Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):
35: loucura atrelada à fome; menção do Brasil.
54: na Grécia, a esperança era um vício
59: o objetivo de Platão sempre foi viver
62: o último homem e a estrela insignificante; a fé na embriaguez (triste retrato).
66: nosso caráter de eternum mobile
75: “o inventor do cristianismo”
76: a religião não-religiosa
82: Don Juan
86: nota de rodapé sobre Prometeu: “Depois de 30 eras ou séculos, Hércules o libertou”—para um grego—sobretudo—esse tempo era inimaginável: como nossa fermentação do caldo da vida nos oceanos. Mas o período já excede a era judaica!
112-4: para o desprezo
120-3: nutrição
153: defende que duas pessoas só se casem quando já tiverem um filho crescido
178: para todos e para ninguém; o preceptor.
187: diretrizes para tratar o criminoso
191-3: a judeca no séc. XX: otimismo!
194-6: do escravo assalariado
221: há a música feita com a exclusiva segunda intenção de hipnotizar o ouvinte, sacolejá-lo de lá pra cá, sereia, pérfida, inconfiável, mesquinha
228: para uso pelo nazismo
235: o perigo de endeusar uma biografia: ela deve ser sobretudo imitável!; senão, perde o encanto…
261: não bancar o superior (que se é), descer das nuvens, ser pateta e bem-humorado, quando o quilate daqueles com quem se interage é desprezível
275: grande dado sobre os gregos—quer dizer, em suma, que para a paleta de cores desses antigos, não faz o mínimo sentido declarar: o Planetinha Azul. O mar, o céu, as florestas, tudo eram outros tons para eles… Maior proximidade—continuidade—entre homem e natureza. Não está descartado que um dia a pele humana seja azul!
281: o gênio sem crédito: quando os pilotos da sua vida são inferiores a você. Quando você é ilegitimamente comandado, subalterno. O ÓRFÃO.
311: espécie de rancor contra o teatro
316: nossa saga principal cheia de “subquests”
322-6: a história de Comte
328: da parcimônia antiga no filosofar e do estilo enciclopédico moderno
429 (546): Epicteto; da única humildade aceitável.
442: da epilepsia
334-6: precisamos todos estar sempre grávidos!
Prefácio: o homem do subterrâneo.
“Confiar nos próprios sentimentos significa obedecer mais ao avô, à avó e aos antepassados do que obedecer aos deuses que estão em nós, à nossa razão e à nossa experiência.”
“Nihil humani a me alienum puto”
“Os homens que conhecem instantes de sublime encanto e que, em momentos comuns, por causa do contraste e da extrema usura de suas forças nervosas, se sentem miseráveis e desolados, consideram tais momentos como a verdadeira manifestação de si mesmos, de seu ‘eu’; pelo contrário, a miséria e a desolação como o efeito do ‘não-eu’; é por isso que pensam em seu meio, em sua época, em seu mundo todo, com sentimentos de vingança. A embriaguez parece-lhes ser a verdadeira vida, o eu autêntico: em tudo o resto vêem adversários e inimigos da embriaguez, qualquer que seja a espécie dessa embriaguez, espiritual, moral, religiosa ou artística. A humanidade deve boa parte de suas desgraças a esses embriagados entusiastas: pois são infatigáveis semeadores do joio do descontentamento de si e dos outros, do desprezo de seu tempo e do mundo e sobretudo do cansaço. Talvez todo um inferno de criminosos não poderia produzir essas conseqüências nefastas e distantes, esses efeitos pesados e inquietantes, que corrompem a terra e o ar e que são o apanágio dessa nobre pequena comunidade de seres desenfreados, extravagantes e meio loucos, gênios que não sabem se dominar e que só encontram alegria em si próprios quando se perdem completamente: enquanto o criminoso, pelo contrário, dá ainda provas de domínio de si, de sacrifício e de sabedoria e mantém vivas essas qualidades naqueles que o temem. Por causa dele a abóbada celeste que se eleva acima da vida se torna talvez perigosa e obscura, mas a atmosfera permanece vigorosa e severa.—Além disso, esses iluminados põem todas as suas forças para propagar a fé na embriaguez, como se fosse a vida por excelência! Precisamente como se corrompe rapidamente os selvagens com a ‘aguardente’, que os leva a perecer, a humanidade foi corrompida em seu conjunto, lenta e fundamentalmente, pela aguardente espiritual dos sentimentos inebriantes e por aqueles que mantinham vivo o desejo dela: talvez termine por perecer por causa disso.”
“de onde provém essa aversão repentina e sem razão contra aquele que possuiu toda a liberdade de espírito e que se tornou ‘crente’? (…) Talvez tudo isso pretenderia nos levar a entender que não somos totalmente seguros de nós mesmos! Plantamos em torno de nós, no momento oportuno, as cercas-vivas do desprezo mais espinhento, para que, no momento decisivo em que a idade nos torna fracos e esquecidos, possamos ultrapassar nosso próprio desprezo!—Sinceramente, esta suposição é errônea e aquele que a formula ignora tudo que anima e determina o espírito livre: como este último está longe de achar a mudança de suas opiniões desprezível em si! Como, pelo contrário, aprecia a faculdade de mudar sua opinião, qualidade rara e superior, sobretudo quando se consegue mantê-la até a velhice! E seu orgulho (e não sua pusilanimidade) chega até a colher os frutos proibidos do spernere se spemi [desprezar ser desprezado] e do spernere se ipsum [desprezar-se a si mesmo], longe de se deter no temor que inspiram aos vaidosos e aos timoratos. (…) nossa boa vontade é vencida pela idéia da monstruosa deslealdade que deve ter reinado no apóstata de espírito livre, pela idéia de uma degenerescência geral que corrói o caráter até a medula.”
“passamos por verdadeiras crises de orgulho.—E agora aponta a primeira aurora de apaziguamento, de cura (…) consideramo-nos então patetas e vaidosos—como se nos tivesse acontecido qualquer coisa de único! (…) Não nos encolerizamos se a magia da saúde recomeça seu jogo—contemplamos esse espetáculo como se estivéssemos transformados, calmos e cansados ainda. Nesse estado não se pode ouvir música sem chorar.” Nota-se uma diminuição do poder da música!
“não há senda voltada para o mundo real! Estamos em nossa teia como aranhas e ainda que apanhemos alguma coisa, podemos apanhar somente e sempre o que se deixar prender em nossa teia.”
“uma borboleta voa de cá para lá, sem se importar que sua vida não vai durar mais que um dia e que a noite será muito fria para sua fragilidade alada.”
“nós, anões malignos, com nossa vontade e nossas causas finais, somos importunados, calcados aos pés, muitas vezes feridos por gigantes imbecis, arqui-imbecis: os acasos (…) esses monstros sobrevêm muitas vezes quando a existência na teia de aranha das causas finais se tornou demasiado enfadonha e pusilânime”
“‘Há, portanto, um único reino, aquele da imbecilidade e do acaso?’ (…) sim (…) Essas mãos de ferro da necessidade que agitam os dados do acaso continuam seu jogo”–indefinidamente “nós mesmos agitamos o copo dos dados”
Não são raros os elogios aos sofistas.
“A embriaguez lhes interessa mais que a alimentação.”
“entre todos os habitantes da Europa são eles [os judeus] que, na desgraça, têm mais raramente o recurso à bebida ou ao suicídio para sair de um embaraço profundo (…) Todo judeu encontra na história de seus pais e de seus antepassados uma fonte de exemplos de raciocínio frio e de perseverança em situações terríveis (…) quando Israel tiver transformado sua vingança eterna em bênção eterna da Europa: então retornará esse sétimo dia em que o velho Deus dos judeus poderá se alegrar consigo mesmo, por sua criação e por seu povo eleito—e todos nós, todos, queremos nos alegrar com ele!”
“a flauta socialista dos apanhadores de ratos lhes ressoa sempre aos ouvidos—esses apanhadores de ratos que querem sempre inflamá-los em esperanças absurdas!” “mudar de lugar mal um sinal de escravidão contra mim se manifeste (…) estar pronto para morrer: contanto que não seja necessário suportar mais essa indecente servidão (…) Pudesse a Europa livrar-se de um quarto de seus habitantes! (…) E que importa então se nos faltará um pouco de ‘braços’ para o trabalho! (…) Talvez iríamos então introduzir chineses (…) infundir (…) um pouco de persistência asiática.”
“Napoleão conservava nele próprio a convicção de que falava mal.”
Quando se encena um mito, esse mito pertence a uma civilização em ocaso.
“Quando nos abandonamos a uma impressão momentânea que devora e aniquila tudo—essa é a disposição da festa moderna!”
“Todos os historiadores contam coisas que nunca existiram, salvo na representação.”
“Quando nos calamos durante um ano, desaprendemos a conversa fútil e aprendemos a palavra.” Ah, o enigma de escrever tão bem!
“sermos nossos próprios reis e fundarmos pequenos Estados experimentais. Somos experiências: vamos sê-lo de bom grado.” Até onde estou disposto a encarar testes? Nova residência, nova e azul solidão! Mulher e filhos? Veja quando a exclamação se torna suspeição! Eu mereço ser “o fim”.
“454. INTERRUPÇÃO—Um livro como este não é feito para ser lido apressadamente de ponta a ponta, nem para ser lido em voz alta; deve ser aberto muitas vezes, especialmente durante um passeio ou uma viagem (*); é preciso poder mergulhar nele, depois olhar para os lados e não encontrar mais nada de usual em torno de si.”
“Uma poderosa doçura como aquela de um pai—onde esse sentimento se apoderar de ti, é lá que deverás edificar tua morada—quer seja no tumulto ou no silêncio.”
É fascinante como o autor fala das mesmas personagens, dos mesmos assuntos, basicamente, de modo mastigado e inovador ao longo de década e meia de livros. É encantador este seu jeito empolgante do existir repetitivo. Lemos o que já estamos cansados de saber, se bem que com um sorriso nos lábios.
“Evitemos trocar, precipitadamente e com violência, as condições morais às quais estamos habituados, por uma nova avaliação das coisas—pelo contrário, queremos continuar ainda a viver muito tempo nessas condições—até que, provavelmente muito tarde, percebamos que a nova avaliação se tornou preponderante em nós e que as pequenas doses às quais, a partir de agora, devemos nos habituar, produziram em nós uma nova natureza.”
As 4 virtudes cardeais: lealdade, generosidade, coragem e civilidade.
“Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.”
Anotações de cunho pessoal:
Ações geram muitas reflexões—imagine se eu agisse mais… Dilatação do tempo!
Meu consolo é a embriaguez artística.
Se a história da formiga e da cigarra fosse uma parábola racial-nacional ao invés de animal para descrever o caráter imprevidente—ou bipolar—humano, aí então a formiga seria o chinês e a cigarra seria o europeu. E o kwakiutl? Um intermediário?
Forrest Gump—quando não havia mais nada interessante, ele apenas correu e correu… Merdas acontecem.
Não “O que você é capaz de fazer?”, mas um “Qual o diâmetro das suas capacidades, do seu eu mais fraco ao seu eu mais forte?”—de não conseguir fazer uma mísera compra de pão sem tremer e vacilar no caixa a discursar naturalmente para uma multidão. Sim, toda essa gama é possível! Uma mulher, uma grande motivação, um diferencial inanimado qualquer, pode leva-lo de ser o pedinte mais mísero a um sonhado messias.
“uma particularidade que salta aos olhos”, assim que você se apresenta pela primeira vez a alguém e não sabe que impressão deixa. Nietzsche não poderia deixar de comentar sobre bigodes espessos e o tipo militar que esse “cultivo facial” evoca. Uma dureza de personalidade apropriada onde se pode refugiar. A pergunta é: qual é sua particularidade/quais foram ao longo do tempo? 1) Sinal no queixo; espinhas; cabelo assanhado; óculos fundo-de-garrafa; o sorriso. Qualquer um desses é um candidato forte do meu passado recordável. 2) a barba, a altura, a vestimenta, a postura. Enfim: sou multifacetado de tal forma, polivalente, “multifocal”, vários pontos prenderiam a atenção de outrem em mim, que essa questão se torna um enigma. A primeira visão da mulher que mais amei até hoje não me reconforta nem um pouco: o nerd. Há de se notar que meu organismo se esforça intensamente por se livrar dessa pecha, eliminando até o raquitismo, o que podia lembra-lo: a pança de chopp é mais uma possibilidade.
Tem mais tino para a coisa que o próprio capitão. Mas não pode falar nada, por que arriscar antes da hora H? Além do mais, essa nossa rancorosa juventude idosa já nos ensinou que talvez seja melhor um comandante experiente e ruim do que um novato talentoso!
(*) Durante meu vôo de ida a SP, minha vizinha de acento (embora entre nós houvesse um brucutu, um estreito corredor e ainda outro brucutu!), uma graciosa menina que achei ser amiga ou parente dos outros, de preto, ainda mais harmônica quando se punha a ler, com aquele fino volume em riste, sustentado pelos delicados bracinhos, em meio ao caos de nuvens, constipações, tosses, choros, molecagens e comissárias de bordo entoando seus hinos. Aquela visão destoante me encantou, e não fiquei menos surpreso quando soube que estava ali por outro motivo: concerto da Beyoncé Knowles. Isso não me decepcionava, propriamente. É como se me fizesse, antes, suspirar: “Ainda bem que ele anão terá que se espremer e ralar para achar um lugar no Inferno!”—sua graça só ampliou aos meus olhos. Todo esse relato só para fazer constar: foi ali que me arrependi de não ter trazido um livro como esse na bagagem!
Maioria das coisas que fiz até hoje não teve testemunhas.
Quem me pergunta “como/por que você escreve tão bem?” realmente nunca parou para pensar na pergunta, ainda que saiba a resposta para “por que você é inferior a nós” (é o que esses “doutos” “percebem” nas entrelinhas de suas demagogias fraternais): “Sou um sem amigos”. Qualquer condição é uma moeda, uma moeda íntegra: foi cunhada e tem conseqüências dos dois lados.
De 4 a 10 de fevereiro de 2010
