[ARQUIVO] O VIAJANTE E SUA SOMBRA
Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):
13: a importância do silêncio no grande diálogo
21: a luz em Platão
27: gravidez
28: “a lanterna”
33: a estratégia do advogado criminalista
35: a reputação do réu
36: Ájax e a inveja dos deuses
40: “náusea”
41: sobre o indigente
48: pistas da loucura cavalar
49: a prova natural de que o caminho mais curto entre dois pontos não é a linha reta
50: o “fatalismo turco”, Moira
55: a necessidade da barba no sábio varonil, para que o queixo não contraste com seus olhos de águia velha e o rosto não apresente duas idades
64: “O pão neutraliza o gosto”
69: “Para ler em voz alta é necessário estar disposto a fazê-lo.”
72: o final do Fausto
86-7: prazer na música como artista (pelo presente, pelo que ela é) x prazer na música como leigo (nostalgia); possibilidade da arte diretamente vinculada ao trabalho e sua flexibilização.
89: minha relação residual com a sociologia; sobre a personalidade que quer encontrar “o fim dos fins” em tudo em que põe as mãos.
90: da pesada amargura; e sobre o pateta palhaço por opção
93: selecionar o amigo com base em suas opiniões religiosas
94: alimentação e mau humor
98: para a história (benéfica) do desinteresse…
101: não ter filhos; afastar-se dos amigos, mas não da natureza.
102: “Aquele que disser agora: ‘Nada me aconteceu ainda’—passa por um imbecil.”
107: Uniformes e nacionalismo. Moda como antídoto. Novo conceito de moda para além de “o que sai de circulação rapidamente”.
111: Helvétius
112: cidadezinha e grande cidade—entendendo melhor nossas utopias e devaneios
113: sucinta fisiologia da máquina, até melhor que a mcluhaniana; Epicuro.
118: mendicância
128: Europa hoje (XXI)
129: sobre as abstenções eleitorais
131: sobre a precariedade da mercadoria no capitalismo avançado
132: Ampliar o quadro de professores? Que tal o contrário?
135: contra o mendigo e o bilionário; para entender a reforma agrária; tocquevilleanismo.
139: quando caminho com um bando, eu sempre vou atrás—desconfiado de que não me seguiriam
153: o supra-homem e o animal
154: cão e gato
A vaidade: tema recorrente, demasiado recorrente.
Homem significa: “aquele que mede”. Aquele que sabe que sabe que mede. Mas mais nada mede.
“O remorso é, como a mordida de um cão numa pedra, uma asneira.”
Só o trabalho faz o tédio.
Quase sempre os gêneros de aforismos obedecem à mesma seqüência.
“escrever bem e ler bem—essas duas virtudes aumentam e diminuem ao mesmo tempo” “A forma das frases indica se o autor está cansado”
“Para um livro é uma maneira conhecida de envelhecer o fato de descer a idades cada vez menos maduras.”
PARA O ABSTÊMIO MUSICAL: “Se ouvirmos música depois de termos sido privados dela por muito tempo, ela passa rápido demais no sangue, como um desses vinhos encorpados do sul, e deixa na alma uma embriaguez parecida com a de um narcótico que a mergulha num estado de semi-sono e de desejo” “acreditamos finalmente ouvir a música como se entrasse numa prisão onde a nostalgia impede um pobre homem de dormir.”
“Então—foi talvez em torno dos nove anos de nossa vida—ouvimos a primeira música”
“para o profano, toda música antiga parece se tornar sempre melhor e toda música recente passa a ter pouco valor, pois não desperta ainda essa ‘sentimentalidade’ que, como indiquei, é o principal elemento de felicidade na música, para quem não sente puramente prazer nessa arte como artista.”
“173—RIR E SORRIR—Quanto mais o espírito se torna alegre e seguro de si mesmo, tanto mais o homem desaprende a risada explosiva”
NIILISMO EUROPEU: “Uma vez que as palavras ‘moderno’, ‘europeu’ são aqui quase equivalentes, entendemos por Europa extensões de território bem maiores que aquelas que a Europa geográfica abrange, a pequena quase ilha da Ásia: devemos especialmente compreender a América, porquanto é filha de nossa civilização.”
“Se todas as esmolas só fossem dadas por compaixão, todos os mendigos já estariam mortos de fome.”
“As interrupções são os corvos que trazem alimento ao solitário”
Anotações de cunho pessoal:
A sombra do cigarro. Dimitri e um pouco de pigarro. Narradores prosadores comediantes. Discurso melodioso. A me(sca)lina das amenidades.
O metal é stravinskyano-romântico—Master of Puppets como encarnação disso, com seu solo diante do quê você procura com seu corpo o que fazer, e não acha, até a audição passar, boquiaberto. Ainda predomina esse tipo de objetivo entre as pessoas (vide meu apreço por Prisoner of Your Eyes, Cardigans, Calcanhotto… pelas fases posteriores do Megadeth, o carinho pelas lembranças suscitadas, mas ao mesmo tempo tem um tempo que venho me concentrando na técnica em-si, ou pelo menos no limiar. e.g.: Death).
De 26 a 28 de novembro de 2009
[ARQUIVO] FRASES PARA ANIMAR PROLETÁRIOS (O GERMINAL)
“não tinha a resignação do rebanho”
“Seu orgulho de homem se revoltava por ser tratado como um animal a quem cegam e esmagam.”
Não importa o quanto a gente reme, sempre afunda. E de forma humilhante e inconteste.
“Quando as moças dizem não, é porque gostam de apanhar antes.”
“a semana em que os bebês não nascem”
“de tão abalado, caiu de cama com febre alta. Só pôde voltar ao trabalho três dias depois.”
“O trabalho assalariado é outra forma de escravidão.”
“Teria dado de boa vontade o seu salário para poder ter, como eles, um relacionamento sexual fácil e sem remorsos.”
“Não, o único bem era não ser, ou, sendo, ser árvore, ser a pedra, menos ainda, ser o grão de areia que não sangra ao ser pisoteado.”
“Como não ousava matar, era ele quem devia morrer.”
“desde que se conhecia por gente, sua vida era só sofrer.”
“quando a gente não tem esperança, perde o prazer de viver.”
“seu gosto se refinara, queria subir para uma classe superior.”
“e eu não terei mais qualquer fraqueza amorosa”
“Quando um homem tinha uma mulher no coração, estava acabado, podia morrer.”
25 de junho de 2011
[ARQUIVO] LIMBOZINHO
Ah, às vezes… Todo nosso ceticismo quanto ao futuro, toda a desesperança, a mais completa e até idiota, se for analisada a posteriori, insegurança, sem fundamento nenhum na realidade, naquilo que você é, de repente tudo isso explode numa só noite. Você pensa que não pode se comportar como um ser humano típico, estudando, trabalhando, se comportando, se controlando, fazendo as médias que tem de fazer, repousando, dormindo, se descontraindo… Até isso fica difícil e tenso. Parece que a inaptidão vai lhe varrer ou atropelar, você, escória!
Porém de um jeito ou de outro dorme-se e se acorda diferente, rindo-se de tudo que passou…
(Não sei qual dos dois é mais ilusório.)
25 de junho de 2011
[ARQUIVO] O INVENTÁRIO DO SUPRA-HOMEM NA CULTURA DE MASSAS (Morin)
Normalmente, nas horas seguintes à contemplação de um filme, temos prazer em adquirir uma personalidade descartável com data de validade bem efêmera, em sermos o protagonista daquele filme por algum tempo, até que venha outro espetáculo e a impressão causada pelo antigo se esvaneça.
“não a deusa nua das religiões antigas, não a madona de corpo dissimulado do cristianismo, mas a mulher seminua, em pudor impudico, a provocadora permanente.”
“Qualquer progresso do erotismo conduz a um enfraquecimento da diferenciação sexual, e os progressos da homossexualidade são um aspecto desse enfraquecimento. (…) Parece que uma supererotização caminha lado a lado com o progresso da semifrigidez e da semi-impotência”
Cada autor possui um conceito todo particular para cada palavra…
25 de junho de 2011
[ARQUIVO] MISCELÂNEA DE OPINIÕES E SENTENÇAS
Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):
24-5: história e metafísica
31: a alegoria do deserto; “a grande aranha do mundo”, a tecedora de fios.
35: Sócrates
45: sobre o fazer planos
49: cristianismo para os frígidos e estéreis
50: pistas sobre a erradicação do cristianismo na sociedade do trabalho
51: teoria do conhecimento e teologia cristã
53: Gaia-Ciência ainda sem nome…
54: o artista e a distribuição de seu dom
55: Baudelaire
65: Wagner como mulherzinha. O espaço de sua música é muito cheio (“melodia infinita”), não há a calmaria de Beethoven.
73: críticos de arte, as muriçocas de nossa cultura, levianos inocentes
77: “sophia”; gosto.
85: transição do sistema educacional
86-7: história compreendida como música
89: a aranha de 3 gerações
92: moda como libertação
93: nomadismo; sol e cegueira; Homero
95: Górgias
96-7: o paganismo grego
99: Ferramentas para compreender os fragmentos finais de N. Vocábulos semi-deus, infra-humano, mosca, estrela…
103: Ivan de Dostoievsky
105: Goethe tinha medo de ser poeta
106: saber viajar
107 (232): comédia pública; tragédia idiossincrática.
114: Platão, o teórico trintão
115: “a natureza da mulher se revela no timbre de seu riso.”
127: parece a Brasília concurseira; como se recai no belicismo.
136: a nostalgia
137: sonhar com pessoas e entes do passado; o pensador esgotado.
138: “Empregar o excesso como remédio [à alma ressequida], aí está um dos golpes de mestre na arte de viver.”
141: espírito do tempo
146: tributo aos principais filósofos e poetas de sua vida, mesmo àqueles que sói criticar
Laurence Sterne, A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy
“Quando nos sentimos à altura de uma coisa muito difícil, não toleramos que seja mencionada diante de nós.”
“Não sabemos se temos um dente de serpente antes que alguém tenha posto seu calcanhar sobre o que nos é caro.”
“Uma obra que deve produzir uma impressão de saúde deve ser executada no máximo com ¾ da força de seu autor.”
“Todo bom livro tem um sabor áspero quando aparece (…) Muitas horas deverão ter passado e muitas aranhas devem ter tecido suas teias.”
“Nem [os professores] se educam, como poderiam educar?” “A extraordinária incerteza de todo ensino público que, para todo adulto, dá a impressão que seu único educador foi o acaso – o cata-vento dos métodos e das intenções educacionais – se explica pelo fato de que, em nossos dias, as potências pedagógicas mais antigas e as mais novas, como numa tumultuada reunião pública, insistem antes em ser ouvidas do que compreendidas e querem, por meio das suas vozes, a todo custo, (…) [dizer que elas] existem ainda ou que já existem.”
“como poderíamos, pois, prescindir da nota baixa fundamental, profunda e muitas vezes inquietante, sem a qual a melodia não poderia ser melodia?”
“em geral as escolas primárias farão bem em dar preferência à arte dos olhos àquela dos ouvidos.”
“Aquele que considera a humanidade como um rebanho e que foge diante dela tão depressa quanto possível, será certamente alcançado por esse rebanho, que o cobrirá de chifradas.”
“Quando nos transformamos radicalmente, nossos amigos, aqueles que não se transformaram, se tornam os fantasmas de nosso próprio passado.”
“Cumpre tomar cuidado para não nos afiarmos muito cedo.” Como se fosse possível escolher.
“cada mestre só tem um aluno—e esse aluno se lhe torna infiel”
Anotações de cunho pessoal:
Calar-se ou desaguar o azedume numa conversa para nascer de novo? O que acaba sendo mais eficaz? Bipolar.
Cuidado!—Concentrar-se na obra deixa o gênio avoado e desleixado para sua própria imagem pública.
Juntem-se os conceitos demasiado humano e supra-homem e temos um paradoxo—apenas aparente.
De 23 a 25 de novembro de 2009
[ARQUIVO] HUMANO, DEMASIADO HUMANO
Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):
43: da sensação do erro
48: como Marx termina como o principal formulador do capitalismo tardio
49: Erasmo de Roterdã
61: o superanimal
107: Ésquilo e Aristófanes
128: “[a arte] transforma os animais em homens”; a Nona de Beethoven
130: os sofrimentos do artista; o cômico e o trágico; o jogo e a leveza, a frustração e a solidão.
138: do intermediário entre o público e o artista; do espectador.
139: a diferença minúscula entre honra, vaidade e orgulho
154: genealogia técnica do heavy metal (captar “o lado feio do mundo”). Por isso os beatniks são tão musicais. Antecipação de Baudrillard.
159: curso em pós-modernidade
161: o “eterno permanente”
165: definição de “espírito livre”
174: humor na pós-modernidade
175: aforismo 241
178 (247): Planeta dos Macacos
179: o difícil “turning point”
182: do filósofo arrependido
184: da pederastia na Grécia
187: o problema da efemeridade da civilização grega, a falta de dados e documentos
190: primeiras pistas sobre a Ásua; N. e o ensino médio
195: fase cínica, fase epicuréia
199: “quem não tiver para si dois terços de seu dia é um escravo”
200: nazismo
203: índices para o ineditismo do futuro
220: ironia, o “cão mordedor”
222: “GLÓRIA PÓSTUMA”
225: complexo de Édipo
235: por que todo pai menospreza o talento dos filhos
236: o séc. XX do feminismo
245: o socialismo como meio; Guerra Fria.
246: os barões da mídia
248: a diferença entre o socialista de baixo e o socialista de cima
250: pela escravidão; Diógenes, o Chaves da Antiguidade.
257: Europa pendular, século XXI
258: a morte do Estado
259: do novo XVIII Brumário
261: escombros da União Européia; questão judaica. O semita está incluído no projeto da Europa mista.
262: e os judeus salvaram a Europa feudal de ser engolfada pela expansionista Ásia
265: “A GRANDE POLÍTICA”
293: “nosso eu superior”
294: sobre a facilidade que temos em mistificar nosso tédio
“raramente se encontra na Europa o erudito que tenha lido La Rochefoucauld.”
“A paixão não quer esperar; na vida de grandes homens o trágico reside muitas vezes não em seu conflito com a época e com a baixeza de seus contemporâneos, mas na incapacidade deles de adiar sua obra por um ano, por dois anos; não sabem esperar.”
“Todo homem que decidiu que o outro é um imbecil, um mau companheiro, se irrita quando o outro finalmente mostra que não o é.”
“acaba por se produzir um violento antagonismo entre o artista e as pessoas da mesma idade de sua época”
“Quando a arte se apodera violentamente de um indivíduo, leva-o a concepções de épocas em que a arte florescia com mais vigor, exercendo, portanto, uma influência retrógrada.”
COMO SER UM ROMANCEUR: Um craque do futebol não nasce sem os fundamentos—ou explode e depois desaparece. Qualquer verossimilhança com o caso de escritores como J.K. Rowling não é mera coincidência!
“Faça-se, portanto, cem ou mais projetos de novelas, nenhum com mais de duas páginas, mas de uma clareza tal que neles cada palavra seja indispensável; (…) que se seja infatigável em recolher e descrever tipos e caracteres humanos” “Nesse múltiplo exercício, que se deixe passar uns dez anos” “Como faz, porém, a maioria? Eles não começam pela parte, mas pelo todo. Talvez um dia tenham um lance feliz, chamem a atenção e, a partir de então, farão lances cada vez piores, por razões bem naturais.”
“E, a longo prazo, todo instinto é mesmo fortalecido pelo exercício de sua satisfação, apesar desses períodos de calmaria. Seria possível que o medo e a compaixão fossem, em cada caso particular, mitigados e aliviados por meio da tragédia: não obstante, poderiam enfim tornar-se geralmente mais fortes por causa da influência trágica e Platão, apesar de tudo, teria razão ao pensar que, por meio da tragédia, a gente se torna geralmente mais temeroso [medroso ou temerário?] e mais impressionado. O próprio poeta trágico adquiriria então, necessariamente, uma visão lúgubre e assustadora do mundo e uma alma terna, excitável, ávida de lágrimas, de tal modo que corresponderia à opinião de Platão, se os autores trágicos e igualmente cidades inteiras, que os apreciam, regredissem a um nível em que a falta de medida e de freio é sempre maior.”
“hoje são contados entre as exceções os ouvidos que ainda fazem as distinções mais refinadas, p.ex. entre dó sustenido e ré bemol.”
“O homem de ciências é uma forma ulterior do artista.”
“Chama-se ‘espírito livre’ aquele que pensa de forma diferente do que se espera dele, em virtude de sua origem, de seu meio, de sua posição e de seu ofício, ou em virtude dos pontos de vista dominantes de sua época.”
“Quanto mais alguém compreende profundamente a vida, tanto menos zombará, salvo se terminar por zombar da ‘profundidade de sua compreensão’.”
CONHECIMENTO COMO PRAZER. O MAL DE PENÉLOPE: “de novo, a humanidade terá de recomeçar a tecer seu tecido, depois de tê-lo, como Penélope, destruído durante a noite. Mas quem nos garante que ela voltará sempre a encontrar forças para isso?” “graças a um conhecimento novo, por menor que seja, nos sentimos superiores a todos e como os únicos que, nesse ponto, sabem o que está certo.”
“Os dois povos que produziram os maiores estilistas, os gregos e os franceses, não aprendiam línguas estrangeiras” Quantas línguas o próprio Nietzsche falava? “Nietzsche falava fluentemente alemão e francês, e também tinha um bom conhecimento de grego e latim, o que lhe permitiu ler os filósofos clássicos em seus idiomas originais. Ele também tinha algum conhecimento de inglês, mas não era fluente na língua.”
“AVALIAÇÃO MUITO BAIXA DO ENSINO COLEGIAL (…) Raramente se busca o valor da escola secundária nas coisas que nela realmente se aprendem e se acumulam sem poder perdê-las, mas antes naquelas que nela se ensinam e que o aluno só absorve contrariado, para se livrar delas logo que puder e de uma só vez. (…) A leitura dos clássicos—isso qualquer pessoa culta o reconhece—tal como é praticada em toda parte, é um procedimento monstruoso: feita diante de jovens que de modo algum têm maturidade para isso, por professores que com cada palavra, muitas vezes com sua presença, já põem uma colher de poeira sobre um bom autor. (…) é que em sua linguagem surgem continuamente conceitos, expressões, métodos, alusões, que os jovens quase nunca ouvem na conversa com seus pais e na rua.”
“o homem ocioso é sempre um homem melhor que o de ação.”
“[o espírito-livre] conhece também os dias de trabalho e de falta de liberdade, da dependência, da servidão. Mas, de tempos em tempos, é preciso que lhe apareça um domingo de liberdade, senão não suportará a vida.”
“Deve confiar que o gênio da justiça dirá alguma coisa em favor de seu discípulo e protegido, se vozes acusadoras vierem a chamá-lo de pobre de amor.”
“Em todo partido, há um homem que, ao professar com demasiada fé os princípios do partido, incita os outros a desertar.”
“os doentes irritadiços e orgulhosos odeiam muito mais os conselheiros que sua doença”
“Para ganhar as pessoas inteligentes a uma proposição, basta muitas vezes apresenta-la sob a forma de um paradoxo monstruoso.”
OS TRAFICANTES (Burroughs): “Um meio seguro de irritar as pessoas e de colocar em sua cabeça maus pensamentos é fazê-las esperar muito tempo. Isso se torna imoral.”
“Quem não sabe colocar suas idéias no gelo não deve se empenhar no calor da discussão.”
“Os jovens são arrogantes porque freqüentam seus semelhantes que, todos eles, não sendo nada, gostam de fazer-se passar por muita coisa.”
“Aquele que não escreve livros, pensa muito e vive numa sociedade que não o satisfaz, poderá em geral ser um bom escritor de cartas.”
“Se houver dificuldade para encontrar um assunto de conversa, há pouca gente que deixará de revelar os segredos mais importantes do amigo.”
“Por que sentimos remorsos depois de termos ficado em companhias vulgares?”
“[o socialismo] não pode ter esperança de uma existência futura senão durante curtos períodos, aqui e acolá, graças ao mais extremo terrorismo.” “O socialismo pode servir para ensinar de modo brutal e convincente o perigo de todas as acumulações de poder do Estado e, nesse sentido, insinuar uma desconfiança para com o próprio Estado. § Quando sua voz rouca se misturar com o grito de guerra <O mais possível de Estado>, esse grito se tornará primeiramente mais barulhento que nunca, mas logo eclodirá com não menos força o grito oposto: <O menos possível de Estado>.” O contrário também pode ser dito.
“Quem vive combatendo um inimigo tem interesse em deixá-lo viver.”
“A imaginação da inquietude é esse gnomo malvado com aparência de macaco que ainda salta nas costas do homem, precisamente quando tem já outras coisas a carregar.” “A falta de escrúpulos no pensamento é muitas vezes sinal de uma disposição interior inquieta que procura se atormentar.”
“Quando um homem pensa muito e prudentemente, não é somente seu rosto, mas também seu corpo, que toma um ar de prudência.”
“Quando o homem explode em gargalhadas, ultrapassa todos os animais por sua vulgaridade.”
“Com um talento a mais, a gente está numa situação menos segura do que com um talento a menos.”
“É preciso ter nascido para seu médico, caso contrário se perece por seu médico.”
O homem da meia-noite é o viajante que não pôde entrar na cidade e passa a noite enregelado no deserto.
Anotações de cunho pessoal:
Estou no meio da desconstrução de velhos afetos. O nome deles, como abrangente de todo o mundo ocidental acessível a mim: Eline.
P. 132: Uma coisa que me perguntei severas vezes, principalmente com respeito a Dostoievsky (diferentemente do cinema, em que muitos sofrem o encargo), que é a “totalidade da personagem”: como é possível sair um mundo, vidas inteiras, unidades fidedignas, da cabeça de um demiurgo-escritor? Mas eis N.: pura ilusão, hipérbole! E aquela frase “não há uma única exegese de um texto” reforça o atestado.
P. 172: Essencialmente, temos aqui absolutamente TUDO o que concerne ao debate ESTRUTURA X HISTÓRIA, Lévi-Strauss vs. pós-construtivistas. Toda a reedição de Parmênides e seu 8 ou 80 e Heráclito e seu “incaptável” que perdura. Escapamos da metafísica por um tempo—e diz N.: isso é um progresso. Outra vez remexem-se os pauzinhos nos bastidores… As reelaborações, no entanto, são menos matizadas e sufocantes que no modernismo. É como o conserto da corrente de uma bicicleta enganchada na roda… AGORA vai andar. Antes não adiantava, o ciclista levava um tombo.
Af. 534: para Adriana
De 15 a 22 de fevereiro de 2009
[ARQUIVO] A SÉRIE DEFINITIVA DOS FRAGMENTOS FINAIS DE NIETZSCHE
Páginas destacadas e temáticas (ed. UnB):
34. animais, supra-homem.
35. socialismo
36. minorias, pós-modernidade.
38. amor e paixão
39. animais, gênio.
41. grande política, determinismo, números.
63. o gato
66. existencialismo, empirismo.
67. decadência
71. niilismo
74. anti-sistemas filosóficos
75. a solidão da figura do mestre
78. histórico do sofismo, helenismo, enaltecimento de Protágoras.
84. crítica a Schopenhauer
95: obra de arte, caráter anfíbio do artista
97. anti-hedonismo: a dor como supérflua
102. artistas e a loucura
103. classe média como buraco negro
104. sobrevivência da humanidade a longo prazo; budismo.
117-8. o futuro do rebanho, do pastor do rebanho e dos espíritos-livres
123. “avaliação econômica da virtude”; sobre o tédio; elogio a Kant.
125. Simplício e Epicteto
127. sobre cidadãos irrecuperáveis
129. dialética e decadência
141. bem idealista, bem “verdadeiro”
142. o sacrifício de jesus
145. mea culpa sobre A Origem da Tragédia
147. “a grande meta”
148. sonhar como método artístico
150-1: Aristóteles e o erro da catarse; “Arte como contramovimento”; Lobeck, o filólogo; a grande saúde.
155: animais
177: arte é animalidade
178: arte pela arte, como a moralina na arte, é só uma transição necessária
180: previsão dos olimpianos (de Edgar Morin)
185: A Divina Comédia
187: o artista e a forma
188: encurtamento sensório do espaço-tempo
190: feio x terrível
195: que muitas vezes nem o melhor amigo o conhece bem
198: do patriarcado grego
201: Ernest Renan
“Com todo crescimento do ser humano em grandeza e estatura, ele também cresce em profundidade e horror: não se deve querer um sem querer o outro”
“O gênio é a máquina mais sublime que existe,—portanto a mais frágil.”
“não temos classes superiores, portanto também não inferiores: o que hoje se encontra por cima na sociedade está fisiologicamente condenado”
“O que são afinal esses dois milênios? O nosso experimento mais educativo, uma vivissecação da própria vida…Dois milênios somente!…”
Todas as opiniões dos outros são suas próprias opiniões.
“Os artistas uma espécie intermediária: eles ao menos fixam uma equivalência daquilo que deveria ser—eles são produtivos na medida em que de fato modificam e transformam”
“Eu não respeito mais os leitores: como pude escrever para leitores?… Mas eu me anoto, para mim.”
“11(81)
— só o vir a ser é percebido, não porém o morrer (?)
–”
“Por meio do álcool e do ópio se retroage a estágios de cultura que já se superou (ou ao menos se sobreviveu). Todas as comidas fazem alguma revelação sobre o passado do qual nós nos originamos.”
“Ócio é o princípio de toda filosofia.—Portanto—é filosofia uma carga?…”
“Não está em nosso arbítrio modificar nossos meios de expressão: é possível entender na medida em que é mera semiótica.”
“nosso nariz (…) ainda é capaz de perceber oscilações onde até o espectrógrafo é incapaz”
PASSAGEM MAIS HILÁRIA DA OBRA: “Schopenhauer foi inteligente quando certa vez deixou-se fotografar com o colete abotoado erradamente: com isso ele dizia: ‘eu não pertenço a esse mundo: o que importa a um filósofo a convenção de casas e botões paralelos!… Sou objetivo demais para isso!…’”
Insistentes equivalências entre o kantismo e o hinduísmo.
De certa forma é o caldeirão nutritivo primordial de onde saíram fragmentos e aforismos bem mais desenvolvidos de Vontade de Potência.
“O novo sentimento moral é uma síntese, uma ressonância conjunta de todos os sentimentos de dominação e submissão que imperaram na história de nossos antepassados.”
“Deus está refutado, não o diabo”
“[que] os seletos mais refinados e exigentes se apresentem como débeis e rejeitem os meios mais brutais do poder –” [é uma conseqüência da moral décadent]
“a tribulação e a tristeza de todos os raros homens superiores reside em que tudo o que os distingue chega à consciência deles com a sensação de diminuição e ultraje.”
“Para a psicologia do idealista: Carlyle,¹ Schiller, Michelet.²”
¹ Thomas Carlyle, historiador, filósofo e ensaísta irlandês.
² Jules Michelet, historiador e escritor.
“sofrer com as suas circunvizinhanças, tanto em sua louvação quanto em sua condenação, ficando ferido e sentindo-se ignóbil com isso, sem revelá-lo; involuntariamente desconfiado, defender-se do seu amor, aprender a calar, talvez escamoteando-o por meio de discursos [minha vida—laboratório perfeito!], criando subterfúgios e solidões invioláveis para os momentos de sossego, de lágrimas, de consolo sublime—até que por fim se esteja suficientemente forte para dizer: ‘o que tenho eu a ver com VOCÊS?’, e seguir o SEU PRÓPRIO caminho.” Grifos no original!
“A moralidade da modéstia é o pior amolecimento daquelas almas para as quais somente tem sentido que elas se tornem duras e empedernidas em certas épocas.”
“Contemplamos a andança geral: cada indivíduo é sacrificado e serve como instrumento. Ande-se pela rua como se não nos deparássemos apenas com ‘escravos’. Para onde? Para quê?”
“talvez esse ‘assim deveria ser’ seja o nosso desejo-de-dominar-o-mundo –”
“Não há aniquilamento no espiritual…”
“O determinismo só é prejudicial àquela moral que acredita no liberum arbitrium”
“Não querer nenhum elogio: faz-se o que é útil para si mesmo ou o que dá prazer ou o que se precisa fazer.”
“a uniformidade que toda atividade mecânica acarreta. Aprender a suportar isso, aprender a encarar o tédio como circundado por um halo superior: essa tem sido até hoje a tarefa de todo sistema superior de ensino” “Por isso, o filólofo tem sido até agora o educador por excelência”
“certa gente se tornou ateísta. Mas será que realmente desistiu do ideal?”
“O estar mal-acostumado é mais forte que a irritação dos decepcionados…”
“Alguém se torna uma pessoa decente porque é uma pessoa decente”
“a conscientização é um sinal de que a moral propriamente dita, ou seja, a certeza instintiva do agir, vai para o diabo que a carregue…”
“As assembléias e congregações foram inventadas para fazer coisas para as quais o indivíduo não tem coragem.” “O mandamento do amor ao próximo jamais foi estendido para um mandamento de amar os vizinhos. Antes vige aí o que está em Manu…”
“ele é amável, para não ter de ser inimigo”
“Uma lagarta entre duas primaveras, na qual já cresce uma pequena asa: —”
“e, olhando bem de perto, não há nenhum intelectual mais bem-qualificado que não tenha nos ossos os instintos de um militar virtuoso…” “sendo mais inimigo do mesquinho, do espertalhão e do parasitário que do mal…” “O que se aprende em uma escola rígida? A obedecer e a mandar, —”
“esse tapado típico que é o inglês J. St. Mill”
“Homero como artista da apoteose; também Rubens. A música ainda não teve nenhum.”

“O que em nossa democracia é ridículo: a roupagem negra… a inveja, a tristeza”
“A coragem diante de um inimigo poderoso, de uma sublime desgraça, de um problema horrendo – ela mesma é o estado mais elevado da vida, ápice que toda arte do sublime decanta.”
“sua avareza de artista protege-os da paixão.” “Não se controlam as próprias paixões só por expô-las: pelo contrário, elas já estão sob controle quando são expostas.”
“sem um certo superaquecimento do sistema sexual, nenhum Rafael é concebível (…) castidade é apenas a economia do artista”
“Honra um artista ele ser incapaz de crítica…”
“O casamento tem tanto valor quanto aqueles que casam”
“Nobilitação da prostituição, não extinção”
“Tipo ‘Jesus’…
Jesus é o contrário de um gênio: ele é um idiota.”
“Paulo não era de maneira nenhuma um idiota!”
Anotações de caráter pessoal:
Quando me sinto esgotado, só me resta dormir. Assim que o logro, o plano suicida já pertence à memória, se desbota, se dilui, e readquiro aquela saúde ousada. Mas a cada ciclo torna-se mais evidente que o esgotamento é algo temporário, reversível, superável. Cultivo de uma calma que anteriormente não havia—essa própria agitação, necessidade de se debater furiosamente, sonâmbula como indício da não-entrega.
Estranho fenômeno o desgaste físico que produz mais energia: cantar um álbum do Metallica, “esfolar-se”, redigir um daqueles textos-manifestos num intervalo crítico de uma tarefa importante… Como se fosse para reorientar um estoque que doutro modo seria improdutivo. Hobbes: acha-se que não mais se suportará um amanhã tão problemático quanto o hoje… Rancor por ser “alugado” por meios exógenos… Kick him when he’s down. Querer cada vez mais o desastre édipo-lírico. Apocalypse Now!
Não há formulação contrária à do vulcão: há acúmulo gradual de energia, de calor, ajuntamento progressivo da lava. Impossível que o jorro fosse tão lento: ele sempre esbanja, faz em segundos o que uma incrível e arcana labuta produziram. O prazer do domínio, a satisfação, só poderia ocorrer caso o acontecimento evidenciasse “sobras”. Há uma assimetria imburlável! Isso é o que eu chamaria sem dúvida de princípio de economia que subjaz em TODOS OS FENÔMENOS. Talvez a Segunda Guerra tenha sido uma orgia equiparável.
O gozo é uma parte mínima do ato de abrir e fechar o prepúcio; a masturbação é um naco ridículo da duração de um dia; o sonho, idem. Diante dos quatro anos de um curso de graduação a farra do trote nada é. Qualitativamente, no entanto, é um marco inesquecível. Copas do Mundo acontecem em um mês a cada 48 meses. A quarta-feira e o domingo valem inteiros pelo jogo de 2 horas. A longa música pelo pequeno riff. A espera pelo almoço devorado. A caminhada pela chegada. A aula pela gargalhada. Todas as aulas por AQUELA aula. Tudo pelo beijo. Toda a tinta da caneta por uma linha sábia. Todo o mês pelo momento de receber o salário. Trilhões de anos por uma era de ouro. Querer que a felicidade dure menos é a chave!
Reclam[ação] é isso: reclamar uma ação.
Os olhos mais cegos são os que mais querem enxergar…
Não há UM salão de dança para os que não dançam…
De 11 a 15 de novembro de 2009
[ARQUIVO] CADÊ OS MESTRES?
O que o professor deve ler para dar suas aulas de sociologia na escola? Esse problema é relacionado—porém não congruente!—com o do material didático que deve ser destinado aos alunos. Que este último deve ser simples, evitar ser prolixo, primar por ser direto e, com o perdão da redundância, “didático”, isto está fora de dúvida. Que deve ter sido feito por um especialista voltado tão-somente para os leigos, sem o ar empolado do cientista, isso acompanha a assertiva anterior. Porém, chegamos a um impasse: o professor não deveria partir do complexo para chegar a esse “simples” e mais acessível? Não vejo como um professor possa se basear em livros-textos para dar suas aulas de sociologia, por mais que elas tenham que ser dadas para pessoas que se baseiam nesses livros! Em outros termos, os professores-sociólogos têm de ler os clássicos/grandes/originais do campo da Sociologia, e depois, sim, pensar numa forma de transmissão que não agrida o cérebro do estudante. Ele não pode partir do “mais conveniente”, precisa mesmo voltar à fonte (não poderia ter esse diploma sem ter lido o que leu durante 4 anos), reentrar em contato com as problematizações sociológicas sem a intermediação de comentadores/abreviadores de raciocínio. A questão, no meu entender, é muito mais grave do que parece quando comparada a disciplinas como a História e a Filosofia, posto que os livros-textos dessas disciplinas já têm um enfoque tradicional: aqueles que começam hoje na labuta diária da classe já possuem uma herança, um arcabouço no qual se basear. Na Sociologia, batem cabeça e não sabem do que tratar ou falam o tempo todo de uma suposta “complexidade” da disciplina que se perdeu nos calabouços e porões onde os indivíduos guardam suas monografias e demais trabalhos acadêmicos, como se isso fosse conservar suas memórias intactas por tantos anos. Se há uma vantagem nesse cenário ainda precário, é que, nunca se tendo estabelecido a organização temática dos livros-textos em uníssono, temos ainda a liberdade de construir um programa do zero, mais flexível, que não precisa ser adotado sem adaptações em outras partes do Brasil, que oferece uma chance para nossa criatividade. Onde está esse tutorial mágico: “Leia ‘x’, ‘y’ e ‘z’ antes da aula sobre ‘Relações Étnicas’ ou ‘Mais-Valia’, ou ‘Minorias’ ou ‘Globalização’”? E há tempo para efetuar essas leituras? Enquanto se cultivar essa cultura de que ‘professor bom é o que cuida de mais turmas’ (afinal, boa remuneração é indício de capacitação), haverá sempre essa distorção, pois a tendência é que o profissional seja estrangulado pela falta de tempo e, conforme se torna mais requisitado e adentra a “dedicação exclusiva”, perca os meios de enriquecer os próprios atributos!
17 de fevereiro de 2011
[ARQUIVO] A ESTRADA ASSASSINA (Tradução de The Killing Road do Megadeth)
De novo nos cercamos ao palco
Na velocidade do som nós vamos
Alimentando o ímpeto do povo
O gato grande deixou a sua jaula
De novo no ônibus
Pra pegar outro avião
Esse comportamento é doentio
Mas fazemos isso pela fama!
Eu perdi minha cabeça, eu perdi meu dinheiro (!?)
Eu perdi minha vida para a estrada assassina
A estrada nunca vai acabar
Sempre começa de novo
Outro show envolve a tensão
Outro grande amigo perdido
Sem expressão, como a neve
Não tem nada de mais na estrada
É só mais um esforço
É só que é muito comprida, isso é tudo
5 de fevereiro de 2011
[ARQUIVO] CRONOTERAPIA
Originalmente postado em 4 de fevereiro de 2011
Se lhe fosse dado o poder de se transportar para – ou renascer em – uma época futura da humanidade, supondo que seu mundo atual estivesse à beira da destruição e essa fosse a única saída para o colapso, para daqui a quantos anos você programaria essa máquina do tempo irreversível, essa viagem só de ida, estilo Futurama?
Arriscaria 2050 (aposta perigosa, pois, se em 2011 a Terra estivesse mal das pernas – como parece que está…!)?
Não, não. Acho que devemos tratar aqui de séculos, séculos avante, séculos adiante!
2300? 2500?
3000?
4000?
5000?
Mil anos separam o auge do Império Romano da mais obscura Idade Média!
10.000? Correr-se-ia o risco de nascer no breu, no vácuo? Como se vê, 2050 ou o quíntuplo, isso não importa: nada oferece garantias.
Para quem crê numa História cíclica, e que já esgotamos, neste fim de modernidade, todas as possibilidades de acontecimentos, e de surgimento de novas coisas, quem sabe nessa época – em 10 milênios – não se pode ser contemporâneo de Homero? Não vale querer viver como bardo, feito num RPG!
Ou será que não, que o mundo é extremamente rico, materialmente inesgotável, capaz de produzir o inédito durante uma imensidão incomensurável?
1.000.000? Ano 2 bilhões?
Lance os dados, mas saiba! Não há ZERO em nenhuma das faces!
* * *
P.S.
Ikki, a Avê Fênix, na ânsia de fugir das mãos de seu opressor divino, bate as asas até onde consegue – seu cosmo flameja a 1 trilhão de quilômetros. Porém, ao cabo, ele termina na palma da mão de Buda, o sétimo além, o Paraíso dos orientais, mas que parece um tormento – um simples pensamento malévolo ou sacana (tão humano!) pode leva-lo aos reinos menos obres da pós-existência. Tudo bem que o sujeito em questão, em combate com o cavaleiro mais próximo de deus, é tão encardido que as bestas-feras dos submundos da eterna guerra e canibalismo não o suportam, ejetando-o de volta à superfície terrena.
Toda essa visão só me faz imaginar… o quanto é impossível fugir do destino ruim – a ave imortal não pode percorrer uma distância maior, que a livre de alguma condenação. O ano que se escolher para seu túmulo, idem, não o isentará dos fracassos e decepções! Pelo menos você lutou, figurou no álbum dos grandes homens! Mitologizou-se!
* * *
Os EUA não desarmaram as bombas de nêutrons em 1996 porque se tivesse chegado ao “consenso da pax”! Eles o fizeram para não serem explodidos de súbito pelo próprio arsenal! Corrosão da meia-vida. Quem reza essa missa?
O Muro de Berlim caiu, mas a Muralha da China não!
Bush: um “Eu não sei de nada” do tamanho do mundo.
Como partir essa pizza chamada felicidade?
Livro “Os Melhores Tweets de Rafael Aguiar” já nas livrarias!
[ARQUIVO] SEIYA DE PÉGASO EM FARELOS & A MONTANHA MÍOPE MAS MÁGICA
21/12/10
Seiya esmigalhado na casa de Leão. Perde a mão com a Cápsula do Poder – na altura do pulso. (Ao acordar, no mesmo lugar verifico uma picada de muriçoca, ferida ampliada e agravada com certeza pelo meu coçar involuntário.) No mais mísero estado, e apoiado por seus amigos, Seiya segue adiante. Não tem nem pés, talvez, não pode se manter erguido, mas cumprirá sua missão obstinando-se até o fim, última centelha… No meio do caminho a plebe ainda quer troçar do herói, porém ele demonstra muita habilidade com a bola nos pés (!), embora seu cosmo e seu corpo não sejam mais os mesmos. E Athena, poderá reconstituí-lo?
Jogo Master System com um amigo. A terceira fase de algum jogo. Algo reseta o aparelho e agora precisamos da password. O modo de obtê-la, não por uma revista de videogame ou um site, é terminando uma ilustração de uma estranha montanha, o que eu me proponho a fazer. Quando terminar de ser colorida ela nos transportará…
22/12/10
Jogando Perfect Dark em multiplayer – controle exagerado, cheio de segmentos horizontais. Menininhas risonhas, muitos amigos de diferentes eras. Fazer trabalhos da faculdade, que ficou parada muito tempo mas vai voltar. Quero molhar minha cara no banheiro mas esqueço que estou de óculos. Inclusive, tiro-os por um tempo e mostro-me cego, praticamente, para as menininhas (acompanhadas, cada uma, de um ou dois marmanjos). Revelo como é difícil ser míope, e aliás um míope tão raro: normalmente as pessoas fazem drama por precisarem usar lentes de 2, 3 graus.
[ARQUIVO] A PRAIA DO CERRADO
23/03/11
Havia um mar aqui no Planalto Central! Na realidade, o que costumava ser a calçada da zona comercial da 308 Norte se convertia em areia (se meu relato não é impreciso) e, poucos metros à frente, onde passariam os carros, apenas água, água até não poder mais, ondas muito agitadas… Aliás, fico inclinado a voltar atrás na minha descrição: não era areia, mas pedras. Lembro de testemunhar arrebentações pouco amistosas. Somente surfistas experimentados ousavam encarar essa parte da natureza brasiliense!
Portanto, para além do paredão de pedra vicejava um novo tipo de vida. Alguns com sua prancha arriscavam ir muito além, até que a borda fosse difícil de se enxergar. Poderia haver tubarões engolidores de pranchas e pernas. Mas o que realmente soava intrigante nisso tudo era uma ilhota a dada distância, uma ilhota de dunas de areia, talvez um pouco salpicada de vegetação, aqui e ali. Parecia um oásis, um lugar especial por alguma razão, e a travessia até lá era bastante complicada. Casais deviam gostar desse isolamento.
Sabrina havia me ensinado ou me motivado, me feito, enfim, chegar à ilhota. Depois que nossa curta relação de amizade foi bruscamente interrompida, perdi qualquer estímulo ou mesmo meios de repetir a façanha, porque a maneira como fiz isso me parecia agora nebulosa, irrecordável. Teria sido a nado, perigosamente podendo cansar antes de atingir as margens opostas? Ou teria sido em alguma embarcação, e de que tipo? Fato é que ela era um porto seguro necessário para arriscar minha vida, sem morrer. Doravante, eu e eu mesmo teríamos de encontrar a solução, ou simplesmente desistir. (Não era vital?)
Sabrina representava mais auto-confiança e mais risco, talvez mais risco do que eu podia tolerar. Eu era do tipo de homem disposto a me jogar no fogo (ou aos tubarões!) por mais uma tentativa desesperada, mas agora a prudência, por mais que parecesse um paralisante para a alma, falava mais alto. Eu tive a pachorra, a coragem e a necessidade, e agora não podia ou devia ter mais?
[ARQUIVO] BURIED DEEP IN THE SAND
07/08/11
Estávamos em uma espécie de viagem.
As pessoas estão na praia. Vanessa dizia a Sandra que a palavra que eu escrevi para ela, a garota do intercâmbio, “intelligentis”, era para vir acompanhada de outras duas, uma antes e uma depois. De repente, Vanessa começava a cavar na areia – antes disso, Vanessa estava de pé com roupa de banho e Sandra sentada sobre uma toalha estendida na areia. As duas estavam de frente uma para a outra e o mar, embora eu não pudesse enxergá-lo, parecia estar às costas de Vanessa. Então Vanessa consegue encontrar a palavra “intelligentis”, como se eu a tivesse escrito na areia com o dedo momentos antes. E há rastros que não são identificáveis por enquanto como letras, tanto à esquerda quanto à direita da primeira palavra. Eis que a Vanessa começa a cavar mais e mais fundo, até achar um objeto: meus óculos, armação negra e lentes um pouco sujas.
Neste momento, Sandra sumia, e eu finalmente surgia. Eu estava muito contente e não sabia como agradecer por terem encontrado uma coisa tão importante para mim, sem a qual eu ficaria completamente incapacitado, refém do mundo. Dizia a Vanessa que não sabia o que faria se não fosse ela em minha vida. De repente, estávamos num quarto (como se fosse um hotel), eu, Vanessa e sua melhor amiga Lorena. Havia cochichos do lado de fora, a partir do corredor. Ou, melhor dizendo, havia murmúrios ou ecos, porque eram distantes demais. Mas eu tinha medo de que outros hóspedes pudessem intervir em hora tão delicada, o que me fez pedir a Lorena que fechasse a porta para eu poder conversar com mais privacidade com Vanessa. Eu queria desabafar, mas não sabia como começar… Minha primeira frase foi claramente: “I want to ask you some questions…”. No exato instante em que acabava de proferir este desejo, percebia que empregava o idioma errado e emendava com um “ops!”. Na seqüência, eu confessava estar apaixonado. Após minha confissão, nossos rostos nos aproximavam…
[ARQUIVO] O JOGO
11/11/10
Sonhei que jogava tênis contra alguém, muito embora a rede fosse tão alta quanto a do vôlei, e não conseguia fazer o meu serviço (sacar) adequadamente. Com efeito, a pontuação era em sets de acordo com a ATP, e a dado ponto eu me sentia o Guga retornado da aposentadoria (não como metáfora, mas como personagem identificável no sonho)! Ocorria o pensamento: “eu não deveria ter feito isso, vou perder!” – correlação com o Schumacher. O placar era algo como 6-1, 5-0 para o meu adversário. Quando eu levantava a bola (que parecia grande e branca) para o saque e eu desistia de bater com a mão quando sua trajetória estava no topo (pois sabia que sairia um saque bem fraco), meu oponente, se não me encorajava, não me desprezava, pois parecia entender a situação, expressando o seguinte enunciado: “Tem que ajeitá-la para o golpe certo, é difícil”. Por que raios eu não sonho com um boliche, onde sou campeão?
[ARQUIVO] CONDENSADO
A vida é uma noite de gala
A criança é o bêbado, dos primeiros goles à euforia total
O adulto é apenas a ressaca, retumbante, semi-eterna
(Talvez o adolesça seja esse moleque briguento, esse todos nós que viram machão, estufam o peito e se metem a socar e bicar mil canelas, mas só fazem trombar e tombar e provocar risadas, quem sabe medo, se não for tão patético!)
E o velho, rá, eu havia dito
que a vida era uma noite
mas como já transgredi
e incluí a ressaca
que tal a UTI
com seus monitores e tubos
lamentos, flores e parentes
nenhum último gole, nenhum último tônus muscular,
só aquele resmungo do velho gagá
ele é o fígado, o rim, o pâncreas, pretos, ele é a morte
E o menininho nem se pergunta – pai, devo sair de casa? Ele sai.
[ARQUIVO] Morrer não é motivo suficiente para parar de sonhar.
17/12/10
Prova disso é que hoje levei um tiro na cabeça de um torcedor de futebol psicopata, senti a “dor” do momento e soube sem adiamentos que aquele seria o fim… e no entanto não foi, veio à baila o que se sucedeu no local após minha suposta morte, como se atiraram para cima do agressor. E de repente me transportavam para uma urna, muito pequena para o comprimento das minhas pernas. Os responsáveis por me trasladarem, um tanto desajeitadamente, é verdade, eram meus familiares… Porém “eu me descobria” vivíssimo da silva, até piscando os olhos (pois tinha morrido de olhos abertos), consciente de que aquilo era uma grande encenação, mas não de nós para nós mesmos ou deles em relação a mim, mas queríamos enganar uma terceira entidade misteriosa. O caixão se transformou em uma caçamba de caminhonete e eu passava a cumprimentar as pessoas que apareciam e se postavam a meu lado – meu irmão dirigia ao longo da W3, quase no centro da cidade, o lugar onde a vida se agita. Repare bem: o caminho é sempre retilíneo. Rumo a algum fim obscuro… Moral: se tudo é lógico mas algo no sonho trai seu senso de realidade, isso é fatal para a continuidade da experiência. Não obstante, na hipótese de todo o montante absurdo permanecer bem-concatenado, e a consciência vigilante não perceber que o que se dá é FANTÁSTICO, a narrativa prossegue. Ora, a morte é perfeitamente factível, e não é motivo forte o bastante para se sentir ludibriado atingi-la, afinal é mesmo natural, o real supremo do ser humano. Perceber por qualquer razão alheia a condição de sono e ficção, por outro lado, aceleram o abaixar das cortinas. Por isso, o personagem principal do meu sonho não precisa ser eu, tudo pode ser uma trama póstuma – ou pior: eu ainda nem ter nascido.
[ARQUIVO] DITADOR NA PRAIA
Eu me tornava um ditador, de repente dono de um país e das maiores riquezas sem mais a menor obrigação para com ninguém. Estou na minha praia, sou um velhaco ou uma criança, jogo, da areia, uma bola, que afunda no mar, já de profundas águas à própria borda. E o que é isso? Eu mesmo estou no topo de uma rampa, de um declive. Uma ilha de uma montanha de areia, perfeitamente triangular, e quando se começa a deslizar já não é possível mais parar. Tibbluff: eu estou imerso no líquido, zona de insegurança. Haverá animais nessa água suja e espumosa? Quando tento me esgueirar de novo para a porção de terra, catar o começo da superfície, ou simplesmente morrer e me estirar ali, no ponto fixo, meus membros me faltam, como os soldados mercenários faltariam ao general estúpido – parece antes que sou puxado, que atravessarei, em velocidade de lancha, todo o oceano até o lado oposto, antes que possa simplesmente me salvar pelo mais simples. Mãos e pernas em aflição… Tudo isso, essa espécie de sina do milionário e revolucionário político, me assaltou belamente por alguns segundos, 10 segundos, menos segundos! E eu estava sozinho, sozinho, sozinho, não havia com quem jogar, e a bola eu perdi, queria desfrutar de tudo, ostentar os objetos, a vaidade dos charutos… Me afoguei.
[ARQUIVO] ARRANHA-CÉU XXI
Ando sonhando (hoje mais uma vez, 13/11/11) que escalo (por dentro), em vários lances de escada, cômodos, passagens secretas, elevadores bizarros… Um lugar bastante labiríntico e alto, até uma sala de uma instituição (provavelmente de ensino) para falar com alguém importante (diretor, coordenador) que possa resolver minha situação (há algo pendente que não sei explicar direito). Certas vezes não encontro ninguém, é um espaço vazio, um escritório normal com seus papéis, computadores, mesas e cadeiras, só que abandonado. Outras vezes, há uma enorme fila de pessoas e penso que não serei atendido…
[ARQUIVO] O MAIS TERRÍVEL – SUPERINTERPRETAÇÃO DE UM SONHO
15/03/11 [com pequenas edições e negritos em 16/08/11]
Meu sonho de hoje foi, talvez, o mais transparente e cristalino que já tive, e possivelmente nada mais será como foi até aqui, pois tenho a franqueza, o acaso e, sim, novas possibilidades ao meu lado, e à frente, e tendo sentido o insípido tão de perto, tão de frente, tão sem censuras… Justo hoje que me curo duma doença, talvez dum câncer… Pode querer dizer a morte de um plano? Impossível! Dificuldade e afobação passageiras, ainda tenho a genialidade trancada para quando quiser se manifestar, mas os alunos vão deixar? Dane-se, nada tenho que provar. Primeiro dia: Nando Reis – “que você era aquilo tudo que me fal-ta-va, a-a-u, uh-uh!”. Primeira lembrança consciente após despertar do presente sonho, o terrível. Esse sonho é diferente de todos os outros no sentido mais importante – ele já teve sua interpretação concluída, perfeita e freudiana, sem tirar nem pôr. Pela única pessoa que poderia fazê-lo. Exatamente isso: eu mesmo. Antes de ter escrito qualquer coisa aqui: porque eu o fiz dentro do sonho de hoje, e lembro com nitidez – e agora posso superinterpretar minha própria interpretação, que não devo menoscabar:
Eu anotava num caderno esse último sonho sinistro, parecendo um adolescente no auge da confusão – até pelo título escolhido… Lá vamos nós tentar recuperar minúcias… Eu rasurava o primeiro título escolhido, algo mais ameno, “Os Meus Pais… (algum verbo)”. Ou “O que os meus pais (verbo)”. Sei que ao final ele tinha três palavras que começavam com “N”, o que me remetia de cara ao Nirvana – pela própria letra do alfabeto, pela minha intenção, por ter o “tamanho” de Smells Like Teen Spirit (era essa a sensação durante a representação, que a palavra, que o título que escolhi, tinha a mesma dimensão do título da música do Nirvana, ocupava o mesmo número de caracteres, aproximadamente!) e por conter uma idéia de amputação/suicídio/morte. O próprio nome de banda Nirvana é um tanto revelador, já que sonoramente eu não me sinto ligado ao grupo nem um pouco. O afeto contido no emprego desta nomenclatura – embora evoque instantaneamente o conjunto de Kurt Cobain, o suicida – é todo de outra ordem. No sonho eu interpreto, e julgo estar sendo definitivo na minha análise, meu sonho-síntese (I), para meu próprio terror.
I
No sonho-síntese, a família celebra algo na varanda de uma cobertura sem parapeito… Parece Ano-Novo ou data marcante idem, minha mãe está arrumada, a tia Rosângela, minhas primas, estão por ali… Ouço vozes… De certo modo, eu me sinto, nesse átimo, enquadrado em algo extremamente repetitivo, mera conseqüência de uma vida estúpida que já vivi.1 E não só repetitivo, maçante, mas também angustiante, opressor, eu diria. Eu que nunca gostei da minha família [eu que nunca gostei de mim – adendo 2025]. Parecia, de certo ângulo, um autor onisciente que contempla um dos momentos tardios de sua trama… A história já vem avançada, chegará um dia ao seu fim, e os escassos momentos felizes vão passando, sem perdão, como na mesma velocidade em que um estranho qualquer passa as páginas do álbum de fotografias… Aquilo tudo deveria ser ilusório, apenas uma seqüência de frames de uma película já conhecida e muito batida. Simplesmente não tinha a coloração do real. Como um conto de fadas, se desmancharia fácil pelo império do tempo. Eu bem sabia, como numa profecia, [note que só podemos de certa forma prever aquilo que só depende de nossa própria volição – 2025] também o que vinha a seguir, e que destoava da “normalidade” desse evento de família… Como se esperasse isso há milênios, ou décadas, vejo, bem ao lado, e lentamente, de forma que podia ter interferido em sua trajetória (fosse para empurrar de vez ou salvá-lo), mas preferi ficar de expectador, o corpo do meu pai silenciosamente deslizando pelo ar, nós que estávamos no topo de algum prédio, à noite, corpo que eu já sentia desprovido de carne e sangue pulsante, um tanto inócuo, só uma casca, mergulhando de ponta rumo ao concreto. E ao mesmo tempo que foi lerda a queda do corpo enquanto ele estava no mesmo patamar que nós da festa, [ao mesmo tempo que o outro pode ser eu no meu sonho, o “nós” pode muito bem ser eles – eles os que festejam e têm uma boa vida, enquanto vivo deprimido – 2025] ao mesmo tempo parece ter se dado em 1 ou 2 segundos, se se considerar que assim que se atirou do chão da cobertura para o piso lá embaixo, tão distante, não houve tempo para nenhum gesto ou pensamento de minha parte: [imagino que da perspectiva de quem se joga de uma grande altura, o tempo deve passar ao mesmo tempo o mais lenta e o mais rapidamente possível, ao mesmo tempo – 2025] metade (da cintura para cima) de seu corpo estava submersa, soterrada, abaixo da calçada. Espatifou-se. [mergulhou de cabeça no inframundo, conseguindo quebrar até o concreto – 2025] Claramente morto (como era um sonho, não está descartada qualquer anormalidade, com ar de naturalidade, haja vista não estranharmos pessoas que voam ou mortos que ressuscitam enquanto não estivermos despertos e de lucidez recuperada!). O choque do corpo com o piso havia gerado um forte estrondo. De forma que quando os outros ouvem o baque e são noticiados do desastre, vem logo à tona um dissabor característico dos meus sonhos de morte (uma espécie de rubor facial, grande pesar e vexame, paralisante, mas que nunca senti, dessa mesma forma, a não ser em representações oníricas). [e não poderia sentir, a não ser mesmo em sonho: o vexame de haver se matado – 2025] E veio porque todos conversavam animadamente, era uma ocasião festiva e foi uma morte inesperada (desculpem pelo chavão!) [de certa forma quase todos ao meu redor ignoram, ou pelo menos ignoravam em 2009, quando minha depressão não era diagnosticada e expressa sem tabus, que não levo uma existência simplesmente feliz – 2025] de um ente próximo, cujo comportamento contrastou imensamente com o da família desde o início do sonho… Curioso que só eu tenha notado o corpo no momento em que ele se jogava. O restante das pessoas só se deu conta do trágico por conta do forte barulho, que já indicava o final da abrupta trajetória daquele corpo, vários andares abaixo. [a casa do sonho só tinha 2 andares; mas o lugar de onde eu sempre pude ter me arremessado na vida real é a janela do meu quinto andar, mais um indício de que meu pai neste sonho não passa do meu próprio avatar – 2025] Ao notar o rosto da minha mãe contemplando o cadáver (ou o que era visível dele), apreendendo o que tinha acontecido e que foi tão efêmero e súbito, me enchi de assombro. Mas dissimulado, até certo ponto, porque queria passar outra imagem aos convidados da festa. [o suicida não quer passar pela vergonha de ser lamentado como suicida, queria ter uma morte normal, e o pior de tudo é o suicida cuja mãe ainda vive, ao pensar na dor que lhe causaria – 2025] Por dentro, na realidade, eu era capaz até de alegria, uma alegria longamente anunciada em desejos e palpitações… [a morte de meu pai? não, a minha despedida desse mundo! tive este sonho logo que me graduei, pouco antes de ser expelido e vomitado no mercado de trabalho; de certa forma é como “passar de fase”, “cumprir com (alguma, se não toda) a obrigação”; i.e., já havia sofrido o suficiente – 2025] O presente sonho se encerra ali, e depois sou eu desperto (ou eu já me imaginava como tal) relatando tudo numa folha de papel. Sabe-se que um sonho NO sonho faz com que devamos inverter todos os sentidos – posto que o único substrato do onírico é o real, o que foi representado nele como OUTRO sonho é manifestamente um parêntese ou o pronto acréscimo da palavra NÃO a tudo o que deriva desse real: o oposto do que você quer, o contrário do desfecho desejável… Aos que relativizam essa característica, não considero nada casual a escolha dessa forma negativa de representar a morte do meu pai para mim mesmo. Não como forma de censura que retirasse o fundamental e mais imoral da interpretação do sonho, justamente porque é um dos sonhos de que me lembro com mais exatidão e fidelidade, além de seu teor ser pesadíssimo. Caso fosse realmente uma mensagem positiva, não seria difícil que pulássemos agora para outra etapa do sonho ou que eu tivesse de me despertar do meu sono para rememorá-lo conscientemente e quase sem brechas (o que costuma acontecer quando temos um pesadelo), como o fiz somente ao acordar verdadeiramente. Mas ao “acordar e continuar dormindo”, ou seja, criar o subterfúgio do sonho dentro do sonho, e ter sabido de todas essas operações logo que acordei no mundo real, ficou patente para mim que o que eu fiz foi emitir uma sinalização clara, sem distorções, do que é que eu deveria refutar, o ideal que deveria ser ignorado (meu pensamento crônico da vida consciente de desejo de morte do meu pai [de querer morrer – 2025]). Revelar-se-ia, assim, com um pouco mais de análise a posteriori, o conteúdo latente significativo de verdade, por trás desse teatro tão convincente que encenou a morte do meu pai (ora, dir-se-ia que o sonho é sempre simbólico, mas ele não acaba aqui! Há mais coisas para desvendar, nem tudo me foi dado de presente! Se disse logo acima que quando acordei o sonho já estava totalmente interpretado, foi apenas figura de retórica).
Na interpretação do sonho NO sonho, eu, inclusive, me mostrava satisfeito, vingado, quitado, mas, por outro lado, pesado, desgastado, de alguma forma muito severa, enfim, ressentido, rindo amargamente por dentro da postura condenável dos meus pais – daí o prazer em rabiscar o título e reescrevê-lo mais cruel ainda. [não preciso dizer que me ressentia de mim mesmo mais que de qualquer outra pessoa, certo? – 2025] E agora preciso chegar à cena final do sonho… A parte mais hermética, que complementa a tão transparente mensagem do trecho acima:
II
Uma espécie de bar de entrequadra, desses típicos daqui, é o ambiente. Bem na orla da calçada, já invadindo a vegetação, dialogo, em uma mesa, ou sem a mesa, mas sei que sentado, com um interlocutor mais ou menos da minha idade a quem tentava explicar “minha teoria”. Eu dizia que árvores novas continuavam sempre nascendo, ou algo assim, em oposição às podres e velhas, que morriam. E então me aparecia uma árvore “nova”, recoberta de um musgo bem verde e vivo, e formigas sem cessar brotavam dela e me forçavam a agitar as mãos e os braços, porque elas vinham em grande quantidade para cima de mim, de todas as direções. O interlocutor se gabava dizendo que eu estava errado e ele certo, mas apesar do incômodo da comichão provocada pelas formigas e tentando espantá-las, eu afirmava confiante: “Não, isso só comprova que eu estou certo!”. Algo mais acontecia nesta cena e de repente eu me via com todas as pontas dos dedos das duas mãos decepadas (e por um instante pareciam mesmo caules de árvores serrados!),2 como a dizer: uma árvore genealógica que não prossegue é o que de pior pode haver, sinônimo de esterilidade e anti-vida, sem frutos. Para além da morte de meu pai, já exteriorizei a alguns confidentes o forte desejo de extirpar minha própria raça. [e o que mais eficaz que um suicídio, para extirpar a própria raça? por que esperar até a morte senil tomando ainda o cuidado de não ter descendentes para isso? mas uma árvore que morre ainda nova seria absurdo; então sim, eu estava certo sobre a minha “teoria”! além disso, meu pai sempre viverá em mim. – 2025] Eu, pequeno, força apenas reacionária de um mundo decadente, não tendo filhos (nem metas de que me orgulhasse) e morrendo, implicando assim a ainda mais real e ulterior “re-morte” de meu pai, que findaria sem netos, ou seja, o fim da linhagem. Porém, percebi que no fim das contas estamos vinculados de tal forma que querer a morte de um é querer consumar a morte do outro… [já está decidido de antemão que as árvores seguirão aí, independentemente de qualquer ato nosso, então se preocupar excessivamente com isso é ninharia – 2025] E acho que nem é isso o que eu quero – o que qualquer impulso vital quer… Ficou claro que eu não podia ter um juízo independente, que havia algo mais forte que eu me sustentando e me puxando, mesmo que inclusive me oprimindo, ora ou outra, mas garantindo, de qualquer maneira, minha existência e meus pensamentos de fundo. Existia esse algo que me superava, por trás, soberano, cimentava todos os meus atos, sendo impossível ser contra ele, já que qualquer estado de ânimo meu, ainda que belicoso e adverso para com a própria árvore que me deu origem, seria um mero reflexo do estado de espírito deste “primeiro” ente, que vou deixar aqui como uma abstração (todos os meus finados avós reunidos, quem sabe).
O principal já foi fornecido, mas não esgotei a escrita aqui. Cronologicamente, depois da cena das árvores e do espanto das formigas, e da constatação da amputação múltipla, já estou num carro, só não sei se estacionado ou em movimento. Uma mulher, talvez da minha idade, me pergunta algo a respeito de todos os engodos que se sucederam, e o homem, ao lado dela, talvez eu, talvez não (imagens sobrepostas, parece um amigo chamado Gabriel, muito provavelmente porque a mulher também se parece com uma Gabriela que pensei ter visto num carro qualquer dia desses, no banco do carona, estacionado em uma entrequadra), contestava: “É preciso não acreditar em nenhuma mentira – nem nas dos comerciais…”. “Nem nessas?”, ela insistia. Mas a personagem masculina seguia resoluta em seu ponto de vista…
III
E há, ainda, no miolo do sonho, um outro trecho que por enquanto omiti para não jogar informações demais e atrapalhar a narrativa central (I), que parece ter sido uma ramificação mais madura de várias problematizações aqui levantadas, antes do “suicídio paterno” na sacada do prédio. Estou em casa só, tenho muito tempo para fazer o que quiser, com bastante liberdade à disposição, como se tivessem viajado e me deixado ali. Uso uma espécie de tecido na cabeça que serve de bandana, algo que pertence aos produtos de limpeza da casa ou que fazia parte da decoração. Talvez uma toalha, mas um tanto gasta e irreconhecível. Ao mesmo tempo, o banheiro está bem sujo e diferente do convencional, com a tampa da privada estofada e colorida como se fosse um sofá, mas o urinol está úmido. Encontro-me meio atordoado porque gostaria de fazer alguma coisa, talvez cantar, cantar várias músicas na seqüência, mas não sei por onde começar nem como encontrá-las… Em seguida, em outro trecho, estou tentando dormir, mas sou acordado pelos parentes da casa que abrem a porta fazendo estardalhaço. O Diogo é o culpado, e me irrita bastante. Alguns objetos do criado-mudo e da cama são mudados de lugar, como almofadas, meus óculos, que estavam longe de mim e de repente estão no meu rosto, e os controles remotos, que vão parar na minha mão. Ligo a TV mas pretendo continuar dormindo, ou fingir que estou dormindo, para os demais da casa. Posso pressentir a presença do meu pai e da minha mãe. Mas agora estou de pé, desperto, e recepciono o Alex, Gnomo, amigo do meu irmão Diogo, com quem costumo ser até mais simpático do que com ele. Ele está sem camisa e começamos a lutar – de brincadeira. Tento acertar chutes, e socar com toda a força, mas são golpes fracos demais, que não causam praticamente efeito. Quando ele tenta uma joelhada ou investida, sinto que poderia me derrubar, mas ele não luta pra valer, e eu faço a esquiva ou o bloqueio, mas com dificuldade. Gnomo tenta me dar dicas de como combater melhor, me avisa para não abrir a guarda antes de aplicar o direto com a direita, notando que eu abaixava o outro braço e ficava vulnerável.
De repente o cenário muda. Somos três – eu, Gnomo e o Diogo, se bem que outrora é o Aloísio, meu antigo vizinho, ao invés do Gnomo – acompanhando o jogo sub-17 do Brasil, no horário do almoço. Minha mãe entra no quarto, aparentemente trazendo um lanche. GOL da Seleção nessa mesma hora! A bola parece que nem passou da linha, o lance foi muito rápido para acompanhar com os olhos. Havia ali uma bola, na nossa frente, e eu sentado começava a brincar com ela, fazendo embaixadinhas curtas, com o joelho – até passava para o Árlesson (outro amigo meu que morava perto e com quem convivi nos anos de infância, como com o Aloísio, que agora substituía meu irmão na cena), que estava de costas, e cutucava a cabeça na bola, talvez involuntariamente…
FRASES SOLTAS QUE O FLUXO DE ESCRITOR LIBEROU E QUE NÃO PUDE INSERIR NO TRANSCORRER DA NARRAÇÃO DO SONHO, MAS QUE TÊM RELAÇÃO COM O MESMO:
Sim, nossa danação é que somos supersticiosos, e não há quem tire isso!
A vida é como um sonho gigante! Mas se o final está condicionado pelo começo… Então não pode ser um sonho…
Felizmente, nada é tão claro nem tão hermético – a não ser esse mundo do professor-proletário…
1 E mais tarde preciso narrar uma cena prévia (ou um conjunto delas) que não estaria diretamente nessa interpretação escrita do final do sonho, mas que cronologicamente, da ótica do acordado, é-lhe anterior. [Vide número III]
2 Dentro do próprio sonho, “descobrindo” que estava sonhando (mas esquecendo disso logo depois, ou eu realmente despertei mas voltei logo a dormir), me pus a perguntar por quais causas externas, por quais hipóteses, havia-me representado as mãos decepadas: 1) fui ao médico no mesmo dia e ele não tinha o dedo polegar da mão direita; havíamos apertado as mãos e eu estranhei bastante; 2) pensei na possibilidade de estar deitado sobre uma das mãos e ela se encontrar dormente. Não sei se acordei e constatei que a tese estava correta, me deitando de forma adequada, ou se a sensação de dormência, de que recordo com perfeição, foi artificialmente produzida, como o formigamento dos insetos na cena imediatamente anterior!
Adendo 21-10-25: Nova interpretação: meu pai era eu e, portanto, a mensagem central de todo o sonho era: e u n ã o q u e r o c o m e t e r s u i c í d i o , não desejo seguir sendo apenas expectador de minha própria vida. O que, aliás, à luz de tudo que venho enfrentando, posso dizer, de 2009 a 2025, em termos de saúde mental, tem um caráter muito mais provável. Resumo: nenhum sonho pode ser jamais superinterpretado – eis que já está mega, hiperinterpretado!
[ARQUIVO] JAMAIS SE REPETE
Originalmente publicado em 9 de janeiro de 2011
Esboço de complemento ao MEU PENSAMENTO-MOR (09/07/09)
Mistérios do tempo. Grécia. Um grego hoje que diz sentir fluir em si o sangue dos antepassados. Moderno tresloucado, boca-grande, infame; ou apenas conseqüente? Chame do que quiser, mas nos tornamos herdeiros demais e patriarcas de menos. Tempo bom, não vai voltar. Musa enganadora. Aurora há de brilhar. Reencantamento do mundo, isso não pode ser, porque pressuporia um (re)-en(canto), uma volta ao encanto, mas essa repetição é impossível. O encanto é ser uno. É um novo inaudito canto, no máximo. Des-encantar, como esfriar, gelar, depois aquecer, esquentar, são apenas etapas de um jogo mudo e infinito. Uma roda não gira mais de uma vez neste jogo. Não estamos, pasme, convergindo ao grego. L., G., B. e H.: adeus? (Sempre há gêmeos nessas histórias)
Há-Deus: nem mesmo isso poderá ser repetido, que agonia incisiva essa da morte da criatura mais poderosa já desenhada, e que caricatura pervertida, o máximo do poder – bem como os gregos, ele também vai desaparecer! Quem sabe que novos arranjos de potência e impotência advirão? “A Era dos Extremos”…
Espírito trágico, espírito trágico…
Falta de nostalgia até da falta de nostalgia
Você não vai subir pelos flancos?
Mas se a oportunidade é pouca, e você ainda leva um tranco
Ruminou tanto, deitado, que quando foi andar viu que estava manco
Se a rima parar, aí então eu desanco!
Porque comigo é preto no branco
Não sou como esses homens que mais se parecem com orango-tangos
Mundo do pior-melhor-diferente
Bem abrangente
E quem sabe do futuro? Grande brincadeira é escrever um livro sobre isso!
Enfim, o sonho e o pesadelo, descartes, cantorias, happy schopenhauers, marx-ua-vida-com-boas-marcas, caminhe com pêlo de camurça poraí… tomás uma vida de alegria…
O sonho e o pesadelo… Consumo-Ressaca-Consumo-CONSUNI-ressarce-consumo-ressaca-consumo-ressaca-coturno-na-marra-com-uma-paulada-eu-sumo-ou-pelo-menos-me-aprumo-,saca?
esse é o próprio sonho e as idéias que destroem o sonho
comilão o monstro!
sonso… até meio troncho
poço de desgosto que gera a maravilhosa Vênus redentora… happy end, the wind tearing away the sand
sim eu posso
dane-se
Código de Manu. O Rei está nu. O homem está nu e o take 1 desse filme excitante vai começar quando a claque bater. Palmas!
https://seclusao.org/2025/04/24/arquivo-desvanecer-se-traducao-de-fade-to-black/
[ARQUIVO] POEMA DO EX-LOUCO
Originalmente publicado em 7 de outubro de 2010
Eu já fui mais louco…
No passado eu era mais alegre, e descompromissado
Eu não precisava desabafar sobre o que acontecia. Eu gargalhava do meu dia!
Fato é que, se já fui mais pinel e insano,
meu temperamento no mundo da escrita ‘inda não mudou tanto!
Já tive amigos mais loucos
Já tive amigos, ainda que poucos
Já falei mais sozinho
Já briguei com o meu vizinho
(de dar soco na cara e unhada, aos sete!)
Já fui ladrão sem motivo
Já fui incontinente urinário,
Já fiz cocô nas calças
Minha vida não passava de um corrimão sem alças!
Sim, uma vez eu gozei invisível!
Risada de vilão! Postura de Tropeço! Porre noventa. Corre dos 90. Dois mil milhões de confusões depois… Maconha sonha com seu estrelato mais que mato. Não comia feijão. Era bêbado sem cair no chão. Decrepitude é: ter saudade de tal idade. Tinha medo de garota que prometia tirar a roupa. Daria aula como o Carlos! Está ágil! Ágio nas operações… Sempre tive um elevado senso de ironia. Mas minha metralhadora machucou muitos que eu não queria!
Estourar bolhas daquele plástico! Sonhar com videogame. Chegou ao consciente o meu geme-geme… solene?! Previsão de morte de alguém toca o sino de…
Loucura é uma filha que parimos tal qual Zeus a sua Athena.
[ARQUIVO] PEQUENA HISTÓRIA IDÍLICA (a amante perfeita de alguém supostamente casto na essência)
Originalmente publicado em 6 de outubro de 2010
Nunca haviam se beijado. Não era necessário. Contavam muito mais confidências e abraços apertados. Foi simétrico e instantâneo, se bem que demorado: ambos já tinham essa opinião sobre a vida e o romance, então foi, digamos, moleza para o casal se entender sobre esse ponto, que escora todos os outros pontos. Boca, zona erógena midiática. Como se livrar? o que apalpar no lugar? Pureza verdadeira não há, mas sujeira pode-se administrar. A escatologia fica para os momentos sozinho, os banheiros, os sonos e as recaídas. Os namorados, eles apenas sugam as seivas um do outro. Quanto maior o número de relacionamentos, maior a secura, mais elevada a quantidade de almas estragadas. Pela boca chupa-se o sopro do ânimo
[ARQUIVO] IMAGEM MÁQUINA: A era das tecnologias do virtual – PARENTE, André (org.), 1993.
Originalmente publicado em 11 de julho de 2009
GLOSSÁRIO
anamorfose: provavelmente, aquela ilusão produzida num jogo de futebol em que a bola parece ir em direção ao gol mas na realidade foi desviada para o lado oposto (o lado da câmera, para o telespectador).
cromaqui: fusão, sobreposição, montagem de imagens. O neologismo se explica: chroma-key (o procedimento para enganar o olho humano consiste na supressão da cor azul).
ciberespaço: origem do termo: romance Neuromancer (1984), GIBSON, William.
demo: origem do francês demo(stration).
fractal: criado pela função de Mandelbrot
panótico: Jeremy Bentham o inventou. Dispositivo (técnica arquitetônica) que permite “um guarda de visão perfeita” no centro de uma prisão oval.
pantelégrafo: avô da televisão (espécie de teletela, 1984).
OBS: Ler Battista Alberti
INTRODUÇÃO
Manifesto Futurista: “8. (…) O tempo e o espaço morreram ontem. Vivemos já no absoluto, pois criamos a eterna velocidade onipresente.”
“9. (…) Nós queremos glorificar (…) o desprezo pela mulher.”
“10. Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.”
“É da Itália que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o ‘Futurismo’, porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários.”
“Admirar um quadro antigo equivale a despejar nossa sensibilidade numa urna funerária, no lugar de projetá-la longe, em violentos jatos de criação e de ação.”
Signo da decadência: o anarquismo sempre recai no totalitarismo.
Tudo que exalta o volante bate em tragédia.
Negri x Baudrillard
“Modernamente, Husserl, Bergson e Merleau-Ponty tentaram, cada um a seu modo, superar o dualismo das posições perceptivas e emissivas, que ao longo da história da filosofia se cristalizariam em realismo e idealismo, em empirismo e intelectualismo.”
“Husserl e Heidegger, para quem a tecno-ciência é sinônimo de esquecimento do ser, como se ela fosse uma potência diabólica que ameaçasse o homem; como se ela fosse absolutamente estranha ao homem e à sociedade que a fabrica, e aos agenciamentos coletivos que determinam seu uso.”
“Se para Baudrillard e Virilio a Era do Simulacro é negativo, é porque para eles o simulacro deixa de ser determinado por uma vontade de afirmação do real enquanto novo (diferença livre) e se torna pura repetição do mesmo (simulacro despotencializado). (…) a criação (…) se torna puro jogo comunicacional, interativo e lúdico.”
CONFISSÕES DE UM SEDENTÁRIO Minha neurose de segunda série, querendo que tudo fosse quadrado e não houvesse números ímpares; o game definitivo, substituto irreprochável do que chamamos vida, THE REAL LIFE, com os mesmos objetivos e impasses quanto à hora da morte, muito tempo, aliás, antes do 2nd Life. E não fui acompanhado pelos meus amiguinhos nisso… Tudo em prejuízo do corpo, desde muito cedo…
O fim do papel ou pessimismo sentimental? Ainda gravam corações nas cascas das árvores…
“Outrora, os fatos e os atos ganhavam uma ressonância real num campo limitado: o de uma solidariedade orgânica. A Europa do séc. XV ou do XVIII se comunicava de forma mais viva e mais livre que a Europa televisual ou interativa do XX. Justamente essa ressonância limitada, esse horizonte natural se abria sobre uma extensão universal, enquanto hoje, cada imagem de Berlim ou Bucarest reforça nosso exílio e nos afunda em nosso sonho passivo, em nossa indiferença virtual.”
“A Guerra do Golfo foi a situação-limite do poder da imagem. E talvez valha a pena nos determos nela antes de voltarmos ao dia-a-dia.”
“O mundo vai acabar. A única razão para que pudesse durar é que ele existe. Como é fraca esta razão, comparada a todas as que anunciam o contrário, em particular a seguinte: que tem o mundo doravante a fazer sob o céu?”
Baudelaire
[ARQUIVO] O DON JUAN DOS DEUSES
Originalmente publicado em 22 de setembro de 2010
Sim, estou começando a desenvolver uma nova resposta: a vida não poderia ser justificável nela mesma (à parte esse debate lógica x estética). Precisamos de algo a mais, algo que encampe, um antes, um depois e um além, para suplantar o vazio. Mas não esse além (de)fraudado milenarmente. Não uma simples doutrina espírita, ou uma crença depositada em um livro dogmático. Antes uma nova idéia que a velha bobeira do pó das estrelas e da alma animal, nas raias do possível-impossível e até do sombrio. Nada muito comuni(tari)sta como quereriam esses jovens fúteis de que vim a me afastar, nenhum projeto Sartre-habermasiano, poder massacrante do clã, da nação, do Ocidente, da civilização! Embora tudo isso esteja contemplado e diluído, sim, nessas “novas considerações”…
O solo – firme mas nem tanto – em que meu fôlego pede para se agarrar no momento é num ecletismo virulento e transitório, no grande amálgama de todas as idéias antevistas, mas de jeito maneira ao ponto da esterilidade ou da ingenuidade, ou da gratuidade. Simplesmente “estamos lá”, de alguma forma, no outro lado da linha, participando dos resultados… Antes qualquer crente tinha motivos de sobra para a ação, e você não. Uma força qualquer que o guiava; não indestrutível, mas se vai se destruir não é você que determina, parece vir de um movimento muito mais ligado às próprias assunções da pessoa que acredita. “Fé”, eis uma palavra muito da chamuscada! “Política”, idem ibidem. Ateísmo, revolta, anarquia, juventude, contudo, não estão atrás! Imbecis estacionários, não pensaram no problema que criaram…
Firmemente me vem à mente um novo enunciado: embora não esteja findado o “sempre mudar e se deslocar”, introduzo estas duas outras palavrinhas na salada: confiar e arriscar. Vou tentar… Nem tudo se resolve aqui e agora. E o existencialismo é uma corrente insuficiente. Não sou dos que se contentam com pouco, uma bela esposa, dois lindos filhos e aquela casa na praia… Apenas não estou desesperado, por não estar, por não ser, conformado. Para resumir: já que vamos morrer, antes, fazer o que temos de fazer. E o que temos de fazer? …
[ARQUIVO] CEGUEIRA ESPIRITUAL
Originalmente publicado em 15 de setembro de 2010
Eu não vejo nada
Eu sou um idiota total
Meus óculos caem
Meus ânimos desfalecem
O pesar, ele cresce
Toda a segurança se derrete
nessa onda implacável do vir-a-ser
um quadro,
pintado e bordado,
mas sem margens
para dúvida:
cruel destino!
SUBORDINAÇÃO
Quem é que manda aqui?
É você quem escreve?
Ou apenas aceita ordens
lá de cima?
Ou é da boca do estômago?
Você não age, você serve de
meio
termo corporal do ato
transcendental
Não se deprima,
essa crítica não é nada
pessoal
TITÂNICO
O que aconteceu?
Você morreu!
Epílogo eu volto…
epicamente
picantemente
edipiano, como sempre
mais um plano?
A vida é um plano
Ou dois planos, mas
isso é chato como
cabeça de prego
Meu ego esse ano…
Como?
LAN CHÃO
Superfície malévola,
você afunda, ela se quebra
Você pisa e se equilibra
Todo torto, porque
torta é a pizza como um todo
[ARQUIVO] O FEITIÇO VIROU CONTRA A FEITICEIRA
Originalmente publicado em 4 de dezembro de 2010
Noite, noite, noite…
Você me tranqüiliza…
Por que é que não me engole?
de uma vez…
Os dias demoram a passar
Para teu azar
não foram só eles que senti que, afinal,
iriam expirar
(em sua lenta agonia)…
Porque a lança com que me atravessaste,
não sabes,
mas tua imperícia já fez com que a ferida
cicatrizasse…
Acaba de passar,
meu sentimento de te amar
O que chamas de desperdiçar,
se pelo ar oxidam-se as chamas
nada devagar?
Pensar que em vão?
Mas cinzas deixam na lareira,
para recomeçar a fogueira
Assustada e atroz,
a nova, como a primeira?
Me doaria feito uma fênix
à cegueira;
mas já não posso mentir,
a menos que tu queiras
Freiras matreiras guerreiras,
erguei-as!
Não são as de pano preto e bíblia na mão,
essas devotas.
Derrotas dessas são,
na insídia e na falta de enlevo,
enganos do coração santo e são
Adianto que me espanto
diante do tanto que pequei
devido a teu infiel encanto
Antro de perdição,
ou de perdizes,
que me dizes?
Meretrizes pelos cantos,
saindo das filiais e matrizes?
Patifes, vós sois os culpados!
Entrais no salão todos armados,
de um bom bocado de querer-ser-macho
e afastam o lastro dourado
da flor, antiga e específica
simbologia dessa dor,
outrora digna de louvor
[ARQUIVO] O MESMO ERRO AD INFINITUM
Publicado originalmente em 6 de julho de 2010.
Se o novo técnico da seleção brasileira for o Leonardo, abdico de torcer pelo futebol do meu país até Ricardo Teixeira bater as botas. É inaceitável o projeto que esse mesmo homem expôs num programa em estúdio na Soccer City, África do Sul (alguém aí sabe por que chamamos “soccer” um esporte inventado pelos ingleses como football, e que só os norte-americanos, em teoria, teriam motivos para não chamar assim?). R.T., presidente da Confederação Brasileira de Sóquer, em uma bancada dividida com Renato Maurício Prado, Paulo César Vasconcelos e Arnaldo César Coelho, e orquestrada por Galvão Bueno, disse que o time de 2014 começa a ser montado já no amistoso com os EUA no fim do ano, o primeiro depois da Copa. Segundo o chefão, alçado ao posto por ser apadrinhado (na verdade genro!) de João Havelange, precisamos de jogadores novos, de 18 a 22 anos, para que cheguem experientes ao Mundial do Brasil, e em idade para disputar o torneio com fôlego de sobra! Ótimo…
Prevalece o velho argumento. O mesmo erro de sempre: fecha-se o time antes, e ele, entrópico, naufraga. As últimas Copas vencidas pelo Brasil receberam reforços de última hora: Romário (Parreira), Ronaldo, Rivaldo, Kléberson, Kaká… (Felipão) Os últimos retumbantes fracassos eram times que já estavam prontos, só faltava o “gesto de Bellini”: Parreira (quadrado mágico), Dunga (o papa-Eliminatórias e Copa das Confederações). Leonardo, o Cão Fiel, o terceiro cão fiel consecutivo, recomeçará a tragicomédia… Neymar, Ganso… Ciclos de 4 anos são longos, longos… Sobretudo quando a seleção vira um clube privê… Sobretudo quando TODAS as recentes contratações da CBF para o cargo de técnico são preenchidas por CHATÕES de 1994.
Leonardo foi outro jogador raçudo e brigador. Bonitinho mas ordinário: expulso nas oitavas-de-final da Copa, jogo Brasil x EUA no território ianque, na absurda tarde calorenta de 4 de julho. Guardadas as devidas proporções, o Felipe Melo daquele escrete canarinho. Tinha tudo para resultar em eliminação. O Brasil empatava por 0 a 0. Conseguiu passar com um milagre de Bebeto. Dunga e Jorginho estavam em campo. Ricardo Teixeira já era o presidente da CBF. Sabe-se lá de onde esses caras aprenderam a cultivar uma fixação incurável pela conquista do Tetra. Começo a desconfiar de várias coisas, embarcar nas maiores neuras soviéticas: e se o Romário virou técnico com o Eurico Miranda (no Vasco em 2008) como parte do doutrinamento para a seleção? Não está na cara que um daqueles pertencentes ao clube dos vencedores vai ser o próximo? Tem algo realmente podre nisso tudo. A punheta quadrienal – a ejaculação é precoce. No sexo em si, o pau não sobe, o time fica aviadado, enfia as travas da chuteira na perna do oponente caído, o cotovelo no focinho do gringo desprevenido, a bola pra dentro (epa, Júlio César! pro lado errado…) e a meia (do Roberto Carlos) no CU…
Estou começando a achar que a presença do Baixinho Infernal naquele Mundial 24 anos depois do ponto máximo na carreira de Pelé, a falta super-bem-cobrada pelo Branco no finzinho do jogo e até aquele pênalti do Baggio pra fora… era melhor que nada disso tivesse acontecido! Vencer é um detalhe, no que não sou inédito ao afirmar. Não existe esse instinto de vencedor ou perdedor nas veias. Ronaldo foi os dois, Cafu foi um e foi outro, perebas sortudos já ganharam, Zico só perdeu… E o que isso prova? Invertendo-se um famoso ditado, a sede afobada de vencer é o atalho mais certeiro do perder. Não é 100% garantido, não é um dogma, estamos falando de futebol (ainda magia)! Mas quem quer produzir axiomas é a cartolagem. Eu pude prever, graças a isso, a nossa derrota de 2010 com 40 dias de antecedência. E agora com 4 anos… É, o Ricardo Teixeira facilita as coisas…
[ARQUIVO] O VERDADEIRO PROBLEMA DUNGA-GLOBO

Publicado originalmente em 25 de junho de 2010.
Com as últimas atitudes, Dunga conquistou os corações de quem não gosta de futebol; o meu, não. Eu não estou ligando para a Globo. O Gato Mestre é uma cria da Globo, mas e daí? Eu estou ligando, sim, para entrevistas coletivas que me fazem ter vergonha de ser brasileiro, de ser atrelado, lá fora, a uma imagem totalmente disparatada. Isso inclui tanto Dunga quanto a referida Rede Globo.
Como se algo fosse mudar por causa do técnico da seleção brasileira, quando nem mesmo um momento como Cid Moreira sendo obrigado judicialmente a ler sobre as manipulações contra o Brizola em horário nobre, no Jornal Nacional, realmente desencadeou frutos (pelo contrário, vimos o domínio da Globo se expandir nas últimas duas décadas).
A história da Rede Globo é a mesma dos tentáculos do maior conglomerado de estúdios norte-americano sendo infiltrados no Brasil precisando de uma fachada tupiniquim, no conveniente período em que os competentes homens de quepe no comando entronizavam a técnica e deixavam “a realidade se fazer por si mesma”, ela e os cidadãos Kane, todos arvorados nas ditaduras militares de seus respectivos países. Fiz um trabalho detalhado sobre isso baseado em livro de Daniel Herz há 3 anos, para quem estiver interessado. Para quem não sabe do que estou falando, este é o contrato da Time-Warner, à época apenas Time-Life, absolutamente ilegal pelas leis ainda em vigor no Brasil quando legislavam Figueiredo e outros, sobre as quais os generais fizeram o santo favor de fazer vista grossa. É uma endemia que não cura com sapos veiculados em cadeia nacional para o povão – quem dirá através do twitter, que amanhã se interessará mais pela nova plástica da Vera Fischer e desviará o foco! A verdade é que ainda que o discurso simplista de ópio do povo prevalecesse, o povo precisa do ópio. Ou não precisa?
Em suma, ver a Globo chafurdando (e dando lugar a algo de QUALIDADE no espectro televisivo, o que AINDA não existe!) é tão utópico quanto imaginar um fim dos oligopólios mundiais das telecomunicações, o que exigiria um colapso irreversível do sistema. Seu nome não é Marx e suponho que você não pertença à intelligentsia dos últimos dois séculos que dedicou a vida a tratar desse problema. De qualquer forma, para que eu seja econômico em palavras, permita-me dizer que não há saída para este labirinto.
Portanto, recomendo-vos, neste início de madrugada de 25 de junho, quando será realizada a partida entre Brasil e Portugal logo mais às 11h, que acompanhem os acontecimentos mediante a transmissão da tão insultada e megalomaníaca Globo, porque a imagem e o som são melhores, e fazer o contrário redundaria em prejuízo apenas para o telespectador e torcedor canarinho. Quem tem TV a cabo dispõe de narradores e comentaristas mais preparados – ou, eu diria, menos fossilizados –, porém ainda tem de lidar com um dos maiores reveses dessa Copa, o delay dos gols, que nos são anunciados pela gritaria da vizinhança. Paciência, deixem os mais pobres estarem em vantagem pelo menos dessa vez!
É, meus amigos, redundaria, sim, em desvantagem exclusivamente para vocês e para quem se erguer contra o colosso. Alguma dúvida do quanto estou penalizado pelo Dunga, que será o novo Barbosa caso não conquiste a Copa? Vocês sabem o que acontece quando alguém aparece tentando puxar o tapete de alguns poderosos – vide a dinamitada popularidade do Obama, que por enquanto não depôs ditadores com armas de destruição em massa invisíveis em nenhum país, nem chupou a genitália de nenhuma secretária ou estagiária, mas que é odiado como nunca! O que me espanta sobretudo é que Dunga não precisou ser negro como Barbosa, goleiro do escrete de 50, ou o Barack destes EUA racistas, para cair na desgraça falimentar do SAG (Sistema de Acusações Globo) – não pela cor da pele, como antes, ou por qualquer outra característica como homossexualidade ou ser um ateu, coisas que ele não é, mas, caros amigos, ele cairá inevitavelmente na malha dos seus inimigos, se tornará o alvo perfeito… Dentro de pouquíssimo tempo!
Aliás, eu havia esquecido o argumento central contra toda essa palhaçada advinda de uma classe média incapaz de, agora, enxergar seu próprio umbigo, de tanto que se encontra o traseiro entalado no sofá, como se este móvel se tratasse de um buraco negro e seus corpos sedentários fossem uma mega-sonda ou um sistema solar inteiro: desligar a Globo e recorrer à TV a cabo, a estratégia dos endinheirados e privilegiados, me desculpe informar, é, ainda, se jogar nos braços acolhedores (no sentido de sempre, que é o da leniência dos profissionais liberais para com os que realmente controlam o país, desde os engenhos de cana subutilizados até essa era nojenta do telemarketing) da REDE BOBO, porque ela é dona das principais operadoras do sistema de cabo-difusão e também satélite-difusão e não-sei-mais-quê-difusão, e possui “n” canais 100% seus, além de meter o dedo, e uma lista considerável de programas, nos canais “teoricamente” independentes. Além disso, pare para pensar sobre a produção cultural escassa deste país e o quanto – bem ou mal – foi ela incrementada pelos recursos dos estúdios do Projac: quantos filmes não retratam o país e quantos deles você não assistiu e assistiria de novo? É possível desvinculá-los da própria imagem que fazemos de nós mesmos?
Sim, é preciso saber quem vocês estão atacando! Cuidado com Narciso e sua piscadinha… no espelho!
Minha opinião pessoal: para dizer a verdade, ninguém merece um hexacampeonato. E se eu fosse dono de emissora eu faria a mesma coisa, buscando entrevistas exclusivas, porque, afinal de contas, a CBF é uma entidade viciada, e eu me aproveitaria disso. A Fátima Bernardes enrolou o Rodrigo Paiva a vida inteira, por que pensaria que com o pouco eloqüente Dunga seria diferente? Pensem a respeito.
E reitero: ninguém que ama futebol merece ver esse espetáculo de meio-campo autômato 4 anos a fio. Que a Globo faça suas materiazinhas (que aliás sairiam melhores com Ronaldinho Gaúcho e a espontaneidade do Neymar), e em troca eu possa assistir o que eu quero assistir, sem ter de torcer para a Holanda em pleno 2014. Um bom jogo a todos os CIENTES de que amanhã… nada vai mudar.
Assinado:
Cordialmente [à moda de nossas elite sub-repticiamente conciliadoras e do eterno Acordão que nos contempla]
Gato Mestre, da África do Sul
[ARQUIVO] AFORISMOS RUBROS
De setembro a novembro de 2009.
Às vezes remexemos teias de aranha e papeladas amarelentas, pastas e armários empoeirados, para encontrar uma coisa – no meio da busca os resultados já são tão admiráveis que nem lembramos se o objetivo original já foi contemplado…
Eu sou o cúmulo do ocioso. Eu, eu estou aqui para nada, esse é meu fado. Quando até para filosofar é preciso ter técnica…
O que você tem contra os beberrões, a Amy Winehouse, o atleta, o cientista? Se eles são chamas que queimam como querem!
Meu encanto por alguém como Schuldiner vem de eu ter 21 anos e me sentir em perigo. Minha não-fascinação por Niemeyer e pelo “em fim de carreira” se explica pelo cômodo vizinho ser escuso e eu não encontrar interruptor.
Em mel há moscas! Pior ainda se o açúcar não consegue transbordar…
Me sinto como EricAlex de Elefante: capaz de metralhar um refeitório inteiro só para comer descansado e ouvir os pássaros. Que tal limpar esta quadra? Ou as concessionárias.
[ARQUIVO] EDITORIAL AO RAQUÍTICO
Originalmente publicado em 9 de abril de 2010.
O que leitores de carne fraca do meu blog não podem compreender (pois, ao passo que esses, que ladram duas ou três vezes por ano nos comentários – e que jamais mordem, como os cachorros dos meus sonhos –, são quase sempre seres magrelos, lhes parece faltar a condição da correta circulação do sangue – são um tanto anêmicos, não conhecem as próprias emoções; como poderiam avaliar os corações dos outros?) é o preço incorruptível da vontade de me expressar, pela qual aceito todo o ônus. Disposição esta perfeitamente confundível, em meu caso, com a vontade de viver. Nisso tudo se ergue a verdade fundamental deste espaço, que é: o ponto mais forte e o ponto mais fraco do blog são uma e a mesma coisa, quer seja, que ele lida o tempo todo com tabus. Pense-se no quanto é conveniente ser discreto e, ainda assim, se arrogar títulos como: mente perfeitamente sã, desbravador, etc., etc…
Duele comigo no meu terreno! Que não é o dos inautênticos…
Atacar primeiro, eis o meu lema, e com elegância. O revide grosseiro eu deixo para os covardes.
[ARQUIVO] MEDITAÇÕES AO MEIO-DIA…
Originalmente publicado em 6 de abril de 2010.
…o meio-dia de qualquer dia
Já sinto saudades… Queria fincar meus pés no chão
Então tanto faz! Mas há coisas que eu não sei e que o plus sabe… A ameaça de ficar inválido me rodeia. Por que rastejar como um verme? Porque a próxima primavera será melhor! Até que os fios brancos e o acidente fatal não mais permitam essa “saída”… Porque o projeto humano, que digo, o plus!, só faz sentido enquanto plus! Mas até lá… De volta ao tanto faz, mas que não é tanto faz até que se torne o passado.
Álbum de fotos ou bola-de-cristal? Sempre acho que falta uma emoção a mais… Até que achar não será mais suficiente para transmutar o futuro. Desgosto, uma brincadeira de mau gosto, se o momento não chegar! Mas ele não pode ser QUALQUER fim? Podemos mudar de idéia com uma velocidade incrível… O último enjôo.
No fundo sabemos que eu só estou re-acumulando energia…
À vezes é preciso voltar – quando já se sabe tudo. Pode ser apenas um engano dos senhores pregadores da ciência.
[ARQUIVO] AS DESILUSÕES DO JOVEM EDWARDS
Originalmente publicado em 6 de abril de 2010.
Eduardo tem 22 anos. Encontra-se no limiar do que se pode dizer que é a idade adulta. No limiar inferior. E deixa, com mais um salto sobre um montículo, a adolescência, essa infância amarga. Seu ímpeto volta agora a arder após um longo degelo. Ele realmente gostaria de empreender essas energias que lhe sobram em algo mais que trabalho, poesia, porres e planos. Isso significa a inclinação para a conquista. E ao voraz basta o alimento. Nem precisa ser cozido. Ao fundador de uma nova nação não é certo falar do luxo chamado escolha. A aridez do Himalaia, prados verdíssimos, uma flora exuberante sem solo firme? Ou quiçá aquele chão eterno apesar de rachado? O homem não escolhe local nem clima. Inóspito é só “onde não havia homens ainda”. Nenhum lugar passa em branco, sem ver vidas brotarem, se desenvolverem e serem, na acepção crua da palavra, aquele ambiente. Pois bem: Eduardo chegou a um impasse provisório. Nada de bem-estar, mas sim algo de temeridade, na escolha: o porto um ou o porto dois. A mulher que ele quer contemplar na doce idade do pecado e do erro, ou a firmeza de espírito. Não haverá encanto sobrenatural na segunda, a não ser o encanto de saber que amortecer os encantos é também um encanto, talvez o senhor dos encantos!
O que poderá valer mais? Uma vida com Gabriela, 15 anos, ou o futuro devotado a esta mulher de primavera para outono de 30, Isadora? Sente que vai explodir de paixão por uma das duas a qualquer momento e sente, prenuncia, o derramar das antagonistas, embora o jeito que uma entorne seja absolutamente pacífico e irretocável, um verdadeiro chá das cinco, frente ao outro, tão violento, sacolejante, animado, invejável, imprudente, que espirra lava pelas imediações e até para além delas. O jeito como entornam a água da cumplicidade. O que ele quer? Que tipo de banho Eduardo almeja? Poderia ser que haja essências a desmascarar? Gabriela precisa de proteção. Chora quando a mãe a fustiga, seja por falta de amor-próprio ou por falar demais no telefone. Chora com a menstruação. Chora com as cólicas, mas tem sede de aprender. De aprender que na vida há muito mais pelo que sofrer. Quase uma filha, sete anos mais jovem. Quando for petulante será bem mais má que qualquer mulher mais velha – inocentemente, é claro. Ainda possui aquela pele escorregadia que pode trombar – o que digo? – com outros pênis, outros braços, outros beiços, outro bafo. Crê que poderia ser assim por mais mil anos, sem desgastar sua virgem beleza. O ruim e cansativo na maldade é que ela nos torna assaz bons! É só olhar Isadora! Aprendeu, aprendeu e não pode voltar a ser o que era – e se Eduardo escolhesse Gabriela, escolheria Isadora por tabela. Pagaria toda a fortuna do mundo pelos momentos, pelas efusões mais breves, pelo espetáculo do princípio, a demonstração da gênese, a verificação da beleza mais casual e lívida, coisa autodestrutiva e tão pequenina? Será que vale a pena? A vida vale o ano? O ano não vale a vida, seria fácil demais…
E então, Eduardo quer já o correto ou ainda repisar nos velhos erros? Acho que enquanto puder, ele vai procurar a menina onde puder, mesmo onde já não estiver…
Repisar nos erros é o certo. Isadora não vingou. Virou Poliana e depois Nathália. Nathália era Gabriela. Hoje Gabriela é mais “Rebeca”, nome forte esse, de batalhadora, que não se furta à oportunidade da vanglória. Ou Glória, de duros bastidores, pernas grossas, mas no fundo… Gabriela não é mais Isadora, agora, do que Isadora foi um dia? Não, não chora.
Marina, nome híbrido. Mulher-menina. Menina sabida. Mente, está acima! Dengo de Flamengo. Nina, Nana neném. Tessália, de saia, é a Renata que acertou de primeira…
ímã mar imagemalgemar
amalgamar a margem
geme
Candura ou postura?
Cabisbaixo ou de somenos?
Democrata ou patriarca?
Devagar ou depressa?
Responsabilidade ou co-autoria?
Fria ou debaixo das cobertas ela ainda ardia?
Proibido e escondido ou só apartado, alojado, reservado?
Faz-de-conta ou pega-fogo? Incendiário!
O que faz um homem que não aprendeu a amar a vida toda?
[ARQUIVO] DEBAIXO DO BLOCO
Originalmente publicado em 10 de março de 2010.
Vivia-se mais despreocupadamente. Como que em uma cidade do interior sem nenhuma das intempéries do Nordeste e da magra infância dos pais/primeiros candangos. As bermudas não precisavam ter bolsos, não se carregava dinheiro, documentos, quiçá a chave, para entrar de ponta de pé quando se chegasse em casa – que ultraje! – depois da meia-noite… Telefone é algo imencionável. Não diria que o ritmo era dos mais lentos e morosos, pois as brincadeiras exigiam agilidade. Abordagem muito romântica? Devemos respeitar a ilusão. Improviso, machucados, inconseqüência, carreira e dinheiro… Ninguém se deu conta MESMO?! Hoje há mais com o que se desgastar: borborigmos de estômago, pessoas de quem se depende, namorada exigente, remédios, relógios, traumas… E hoje já nem consigo achar moedas no chão! Não existe uma mão amiga, uma paragem, hospedaria solidária… sem que se deva lavar a sujeira alheia – nada de FIADO! E na verdade esse é o futuro sem futuro. Todos, mesmo os mais destacados, têm de ter um período de banal, de comum, de mais um, de harmonia e encaixe; bem como eu recomendaria a quem não sabe enxergar os panoramas para além da montanha um exílio, um estágio especial, nem que apenas para guardar o vazio num álbum de fotografias, uma história de rodinha sem risos, um “e eu também… embora não goste de lembrar”. Sabe o que faltou ao mestre dos ditirambos? Ser mais ditirâmbico!
[ARQUIVO] METALLICA X NAPSTER: O CAPÍTULO MAIS NEGRO DA HISTÓRIA DA MÚSICA
Originalmente publicado em 6 de março de 2010.
A idéia original era dar curso a uma série intitulada “Os 10 atos mais estúpidos da Música Contemporânea” ou coisa próxima disso, mas por falta de dados bibliográficos e disponibilidade de tempo pude executar apenas “a parte mais nobre” desse “desonroso pódio”, se assim podemos dizer; e minha ansiedade é tanta (talvez do mesmo tamanho que meu amor pelos ofendidos neste artigo!) que decidi publicá-lo logo de cara, sem saber se um dia voltarei à baila com os outros 9 atos “quase tão estúpidos” quanto este no universo da indústria fonográfica.
* * *
Na virada do milênio, uns dinossauros da Música mostraram que realmente estavam caducos e caretas e perpetraram a atitude mais covarde da Música desde o advento do WWW, e que permanecerá no topo desse ranking infame por um bom tempo…
Este comentário é um recorte no tempo, por isso não interessa o que eles fizeram antes nem depois: o grupo de thrash metal / heavy metal / hard rock /pop rock (a depender da década e da taxa de ingestão alcoólica dos membros) mais popular da História (considerando-se que encabeça o Big Four californiano e que possui um leque de ouvintes tão ou até mais variado que outras bandas do estilo metal que se consagraram diante do grande público “exterior”, como o Iron Maiden) iniciou uma guerra perdida contra as novas tecnologias, o “barbarismo digital”. Tudo porque não enxergaram que o formato compact disc havia sido absolutamente suplantado pela disseminação das MP3, fazendo parte hoje apenas de um culto ou uma homenagem que os mais fanáticos sentem a necessidade de prestar aos músicos que tanto causaram impacto em suas vidas. Em outras palavras, tudo o que começa como diversão (4 rapazes sendo “autênticos”) termina com a guerra da única coisa que passa sem deixar nada de significativo no coração humano, mas que outrossim é a única importante no mundo atual: do dinheiro. Direitos autorais, isso o artista tem de saber: são mera convnção, bem anterior ao capitalismo e ao “profissionalismo”, privilégio consensual direcionado aos mais talentosos de uma sociedade, sob diferentes formas de acordo com a era e a religião. Não obstante, aquele que não é mais grato para com seu público perde a honra e o direito de estar sobre um palco, pois não há criação que se sustente sem quem a contemple, não há grandes espíritos sem mediocridade em torno deles e não há como não perder a dádiva dos deuses sendo avarento… Para o trio culpado, James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich, serve a antiquíssima frase: “Aqui se faz, aqui se paga”. O que veio a seguir é a maior prova, e também está nesse top 10. Mas cansei de falar. Sou jovem e não vivi essa época, por isso trago à tona alguém que esteve lá, com consciência para discernir o que se passava, desde os idos dos anos 80:
“Uma grande parte da cena thrash sobreviveu graças à troca de fitas K-7. Os trocadores se comunicavam por seções de pen-pal em revistas norte-americanas de hard rock como Kerrang! e a hoje defunta Sounds. Havia poucos estúdios de gravação preocupados com o metal àquele tempo; trocávamos demos e fitas ao vivo de dúzias de bandas que nunca tinham gravado nada oficialmente. O metal underground era tão legítimo quanto qualquer cena punk, especialmente na Bay Area de São Francisco. Algumas das bandas chegavam eventualmente a um sucesso limitado; poucas ainda estão por aí (destaques especiais para Anthrax, Megadeth e Slayer), mas a maior parte dessas bandas nunca chegou a lançar mais de um álbum ou um single, e a maioria está agora, de fato, esquecida (menções que não podem faltar: Jaguar, Blitzkrieg, Control e Anvil Chorus).
(…)
Em 1982, uma banda em início de carreira chamada Metallica abasteceu alguns amigos trocadores de fitas com uma demo contendo 7 músicas, chamada ‘No Life ‘Til Leather’. Copiada, re-copiada e re-re-copiada, a fita fez seu caminho da Califórnia a Chicago, de Nova Iorque à Inglaterra, à Holanda, à Alemanha. Em meses, a banda tinha fãs espalhados pelo mundo inteiro – sem a ajuda de um só jornalista, de alguém de assessoria ou de qualquer campanha de marketing. Não passam de chutes afirmações sobre quantas pessoas estavam envolvidas nessa rede de troca e multiplicação de fitas, mas um bom número desses fãs de carteirinha (casseteiros) do Metallica era contribuinte amador em vários zines underground da época (e destacamos aqui o Metal Mania, Whiplash, Aardschok, além do Metal Forcer); seu entusiasmo por essa banda desconhecida da costa oeste foi cedo retransmitido para milhares de outros leitores.
O resto, como dizem, é história. Kill ‘em All foi uma sensação; Master of Puppets ficou entre os 40 mais vendidos do planeta; alguns anos depois, o Black Album seria responsável pela venda de 12 milhões de unidades.
(…)
Avançamos rapidamente no tempo para 13 de abril de 2000, e o anúncio de que o Metallica e seus representantes haviam iniciado uma ação judicial contra a companhia de softwares Napster e as Universidades de Southern California, Yale e Indiana nos surpreendeu bastante. Não deixa de ser trágico e irônico vindo de uma banda que se ergueu sobre pirataria de fãs.”
(Fonte original das aspas: Brian Lew, 09/05/2000, Metallica, como você pôde?, traduzido e levemente modificado por mim.)
[ARQUIVO] O PONTUAL
Originalmente publicado em 3 de março de 2010.
Mais uma vez esta reflexão – e reflexão não significa mastigação? – “cinematográfica”: a maioria de nossa vida, de nossos ofícios, é de enfado. Segundos, pílulas de atos incontestes. No grande homem da História ou simplesmente na vida daquele que não era nada, mas sabia ter seus mini-dias perfeitos, de zelo e beleza. Acabei de assistir à majestosa final da Copa do Mundo de 70, exibida na íntegra, em cores e renarrada. Talvez sem tanta realeza para moleques anos 2000, que não aprenderam ainda o gosto clássico. Partida, em geral, morosa, cheia, no entanto, de picos e flashes, de explosões de velocidade e de manobras divinas, tão breves quanto áureas. Linhas de passes dos sonhos… Esse não é um artigo sobre futebol, mas encontrei ao acaso a ilustração perfeita. E o jogador ideal para discorrer sobre minha “pontualidade”: o badalado Pelé. Não estava no seu jogo perfeito, na exibição maior deste mundial – só que suas figurações de luxo foram o bastante para eternizar a(s três) estrela(s). Talvez despontar demais, se outros também davam conta do recado, fosse falta de elegância! Normalmente o aniversariante não é o piadista da festa, o mais desenvolto (até porque não é quem bebe mais, tem obrigações protocolares), nem a pessoa que está mais bem-vestida, mantendo a discrição salutar. Simplicidade calha bem sob os holofotes, durante a tensão da decisão. Pois bem: cada um de nós é um Pelé renascido, inventivo a seu modo. Grande parte desse jogo de 90min ou 90 anos é uma passagem com falhas, impaciências, soros, feiúras, falta de harmonia, insegurança, enfim, aborrecimento, senão ansiedade (“vai, não vai”).
Eu sou pingos. Pingos de textos. Acontecem muitos mal-entendidos e angústias nesses intervalos entre um artigo e outro; sinto-me mortal! A tacada milimétrica vem na hora certa – e desaparece no mesmo instante, pulverizada pelo seu próprio sucesso: foi quase que uma neblina, uma picada de inseto, que não sentimos, não somos nós, éramos outros, focados, jogadores ancestrais e cascudos, não “pensamos”, só executamos aquilo para que viemos a esse mundo. Nosso ofício. Até a casta dos “favorecidos” sabe dessa crueldade da distribuição das apoteoses na natureza. Animais sublimes não perderiam tempo se lamentando! O consolo é o vizinho talentoso… O castelo dele também cai. O castelo de qualquer Napoleão ainda é só de areia. Podemos invocar nossos self olímpicos como uma tequila é entornada: um rasgo mal-sentido; o impacto deve ficar para os expectadores na sala, para o relato do avô – talvez Zeus agisse inconscientemente, castigasse sem temer, sem a pena, tão humana…
A confiança é tanta, em resumo, que o artista se dá ao luxo de desligar seu motor, a parte de seu organismo responsável pela eficácia máxima, hibernar mesmo, a fim de que a máquina não seja depreciada com o banal. É-se nobre o suficiente para aceitar uma magra coleção de vitórias, tal é a representatividade, a integridade, delas. Cobremos menos – e com isso mais! – de nós mesmos…
#AMoscaFilosófica #Arquivo #Filosofia #Futebol #recomendarNaTerapia
[ARQUIVO] ECCE HOMO 0.1
Originalmente publicado em 17 de junho de 2009.
“Com ninguém a gente é menos aparentada do que com seus pais”
“engolir sapos faz, irremediavelmente, um mau caráter – e inclusive estraga o estômago”
“a grosseria (…) é, de longe, a forma mais humana da objeção”
“onde a gente despreza não se pode fazer guerra”
Não é Spinoza que devo ler, mas Pascal. Na realidade, ambos!
“No fim das contas ninguém pode captar nas coisas, incluídos os livros, mais do que ele mesmo já sabe.”
“em casos específicos chegaram a testemunhar para mim o quanto a adaptação aos meus escritos ‘deteriora’ o gosto. (…) Simplesmente não se suporta mais os outros livros, menos ainda os filósofos. (…) Me disseram que não é possível largar um livro meu quando se o tem nas mãos – que eu perturbo inclusive o descanso noturno…”
“não faltam aqueles com os quais a gente pode se comunicar…”
“‘Schopenhauer como educador’ é (…) a minha história mais íntima, incluído meu vir-a-ser.”
P. 101: Sobre a carga de leitura obrigatória em nossas vidas. Sobre o graduar-se e depois despoluir-se. O insuportável de ser uma Soneca! De OUVIR o Ceariba, de ser aconselhado pelo Guilherme, ou por qualquer zé bosta. Achar minha própria essência no período de férias e ir perdendo todo o avanço ao longo do semestre… Fim de um ciclo! Já vinha meditando sobre essa falta do momento épico.
“tudo o que é grande, uma obra, uma ação, volta-se – assim que está acabada – sem demora contra aquele que a executou…”
[ARQUIVO] ONE-DIMENSIONAL MAN: Estudos em Ideologia da Sociedade Industrial Avançada, 1964. – Herbert Marcuse
Originalmente publicado em 12 de fevereiro de 2010.
INTRODUÇÃO: A Paralisia da Crítica
“Até mesmo a análise mais empírica das alternativas históricas parece especulação irreal, e a adesão a ela uma questão de preferência pessoal (ou grupal).”
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AS NOVAS FORMAS DE CONTROLE
Impressões: texto charmoso, períodos curtos e um conhecimento extraordinário: um pastiche de tudo que eu mesmo sei. Não sei se é meu estado de espírito de momento, mas estou rindo das definições do nosso querido Ocidente totalitário.
Como toda a teoria exposta já é minha conhecida (eu diria que é uma arte trezentos sujeitos dizerem a mesma coisa de formas diferentes), vou anotar minhas sensações:
Eu costumo viciar no texto e orientar meu dia por ele – enquanto leio e enquanto a experiência é recente, torturo-me com a perspectiva de “esquecê-lo” e ficar idiota, no que já percebo um auto-deboche, pois não sou eu exatamente, mas o inexorável quadro de humores e superficialidades a que logo somos dragados. E veja: durante o dia 18 conversarei alegremente sobre este livro – hoje, na madrugada do dia 17, eu ainda penso: jamais falarei uma palavra, é “inútil”. Como se minha necessidade fisiológica não estivesse acima dos parâmetros funcionais.
Talvez – talvez – eu esteja ficando maluco e a única medicação que posso tomar é: dosar as leituras em cronogramas diários mais fixos que aqueles que vinha tomando (foda-se O AMANHÃ, pensemos apenas em termos de saúde mental), e bem mais modestos. No máximo 2 capítulos por dia em horário sem sol se o teor deles for tão pesado quanto o deste 1(+INTRO). Logo, para que eu não me sinta mal por estar sendo lerdo ou aquém do que deveria ser na bosta da universidade, me autorizo aqui, expressamente, a demorar… O engraçado é que eu vicio nessa coisa maldita, não consigo passar o dia sem ler. Mas… toda vez que me sentir culpado: “EU NÃO PRECISO MAIS LER NADA NO MUNDO SE NÃO QUISER!”.
-
O FECHAMENTO DO UNIVERSO POLÍTICO
(…)
- A CONQUISTA DA CONSCIÊNCIA INFELIZ: DESSUBLIMAÇÃO REPRESSIVA
Eros e Civilização é considerado a continuação desta obra.
DES-sub… não é perda da OPORTUNIDADE de sublimar, mas é esvaziar o sentido da ação sublimante, quer seja: o onanismo não é mais “proibido”, então como pode constituir alívio quando executado? Banal. Ora, isso (essa liberalização, tolerância) indica a marcha rumo à condição trágica. Sexo como não-vergonha. O sujeito se revoltará menos à medida que a sociedade dá mais vazão a seu inconsciente.
-
O FECHAMENTO DO UNIVERSO DA LOCUÇÃO
(…)
- PENSAMENTO NEGATIVO: A DERROTADA LÓGICA DO PROTESTO
(…)
- DO PENSAMENTO NEGATIVO PARA O POSITIVO: RACIONALIDADE TECNOLÓGICA E A LÓGICA DA DOMINAÇÃO
(…)
- A VITÓRIA DO PENSAMENTO POSITIVO: FILOSOFIA UNIDIMENSIONAL
Para uma história do positivismo: Saint-Simon, Comte e Fourier.
Wittgenstein: como NÃO filosofar com o martelo.
A limitação da filosofia à descrição degustativa do abacaxi (analítica): não é um problema fundamental, como de onde vem a fruta ou o que se faz para comprá-la, quem dirá “o que é o ser?”.
“essa aceitação radical do empírico viola o empírico”
“Sim, pode-se falar e pensar daquilo e naquilo que não é”
-
O COMPROMISSO HISTÓRICO DA FILOSOFIA
(…)
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CATÁSTROFE DA LIBERTAÇÃO
(…)
-
CONCLUSÃO
“A verdadeira fisionomia de nossa época se mostra nas novelas de Samuel Beckett”
O protesto social não só não é eficaz como é prejudicial, por iludir a massa de sua eficácia pontual – omitindo a conversão do povo, outrora força revolucionária, em força de coesão.
#Arquivo #ff0000 #Filosofia #RelatosAutobiográficos #Sociologia
[ARQUIVO] TURNING POINT PARTE II
Originalmente publicado em 8 de fevereiro de 2010.
Me sinto potente para recomeçar! Demorou para me sentir assim – de novo… A novela da sucessão de erros culminando no ulterior sublime se re-representa… Uma pulsão, momentos e novos planos, ilusórios e hipotéticos, eu sei, mas jogados aqui, encenados aqui, encarnados neste frigorífico aqui! Energia bela e forte o suficiente para justificar e apagar… A borracha da primeira vez tinha sido aniquilada pelo ferro-velho sentimental da segunda onda de rancor. Quando eu fechei aquela ferida horrenda… ou melhor, quando a competente médica a suturou… esqueci-me da injustiça do pior ano da minha vida, me redimi e me considerei merecedor e renovado.
Então essa mesma criatura arrancou os pontos, e se fosse na barriga eu diria: as tripas pularam todas para fora! Só que o ferido de guerra nunca sabe que o último inimigo de pé e as caixas de primeiros socorros estão tão próximos! Cada brisa, cada baque, cada comando conspira a favor – CUIDADOS CHEGARÃO A TEMPO! Quando já se tornava contraproducente ao soldado lembrar a remoer seus tempos abortados de quartel – é como se antes o peso da lista de preocupações tivesse de dobrar, porque o espírito queria recordar todas as dores juntas… e aí as características da reconfortante amnésia das chagas foram dando seus sinais, um a um. Já não tenho que responder pelo que foi quase hoje! Já estou esquecendo, me despedindo de, o que me levou a essa reincidente paragem. É verdade que febres – e textos (e letras ruins!) – fecham ciclos? Na Fortaleza eu quis queimar etapas mas eu ERGUI mais etapas…
Mão amiga, logo ali, porque aprendi a confiar; até naqueles sobre quem deveríamos permanecer mais céticos! A espuma, o ciclone, vai passar? Preciso de um terceiro olho, me deslocar! O horizonte é belo, rumo à próxima ilha. Desencane, dessa vez não serei enganado… com noções de paraíso. A vida é como um rio. Eu me rio.
Estou um caco, que devo fazer? Insista! Há coisas que não são como copos d’água, que é o que menos vicia: apenas mais para cativar, para se domar! Estou procurando essa mulher nada aquosa: aquela que dá por si só a sede!
[ARQUIVO] WHEELS OF CONFUSION
Originalmente publicado em 29 de janeiro de 2010.
Escrever reviews foi minha forma de “burlar” o calendário e a agenda de uma pessoa crescida? Foi uma fuga covarde das responsabilidades e necessidades de novidades? Ou eu apenas vivi bem? A imaturidade para trabalhar é um resquício da vontade de jamais ser, vir a ser, outra coisa? Muito apegado, até aos romances do passado? Tentando cavar sempre alguma coisa insólita? Mas eis que a quebra de um ciclo talvez seja o principal fato gerador da minha persona: até ali eu não era nada; eu era só mais um. Então fui chacoalhado e deixado abandonado. Descobri um cobertor, me enrolei e fui me aquecendo aos poucos. Então, saltei de pára-quedas como um louco… Me esborrachei e acho que o hospital não funcionou muito bem comigo… Mas dois grandes giros depois, aqui estou eu, tatu renovado. Somos ruminantes num vaivém excitante de 4… anos? Eu até acho que essa nova empreitada – e a cada uma eu pareço querer armar escândalo – pode resultar na minha morte! Antes de conhecer muita coisa, mas também “já vai tarde”! Melhor a rotina a qualquer custo, mesmo a um negro custo? Mas aqui estou eu e por ora – e talvez para sempre – este é o único juízo comprovável.
Ei! Não é um mistério perceber depois de tudo que a vida é só um jogo? Que não precisava dar reset, ou que tanto faz, desde que não toque no “desliga”? Talvez haja um defeito de fabricação, ou este novo console acolchoado já não se preocupa com esse layout ultrapassado? E que graça tem vencer?
Was it illusion?
[ARQUIVO] RAPOSA
Originalmente publicado em 28 de janeiro de 2010.
Rainha
de mão-dupla
por que me manejas
com tanta destreza?
Santa, diabólica
sempre na moda
Invisível, chamativa
discrição de um mulherão
Futebol ou desenho animado
Desfile na passarela apenas fotografado
ou
espetáculo que é jogado
Com muito peso ou muito amor
Tão minha vizinha
que posso sentir o seu bafo
Mas ele é tão gelado!
Tão distante
porém nunca pense em obstáculos
que amedrontem um Orfeu
Assim careta ou destilada
Serelepe, quem sabe alta
Risonha, mais calada?
Tão ocupada em seu desleixo
tão desleixada em seus romances
de que secretamente
eu me queixo
Todas as delongas e brevidades
significam que te tenho
mas para sempre
abdico de ti?
Resolva-me o paradoxo,
Criatura única!
Falta de fome, excesso de sede
até quando posso dissecar minha própria sublevação
ou desolação
dessa paixão
duplamente – e por isso nunca –
correspondida?
Porque mesmo que nessa matemática 2 valesse 1 + 1
seria D+ pra qualquer um!
Sinto vontade de viver
– sem lógicas e bê-á-bás… –
Bá!
Sotaque gaúcho não vai me ajudar
…dor, torpor, piranha, mordida, ferida
TREvas e relâmpagos e fé
moleca-mulher
tomar a iniciativa?
És de fato muito ativa
Será dessa categoria que precisas?
Por outro lado
quão galante
é uma garo(t)a
Paulista
Sereia do mar
faltam praias!
e redes sem furos!
Amiga, amiga
elegia
Fim da aristocracia!
[ARQUIVO] CEM ANOS APÓS O PROJETO VONTADE DE POTÊNCIA OU ESCOMBROS MUSICAIS
Originalmente publicado em 13 de janeiro de 2010 (anotações de 26/01 a 01/02/09); conteúdo condensado e observações enxertadas em março de 2024.
I. Da Vontade de Poder para a Gênese e Interpretação da Filosofia do Poder de Nietzsche
You’re reaching your nadir
Your will has disappeared
Como babacas com a bunda colada a suas poltronas poderiam entender o meta-alcance trágico do Nietzsche e Marx? Referência à velocidade relativa do trem-bala:¹ jamais será possível aos passageiros fazer essa verificação.
¹ (P.S. 2024) Cfr. DESENCANTO E REENCANTO DO MUNDO, 22 de janeiro de 2009, https://seclusao.org/2021/01/01/desencanto-e-reencanto-do-mundo/.
“Se, porém, libertarmos a vontade schopenhaueriana do seu fundamento metafísico, o que resta é apenas uma vontade de existência”
A única coisa que inexiste – e cuja inexistência está demonstrada – é a autoconservação do sistema, o mítico ponto de equilíbrio.
A “sociedade do poder” é aquela configuração mais poderosa já vista: age com poder sobre seu entorno, diminuindo ao máximo a imprevisibilidade. Efeitos colaterais: desastres naturais são fenômenos cada vez mais freqüêntes, “regulando o sistema”, readicionando a imprevisibilidade que o sistema político pensou exterminar. E na vida urbana o sedentarismo seguro dá lugar aos desastres contumazes de automóvel, boa parte letal.
II. A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos: Da Sabedoria dos Filósofos Trágicos à Inversão do Socratismo
(…)
III. Espinosa e Nietzsche: A Vontade de Poder
(…)
IV. Nietzsche e Kant: Em Torno do Niilismo
(…)
V. A Corporeidade como Esquematismo da Razão em Kant e Nietzsche
(…)
VI. Hegel e Nietzsche, Hermeneutas da Modernidade
Levar o mal da Europa para fora.
POR QUE AS GUITARRAS ELÉTRICAS VIERAM DEPOIS DE HIROSHIMA? A música clássica é sabidamente música romântica, para além do nome. O Classicismo chega atrasado nessa arte das artes. No século XX temos Stravinsky, um Baudelaire atrasado. Qual é a realidade representada pelo espelho da Bay Area nos anos 1980? Disposable Heroes se parece com o Vietnã. Peace Sells com o arrocho dos regimes comunistas orientais. The System has Failed com a (primeira) Guerra do Golfo somente (14 anos de hiato). United Abominations cheira a apartheid. O indie me recorda a fossa econômica das massas no reaganismo. O rap anos 90 é tão Martin Luther King…
ONE PIECE: Não deixar a academia me intoxicar. Ela fala de um século perdido (século vazio). E chega de reformadores! Eu realmente mexo com IT: Idade Trágica! Depois de sorrir no enterro, eu irei presenciar jovens que choram no parto de seus filhos… O lado insuportável da egomania: os millennials, meus coetâneos!
VII. O Papel da Idéia de Eterno Retorno na Gênese do Projeto de Transmutação de Valores
“Aos olhos de Nietzsche a crítica de todos os valores estava concluída no momento em que, no início de janeiro de 1889, a sua consciência se afundou no silêncio”
Quando se vem a conhecer aquilo que se é já é tarde demais para ser o que em tese se gostaria de ser.
O que faz o cristianismo? Condena o passado, sempre, qualquer que seja a vertente. E insiste na promessa do futuro. Já o desprezo do passado (característico do supra-homem) não equivale a nenhuma malversação. É como se ele fosse uma ponte permanente para algo mais.
FROM THE PAST COMES THE STORMS: Desprezar não é nem passar uma borracha, nem endeusar. O futuro pune em ambos os casos. O inaceitável é que a agressão e o trauma não sirvam de estímulo, mas de paralisante. A nuvem negra do cristão é achar que a vida vai melhorar – que é desejável que ela melhore.
VIII. Nietzsche e a Modernidade: Considerações em Torno da II Intempestiva
“De onde vem a distância necessária para se falar sobre a época, estando dentro dela?”
“não significa que a destruição total não seja possível (…) mas ser possível quer dizer ter já ocorrido na imaginação”
IX. Pragmatismo e Perspectivismo
Citações de Rorty e Peirce.
X. Nietzsche e Pessoa
(…)
[ARQUIVO] O POODLE PRETO DE HANA, A RAIVA DOS AMIGOS
Originalmente publicado em 4 de fevereiro de 2009.
Eu matava Max Cavalera com um tiro no meio de um show – continuava no local e horas depois conseguiam me identificar na gravação da câmera de segurança. Acho que não era linchado só porque a representação terminava antes disso!
Não me lembro de sentir tanto remorso por uma coisa em toda minha vida real. Só conseguia pensar: “minha sede de sangue destruiu meu futuro” (curiosamente, o segundo sonho que vou contar não está destacado deste, pois eu tenho lembranças de estar no mesmo local acompanhando mais shows até que tarde da noite ia embora para casa a pé e…).
…Hana me dava sua mão. Não nos víamos há meses. Ela tinha um cão do tamanho de uma van que babava um copo d’água nosso a cada gota de si. Uma coisa enorme que manipulava a dona como um doce brinquedo – tal qual o frango do Ralph, um outro cão que conheço. Parecia brincalhão, manso. A dado ponto Hana não estava mais a meu lado, mas eu cuidava de sua cadelinha preta (um segundo cão). Passava por um quintal repleto de cães raivosos e dois nanicos começavam a persegui-la. Eu estava lá pela 707 norte, naquelas ruelas entre residências baratas e comércios… Acabava matando a dupla de tanto espreme-los nas mãos, mas por engano também assassinava aquela que queria proteger.
Não consegui salvar a amizade…
[ARQUIVO] GÊNIO PRECOCE? GENEALOGIA DE UM MAL, VISLUMBRE DA CURA.
Original – e PROFETICAMENTE – publicado em 14 de outubro de 2006! Com trechos censurados, por motivos óbvios.
Sou Rafael e Araújo Aguiar, 18 anos, cursando jornalismo (2º semestre, turno noturno) pelo UniCEUB-DF. Estou no projeto Abrigo Polar¹ por intermédio de B., o qual conheci por M., antigo vizinho e estudante do Colégio Militar de Brasília, onde estive detido por quatro anos e meio.
¹ (P.S. 2024) Era um blog com mais três pessoas, nenhuma delas do curso de jornalismo.
Como bicho solto, vejo o mundo de uma forma ainda pior e mais ácida. Minha cefaléia deve decorrer das relações invariavelmente atritantes com pessoas de intelecto inferior (porém, em oposição à capacidade cerebral, insinuantes demais), que proliferam no meio em que me encontro.
Sempre tive uma rotina de postar em blogs, de traduzir matérias do inglês, de divulga-las entre amigos, no MSN Messenger e mais recentemente no Orkut, além do finado IRC, é claro. Às vezes me cansa ser tão atarefado. Mas pela primeira vez em muito tempo pareço sentir aquela lesão por esforço repetitivo nos meus dedos ao digitar este excerto, e uma fadiga muscular generalizada. (…)
Sinteticamente, eu não sei quando farei meu regresso com matérias palatáveis. Meu estado físico-mental é muito mais lastimável do que a descrição permite imaginar. Não tenho certeza do meu futuro como jornalista, muito embora esteja virtualmente certo de que vá me formar. O curso em si me agrada, não obstante os estágios nas redações me dêem calafrios. Todos são deveras burros, seu eufemismos: burros. Talvez seja coisa de jornalista esportivo. Talvez seja coisa de jornaleco da capital. Não gosto de apurar matérias na rua ou falar ao telefone. Gosto de “googlar”. (…) até ter um espaço de livre emissão de opinião um profissional do ramo sofre muitas perdas, para as quais não me julgo preparado. Ou, se assim me julgo, meu sistema nervoso me faria ser demitido antes do tempo.
Recentemente briguei com o staff do horariodebrasilia.com e larguei o “projeto” (“pôjéto do pôfêxô”, como diria Vanderlei Luxemburgo). Veja que o Abrigo Polar é PROJETO, sem aspas.¹ É que no HdB são todos muito burros. Sem exceção. Nem hipérboles. Não são “iniciantes”, “caras com falhas”. São arrogantes, prepotentes, cínicos, despreparados gramatical e intelectualmente, e se julgam no direito de oprimir – os mais fortes –, quanta petulância! Não têm coisas produtivas a dizer, e tudo que explicitam o fazem de modo incrivelmente abestado. Abestado, um adjetivo bem nordestino; gosto de remontar a minhas origens (…) Eles mudavam meus textos, depois de enviados, sem que me avisassem dessas insidiosas alterações. “Manipulação do repórter.” Ah, se eu não tivesse olhos de águia (envoltos por lentes de 7 graus e meio de miopia)…
¹ (P.S. 2024) Embora tenha durado tanto quanto as calotas polares estão destinadas a durar frente às protelações na redução da emissão de CO2 pelos países ricos, dentre outras medidas.
Eu vou dar a volta por cima. Eu vou colocar todos os burros em seus devidos lugares. Eu juro. Nem que seja como professor de sociologia, distribuindo conceitos II e MI. Nem que seja como funcionário público que trabalha pouco, ganha bem e dedica seu tempo ao ócio cibernético. Como jornalista minhas chances serão menores, sem embargo permitam-me assim denominar-me ao menos pelos próximos 4 anos.
Eu grito com as pessoas quando não gosto. Alto. Se é pela internet, dizem que é ainda pior – e eu não uso microfone.
Sou Rafael de Araújo Aguiar do Abrigo Polar. Em meu iglu vou aguardar, até a dor de cabeça passar.
[ARQUIVO] DO ÚTERO ÀS ESTRELAS…Into The Void
Originalmente publicado em 24 de outubro de 2009.
Fábula mental dividida em 4 episódios insanos, narrados na ordem em que foram lembrados, em suas minúcias, cerca de 5 minutos após a consciência cumprimentar o nascer de um novo dia…
Dormia com B. tentando desvirgina-la; acordava com P. (…) estava atrás de baixar algo com o PC ligado a um sem-número de cabos sem função aparente. B. tinha desaparecido roubando coisas minhas, e P. havia deixado a porta do forno do fogão aberta e o gás ligado a madrugada inteira. Depois descobri que B. não havia roubado o monitor LCD como pensara, mas que ele, da cor negra, se confundia com a bancada de granito na mesma cor, virado de cabeça para baixo que estava. No entanto, eu seguia caminhando pelo apartamento sentindo certa opressão pela falta de vários objetos… Matutava comigo: essa cena não pode ser real!
Anteriormente, escutava todas as faixas de um álbum do Black Sabbath … Sonhava com o dia em que poria à prova meu talento nos vocais, com o suporte da Fierce Fire, mas temia esquecer a letra na hora “H”. O Megadeth tinha duas canções chamadas “Mastodon”, uma de 6, e a outra de 11 minutos. Eu também ouvia, a provava, todos os vinis do Sepultura.
Eu e A. jogávamos a Star Cup no modo Grand Prix de Mario Kart 64. Eu escolhia o Luigi e estava na tela de baixo. Vencia a 1ª corrida, Wario’s Stadium, com meu rival chegando em segundo. Após as 4 pistas, eu tinha somado um número ridículo de pontos e perdido a disputa, imaginando: quando éramos crianças, fazíamos 33 ou 36 pontos (100% de aproveitamento) sem dificuldades! Decadência da estrela…
Eu passei a viver num quarto modesto que era toda a minha casa. … Recebia várias correspondências. Minha mãe as entregava. Eu as depositava sobre a cama; muitas cartas eram contas e avisos, coisa de gente grande. Eu as ordenava conforme algum critério agora indefinido e vago. … havia uma mensalidade pendente do curso de jornalismo. De repente recebia uma ligação do estrangeiro, de alguém muito idoso, provavelmente do Japão. Meu irmão foi “o secretário” que me passou o telefone. Calmamente pedi que esse homem, que tinha a voz de P., aguardasse na linha enquanto eu tirava minha roupa e tomava uma ducha reconfortante. De volta à linha, ele me solicitava a resolução de várias pendências burocráticas. Passei a possuir entre as mãos uma curiosa seqüência de pagamentos ou recibos de extrato, algo seguramente emitido por um banco, com datas de 2005 e 2006; de uma delas, aliás, eu ainda me recordo textualmente: “06.abr.2005, dia das crianças” – era o que constava no papel, não estou mentindo.
Finda a novela financeira, recebia uma linda visita, C., magra e sorridente; não disfarçava seu encanto instantâneo por mim. Ela trajava um sensualíssimo vestido carmesim, e meias-calças negras. Demonstrou inveja por ter um cabelo mais curto que o meu – e isso era impressionante, porque o dela já atingia o meio das costas! Não importavam mais as questões sérias, nós dois só queríamos arranjar um pretexto qualquer para nos agarrarmos e nos beijarmos ali mesmo, porém minha família se encontrava na casa, talvez no quarto ao lado.
Despertei.
[ARQUIVO] PIAMENTA
Originalmente publicado em 10 de janeiro de 2010.
(…)
Tinha alguma coisa além de cabelo caindo, saindo… Alguma substância, alguma nojeira… Coisas amarelas, líquidos preto e verde… e a torneira aberta, e aquilo se acumulando, entupindo a pia. Talvez até bosta tivesse ali, a água estava realmente abjeta. Houve um momento em que o nível d’água na bancada da torneira estava acima da própria pia, de modo que deveria a água cair em direção ao chão ou então estar acumulada desde o chão do cômodo e já batendo no meu peito, como se fôra uma piscina, no entanto não era o que provocava a minha repulsa – meus membros estavam dormentes. Engraçado, eu olhei ao redor e achei que aquela água estava desrespeitando as leis da física!
(…) eu comia pão com alguma outra coisa apimentada. Mas nunca conseguia colocar pimenta o bastante. Ao meu lado, um amigo de certa ocasião em que virei sem querer o vidro de pimenta sobre uma pobre lingüiça contava esse cômico caso a outra pessoa, um estranho qualquer. Ambos riam, gargalhavam, eu também estava de bom humor e ria junto, porém sentia que ambos não se davam conta de minha presença, eu estava ausente do recinto. Manuseei de novo o vidro, tentei virar seu conteúdo sobre minha mão. Só caíram duas ou três gotículas. Lambi-as.
[ARQUIVO] DIÁRIO DE UMA VIAGEM A FORTALEZA
Originalmente publicado em 10 de janeiro de 2010. Escrito entre 30 de janeiro e 1º de fevereiro de 2008.
30/01/2008
Talvez também sob influência de meu pessimismo contumaz, das minhas mais recentes leituras (num prazo de dois anos) e do desprezo que sinto por interlocutores de pensamento vil é que apresento este fragmento. É necessário deixar claro que o “interlocutor vil” em questão é um magnata cearense de nome Pelé, sem embargo, não conservo a mínima vergonha de meus antecedentes familiares (ele vem a ser meu tio-primo), resquício algum de racismo regional (vulgo xenofobia) ou aversão por cidadãos financeiramente afortunados. O que não tolero é a incapacidade dos ricos em complementar sua educação socratizando-se um pouco que seja – para ser mais atual-televisivo: vestindo as sandálias da humildade. Tampouco apresento, então, a essa altura, qualquer desprezo pela nomenclatura do maior atleta da História deste universo! É só um codinome, e ter chegado a ele tem lá seu método… Seu erro, meu algoz, foi ter aberto a boca demais! Isso e apenas isso…
Eu, tão lento para apreender opiniões concisas acerca de terceiros, descrevê-lo-ia como um sujeito de mediano para bom no entender político, no que dependesse de nosso primeiro encontro. Mas, de segunda, afirmo: és um parvo, um paspalho! Das coisas da vida, da essência invisível, do mundinho paralelo, do faz-de-conta de que I. falou tu nada entendes! Como aquele povaréu de Tianguá, só há uma coisa que mova sua vida: o dinheiro. É inútil encobrir teus anseios com esta capa, homúnculo! Para essas futilidades se é sempre competente, se desejável. De resto você não passa de um velhaco com alma de menino – não, nada de “puro”… Apenas parece distante do olhar filosófico e próximo demais do seu útero-sol, padece de um complexo de Édipo mal-resolvido. Por tabela, é um amoral inconsciente. E não são estas bestas (ou burros de carga) da igreja os mais perigosos? A filha, N., não pode julgá-lo porque não o conhece. Olha para cima ao divisá-lo – aliás, como toda e qualquer Electra. Eu não sofro desse problema, incontornável na terra (não-física) do cabresto, onde ser de elite não significa muito, no meu mundo de (não-)valores.
Sua infantil presunção de que, assim se julga e não esconde nem por um minuto à mesa, se trata de um homem culto quase me comove. Porque homens cultos não podem afirmar a juventude como único período de erro. Sua concepção assoberbada da vida, neste ponto, só já não me assustava pelas prévias revelações de seu caráter fascista.
No momento troco poucas frases com meu tio – menos pretensioso e de raciocínio mais ligeiro que o de Pelé, o pseudo-mecenas da família Ferreira. Mas tais balbuciações já se afiguram como material suficiente, meu caro “Maluco Beleza das Metamorfoses Ambulantes”, para tecer o único elogio à pessoa aqui em evidência: seu correr na praia – ou caminhada, já que é um frágil, mesmo – é meu escrever. Sim, que falta me faz descascá-lo, debulhá-lo nestas folhas como insípido feijão que vem a ser! Enquanto isso (já não sei mais se falo dele ou para você – de você ou para ele; com você ou 2ª pessoa, com tu ou a terceira), nosso nobre magnata precisa de seu retiro existencial bi-semanal. Pode me enganar, vou fingir que no pacote não está inclusa aquela masturbadela na água quentinha do nascer do sol – coisas bem-aceitas para um cara casado que enfrenta a crise da meia-idade.
Mas o papo, comigo, raras vezes esteve ou foi tão prosaico. Parece (ou mais do que parece) que peguei uma raiva excessiva do sujeito. É que realmente usar Darwin para a raça humana é chumbo grosso… E um indivíduo, ou menos, ente, que se auto-define como conhecer e interessado em buscar mais conhecimento, tolerante, bom ouvinte, reflexivo, sempre aberto a novas quebras de paradigmas (e que não sabe por certo o que representa um sintagma, p.ex.), não pode ter 10% do utilitarismo neo-yuppie (ops, embaralhei dois nomes) apresentado na pior festa que freqüentei desde que boêmio sou (o churrasco do enterro e da fossa). Se foi uma ocasião ruim é por dois (e entrelaçados) motivos: não bebi o suficiente e você (de novo minha mistura pronominal, já não dou um dedo mínimo) estava presente. (Mesmo Dostoievsky mistura pessoas na conjugação.)
O que depõe a meu favor neste cenário de aparente sordidez é que, se não bebi e não usufruí dos dotes das convidadas como mais desejaria (além dos regalos alimentícios), ao menos posso lembrar de cada ato falho seu (do Pelé!) sem a mínima distorção. O caro colega, deixe-me ver, acredita no bem e no mal. Nunca ouvira falar de Nietzsche. E nem que o Raul é um dos brasileiros mais escutados e idolatrados fora de palco de todos os últimos 400 anos. O que pode ser mais ridículo que um homem que acredita no diploma universitário como sinônimo de credibilidade irrefutável? Nem Descartes e Kant juntos!
31/01/08
(fim do 1º mês de um ano de até agora agonia gástrica)
“Sabe o que é bastante interessante também?”
O quê?
“Que em virtude de meu atual patamar…”
Vá às favas, com todo o respeito que seu ar grisalho merece mas que as ligações neurais comprometem!
Eu sob a mais crônica das diarréias certamente tenho, ainda, um pensamento mais ajustado e coerente que o seu! [Neste ponto decidi-me pelo emprego definitivo da interpelação direta, num misto de falta de vontade de escrever “fascista” a cada duas linhas e de excesso de disposição de fantasiar uma repulsa à la genro-sogro – explicando melhor: gosto da alternativa impossível em que sou um desafiante jovem, apontando o dedo de maneira não-acovardada para a cara do tolo pai de uma princesinha metida a roqueira… Em termos mais breves: meus devaneios com o corpo, o sorriso, a ginga e a burrice da distante prima N. — infelizmente distante em vários sentidos – parecem tornar Pelé alguém mais custoso de engolir, até porque a filha já é comida o suficiente]
01/02/08
Torcendo para escapar do Inferno…
#offtopic MEGADETH et al. (A luz no fim do túnel)
(comentando execuções aleatórias no meu MP3 player.)
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Train of Consequences
A estória de um assaltante de trem cargueiro e a moral por trás de seus atos me convocam novamente a uma série de questionamentos de natureza recente: o bem, o mal, os subjugados a eles e os acima dos valores. Minha opinião não é escutada por ninguém que não eu mesmo. A teoria dos grupos de influência não precisa ser lembrada aqui porque considero as pessoas suficientemente autônomas para escolherem seus veículos de comunicação, interlocutores e ações por si próprias. Eu sou apenas mais um canal, uma fonte informativa, integrante de um todo mais complexo ou descartável.
Figuras como Deus são ambíguas, duais. E representações como o diabo ou o ladrão são consideradas “puras” no sentido da essência. Mas hoje ouço falar tão pouco no diabo! Ninguém razoável e com mais de 6 anos realmente acredita em uma forma de vida (ou de morte) parecida, pois já incorporou as lições fundamentais do processo de socialização: o mal está no homem, que ejeta os direitos humanos não por outro motivo que a necessidade de controlar seus sórdidos e irrefreáveis (doutro modo) impulsos.
Fazer o certo e fazer o errado. Ser sacana e ter peso na consciência. Receber o castigo merecido. Essas discussões estão enredadas ao passado. Na situação da sociedade dos jogos ou niilista o único valor de si é aquele percebido por si mesmo, imortalizado em alguma imagem auto-louvável. O ladrão de cargas dilapida todas as vidas dos passageiros e trabalhadores do trem ao pilhar seus pertences. Conquanto não se é um deles, seus atos variam da aprovação à indiferença, em cujo trajeto mora a inveja. Às vezes penso como a vida do roubo é fácil: um sujeito se apropriou do meu televisor e do meu micro sem executar nenhuma transação financeira. Usou da violência, da imprevisibilidade física. Mas o complicado é cogitar-se pondo em prática esse “fácil”. Por que eles podem e eu não posso? Questões de berço (não literalmente, mas de uma ótica fatalista – há os furtadores provenientes de berços de ouro maciço).
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Killing Yourself to Live (Black Sabbath)
O ano deve ser um dos da irreversível crise do welfare state. “This is not the way the world was meant” e “Take a look around, what do you see? Pain, suffering and misery”. Além, claro, do título da música. Um ambiente de insegurança suportável graças às benesses teatrais da liquidez do dinheiro. Só o que almejo é o mesmo lar doce lar alheio, e com menos papel-moeda. O montante suficiente, que seja.
A onda de violência obriga o indivíduo a desconfiar de todos e se ver seguro – se possível – apenas dentro de seus próprios portões, ou jaula, a dita propriedade privada, capaz de resguardar até certo ponto todos os outros, tudo que já perdeu sua liquidez e não é mais pertencente a nada nem ninguém. Nem ao capital estrangeiro.
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Gears of War
Se a cultura não fosse a simples negação da natureza e respeitasse mais os princípios de sua Mãe o ser humano, além de cagar novas vidas e impor-lhes o ônus do trabalho, não fabricaria um arsenal nuclear, terminando, com tal atitude, por mais desestabilizar que “ajudar” (não precisa ser ajudada) sua biosfera. Uma mente tão corrupta olha a Terra com bons olhos só enquanto não coleciona as prometidas colônias espaciais que permitirão nossa continuidade. Vã continuidade. Viagem modorrenta. Muito curioso esse desenvolvimento, no sentido cíclico mesmo. Nada de linhas retas ascendentes. As marchas da guerra [ou equipamentos, armas] não pensam na preservação da espécie. Não há a menor garantia de que uma hora a rachadura não abra de vez. É um empreendimento de incomensurável risco, bem ao gosto do modo de produção ocidental e… está caduco dizer ocidental. No passado foram os muçulmanos, depois os soviéticos, japoneses… Agora qualquer olhos-puxados. O mundo. A família acabou. O Eu a engoliu juntamente com tudo. Os co(o)rporativistas ainda carregam aqueles livros debaixo do braço, mas, tal qual qualquer imbecil adaptado ou jogado de lado, só aguardam uma brecha para aparecer. Cada um com sua colossal melancia, preocupados que estão todos em se mostrar. Saldo final: não há um singular juiz. Os tecnicistas criaram um monstro que pode reduzir toda a filosofia ao nada instantaneamente… É… venceram!
* * *
Esses boletins sonoros estão me agradando e podem “intervir” na programação futura (Filosofia – Chauí).¹ Terei cerca de cem possibilidades extras…
¹ Este foi um presente de um primo distante do meu pai pelo qual sou muito grato, especialmente dado meu momento desarticulado em terras estranhas e possuído pelas terríveis marcas da saudade (do quê é que não sei, mas tenho certeza que é a parte de maior desamparo no anthropological blues). Neste preciso momento o amigo atencioso está em seus últimos minutos de praia e já vai retornar a seu meio. Eu não. Acrescento que, para saldar honrosamente meu débito, devo reler esses fragmentos ao chegar em casa e cumprir com o combinado: enviar-lhe por e-mail as ementas solicitadas da área de sociologia da UnB. a Mesmo que seu presente – e o meu futuro – não lhe – me – tenha custado nada, considero a necessidade dessa troca para a continuidade sem turbulências do cotidiano; afinal, humanos, culturalmente, vivem se devendo favores.
a Aposto que me esqueci disso!
Uma de minhas maiores vontades momentâneas é tomar uma cerveja gelada, não obstante meu sistema digestório-excretor precisar de um tempo até se restabelecer. Consolar-me-ei em pensar – e só pensar – no dia em que serei auto-sustentável e terei um novo lar – ainda que eu esteja pensando no aluguel: enquanto se pagar em dia, é todo seu. A independência… Uma cerveja gelada é um pedaço disso, por isso a quero tanto. Porém, conforme venho tentando me ensinar ultimamente, em lembretes mentais esporádicos, vive-se um dia de cada vez e, exilado, é-se plenamente impotente, o inverso de plenipotente. Um exílio implica em um outro exílio ao fim do primeiro, pois a terra natal terá mudado, eu mesmo terei, e será necessária uma readaptação ao local e aos afazeres de origem. E em verdade desconheço se poderei fazê-los todos, esses afazeres. Depende muito das circunstâncias. Ainda assim, ainda se puder, teimosamente deles prorrogarei minha licença, em prol de um só: as leituras atrasadas, que só parecem se agigantar enquanto os prazos encolhem e se tornam onerosos. Pelo menos já me livrei da autofobia e, no horizonte, nem o amor eu vejo. Agora bastam as músicas e as renovações, transferências, trancamentos e reda(reden)ções…
#0000ff #Antropologia #Arquivo #ff0000 #Filosofia #Música #RelatosAutobiográficos
Monica em
“EM NOME DA HONRA”
Originalmente publicado em 8 de janeiro de 2010.
Inspirado na fábula da Chapeuzinho Vermelho
Cabelos loiros, lisos e que mal chegavam aos ombros. Nariz afilado e empinado. Lábios finos e rosas. Uma flor delicada. Monica tinha dezesseis anos e começava a ser uma preocupação para os pais. Filha de um poderoso industrial da Wolfstation – pequena vila inglesa – do século XIX, sua beleza aliada a sua riqueza a tornavam um objeto de intensa cobiça por parte dos homens da cidade. Galanteios de meninotes, rapazolas e mesmo dos amigos do pai nunca foram surpresa na vida da colegial. Porém a atenta Sra. Williams percebeu que a filha não mais recusava as investidas de imediato com um firme: “Não desejo um faz-de-conta burguês e ambas as nossas infelicidades”. Na sala de visitas, dava a entender que não cederia, mas já não era tão resoluta como antes. Se não se tratasse de uma moça rica, poder-se-ia pensar que Monica gostaria de prolongar os casos, quem sabe forjar um noivado, unicamente em busca de dinheiro. A Sra. Williams, como qualquer mulher madura, conhecia muito bem aquelas transformações no corpo e mente da adolescente, da menina-adulta. No entanto, sentia-se constrangida diante dos arroubos de sensualidade da criatura fervilhante que se exibia pela primeira vez debaixo de seu teto e diante dos seus olhos. Cantarolava ao espelho, perfumava-se toda. Nunca havia visto sua filha assim. Resolvera esperar até o dia do baile escolar para dar um passo além da simples observação: chamou Monica a um canto, na cozinha, enquanto assava alguns bolinhos, e pediu que não comprometesse a posição da família na alta sociedade com burlas namoradeiras. Monica sabia o que a palavra burla queria dizer.
Manteve-se afastada de bons partidos na escola; reprimiu seus sentimentos até aquela idade, em que já não era possível ocultar os batimentos acelerados e a maçã rubra das faces quando o assunto das garotas adentrava o sexo oposto. Julgava usufruir de uma vida muito mais confinada do que a das amigas, e mais recatada do que o necessário. Mas não ousava afrontar o pai. Não se sabe ao certo se planejava algo, se nutria rancor pela educação severa que recebia, porém tudo indica que o respeito que demonstrava pelo Sr. Williams não devia ser dissimulação. Acontece que toda santa alma um dia se cansa…
Há meses Monica observava, de longe e sem ser notada por nenhum dos colegas, um bando de alunos da série superior. Populares entre a juventude e malvistos pelos professores, constituíam seis ou sete bolsistas da região pobre da cidade. Não provinham de família abastada, mas freqüentavam a mesma escola da filha de Henry Williams. Este, dono de tecelagens por todo o país e bem-informado pelas amizades e pelos jornais, sabia da política acolhedora da instituição de ensino, e espumava de raiva a cada lembrete do tipo de gente que podia sentar-se às carteiras adjacentes à de seu tesourinho.
Talvez se inclinasse a lutar no parlamento por mudanças na aceitação de estudantes pobres, mas adiava a iniciativa, combinando com o advogado os argumentos perfeitos para a sessão plenária (onde pisava quando bem entendesse), além de aguardar que um célebre comerciante, conhecido seu, assumisse a cátedra de diretor, no rodízio previsto pelo regimento da escola, em apenas dois meses. Poder-se-ia dizer que o inconveniente de misturar a rebenta com uns pobretões da zona operária de Wolfstation não era de trato urgente. Enquanto isso, fazia vistas grossas até mesmo às filhotas dos outros industriais, a inculcar em Monica a idéia de comprar novos vestidinhos, tomara-que-caias, que deixavam as rapariguinhas de ombros escandalosamente desnudos, ou saiões com cortes indecentes.¹ Considerava as filhas dos outros capitalistas putas de luxo, sem exceção.
¹ A tomara-que-caia é “invenção” do século XX, mas esse conto se dispensa da obrigatoriedade de fugir de anacronismos.
Monica decidiu que se aproximaria dos bolsistas na festa do baile. Sabia que, quando muito, um ou dois valeriam a pena; os outros seriam grosseiros por saberem quem ela era – se tem uma coisa por que os sem-dinheiro zelam é o velho orgulho de classe. Não disfarçar antipatias. Não alimentar falsas esperanças de “subir na vida se casando com uma princesa ao invés de uma plebéia”. Não quando seria de cortar o coração de tão humilhante, e aquele Sr. Henry não era o tipo de pai que deixaria barato em uma entrevista eliminatória. Quando se estuda em escolas assim, além do mais, seria muito mais gratificante descontar essa frustração de berço cuspindo no chão e apontando o dedo para ricaças insinuantes.
A princesa penetra da história já desconfiava do gênio desses rapazes. Mas é provável que a cólera direcionada aos burgueses não fosse uniforme. Um ou dois poderiam pensar diferente, no íntimo. E estava cada vez mais complicado para uma loira vistosa e enfeitada de jóias hipnotizantes ao longo do pescoço, dos pulsos, das orelhas e dos dedos, quando não incrustadas nos vestidos, enfim, para uma baronesa com corpo de sereia, lidar com esses novos impulsos: a necessidade de amigos descolados das tradições, o instinto de buscar o diferente, o exótico, o rebelde. Todos têm a idade desse despertar. Ao mesmo tempo, continuar fiel às amigas. E, para isso, deveria ter alguma proeza para contar. Era a mais inexperiente do grupo, e já gerava risitos incontidos nos falatórios no departamento “homens”. Não tinha opinião formada sobre casamento, sobre o melhor estágio da vida para descobrir o marido ou o grau de liberdade que deve ser tolerado entre casais não-reconhecidos pela Igreja. Tudo veio rápido demais para essa moça. Monica quis apenas se auto-afirmar em seu grupo de amigas, não que isso implicasse em ser uma Williams maculada.
Foi no baile que, surpreendentemente, Monica, sem tomar nenhuma iniciativa, foi cortejada pelos famosos bolsistas da Wolfstation Noble School. Do mesmo jeito que costumava ser, debaixo das vistas da própria mãe, só que agora num amplo salão sem obrigações de sangue a interferir. Sorriu muito com o mais alto, aparentemente o “líder”. Respondeu todas as perguntas com inocência e temeu fazer alguma. Confirmou que era filha de Henry Williams, o famoso cidadão freqüentador número 1 do único banco da cidadezinha. Sabe-se lá o que vai fazer duas vezes por dia, religiosamente, às catorze e às dezoito horas, sempre demorando quinze minutos do lado de dentro. Assentiu também às suspeitas de que o pai era dono inclusive de termelétricas e exploradoras de carvão em Northsville, a cidade mais próxima de Wolfstation. E que aqui ele ainda era dono de uma companhia de bondes, mas adorava seus passeios de charrete. Possuía um cocheiro, três cavalos de elite e um carro pintado de ouro. Se era a tinta ou se era ouro de verdade, sobre isso não especulou. Dúvidas tão tolas as daqueles rapazes. E eles aparentavam segurança e auto-domínio quando conversavam longe de seus ouvidos, no gramado. Pessoalmente, não passavam de molecotes. Havia entre eles uma mulher, que Monica não tardou em julgar ser uma prostituta literal. Tinha aquela pinta perto dos lábios que rapidamente se associa à profissional mais antiga do mundo. E aquele sorriso de canto de boca, naquela noite de gala com um decote que fazia os gorilas do sexo oposto arfarem.
* * *
Dois dias depois de ter trajado aquele vestido vermelho de brilhantes e aquela tiara da mesma cor, com sapatos pontiagudos e de salto, além de uma pesada maquiagem, Monica e Edward, o rapaz alto do bando, já trocavam juras intensas de amor. Um amor infantil, diga-se. Nem mesmo se beijavam, só davam-se as mãos, cruzavam os braços ao caminhar, mal se tocavam. Ela já se sentia à vontade entre os bolsistas, no horário das classes. Ou melhor, nos intervalos, uma vez que as regras da distinta instituição eram rígidas e Monica tinha medo de que as fofocas viajassem alguns quilômetros até o escritório do pai.
A Sra. Williams, dotada daquele clássico sexto sentido feminino e materno, esperava a melhor ocasião para abordar a filha. Não perguntaria: “Está se encontrando com um homem às escondidas?”, mas “Qual o nome dele?”. Justo numa tardinha, quando ambas silenciavam na sala e a mãe tricotava ensaiando o discurso na cabeça, uma carruagem deu sinal à janela. Segundo consta, era o criado de Henry, dizendo que Monica devia seguir com ele até onde estava o pai. “Uma conversa no meio do expediente?”, pensou a madame. Mas se tranqüilizou ao se dar conta de que o pai também notava os pormenores da agitada vida da filha: “Vá, vá conversar com ele!”.
Era de fato o criado, mas no banco de trás estava Edward. Ele havia pagado duas libras para que o condutor enganasse a dona da mansão. Capataz muito confiável, sucumbiu à pomposa gorjeta. É um valor que um bolsista duvidosamente poderia desperdiçar pelos cantos. Monica se sentiu divina com este regalo apaixonado. Ambos foram deixados a sós em um parque, o mais espesso da região. Brincaram, rolaram pelo gramado, se enroscaram pelos troncos. E aí Monica percebeu que toda a sua etiqueta não seria suficiente contra pulsões tão selvagens. Pediu, quase tremendo, de excitação, não de pavor, que só continuasse enquanto ela consentisse. O rapaz balançou a cabeça verticalmente. Ambos se embrenharam nas matas mais altas e no canto mais afastado daquele passeio verde, e Monica tentou fazer silêncio. Quando a afoiteza de Edward já era evidente, aliás, o único que se podia notar nele, ela pediu para seu namorado parar. O garotão não podia se conter diante daquela beleza loira tão frágil e agora corrompida. O sangue, o suor, a água da garoa que caía, tudo se juntou com outro fluido. Como nas garras de alguém com quem não se pode comunicar, Monica apenas rangia os dentes, paralisada pela dor do arrependimento e da genitália azarada. Tudo estava turvo demais para reações precisas como aquelas da polida sala-de-estar de antigamente, e ela sequer soube em qual segundo as coisas tinham passado de uma brincadeira entre dois inconseqüentes para uma outra coisa, uma violação; em que momento ela própria se converteu de aventureira intrépida em vítima de estupro.
Edward a largou de bruços, esgotada, e se retirou, como se nada tivesse acontecido. Depois daquele encontro voraz, Monica regressou a pé para casa, de saltos quebrados nas mãos, trancou-se no quarto durante três dias e só aceitou duas visitas: a mãe e a criada que trazia a comida, ainda que quase não a tocasse. A par do que talvez tivesse ocorrido, desconhecendo contudo os detalhes mais ásperos, a Sra. Williams apenas consolava a filha: “Há homens que não revelam sua natureza lupina logo ao segundo encontro”. O senhor e a senhora da casa julgavam ser uma fatalidade natural, o primeiro desengano amoroso de uma garotinha, e se aliviaram por saber que a preocupação com os desordeiros do colégio e as precipitações de Monica não iriam se repetir, resolvidas ambas de uma cajadada.
“O que os amigos de papai iriam dizer?”, foi a frase fixa, o fluxo neurótico que latejava na má-consciência daquela adolescente em prantos e frangalhos. Mas a experiência não fôra tão traumática, a ponto de no quarto dia o bom humor ter instantaneamente se restabelecido. Na escola, pôs as conversas com as antigas amigas, com quem rompera brevemente, em dia, chegando a uma concordata. Não contou nada a ninguém sobre “o bosque”. Na saída, Edward apareceu. Monica se limitou a fitá-lo com uma extraordinária repulsa, curvando-se em meia-circunferência, ainda abalada. Foi agarrada pelo braço esquerdo. Mas quando virou o oleoso pescoço, banhado em suor frio, não era o rosto do rapagote canalha, aquele arquétipo de Don Juan com requintes de maníaco, aquele que enxergou. Era um de seus comparsas, que defendeu o parceiro Eward: “Olha, ele achava que você era um tipo mais arrojado de garota. Ele chorou no meu ombro, disse que confundiu tudo, pensou que sua aflição fazia parte daquele momento de quebra de regras, da nova vida aflorando, de não ser mais uma menininha do papai…”. Uma bofetada na cara seria a reação mais natural, mas Monica apenas baixou ainda mais o rosto, constrangida.
* * *
Passaram-se mais duas semanas sem que ela dirigisse palavra àquela turma. Um dia antes do recesso de fim de ano, decidiu finalmente endereçar uma mensagem a Edward, ao vê-lo desacompanhado. Entregou-lhe um bilhete: “Encaminhe-se ao mesmo local do nosso primeiro encontro. Eu, Monica Williams, por ter sido manchada em meu sangue azul, dou-lhe uma segunda chance, com o ônus de que seja meu pelo resto da eternidade. Contei a meu pai sobre você.” As extremidades do corpo de Edward gelaram. Pensava vertiginosamente em todo o conteúdo do bilhete. Queria saber o que era contar ao pai sobre si, a que nível de profundidade o relato chegara. E conjeturava – se aquilo era mesmo uma proposta de casamento, quão rude não havia sido! Porém, como se esperasse por um acontecimento não muito diferente desse, pôs-se mais uma vez sereno, ajeitou a gola da camisa, pigarreou, socou uma mão na outra, suspirou, relaxou as costas e começou a andar em velocidade até uma casa, de propriedade anônima. Telefonou para a mansão Williams e disse: “Banco Wolfstation. Por favor, transmita o recado. O Sr. Williams precisa falar com o gerente de saldos, ele estará presente apenas às dezoito horas”. Era meio-dia e ele teria tempo para agir.
No reencontro, nenhum movimento suspeito, ainda que num certo breu das árvores. Pelo contrário, rumaram para a casa de Edward, onde a mãe os recebeu com pães de queijo e tagarelices amistosas. No correr da modesta reunião, mudança de planos: “Vamos nos reunir todos, os bolsistas do décimo ano, na casa de Mike”. Lá, um sobrado cinzento, a campainha tocou três vezes até que um risonho Mike desse as caras. Um teto a quatro metros de altura dos convivas, escadas em espiral, sofás fedendo a mofo. Um sítio suntuoso, embora semi-abandonado.
– Onde estão os outros? – perguntou Monica.
– Não haverá outros. Você está em cativeiro.
Alguém veio por trás e abafou-lhe o grito agudo com um saco grosso de algodão, que agora encobria toda sua cabeça. Monica foi levada para o sótão.
Enquanto isso, a garota soube que seu pai seria conduzido a uma cilada. O mais velho do grupo, ainda um rapaz, entretanto mais robusto e barbudo o suficiente para se passar por um respeitável representante bancário, interceptou o Sr. Williams antes que ele pisasse no banco, pelo fim da tarde. Passeavam pela cidade a quatro rodas enquanto conversavam, mas Henry percebia o tom abstrato do “sermão matemático”.
– Conte-me de uma vez, furtaram o meu cofre? E onde está o Sr. Phillips?
– Não, mas iremos… – respondeu o adolescente parrudo, ignorando por completo a segunda pergunta, sobre o real gerente do banco.
Henry Williams nunca havia levado um tiro. Ao ler romances e estórias de detetive sempre se indagava como seria a dor da bala perfurando a pele e a carne após disparo à queima-roupa. Era um ardor ou trauma semelhante a uma mordida brutal. A mordida de um urso, por exemplo. Foi na tíbia direita, pouco acima do osso do tornozelo. A perna inteira parecia ter sido tragada por uma fogueira. Mas fogueiras não fazem sangrar. O vermelho que grassava e se espalhava agora pelo chão da carroça mudou também o tom da dor, agora um repuxar insuportável dos músculos. O atirador puxou o homem pela camisa, imperativo: “Estamos com sua filha; se quiser que os jornais de amanhã contem o que está acontecendo na casa onde ela está, senhor industrial, não faça nada, e nos mande pra cadeia, inclusive. Não vai nos matar porque somos muitos”. “Tu…do bem.” E prosseguiu: “Nós queremos que na sua próxima visita ao banco peça ao gerente, o gerente de verdade, que aumente seu limite de transferências e deposite o lucro do ano anterior da sua tecelagem Wearing Co., que eu conheço pelas notas da imprensa, nestas quinze contas. Vai dizer que essa bala partiu de um ex-cliente furioso que não pôde identificar e que está fazendo isso para sua segurança legítima, pela integridade de seus bens e de seus familiares”. Depositou então um papelote no bolso do sobretudo daquele grisalho outrora imponente. “Não vai perguntar sobre sua filhinha, não é mesmo?… O que importa é… Bem, ela lhe será entregue assim que confirmarmos as transferências; esteja neste mesmo lugar.” Chutou-o para fora da charrete de ouro: “Esteja aqui, não chame a polícia! Nós temos tudo que a força da guarda desta cidade não tem!”. E não era mero blefe. O Sr. Williams mal se mexeu por duas horas, reclinado sobre um tronco, recusando até mesmo a assistência vespertina de uns andrajosos que passavam por perto. Até que percebeu que, pelos dizeres do malfeitor, deveria caminhar de contínuo até o banco, não longe dali, ferido como estava, para realizar o protocolo. Estava atrasado, atrasaria ao todo em mais de meia hora em relação ao combinado. Os cuidados médicos poderiam esperar.
Em torno de oito e meia da noite, com a conta da Wearing esvaziada e o referendo da matriz do banco em Londres (a soma era vultosa), chegava àquela clareira do parque público o reluzente carro do próprio Henry Williams em que um tiro havia soado, dessa vez com três capangas e Monica, toda encolhida. A filha parecia feliz e aliviada ao ver seu progenitor. Abraçaram-se, e ele perguntou:
– Aconteceu alguma coisa?
– Nada, papai… Claro que não houve nada!…
[ARQUIVO] PSICÓLOGO OU PSIQUIATRA? A REDENÇÃO
Postado originalmente em 30 de julho de 2009
Curar a dor: a promessa do século XXI. Uma conversa semanal ou uma, duas, três caixas de um remédio tarja preta solucionarão, dissolverão, as contendas familiares? Talvez para reafirmá-las em sua própria cabeça, o que deveria estar feito desde o início. Uma atividade capitalista, e nada mais. Mesmo as pessoas que se perdem estão apenas obedecendo à própria bússola. O que há de mais elevado que a Arte? Para ensinar o doutor Freud a me analisar melhor eu simplesmente pediria que acessasse meu blog, onde todo o trabalho já está feito. Paciência se só não tive tempo ou disposição para organizar tudo, pôr um índice!¹ O que vale é esta soberba, este momento. Estar no controle, no meio de mil vendavais.
¹ [P.S. 2024] Megalomania à parte, é ao que estou dedicado nesta “segunda metade da vida”, principalmente! Segunda metade não no sentido aritmético, de quem terá apenas 42 anos de vida, mas “ocaso e maturidade da carreira de escritor”, selecionando e lapidando seu passado para publicação, enquanto continua a ventilar idéias e colocá-las no papel, com algo menos de ambição, mas visão mais extensa e aberta.
Ameaçado de desalojamento. Produto da imaginação ou vontade íntima, visceral? Sob constante perigo de blecaute. Mundo dos cegos – e dos surdos. Sinestesia, regresso à infância. Anthropological blues sem blues. Nunca ouvi falar de Narciso ter um pai… Mas não tenho um lago em casa.
A falta de amigos e a estrutura da cidade – mazelas que sugam para o bueiro. O mais confiável dos trouxas não passa de um trocista, invejoso mal-disfarçado. O que ninguém pode eliminar é que vivi e fiz o que fiz. O que fibras óticas tentam evitar – a contra-mão da conformidade! – é o que elas são obrigadas a veicular. Horas vazias pensando se bebe. O ato é mágico e relampejante. Depois, se remoer. Trair o melhor amigo, fundir-se com a pseudo-amada. Mais 5 minutos e ela teria cedido aos meus encantos. Terapia, ah sim, psicoterapia! Acho que errei duas das letras…¹
¹ [P.S. 2024] Eu não estava preparado para uma vida como paciente psicoterapêutico, como agora.
Vamos lá, desaparecedores de dilemas em pacote! Exterminadores de um futuro, para mais além de 1992. Mil continuações. Imagine-se um desbotado: descerebrado, narcoléptico, sem irmão nem pai. Um asco. Sem emoções, sem idéias, sem sangue, sem escrita, sem criação, sem razão.
Enquanto houver caneta, tinta no refil, papel branco ou marrom ao alcance das trêmulas mãos… O pão será comprado. O diabo exorcizado. E ninguém pisará no que não deve acidentalmente.
Amigos, muy amigos. Estes urubus-abelhas. Lágrimas de adoçante.
Silêncio no tribunal da inquisição esquizofrênico do desafortunado sujeito que foi criado no salão impenetrável de uma muralha oca!¹
¹ [P.S. 2024] A inspiração desse período foi o clipe The Trial do Pink Floyd, em que uma muralha que se dobra sobre si mesma é representada: é como se o indivíduo se encontrasse preso dentro de um torreão medieval, muito pior que confinado por uma muralha numa só direção.
Bolhas no pé ou no corpo-inteiro – nenhuma é eterna, nenhuma cicatriza…
[ARQUIVO] A TEIA DE ESCOLHAS E DETERMINISMO NAS TEMPORADAS MAIS RECENTES DE LOST
Originalmente publicado em 11 de maio de 2009.
A despeito da atratividade da idéia de que se pode viajar para o passado, o autor dessa série escolheu o fatalismo, a irrevogabilidade das culpas: o passado refeito é exatamente o passado que havia sido feito! Um círculo histórico fechado.
Paradoxo do avô – mato meu avô quando meu pai sequer havia nascido. Mas e então? Resposta: não matei, eis o impossível. O que está no passado é imutável. Significa que qualquer viagem no tempo “já houve” nesta época para onde se viajou. Você já esteve diante do seu jovem avô, apontou-lhe a arma, a bala pegou de raspão, você voltou à máquina e quando perguntou a seu pai se o pai dele já havia sofrido um atentado à vida, ouviu falar do maluco que era você.
APLICAÇÃO NA ILHA – Nunca começa, mas eis o universo. Os viajantes que “aparecem do nada” e assumem cargos. Normal do ângulo dos nativos. Ah, o Ben sabia que um avião viria a cair ali… A primeira rixa, do ângulo do Ben, entre ele e Sayid foi: “Sim, sou um assassino!” – tiros no peito. “Por que aquele homem, dos outros, me agrediu?” Sem embargo, como mostrou o desenrolar do capítulo sua memória infantil foi extirpada. Todos os “novos dharma” estarão envolvidos na questão do massacre, mas é de se pensar quantos anos ainda faltam. Mais reflexões poderão ser ensaiadas por essa mente balbuciante assim que flashes do futuro forem exibidos (Locke x Ben; Sun, a esposa do desaparecido Jin, etc.).
* * *
Originalmente publicado em 8 de junho de 2009.
A viagem nº 1 de Desmond não foi como a de todos os outros. Ele foi para o futuro, mas se estava lá não podia morrer no passado. Daniel sofreu na carne ao subestimar, com seu novo corpo, sua sina.
[ARQUIVO] SAÚDE NOS MAUS HÁBITOS
Originalmente postado em 8 de janeiro de 2010. de novembro de 2009. Atualizado em 25 de dezembro de 2023.
Excluindo-se uma piora sensível da saúde, parece concludente que não consigo suportar mais do que 5 dias sem ao menos um cigarro.
Se é verdade que o ser humano viciado tem livre-arbítrio, a escolha é entre:
– sustentá-lo;
– explodir de outras maneiras.
Como as condições vigentes não me permitem exercer as atividades de artista quando eu bem quiser (posso passar imensos períodos lidando apenas com procedimentos burocráticos), isso significa eminentemente: duelos familiares. Muitas acusações e nenhum resultado.
Portanto, sei que minha garganta se condói, e o calor é infernal, mas a carteira deve estar sempre à mão. Horas em que morar sozinho não é só ilusão de autonomia…
Ciclo semanal (esse que só eu percebo):
inviabilização do fumo principalmente na dolorosa terça-feira. Prerrogativas, prerrogativas… Canário que não sou…
De resto, parece um paliativo ao efeito Diogo. Mal-aproveitado até aqui. Fumar com música e fumar em silêncio: ambos me agradam.
Apenas não esquecer que até os doentes têm uma saída…
[ARQUIVO] HOMEM-BORRACHA hombre borracho
Originalmente postado em 4 de novembro de 2009. Retocado em 25 de dezembro de 2023.
Especialização: que papinho ridículo de porteiro semi-letrado-afilhado!
O mestre-psicólogo com bacharel em sociologia: brindado com o descrédito, o tabu, portas na cara.
Cara bonita, letra bonita.
Você vai atender os loucos? Engana-se quem pensa no anti-boêmio.
RIR & RECEBER
Salário
Já estou pago
Ora, vim ao mundo nu
Paraíso das almas de mendigo
Sou um Sócrates
Um maduro
Mas não farto
Faltam alguns
(desobrigados) partos.
Quantos alimentos minhas paredes podem suportar
Antes de dissolver com a própria comida vermífuga
(sim, porque essa carne exótica os mata, Dr. Benway!)
Rendered useless to mankind
destroy the logic volume
in the confines of the mind.
I saw tomorrow becoming today
Pântano de lixo curioso e danoso
O mundo é uma bola jocosa
7 anos debaixo dos panos
101 110 160 o quanto o motor
bitolado agüenta
gasto de folhas
cigarra fanha festa celulóide
Meu próprio enigma –
[ARQUIVO] CONSTANTINO SEVERINO, O FUMANTE
Originalmente postado em 5 de novembro de 2009. Retocado em 25 de dezembro de 2023.
Constantemente tragando através de um terceiro olho. Na verdade de uma chupeta. Bem o que uma criança deve fazer.
Mais um blasé
Música quadrada Prodigy não podia faltar
A aposta entre deus e o diabo – humano campo neutro
O olho do gato
Carros velhos retorcidos orcs
O seu destino é o meu destino?
Ele se sente tão cansado quanto eu. Apuro para essas novas coisas.
Híbridos vomitados neste mundo e o rebotalho espertalhão
O filho rebelde do filho rebelde é o santo
Que a casa transtorna
Mosc’azul blockbust’encial
Wasteland
Alguém é blasé só até conhecermos melhor? Idade dos homens-capa. Desembrulhei todos até agora.
“como andar de bicicleta” – eu tenho certeza que ressuscitei num corpo novo.
the black guy
O lamacento presidiário italiano de Prison Break
Como você efetuou suas escolhas profissionais?
[ARQUIVO] PARTICIPAÇÃO EM SUBLEVAÇÕES II
Originalmente postado em 7 de janeiro de 2010.
Ah, se apenas me afetasse!
Lembro do bloqueio do trânsito (da reflexão? Modo de ficar bêbado de cara limpa.) da W3 no 1º mês do CEUB: aquela censura poderia num curto espaço de tempo redirecionar minha carreira…
Vejamos se fosse hoje e com um texto realmente meu: eu me limitaria a assistir e a agradecer àquele bando de jovens, torceria mesmo para outros se juntarem. Além do mais havia ali outra incumbência: a de “noticiar” (até “participar”!) do representante de turma… Eu via muitos burgueses, não esse tipo de playboy sujismundo artificial da UnB.
Para não discutirmos acerca de duas medidas, o que é que geraria um efeito parecido?
R: Se suprimissem a licenciatura, a-rá!
Há muita coisa pela qual eu faria isso – mas dançando…
Que aula mais monológica!
[ARQUIVO] IMPOSSÍVEL SER CLÁSSICO (no senso nietzschiano)
Originalmente postado em 2 de janeiro de 2010. Atualizado em 25 de dezembro de 2023.
Já abdiquei desse intuito nostálgico. O metal e seu caráter iconoclasta não poderiam existir sem que se estivesse “perdendo o jogo”, e os gregos não o estavam… Minha condição de duplo gauche não é por acaso. Há ainda o cigarro, as pernas fracas que não me permitem sonhar sequer com caminhadas homéricas montanha acima ou simples trilhas cachoeiras abaixo. Sou um simplório, mas um grande simplório! Não estou em busca de uma nova arte sublime, mas estou interessado tão-somente em chegar às culminâncias entrópicas do desenvolvimento de uma das mais antigas, uma bem judia… Para isso eu não preciso ser um anjo, aliás, pairar tão além do bem e do mal a ponto de subverter a ascese pela própria ascese!
[ARQUIVO] O ÓRFÃO
Originalmente postado em 30 de dezembro de 2009. Atualizado em 24 de dezembro de 2023, incluindo a revelação, via tratamento artístico, da inspiração ficcional que percorre o texto – a conhecida opressão dos saiyajins pelo monstro Freeza (o que não quer dizer que meu pai não seja um tirano) e seu melancólico final…
Querer o mal de um filho é muito mais cruel e insidioso do que desejar o mesmo para um pai? E quando essas não são as intenções declaradas, mas há a verificação desse prejuízo, de igual modo? Dolo ou culpa importa aqui? Não posso carregar o mundo nas costas!
Aquele que se volta contra quem o pôs no mundo, o lugar de onde afinal saiu, desencadeia um contra-senso fisiológico, mas se auto-golpear-se é possível e até mesmo bem razoável, essa cena trágica se mostra quase que uma regra, com regularidade na História. Há aí um despeito provocado por antecedentes, coisas que não dizem respeito ao ente desafiante. Assim parece ser com todos os homens desde Adão, a erguer a vista para os céus e indagar: “Por quê, Deus-Pai?”. Postura compreensível, se bem que o fim seja tristonho. A humanidade ainda não é forte e estabelecida o suficiente para sair do quintal de casa? Prefere ser tiranizada pelo dono do barro que a moldou? Fim da adolescência: momento de passos hesitantes, será que dá pra ir?, e se quiser voltar? Insustentável… “É terrível! Ele foi cortado em dois!” As histórias de rebeldia juvenil, escravização intra-genos/clã e tentativa de parricídio me atraem…

O sujeito que decide atacar, menospreza em demasia ou fere de fato a própria criatura que inseriu no mundo – essa é uma maldade genuinamente nascida ali, sem antecedentes, gerada numa realidade em corte, independente das situações antigas… porque aí recairíamos no problema do rabo da cobra! Que espécie de covardia louca é essa? Há mais tempo no mundo, muito mais chances de vencer! Provocar um inimigo que a gente sabe que vai derrubar. Existe algum mérito nisso? Em última instância, o filho está sempre num beco sem-saídas… a menos que haja um deus ex machina – mas se Deus é o inimigo! O ódio do filho contra o pai é sempre mais inocente, porque foi estimulado pela faísca pervertida do mais poderoso! Em nenhuma época uma classe mais alta cedeu caminho voluntariamente à mais baixa. A passagem de cetro é traumática. E se cada família, ou determinado número de famílias, for essa história do universo em microcosmo? Mas o filho não mata o pai! Ele furta o lugar do pai: “a cabeceira da mesa é minha!”. O último filho… é um sortudo ou um azarado? Às vezes o ar rabugento e despretensioso do dia a dia acaba levando à esterilidade do próprio sistema reprodutor, da própria extensão do sistema reprodutor! O egoísmo e a cegueira que fatiam inclusive o derradeiro tablete de carne, fazem respingar o último filete de sangue! Uma raça que já sofreu deveras!

Fazer mal inconscientemente não é desculpa. Parece que esse sempre foi o problema: títulos e fachadas. O mundo seria menos bárbaro se houvesse menos santos. No momento em que vem à tona o que a divindade fez… ela tem que se emendar! Se Ele resolve dissimular a tranqüilidade de um dia após o outro rumo ao infinito e não presta contas dos próprios atos, não pode haver mais mundo, senhor de que inteligência? Tombo, amargura e leito de morte. Os dinossauros se extinguiram por ambíguas imprudência e frieza glacial.
Vou narrar a história de um filho adotivo e orgulhoso de sua origem supostamente real, em algum confim do universo… Seu pai – o único de que se recorda – era um homem muito rico que odiava compartilhar as suas posses. Seu filho foi educado para construir seu próprio império a sua maneira, única forma de demonstrar seu valor e pedigree. Mas ai! O mundo muda! Se torna mais duro e impressionante, sob o preço de enfraquecer seus habitantes! O que o mais antigo fez, o novo e ainda valente já não podia! Pois cortam suas asas… O príncipe era sistematicamente humilhado pelo Rei na frente de seus humildes servos e também diante de seus asseclas, os nobres da côrte.

E sob as vistas, outrossim, dos amigos daquele. E como tais rapazes eram em parte afetados pela depreciação e pelas grosserias perpetradas pelo todo-poderoso, se solidarizavam. Assim ocorre com os mais fracos – se juntam para sofrer em bando. Foram formuladas as promessas de um destino melhor: ter, conquistar o império. E não devia haver mais impérios, aquele era o único, já englobava tudo! Para isso, o eterno empecilho teria que ser afastado! Isso era uma labuta incalculável. A muito custo, só se podia amealhar parcas migalhas… ah, mas se se era tenaz, e sangue daquele sangue… O mais perigoso era, ainda antes da idade, crer que descobriu um atalho. Não há atalhos para o Grande Poder! E nem satisfaz ser o segundo em Roma.

Foi aí que aconteceu de encontrar, em meio às peregrinações pelas províncias, um outro aventureiro-solo bastante combativo. Talvez fosse outro deserdado, a crescer longe dos auspícios do pai. Fato é que tinha muita sede de alguma coisa. O príncipe e seu bando viraram inimigos desse guerreiro e salteador anônimo. Pensando bem, tudo que esse tipo devia querer eram boas histórias para contar aos netos. E o bando principesco foi aniquilado por este inusitado personagem até o protagonista de nossa lenda se encontrar terrivelmente solitário.

Sem poder vencer seu adversário, mas tendo, em contrapartida, eliminado muitas vidas e deixado o algoz alquebrado, partiu em debandada. Orgulho ferido e, ambivalentemente, ampliado – era só cicatrizar as feridas. Tinha rompido com o pai, não pretendia mais se sujeitar aos caprichos e despotismos do Rei, mas precisava de seus médicos. Felizmente, descobriu que ele estava em viagem ao chegar ao seu palácio e, como fosse muito querido ali, dele cuidaram em segredo. O que de sua cabeça tomava conta era um misto de sensações estranhas… Do cumprimento final de seus planos à simples realização da vingança contra o último verme que se lhe opôs e o deixou nesse estado. Até que desse choque de idéias brotou uma conveniência.

Uma iluminação! Reordenar os peões, convocar os traidores, promover fissuras nas fileiras do exército paterno, torná-lo vulnerável a ameaças externas, ver o céu azul transmutar num verdadeiro caos de deposição de governo! Tudo isso graças ao forasteiro petulante! Iria pedir uma trégua. Seu sangue azul se enojava, mas era por nobre causa! Finalmente se aproximava, o dia com que tanto sonhara!
O príncipe e o forte guerreiro em farrapos e sem status, que só podia contar com a bravura, estabeleceram aliança. Um novo equilíbrio de forças era necessário para matar o Rei. Cheio de artimanhas e de astúcia, o príncipe agiu nos bastidores o quanto pôde e minou as forças da base de sustentação da Coroa de seu padrasto. O resto teria de ser em um duelo franco, mas se imaginava que um capitão resfriado já não podia com uma nau prestes a virar! Assim latejava o pulso do príncipe-escravo, à beira da planejada assinatura da alforria… Tantos anos pela frente para praticar o que quisesse, sem a “intervenção divina”!
O seu auxiliar, que com ele dividiria a vitória, não era problema para agora. Não havia espaço em seu coração mutilado pelo fado do berço! Na batalha final, o cruzamento crepuscular entre as hostes insurgentes e a cavalaria oficial, a exibição cavalar e inesperada de um poder que se mantinha latente só para enganar os jovens e os de memória desafortunada… Era assombroso o que o Rei era capaz de fazer. Depois de tantos anos, esmagaria o ingrato do filho adotivo, junto com aquela raça de depravados e taberneiros que levava consigo. A abelhinha e o enxame. Mas não podiam fazer muito mal. Eram insetos contra o “homem mais rico” – é ganancioso. A crueldade monstruosa vem sempre do mesmo lado. Do lado de quem está ganhando. E a justiça é medida em atos: quem morre merece morrer.

Por isso, meus irmãos, é que eu disse que inexistem atalhos. E o penetra plebeu não é alvo de nosso conto nuclear e de intrigas entre gerações, por isso não nos importa o que lhe aconteceu. Resta que o espectador saiba: o filho fracassou por subestimar aquele ímpeto oculto de alguém que ainda se mantém de pernas fortes e que já foi filho um dia. Na decisão, a diferença de forças flagrante paralisou os músculos do príncipe. Um ex-herdeiro angustiado, derramando suas primeiras lágrimas, em prantos, ou nem isso, pois perdeu a vontade de tudo. A marreta desce-lhe cachola abaixo. Estatelado, ainda grita encolerizado para o reino do nada o seu estribilho de oprimido. A última cólera. Que lhe estiola a alma, exaure o naco reserva de energia para soerguer-se e tentar lutar. Pouco importa. Nenhuma quantidade de esforço empregado surtiria efeito, o outro lado resistirá incólume. Esse é o superlativo da anemia e do fracasso, e da náusea, para quem lê. Uma vítima – desenhada desde os tempos antigos? A estrela não brilhou para este Édipo pela metade. Não era hora de arriscar.
Não agora, não ainda!
Por que montanhas levam milênios para se porem duras – e o caráter leva um pouco menos…
E a vida do Rei não perdeu o sentido, porque na posteridade haveria uma legião de descontentes de quem cuidar – talvez nos dois sentidos, bajular, absorver, converter, depois estar pronto para quando a cria resolver se desvencilhar, contra-atacar, arremessa-lo de encontro às pedras! –, muitos noviços e imprudentes, impacientes para tomar o lugar deste Júlio César de outras galáxias! E o hábito afia o tirano!
Consolo: no tempo apropriado, até o juízo de reis vacila, cambaleia, a justiça trai a pujança ancestral. A digestão do ódio não é imediata!
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