ARTE E ILUSÃO: Um estudo da psicologia da representação pictórica — E.H. Gombrich (trad. Raul de Sá Barbosa), 1995.

“Foi sobretudo Ernst Kris, esse historiador da arte transformado em psicanalista, que, no curso de uma amizade de mais de vinte anos, ensinou-me a fecundidade das abordagens psicológicas.”

“Em virtude da alarmante alta no preço dos livros, sou grato à Phaidon Press por lançar sua edição de Arte e ilusão em capa mole.”

“Sendo a arte uma coisa da mente, segue-se que qualquer estudo científico da arte é psicologia. Pode ser outras coisas também, mas será sempre psicologia.

MAX J. FRIEDLÄNDER, Von Kunst und Kennerschaft”

“uma vez que o espelho parece estar a meio caminho entre o meu reflexo e eu, as dimensões da sua superfície serão metade do seu tamanho aparente. E, por mais que tal fato possa ser demonstrado com a ajuda de triângulos semelhantes, a afirmação é recebida, geralmente, com franca incredulidade. A despeito de toda a geometria, eu também teimosamente insistirei em que vejo realmente minha cabeça (tamanho natural) quando faço a barba, e que é o tamanho na superfície do espelho que é o fantasma.”

“Que as descobertas e efeitos de representação, que eram o orgulho de artistas de outros tempos, tenham ficado hoje triviais, é coisa que não nego por um só momento. E, todavia, acredito que estaremos em perigo de perder contato com os grandes mestres do passado se aceitarmos a doutrina, tão em moda, de que essas questões nunca tiveram nada a ver com arte.”

“Talvez até o colorido berrante das nossas caixas de corn flakes para comer com leite no café da manhã deixasse boquiabertos os contemporâneos de Giotto.”

(argu)men(to)

“Ruskin (…) em 1843, seu livro Modern Painters, em defesa de Turner. Esse vasto tratado é, talvez, o derradeiro e mais persuasivo dos livros em que a história da arte é interpretada como uma progressão até a verdade visual, na tradição que começou com Plínio e Vasari.”

“Sem ter consciência do fato, Ruskin preparou, assim, a carga explosiva que faria ir pelos ares o edifício acadêmico. Para Barry, ‘o simples retorno da nossa óptica natural’ parecera insuficiente para produzir coisa melhor que a Madona Rucellai. Para Ruskin e seus seguidores, o alvo do pintor tinha de ser a volta à verdade não adulterada da óptica natural. As descobertas dos impressionistas e os debates inflamados que eles provocaram aumentaram o interesse de artistas e críticos por esses mistérios ela percepção.”

“A intervenção das tribos germânicas, que Riegl considera mais inclinadas à subjetividade que os romanos, permitiu à arte prosseguir suas transformações num plano mais elevado, passando de uma concepção tátil do espaço tridimensional, tal como na Renascença, para a maior subjetividade do Barroco e a vitória das puras sensações ópticas do Impressionismo”

“O evolucionismo está morto, mas os fatos que deram origem ao seu mito insistem em permanecer insepultos e devem ser levados em conta.”

“Foi André Malraux quem percebeu o significado dessas descobertas nos cativantes volumes da sua Psicologia da arte. Há muito de Hegel e de Spengler nos rapsódicos hinos que Malraux tece ao mito e à mudança, mas ele conseguiu, pelo menos, liquidar o equívoco que se expõe ao merecido ridículo no cartum de Alain: a idéia de que os estilos do passado refletem literalmente a maneira pela qual os artistas ‘viam’ o mundo. Malraux sabe que a arte nasce da arte, não da natureza. E, todavia, apesar de todo o seu fascínio e de seus brilhantes apartes sobre psicologia, o livro de Malraux não nos dá o que promete no título, uma psicologia da arte. Ainda não temos explicações satisfatórias para o cartum de Alain. Mas talvez estejamos mais bem-preparados do que Riegl para tentar essa explicação. Aprendemos muito sobre o poder das convenções e das tradições, e não apenas em um campo. Os historiadores já investigaram a influência que tem a fórmula para o cronista, cujo ofício é registrar acontecimentos recentes; estudiosos da literatura, como Ernest Robert Curtius, demonstraram o papel dos topoi, os tradicionais lugares-comuns, na trama da poesia. Os tempos parecem maduros para abordarmos mais uma vez o problema do estilo, fortificados pelo conhecimento da força da tradição.”

Rudolf Arnheim, Art and Visual Perception

“Não é por acaso que os pintores sempre foram aconselhados, desde o tempo antigo, a ter os seus estúdios voltados para o norte. Porque, se o pintor de um retrato ou de uma natureza-morta tem a intenção de copiar a cor do seu motivo por área, não pode permitir que um raio de sol transtorne o processo.”

John Constable, Stonehenge

“a proverbial figura de cera que tantas vezes provoca um certo mal-estar por ultrapassar as fronteiras do simbolismo.”

“Chegamos a Giotto pelo longo caminho que vai dos impressionistas para trás, via Michelangelo e Masaccio, e, conseqüentemente, o que vemos primeiro nele não é o ‘realismo’, mas um rígido comedimento e uma espécie de indiferença majestática.”

“Numa cause célebre do século XIX, o embrião de um porco, rotulado como embrião humano para provar uma teoria evolucionista, derrubou uma figura de grande reputação.”

“Poucas discussões sobre filosofia da representação tiveram mais influência que a importante passagem da República, na qual Platão introduz a comparação entre uma pintura e uma imagem no espelho. A filosofia da arte tem sido assediada por ela desde então. A fim de reexaminar sua teoria das idéias, Platão compara o pintor ao carpinteiro.
Este, ao fazer um sofá, traduz a idéia, ou conceito, de sofá em matéria. O pintor que representa o sofá do carpinteiro em um dos seus quadros apenas copia a aparência de um sofá determinado. Está, assim, duas vezes distante da idéia.”

“Todos nós conhecemos o sentimento provocado quando a febre ou a fadiga afrouxam os gatilhos das nossas reações e um fragmento de papel de parede parece de repente nos encarar ou fazer-nos caretas com um esgar ameaçador.”

“Em muitos lugares do mundo há histórias de estátuas que têm de ser acorrentadas para impedir que se ponham a andar por conta própria e de artistas que se abstêm de dar a última pincelada nos seus quadros para impedir que as imagens adquiram vida.”

“Uma senhora que estava visitando o ateliê do pintor observou: ‘Mas certamente o braço dessa mulher está comprido demais!’ Ao que o artista, polido, respondeu: ‘Madame, a senhora está enganada. Isso não é uma mulher, é um quadro.’”

“Foi preciso que ampliássemos os nossos horizontes históricos e tomássemos progressivamente conhecimento de outras civilizações para que nos déssemos conta do que tem sido com perfeita justiça chamado de ‘o milagre grego’, a singularidade da arte grega.”

“Fontes do séc. XVII mencionam que Agostino considerava a orelha o traço mais difícil de desenhar. Teria até construído um grande modelo de orelha em gesso para instrução dos alunos.”

“um livro de Pieter de Jode, publicado em Antuérpia, em 1629, com o título característico de Várias figuras acadêmicas recentemente compiladas do natural com enorme trabalho e grande despesa, muito conveniente para jovens que se interessam pela arte de desenhar”

“O cínico pode recordar a história do vigarista que prometera a sua vítima um tesouro, a ser recolhido em certo lugar à meia-noite. Havia uma única condição: de nenhum modo ele poderia pensar num crocodilo branco enquanto cavasse, ou o tesouro desapareceria.”

“o quanto escutamos realmente pouco quando ouvimos um discurso é coisa de que só nos damos conta indo a um teatro em país estrangeiro” William James


Não há tridimensionalidade nem “fita branca” entre as marcas pretas.

Não é uma espiral, mas círculos de centro igual.

“O Cubismo, a meu ver, é a tentativa mais radical já empreendida para exterminar a ambigüidade e impor uma única interpretação da pintura—a de coisa feita pela mão do homem, uma tela colorida.” “O principal impulso por trás do Cubismo foi forçosamente artístico. Não é justo, portanto, ver o Cubismo essencialmente como um expediente para reforçar nossa consciência do espaço. Se esse foi o seu objetivo, então o movimento malogrou.”

“Poucas pessoas têm idéia de que uma relva iluminada pelo sol é amarela…”

« Monet n’est qu’um oeil—mais quel oeil ! »

“Qualquer mulher sabe que é tão impossível predizer o efeito de cores e formas umas sobre as outras sem experimentá-las juntas quanto dizer o resultado exato dos ingredientes de um prato antes de prová-lo. São impressões ‘globais’, que resultam da interação de inumeráveis estímulos. Nem a maior especialista em moda ousaria afirmar que um chapéu lhe vai bem sem colocá-lo na cabeça em frente a um espelho, pois basta uma linha ou uma nuança para mudar a Gestalt da sua fisionomia da maneira mais inesperada.”

“Desde que a mesma cor parece diversa quando mudam as dimensões da área, um fac-símile em escala reduzida parece falso, embora todas as cores sejam idênticas às do original. É duvidoso que essa dificuldade possa vir algum dia a ser superada pelos que fazem reproduções de pinturas em cores para livros.”

“Nossa mente recusa aceitar o fato de que a distância a que o pico do monte Everest está do nível do mar—8.848 metros—é pouco superior à distância de 8km que um automóvel percorre numa questão de minutos.”

“Algumas fotografias, como algumas pinturas, parecem convincentes; outras, não. Sua escala, a proximidade da montanha da margem do quadro, até sua montagem ou moldura podem influenciar a impressão geral da maneira mais imprevisível.”

“Sempre que o pintor sustenta que imita as coisas como as vê, é certo que as vê mal. Representará essas coisas segundo a sua imaginação imperfeita e produzirá uma pintura ruim.” Poussin

“O termo ‘caricatura’ e a caricatura como instituição datam apenas dos últimos anos do séc. XVI. E os inventores da arte não foram os propagandistas pictóricos, que existiam, de uma forma ou de outra, séculos antes, mas dois artistas altamente sofisticados e refinados, os irmãos Carracci.”

“Para mim, o galo não faz cock-a-doodle-doo, como na Inglaterra, nem cocorico, como na França, nem kiao-kiao, como na China, mas kikeriki, como sempre fez em alemão.”

Claude Lorrain, Paisagem com Moisés e a Sarça Ardente

“Wordsworth também foi um campeão do modo simples de falar contra as pretensões da ‘dicção poética’. Ele também viu o poeta ‘pronto para acompanhar os passos do Homem da Ciência’ na sua busca da verdade; ele também reclamou, como primeiro requisito para a produção da poesia, ‘a habilidade de observar com exatidão as coisas como são em si mesmas e de descrevê-las com fidelidade’.” Justamente por isso não é um bom poeta.


GLOSSÁRIO:

batiscafo: “Aparelho autônomo de mergulho que permite explorar as profundidades do mar. (O batiscafo funciona como um balão livre: seu invólucro contém um líquido mais leve que a água, desempenhando o mesmo papel do gás de um balão, enquanto uma provisão de granalha, que se desprende, substitui o lastro de areia.).”

escorço: “Redução de uma figura segundo as regras de perspectiva.”

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