When he got upon his feet at last and moved feebly downtown, a melancholy change had come over everything and every creature. There had been a ‘revival’, and everybody had ‘got religion’, not only the adults, but even the boys and girls. Tom went about, hoping against hope for the sight of one blessed sinful face, but disappointment crossed him everywhere. He found Joe Harper studying a Testament, and turned sadly away from the depressing spectacle. He sought Ben Rogers, and found him visiting the poor with a basket of tracts. He hunted up Jim Hollis, who called his attention to the precious blessing of his late measles as a warning. Every boy he encountered added another ton to his depression; and when, in desperation, he flew for refuge at last to the bosom of Huckleberry Finn and was received with a Scriptural quotation, his heart broke and he crept home and to bed realizing that he alone of all the town was lost, forever and forever.

And that night there came on a terrific storm, with driving rain, awful claps of thunder and blinding sheets of lightning. He covered his head with the bedclothes and waited in a horror of suspense for his doom; for he had not the shadow of a doubt that all this hubbub was about him. He believed he had taxed the forbearance of the powers above to the extremity of endurance and that this was the result. It might have seemed to him a waste of pomp and ammunition to kill a bug with a battery of artillery, but there seemed nothing incongruous about the getting up such an expensive thunderstorm as this to knock the turf from under an insect like himself.

By and by the tempest spent itself and died without accomplishing its object. The boy’s first impulse was to be grateful, and reform. His second was to wait – for there might not be any more storms.”

“When he got abroad at last he was hardly grateful that he had been spared, remembering how lonely was his estate, how companionless and forlorn he was. He drifted listlessly down the street and found Jim Hollis acting as judge in a juvenile court that was trying a cat for murder, in the presence of her victim, a bird.”

VIGÉSIMO TERCEIRO CAPÍTULO

“he did not see how he could be suspected of knowing anything about the murder, but still he could not be comfortable in the midst of this gossip. It kept him in a cold shiver all the time. He took Huck to a lonely place to have a talk with him. It would be some relief to unseal his tongue for a little while; to divide his burden of distress with another sufferer.”

“– Why, Tom Sawyer, we wouldn’t be alive 2 days if that got found out. You know that.

(…) After a pause:

– Huck, they couldn’t anybody get you to tell, could they?

– Get me to tell? Why, if I wanted that halfbreed [mestiço] devil to drownd me they could get me to tell. They ain’t no different way.”

“– You’ve been mighty good to me, boys – better’n anybody else in this town. And I don’t forget it, I don’t. Often I says to myself, says I, ‘I used to mend all the boys’ kites and things, and show ‘em where the good fishin’ places was, and befriend ‘em what I could, and now they’ve all forgot old Muff when he’s in trouble; but Tom don’t, and Huck don’t – they don’t forget him, says I, ‘and I don’t forget them.’ Well, boys, I done an awful thing – drunk and crazy at the time – that’s the only way I account for it – and now I got to swing for it, and it’s right. Right, and best, too, I reckon – hope so, anyway. Well, we won’t talk about that. I don’t want to make you feel bad; you’ve befriended me. But what I want to say, is, don’t you ever get drunk – then you won’t ever get here. Stand a litter furder west – so – that’s it; it’s a prime comfort to see faces that’s friendly when a body’s in such a muck of trouble, and there don’t none come here but yourn.”

“Tom went home miserable, and his dreams that night were full of horrors. The next day and the day after, he hung about the courtroom, drawn by an almost irresistible impulse to go in, but forcing himself to stay out. Huck was having the same experience.”

“Counsel for Potter declined to question him. The faces of the audience began to betray annoyance. Did this attorney mean to throw away his client’s life without an effort?”

“The perplexity and dissatisfaction of the house expressed itself in murmurs and provoked a reproof from the bench. Counsel for the prosecution now said:

– By the oaths of citizens whose simple word is above suspicion, we have fastened this awful crime, beyond all possibility of question, upon the unhappy prisoner at the bar. We rest our case here.”

“-Your honor, in our remarks at the opening of this trial, we foreshadowed our purpose to prove that our client did this fearful deed while under the influence of a blind and irresponsible delirium produced by drink. We have changed our mind. We shall not offer that plea. [Then to the clerk:] Call Thomas Sawyer!

A puzzled amazement awoke in every face in the house, not even excepting Potter’s. Every eye fastened itself with wondering interest upon Tom as he rose and took his place upon the stand. The boy looked wild enough, for he was badly scared. The oath was administered.

– Thomas Sawyer, where were you on the 17th of June, about the hour of midnight?

– Tom glanced at Injun Joe’s [Joe o Mameluco] iron face and his tongue failed him. The audience listened breathless, but the words refused to come. After a few moments, however, the boy got a little of his strength back, and managed to put enough of it into his voice to make part of the house hear:

– In the graveyard!

– A little bit louder, please. Don’t be afraid. You were—

– In the graveyard.

A contemptuous smile flitted across Injun Joe’s face.

– Were you anywhere near Horse Williams’ grave?

– Yes, sir.

– Speak up – just a trifle louder. How near were you?

– Near as I am to you.

– Were you hidden, or not?

– I was hid.

– Where?

– Behind the elms that’s on the edge of the grave.

Injue Joe gave a barely perceptible start.

– Any one with you?

– Yes, sir. I went there with—

– Wait – wait a moment. Never mind mentioning your companion’s name. We will produce him at the proper time. Did you carry anything there with you?

Tom hesitated and looked confused.

– Speak out, my boy – don’t be diffident. The truth is always respectable. What did you take there?

– Only a—a—dead cat.

There was a ripple of mirth, which the court checked.

– We will produce the skeleton of that cat. Now, my boy, tell us everything that occurred – tell it in your own way – don’t skip anything, and don’t be afraid.

“The strain upon pent emotion reached its climax when the boy said:

– …and as the doctor fetched the board around and Muff Potter fell, Injun Joe jumped with the knife and—

Crash! Quick as lightning the halfbreed sprang for a window, tore his way through all opposers, and was gone!

VIGÉSIMO QUARTO CAPÍTULO

SIDESHOW BOB’S PRECEDENT!

“Tom was a glittering hero once more – the pet of the old, the envy of the young. His name even went into immortal print, for the village paper magnified him. There were some that believed he would be President, yet, if he escaped hanging.

As usual, the fickle, unreasoning world took Muff Potter to its bosom and fondled him as lavishly as it had abused him before. But that sort of conduct is to the world’s credit; therefore it is not well to find fault with it.

Tom’s days were days of splendor and exultation to him, but his nights were seasons of horror. Injun Joe infested all his dreams, and always with doom in his eye.”

“Huck’s confidence in the human race was wellnigh obliterated.”

“He felt sure he never could draw a safe breath again until that man was dead and he had seen the corpse.

Rewards had been offered, the country had been scoured, but no Injun Joe was found. One of those omniscient and awe-inspiring marvels, a detective, came up from St. Louis, moused around, shook his head, looked wise, and made that sort of astounding success which members of that craft usually achieve. That is to say, he ‘found a clew’. But you can’t hang a ‘clew’ for murder, and so after that detective had got through and gone home, Tom felt just as insecure as he was before.”

VIGÉSIMO QUINTO CAPÍTULO

“There comes a time in every rightly-constructed boy’s life when he has a raging desire to go somewhere and dig for hidden treasures.”

“Huck was always willing to take a hand in any enterprise that offered entertainment and required no capital, for he had a troublesome superabundance of that sort of time which is not money. ‘Where’ll we dig?” said Huck:

– Oh, most anywhere.

– Why, is it hid all around?

– No, indeed it ain’t. It’s hid in mighty particular places, Huck – sometimes on islands, sometimes in rotten chests under the end of a limb of an old dead tree, just where the shadow falls at midnight; but mostly under the floor in ha’nted houses.

– Who hides it?

– Why, robbers, of course – who’d you reckon? Sunday-school sup’rintendents?

– (…) I wouldn’t hide it; I’d spend it and have a good time.

– So would I. But robbers don’t do that way. They always hide it and leave it there.

– Don’t they come after it any more?

– No, they think they will, but they generally forget the marks, or else they die. Anyway, it lays there a long time and gets rusty; and by and by somebody finds an old yellow paper that tells how to find the marks – a paper that’s got to be ciphered over about a week because it’s mostly signs and hy’roglyphics.

– Hyro–which?

– Hy’rogryplhics – pictures and things, you know, that don’t seem to mean anything.

– Have you got one of them papers, Tom?

– No.

– Well then, how you going to find the marks?

– I don’t want any marks. They always bury it under a ha’nted house or on an island, or under a dead tree that’s got one limb sticking out. Well, we’ve tried Jackson’s Island a little, and we can try it again some time; and there’s the old ha’nted house up the Still-House branch, and there’s lots of dead-limb trees – dead loads of ‘em.

– Is it under all of them?

– How you talk! No!

– Then how you going to know which one to go for?

– Go for all of ‘em!

– Why, Tom, it’ll take all summer.

– Well, what of that? Suppose you find a brass pot with 100 dollars in it, all rusty and gray, or rotten chest full of di’monds. How’s that?

Huck’s eyes glowed.

– That’s bully. Plenty bully enough for me. Just you gimme the hundred dollars and I don’t want no di’monds.”

“– Richard? What’s his other name?

– He didn’t have any other name. Kings don’t have any but a given name.

– No?

– But they don’t.

– Well, if they like it, Tom, all right; but I don’t want to be a king and have only just a given name, like a nigger. But say—where you going to dig first?”

“– Well, I’ll have pie and a glass of soda every day, and I’ll go to every circus that comes along. I bet I’ll have a gay time.

– Well, ain’t you going to save any of it?

– Save it? What for?

– Why, so as to have something to live on, by and by.

– Oh, that ain’t any use. Pap would come back to thish-yer town some day and get his claws on it if I didn’t hurry up, and I tell you he’d clean it out pretty quick. What you going to do with yourn, Tom?

– I’m going to buy a new drum, and a sure’nough sword, and a red necktie and a bull pup, and get married.

– Married!

– That’s it.

– Tom, you – why, you ain’t in your right mind.

– Wait – you’ll see.

– Well, that’s the foolishest thing you could do. Look at pap and my mother. Fight! Why, they used to fight all the time. I remember, mighty well.

– That ain’t anything. The girl I’m going to marry won’t fight.

– Tom, I reckon they’re all alike. They’ll all comb a body. Now you better think ‘bout this awhile. I tell you you better. What’s the name of the gal?

– It ain’t a gal at all – it’s a girl. [Não é uma garota – é uma moça.]

– It’s all the same, I reckon; some says gal, some says girl – both’s right, like enough. Anyway, what’s her name, Tom?

– I’ll tell you some time – not now.

– All right – that’ll do. Only if you get married I’ll be more lonesomer than ever.

– No you won’t. You’ll come and live with me. Now stir out of this and we’ll go to digging.

They worked and sweated for half an hour. No result. They tolled another half-hour. Still no result. Huck said:

– Do they Always bury it as deep as this?

– Sometimes – not always. Not generally. I reckon we haven’t got the right place.”

“– It is mighty curious, Huck. I don’t understand it. Sometimes witches interfere. I reckon maybe that’s what’s the trouble now.

– Shucks! [Putz?] Witches ain’t got no power in the daytime.

– Well, that’s so. I didn’t think of that. Oh, I know what the matter is! What a blamed lot of fools we are! You got to find out where the shadow of the limb falls at midnight, and that’s where you dig!

– Then consound it, we’ve fooled away all this work for nothing. Now hang it all, we got to come back in the night. It’s an awful long way. Can you get out?

– I bet I will. We’ve got to do it tonight, too, because if somebody sees these holes they’ll know in a minute what’s here and they’ll go for it.

– Well, I’ll come around and maow tonight.

– All right. Let’s hide the tools in the bushes.

The boys were there that night, about the appointed time. They sat in the shadow waiting. It was a lonely place, and an hour made solemn by old traditions. Spirits whispered in the rustling leaves, ghosts lurked in the murky nooks, the deep baying of a hound floated up out of the distance, an owl answered with his sepulchral note. The boys were subdued by these solemnities, and talked little. By and by they judged that 12 had come (…) Their interest grew stronger, and their industry kept pace with it. The hole deepened and still deepened, but every time their hearts jumped to hear the pick strike upon something, they only suffered a new disappointment. It was only a stone or a chunk.”

“– (…) I feel as if something’s behind me all the time; and I’m afeard to turn around, becuz maybe there’s others in front a-waiting a chance. I been creeping all over, ever since I got here.

– Well, I’ve been pretty much so, too, Huck. They most always put in a dead man when they bury a treasure under a tree, to look out for it.

– Lordy!

– Yes, they do. I’ve always heard that.

– Tom, I don’t like to fool around much where there’s dead people. A body’s bound to get into trouble with ‘em, sure.

– (…) S’pose this one here was to stick his skull out and say something!

– Don’t Tom! It’s awful.;

– Well, it jus tis. Huck, I don’t feel comfortable a bit.

– Say, Tom, let’s give this place up, and try somewhere else.

– All right, I reckon we better.”

“– Well, all right. We’ll tackle the ha’nted house if you say so – but I reckon it’s talking chances.”

VIGÉSIMO SEXTO CAPÍTULO

“– Lookyhere, Tom, do you know what day it is?

Tom mentally ran over the days of the week, and then quickly lifted his eyes with a startled look in them—

– My! I never once thought of it, Huck!

– Well, I didn’t neither, but all at once it popped onto me that it was Friday.

– Blame it, a body can’t be too careful, Huck. We might ‘a’ got into an awful scrape, tackling such a thing on a Friday.

– Might! Better say we would! There’s some lucky days, maybe, but Friday ain’t.

– Any fool knows that. I don’t reckon you was the first that found it out, Huck.

– Well, I never said I was, did I? And Friday ain’t all, neither. I hada rotten bad dream last night – dreamt about rats.

– No! Sure sign of trouble. Did they fight?

– No.

– Well, that’s good, Huck. When they don’t fight it’s only a sign that there’s trouble around, you know. All we got to do is to look mighty sharp and keep out of it. We’ll drop this thing for today, and play. Do you know Robin Hood, Huck?

– No. Who’s Robin Hood?

– Why, he was one of the greatest men that was ever in England – and the best. He was a robber.

– Cracky, I wisht I was. Who did he rob?

– Only sheriffs and bishops and rich people and kings, and such like. But he never bothered the poor. He loved ‘em. He Always divided up with ‘em perfectly square.

– Well, he must ‘a’ been a brick.

– I bet you he was, Huck. Oh, he was the noblest man that ever was. They ain’t any such men now, I can tell you. He could lick any man in England, with one hand tied behind him”

“On Saturday, shortly after noon, the boys were at the dead tree again. They had a smoke and a chat in the shade, and then dug a little in their last hole, not with great hope, but merely because Tom said there were so many cases where people had given up a treasure after getting down within 6 inches of it, and then somebody else had come along and turned it up with a single thrust of a shovel. The thing failed this time, however, so the boys shouldered their tools and went away feeling that they had not trifled with fortune, but had fulfilled all the requirements that belong to the business of treasure-hunting.”

“– They’ve stopped… No – coming… Here they are. Don’t whisper another word, Huck. My goodness, I wish I was out of this!

Two men entered. Each boy said to himself: ‘There’s the old deaf and dumb Spaniard that’s been about town once or twice lately – never saw t’other man before.’”

“– Dangerous!, grunted the ‘deaf and dumb’ Spaniard – to the vast surprise of the boys. ‘Milksop!’

This voice made the boys gasp and quake. It was Injun Joe’s! There was silence for some time. Then Joe said:

– What’s any more dangerous than that job up yonder – but nothing’s come of it.”

“– Look here, lad – you go back up the river where you belong. Wait there till you hear from me. I’ll take the chances on dropping into this town just once more, for a look. We’ll do that ‘dangerous’ job after I’ve spied around a little and think things look well for it. Then for Texas! We’ll leg it together!

This was satisfactory. Both men presently fell to yawning, and Injun Joe said:

– I’m dead for sleep! It’s your turn to watch.”

“The boys drew a long, grateful breath. Tom whispered:

– Now’s our chance – come!

Huck said:

– I can’t – I’d die if they was to wake.

Tom urged – Huck held back. At last Tom rose slowly and softly, and started alone. But the first step he made wrung such a hideous creak from the crazy floor that he sank down almost dead with fright. He never made a second attempt. The boys lay there counting the dragging moments till it seemed to them that time must be done and eternity growing gray; and then they were grateful to note that at last the sun was setting.

Now one snore ceased. Injun Joe sat up, stared around – smiled grimly upon his comrade, whose head was drooping upon his knees – stirred him up with his foot and said:

– Here! You’re a watchman, ain’t you! All right, though – nothing’s happened.”

“– I don’t know – leave it here as we’ve always done, I reckon. No use to take it away till we start south. 650 silver’s something to carry.”

“accidents might happen; ‘tain’t in such a very good place; we’ll just regularly bury it deep.”

“The boys forgot all their fears, all their miseries in an instant. With gloating eyes they watched every movement. Luck! – the splendor of it was beyond all imagination! 600 dollars was Money enough to make half a dozen boys rich! Here was treasure-hunting under the happiest auspices – there would not be any bothersome uncertainty as to where to dig. They nudged each other every moment – eloquent nudges and easily understood, for they simply meant – ‘Oh, but ain’t you glad now we’re here!’

Joe’s knife struck upon something.

– Hello!, said he.

– What is it?, said his comrade.

– Half-rotten plank – no, it’s a box, I believe. Here – bear a hand and we’ll see what it’s here for. Never mind, I’ve broken a hole.

He reached his hand in and drew it out—

– Man, it’s money!

The two men examined the handful of coins. They were gold. The boys above were as excited as themselves, and as delighted.

Joe’s comrade said:

– We’ll make quick work of this. There’s an old rusty pick over amongst the weeds in the corner the other side of the fireplace – I saw it a minute ago.

He ran and brought the boys’ pick and shovel. Injun Joe took the pick, looked it over critically, shook his head, muttered something to himself, and then began to use it.”

“– Pard, there’s thousands of dollars here, said Injun Joe.”

“– Now you won’t need to do that job.”

“-You don’t know me. Least you don’t know all about that thing. ‘Tain’t robbery altogether – it’s revenge! – And a wicked light flamed in his eyes. – I’ll need your help in it. When it’s finished, then Texas. Go home to your Nance and your kids, and stand by till you hear from me.

– Well – if you say so; what’ll we do with this – bury it again?

– Yes. [Ravishing delight overhead.] No! by the great Sachem, no! [Profound distress overhead.] I’d nearly forgot. That pick had fresh earth on it! [The boys were sick with terror in a moment.] What business has a pick and a shovel here? What business with fresh earth on them? Who brought them here – and where are they gone? Have you heard anybody? – seen anybody? What! bury it again and leave them to come and see the ground disturbed? Not exactly – not exactly. We’ll take it to my den.

– Why, of course! Might have thought of that before. You mean Number One?

– No – Number Two – under the cross. The other place is bad – too common.

– All right. It’s nearly dark enough to start.

Injue Joe got up and went about from window to window cautiously peeping out. Presently he said:

– Who could have brought those tools here? Do you reckon they can be upstairs?

The boys’ breath forsook them. Injue Joe put his hand on his knife, halted a moment, undecided, and then turned toward the stairway. The boys thought of the closet, but their strength was gone. The steps came creaking up the stairs – the intolerable distress of the situation woke the stricken resolution of the lads – they were about to spring for the closet, when there was a crash of rotten timbers and Injun Joe landed on the ground amid the debris of the ruined stairway. He gathered himself up cursing, and his comrade said:

– Now what’s the use of all that? If it’s anybody, and they’re up there, let them stay there – who cares? If they want to jump down, now, and get into trouble, who objects? It will be dark in 15 minutes – and then let them follow us if they want to. I’m willing. In my opinion, whoever hove those things in here caught a sight of us and took us for ghosts or devils or something. I’ll bet they’re running yet.

Joe grumbled awhile, then he agreed with his friend that what daylight was left ought to be economized in getting things ready for leaving. Shortly afterward they slipped out of the house in the deepening twilight, and moved toward the river with their precious box.”

“Follow? Not they. They were contente to reach ground again without broken necks (…) They did not talk much. They were too much absorbed in hating themselves – hating the ill luck that made them take the spade and the pick there. But for that, Injun Joe never would have suspected. He would have hidden the silver with the gold to wait there till his ‘revenge’ was satisfied, and then he would have had the misfortune to find that money turn up missing. Bitter, bitter luck that the tools were ever brought there!”

“Very, very small comfort it was to Tom to be alone in danger! Company would be a palpable improvement, he thought.”

VIGÉSIMO SÉTIMO CAPÍTULO

“the quantity of coin he had seen was too vast to be real.” “he was like all boys of his age and station in life, in that he imagined that all references to ‘hundreds’ and ‘thousands’ were mere fanciful forms of speech, and that no such sums really existed in the world.”

VIGÉSIMO OITAVO CAPÍTULO

“– Yes! He was lying there, sound asleep on the floor, with his old patch on his eye and his arms spread out.

– Lordy, what did you do? Did he wake up?

– No, never budged. Drunk, I reckon. I just grabbed that towel and started!

– I’d never ‘a’ thought of the towel, I bet!

– Well, I would. My aunt would make me mighty sick if I lost it.

– Say, Tom, did you see that box?

– … U didn’t see the cross. I didn’t see anything but a bottle and a tin cup on the floor by Injun Joe (…) Don’t you see, now, what’s the matter with that ha’nted room?

– How?

– Why, it’s ha’nted with whiskey! Maybe all the Temperance Taverns have got a ha’nted room, hey, Huck?”

“– I said I would, Tom, and I will. I’ll ha’ntt that tavern every night for a year! I’ll sleep all day and I’ll stand watch all night.”

“That’s a mighty good nigger, Tom. He

TOM SAWYER .76

—

GLOSSÁRIO INGLÊS

andiron: cão-de-lareira (móvel antigo onde se deixavam as toras de madeira ainda não usadas)

brass: latão

clodding: tolo (arc.)

knob: maçaneta

marble: bola de gude (de vidro), por extensão white marble, já que o mármore é branco.

—

7 de October de 2025, 22:20 0 boosts 0 favoritos

A ORIGEM DAS ESPÉCIES: Sobre a origem das espécies, por meio da seleção natural ou A preservação de raças favorecidas na luta pela vida – Charles Darwin, 1859. Trad. Daniel Moreira Miranda, ed. Jair Lot Vieira & Maíra Lot Vieira Micales, ed., prefácio e notas de Nelio Bizzo, professor da USP e membro da Royal Society of Biology de Londres, doutor especialista nos escritos de Darwin, 1970 (EDIPRO, 2018).

PREFÁCIO

“O editor, John Murray, anunciava para aquela venda de fim de ano o lançamento de um livro muito aguardado, pois revelaria os mistérios que envolviam o desaparecimento de mais de cem tripulantes da expedição mais ousada daquela época. Após numerosas tentativas, finalmente retornara à Inglaterra o capitão McClintock(*) com seu relato dos achados dos dois navios desaparecidos anos antes no rigoroso inverno do Ártico. Seu relato era dramático, com revelações inéditas de seus grandes achados, como o diário de bordo de Sir Franklin,(**) o experiente comandante da missão coberta de mistério, revelando o dia exato e as circunstâncias de sua morte. Já havia sido noticiado o achado de um esqueleto e dois corpos congelados de membros da desesperada tripulação, ainda vestindo roupas europeias. O livro traria até mesmo as figuras com a estampa do tecido das mortalhas encontradas.

(*) Francis Leopold McClintock (1819-1907), membro da Marinha Britânica, serviu em diversas expedições para localizar o paradeiro da expedição desaparecida no Ártico, entre 1848 e 1859, quando retornou em setembro de 1859, recebendo em seguida o título de Sir.

(**) Sir John Franklin (1786-1847), oficial da Marinha Britânica, que se notabilizou pela exploração dos mares polares, pioneiro no mapeamento da Antártida e do Ártico.”

“O livro do capitão McClintock, preparado em apenas sessenta dias, um prazo incrível até para os editores da atualidade, permitia entender em detalhes o que ocorrera com a tripulação dos dois navios encalhados no mar congelado, caminhando até caírem, um a um, mortos por desnutrição, escorbuto e frio. § Essa história é tão dramática e comovente que incentivou buscas até nos nossos dias. Em setembro de 2016, foram encontrados, em surpreendente bom estado de conservação, os destroços do naufrágio do HMS Erebus e do HMS Terror, imponentes navios de mais de trezentas toneladas, sepultados no fundo mar do Ártico. Eles eram, já em seu tempo, exemplares da supremacia tecnológica britânica e até mesmo orgulho nacional, pois haviam sido originalmente construídos para missões de guerra, o que explicava sua robusta estrutura interna. Equipados com potentes obuses, capazes de lançar bombas mortíferas a grande distância, possuíam estrutura adaptada para resistir tanto ao ricochete do disparo de grandes petardos como a choques com icebergs, inaugurando a linha de navios quebra-gelo. De fato, o HMS Terror servira na Guerra de 1812,(*) com seus dois obuses e dez canhões bombardeando o Forte McHenry, em Baltimore, em setembro de 1814, uma batalha que inspirou a letra do atual hino dos Estados Unidos da América.(**)

(*) A Guerra de 1812 é vista, pelos britânicos, como parte das guerras napoleônicas, mas, como envolveu batalhas pela posse de terras americanas, é tida também como a Segunda Guerra de Independência na perspectiva estadunidense.

(**) [Kitsch] A letra do hino nacional dos Estados Unidos foi baseada no poema A defesa do Forte McHenry e fala dessa batalha na qual ‘bombas eram lançadas ao ar’, algumas delas provenientes desse vaso de guerra, posteriormente reformado para exploração polar.”¹

¹ Até o parnasianismo do Ouviram do Ipiranga… é melhor do que isso!

“O sucesso imediato desse aguardado livro certamente impulsionou as vendas de outros da mesma fornada, entre eles A origem das espécies.(*)

(*) O título original, On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life, foi simplificado para The Origin of Species na 6ª edição pelo próprio Darwin, versão que se tornou famosa e prevaleceu até os dias de hoje. Por conta do reconhecimento público do título reduzido esta edição o adotou, embora traga, na verdade, uma tradução do texto da 1ª edição da obra, livre das diversas alterações posteriores. (N. E.)”

“Se depois de centenas ou milhares de anos já era possível reconhecer em chácaras e sítios formas muito diferentes de galinhas, pombos, couves, rabanetes e ervilhas, o que não seria possível encontrar em florestas cheias de formas de vida após milhões de anos? Essa era a essência do pensamento darwiniano, apresentado de maneira cristalina na primeira edição, aqui traduzida, permitindo explicar a diversidade biológica de nosso planeta em bases científicas modernas. § Era bem conhecida a epopeia de Darwin em sua viagem ao mundo a bordo do HMS Beagle. Porém é interessante ressaltar que A origem das espécies se valia de achados também de expedições anteriores daqueles navios misteriosamente desaparecidos, dos quais tanto se fala desde 1859. Em uma delas, Joseph Hooker(*) realizou uma série de achados botânicos e paleontológicos a bordo do HMS Erebus que o notabilizou desde a juventude e que aparecia agora, pelas mãos do amigo Darwin, como evidências robustas da teoria da evolução. O ineditismo de plantas e animais das terras do hemisfério Sul teve papel central na argumentação de Darwin, que se valia das opiniões de especialistas, como o amigo botânico, ao lado do jovem Huxley,(**) zoólogo que logo se juntaria na defesa do evolucionismo.

(*) Joseph Dalton Hooker (1817-1911), embora médico de formação, foi um dos maiores botânicos ingleses de sua época, tendo participado da expedição do HMS Erebus ao polo sul em 1839 com o capitão James Ross, em sua busca pioneira pelo polo sul magnético.

(**) Thomas Henry Huxley (1825-1895), zoólogo inglês que se notabilizou pela árdua defesa das ideias evolucionistas logo após a primeira edição de A origem das espécies, ganhando a alcunha de ‘o buldogue de Darwin’.”

“Na época de Darwin não havia indícios suficientes para crer que todos os continentes tivessem formado um bloco único em passado remoto. Hoje há consenso entre os geólogos [de] que os continentes são jangadas da crosta terrestre a se deslocar lentamente. Essa teoria teria poupado muito trabalho mental a Darwin, e não apenas nos capítulos finais.”

“Darwin então recorreu à supremacia imperial britânica, estendendo o poder de enfrentar e derrotar semelhantes sem piedade, fossem aborígenes neozelandeses, mamíferos marsupiais ou ervas sul-americanas.” “Se as gramíneas eram iguais na Inglaterra e nos pampas argentinos, isso seria explicado não pelos arquétipos ideais, mas pela superioridade das estirpes britânicas.” Grande tolinho.

(*) “Richard Owen (1804-1892), zoólogo inglês de grande destaque em sua época, realizou estudos de anatomia comparada e estabeleceu o conceito de homologia, muito utilizado por Darwin, atual até nossos dias. (…) Owen e Louis

Agassiz, ao lado de seu predecessor Georges Cuvier, despontaram como ícones da oposição ao pensamento evolucionista darwiniano.”

(*) “Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), naturalista suíço, foi aluno de Cuvier e do famoso Humboldt, antes de imigrar para os Estados Unidos e trabalhar na criação do Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard, em 1859, tendo sido seu primeiro diretor, até sua morte.”

(*) “Georges Cuvier (1769-1832), famoso anatomista e político francês, ficou famoso por estabelecer métodos de estudos de esqueletos de vertebrados e atestar que os fósseis não eram restos de um Dilúvio Universal, mas de animais extintos, embora se mantivesse como ferrenho opositor das ideias evolucionistas de seu tempo.”

“Para Darwin, que já tinha respeitável estatura científica nos domínios geológicos naquela década, a ideia ajudava a entender muito da distribuição geográfica atual, em especial a similaridade das biotas da Europa e América do Norte. Mamutes, lobos e ursos, pinheiros e ciprestes, poderiam ter transitado livremente por gélidas, porém sólidas, pontes, contudo derretidas pelo clima mais quente que se seguiu.”

“A descoberta de fósseis de eqüinos na América, onde o cavalo moderno foi reintroduzido pelos colonizadores europeus e se reproduziu sem limites, era explicada esplendidamente pela lógica da mudança climática global recente, que levara à extinção uma forma que agora se mostrava plenamente adaptada àquele mesmo ambiente em época anterior ao domínio do gelo.” A cavalo dado se olham os dentes colonizadores.

“Hoje, a ideia de mudanças climáticas globais nos parece óbvia, mas, em escala planetária, ela teve em Charles Darwin um de seus primeiros defensores. Mal sabia ele que esta ideia seria, até nossos dias, crucial para compreender a chegada do ser humano ao continente americano. Não por acaso, até hoje os que se recusam a aceitar a evolução biológica também rejeitam a ideia de mudanças climáticas globais antropogênicas.” Embora por motivos diferentes (dinheiro no segundo caso, já que o criacionismo não interfere em nada com o presente imediato – a não ser que sirva de consolo na cabeça do culpado: se essa espécie se extinguir, foi porque Deus quis; e ele poderá recriá-la, já que é onipotente).

“Estava bem assentada em Aristóteles a ideia de equilíbrio estático na Natureza, vista como eterna e imutável, na qual não há carência nem desperdício, que nada falta ou excede ao necessário, que cada característica tem uma finalidade específica a explicar sua existência, e que nada ocorre por acaso.”

“Como explicar o desaparecimento de espécies em um mundo em perfeito equilíbrio estático? O desaparecimento de uma única forma, de um único pilar, faria vir ao chão os andaimes da Criação!”

A DERROCADA DO UTILITARISMO: “Qual a utilidade das asas do ganso das ilhas Malvinas se ele é incapaz de voar? Qual a utilidade dos olhos do tuco-tuco sul-americano, frequentemente infeccionados, se ele vive na escuridão dos túneis escavados debaixo dos campos gaúchos? O que faz um pica-pau endêmico nessas paragens se ali não há árvores?”

E no entanto… utilidades do pensamento de Jeremy Bentham: “defendeu o bem-estar social como dever do Estado, direitos iguais para homens e mulheres, direito ao divórcio e, ao mesmo tempo, fim de diversas práticas sociais, como escravidão, pena de morte, castigos físicos; além disso, propôs a descriminalização da homossexualidade. Ele estendia aos animais o direito à felicidade, evitando sofrimentos, e foi um dos primeiros defensores dos direitos animais”! Só faltou a coletivização dos meios de produção.

“Justamente ao discutir as ideias do utilitarismo britânico, que via nas variações dos seres vivos formas de evitar a monotonia aos olhos humanos, ele percebeu que poderia explicar as variações entre as raças humanas, ‘tão fortemente marcadas’ por meio da ‘seleção sexual de um tipo particular’. Quando escreveu essas palavras, ele tinha em sua escrivaninha os diversos volumes do livro de seu estimado James Cowles Prichard, que discutia as raças humanas, utilizando inclusive pranchas coloridas, outra sofisticação gráfica para a época.” “Como fazer em poucos parágrafos o que havia tomado a Prichard vários volumes? Assim, apenas em seu livro de 1871, Descent of Man, [intraduzido?] Darwin pôde discutir ‘com muitos detalhes’ seus pontos de vista sobre a ação da seleção sexual nas raças humanas.”

“Desde o primeiro ensaio, escrito em 1844, Darwin destaca o ritual de acasalamento do dancing rock-thrush. Seu nome foi posteriormente retificado para rock-thrush of Guiana em todas as edições desta obra, na seção sobre seleção sexual. O nome aparece traduzido para o português como ‘melro’ ou ‘tordo-das-rochas’ desde a edição portuguesa de 1913. A confusão se justifica, vez que o nome popular rock thrush, na Inglaterra de meados do século XIX, designava a espécie Monticola saxatilis, descrita desde os tempos de Lineu. No entanto, nenhuma espécie dessa família (Muscicapidae) ocorre na Guiana nem em lugar algum do Novo Mundo. Ademais, os melros não praticam ritual de acasalamento incomum ou ‘dançante’… Na verdade, Darwin se equivocou, pois se referia ao Guianan cock-of-the-rock, ou seja, o galo-da-serra-do-pará (Rupicola rupicola). Essa bela ave da fauna brasileira, após mais de um século de injustiça e anonimato, ganhou justa homenagem na quarta capa desta edição.”

 

“O capítulo final de A origem das espécies – absolutamente inspirado, profético e grandioso – manteve a mesma estrutura da primeira à última edição. Ele é testemunha não apenas da solidez do argumento evolucionista como também da necessidade de alcançar o grande público por meio de algumas concessões. Darwin escreve não somente para os especialistas, mas também (e ao mesmo tempo) para o grande público, o que, aliás, explica a alternância de estilos literários ao longo do livro.(*)

(*) E a profusão de notas inseridas por este prefaciador e revisor técnico ao longo dos capítulos, pelo que se escusa antecipadamente.” Eu te entendo, amiguinho, eu te entendo. Sou viciado em interpolar textos – às vezes os meus próprios textos!

Com um siso e um apêndice, e munido de mais nada, o homem matou o rei-na-barriga que tinha em si desde os primórdios.

Alerta: “projeto inteligente” é um sinônimo utilizado pelos pérfidos pastores ou biólogos criacionistas para “criacionismo”, então… ¡date cuenta!

“Ao ler esta primeira edição, fica o leitor preservado dessas titubeantes inserções, das quais o autor dirá ter se arrependido, em carta endereçada a Hooker em 1863, sem, contudo, produzir qualquer efeito no texto das edições seguintes.”

Toda nota é técnica dentro de uma nota técnica.

(*) “Cuvier tinha realizado a dissecação de uma mulher sul-africana (Sarah ‘Saartjie’ Baartman) em seu controvertido ‘Observations sur le cadavre d’une femme connue à Paris et à Londres sous le nom de Vénus hottentote’ (1817).” WIKIA: “Saartjie (que se pronuncia «Sarqui») pode ser considerado equivalente ao português «Sarinha». (…) Mediante um pagamento extra, os seus exibidores permitiam aos visitantes tocar-lhe as nádegas, cujo invulgar volume (esteatopigia) parecia estranho e perturbador ao europeu da época. § A sua exibição em Londres causou escândalo, tendo a sociedade filantrópica African Association criticado a iniciativa e lançado um processo em tribunal. Durante o seu depoimento, Sarah Baartman declarou, em neerlandês, não se considerar vítima de coação e ser seu perfeito entendimento que lhe cabia metade da receita das exibições. O tribunal decidiu arquivar o caso, mas o acórdão não foi satisfatório, devido a contradições com outras investigações, pelo que a continuação do espetáculo em Londres tornou-se impossível.” Um inglês tenderá a ser justo, exceto numa ocasião: quando dinheiro está em jogo. + “No fim de 1814, Saartjie foi vendida a um francês, domador de animais, que viu nela uma oportunidade de enriquecimento fácil. Considerando que a adquirira como prostituta ou escrava, o novo dono mantinha-a em condições muito mais duras. Foi exposta em Paris, tendo de aceitar exibir-se completamente nua, o que contrariava o seu voto de jamais exibir os órgãos genitais. As celebrações da reentronização de Napoleão Bonaparte no início de 1815 incluíram festas noturnas. A exposição manteve-se aberta durante toda a noite e os muitos visitantes bêbados divertiram-se apalpando o corpo da indefesa mulher. § O anatomista francês Georges Cuvier e outros naturalistas visitaram-na, tendo sido objeto de numerosas ilustrações científicas no Jardin du Roi. O corpo foi totalmente investigado e medido, com registo do tamanho das nádegas, do clitóris, dos lábios e dos mamilos para museus e institutos zoológicos e científicos. Com a nova derrota de Napoleão, o fim do seu governo e a ocupação da França pelas tropas aliadas em junho de 1815, as exposições tornaram-se impossíveis. Saartje foi levada a prostituir-se e tornou-se alcoólatra.” Napoleão exerceu certas influências maléficas em coisas de “somenos” importância que mal poderíamos acreditar… Enfim, repulsivo.

É só o começo! “Após sua morte, o corpo de Baartman foi enviado para o laboratório de George Cuvier, no Museu Nacional de História Natural, para exames. Cuvier queria analisar seus genitais para testar sua teoria de que quanto mais ‘primitivo’ era o mamífero, mais acentuados seriam seus órgãos sexuais e desejo sexual. Baartman recusou-se a ser um experimento, enquanto estava viva. Com a permissão da polícia, Cuvier, que acumulou a maior coleção do mundo de espécimes humanos e animais, realizou uma autópsia no corpo de Baartman. Primeiro, ele fez um molde do corpo, então ele preservou o cérebro e genitais. (…) Cuvier, que conhecera Baartman, observou em sua monografia que o seu objeto de estudo era uma mulher inteligente, com uma memória excelente, especialmente para rostos. Além de sua língua nativa, ela falava neerlandês fluentemente, tinha um inglês razoável e algum conhecimento de francês. Ele descreve os ombros e costas dela como ‘graciosos’, com ‘braços delgados’, mãos e pés como ‘encantadores’ e ‘bonitos’. Ele acrescenta que ela era adepta de berimbau de boca, dançava de acordo com as tradições de seu país e tinha uma personalidade alegre. Apesar disso, ele interpretou seus restos mortais, de acordo com suas teorias sobre evolução racial, como a manifestação de traços semelhantes a macacos.” Um pouco de alívio ao final: “O caso ganhou proeminência mundial só depois de Stephen Jay Gould escrever The Hottentot Venus na década de 1980. Após a vitória do Congresso Nacional Africano na eleição geral na África do Sul em 1994, o presidente Nelson Mandela solicitou formalmente que a França devolvesse os restos mortais. Depois de muita disputa legal e debates na Assembleia Nacional Francesa,¹ o governo francês aceitou o pedido em 6 de março de 2002. Seus restos mortais foram repatriados para sua terra natal, o vale do rio Gamtoos, em 6 de maio de 2002[,] e eles foram enterrados em 9 de agosto de 2002, sobre Vergaderingskop, uma colina na cidade de Hankey, mais de 200 anos depois de seu nascimento. (…) O Centro Saartjie Baartman para mulheres e crianças, um refúgio para sobreviventes de violência doméstica, foi inaugurado na Cidade do Cabo em 1999.”

¹ Debater o quê, cretinos?

“Ele fez previsões testáveis, muitas das quais se comprovaram empiricamente, como a origem da baleia a partir de um mamífero terrestre, em vez do aperfeiçoamento de um réptil marinho, como pensavam muitos.”

Mais sobre Nelio Bezzo: “É pesquisador 1A do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), coordenador científico do Núcleo de Pesquisa em Educação, Divulgação e Epistemologia da Evolução ‘Charles Darwin’, ligado à Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, e do Projeto Temático BIOTA-FAPESP/Educação, que congrega pesquisadores da USP, UFABC, UNIFESP, USCS e do Instituto Butantan.”

INTRODUÇÃO

(*) “Darwin viajou no Beagle como convidado do capitão e tinha de arcar com suas despesas, de alimentação inclusive. Se fosse, de fato, o naturalista de bordo, todo o material coletado pertenceria ao almirantado e Darwin não poderia dele dispor como bem quisesse, como de fato ocorreu. (N.R.T.)” O destino escreve certo por linhas tortas (#chupacriacionismo).

“Espero ser desculpado por entrar em detalhes pessoais, mas eu os ofereço para mostrar que não tomei decisões apressadas. “ Se, p.ex., Fraud esperasse 20 anos para publicar suas “conclusões” teríamos nos livrado de 80% das asneiras que redigiu! Um homem de ciência não se apressa…

(*) “Darwin trabalhava no que ele chamava de Big Species Book (Grande livro das espécies) quando foi surpreendido pela carta recebida de Wallace.”

“Fui particularmente induzido a publicar este resumo, pois o senhor Wallace [Alfred Russel Wallace (1823-1913)], que hoje está estudando a história natural do arquipélago malaio, chegou quase exatamente às mesmas conclusões gerais que as minhas sobre a origem das espécies.” Um dos pares de descobridores simultâneos mais conhecidos.

(*) “Charles Lyell (1797-1875), advogado e geólogo britânico, publicou Principles of Geology em 3 volumes entre 1830 e 1833.” Ao passo que hoje não existem nem meios-advogados nem meios-geólogos, se formos aferir seus dons… até o séc. XIX a polimatia ou semi-polimatia parecia o estado natural para uma certa nata de burgueses, pequeno-burgueses ou aristocratas…

“Ao pensar sobre a origem das espécies, é bastante concebível que um naturalista, refletindo sobre as afinidades mútuas dos seres orgânicos, suas relações embriológicas, suas distribuições geográficas, suas sucessões geológicas e outros fatos semelhantes, possa chegar à conclusão de que cada espécie não tenha sido criada independentemente, mas que tenha descendido, como variação, de outras espécies. No entanto essa conclusão, ainda que bem fundamentada, seria insatisfatória até que pudesse ser demonstrado como as inúmeras espécies que habitam o mundo foram modificadas para que atingissem a perfeição de suas estruturas e coadaptação que tanto inspiram nossa admiração.”

(*) “seiva xilemática das plantas (antigamente, chamada seiva bruta)” Será que meus livros-textos do ensino fundamental já são antigamente?!

O PRIMEIRO NATURALISTA IN VITRO: “No início de minhas observações, me pareceu que o estudo cuidadoso de animais domesticados e plantas cultivadas provavelmente ofereceria a melhor oportunidade para elucidar esse problema obscuro. Não fiquei decepcionado; nesse e em todos os outros casos desconcertantes, percebi invariavelmente que nosso conhecimento sobre a variação por meio da domesticação, mesmo sendo imperfeito, oferecia as melhores e mais seguras pistas.”

Evocando N.: Sobrevivência do mais forte falando em coletividades é um oximoro, uma vez que quanto mais bem-sucedida é uma espécie, mais ela se propaga e, portanto, mais ela está submetida às leis da restrição da população. O gênio, até na natureza, é de vidro. Apenas o medíocre é persistente e perdurável.

“Embora muito ainda permaneça obscuro, e continuará assim por muito tempo, eu, após o estudo mais meticuloso e o julgamento mais imparcial de que sou capaz, não tenho dúvidas de que a posição sustentada pela maioria dos naturalistas – e sustentada também por mim anteriormente –, ou seja, de que cada uma das espécies foi criada independentemente, é falsa.” Dizer textualmente que o homem veio do macaco é, tecnicamente, contradizer Darwin. Mas tem-se de ser algo melhor do que estúpido para percebê-lo. O homem veio da primeira célula procarionte, esta seria a frase mais correta.

1. A VARIAÇÃO NA DOMESTICAÇÃO

“Parece bastante claro que os organismos devem ser expostos às novas condições de vida por várias gerações para que isso cause um nível apreciável de variação; e, assim que o organismo começa a variar, ele geralmente continua a variar por muitas gerações. Não há casos registrados de que o cultivo tenha feito com que uma variedade da espécie deixasse de ser variável. Nossas mais antigas plantas de cultivo, como o trigo, ainda costumam gerar novas variedades: nossos mais antigos animais domesticados ainda podem sofrer um rápido aprimoramento ou modificação.” De certo modo, isso já refuta a ‘seleção natural’: são os animais domésticos, que recebem fartura alimentar e não disputam contra outros pela sua sobrevivência, que são mais mutáveis e heterogêneos, dir-se-ia, superiores.

(*) “Note a insistência de Darwin ao tomar as ’monstruosidades’ como variedades, ou seja, como parte de um estado natural dos seres vivos, o que contrariava a tradição aristotélica, que as via como exceções inexplicáveis, pois incompatíveis com a ideia de perfeição da natureza, ideia ainda muito presente na história natural anglicana da época.”

(*) “Aqui Darwin fala de sua Teoria da Pangênese, ainda sem nomeá-la. Ele fará uma exposição mais detida apenas em 1868, em seu Variations of Animais and Plants under Domestication.”

“mas a principal é a consequência notável que o cativeiro ou o cultivo tem sobre as funções do sistema reprodutivo; este sistema parece ser muito mais sensível do que qualquer outra parte do organismo à ação de qualquer alteração nas condições de vida. Nada é mais fácil do que domar um animal, e poucas coisas são mais difíceis do que fazê-los procriar livremente em cativeiro, e isso nem mesmo, em muitos casos, quando o macho e a fêmea se unem.” Nem para cães e gatos há exceção?

“Quantos animais existem que não se reproduzem, apesar de já viverem há muito tempo em cativeiro não muito rigoroso em sua região nativa! Isso costuma ser atribuído à invalidação dos instintos; mas quantas plantas de cultivo exibem grande vigor e, ainda assim, raramente ou nunca produzem sementes!”

“para mostrar como as leis que determinam a reprodução dos animais em cativeiro são singulares, posso apenas mencionar que os animais carnívoros, mesmo os dos trópicos,[?] cruzam neste país [Inglaterra] de forma bastante livre quando estão em cativeiro, com exceção dos plantígrados, isto é, a família dos ursos; no entanto, as aves carnívoras, com raras exceções, quase nunca põem ovos férteis. O pólen de muitas plantas exóticas é completamente inútil, estando na mesma condição dos mais estéreis híbridos. Quando, por um lado, vemos animais e plantas domesticados, embora muitas vezes fracos e doentes que, ainda assim, reproduzem-se de forma livre em cativeiro; e quando, por outro lado, vemos indivíduos que, embora tenham sido retirados ainda jovens da natureza, são perfeitamente domados, vivendo por muitos anos e saudáveis (dentre os quais eu poderia citar inúmeros casos) e que, apesar disso, possuem seus sistemas reprodutivos tão gravemente afetados por causas não observadas a ponto de não funcionarem, então não devemos nos surpreender quando esses sistemas não funcionam em cativeiro de forma razoavelmente regular e produzem crias que não são perfeitamente semelhantes a seus pais ou a variações próximas a eles.

Dizem que a esterilidade é a ruína da horticultura; mas, sobre este ponto de vista, a variabilidade assenta-se sobre a mesma causa que produz a esterilidade; e a variabilidade é a fonte das melhores produções de um jardim. Devo ainda dizer que alguns organismos procriarão de forma mais livre em condições mais artificiais (por exemplo, o coelho e o furão mantidos em jaulas), mostrando que seu sistema reprodutivo não foi afetado; assim, o mesmo vale para alguns animais e plantas que toleram a domesticação ou o cultivo e sofrerão pequenas variações, talvez não mais do que em seu estado natural.”

(*) “Darwin utiliza a expressão sporting plants entre aspas, demonstrando certa discordância em tomá-las como simples sports of nature, uma maneira de contornar as dificuldades do mundo estático de Aristóteles, mas ainda sem a conotação de mutações em sentido moderno.”

“esses casos mostram que a variação não está necessariamente ligada, como alguns autores acreditam, ao ato de geração.”

“As mudas da mesma fruta e as crias da mesma ninhada são às vezes bastante diferentes entre si, embora tanto as crias quanto os progenitores, conforme observou Muller, tenham sido aparentemente expostos a exatamente as mesmas condições de vida; e isso mostra a pouca importância dos efeitos diretos das condições de vida em comparação com as leis da reprodução, do crescimento e da hereditariedade; (…) No caso de qualquer variação, é bastante difícil decidirmos o quanto devemos atribuí-la à ação direta do calor, da umidade, da luz, da alimentação, etc.”

“Desse ponto de vista, as experiências recentes do senhor Buckman [James Buckman (1816-1884)] com plantas parecem extremamente valiosas.”

“em alguns casos, o aumento de tamanho [ocorre] devido à quantidade de alimentos, a [mudança da] cor devido a certos tipos de alimentos e à luz; e, talvez, a espessura da pelagem [varie] devido ao clima.” O que não ocorre com o homem (que está em seu natural?) – o homem mais se modificou quando estava em cativeiro na própria natureza, na sua era ágrafa!

“Nos animais há um efeito mais acentuado [do hábito]; descobri, por exemplo, que, em relação a todo o esqueleto do pato doméstico, os ossos das asas ficam menos pesados e os ossos das patas ficam mais pesados do que os mesmos ossos do pato selvagem.” Don’t fly, just walk!

“O aumento – grande e herdado – do úbere de vacas e cabras em países onde elas são habitualmente ordenhadas, em comparação com o estado desses órgãos em outros países, é outro exemplo do efeito do uso. Não há um único animal doméstico que não tenha, em alguma região, orelhas caídas; parece algo provável o ponto de vista sugerido por alguns autores de que tal fato ocorre devido ao desuso da musculatura da orelha, pois os animais não se alarmam muito com o perigo.”

“Nas monstruosidades, as correlações entre partes bastante distintas são muito curiosas; e muitos exemplos são oferecidos por Isidore Geoffroy St. Hilaire em sua grande obra sobre o tema.”

“os gatos com olhos azuis são invariavelmente surdos” Refutado.

“Karl von Heusinger (1792-1883), médico alemão.”

“Os cães sem pêlos têm dentes imperfeitos; animais de pelo longo ou áspero estão propensos a ter, como se afirma, chifres longos ou muitos chifres; pombos com pés emplumados têm pele entre os dedos mais longos; pombos com bico curto têm pés pequenos e aqueles com bicos longos têm pés grandes.”

“leis misteriosas da correlação de crescimento”

“Vale a pena estudar os vários tratados publicados sobre algumas de nossas antigas plantas de cultivo, como o jacinto, a batata, até mesmo a dália, etc.; e é realmente surpreendente observar os pontos infindáveis da estrutura e da constituição nos quais as variedades e subvariedades diferem ligeiramente entre si.”

“Quaisquer variações não-hereditárias não são importantes para nós. Mas são quase infinitas a quantidade e a diversidade dos desvios hereditários estruturais, tanto os pequenos quanto os de considerável importância fisiológica. O tratado do doutor Prosper Lucas sobre o assunto, em dois grandes volumes, é o melhor e mais completo material sobre o tema.”

Por sorte, há todo tipo de antepassado nesse mundo, do mais vil ao mais divino (falo do atavismo – não é o tópico da conversação de Darwin neste momento).

“Quando surge um desvio freqüente e verificado no pai e no filho, não podemos afirmar que o desvio ocorreu por uma mesma causa original que atuou em ambos os indivíduos; mas, por outro lado, quando entre os indivíduos aparentemente expostos às mesmas condições verificamos qualquer desvio muito raro devido a uma extraordinária combinação de circunstâncias que surja no ascendente – digamos, apenas uma vez dentre vários milhões de indivíduos – e que reapareça no filho, a mera doutrina das probabilidades quase nos obriga a atribuir sua reaparição à hereditariedade.”

“As leis que regem a hereditariedade são bastante desconhecidas; não sabemos por que a mesma peculiaridade em diferentes indivíduos da mesma espécie e em indivíduos de espécies diferentes é por vezes herdada e por vezes não; por que a criança muitas vezes reverte a certas características de seu avô ou avó ou de outro ancestral mais remoto(*)” Agora sim.

(*) “Aqui aparece a primeira referência ao ‘princípio da reversão’, que explicaria o reaparecimento de uma característica de ancestral próximo ou ‘mais remoto’. Trata-se de assunto doloroso para Darwin, que havia acabado de perder um filho com 2 anos, batizado com seu nome (Charles), com síndrome de Down, vista à época como um tipo de ‘reversão mongólica’. O assunto será aprofundado logo adiante.” Que estultícia britânica.

“Tem pouca importância para nós o fato de que as peculiaridades que aparecem nos machos de nossas criações domésticas sejam freqüentemente transmitidas exclusivamente ou em um grau muito maior apenas aos machos. Uma regra muito mais importante, e que me parece confiável, é que, independentemente do período da vida em que uma peculiaridade apareça pela primeira vez, ela tenderá a surgir na prole em uma idade correspondente, embora às vezes ocorra mais cedo.”

“Mas as doenças hereditárias e alguns outros fatos me fazem acreditar que a regra tem uma extensão mais ampla e que, não havendo qualquer razão aparente para que alguma peculiaridade apareça em uma certa idade específica, ela realmente tenderá a surgir na prole no mesmo período em que apareceu pela primeira vez nos pais. Eu acredito que essa regra é extremamente importante para explicar as leis da embriologia. Essas observações, claro, aplicam-se apenas ao primeiro surgimento da particularidade e não à sua causa primária, que pode ter ocorrido nos óvulos ou no elemento masculino”

“farei referência neste ponto a uma afirmação muitas vezes feita pelos naturalistas, ou seja, que nossas variedades domesticadas, quando se tornam novamente selvagens, gradual mas certamente readquirem as características de seus ancestrais. Portanto, foi argumentado que não se pode projetar deduções com base em raças domésticas para explicar espécies em estado natural. Em vão, me esforcei para descobrir em que fatos decisivos a afirmação acima foi tantas vezes e tão corajosamente feita.” “podemos seguramente concluir que muitas das variedades domésticas mais fortemente distintas não conseguiriam, em nenhuma hipótese, viver em estado selvagem. Em muitos casos, não sabemos como eram seus ancestrais e então não poderíamos dizer se a reversão quase perfeita teria ou não ocorrido.”

“Se conseguíssemos demonstrar que nossas variedades domesticadas manifestaram uma forte tendência para a reversão – ou seja, para perder suas características adquiridas, enquanto as condições são mantidas inalteradas e as variedades são mantidas em um grupo consideravelmente grande, para que o cruzamento livre possa cancelar, por meio da mistura, qualquer pequeno desvio de estrutura –, então, nesse caso, garanto que não poderíamos deduzir nada sobre as espécies com base nas variedades domésticas.”

“Devo acrescentar que, quando em estado natural, as condições de vida são alteradas e provavelmente ocorrem variações e reversões das características, mas a seleção natural, como explicado mais adiante, determina até que ponto as novas características que assim surgem devem ser preservadas.”

“os naturalistas diferem bastante em relação à determinação das características de valor genérico, pois todas essas avaliações são até agora empíricas.”

“Seria muito interessante se pudéssemos esclarecer (…) se (…) o galgo, o bloodhound,(*) o terrier, o spaniel e o buldogue – que, como todos sabemos, propagam sua espécie de forma tão exata – são descendentes de uma única espécie. Tais fatos teriam grande peso para fazer-nos duvidar da imutabilidade das muitas espécies naturais muito afins, como, por exemplo, o caso das muitas raposas que habitam diferentes regiões do mundo. Eu não acredito, como veremos em breve, que todos os nossos cães sejam descendentes de apenas uma espécie selvagem; mas, no caso de algumas outras raças domésticas, existem provas circunstanciais ou até mesmo fortes evidências a favor dessa perspectiva.” Todo puro-sangue é na verdade um vira-lata laureado.

(*) Bloodhound: “cão de santo Humberto”. “Manterei o nome das raças inglesas em sua língua original, exceto o bulldog, que foi dicionarizado como buldogue.”

“Costuma-se supor que o homem optou pela domesticação de animais e plantas que possuíam uma extraordinária tendência inerente para variar e, da mesma forma, para resistir a diferentes climas.” Ele não teria como sabê-lo a priori. “quando um selvagem domesticou um animal pela primeira vez, como ele poderia saber se iriam ocorrer variações nas gerações seguintes, ou se este animal resistiria a outros climas?” Talvez porque nunca houve uma primeira vez. O “selvagem” (figura mítica) não saberia nem que diabos é “clima”!

“Não tenho dúvidas de que se outros animais e plantas, em número igual ao de nossas criações domesticadas e igualmente pertencentes a diversas classes e regiões, fossem tirados de seu estado de natureza e se fosse possível fazer com que eles se reproduzissem por um número igual de gerações sob domesticação, eles iriam variar, em média, tanto quanto têm variado as espécies progenitoras de nossas criações domesticadas atuais.” Exemplo: se pudessem criar um urso polar num freezer gigante. Alegar-se-ia que se o faz em zoológicos de países “temperados” (quase polares), mas não é a mesma coisa.

“O principal argumento invocado por aqueles que acreditam na origem múltipla de nossos animais domésticos é o fato de encontrarmos grande diversidade de raças nos registros mais antigos, especialmente nos monumentos do Egito; e que algumas das raças se assemelham e talvez sejam idênticas às ainda existentes. Mesmo que se descobrisse que isso é mais estrita e geralmente verdadeiro do que me parece ser o caso, o que demonstraria, senão que algumas de nossas raças originaram-se naquele local há 4 ou 5 mil anos? [um piscar de olhos insignificante] Mas as pesquisas do senhor Horner [(1785-1864), geólogo escocês] mostram a possibilidade de que homens suficientemente civilizados possam ter fabricado a cerâmica existente no vale do Nilo há 13 ou 14 mil anos; assim, quem poderá afirmar quanto tempo antes desses períodos antigos já havia selvagens, assim como já existiam na Terra do Fogo ou na Austrália, que possuíam cães semidomesticados no Egito?(*)” Nunca confiar nos capciosos egípcios.

(*) “Darwin está respondendo a réplicas de autoridades eclesiásticas, desafiadas pelos achados da invasão de Napoleão no Egito.” De novo Napoleão!

“…é altamente provável que nossos cães domésticos sejam descendentes de várias espécies selvagens.(*)

(*) Estudos moleculares modernos falharam em elucidar claramente a origem do cão doméstico, mas provavelmente a hipótese de Darwin se mantém válida, havendo indicações de mais de um evento de domesticação no passado, possivelmente há 33 mil anos, sendo que a(s) espécie(s) ancestral(is) teria(m) sido extinta(s).” Der Urhund oder die Urhunde?

“[Já] no que diz respeito aos cavalos, por razões que não posso oferecer aqui, estou mesmo inclinado a acreditar, em oposição a vários autores, que todas as raças descendem de um único grupo selvagem. O senhor Blyth,¹(*) cujo parecer, fruto de seu grande e variado conhecimento, eu devo valorizar mais do que a opinião de qualquer outra pessoa, acredita que todas as raças de galinhas originam-se da ave indiana selvagem comum (Gallus bankiva).(**)”

¹ Doctor Blyth! Será Togashi tão versado e eclético?!

(*) “Edward Blyth (1810-1873), zoólogo inglês, curador do museu da Sociedade Asiática Real de Bengala, em Calcutá, na Índia”

(**) “A nomenclatura moderna para o galo banquiva é Gallus gallus bankiva, uma subespécie do galo vermelho selvagem (Gallus gallus). O galo doméstico (Gallus gallus domesticus) é considerado outra subespécie, que não deriva diretamente do galo banquiva, de acordo com estudos moleculares recentes de DNA mitocondrial, embora tenham parentesco próximo.”

“A doutrina segundo a qual as nossas várias raças domésticas teriam se originado de várias unidades populacionais aborígenes foi levada a um absurdo extremo por alguns autores. Eles acreditam que todas as raças que conseguem se reproduzir de forma correta, mesmo que suas características distintivas sejam extremamente sutis, possuem um protótipo selvagem. Segundo este raciocínio, é preciso que tenha existido pelo menos uma vintena de espécies de gado selvagem, o mesmo número de ovelhas e vários tipos de cabras somente na Europa e outras várias apenas dentro da Grã-Bretanha. Um desses autores acredita que, somente na Grã-Bretanha, existiram onze espécies únicas de ovelhas selvagens! Quando levamos em conta que o país atualmente mal possui um mamífero peculiar, que a França tem apenas alguns diferentes da Alemanha e vice-versa e que o mesmo vale para a Hungria, Espanha, etc., e que, além disso, se notarmos que cada um desses reinos possui diversas raças peculiares de gado, ovelhas, etc., então devemos aceitar que muitas raças domésticas originaram-se na Europa; pois, de onde mais poderiam ter surgido, já que nenhum entre esses vários países conta com um número de espécies peculiares que suporte grupos ancestrais distintos?”

“Quem pode acreditar que animais tão parecidos com o galgo italiano, o bloodhound, o buldogue, o spaniel de Blenheim, (imagem) etc., que são tão diferentes de todos os Canidae selvagens, tenham existido livremente em estado natural?”

“J. Sebright realizou experimentos com esse objetivo específico e fracassou.” (criar deliberadamente novas raças de cães) “A prole do primeiro cruzamento entre duas raças puras é tolerável e, às vezes (como observei entre os pombos), extremamente uniforme, e tudo parece suficientemente simples; mas quando esses mestiços são cruzados uns com os outros por várias gerações, dificilmente teremos dois espécimes iguais e, desse modo, a tarefa se mostra extremamente difícil, ou melhor, totalmente desencorajadora.”

Sobre as raças de pombos domésticos

“Acreditando que é sempre melhor estudar um grupo especial, escolhi, após refletir sobre o assunto, os pombos domésticos. Além de ter mantido todas as raças que consegui comprar ou obter, também fui generosamente agraciado com espécimes empalhadas vindas de várias regiões do mundo, mais especialmente da Índia e da Pérsia, enviadas pelos honoráveis W. Elliot e C. Murray, respectivamente. Muitos tratados sobre pombos foram publicados em diferentes línguas, alguns deles são muito importantes por serem consideravelmente antigos. Associei-me a vários grandiosos criadores e fui aceito em dois clubes londrinos de criadores de pombos.”

(*) “English carrier, em inglês. Os nomes das linhagens de pombos ingleses serão dados em sua língua original, exceto o pombo-correio (carrier) e o pombo-das-rochas (rock pigeon, rock dove), também conhecido como pombo comum, pombo doméstico ou por seu nome binomial Columba livia. (N. T.)”

“short-faced tumbler”

Muitas aves batizam redes sociais. Redes sociais gospel! Uma IA antropomorfizada chamada Paloma para um app de relacionamentos só para crentelhos!… Pare com essas idéias já, laico herege!

Pouter

“O pombo-correio, mais especialmente o macho, também é notável pelo maravilhoso desenvolvimento de uma carúncula em torno da cabeça, e isso é acompanhado por pálpebras muito alongadas, narinas muito grandes e uma abertura ampla do bico.” “O pombo barb é afim do pombo-correio mas, em vez de ter bico muito longo, tem um bico muito curto e muito largo. O pouter tem corpo, asas e pernas muito alongados; seu papo extremamente desenvolvido, que ele infla com orgulho, bem pode causar espanto e até mesmo risos.” “O jacobin tem as penas ao longo da parte dorsal do pescoço tão invertidas a ponto de formarem uma capa, e ele tem, proporcionalmente ao seu tamanho, penas muito alongadas nas asas e na cauda. O trumpeter e o laugher, conforme indicado por seus nomes, proferem sons muito diferentes dos emitidos pelas outras raças. O fantail tem 30 ou até mesmo 40 penas na cauda, em vez de 12 ou 14, o número normal para todos os membros da grande família dos pombos; além disso, essas penas são mantidas abertas e são tão eretas que, em aves bem formadas, a cabeça e a cauda se tocam; a glândula de óleo(*) é bastante atrofiada.

(*) Trata-se da glândula uropigiana, que produz um muco oleoso, espalhado com o bico sobre as penas para impermeabilizá-las. Darwin dedicou especial atenção a órgãos atrofiados, que causavam desconforto aos naturalistas anglicanos da tradição aristotélica.”

“O tamanho e a forma das cavidades torácicas são altamente variáveis; o mesmo vale para o grau de divergência e tamanho relativo dos dois ramos da fúrcula.(*) A largura proporcional da abertura da boca, o comprimento proporcional das pálpebras, do orifício das narinas, da língua (nem sempre em estrita correlação com o comprimento do bico), o tamanho do papo e da parte superior do esôfago; o desenvolvimento e a atrofia da glândula sebácea; o número de penas primárias da asa e da cauda; o comprimento relativo entre as asas, a cauda e o corpo; o comprimento relativo entre pernas e pés; o número de pequenas escamas nos dedos, o desenvolvimento da pele entre os dedos, são todos pontos variáveis da estrutura. O período dentro do qual a plumagem perfeita é adquirida varia, e o mesmo vale para o estado de cobertura da plumagem das aves filhotes ao nascerem. A forma e o tamanho dos ovos variam. A forma do voo difere bastante, o que também ocorre, em algumas linhagens, com a voz e a disposição. Por fim, em determinadas linhagens, machos e fêmeas são levemente diferentes.

(*) Trata-se do osso popularmente conhecido como ‘forquilha’.”

“Mesmo que as diferenças entre as linhagens de pombos sejam grandes, estou totalmente convencido de que a opinião comum dos naturalistas está correta, ou seja: todas elas descendem do pombo-das-rochas (Columba livia)(*)” Vemos que nessa época os naturalistas estavam para os ornitólogos (meros catalogadores) como os filósofos estão para os filólogos.

(*) “Darwin compartilhava a ideia dos criadores de seu tempo, a qual foi confirmada por grande número de estudos posteriores, inclusive recentes. Algumas subespécies da atualidade podem ser linhagens ferais, ou seja, originadas de indivíduos domesticados que passaram a viver livremente e que, com o passar das gerações, manifestam algumas características selvagens.”

“Além disso, ao cruzarmos duas aves pertencentes a duas linhagens distintas, sendo que nenhuma delas é azul nem tem qualquer uma das marcas especificadas acima, a prole mestiça fica repentinamente bastante apta a adquirir essas características; por exemplo, eu cruzei alguns fantails uniformemente brancos com alguns barbs uniformemente pretos e eles produziram aves malhadas de castanho e aves pretas; em seguida, cruzei estas aves novamente. Um dos netos do fantail branco e do barb preto nasceu com uma bela cor azul, com a anca branca, uma dupla faixa preta nas asas e barradas e penas afiladas de branco na cauda, como qualquer outro pombo-das-rochas selvagem!”

“falo em 12 ou 20 gerações pois não conhecemos casos de descendentes que tenham revertido para algum ancestral separado por um número maior de gerações. No caso de uma linhagem que tenha sido cruzada apenas uma vez com uma linhagem distinta, a tendência de reversão para quaisquer características derivadas de tal cruzamento será, naturalmente, cada vez menor, pois em cada nova geração haverá menos sangue alheio; mas quando não houve nenhum cruzamento com uma linhagem distinta e há em ambos os pais a tendência de reversão das características perdidas em alguma geração anterior, então essa tendência (apesar de toda evidência contrária) pode ser transmitida sem alterações para um número indefinido de gerações.”

“Por último, os híbridos ou mestiços de todas as linhagens domésticas de pombos são perfeitamente férteis. Posso afirmar isso com base em minhas próprias observações, propositadamente feitas com as mais diferentes linhagens. Agora, é difícil, talvez impossível, apresentar algum caso de descendentes híbridos e perfeitamente férteis gerados por dois animais claramente distintos.”

“Em quarto lugar, os pombos têm sido acompanhados e cuidados com muita dedicação, bem como amados por muitas pessoas. Eles têm sido domesticados há milhares de anos em várias regiões do mundo; o registro mais antigo relacionado aos pombos pode ser encontrado na quinta dinastia egípcia, por volta de 3000 a.C., como foi dito para mim pelo professor Lepsius;(*) mas o senhor Birch(**) informou-me que os pombos aparecem em um cardápio da dinastia anterior. Nos tempos dos romanos, como ouvimos de Plínio, os pombos atingiam preços altíssimos; ‘além disso, chegaram ao ponto de darem conta do pedigree e da raça dos pombos’.

(*) Karl Richard-Lepsius (1810-1884), arqueólogo alemão.

(**) Samuel Birch (1813-1885), egiptólogo inglês.”

“Há uma circunstância bastante favorável para a produção de linhagens distintas: pombos machos e fêmeas podem, facilmente, formar casais para toda a vida; e, assim, diferentes linhagens podem ser mantidas juntas no mesmo aviário.” Incesto (digamos endogenia, pois o conceito é impróprio para animais, que não estão na esfera ética) e seus males.

“Tratei da provável origem dos pombos domésticos de forma um pouco longa, mas bastante insuficiente; a primeira vez que criei pombos e observei os vários tipos, sabendo bem que as crias mantêm as características dos pais, senti extrema dificuldade em acreditar que eles pudessem ser descendentes de um pai comum, como poderia ocorrer com qualquer naturalista ao chegar a uma conclusão semelhante em relação às muitas espécies de tentilhões ou outros grandes grupos de aves, na natureza. Uma circunstância me impressionou muito: todos os criadores dos vários animais domésticos e os cultivadores de plantas com quem conversei, ou cujos tratados li, estão firmemente convencidos de que as várias linhagens tratadas por cada um deles são descendentes de espécies aborígenes distintas. Pergunte, como eu perguntei, a um célebre criador de gado hereford se o seu gado poderia ser descendente da raça longhorn, e ele rirá de você com desprezo. Nunca conheci um apreciador de pombos, galináceos, patos ou coelhos que não estivesse totalmente convencido de que cada linhagem principal é descendente de uma espécie distinta. Jean Baptiste van Mons (1765-1842) mostra, em seu tratado sobre as pêras e as maçãs, quão grande é sua descrença na possibilidade de que os vários tipos, por exemplo, de maçãs ribston-pippin ou codlin, possam ter procedido das sementes de uma mesma árvore. (…) por conta de seus estudos contínuos e prolongados, eles ficaram fortemente impressionados com as diferenças entre as diversas raças; e embora eles bem saibam que cada raça varia ligeiramente, pois eles ganham seus prêmios ao selecionar essas pequenas diferenças, eles ainda ignoram todos os argumentos gerais, eles se recusam a sintetizar em suas mentes as pequenas diferenças acumuladas durante muitas gerações sucessivas. Será que aqueles naturalistas – que sabem muito menos sobre as leis da hereditariedade do que os criadores e que sabem tanto quanto eles sobre as conexões intermediárias das longas linhas de descendência, mas que, mesmo assim, admitem que muitas de nossas raças domésticas são descendentes dos mesmos pais – não poderiam aprender a ter cautela quando zombam da ideia de espécies em estado natural serem descendentes lineares de outras espécies?” Darwin não liga para erros de amadores, por mais crassos: mas que alguns naturalistas (supostos cientistas) ajam de maneira mais estúpida que os mais sábios dos colecionadores ou que todo colecionador com bom senso e capacidade de síntese, isso sim é indigno para a profissão e para um homem!

Seleção

Eu nem sabia que existem raças que são usadas como cavalos de carga que morreriam ou seriam péssimas disputantes como cavalos de corrida, e vice-versa…

“Não supomos que todas as linhagens tenham sido produzidas repentinamente da forma tão perfeita e útil como as vemos hoje; com efeito, sabemos que em vários casos essa não é sua história. A chave da questão é o poder do homem para realizar uma seleção acumulativa: a natureza nos dá as sucessivas variações; o homem adiciona variações em determinadas direções úteis para si. Nesse sentido, pode-se dizer que o homem produz linhagens úteis para si mesmo.”

“É certo que vários dos nossos maiores criadores conseguiram modificar algumas raças de gado e ovelhas de forma significativa, mesmo no período de uma única vida humana. Para compreendermos bem o que eles fizeram, é quase necessário lermos alguns dos muitos tratados dedicados ao assunto e avaliar os próprios animais. Os criadores costumam referir-se aos organismos dos animais como algo plástico que pode ser modelado quase que da forma que desejarem.” O problema é que havia não-cientistas já cientes do processo de seleção, mas que se imaginavam deuses por poder manipular à vontade a seleção natural mediante sua mesquinha seleção artificial. Pequenos homens! Num mundo em eterno retorno, quantas variantes de cabeças, bicos, penas, garras de pássaros vocês não acham que existem por mero atavismo?!?

“É a varinha do mágico, por meio da qual ele pode trazer à vida quaisquer formas e modelos que desejar.” Youatt, William. Sheep: Their Breeds, Management, and Diseases, to Which Is Added the Mountain Shepherd’s Manual. Londres: Baldwin and Cradock, 1837, p. 60.

“Na Saxônia, a importância do princípio da seleção em relação às ovelhas merino é tão plenamente reconhecida que os homens o seguem como um negócio: as ovelhas são colocadas em uma mesa e são analisadas assim como um especialista estuda uma pintura; isso é feito três vezes, com intervalos de meses; nesses períodos as ovelhas são marcadas e classificadas para que a melhor seja, por fim, selecionada para reprodução.”

“A melhoria não se deve de uma forma geral ao cruzamento de raças diferentes; todos os melhores criadores opõem-se fortemente a esta prática, exceto às vezes entre sub-raças muito próximas. E quando esse tipo de cruzamento é realizado, eles devem fazer uma seleção muito mais rigorosa do que a realizada nos casos normais. Se a seleção consistisse em apenas separar alguma variedade bastante distinta e reproduzir a partir dela, o princípio seria tão óbvio que nem valeria a pena ser notado; mas sua importância consiste no grande resultado produzido pela acumulação em uma única direção, durante sucessivas gerações, de diferenças absolutamente inapreciáveis para os olhos incultos; diferenças que eu tentei apreciar em vão.” O achatamento do focinho dos fofos lhasas e shitzus: muita endogamia, endogamia contínua da prole que surgisse com focinhos mais achatados que os de seus irmãos, etc.

“Nem um homem em mil tem olhos tão precisos e é tão criterioso para se tornar um importante criador.” Está mais para croupier.

“Os mesmos princípios são seguidos pelos horticultores; mas as variações nesse campo são frequentemente mais abruptas.” É como pular de romances franceses dum mesmo século direto para HQs e mangás: claro que a diferença se torna muito mais pronunciada entre cada “produção”.

“Se compararmos as flores dos dias atuais com os desenhos feitos apenas há vinte ou trinta anos, notaremos uma melhora surpreendente nas flores de muitos floristas.” Imagina como os lótus da Índia Antiga deviam ser feios… A não ser… quantos milhares de anos de “seleção humana” já haviam transcorrido antes dos Vedanta?

“Quando uma raça de plantas já está bem-estabelecida, os produtores de sementes já não escolhem as melhores plantas, mas vão simplesmente até suas plantações e arrancam as ‘daninhas’ (rogues), como eles chamam as plantas que se desviam do padrão adequado.” “quase ninguém é tão descuidado a ponto de permitir que seus piores animais procriem.(*)

(*) [Crux!] Darwin utilizará essa frase novamente em 1871, em seu livro Origem do homem, ao abordar a questão da eugenia: ‘Mas, com exceção do caso do próprio homem, dificilmente alguém é tão ignorante para permitir que seus piores animais procriem’.” O pior é não estabelecer compulsoriamente que aristocratas devam se casar com plebeus e somente com eles! Em pouco tempo os neo-aristocratas melhorarão consideravelmente…

“amor-perfeito (Viola tricolor)”

“note como os frutos dos vários tipos de groselheiras diferem em tamanho, forma, cor e pilosidade, mas, mesmo assim, como suas flores apresentam diferenças muito pequenas. Não podemos dizer que as variedades muito diferentes em alguma característica não tenham quaisquer diferenças em outras características; isso quase nunca, ou talvez nunca, ocorre.”

“É possível rejeitar o princípio da seleção ao afirmar que ele se tornou uma prática metódica há apenas pouco mais de três quartos de século; certamente demos maior atenção a ele nesses últimos anos e muitos tratados têm sido publicados sobre o assunto; posso ainda acrescentar que o resultado disso tem sido correspondentemente rápido e importante. Mas está muito longe de ser verdade que o princípio é uma descoberta moderna.”

“O princípio da seleção encontra-se claramente apresentado em uma antiga enciclopédia chinesa.” Mas aqui seleção quer dizer algo muito simples.

“Certas passagens do Gênesis não deixam dúvidas de que, já naquele tempo, cuidava-se da cor dos animais domésticos. Os selvagens atuais às vezes cruzam seus cães com animais caninos selvagens para melhorar a raça, e faziam o mesmo no passado, conforme podemos ler em certas passagens de Plínio, o Velho. [bibliografia não-confiável]”

“As alterações lentas e insensíveis deste tipo nunca poderiam ser reconhecidas, a menos que medições reais ou desenhos impecáveis das linhagens em questão já viessem sendo feitos há muito tempo para que pudéssemos compará-las.” Às vezes esqueço que D. não tinha sequer a arte da fotografia a seu dispor.

“Por um processo semelhante de seleção e pelo treinamento cuidadoso, os cavalos de corrida ingleses superam sua linhagem árabe paterna em velocidade e tamanho, ao ponto de esta última, de acordo com os regulamentos das corridas de Goodwood, ser favorecida pelo peso que carrega.”

“Youatt oferece uma excelente ilustração dos efeitos de um processo de seleção que pode ser considerado inconsciente, já que os criadores não esperavam, ou nem mesmo desejavam, ter produzido o resultado que se seguiu, a saber, a produção de duas linhagens distintas. Os dois rebanhos de ovelhas leicester mantidos pelos senhores Buckley e Burgess, conforme observa o senhor Youatt, ‘foram criados a partir de linhagens puras do grupo de animais originais do senhor Bakewell por mais de 50 anos. Dentre aqueles que estão familiarizados com o caso, não há a mínima suspeita de que os proprietários desses dois rebanhos tenham se desviado do rebanho puro-sangue do senhor Bakewell mas, ainda assim, a diferença entre as ovelhas de cada um desses dois senhores é tão grande que elas parecem ser variedades completamente diferentes’.”

“Mesmo que existam selvagens tão bárbaros a ponto de nunca pensarem sobre as características herdadas dos descendentes de seus animais domésticos, um animal que seja particularmente útil a eles para qualquer finalidade especial será cuidadosamente preservado durante períodos de carestia e outras adversidades às quais os selvagens estão tão expostos, e esses melhores animais geralmente deixariam, dessa forma, mais descendentes do que os inferiores a eles; assim, estaríamos neste caso observando um tipo de seleção inconsciente.”

“em tempos de escassez, eles matam e devoram as mulheres velhas, pois elas têm menos valor que seus cães.(*)” Qualquer inglês metendo-se a antropólogo antes do século XX só fala asneiras.

(*) “Darwin reproduz informação recebida na viagem do Beagle, um mito repetido desde o século XVI. Em 1888, ficou bem estabelecido ser totalmente falso.”

“Ninguém espera obter um amor-perfeito de primeira qualidade ou uma dália a partir da semente de uma planta selvagem. Ninguém espera obter uma pêra que derrete na boca e de primeira qualidade a partir da semente de uma pêra selvagem, embora se possa ter sucesso a partir de uma muda de sementes fracas que estivesse crescendo em local selvagem, mas cuja origem fosse uma espécie doméstica. A pêra, embora cultivada na época clássica, parece, pela descrição de Plínio, ter sido um fruto de qualidade muito inferior.”

“Já que foram necessários séculos ou milhares de anos para aprimorar ou modificar a maioria de nossas plantas até seu presente padrão de utilidade para o homem, então podemos entender por que não recebemos nem uma única planta de cultivo da Austrália, do Cabo da Boa Esperança ou de qualquer outra região habitada por homens incivilizados. Não que esses países, tão ricos em espécies, não possuam por um estranho acaso¹ os grupos aborígenes de quaisquer plantas úteis, mas as plantas nativas não foram aprimoradas pela seleção contínua até atingirem um padrão de perfeição comparável ao oferecido, na Antiguidade, às plantas dos países civilizados.”

¹ Na verdade foi o europeu que sempre arruinou seu solo, pois não passa de um bárbaro que se cultivou às expensas dos asiáticos e africanos, incluindo aí o atual território da Grécia.

“O homem dificilmente pode selecionar, ou só com muita dificuldade, qualquer desvio de estrutura, excetuando aqueles que são externamente visíveis; e de fato ele raramente se importa com o que é interno. O homem somente consegue agir por meio da seleção após ter visto algum tipo de modificação ligeira ocorrida na natureza.”

“Mas utilizar a expressão ‘tentar criar um fantail’ é, não tenho dúvidas, na maioria dos casos, totalmente incorreto.” Tirou as palavras de minha boca.

“faz parte da natureza humana valorizar quaisquer novidades, mesmo que pequenas, daquilo que tem em mãos.” Na era da reprodutibilidade técnica, ainda mais.

“O ganso comum não deu origem a qualquer grande variedade; por isso a linhagem comum e a linhagem thoulouse, que diferem apenas na cor (a característica mais fugaz de todas), têm sido apresentadas nas exposições de aves domésticas como se fossem linhagens distintas.” Ué, mas você acabou de dizer que são linhagens distintas!

“não sabemos nada sobre a origem ou a história de nossas linhagens domésticas.” Não sabemos de porra nenhuma, nunca. Primeira lição!

“Mas, na verdade, dificilmente podemos dizer que uma linhagem, assim como o dialeto de uma língua, tenha uma origem definitiva.” Golpe de gênio.

“A manutenção de um grande número de indivíduos de uma espécie em uma região requer que as espécies sejam expostas a condições favoráveis de vida, a fim de procriarem livremente naquela região.”

“Já vi comentado de forma muito séria que, afortunadamente, os morangos apenas passaram a variar quando os horticultores começaram a cuidar dessa planta com mais atenção. Sem dúvida, desde que são cultivados, os morangos sempre variaram, mas as pequenas variações foram negligenciadas.” “as muitas variedades admiráveis de morango dos últimos trinta ou quarenta anos.” Love is red.

“Os pombos podem formar casais por toda a vida; isso é bastante conveniente para os apreciadores, pois assim muitas raças podem ser mantidas puras, mesmo que convivam no mesmo aviário; e esta circunstância deve ter favorecido bastante o aprimoramento e a formação de novas linhagens.” Na verdade segundo sua própria teoria teria criado mais monstruosidades… Sobre o acasalamento em família, Plínio estava certo!

“Por outro lado, os gatos, por causa de seus hábitos noturnos e de perambularem, não podem ser facilmente cruzados e, embora muito valorizados pelas mulheres e crianças, raramente vemos uma linhagem distinta; as linhagens por vezes encontradas quase sempre são importadas de outros países, muitas vezes de ilhas. Embora eu não duvide de que alguns animais domésticos variem menos do que outros, a raridade ou ausência de raças distintas de gatos, burros, pavões, gansos, etc. pode ser atribuída principalmente ao fato de a seleção não ter sido posta em prática: nos gatos, por causa da dificuldade de acasalamento; nos burros, por serem criados por pessoas pobres e da pouca atenção que é dada à sua reprodução; nos pavões, por sua difícil criação e pela manutenção de pequenos grupos; nos gansos, por serem valiosos apenas para duas finalidades, alimento e penas; e, de forma mais específica, porque as pessoas não sentem prazer em exibir raças distintas deste animal.” Quanto ódio ao bichinho!

2. A VARIAÇÃO NA NATUREZA

(*) “O termo ‘monstruosidades’ (grego terata) foi utilizado por Aristóteles para designar os seres com órgãos sem finalidade de linhagens domésticas, como a planta que produz a couve-flor. O termo foi continuamente utilizado pelos naturalistas, inclusive por Lineu.”

(*) “John Lubbock (1834-1913), entomologista e antropólogo, um jovem brilhante que freqüentava a casa de Darwin, tendo sido por ele muito estimulado. De uma família de banqueiros, seguiu carreira nas finanças, mas também se tornou um cientista evolucionista muito respeitado.”

(*) “Lubbock publicou, em 1858, estudos sobre a anatomia interna de um inseto conhecido como cochonilha (à época, chamado Coccus hesperidium), de grande interesse econômico, de onde se extrai um corante vermelho (ácido carmínico) com largo emprego até hoje, inclusive na indústria alimentícia (corante E 120). Em seu artigo, ele escreveu que ’o sistema nervoso, longe de ser similar em todos os espécimes, variava de maneira muito extraordinária’.”

“Os gêneros que são polimórficos em uma região parecem ser, com algumas poucas exceções, polimórficos em outras regiões e, julgando pelas conchas dos braquiópodes, também em períodos anteriores. Esses fatos são muito desconcertantes, pois parecem mostrar que esse tipo de variabilidade independe das condições de vida. Estou inclinado a suspeitar que observamos nestes gêneros polimórficos variações em pontos da estrutura que não servem nem prejudicam a espécie e que, conseqüentemente, não foram tomadas nem aceitas como definitivas pela seleção natural, como será explicado daqui por diante.”

“Na prática, quando um naturalista consegue, por meio de formas com características intermediárias, unir duas formas, ele tratará uma como sendo variedade da outra, chamando de espécie a mais comum (ou às vezes aquela que foi descrita em primeiro lugar) e a outra de variedade.”

“Compare a flora da Grã-Bretanha, da França ou dos Estados Unidos descrita por diferentes botânicos e note o número surpreendente de formas que foram classificadas por um botânico como uma espécie boa e por outro como mera variedade.”

(*) “Hewett Cottrell Watson (1804-1881), botânico pioneiro no estudo da distribuição das plantas (biogeografia) que se correspondeu intensamente com Darwin; publicou os relatos de sua expedição feita em 1842 aos Açores e, em 1845, publicou na revista Phytologist um artigo sobre Desenvolvimento Progressivo.”

“Há muitos insetos nas ilhotas do pequeno grupo da Madeira que foram caracterizados como variedades na admirável obra do senhor Wollaston mas que, sem sombra de dúvida, seriam classificados como espécies distintas por muitos entomologistas. Até mesmo a Irlanda tem alguns animais que são geralmente considerados como variedades mas que foram classificados como espécies por alguns zoólogos. Vários dos ornitólogos mais experientes consideram nosso faisão vermelho (L. lagopus) como apenas uma raça fortemente distinta de uma espécie norueguesa, mas a maioria o classifica como uma espécie indubitável e peculiar à Grã-Bretanha.”

“A distância entre a América e a Europa é grande, mas será que é suficiente a distância entre o continente e os Açores ou a ilha da Madeira, as Canárias ou a Irlanda?”

“Certamente, ainda não há uma linha clara de demarcação entre espécies e subespécies, isto é, entre as formas que, na opinião de alguns naturalistas, estejam muito próximas mas não cheguem a compor uma espécie; ou, além disso, entre subespécies e variedades bem-marcadas, ou entre as variedades menores e as diferenças individuais. Essas diferenças misturam-se entre si em uma série imperceptível; e a série imprime na mente a ideia de uma passagem real.”

“A passagem de uma fase de diferenciação para outra mais elevada pode se dever, em alguns casos, apenas à longa ação contínua de diferentes condições físicas de duas regiões diferentes; mas eu acredito muito pouco neste ponto de vista; e eu atribuo a passagem de uma variedade – que migra de um estado em que ela difere ligeiramente de seus progenitores para outro em que a diferença é maior – à ação da seleção natural, que acumula (como será daqui por diante mais plenamente explicado) diferenças de estrutura em determinadas direções definitivas.”

“Se uma variedade florescesse a ponto de ultrapassar o número de indivíduos da espécie materna, então aquela seria classificada como a espécie e a espécie como a variedade; ou ela poderia suplantar e exterminar a espécie materna; ou ambas poderiam coexistir, e ambas seriam classificadas como espécies diferentes.”

“Dessa forma, as que mais florescem ou, conforme dizemos, as espécies dominantes – aquelas que estão amplamente distribuídas por todo o mundo – são as mais difundidas em sua própria região e são as que possuem maior número de indivíduos, que com maior freqüência produzem variedades bem-marcadas ou, conforme eu as chamo, espécies incipientes.”

Um livro muito mais confuso, sem a atmosfera de clássico, do que eu poderia imaginar.

John Obadiah Westwood (1805-1893), An Introduction to the Modern Classification of Insects: founded on the natural habits and corresponding organization of the different families, Londres, 1839-1840.

“Os gêneros maiores, portanto, tendem a tornar-se ainda maiores; e, em toda a natureza, as formas de vida que agora são dominantes tendem a tornar-se ainda mais dominantes, deixando muitos descendentes dominantes modificados. Mas, por etapas que serão explicadas adiante, os gêneros maiores também tendem a se dividir em gêneros menores. E, assim, as formas .de vida em todo o universo tendem a se dividir em grupos subordinados a outros grupos.” Mistura abstrações que extrapolam com constatações um tanto óbvias.

3. LUTA PELA EXISTÊNCIA

“Já vimos que, por meio da seleção, as pessoas conseguem produzir grandes resultados e adaptar os seres orgânicos para seu próprio uso através da acumulação de pequenas, mas úteis, variações, dadas a eles pelas mãos da Natureza. No entanto a seleção natural, como veremos adiante, é um poder que está sempre pronto para agir e é imensamente superior aos fracos esforços do ser humano, da mesma forma como o são as obras da Natureza quando comparadas às obras de arte. § Trataremos agora um pouco mais detalhadamente da luta pela existência. Esse assunto será discutido com mais abrangência em uma obra futura, conforme ele bem merece.” Sempre com essas evasivas e adiamentos…

“Costumamos ver a face lustrosa da natureza com alegria, muitas vezes vemos a superabundância de alimentos; mas não vemos, ou esquecemos, que os pássaros, que cantam à toa em nosso entorno, vivem principalmente de insetos ou sementes e estão, portanto, constantemente destruindo a vida (…) nem sempre temos consciência de que, embora a comida possa ser superabundante no presente, isso não é o que ocorre em todas as estações de cada novo ano.

Devo estabelecer que uso o termo luta pela existência em sentido amplo e metafórico, que inclui a dependência de um ser em relação a outro e, ainda mais importante, que inclui não só a vida do indivíduo, mas o sucesso em deixar descendentes.”

“É a teoria de Malthus aplicada com forças múltiplas a todo o mundo dos reinos animal e vegetal; pois não há neste caso como ocorrer nenhum aumento artificial da quantidade de alimentos nem restrições discricionárias aos casamentos.”

“Lineu calculou que, se uma planta anual produzir apenas duas sementes (sendo que não existe qualquer planta tão improdutiva como essa), suas mudas produzirão mais duas no ano seguinte e assim por diante e, em vinte anos, haverá 1 milhão de plantas. O elefante é tido como o reprodutor mais lento de todos os animais conhecidos; dei-me ao trabalho de estimar sua provável taxa mínima de crescimento natural: admitindo que sua reprodução comece aos trinta anos e continue até noventa, dando à luz três pares de jovens reprodutores neste intervalo; se fosse assim, no final do quinto século haveria 15 milhões de elefantes vivos descendentes do primeiro casal.”

“se as declarações sobre a taxa de aumento do gado e de cavalos na América do Sul e mais tarde na Austrália não estivessem tão bem-documentadas, seria bastante difícil dar crédito a elas.” Só tem crédito o que fede a Europa?

“Várias das plantas mais numerosas atualmente na grande planície de La Plata, cobrindo algumas léguas quadradas da superfície e quase à exclusão de todos os outros vegetais, foram trazidas da Europa;(*) e existem plantas – importadas da América desde a sua descoberta – que hoje estão distribuídas pela Índia e, pelo que eu soube pelo doutor Falconer, espalham-se desde o Cabo Comorin até o Himalaia.

(*) Darwin se baseia na opinião dos botânicos da época, inclusive Lineu, sobre as gramíneas sul-americanas. Hoje se sabe que este exemplo não é correto. No entanto o argumento geral é válido, como em Galápagos, onde há centenas de espécies invasoras, inclusive a goiabeira.”

“Em tais casos, a progressão geométrica do aumento, cujo resultado nunca deixa de ser surpreendente, simplesmente explica o crescimento extraordinariamente rápido de indivíduos e a ampla difusão desses seres vivos em seus novos lares.”

“Nossa familiaridade com os animais domésticos maiores tende, assim imagino, a nos enganar: não vemos neles nenhuma grande destruição e esquecemos que milhares são abatidos anualmente para nos alimentar; além disso, em estado natural, um número igual de organismos também é eliminado de alguma forma.”

“A única diferença entre organismos que produzem anualmente milhares ou apenas alguns poucos ovos ou sementes é que os procriadores lentos precisariam de alguns anos a mais para povoar, em condições favoráveis, uma região inteira, mesmo que esta fosse enorme. O condor bota um par de ovos e o avestruz, vinte, e, ainda assim, na mesma região o condor pode ser o mais numeroso dos dois; a procelária (imagem, também conhecida como pardela-preta) coloca apenas um ovo, e acredita-se no entanto que seja a ave mais numerosa do mundo. Certa mosca deposita centenas de ovos, e outras, como as da família Hipobboscidae, um único; mas essa diferença não determina quantos indivíduos das duas espécies podem ser mantidos em uma região.”

“a verdadeira importância de um grande número de ovos ou sementes é compensar a grande destruição que pode ocorrer em algum período da existência; e, na grande maioria dos casos, este período ocorre na fase inicial da vida.” “Para manter o número total de uma árvore que viva mil anos, em média, basta que uma única semente seja produzida uma vez a cada mil anos, supondo que esta semente nunca seja destruída e haja garantia de que germinará em local adequado. Assim, em todos os casos, o número médio de indivíduos de qualquer animal ou planta depende apenas de forma indireta do número de ovos ou sementes produzidos por ele.” De acordo, mas isso é lógica de jardim-de-infância.

“Diminua um obstáculo, mitigue levemente a destruição e o número das espécies aumentará quase instantaneamente para quantidades cada vez maiores. A face da Natureza pode ser comparada a uma superfície macia coberta com 10 mil cunhas¹ afiadas e muito próximas umas das outras, as quais são empurradas para baixo por golpes incessantes, às vezes uma cunha sendo atingida e, então, outra sendo atingida com mais força.(*)” E para D. essa imagem ainda cheia de candura era terrível!

¹ Instrumento para rachar lenha

(*) “Essa última sentença foi excluída nas edições seguintes.” Alegação de genocídio divino!

“Não sabemos exatamente o que restringe o crescimento, nem mesmo em um único exemplo.”

“No que se refere às plantas, há uma vasta destruição de sementes, mas, a partir de algumas observações que fiz, acredito que as mudas são as que mais sofrem, por germinarem em um terreno que já está densamente ocupado por outras plantas.” “Se deixarmos crescer o gramado cortado há muito tempo – ou mesmo um gramado repisado por quadrúpedes –, as plantas mais vigorosas, mesmo já sendo adultas, gradualmente matarão as menos vigorosas; assim, de 20 espécies que crescerem em uma área gramada (de 3 pés por 4, aproximadamente 1m²), 9 morrerão se deixarmos que outras espécies cresçam livremente.”

“Se nenhuma caça fosse abatida durante os próximos vinte anos na Inglaterra e, ao mesmo tempo, se nenhum predador fosse destruído,(*) haveria, muito provavelmente, um menor número de animais de caça no futuro, apesar de centenas de milhares de animais de caça estarem sendo atualmente abatidos a cada ano.

(*) Darwin refere-se aos animais que prejudicavam os estoques de alimentos, que faziam parte da lista editada por Henrique VIII, em 1532, e ampliada por sua filha, que pagava uma recompensa pelo abate de falcões, raposas, etc., o chamado ‘Vermin Act’. As paróquias que não abatessem predadores eram multadas. Essa caça foi intensa até meados do século XVIII, e quase extinguiu diversos animais ‘nocivos’ na Inglaterra.”

“mesmo o tigre da Índia raramente ousa atacar um elefante jovem protegido por sua mãe.” Culpa humana absoluta.

“as estações periódicas de extremo frio ou as secas, acredito, são os controles mais eficazes de todos. Estimo que o inverno de 1854-1855 destruiu 80% das aves de meu próprio terreno; e essa pode ser considerada uma tremenda destruição quando nos lembramos que 10% constitui uma mortalidade extraordinariamente grave nas epidemias humanas.” Imagine se 1% da população brasileira morresse de Covid… Tudo indica que beiramos esse número… Calamidade.

(*) “Não deixa de ser evidente a visão de Darwin, compartilhando a ideologia da época, de que as plantas europeias exterminariam as dos demais continentes, mas nunca o inverso.” Burrice e prepotência cultivadas em estufa.

“Quando uma espécie, devido a circunstâncias altamente favoráveis, aumenta excessivamente o número de seus indivíduos em uma pequena região, surgem epidemias; pelo menos isso é o que parece acontecer com frequência com nossos animais de caça: e aqui temos um controle limitador que independe da luta pela vida. Mas mesmo algumas dessas epidemias parecem ser causadas por vermes parasitas que – de alguma forma, e possivelmente em parte, através de sua fácil dispersão entre os animais aglomerados – foram desproporcionalmente favorecidos; e nesse caso surge uma espécie de luta entre o parasita e sua presa.”

Animais de pastagem são incríveis predadores até de árvores grandes e não-diretamente relacionadas com sua dieta (pinheiros), pois repisam e revolvem o solo de modo a matar muitas mudas.

“se ocorresse no Paraguai um aumento no número de certas aves insetívoras (cujo limite de indivíduos é provavelmente regulado por falcões ou outros animais predadores), o número de moscas diminuiria, o gado e os cavalos se tornariam selvagens, e isso certamente causaria muitas alterações na vegetação (como de fato tenho observado em partes da América do Sul)”

oportunidade mais (r)adiante

(*) “Note-se o raciocínio da moderna ecologia, ao tratar de cadeias e teias alimentares, quando o nome dessa ciência sequer havia sido criado.” Glorificação injustificada de D.

“A partir de experiências realizadas por mim, descobri que as visitas das abelhas, além de indispensáveis, são, no mínimo, altamente benéficas para a fertilização de nossos trevos; mas apenas as abelhas do gênero Bambus visitam o trevo vermelho, [Trifolium pratense] pois as outras abelhas não conseguem alcançar o seu néctar. Portanto, tenho pouquíssima dúvida de que se todas as abelhas do gênero Bambus desaparecessem ou se tornassem muito raras na Inglaterra, o amor-perfeito e o trevo vermelho também se tornariam raros ou desapareceriam completamente.”

“Percebi que, perto de aldeias e cidades, o número de colmeias dessas abelhas era mais elevado do que em outros lugares. Atribuo esse fato ao número de gatos que matam os ratos.” Newman

“Em todas as partes da Rússia, a pequena barata asiática tem levado consigo sua congênere, a grande. Uma espécie de mostarda substituirá outra, e o mesmo ocorrerá em outros casos. Podemos ver de forma vaga por que a competição é mais severa entre as formas mais próximas, que ocupam quase o mesmo lugar na economia da natureza;”

“a vantagem de sementes plumadas está indubitavelmente relacionada com o fato de o terreno já estar densamente tomado por outras plantas; as plumas permitem que as sementes sejam levadas para mais longe e caiam em solo desocupado.”

“Observe uma planta na sua região de distribuição; por que ela não duplica ou quadruplica o número de seus indivíduos? Sabemos que ela pode suportar muito bem um pouco mais de calor ou frio, umidade ou secura, pois em outros lugares ela se distribui por regiões ligeiramente mais quentes ou mais frias, mais úmidas ou mais secas. Nesse caso podemos ver claramente que, se quiséssemos imaginar a possibilidade de oferecer à planta o poder de aumentar o número de seus indivíduos, precisaríamos dar-lhe alguma vantagem sobre seus concorrentes, ou sobre os animais que as consomem. Nas fronteiras das regiões de sua distribuição geográfica, uma mudança em sua constituição legada ao clima seria claramente uma vantagem para nossa planta; mas temos razões para acreditar que somente algumas plantas ou alguns animais atingem uma distribuição tão ampla a ponto de poderem ser destruídos apenas pelo clima. A competição não deixará de existir até que cheguemos aos limites extremos da vida, nas regiões do Ártico ou nas fronteiras de uma região completamente desértica. O território pode ser extremamente frio ou seco, mas ainda haverá competição pelos pontos mais quentes ou mais úmidos entre algumas poucas espécies, ou entre os indivíduos da mesma espécie.”

“a guerra da natureza não é incessante, o medo não é sentido, a morte é geralmente rápida e o vigoroso, o saudável e o feliz sobrevivem e se multiplicam.” Diferente do homem.

4. SELEÇÃO NATURAL

“(lembrando que nascem muito mais indivíduos do que os que conseguem sobreviver)” Não a longuíssimo prazo, diria Jack Kerouac…

“As variações que não são úteis nem prejudiciais não seriam afetadas pela seleção natural e funcionariam como um elemento flutuante, conforme notamos, talvez, nas espécies ditas polimórficas.”

“Compreenderemos melhor o caminho provável da seleção natural ao tomarmos como exemplo o caso de uma região que esteja passando por alguma transformação física como, por exemplo, mudanças climáticas.” Ó! Mudanças climáticas, num universo regulado por deus (especificamente, Jeová)?! Que achado!

O excesso de notas de rodapé realmente é um incômodo desnecessário. Não era falsamente que o prefaciador pedia desculpas…

“A seleção sexual é, portanto, menos rigorosa do que a seleção natural.”

“Um cervo sem chifres ou um galo sem esporões teriam poucas chances de deixar descendentes.”

“foi descrito que os jacarés machos brigam, rugem e giram pela posse das fêmeas como os índios em uma dança de guerra(*)

(*) Darwin repassa a informação sem investigá-la. Provavelmente se refere aos jacarés da Flórida (aligátores), cujos machos são territoriais e, embora não tenham cordas vocais, vocalizam expelindo água com ar inspirado, soando um rugido grave, capaz de atrair fêmeas e repelir outros machos.”

“Apesar de os machos dos animais carnívoros já estarem bem armados, eles – e outros animais – podem ter recebido outros meios especiais de defesa por meio da seleção sexual: a juba do leão, a ombreira do javali e a mandíbula em forma de gancho do salmão macho, pois, para a vitória, um escudo pode ser tão importante quanto uma espada ou uma lança.”

“Entre as aves, a luta muitas vezes tem um caráter mais pacífico. Todos aqueles que estudaram o tema acreditam que há uma rivalidade extremamente séria entre os machos de muitas espécies para atrair as fêmeas pelo canto.”

“Sir R. Heron(*) descreveu como um pavão malhado era altamente atraente para todas as suas fêmeas. Pode parecer infantil atribuir qualquer efeito a tais meios aparentemente fracos: não poderei aqui dedicar-me aos detalhes necessários para oferecer suporte a essa perspectiva; mas se as pessoas, de acordo com seus padrões de beleza, conseguem em um curto espaço de tempo dar um porte elegante e beleza às suas garnisés, então não vejo nenhuma razão para duvidar que as aves fêmeas, selecionando durante milhares de gerações os machos mais melodiosos ou bonitos, de acordo com seu padrão de beleza, tenham produzido um efeito marcante.

(*) ” Refere-se ao relato de um caso de 1814 atribuído ao barão Robert Heron (1765-1854), presente no verbete ‘pavão’, publicado no volume 17 da famosa The Penny Cyclopedia for the Difusion of Useful Knowledge (1840).”

“Sabemos que [nos gatos] a tendência para capturar ratos em vez de camundongos é hereditária.”

“Nenhum naturalista põe em dúvida a vantagem do que tem sido chamado de ‘divisão fisiológica do trabalho’; portanto, acreditamos que seria vantajoso para uma planta produzir estames em apenas uma flor ou planta inteira, e pistilos apenas em outra flor ou planta.”

“Passemos agora para os insetos que se alimentam de néctar em nosso caso imaginário: poderíamos supor que a planta cujo néctar estamos lentamente aumentando por meio da seleção contínua seja uma planta comum; e que certos insetos se alimentassem principalmente do néctar dela. Eu poderia enumerar muitos fatos que mostrassem a ansiedade das abelhas em economizar tempo; por exemplo, seu hábito de sugar o néctar por meio de um buraco feito por elas na base de certas flores nas quais poderiam entrar, com um pouco mais de trabalho, pela corola. Tendo tais fatos em mente, não enxergo nenhuma razão para duvidar que um desvio acidental no tamanho e na forma do corpo ou na curvatura e no comprimento da probóscide, etc. – algo demasiado pequeno para ser apreciado por nós –, poderia ser vantajoso para uma abelha ou outro inseto, e, dessa forma, um indivíduo com essas características seria capaz de obter seu alimento de modo mais rápido e, então, ter uma chance melhor de sobreviver e de deixar descendentes.”

“Estou ciente de que esta doutrina da seleção natural, apresentada nos exemplos imaginários acima, está aberta às mesmas objeções que foram inicialmente oferecidas contra os nobres pontos de vista de Sir Charles Lyell em relação às ‘mudanças modernas da Terra como exemplos da geologia’; mas hoje em dia raramente ouvimos alguém dizer que a ação, por exemplo, das ondas costeiras seja uma causa fútil e insignificante quando usada para explicar as escavações de gigantescos vales ou para a formação das mais longas linhas de falésias interiores.”

“Estou fortemente inclinado a acreditar que todos os hermafroditas precisam de dois indivíduos, de forma ocasional ou costumeira, para realizar a reprodução de sua espécie.” “A pesquisa moderna diminuiu muito o número de supostos hermafroditas e, dentre os hermafroditas verdadeiros, muitos deles também se unem; ou seja, dois indivíduos se unem regularmente para a reprodução, e isso é o que nos interessa. (…) a grande maioria das plantas é hermafrodita.”

“lei geral da natureza: que nenhum organismo fertiliza-se a si mesmo por uma eternidade de gerações, mas que o cruzamento com outro indivíduo é indispensável – ainda que isso se dê ocasionalmente, talvez em intervalos muito longos.” Outra afirmação muito óbvia, mesmo para o séc. XIX.

“as anteras e os pistilos da própria planta estão geralmente tão próximos uns dos outros que a autofertilização parece ser quase inevitável. Muitas flores, por outro lado, têm seus órgãos de frutificação estreitamente fechados, como é o caso da grande família das ervilhas ou papilionáceas; mas em várias dessas flores, talvez em todas elas, há uma adaptação muito curiosa entre a estrutura da flor e a maneira pela qual as abelhas sugam seu néctar; pois, ao fazê-lo, elas empurram o pólen da própria flor para o estigma, ou levam o pólen para outra flor.”

“As abelhas atuarão como um pincel; é suficiente tocar as anteras de uma flor e depois o estigma de outra com o mesmo pincel para garantir sua fertilização; mas não devemos supor que as abelhas produziriam dessa forma uma infinidade de híbridos entre espécies distintas; pois, se você coloca o pólen da própria planta no pincel junto com o pólen de outra espécie, o primeiro tem um efeito tão preponderante que destrói invariável e completamente quaisquer influências de grãos de pólen externos, conforme foi demonstrado por Gärtner.”

“há na Lobelia fulgens um artifício muito bonito e elaborado pelo qual cada um dos infinitamente numerosos grânulos de pólen são removidos das anteras de cada flor antes de o estigma das flores individuais estar pronto para recebê-los; e como esta flor nunca é visitada por insetos, pelo menos no meu jardim, ela nunca produz uma semente; apesar disso, consegui criar muitas sementes ao colocar o pólen de uma flor sobre o estigma de outra; enquanto isso, outra espécie de Lobelia, que cresce perto da primeira, é visitada por abelhas e produz sementes livremente.”

“Quão estranhos são esses fatos! Quão estranho é o fato de o pólen e a superfície do estigma da mesma flor estarem tão próximos, mas – como se esse fato tivesse como objetivo a própria autofertilização – serem, em tantos casos, mutuamente inúteis uns para os outros! E quão simples tornam-se esses fatos se explicados pelo ponto de vista de que o cruzamento ocasional com um indivíduo distinto é vantajoso ou indispensável!”

“lei geral segundo a qual as formas boas derivam do cruzamento entre indivíduos distintos da mesma espécie.” Me surpreende que os europeus tenham conservado seus princípios eugênicos por tanto tempo…

“Voltando-nos brevemente aos animais: no ambiente terrestre há alguns hermafroditas, como lesmas, caracóis e vermes terrestres; mas todos eles se acasalam. Até este momento não encontrei nenhum animal terrestre que fertilize a si mesmo. Esse fato notável, que oferece um contraste tão forte com as plantas terrestres, pode ser entendido por meio da hipótese de um cruzamento ocasional ser indispensável, pois, tendo em conta o meio em que vivem os animais terrestres e a natureza de seu elemento fecundante, não conhecemos nenhuma maneira, análoga à ação dos insetos e do vento no caso das plantas, pela qual um cruzamento ocasional poderia ser realizado em animais terrestres sem a concordância de dois indivíduos.”

“Durante muito tempo, pareceu-me que, sob esta hipótese, os crustáceos da infraclasse Cirripedia [cracas] apresentavam um caso bastante difícil; mas eu consegui, por um acaso feliz, provar que dois indivíduos podem cruzar, mesmo que os dois sejam hermafroditas que se autofertilizem.”

“Mas se, de fato, todos os hermafroditas cruzam ocasionalmente com outros indivíduos, resulta muito pequena a diferença entre hermafroditas e as espécies unissexuais, pelo menos no que diz respeito à reprodução.”

Darwin parece um talento hiperativo que se perde em infinitas especulações que vai elencando, enumerando, acumulando e empilhando, sem saber como desenvolvê-las de modo decisivo, não conseguindo nada além disso mesmo: ser um biólogo especulador em vários fronts. Nem sequer chamaria seu “compilado” de observações e raciocínios de teoria… Ele não tem um foco, seu livro me deixa tonto! Várias das passagens de qualquer capítulo até aqui remetem a outros capítulos: “…porém tal idéia será desenvolvida a contento no capítulo tal”. E no entanto o presente capítulo é basicamente uma lista de idéias a ser propriamente desenvolvidas alhures!

Há ainda um grave problema sintático, senão de Darwin, do tradutor: a linguagem é muito imprecisa, refletindo o caráter hesitante do “descobridor”, conforme o trecho: “Finalmente, concluo que, embora pequenas áreas isoladas tenham provavelmente sido em alguns aspectos altamente favoráveis para a produção de novas espécies, ainda assim, o curso das modificações tem sido em geral mais rápido em grandes áreas;” Por onde começo? Pequenas áreas podem ter sido favoráveis para produzir novas espécies – como podem não ter sido! O provavelmente enfraquece todo o postulado, relativiza-o para que não possa ser contestado, basicamente. Ainda dentro da mesma frase o provável é nuançado para funcionar apenas em alguns aspectos, de modo que, mesmo que liguemos a chave do provável, tornando-o certo, essa certeza não afeta muitos aspectos, só alguns (aspecto já sendo uma palavra abstrata o bastante). Não pára por aí: altamente favoráveis, provavelmente, mas somente em alguns aspectos, lembre-se: o ser MUITO favorável é enfático, que pena que é restringido como mera probabilidade parcial de ser! Tudo isso esbarra na restritiva ainda assim, para contornar a possibilidade do “possível” estar equivocado (mas como estaria, se aponta tanto para um lado quanto para o outro, ficando em cima do muro?). Isso porque D. falava das áreas isoladas pequenas, mas agora quer estipular algum tipo de conclusão válida para áreas grandes, e portanto impossível que sejam isoladas, sendo todo um ecossistema complexo… E quer estipular conclusões para ambas, áreas pequenas e grandes, ao mesmo tempo, com algum grau de precisão… Como ele se sai? O curso das modificações (seja lá o que é curso de modificação… uma direção qualquer…) tem sido mais rápido… Não, pensando bem isso seria muito taxativo… Restrinjamos para em geral, de modo que se naturalistas me objetarem eu poderei alegar que falava apenas generalizadamente, sempre havendo exceções e casos particulares – mais uma salvaguarda! Repare a densidade de senões no texto darwiniano… Uma tática não incomum no livro.

“Podemos, talvez, [!] por meio desses pontos de vista, [quase todos os pontos de vista passíveis de enumeração!] entender alguns fatos [não todos, aliás, poucos fatos!] que serão novamente aludidos em nosso capítulo sobre distribuição geográfica;” Além de desonesto intelectualmente, é feio, truncado, horroroso para qualquer leitor… E, como sempre, a melhor parte fica para um capítulo vindouro… Onde, não duvido, ele fará outras promessas, ad infinitum… Não são raras as instâncias em que promete discutir o assunto não num capítulo já pronto do livro vigente, mas numa próxima e ainda inexistente obra… Fosse kardecista, começaria a dizer vida…

“na água doce encontramos algumas das formas mais anômalas atualmente conhecidas no mundo, como o ornitorrinco(*) e a pirambóia, os quais, como fósseis, conectam até certo ponto ordens que hoje estão amplamente separadas na escala natural. Essas formas anômalas podem quase ser chamadas de fósseis vivos; elas sobreviveram até os dias atuais por habitarem uma área confinada e por terem sido dessa maneira expostas a uma competição menos severa.(**)

(*) Ao contrário do que afirma Darwin, tem ampla distribuição geográfica no leste australiano e na Tasmânia, tendo sido introduzido na ilha Kangoroo, onde mantém população estável.

(**) Trata-se de uma afirmação equivocada de Darwin. A noção de fóssil vivo transmite a falsa ideia de que seja uma espécie que ‘sobreviveu’, permanecendo inalterada por milhões de anos, o que tem sido amplamente contrariado por estudos moleculares. Essas espécies continuaram a se adaptar sucessivamente.”

“Quando o continente transformar-se em várias ilhas separadas devido ao afundamento de partes da superfície terrestre, restarão confinados muitos indivíduos da mesma espécie em cada ilha; o cruzamento fora dos limites da distribuição de cada espécie será, assim, impedido; depois das alterações físicas de quaisquer tipos, a imigração não será possível, de tal forma que os novos nichos de cada uma das ilhas serão preenchidos por modificações nos antigos habitantes; e o tempo permitirá que as variedades de cada uma se tornem bastante modificadas e aperfeiçoadas.” É difícil entender. Ele advoga que ilhas isoladas não produzem uma estagnação da evolução das espécies, mas ao mesmo tempo afirma que nas ilhas isoladas quase não há competição e portanto nenhuma necessidade de seleção natural que leve um animal à extinção, p.ex., o que é inconciliável com o fato de que a fauna e a flore continuem a mudar tanto… Pangéia como a era da luta de todos-contra-todos – Austrália como um ambiente tranqüilo… Puras idealizações!

“…um campo justo para a seleção natural melhorar ainda mais os habitantes e, portanto, produzir novas espécies.” Ao mesmo tempo, o campo justo, para D., é a própria luta de todos-contra-todos com o menos freios possíveis.

“Muitos irão afirmar que essas várias causas são mais do que suficientes para impedir completamente a ação da seleção natural. Não creio nisso. Por outro lado, acredito que a seleção natural sempre agirá muito lentamente, muitas vezes apenas em longos intervalos de tempo e geralmente apenas em alguns poucos habitantes da mesma região ao mesmo tempo.” Você apostaria suas fichas em alguém tão hesitante em afirmar qualquer coisa que seja? Não é que lhe sobre humildade científica – isso é excesso de medo! Estou me afogando em partículas restritivas! Não estou adaptado a meio tão agressivo!

“Também acredito que essa ação muito lenta e intermitente [aqui ele acrescenta outro senão muito importante: não é só que a seleção é demasiadamente lenta, levando milhares e milhares de anos – ela também pára de agir durante certos períodos!!! por muito tempo julgava que era absolutamente corriqueiro defender D. no séc. XIX, mas lendo no original me parece algo cada vez mais heróico…] da seleção natural concorda perfeitamente bem com o que a geologia nos diz sobre o modo pelo qual os habitantes deste mundo sofreram mudanças e sobre as taxas através das quais essas alterações ocorreram.” Se ele puder se associar à geologia, e se a geologia estiver correta, jamais poderá ser refutado, pois a seleção natural biológica se torna equivalente à história geológica do planeta…

“Embora o processo de seleção seja lento, se uma pessoa qualquer consegue fazer tanta coisa por meio da seleção artificial, não vejo limites para a quantidade de alterações – para a beleza e para a infinita complexidade das coadaptações entre todos os seres orgânicos, uns com os outros e com suas condições físicas de vida – que podem ser realizadas no longo curso do tempo pelo poder de seleção da Natureza.” Inclusive uma mistura de todas as cores, retornando todos os tons e matizes ao branco originário, isto é, uma constatação do caráter cíclico dessas transformações – que afinal não podem ser infinitas num tempo limitado… mas talvez, ainda mais criticamente, num longo espaço de tempo essas variações comecem a se repetir! Por que D. nunca levanta essa possibilidade, já que é tão cauteloso? Não há progressão no reino animal. Basta lembrar, por exemplo, que os continentes estão em tendência de afastamento desde que constituímos civilizações… Mas que o “final” desse processo só pode ser uma nova Pangéia, ou nossa extinção nesse ínterim… E “nossa”, da perspectiva da biologia, poderia querer dizer respeito a “todas as espécies”, a “determinadas espécies” ou ao homem propriamente dito… Mas do ângulo da hermenêutica, não havendo observador consciente e racional, um ser-no-mundo capaz da linguagem, do que adiantaria se o homem se ausentasse do espetáculo (existência)?

“EXTINÇÃO Este assunto será mais plenamente discutido em nosso capítulo sobre geologia;” Enfurecedor, enfuriante!…

“A geologia nos mostra claramente que o número de formas específicas não aumenta indefinidamente; e há de fato um motivo para esse aumento não ter ocorrido, uma vez que na Natureza o número de nichos não aumenta indefinidamente – não que tenhamos meios de saber se uma região já tem no momento seu número máximo de espécies. Provavelmente nenhuma região está hoje totalmente abastecida, pois no Cabo da Boa Esperança, onde há mais espécies de plantas do que em qualquer outra região do mundo,(*) algumas plantas estrangeiras têm se tornado aclimatadas, sem causar, tanto quanto sabemos, a extinção de espécies nativas.

(*) Já era reconhecida a grande diversidade florística daquela região, mas espécies invasoras sempre alteram as interações ecológicas locais.”

“Conseqüentemente, toda nova variedade ou espécie, durante o progresso de sua formação, [mas toda variedade ou espécie está sempre em progresso e formação!] será geralmente mais pressionada por seus semelhantes mais próximos que tendem a exterminá-la.” Darwin atira para todos os lados sem saber no que acertar: poucas linhas antes insiste (não pela 1ª vez) na tese de que as espécies mais raras e mais ‘isoladas’ em características são as que mais sofrem na ‘luta pela sobrevivência’, e agora já afirma o contrário: quem está em perigo iminente de extinção afinal? Todas as espécies juntas aqui e agora? Mas não acaba aí. Parágrafos depois (veja se ele não volta a afirmar justamente o contrário!!): “quanto mais diversificados se tornam os descendentes de uma espécie qualquer em estrutura, constituição e hábitos, tanto mais eles são capazes de ocupar muitos nichos diversificados na Natureza e, assim, aumentar o número de seus indivíduos.” Lembrando que sempre que uma espécie aumenta muito sua quantidade de indivíduos, mais se aproxima da extinção competitiva, segundo o próprio D.

“espécies incipientes”

“mas não podemos responsabilizar apenas o acaso por diferenças tão grandes e habituais como as existentes entre as variedades da mesma espécie e entre espécies do mesmo gênero.” A natureza não tem um fim.

“Se deixarmos que a espécie utilize seu poder de crescimento de forma natural, ela somente poderá aumentar o número de seus indivíduos (se não ocorrerem alterações nas condições de sua região) caso seus descendentes variem e busquem aproveitar os nichos atualmente ocupados por outros animais: alguns deles podem fazer isso ao, por exemplo, passarem a se alimentar de novos tipos de presas, mortas ou vivas; outros, ao habitar novos pontos, outros ainda, ao subir em árvores, ao freqüentar a água, e alguns, talvez, tornando-se menos carnívoros.” Não existe essa partição fantástica que ele denomina de nicho! D. não fornece uma conceituação, e por nicho entendem-se, conforme a enumeração, coisas tão ecléticas e impossíveis de mesclar como habitat, dieta, comportamento (dir-se-ia que se inspirou muito em Lamarck!) e até adaptações tão complexas que exigiriam mutações genéticas de várias gerações (mudança de terreno do solo para a água, p.ex.!). Como é que um animal herbívoro se torna carnívoro – bem-entendido, com exceção do homem?!

“Além disso, sabemos que cada espécie e cada variedade de gramínea produzem um número quase incontável de sementes por ano; e assim está, por assim dizer, esforçando-se ao máximo para aumentar o número de seus indivíduos.” A espécie não está preocupada com nada, não existe uma consciência coletiva, apenas um instinto individual.

Alphonse de Candolle & Casimir de Candolle, Prodromus systematis naturalis regni vegetabilis

Asa Gray, Manual of the Flora of the Northern United States

BABOSEIRA COMPLETA: “A vantagem da diversificação dos habitantes de uma mesma região é, na verdade, o mesmo que a divisão fisiológica do trabalho encontrada nos órgãos do corpo de um mesmo indivíduo, conforme foi tão bem elucidado por Milne-Edwards.”

“É possível pôr em dúvida, por exemplo, se os marsupiais australianos – que são divididos em grupos com poucas diferenças e que, conforme afirmado pelo senhor Waterhouse e outros, mal representam nossos animais carnívoros, ruminantes e roedores – conseguiriam competir, com sucesso, com essas ordens bem-definidas.” Nada sei de marsupiais australianos… Mas seria são desconfiar da capacidade da fauna da Oceania? Sendo assim, que se dane o tal Mister Casa D’Água!

(*) “Darwin aplica um raciocínio que toma os marsupiais como mamíferos ‘primitivos’ e ‘incompletos’, pois é comum serem exterminados por mamíferos placentários introduzidos. No entanto esse raciocínio tem premissas falsas. Marsupiais e placentários são igualmente ‘evoluídos’, cada um à sua maneira.”

“ascendente único de nossos vários novos subgêneros e gêneros.”

“No diagrama, supusemos até agora que o espaço entre cada linha horizontal representa milhares de gerações, mas poderia representar 1 milhão ou centenas de milhões de gerações e, da mesma forma, uma seção das sucessivas camadas da crosta terrestre que contêm os restos de organismos extintos.” O erro de D. é depositar todas as suas fichas na geologia/paleontologia. Dado que não existe o elo perdido entre o homem e o macaco, pois somos produtos de uma mutação abrupta, as crenças darwinianas são a razão mesma do histrionismo de grupos criacionistas, que podem alegar a “falta de prova científica” (de uma teoria equivocada, a do elo perdido, que serviria para justificar a teoria de que se trata, na verdade, de mais longo alcance, a do ancestral comum de todos os organismos) para deitar por terra todo o discurso racional sobre o devir das espécies, em prol de textos bíblicos e da origem divina do homem.

Muitas palavras para dizer apenas o seguinte: a longo prazo, toda espécie tende à extinção, e a natureza é a personificação do caos: “Um grupo grande irá lentamente conquistar outro grupo grande, reduzir o número de seus indivíduos, juntamente com suas chances de produzir mais variações e melhoramentos. Dentro do mesmo grande grupo, os subgrupos mais jovens e mais eficientemente melhorados, ao se ramificarem e dominarem diversos novos nichos da Natureza, tenderão constantemente a suplantar e destruir os subgrupos anteriores e menos melhorados. Subgrupos e grupos pequenos e fragmentados tenderão finalmente ao desaparecimento. Olhando para o futuro, é possível prever que os grupos de seres orgânicos que são atualmente grandes e vitoriosos, e que estão menos fragmentados, ou seja, aqueles que até o momento sofreram menos extinção, continuarão aumentando por um longo período. Mas não há como prever quais grupos irão, em última análise, prevalecer; pois nós bem sabemos que no passado muitos grupos bastante desenvolvidos foram extintos.” Os dinossauros refutam perfeitamente D.: a espécie ‘mais bem-adaptada e dominante’ passa a ser a mais mal-adaptada assim que sobrevém um racionamento de comida.

“Voltarei a esse assunto no capítulo sobre classificação, mas posso acrescentar que a partir desse ponto de vista segundo o qual pouquíssimas espécies do passado mais remoto tenham gerado descendentes, e do ponto de vista de que todos os descendentes da mesma espécie formam uma classe, podemos entender por que existem poucas classes em cada divisão principal dos reinos vegetal e animal.” Se seu raciocínio estivesse correto, com a idade que tem a Terra deveria ter havido só uma classe que pudéssemos detectar, ou seja, com registros fósseis e a única existente há já milhões de anos, pois essa é justamente a tendência ou projeção para um futuro tendente ao infinito segundo as teorias de D. E, como sempre, parece que o comentador da edição concorda comigo:

(*) “A afirmação de que a maioria das espécies que já existiram no planeta foi extinta é corajosa e se mantém correta; o mesmo não se pode dizer da variação do número de classes, uma conjectura sem base factual.”

5. LEIS DA VARIAÇÃO

“O avestruz, na verdade, vive no continente e está exposto a perigos dos quais não consegue escapar pelo vôo, mas consegue defender-se dos inimigos por meio de coices, como bem fariam todos os quadrúpedes menores. Podemos imaginar que o antigo progenitor do avestruz tivesse hábitos semelhantes aos de uma abetarda(*) e que – após a seleção natural ter aumentado o tamanho e o peso do seu corpo em gerações consecutivas – suas pernas tenham passado a ser mais utilizadas e suas asas menos, até que eles se tornaram incapazes de voar.

(*) Nome genérico das aves da família Otididae.”

“Como eu acredito que nossos animais domésticos foram originalmente escolhidos pelo ser humano primitivo por causa da facilidade com que eram criados em confinamento e por serem úteis, e não por ter sido descoberto mais tarde que poderiam realizar o transporte a longas distâncias, acredito que a capacidade comum e extraordinária de nossos animais domésticos de não apenas resistir aos climas mais diversos, mas também de manterem-se perfeitamente férteis (um teste muito mais forte) em qualquer um deles, possa ser usada como um argumento para defender a idéia de que muitos outros animais – neste caso em estado natural – poderiam facilmente suportar diversos tipos de clima.”

“CORRELAÇÕES DE CRESCIMENTO Com essa expressão quero dizer que as partes do organismo todo estão tão ligadas umas às outras durante seu crescimento e desenvolvimento que, quando ocorrem pequenas variações em qualquer dessas partes e essas são acumuladas através da seleção natural, outras partes também são modificadas. Esse é um assunto muito importante e compreendido de forma bastante imperfeita.”

“O que é mais comum do que a relação entre os olhos azuis e a surdez dos gatos ou do que a cor dos cascos e o sexo feminino das tartarugas? Ou, nos pombos, a relação entre os pés com penas e a pele entre os dedos externos, bem como a presença de mais ou menos penugem nas aves jovens quando saem de seus ovos com a futura cor de sua plumagem; ou, mais uma vez, a relação entre os pêlos e os dentes do cão sem pêlos da Turquia, ainda que neste caso a homologia tenha relevância? Em relação a este último caso de correlação, acredito que dificilmente poderia ser algo acidental que as duas ordens de mamíferos mais anômalas em suas coberturas dérmicas, como, por exemplo, os cetáceos (baleias) e a ordem Edentata (tatus, pangolins, etc.), fossem também as ordens com mais formas anômalas de dentição.”

“Geoffroy Sênior e Goethe(*) propuseram, mais ou menos na mesma época, a lei da compensação ou do equilíbrio do crescimento; ou, conforme disse Goethe, ‘a fim de gastar de um lado, a natureza é forçada a economizar do outro’.

(*) A metamorfose das plantas, 1790.”

6. CONTROVÉRSIAS ENVOLVENDO A TEORIA

Argumentação pouco convincente.

E FEZ-SE: “Sabermos como um nervo passa a ser sensível à luz é algo que nos desafia tanto quanto o faz não sabermos como a própria vida originou-se; mas reparem que [diversos fatos me fazem suspeitar que]¹ qualquer nervo sensível pode tornar-se sensível à luz e, da mesma forma, às vibrações mais grosseiras do ar que produzem o som.”

¹ Darwin escreve mal e de maneira hesitante. O trecho entre colchetes poderia ser facilmente omitido, ganhando-se em concisão e confiança.

“É preciso que a razão conquiste a imaginação; e, já que eu mesmo senti a profundidade dessa dificuldade, não me surpreende que as pessoas hesitem em conceder tamanha amplitude ao princípio da seleção natural.” Irônico que esse comentário parta de um superempírico: aquele que só afirma o que vê, não se arriscando a tecer conclusões lógicas sem dados imediatos. Sem falar que parece uma obra medieval, überpreocupada com deus.

7. INSTINTO

“Uma pequena dose de juízo ou razão, como afirma Pierre Huber,(*) muitas vezes entra em jogo, mesmo em animais que estão na base da escala da Natureza.

(*) Jean-Pierre Huber (1777-1840), entomólogo suíço, autor de diversos estudos sobre comportamento de insetos, seguiu a carreira do pai.”

“Se Mozart, em vez de tocar piano aos 3 anos de idade admiravelmente apesar da pouca destreza, já tivesse produzido música sem nenhuma instrução anterior, poderíamos então dizer com convicção que ele o teria feito de forma instintiva.”

“o medo do [em relação ao] homem é algo adquirido lentamente por vários animais que habitam ilhas desertas”

“o corvo, tão cauteloso na Inglaterra, é muito dócil na Noruega, tal como a gralha-cinzenta o é no Egito.”

“Le Roy descreve um cão cujo bisavô era um lobo; este cão mostrou um traço de sua ascendência selvagem somente de uma maneira: ele não ia em linha reta até seu dono quando era chamado.”

“nenhum animal é mais difícil de amansar do que os filhotes do coelho selvagem, mas quase nenhum outro animal é tão dócil quanto os filhotes do coelho domesticado”

“É praticamente impossível duvidar que o amor pelas pessoas se tornou algo instintivo nos cães. Todos os lobos, raposas, chacais e espécies do gênero Felis (gatos), quando mantidos mansos, ficam mais propensos a atacar aves, ovelhas e porcos; e descobrimos que essa tendência é algo incurável nos cães que foram trazidos ainda jovens para casa (Inglaterra) de regiões como a Terra do Fogo e a Austrália, onde os selvagens não os criavam como animais domésticos. Por outro lado, nossos cães domésticos raramente precisam, mesmo quando muito jovens, ser ensinados a não atacar aves, ovelhas e porcos!” “Por outro lado, as galinhas jovens perderam, inteiramente pelo hábito, o medo do cão e do gato”

(*) “Thomas Mayo Brewer (1814-1880), naturalista norte-americano, co-autor dos 3 volumes de A History of North American Birds (1874).”

“Muitas abelhas são parasitas e sempre põem seus ovos em ninhos de abelhas de outros tipos. Esse caso é mais notável do que o do cuco; pois não apenas os instintos dessas abelhas foram modificados de acordo com seus hábitos parasitários, mas também suas estruturas; isso porque elas não possuem o aparato de coleta de pólen que seria necessário para armazenar alimentos para sua própria prole.”

“As formigas são tão absolutamente desamparadas que, quando Huber isolou 30 delas sem nenhuma escrava, mas com os alimentos que mais gostam e com suas larvas e pupas para estimulá-las a trabalhar, elas não fizeram nada; não conseguiram nem se alimentar, e muitas morreram de fome. Huber, em seguida, introduziu uma única escrava (F. fusca), e ela imediatamente começou a trabalhar, alimentando e salvando os sobreviventes; construiu alguns alvéolos, cuidou das larvas e colocou a casa em ordem.” Jean-Pierre Huber, Recherches sur les Moeurs des Formis Indigenes [Natural History of Ants], 1810.

(*) “O tradutor do livro para o inglês, J.R. Johnson, tomou a decisão de substituir a expressão ‘formigas cinza-escuro’ por ‘negro’ e ‘formigas negras’ (negro e negro ant), por causa da ‘coloração’ e ‘situação mantida na colônia’ (de subserviência), uma clara referência à condição de escravizada. O tradutor registrou a ‘liberdade’ da tradução em nota, à página 252. No entanto, nem mesmo na versão inglesa aparecem os termos relativos à escravidão, como ‘escravo’, ‘senhor’ ou ‘mestre’. Darwin tinha um exemplar do original em francês, mas utilizou alguns dos termos de comentadores desde que a primeira resenha do livro foi publicada em inglês, em 1812. (…) Huber foi muito criticado por ‘naturalizar’ a escravidão, como se sua descrição fosse apenas obra de sua imaginação, mas provou ter sido um observador muito rigoroso.”

“Eu abri 14 formigueiros de F. sanguinea e encontrei algumas poucas escravas em todos eles. Machos e fêmeas férteis da espécie escrava são encontrados somente em suas próprias comunidades e nunca são vistos nos formigueiros da F. sanguinea. As formigas escravas são pretas e têm quase a metade do tamanho de suas mestras vermelhas”

“na Suíça, as escravas costumam trabalhar com suas mestras para construir o formigueiro, e elas são as únicas que abrem e fecham as portas pela manhã e à noite; e, conforme afirmado expressamente por Huber, a principal função delas é buscar pulgões. Esta diferença nos costumes habituais entre mestras e escravas nos dois países está ligada, provavelmente, ao fato de as escravas serem capturadas em maior número na Suíça em comparação com a Inglaterra.”

“Isso me deixou curioso para saber se a F. sanguinea era capaz de distinguir as pupas da F. fusca, que habitualmente são escravizadas, da pequena e furiosa F. flava, que é raramente capturada; ficou claro que elas conseguiam diferenciá-las de imediato, pois notei que, de forma ansiosa e com rapidez, elas capturavam as

pupas de F. fusca, mas ficavam muito aterrorizadas quando se deparavam com as pupas, ou até mesmo com a terra do formigueiro da F. flava, e rapidamente fugiam; mas após cerca de um quarto de hora, logo depois de todas as pequenas formigas amarelas terem ido embora, elas criavam coragem e carregavam as pupas para casa.”

(*) “Sabe-se hoje que a F. sanguinea nem sempre captura outras formigas, pois pode se autossustentar. Já as formigas descritas no início da seção como F. rufescens têm hábitos bem distintos e são incapazes de sobreviver sem a ajuda de formigas de outras espécies. Essa relação ecológica é denominada ‘esclavagismo’, e em outras línguas se utiliza o termo dulosis, derivado do vocábulo grego DOULOS = escravos.”

(*) “As melíponas são abelhas americanas sem ferrão, que ocorrem do México até a Argentina, sendo conhecidas entre nós com os nomes mandaçaia, urucu, etc.” Afinal, abelha é a própria definição de “com ferrão”!

“A maneira como as abelhas constroem é curiosa; elas sempre fazem uma parede grosseira que é de 10 a 20 vezes mais espessa que a parede excessivamente fina do alvéolo pronto, a qual, em última análise, será deixada assim. Nós podemos entender como elas trabalham ao imaginarmos pedreiros que primeiro juntam cimento em uma parede grossa e logo em seguida começam a aplainá-la igualmente em ambos os lados próximos ao solo até que, por fim, obtenham no centro uma parede lisa e muito fina; no processo, os pedreiros empilham o cimento retirado ao topo da parede e ao mesmo tempo adicionam cimento fresco.”

“Por este modo singular de construção, o favo ganha força contínua, com a máxima economia final de cera.(*)(**)

(*) Darwin parte da conjectura de que o favo de mel da abelha-europeia é a forma mais econômica de obter máximo poder de estocagem com mínimo consumo de cera. Trata-se de um problema matemático estudado desde a Grécia Antiga, relacionando menor perímetro com máxima área, visto como uma solução divina. Darwin procura mostrar como o mesmo problema pode ter sido solucionado pela ação da seleção natural, sem intervenção divina, o que provocou grande ira nos círculos religiosos.

(**) O matemático húngaro László Tóth (1915-2005) demonstrou, em 1965, que a afirmação não é rigorosamente correta para as 3 dimensões.”

(*) “O fóssil mais antigo de abelhas foi datado recentemente ao redor de 100 milhões de anos, e tem características semelhantes às das vespas, embora tenha adaptações para transporte de pólen. Esse fato indica que a evolução das abelhas certamente ocorreu em período muito anterior ao imaginado por Darwin”

8. HIBRIDISMO

“Acredito que a importância do fato de que os híbridos costumam ser estéreis tem sido muito subestimada por alguns autores modernos.”

9. A IMPERFEIÇÃO DO REGISTRO GEOLÓGICO

Parte mais fraca do livro!

10. A SUCESSÃO GEOLÓGICA DOS SERES ORGÂNICOS

(…)

11 & 12. DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

(…)

13. AFINIDADES MÚTUAS DOS SERES ORGÂNICOS – MORFOLOGIA – EMBRIOLOGIA – ÓRGÃOS RUDIMENTARES

(…)

14. RECAPITULAÇÃO E CONCLUSÃO

(…)

GLOSSÁRIO

chanfrar: indentar

chanfro: que foi cortado de maneira oblíqua

cunha: instrumento para rachar lenha, de ferro ou madeira

rômbico: losango

tentilhão: “é uma ave de pequeno porte, com cerca de 15cm, da família dos Fringilídeos, de coloração bastante viva e canto bem sonoro. Habita toda a Europa, Ásia Central e norte da África, em zonas florestais e de pinheirais. Se alimenta de sementes e insetos. É também chamada de pintarroxo; chopin; pincha; chincho; patachim; chapin, etc.” Literalmente, AVE Maria, quantos nomes!

visco: “Planta da família das viscáceas” (chamada na obra de parasita; nas notas de hemiparasita)

Lista das obras grifadas em vermelho, em ordem alfabética:

BREWER, A History of North American Birds

CUVIER, ‘Observations sur le cadavre d’une femme connue à Paris et à Londres sous le nom de Vénus hottentote’

DE CANDOLLE & DE CANDOLLE, Prodromus systematis naturalis regni vegetabilis

GOETHE, A metamorphose das plantas

GRAY, Manual of the Flora of the Northern United States

HUBER, Recherches sur les Moeurs des Formis Indigenes [Natural History of Ants]

LYELL, Principles of Geology (3 vols.)

SAINT-HILAIRE, Cours de l’histoire naturelle des mammifères

VAN MONS, Abres fruitiers (livro sobre maçãs e pêras!)

WESTWOOD, An Introduction to the Modern Classification of Insects

YOUATT, William. Sheep: Their Breeds, Management, and Diseases, to Which Is Added the Mountain Shepherd’s Manual

27 de June de 2024, 20:09 0 boosts 0 favoritos

AS YOU LIKE IT

ACT 1

SCENE I. Orchard of Oliver’s house.

ORLANDO

“This is it, Adam, that grieves me; and the spirit of my father, which I think is within me, begins to mutiny against this servitude: I will no longer endure it, though yet I know no wise remedy how to avoid it.”

“OLIVER

Now, sir! what make you here?

ORLANDO

Nothing: I am not taught to make any thing.

OLIVER

What mar you then, sir?

ORLANDO

Marry, sir, I am helping you to mar that which God

made, a poor unworthy brother of yours, with idleness.”

“ORLANDO

Shall I keep your hogs and eat husks with them?

What prodigal portion have I spent, that I should

come to such penury?”

“The courtesy of nations allows you my better, in that you are the first-born; but the same tradition takes not away my blood, were there twenty brothers betwixt us: I have as much of my father in me as you; albeit, I confess, your coming before me is nearer to his reverence.”

“Wert thou not my brother, I would not take this hand from thy throat till this other had pulled out thy tongue for saying so”

“OLIVER

And what wilt thou do? beg, when that is spent?

Well, sir, get you in: I will not long be troubled

with you; you shall have some part of your will: I

pray you, leave me.”

“OLIVER

Get you with him, you old dog.

ADAM

Is ‘old dog’ my reward? Most true, I have lost my

teeth in your service. God be with my old master!

he would not have spoke such a word.

Exeunt ORLANDO and ADAM”

“CHARLES

They say he is already in the forest of Arden, and

a many merry men with him; and there they live like

the old Robin Hood of England: they say many young

gentlemen flock to him every day, and fleet the time

carelessly, as they did in the golden world.”

“I’ll tell thee, Charles: it is the stubbornest young fellow of France, full of ambition, an envious emulator of every man’s good parts, a secret and villanous contriver against me his natural brother: therefore use thy discretion; I had as lief thou didst break his neck as his finger. And thou wert best look to’t; for if thou dost him any slight disgrace or if he do not mightily grace himself on thee, he will practise against thee by poison, entrap thee by some treacherous device and never leave thee till he hath ta’en thy life by some indirect means or other; for, I assure thee, and almost with tears I speak it, there is not one so young and so villanous this day living. I speak but brotherly of him; but should I anatomize him to thee as he is, I must blush and weep and thou must look pale and wonder.”

“Exit CHARLES

Now will I stir this gamester: I hope I shall see

an end of him; for my soul, yet I know not why,

hates nothing more than he. Yet he’s gentle, never

schooled and yet learned, full of noble device, of

all sorts enchantingly beloved, and indeed so much

in the heart of the world, and especially of my own

people, who best know him, that I am altogether

misprised: but it shall not be so long; this

wrestler shall clear all: nothing remains but that

I kindle the boy thither; which now I’ll go about.

Exit”

SCENE II. Lawn before the Duke’s palace.

“for always the dulness of the fool is the whetstone of the wits.”

“ROSALIND

But is there any else longs to see this broken music

in his sides? is there yet another dotes upon

rib-breaking? Shall we see this wrestling, cousin?

LE BEAU

You must, if you stay here; for here is the place

appointed for the wrestling, and they are ready to

perform it.”

“DUKE FREDERICK

You will take little delight in it, I can tell you;

there is such odds in the man. In pity of the

challenger’s youth I would fain dissuade him, but he

will not be entreated. Speak to him, ladies; see if

you can move him.”

“ROSALIND

Young man, have you challenged Charles the wrestler?

ORLANDO

No, fair princess; he is the general challenger: I

come but in, as others do, to try with him the

strength of my youth.

CELIA

Young gentleman, your spirits are too bold for your

years. You have seen cruel proof of this man’s

strength: if you saw yourself with your eyes or

knew yourself with your judgment, the fear of your

adventure would counsel you to a more equal

enterprise. We pray you, for your own sake, to

embrace your own safety and give over this attempt.”

“ORLANDO

I beseech you, punish me not with your hard

thoughts; wherein I confess me much guilty, to deny

so fair and excellent ladies any thing. But let

your fair eyes and gentle wishes go with me to my

trial: wherein if I be foiled, there is but one

shamed that was never gracious; if killed, but one

dead that was willing to be so: I shall do my

friends no wrong, for I have none to lament me, the

world no injury, for in it I have nothing; only in

the world I fill up a place, which may be better

supplied when I have made it empty.”

“They wrestle

ROSALIND

O excellent young man!

CELIA

If I had a thunderbolt in mine eye, I can tell who

should down.

Shout. CHARLES is thrown

DUKE FREDERICK

No more, no more.

ORLANDO

Yes, I beseech your grace: I am not yet well breathed.”

“DUKE FREDERICK

I would thou hadst been son to some man else:

The world esteem’d thy father honourable,

But I did find him still mine enemy:

Thou shouldst have better pleased me with this deed,

Hadst thou descended from another house.

But fare thee well; thou art a gallant youth:

I would thou hadst told me of another father.

Exeunt DUKE FREDERICK, train, and LE BEAU”

“CELIA

Gentle cousin,

Let us go thank him and encourage him:

My father’s rough and envious disposition

Sticks me at heart. Sir, you have well deserved:

If you do keep your promises in love

But justly, as you have exceeded all promise,

Your mistress shall be happy.”

“ORLANDO

What passion hangs these weights upon my tongue?

I cannot speak to her, yet she urged conference.

O poor Orlando, thou art overthrown!

Or Charles or something weaker masters thee.”

“LE BEAU

Good sir, I do in friendship counsel you

To leave this place. Albeit you have deserved

High commendation, true applause and love,

Yet such is now the duke’s condition

That he misconstrues all that you have done.

The duke is humorous; what he is indeed,

More suits you to conceive than I to speak of.”

“Thus must I from the smoke into the smother;

From tyrant duke unto a tyrant brother:

But heavenly Rosalind!

Exit”

SCENE III. A room in the palace.

“is it possible, on such a sudden, you should fall into so strong a liking with old Sir Rowland’s youngest son?”

“DUKE FREDERICK

Mistress, dispatch you with your safest haste

And get you from our court.

ROSALIND

Me, uncle?

DUKE FREDERICK

You, cousin

Within these ten days if that thou be’st found

So near our public court as twenty miles,

Thou diest for it.”

“DUKE FREDERICK

Thou art thy father’s daughter; there’s enough.”

“Treason is not inherited, my lord;

Or, if we did derive it from our friends,

What’s that to me? my father was no traitor:

Then, good my liege, mistake me not so much

To think my poverty is treacherous.”

“CELIA

No, hath not? Rosalind lacks then the love

Which teacheth thee that thou and I am one:

Shall we be sunder’d? shall we part, sweet girl?

No: let my father seek another heir.

Therefore devise with me how we may fly,

Whither to go and what to bear with us;

And do not seek to take your change upon you,

To bear your griefs yourself and leave me out;

For, by this heaven, now at our sorrows pale,

Say what thou canst, I’ll go along with thee.”

“ROSALIND

Alas, what danger will it be to us,

Maids as we are, to travel forth so far!

Beauty provoketh thieves sooner than gold.

CELIA

I’ll put myself in poor and mean attire

And with a kind of umber smirch my face;

The like do you: so shall we pass along

And never stir assailants.”

“CELIA

What shall I call thee when thou art a man?

ROSALIND

I’ll have no worse a name than Jove’s own page;

And therefore look you call me Ganymede.

But what will you be call’d?

CELIA

Something that hath a reference to my state

No longer Celia, but Aliena.

ROSALIND

But, cousin, what if we assay’d to steal

The clownish fool out of your father’s court?

Would he not be a comfort to our travel?

CELIA

He’ll go along o’er the wide world with me;

Leave me alone to woo him. Let’s away,

And get our jewels and our wealth together,

Devise the fittest time and safest way

To hide us from pursuit that will be made

After my flight. Now go we in content

To liberty and not to banishment.

Exeunt”

ACT 2

SCENE I. The Forest of Arden.

“DUKE SENIOR

Now, my co-mates and brothers in exile,

Hath not old custom made this life more sweet

Than that of painted pomp? Are not these woods

More free from peril than the envious court?

Here feel we but the penalty of Adam,

The seasons’ difference, as the icy fang

And churlish chiding of the winter’s wind,

Which, when it bites and blows upon my body,

Even till I shrink with cold, I smile and say

‘This is no flattery: these are counsellors

That feelingly persuade me what I am.’”

“And this our life exempt from public haunt

Finds tongues in trees, books in the running brooks,

Sermons in stones and good in every thing.

I would not change it.

AMIENS

Happy is your grace,

That can translate the stubbornness of fortune

Into so quiet and so sweet a style.”

SCENE II. A room in the palace.

(…)

SCENE III. Before OLIVER’S house.

“Know you not, master, to some kind of men

Their graces serve them but as enemies?

No more do yours: your virtues, gentle master,

Are sanctified and holy traitors to you.

O, what a world is this, when what is comely

Envenoms him that bears it!”

“Thou art not for the fashion of these times,

Where none will sweat but for promotion,

And having that, do choke their service up

Even with the having: it is not so with thee.”

“ADAM

Master, go on, and I will follow thee,

To the last gasp, with truth and loyalty.

From seventeen years till now almost fourscore

Here lived I, but now live here no more.

At seventeen years many their fortunes seek;

But at fourscore it is too late a week:

Yet fortune cannot recompense me better

Than to die well and not my master’s debtor.

Exeunt”

SCENE IV. The Forest of Arden.

(…)

SCENE V. The Forest.

(…)

SCENE V. The Forest.

ORLANDO

“I will here be with thee presently;

and if I bring thee not something to eat, I will

give thee leave to die: but if thou diest before I

come, thou art a mocker of my labour.”

SCENE VII. The forest.

JAQUES

“The motley fool thus moral on the time,

My lungs began to crow like chanticleer,

That fools should be so deep-contemplative,

And I did laugh sans intermission

An hour by his dial. O noble fool!

A worthy fool! Motley’s the only wear.”

“O that I were a fool! I am ambitious for a motley coat.”

“…I must have liberty

Withal, as large a charter as the wind,

To blow on whom I please; for so fools have;

And they that are most galled with my folly,

They most must laugh. And why, sir, must they so?

The “why’ is plain as way to parish church:

He that a fool doth very wisely hit

Doth very foolishly, although he smart,

Not to seem senseless of the bob: if not,

The wise man’s folly is anatomized

Even by the squandering glances of the fool.

Invest me in my motley; give me leave

To speak my mind, and I will through and through

Cleanse the foul body of the infected world,

If they will patiently receive my medicine.”

DUKE SENIOR

“For thou thyself hast been a libertine,

As sensual as the brutish sting itself;

And all the embossed sores and headed evils,

That thou with licence of free foot hast caught,

Wouldst thou disgorge into the general world.”

“What woman in the city do I name,

When that I say the city-woman bears

The cost of princes on unworthy shoulders?

Who can come in and say that I mean her,

When such a one as she such is her neighbour?

Or what is he of basest function

That says his bravery is not of my cost,

Thinking that I mean him, but therein suits

His folly to the mettle of my speech?

There then; how then? what then? Let me see wherein

My tongue hath wrong’d him: if it do him right,

Then he hath wrong’d himself; if he be free,

Why then my taxing like a wild-goose flies,

Unclaim’d of any man. But who comes here?”

“ORLANDO

I almost die for food; and let me have it.

DUKE SENIOR

Sit down and feed, and welcome to our table.”

“DUKE SENIOR

Thou seest we are not all alone unhappy:

This wide and universal theatre

Presents more woeful pageants than the scene

Wherein we play in.

JAQUES

All the world’s a stage,

And all the men and women merely players:

They have their exits and their entrances;

And one man in his time plays many parts,

His acts being seven ages. At first the infant,

Mewling and puking in the nurse’s arms.

And then the whining school-boy, with his satchel

And shining morning face, creeping like snail

Unwillingly to school. And then the lover,

Sighing like furnace, with a woeful ballad

Made to his mistress’ eyebrow. Then a soldier,

Full of strange oaths and bearded like the pard,

Jealous in honour, sudden and quick in quarrel,

Seeking the bubble reputation

Even in the cannon’s mouth. And then the justice,

In fair round belly with good capon lined,

With eyes severe and beard of formal cut,

Full of wise saws and modern instances;

And so he plays his part. The sixth age shifts

Into the lean and slipper’d pantaloon,

With spectacles on nose and pouch on side,

His youthful hose, well saved, a world too wide

For his shrunk shank; and his big manly voice,

Turning again toward childish treble, pipes

And whistles in his sound. Last scene of all,

That ends this strange eventful history,

Is second childishness and mere oblivion,

Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.”

“Most friendship is feigning, most loving mere folly:

Then, heigh-ho, the holly!

This life is most jolly.

Freeze, freeze, thou bitter sky,

That dost not bite so nigh

As benefits forgot:”

“…I am the duke

That loved your father: the residue of your fortune,

Go to my cave and tell me. Good old man,

Thou art right welcome as thy master is.

Support him by the arm….”

ACT III

SCENE I. A room in the palace.

(…)

SCENE II. The forest.

“TOUCHSTONE

For a taste:

If a hart do lack a hind,

Let him seek out Rosalind.

If the cat will after kind,

So be sure will Rosalind.

Winter garments must be lined,

So must slender Rosalind.

They that reap must sheaf and bind;

Then to cart with Rosalind.

Sweetest nut hath sourest rind,

Such a nut is Rosalind.

He that sweetest rose will find

Must find love’s prick and Rosalind.

This is the very false gallop of verses: why do you

infect yourself with them?

ROSALIND

Peace, you dull fool! I found them on a tree.

TOUCHSTONE

Truly, the tree yields bad fruit.”

“ROSALIND

I was seven of the nine days out of the wonder

before you came; for look here what I found on a

palm-tree. I was never so be-rhymed since

Pythagoras’ time, that I was an Irish rat, which I

can hardly remember.

CELIA

Trow you who hath done this?

ROSALIND

Is it a man?

CELIA

And a chain, that you once wore, about his neck.

Change you colour?

ROSALIND

I prithee, who?

CELIA

O Lord, Lord! it is a hard matter for friends to

meet; but mountains may be removed with earthquakes

and so encounter.”

“ROSALIND

Good my complexion! dost thou think, though I am

caparisoned like a man, I have a doublet and hose in

my disposition? One inch of delay more is a

South-sea of discovery; I prithee, tell me who is it

quickly, and speak apace. I would thou couldst

stammer, that thou mightst pour this concealed man

out of thy mouth, as wine comes out of a narrow-

mouthed bottle, either too much at once, or none at

all. I prithee, take the cork out of thy mouth that

may drink thy tidings.

CELIA

So you may put a man in your belly.

ROSALIND

Is he of God’s making? What manner of man? Is his

head worth a hat, or his chin worth a beard?

CELIA

Nay, he hath but a little beard.

ROSALIND

Why, God will send more, if the man will be

thankful: let me stay the growth of his beard, if

thou delay me not the knowledge of his chin.

CELIA

It is young Orlando, that tripped up the wrestler’s

heels and your heart both in an instant.”

“ROSALIND

Alas the day! what shall I do with my doublet and

hose? What did he when thou sawest him? What said

he? How looked he? Wherein went he? What makes

him here? Did he ask for me? Where remains he?

How parted he with thee? and when shalt thou see

him again? Answer me in one word.

CELIA

You must borrow me Gargantua’s mouth first: ‘tis a

word too great for any mouth of this age’s size. To

say ay and no to these particulars is more than to

answer in a catechism.

ROSALIND

But doth he know that I am in this forest and in

man’s apparel? Looks he as freshly as he did the

day he wrestled?

CELIA

It is as easy to count atomies as to resolve the

propositions of a lover; but take a taste of my

finding him, and relish it with good observance.

I found him under a tree, like a dropped acorn.

ROSALIND

It may well be called Jove’s tree, when it drops

forth such fruit.”

“Enter ORLANDO and JAQUES”

“JAQUES

I pray you, mar no more trees with writing

love-songs in their barks.

ORLANDO

I pray you, mar no more of my verses with reading

them ill-favouredly.”

“JAQUES

Rosalind is your love’s name?

ORLANDO

Yes, just.

JAQUES

I do not like her name.

ORLANDO

There was no thought of pleasing you when she was

christened.

JAQUES

What stature is she of?

ORLANDO

Just as high as my heart.

JAQUES

You are full of pretty answers. Have you not been

acquainted with goldsmiths’ wives, and conned them

out of rings?”

“JAQUES

The worst fault you have is to be in love.

ORLANDO

‘Tis a fault I will not change for your best virtue.

I am weary of you.

JAQUES

By my troth, I was seeking for a fool when I found

you.

ORLANDO

He is drowned in the brook: look but in, and you

shall see him.

JAQUES

There I shall see mine own figure.

ORLANDO

Which I take to be either a fool or a cipher.

JAQUES

I’ll tarry no longer with you: farewell, good

Signior Love.”

“ORLANDO

Who ambles Time withal?

ROSALIND

With a priest that lacks Latin and a rich man that

hath not the gout, for the one sleeps easily because

he cannot study, and the other lives merrily because

he feels no pain, the one lacking the burden of lean

and wasteful learning, the other knowing no burden

of heavy tedious penury; these Time ambles withal.”

“ORLANDO

Your accent is something finer than you could

purchase in so removed a dwelling.”

“ROSALIND

No, I will not cast away my physic but on those that

are sick. There is a man haunts the forest, that

abuses our young plants with carving ‘Rosalind’ on

their barks; hangs odes upon hawthorns and elegies

on brambles, all, forsooth, deifying the name of

Rosalind: if I could meet that fancy-monger I would

give him some good counsel, for he seems to have the

quotidian of love upon him.

ORLANDO

I am he that is so love-shaked: I pray you tell me

your remedy.”

“ROSALIND

A lean cheek, which you have not, a blue eye and

sunken, which you have not, an unquestionable

spirit, which you have not, a beard neglected,

which you have not; but I pardon you for that, for

simply your having in beard is a younger brother’s

revenue: then your hose should be ungartered, your

bonnet unbanded, your sleeve unbuttoned, your shoe

untied and every thing about you demonstrating a

careless desolation; but you are no such man; you

are rather point-device in your accoutrements as

loving yourself than seeming the lover of any other.”

“ROSALIND

Love is merely a madness, and, I tell you, deserves

as well a dark house and a whip as madmen do: and

the reason why they are not so punished and cured

is, that the lunacy is so ordinary that the whippers

are in love too. Yet I profess curing it by counsel.”

“…would now like him, now loathe

him; then entertain him, then forswear him; now weep

for him, then spit at him; that I drave my suitor

from his mad humour of love to a living humour of

madness; which was, to forswear the full stream of

the world, and to live in a nook merely monastic.

And thus I cured him; and this way will I take upon

me to wash your liver as clean as a sound sheep’s

heart, that there shall not be one spot of love in’t.

ORLANDO

I would not be cured, youth.

ROSALIND

I would cure you, if you would but call me Rosalind

and come every day to my cote and woo me.

ORLANDO

Now, by the faith of my love, I will: tell me

where it is.

ROSALIND

Go with me to it and I’ll show it you and by the way

you shall tell me where in the forest you live.

Will you go?

ORLANDO

With all my heart, good youth.

ROSALIND

Nay you must call me Rosalind. Come, sister, will you go?

Exeunt”

SCENE III. The forest.

“TOUCHSTONE

When a man’s verses cannot be understood, nor a

man’s good wit seconded with the forward child

Understanding, it strikes a man more dead than a

great reckoning in a little room. Truly, I would

the gods had made thee poetical.

AUDREY

I do not know what ‘poetical’ is: is it honest in

deed and word? is it a true thing?

TOUCHSTONE

No, truly; for the truest poetry is the most

feigning; and lovers are given to poetry, and what

they swear in poetry may be said as lovers they do feign.

AUDREY

Do you wish then that the gods had made me poetical?

TOUCHSTONE

I do, truly; for thou swearest to me thou art

honest: now, if thou wert a poet, I might have some

hope thou didst feign.

AUDREY

Would you not have me honest?

TOUCHSTONE

No, truly, unless thou wert hard-favoured; for

honesty coupled to beauty is to have honey a sauce to sugar.

JAQUES

[Aside] A material fool!

AUDREY

Well, I am not fair; and therefore I pray the gods

make me honest.

TOUCHSTONE

Truly, and to cast away honesty upon a foul slut

were to put good meat into an unclean dish.

AUDREY

I am not a slut, though I thank the gods I am foul.

TOUCHSTONE

Well, praised be the gods for thy foulness!

sluttishness may come hereafter. But be it as it may

be, I will marry thee, and to that end I have been

with Sir Oliver Martext, the vicar of the next

village, who hath promised to meet me in this place

of the forest and to couple us.

JAQUES

[Aside] I would fain see this meeting.“

“…As horns are odious, they are necessary. It is said, ‘many a man knows no end of his goods:’ right; many a man has good horns, and knows no end of them. Well, that is the dowry of his wife; ‘tis none of his own getting. Horns? Even so. Poor men alone? No, no; the noblest deer hath them as huge as the rascal. Is the single man therefore blessed? No: as a walled town is more worthier than a village, so is the forehead of a married man more honourable than the bare brow of a bachelor; and by how much defence is better than no skill, by so much is a horn more precious than to want. Here comes Sir Oliver.”

“JAQUES

Will you be married, motley?

TOUCHSTONE

As the ox hath his bow, sir, the horse his curb and

the falcon her bells, so man hath his desires; and

as pigeons bill, so wedlock would be nibbling.”

“[Aside] I am not in the mind but I were better to be

married of him than of another: for he is not like

to marry me well; and not being well married, it

will be a good excuse for me hereafter to leave my wife.”

SCENE IV. The forest.

“CELIA

Yes; I think he is not a pick-purse nor a

horse-stealer, but for his verity in love, I do

think him as concave as a covered goblet or a

worm-eaten nut.”

SCENE V. Another part of the forest.

“Scratch thee but with a pin, and there remains

Some scar of it; lean but upon a rush,

The cicatrice and capable impressure

Thy palm some moment keeps; but now mine eyes,

Which I have darted at thee, hurt thee not,

Nor, I am sure, there is no force in eyes

That can do hurt.”

“You are a thousand times a properer man

Than she a woman: ‘tis such fools as you

That makes the world full of ill-favour’d children:

‘Tis not her glass, but you, that flatters her;

And out of you she sees herself more proper

Than any of her lineaments can show her.

But, mistress, know yourself: down on your knees,

And thank heaven, fasting, for a good man’s love:

For I must tell you friendly in your ear,

Sell when you can: you are not for all markets:

Cry the man mercy; love him; take his offer:

Foul is most foul, being foul to be a scoffer.

So take her to thee, shepherd: fare you well.”

“Exeunt ROSALIND, CELIA and CORIN

PHEBE

Dead Shepherd, now I find thy saw of might,

‘Who ever loved that loved not at first sight?’”

“Silvius, the time was that I hated thee,

And yet it is not that I bear thee love;

But since that thou canst talk of love so well,

Thy company, which erst was irksome to me,

I will endure, and I’ll employ thee too:

But do not look for further recompense

Than thine own gladness that thou art employ’d.”

“PHEBE

Know’st now the youth that spoke to me erewhile?

SILVIUS

Not very well, but I have met him oft;

And he hath bought the cottage and the bounds

That the old carlot once was master of.”

“PHEBE

Think not I love him, though I ask for him:

‘Tis but a peevish boy; yet he talks well;

But what care I for words? yet words do well

When he that speaks them pleases those that hear.

It is a pretty youth: not very pretty:

But, sure, he’s proud, and yet his pride becomes him:

He’ll make a proper man: the best thing in him

Is his complexion; and faster than his tongue

Did make offence his eye did heal it up.

He is not very tall; yet for his years he’s tall:

His leg is but so so; and yet ‘tis well:

There was a pretty redness in his lip,

A little riper and more lusty red

Than that mix’d in his cheek; ‘twas just the difference

Between the constant red and mingled damask.

There be some women, Silvius, had they mark’d him

In parcels as I did, would have gone near

To fall in love with him; but, for my part,

I love him not nor hate him not; and yet

I have more cause to hate him than to love him:

For what had he to do to chide at me?

He said mine eyes were black and my hair black:

And, now I am remember’d, scorn’d at me:

I marvel why I answer’d not again:

But that’s all one; omittance is no quittance.

I’ll write to him a very taunting letter,

And thou shalt bear it: wilt thou, Silvius?

SILVIUS

Phebe, with all my heart.”

ACT IV

SCENE I. The forest.

“ORLANDO

Good day and happiness, dear Rosalind!

JAQUES

Nay, then, God be wi’ you, an you talk in blank verse.

Exit”

“The poor world is almost six thousand years old, and in all this time there was not any man died in his own person, videlicit, in a love-cause. Troilus had his brains dashed out with a Grecian club; yet he did what he could to die before, and he is one of the patterns of love. Leander, he would have lived many a fair year, though Hero had turned nun, if it had not been for a hot midsummer night; for, good youth, he went but forth to wash him in the Hellespont and being taken with the cramp was drowned and the foolish coroners of that age found it was ‘Hero of Sestos.’ But these are all lies: men have died from time to time and worms have eaten them, but not for love.”

“men are April when they woo, December when they wed:

maids are May when they are maids, but the sky

changes when they are wives. I will be more jealous

of thee than a Barbary cock-pigeon over his hen,

more clamorous than a parrot against rain, more

new-fangled than an ape, more giddy in my desires

than a monkey: I will weep for nothing, like Diana

in the fountain, and I will do that when you are

disposed to be merry; I will laugh like a hyen, and

that when thou art inclined to sleep.”

“O, that woman that cannot make her fault her husband’s occasion, let her never nurse her child herself, for she will breed it like a fool!”

“my affection hath an unknown bottom, like the bay of Portugal.”

SCENE II. The forest.

(cantado)

“Take thou no scorn to wear the horn;

It was a crest ere thou wast born:

Thy father’s father wore it,

And thy father bore it:

The horn, the horn, the lusty horn

Is not a thing to laugh to scorn.”

SCENE III. The forest.

“CELIA

Are you his brother?

ROSALIND

Wast you he rescued?

CELIA

Was’t you that did so oft contrive to kill him?

OLIVER

‘Twas I; but ‘tis not I I do not shame

To tell you what I was, since my conversion

So sweetly tastes, being the thing I am.

ROSALIND

But, for the bloody napkin?

OLIVER

By and by.

When from the first to last betwixt us two

Tears our recountments had most kindly bathed,

As how I came into that desert place:–

In brief, he led me to the gentle duke,

Who gave me fresh array and entertainment,

Committing me unto my brother’s love;

Who led me instantly unto his cave,

There stripp’d himself, and here upon his arm

The lioness had torn some flesh away,

Which all this while had bled; and now he fainted

And cried, in fainting, upon Rosalind.

Brief, I recover’d him, bound up his wound;

And, after some small space, being strong at heart,

He sent me hither, stranger as I am,

To tell this story, that you might excuse

His broken promise, and to give this napkin

Dyed in his blood unto the shepherd youth

That he in sport doth call his Rosalind.

ROSALIND swoons

CELIA

Why, how now, Ganymede! sweet Ganymede!

OLIVER

Many will swoon when they do look on blood.

CELIA

There is more in it. Cousin Ganymede!“

ACT 5 SCENE I. The forest.

“TOUCHSTONE

Why, thou sayest well. I do now remember a saying,

‘The fool doth think he is wise, but the wise man

knows himself to be a fool.’ The heathen

philosopher, when he had a desire to eat a grape,

would open his lips when he put it into his mouth;

meaning thereby that grapes were made to eat and

lips to open. You do love this maid?”

“TOUCHSTONE

Then learn this of me: to have, is to have; for it

is a figure in rhetoric that drink, being poured out

of a cup into a glass, by filling the one doth empty

the other; for all your writers do consent that ipse

is he: now, you are not ipse, for I am he.”

“TOUCHSTONE

He, sir, that must marry this woman. Therefore, you

clown, abandon,–which is in the vulgar leave,–the

society,–which in the boorish is company,–of this

female,–which in the common is woman; which

together is, abandon the society of this female, or,

clown, thou perishest; or, to thy better

understanding, diest; or, to wit I kill thee, make

thee away, translate thy life into death, thy

liberty into bondage: I will deal in poison with

thee, or in bastinado, or in steel; I will bandy

with thee in faction; I will o’errun thee with

policy; I will kill thee a hundred and fifty ways:

therefore tremble and depart.”

SCENE II. The forest.

“ORLANDO

Is’t possible that on so little acquaintance you

should like her? that but seeing you should love

her? and loving woo? and, wooing, she should

grant? and will you persever to enjoy her?

OLIVER

Neither call the giddiness of it in question, the

poverty of her, the small acquaintance, my sudden

wooing, nor her sudden consenting; but say with me,

I love Aliena; say with her that she loves me;

consent with both that we may enjoy each other: it

shall be to your good; for my father’s house and all

the revenue that was old Sir Rowland’s will I

estate upon you, and here live and die a shepherd.”

“…But, O, how bitter a thing it

is to look into happiness through another man’s

eyes! By so much the more shall I to-morrow be at

the height of heart-heaviness, by how much I shall

think my brother happy in having what he wishes for.”

“SILVIUS

It is to be all made of fantasy,

All made of passion and all made of wishes,

All adoration, duty, and observance,

All humbleness, all patience and impatience,

All purity, all trial, all observance;

And so am I for Phebe.

PHEBE

And so am I for Ganymede.

ORLANDO

And so am I for Rosalind.

ROSALIND

And so am I for no woman.

PHEBE

If this be so, why blame you me to love you?

SILVIUS

If this be so, why blame you me to love you?

ORLANDO

If this be so, why blame you me to love you?

ROSALIND

Who do you speak to, ‘Why blame you me to love you?’

ORLANDO

To her that is not here, nor doth not hear.

ROSALIND

Pray you, no more of this; ‘tis like the howling

of Irish wolves against the moon.

To SILVIUS

I will help you, if I can:

To PHEBE

I would love you, if I could. To-morrow meet me all together.

To PHEBE

I will marry you, if ever I marry woman, and I’ll be

married to-morrow:

To ORLANDO

I will satisfy you, if ever I satisfied man, and you

shall be married to-morrow:

To SILVIUS

I will content you, if what pleases you contents

you, and you shall be married to-morrow.

To ORLANDO

As you love Rosalind, meet:

To SILVIUS

as you love Phebe, meet: and as I love no woman,

I’ll meet. So fare you well: I have left you commands.

SILVIUS

I’ll not fail, if I live.

PHEBE

Nor I.

ORLANDO

Nor I.

Exeunt”

SCENE III. The forest.

(…)

SCENE IV. The forest.

“ROSALIND

I have promised to make all this matter even.

Keep you your word, O duke, to give your daughter;

You yours, Orlando, to receive his daughter:

Keep your word, Phebe, that you’ll marry me,

Or else refusing me, to wed this shepherd:

Keep your word, Silvius, that you’ll marry her.

If she refuse me: and from hence I go,

To make these doubts all even.

Exeunt ROSALIND and CELIA”

“Enter TOUCHSTONE and AUDREY

JAQUES

There is, sure, another flood toward, and these

couples are coming to the ark. Here comes a pair of

very strange beasts, which in all tongues are called fools.

TOUCHSTONE

Salutation and greeting to you all!

JAQUES

Good my lord, bid him welcome: this is the

motley-minded gentleman that I have so often met in

the forest: he hath been a courtier, he swears.

TOUCHSTONE

If any man doubt that, let him put me to my

purgation. I have trod a measure; I have flattered

a lady; I have been politic with my friend, smooth

with mine enemy; I have undone three tailors; I have

had four quarrels, and like to have fought one.”

“HYMEN

Peace, ho! I bar confusion:

‘Tis I must make conclusion

Of these most strange events:

Here’s eight that must take hands

To join in Hymen’s bands,

If truth holds true contents.

You and you no cross shall part:

You and you are heart in heart

You to his love must accord,

Or have a woman to your lord:

You and you are sure together,

As the winter to foul weather.

Whiles a wedlock-hymn we sing,

Feed yourselves with questioning;

That reason wonder may diminish,

How thus we met, and these things finish.

SONG.

Wedding is great Juno’s crown:

O blessed bond of board and bed!

‘Tis Hymen peoples every town;

High wedlock then be honoured:

Honour, high honour and renown,

To Hymen, god of every town!”

“EPILOGUE

ROSALIND

It is not the fashion to see the lady the epilogue;

but it is no more unhandsome than to see the lord

the prologue. If it be true that good wine needs

no bush, ‘tis true that a good play needs no

epilogue; yet to good wine they do use good bushes,

and good plays prove the better by the help of good

epilogues. What a case am I in then, that am

neither a good epilogue nor cannot insinuate with

you in the behalf of a good play! I am not

furnished like a beggar, therefore to beg will not

become me: my way is to conjure you; and I’ll begin

with the women. I charge you, O women, for the love

you bear to men, to like as much of this play as

please you: and I charge you, O men, for the love

you bear to women–as I perceive by your simpering,

none of you hates them–that between you and the

women the play may please. If I were a woman I

would kiss as many of you as had beards that pleased

me, complexions that liked me and breaths that I

defied not: and, I am sure, as many as have good

beards or good faces or sweet breaths will, for my

kind offer, when I make curtsy, bid me farewell.

Exeunt”

GLOSSÁRIO:

bur: casca de noz; aporrinhação.

chanticleer: galo

ewe: ovelha

jolly: alegre

motley: variegado, caleidoscópico; a roupa arco-íris de um bobo da côrte.

whetstone: pedra-de-amolar

2 de June de 2024, 03:26 0 boosts 0 favoritos

https://seclusao.art.blog/2023/11/19/much-ado-about-nothing/

https://seclusao.art.blog/2023/03/21/alices-abenteuer-im-wunderland-trad-antoine-zimmermann/

LOVE’S LABOUR’S LOST – Shakespeare

13 de junho de 2018

TROILUS AND CRISEYDE – Chaucer

2 de julho de 2017 (atualizado em 7 de agosto de 2021)