[ARQUIVO] O SEGREDO DA LONGEVIDADE

Originalmente publicado em 4 de junho de 2012

O perfil da banda norte-americana Metallica, que completa 31 anos em plena forma

Bay Area, Los Angeles, Califórnia, costa oeste dos Estados Unidos. Maio de 1981. Lars Ulrich, baterista de ascendência dinamarquesa, participando da efervescência cultural da cidade, decide deixar de ser mero expectador e colecionador de fatos e informações para mergulhar de cabeça na agitação noturna como membro de uma banda. O rock ‘n’ roll – e mesmo o hard rock, bastante explorado nos anos 70 – tornava-se “coisa do passado”: ainda que os jovens bebessem da fonte e fossem influenciados por Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin e Mötley Crüe, o peso, a velocidade, o timbre e o tom precisavam de novo fôlego, de ser expressos, recriados, sob uma nova forma. Tempos mais agressivos e extremos precisavam de uma música que os refletissem melhor. Que espelhasse a angústia da nova geração, filhos da ressaca do Vietnã, os sobreviventes do auge das drogas (que nem todos puderam se gabar de vencer, como Jimi Hendrix e Janis Joplin). O novo barato musical (metafórico) seria diferente, mais sutil na proposta, mais arrasador por dentro…

Os novos expoentes de um tipo engajado, sério e ao mesmo tempo mais furioso de som ficaram conhecidos como os fundadores do thrash metal (termo que designa “pancada”, “baque”, ao mesmo tempo que solidez, frieza e permanência). Suas características básicas são seqüências rítmicas velozes e “quebradas” de guitarra, bateria seca e complexa, além de vocais rasgados, embora haja exceções. O figurino e a postura da banda (e dos fãs), pelo menos nos shows, são escolhidos a dedo. As letras das canções são de cunho pessimista, escolha que não deve ser confundida com uma pá de cal impiedosa jogada sobre as esperanças humanas, mas tão-somente uma forma à altura de revidar as agruras da vida: através do ataque e da revolta. Ataque a instituições seculares e discursos socialmente estabelecidos. Atmosfera apocalíptica, reflexão sobre a condição do indivíduo imerso em decadência política e preconceitos disseminados pelas classes dominantes. Sobretudo, o thrash metal era um grito cavernoso de descontentamento em relação a noções de cultura e estética até então em voga, claramente ultrapassadas.

O Metallica foi a grande banda-quarteto (com duas guitarras, sendo que um dos guitarristas acumulava a função de vocalista) do movimento thrash metal, estilo que embora ainda vivo em 2012 teve seu ápice nos anos 80 e se disseminou por vários países (inclusive o Brasil), depois de um começo explosivo na costa oeste dos EUA. A Califórnia sempre foi conhecida como o celeiro de vanguardas exóticas, muito devido à constituição peculiar da população do estado: nesta porção de terra ianque, as minorias, somadas, formam a maioria, e os princípios constitucionais de Liberdade e Fraternidade ganham sentido prático.

Resta que contemos como o jovem Lars Ulrich (então um menor de idade) conheceu James Hetfield, com quem estabeleceu grande amizade, e ao lado de quem selecionou cuidadosamente os outros dois membros do Metallica entre os músicos mais talentosos e irreverentes da cena.

A formação original do Metallica era: James Hetfield, Dave Mustaine, Ron McGovney e Lars Ulrich. Este último anunciou nos classificados que queria montar um quarteto de metal, em suas palavras, “sério”. Na época, o expediente de procurar gente com interesses afins através de seções interativas dos jornais locais era bastante comum. James foi o primeiro a responder ao anúncio. Com alguns amigos improvisados nos outros instrumentos, a protobanda (ainda sem nome) chegou a ensaiar em esparsas sessões e até gravar um cover (canção de outro artista) para uma coletânea de bandas incipientes da região, lançada em fita K-7. Todos se conheciam em Los Angeles, e Ulrich tinha facilidade em convencer os melhores contatos a abrir portas e em pescar oportunidades. No entanto, como quase todo músico do circuito já compunha outra banda, era complicado achar sujeitos ao mesmo tempo disponíveis e competentes. Foi após meio ano juntos que James Hetfield e Lars Ulrich conheceram um talentoso e problemático guitarrista chamado Dave Mustaine. Veio a gravação da primeira música, Hit The Lights, ainda com uma formação deficiente. A essa altura o nome Metallica já havia sido escolhido, por sugestão de um dos amigos de Ulrich, mas nas demos com compilações de bandas de metal californianas que se espalharam pelo cenário underground o nome foi impresso errado, com um “t” a mais…

De qualquer modo, o surgimento de um grupo de moleques ensandecidos, técnicos e ambiciosos (na época com 15, 16 anos) virou notícia e um baixista não tardaria a aparecer para completar o time. Com Ron McGovney, o Metallica gravou seu primeiro EP individual, “Power Metal”. Ao participarem de um evento num clube noturno, porém, descobriram um baixista várias vezes mais promissor, do grupo Trauma. Como McGovney não era verdadeiramente querido entre seus pares nem tecnicamente indispensável ou excepcional, foi demitido sem cerimônias. Sua estada no Metallica foi curtíssima!

O tal novo baixista de encher os olhos, por quem os outros três do grupo quase cometeram uma loucura, Clifford Burton (mais conhecido pelos futuros fãs apenas como Cliff), impôs algumas exigências e criou dificuldades até se tornar um músico do Metallica. Ele estava ansioso e assustado, pois não queria abandonar os companheiros do Trauma e trair suas origens, embora soubesse que sua habilidade incomum com o baixo cedo ou tarde lhe abriria convites e possibilidades inéditas, que ele contraditoriamente aguardava e rechaçava, por pudor ou insegurança. Por fim, Cliff cedeu e entrou oficialmente para o grupo. Já estávamos em 1983.

* * *

Os “moleques” aprendiam rápido e já tinham bagagem para lançar o primeiro vinil (o mesmo que um EP, mas com o dobro de músicas). Só não tinham o dinheiro. James, órfão de mãe, havia sido praticamente expulso de casa pelo pai, cuja religião não permitia um comportamento tão imoral quanto “montar uma banda de rock” por parte de um filho! Ulrich era o único abastado do quarteto, mas seu pai se decepcionara quando o rebento trocou uma brilhante carreira como atleta de tênis de quadra para se dedicar a um instrumento musical esquisito e barulhento e a incertezas e puerilidades juvenis… Os garotos chegaram a cruzar o país de ônibus, sem dinheiro para comer nem pagar diárias de hotel em Nova York, tudo a fim de tentar cair nas graças de algum bonado empresário do ramo da música. Depois de levantarem os recursos a duras penas, o “Kill ‘Em All” saiu do papel. Uma série de problemas acompanhou o período de gravação do álbum debutante. O primeiro deles é que o nome inicialmente aventado para batizá-lo (“Metal Up Your Ass”, algo como “Metal pelo seu Traseiro”) foi censurado pela gravadora por conter um palavrão e uma arte de capa considerada “de mau gosto”.

O segundo problema foi de ordem muitíssimo mais delicada: o alcoólatra e principal guitarrista do Metallica, Dave Mustaine, foi expulso do grupo, por consenso, devido a suas contínuas estripulias notívagas. A controvérsia do episódio não está no desligamento de Mustaine em si, mas no fato de que todos os jovens, não só ele, faziam uso abusivo de bebidas alcoólicas. Ao que parece, os outros três colegas foram mudando o jeito e adquirindo maturidade, levando a carreira de forma mais compenetrada, ao passo que Dave Mustaine não conseguiu acompanhar o ritmo. Além disso, segundo relatos de quem viveu essa época fervilhante no cenário da música pesada da Costa Oeste, Dave teria o gênio mais complicado e arredio, perdendo a cabeça com poucas doses de cerveja e provocando brigas. Faixa preta de karatê, Mustaine teria quebrado a perna de um músico de uma banda rival, quando este partira para cima de Lars Ulrich. O próprio Ulrich reconheceu à época que foi uma reação exagerada.

Ao ser obrigado a deixar a banda, o polêmico Mustaine, se possuía uma biografia atribulada, tinha também mostrado como era um artista prolífico. Até hoje se debate o que o Metallica pode ter perdido na área criativa ao ter tido que demiti-lo e como suas idéias ajudaram nos primeiros trabalhos da banda. Dave Mustaine não deixaria de ser creditado por isso, recebendo o seu quinhão pela co-autoria de faixas até mesmo do segundo álbum da banda, “Ride The Lightning”, que seria gravado apenas um ano depois de sua saída. Seja como for, Mustaine seguiria seu próprio rumo, fundando uma banda considerada ao mesmo tempo muito semelhante mas oposta conceitualmente ao Metallica, o Megadeth. Teria vivido décadas produtivas porém frustrado e amargo por dentro, pois apesar de o Megadeth ter feito sucesso, o Metallica o superava em todas as vendas, na proa da indústria fonográfica. Somente nos anos 2000 Mustaine, Lars Ulrich e James Hetfield fariam as pazes, voltando a tocar juntos pela América e Europa (embora cada um em sua banda).

Voltando à cronologia de nossa história, Kirk Hammett foi o escolhido para substituir Mustaine. Embora menos talentoso, Kirk trabalhava com afinco e aprendia as músicas em pouco tempo, além de que tinha um temperamento discreto, que encaixava perfeitamente em uma banda que já tinha dois líderes, pessoas com mais voz nas decisões internas.

Desde o lançamento do Kill ‘Em All o Metallica adquiriu o status de líder de uma geração. A estrutura progressiva e bem-acabada das músicas, aliada a certa dose de ingenuidade e utopia romântica da juventude, como que redigiram, na prática, o manifesto do gênero thrash metal: reuniam todas as características básicas do estilo, e na sua melhor forma, como fica evidente nas faixas “Os Quatro Cavaleiros” e “Caçar & Destruir” (*).

(*) Os nomes de canções em português deste texto são traduções livres (sem compromissos, intentadas pelo autor) dos nomes originais em inglês.

A ascensão meteórica da “mendicância musical” ao estrelato em pouco menos de 2 anos (1982-1984) possibilitou ao Metallica gravar seu segundo trabalho de peso (literalmente) do outro lado do mar, na terra natal do pai de Ulrich, a Dinamarca. Assim como o primeiro disco, esse tocava nas temáticas da morte e da violência, caras à banda durante todo o seu percurso. A capa desse vinil era uma sátira à condenação à cadeira elétrica, na opinião dos compositores uma prerrogativa de que o Estado se utilizava para ser uma espécie de Deus terreno, isto é, aquele que decide pela vida ou execução das pessoas. Ironicamente, a base da cidadania é que o contrato social deve proteger a existência dos indivíduos. O confinamento poderia proteger os cidadãos corretos e pacíficos dos homicidas, mas matar estes últimos seria como legitimar a própria ação irracional do homicídio, ou seja, “Combater Fogo com Fogo”, como reza uma das letras de Ride The Lightning.

A atmosfera do vinil de 1984 é mais soturna que a do antecessor e seus riffs, solos, viradas de bateria e linhas vocais menos rudimentares, como se dentro de poucos meses os garotos tivessem amadurecido intensamente. “Para Quem o Sino Toca” e “Desvanecer-se” eram existencialistas por excelência, e “O Chamado de Ktulu” era uma música instrumental (sem voz) inspirada num conto de terror do norte-americano H.P. Lovecraft. A extensão das músicas do Metallica já era planejada para afastar os leigos sem muita paciência para a aridez do gênero: de 6 a 8 minutos em cada música, o que tornava o produto da banda, embora de excelência técnica, incrivelmente inadequado para as rádios. Os “quatro cavaleiros” inclusive afirmavam em entrevista que “jamais gravariam um videoclipe”. Como dizem dois versos de uma canção do Kill ‘Em All, o Metallica “jamais desistiria”, justamente porque era “o Metallica”, e seria eternamente sustentado pela base de fãs.

Com efeito, o tráfico de fitas K-7 nos primeiros tempos ajudou e muito a alavancar a fama da banda. Apesar de soar inofensivo (diante de tantas mercadorias destrutivas que podem ser traficadas!), essa prática nunca foi apreciada pelas gravadoras. Fato é que a base de sustentação do Metallica já havia adquirido tais proporções que todos esperavam por um golpe ainda mais genial na seqüência, e os prognósticos não eram precoces: “Master of Puppets”, de 1986, é até hoje considerado o ápice do jeito antigo de se fazer metal. E o Metallica só alcançava resultados tão favoráveis através de intensas reformulações no som, que apesar de tudo conservava sua marca registrada, identificável em cada faixa, como a gritar nas entrelinhas: “isto é firme e forte, tanto quanto o logo metálico da banda!”

A capa do terceiro disco mostra um cemitério lotado de lápides. “Heróis Descartáveis” é um hino contra as guerras, a exaltar os honrados soldados que pereciam por motivos que sequer conheciam, na linha de frente, defendendo uma Pátria que existia somente no discurso das autoridades, dos generais e políticos que jogavam risonhos com argila e rios de sangue. Em termos sonoros o álbum era, em poucas palavras, uma selvageria bem-domada. Com formação estável depois do começo tumultuado, o Metallica havia aprendido a aparar as arestas do próprio talento jactante. Entretanto, do ângulo do ouvinte conservador, e do heavy metal mesmo, trata-se de um marco, de uma seqüência de pancadas sem dó, uma gema de agressividade concentrada, de verniz aristocrata. O som é mais encorpado nas faixas inaugural e final, “Batalhão” e “Dano S.A.”, sem dúvida as preferidas dos nostálgicos (não que o thrash tivesse, àquela altura, mais de 5 anos de existência!). Doses de virtuosismo temperavam o caldeirão, mediante uma balada a favor da loucura (“Sanatório”) e a continuação de Ktulu, dessa vez cantada, “A Coisa que Não Deveria Ter Sido”. E a própria voz de James mal podia lembrar aqueles gritos roucos e esganiçados do púbere do começo dos aos 80!

Um acontecimento brutal viria a interromper a ascensão vertiginosa da banda, como que para consumar uma profecia e justificar tantas letras amargas a narrar o funesto: a tragédia mora ao lado, e pode aparecer para um cafezinho sem ser convidada. Cliff Burton, tido como um deus do baixo, que solava nas grossas cordas de seu instrumento com a mesma facilidade de um guitarrista, fôra a vítima fatal do capotamento do ônibus de turnê do Metallica, em estrada congelada e escorregadia do norte europeu, na Suécia. Ao que parece, o motorista estava embriagado e teve estranhas visões, desviando-se do curso normal da rodovia.

* * *

Chegou-se a um ponto crucial na história do supergrupo de rock: sem o baixista clássico, a banda teria fôlego para continuar? Comercialmente falando, seria um suicídio – mesmo que os novos trabalhos não fossem tão bons – parar àquela altura, pois só o nome “Metallica” já continuaria gerando receita por muito tempo. Quem outrora apenas abrira concertos para outros grupos de renome como Venom, Slayer e Mercyful Fate, em 1986 era forçosamente o “cabeça” em qualquer turnê com bandas do estilo, inclusive essas três. Ultrapassou-as com sobras, em número de vendas mas também em talento genuíno. Seria uma grande honra para quem quer que fosse, à morte de Cliff Burton, estender os tapetes vermelhos aos 4… melhor dizendo, 3 desfalcados Cavaleiros. A “comunidade metaleira” não iria deixar os músicos do Metallica jogarem a toalha (negra), mesmo que os sobreviventes assim sinalizassem que desejavam fazer.

“Nós nunca vamos desistir…”, cantava uma das letras do Kill ‘Em All, lembram-se? O Metallica precisava de algo para chacoalhar as estruturas, ressuscitar a parte da banda que ainda podia ser salva de um destino trágico. Findo o período de luto, foi decidido que haveria um concurso para a sucessão do posto de baixista. O vencedor foi Jason Newsted, de uma promessa caçula do thrash, o grupo Flotsam and Jetsam. A curiosidade notória é que o Metallica era a banda favorita do rapagão. Da noite para o dia, ele se via como membro do grupo musical que mais o inspirava em seu próprio trabalho. Com ele o Metallica não só ganhava um jovem com tanta técnica e energia quanto Burton, mas um excelente showman, capaz de incendiar a platéia nas exibições e contribuir com backing vocals (vozes de fundo, em contraste com o cantor primordial James) em uma pá de músicas. Kirk Hammett ficava como que eclipsado em meio a tantos virtuoses com mais iniciativa.

A expectativa pelo primeiro trabalho de inéditas do Metallica desde o baque de 86 era muito grande. Seriam tempos difíceis e acres para a banda. Não havia mais garotos na formação. Porém, emocionalmente, havia carências no grupo que precisavam ser trabalhadas, e dessa época consta uma lista considerável de imaturidades dignas de um Dave Mustaine no auge da bebedeira! O fato é que “Findo o luto”, mais acima, é uma sentença algo mentirosa. Ainda condoídos pela partida de Burton, Hetfield e Ulrich se comportaram no fim dos 80 de modo duplo, ora saudando e louvando o novo companheiro, ora tratando-o de forma ostensiva, até mesmo praticando um “bullying” ou sabotagem interna, cujo enredo até o presente permanece não-esclarecido em muitos pontos. De brincadeiras de mau gosto com relativa inocência nos quartos de hotéis a mudanças deliberadas e insidiosas em estúdio, Newsted era limado em seu potencial pelos próprios companheiros. O novo disco, de meados de 1988, “…And Justice For All” (“…E Justiça para Todos”), veio com uma aparente falha crítica, apesar de estar muito bom: o baixo, instrumento de Newsted, não era audível! Está fora de questão a hipótese de que tal equívoco tenha partido de má mixagem acidental. Os técnicos de som escutam inúmeras vezes o material antes de prensá-lo em definitivo. Houve uma escolha, uma espécie de birra, como protesto contra a natureza e a fatalidade, que foram o que levou Cliff embora. Como dito, apesar disso, o álbum foi bem-recebido pela crítica e em 9 semanas recebeu platina, vendendo muito mais que os 3 primeiros. Jason não pôde contribuir com muitas idéias. Por alguma razão, só uma das 9 canções do And Justice teve seu nome entre os autores (e era uma das melhores do disco, abrindo-o soberbamente).

Em revelia com a má produção recebida pelo baixo, o quarto disco do Metallica era o que contava com linhas mais trabalhadas de bateria. Lars se encontrava no auge, e seu kit era tão enorme quanto eficaz. As faixas nunca foram tão extensas, pesadas e versáteis. James engrossou a voz para cantar com fúria. Os temas são todos mordazes sem exceção, falando do sistema de justiça falido do Estado ou até da criação questionável que James recebera dos pais. Kirk completava o caldo com alguns dos solos mais insanos da carreira da banda. A faixa instrumental, “Viver é Morrer”, era baseada em notações e fragmentos deixados pelo finado Cliff B. Posteriormente, os membros se arrependeriam de composições tão difíceis e preciosistas, alegando que era uma tortura tocar várias delas em seguida nos shows, de tanto que exigiam do físico.

Vinha por aí, ainda, a quebra de tabus. O antes intransigente Metallica, que dizia que jamais gravaria um videoclipe, cedeu aos apelos e gravou “One”, a faixa de destaque do disco, em formato audiovisual. Ainda assim, era praticamente uma obra caseira, com imagens em preto-e-branco num depósito abandonado entrecortadas por cenas de um filme “B” sobre a guerra. Por bem ou por mal, de guerreiros do underground, os caras do Metallica passaram rapidamente a queridinhos da MTV.

* * *

Em outubro de 90 começou a gravação do quinto álbum, o homônimo da banda, que ficou mais conhecido pelos fãs como “Black Album” (“Álbum Preto”), em contraposição ao épico trabalho dos Beatles, o “White Album”. Pela primeira vez o Metallica gravaria um CD de forma realmente luxuosa, com um produtor mainstream, Bob Rock. No processo de criação, Jason Newsted continuava desfavorecido, tendo crédito em apenas uma canção, “Through The Never” (“Através do Nunca”). O Black Album foi o disco mais vendido do Metallica em todos os tempos, estreou como número um nas principais listas e seus hits mais fortes estouraram nas rádios (dessa vez a banda investia em faixas mais curtas, de em média 4 ou 5 minutos). Além disso, o álbum foi agraciado com disco de platina 15 vezes nos Estados Unidos.

O Álbum Preto transcendia fronteiras, por motivos que agradavam e irritavam os headbangers ao mesmo tempo (headbangers são os “bate-cabeça”, isto é, os metaleiros, cuja principal forma de se agitar nos shows é balançando o membro superior do corpo – quem não tiver o pescoço resistente, melhor nem tentar!). Por um lado, nenhuma banda de thrash metal (ou mesmo de heavy metal, a vertente “mais leve e acessível, de guitarras menos distorcidas”) havia chegado tão longe; por outro, os fãs de raiz começaram a achar que o Metallica traía o movimento. Aí está o paradoxo de qualquer vanguarda subversiva: no momento em que conquista as massas, abdica dos propósitos iniciais e dos efeitos contestadores que seu som deveria provocar. Incontestavelmente, o Metallica foi o grupo mais grandioso do thrash metal. Exatamente por isso, o estilo ficou “pequeno” para os “Quatro Cavaleiros” e eles seguiram adiante, sem medo, explorando novas sendas.

Músicas como “Enter Sandman” e “Nothing Else Matters” passaram a fazer parte de toda e qualquer set list (seleção de músicas para um concerto) do Metallica dali em diante. Composições como “Wherever I May Roam” e “Of Wolf & Man” citavam escritores famosos e um despertar ecológico do homem, o fato de sentir-se mais animal e estreitar novamente suas relações com a natureza. “The Unforgiven” era o primeiro capítulo de uma longa balada em episódios que o Metallica começou a compor para ilustrar a vida de um homem que mal consegue se perdoar pelos erros do passado. Os riffs, seqüências rítmicas, se tornaram mais simples e diretos, a velocidade das músicas foi reduzida, e, em compensação, cada obra parecia de mármore, em harmonia e coerência interna, como se não houvesse notas fora do lugar. E como a duração das faixas era menor, cabiam mais delas no disco. James Hetfield deixou o orgulho de lado e recebeu aulas de canto. Sua voz já era uma das favoritas não só das mulheres mas também dos homens. Ao dom genético, só estava faltando um trabalho de lapidagem, como com uma pedra preciosa a princípio deformada.

Eventos curiosos tiveram lugar durante os muitos meses de turnês por todos os continentes que se seguiram ao Black Album, uma delas ao lado do então na crista da onda Guns N’ Roses. Em uma dessas noites de espetáculo para milhares de pessoas James Hetfield foi vitimado pelos fogos de um sofisticado porém desastrado aparato de efeitos especiais, ativado principalmente na introdução da música “One” (tradição da banda mantida até hoje). Devido a uma falha no raio de alcance do truque pirotécnico e ao posicionamento equivocado do cantor no palco, James saiu-se com queimaduras de segundo e terceiro graus em todo o corpo e a apresentação foi interrompida. Outro incidente famoso dessa época foi a semana em que James perdeu completamente a voz, durante a gravação do BA. Nem a vida dos músicos superestrelados é tão mole assim!

Em 1994, depois de rodar o mundo, era hora de se concentrar em estúdio para mais músicas inéditas. Dali a 2 anos seria lançado o “Load”, sexto disco do Metallica, como nº 1 da Billboard. E um novo choque atingiu os metaleiros conservadores: de repente, os membros da banda apareceram todos tosados (esse é bem o termo), isto é, sem suas respeitáveis cabeleiras, de caras comportadas, como a dizer: amadurecemos o som, estamos em outra! Novo visual, novo som: linhas de guitarra e baixo ainda mais limpas, efeitos modernos de mixagem, bateria soft e um vocal versátil e sem medo de inovar.

Já a capa do CD era um escândalo para muitos: o artista Andres Serrano, contratado pela banda, fotografou, dentro de um recipiente de plexiglass (vidro plástico), seu próprio sêmen misturado com sangue de boi. Dentro do encarte, os integrantes do Metallica encarnavam vários personagens em mil e uma situações, fantasiados de mafiosos, caipiras, dançarinos, mecânicos, etc. Era uma “autovenda” descarada, segundo os fãs oitentistas que não conseguiam reformular seus conceitos. O Metallica caía em definitivo nas graças da mídia, e o que antes era transgressão virou hábito: múltiplos clipes da banda bombaram na MTV e demais emissoras. A aproximação do Metallica aos gêneros do rock alternativo e do pop gerou convites inusitados, como estrelar o festival indie Lollapalooza ao lado da banda da viúva de Kurt Cobain, Hole.

A fase foi tão prolificamente criativa que ao invés de apenas um foram 2 álbuns: como as “raspas” de estúdio eram demasiadas, todas foram reunidas formando o duplo do Load, o “Reload”, lançado um ano depois. A capa, quase igual, foi outra sobreposição artística de Serrano, usando sangue e, dessa vez, urina. “Fuel” (“Gasolina”) foi de longe o maior sucesso destes tempos, embora (ou talvez por isso mesmo) fosse uma música excessivamente simples e de refrão clichê. “The Memory Remains” divagava sobre o estrelato, em um exercício metalingüístico interessante (“Enquanto o sol de Hollywood se põe às suas costas / A banda não pode continuar? / Apenas escute, eles tocam minha música!”), além de contar com uma “ponta” da cantora veterana Marianne Faithful. “Cadê sua coroa, Rei Nada?” é um dos refrões mais grudentos da carreira da banda e está na simples e eficiente “King Nothing”. “Devil’s Dance” é um hard rock direto e dançante, que não cairia mal em nenhuma festa com pista de dança. “The Unforgiven II” continua a composição original do Black Album e para alguns ainda a melhora. “Slither”, “Carpe Diem Baby” e “Attitude” são três exemplos de batidinhas viciantes, inebriantes nos vocais e radiofônicas até o talo, sem exatamente recair na breguice.

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Sem descanso, o Metallica continuou rumo ao fim da década de 90 esbanjando intensidade. Em 1998, remontando às origens, a banda decidiu lançar um álbum duplo só de regravações de seus sucessos favoritos, o “Garage, Inc.”. Ou melhor: dos sucessos favoritos que pertenciam a outros. Uma singela homenagem aos artistas que são considerados pelos próprios rapazes a razão de ser do Metallica.

Então cabe a pergunta: de onde é que o Metallica retirava sua vigorosa seiva? De um cardápio variado, pode-se imediatamente notar. O trabalho não era um saudosismo gratuito, mas o convite a inúmeros fãs jovens que não conheciam ainda as origens do verdadeiro rock ‘n’ roll: assim, poderiam garimpar, sem riscos de errar, o melhor do estilo. Essa matéria dividida em várias partes no jornal CAPPDiem ou publicada em bloco no meu blog se aproxima de seu ponto culminante e honra manifestamente o seu título: “O segredo da longevidade” do Metallica é cativar sempre um novo público enquanto mantém (pelo menos tenta ao máximo) uma velha clientela. “We’ll never quit, ‘cause we’re Metallica” – não desistir ou não sair de cena não significa se fossilizar ou manter uma homogeneidade, mas justamente se render a uma transformação perpétua e inesgotável, reinventar sua música, adaptar-se e não frear o ímpeto das descobertas, mutilando dogmas e preconceitos debatendo-se com a face mais antiquada da sociedade.

Entre as faixas selecionadas para ser regravadas “com um toque de Metallica” em estúdio, estão: “Free Speech” (um punk simplezinho); muitas de King Diamond e Diamond Head, dois ídolos diamantinos da banda (perdoem o trocadilho); um medley (fusão de várias canções em uma) do Black Sabbath; outras tantas do Mötorhead; a versão mais hard rock da clássica “Turn The Page” de Bob Seger, velho rockeiro de estrada americano, a qual muitos preferem em relação à original; “Loverman” (mostrando que hits românticos não escapavam dos olhos de lince da banda); “Astronomy”, do Blue Öyster Cult (o metal que precedeu imediatamente o estilo mais curto e grosso do Metallica, algo mais virtuoso e melódico); “Whiskey in The Jar” (considerada a melhor execução do ano no Grammy de 1998, por mais que a autoria não fosse do próprio Metallica!); “Tuesday’s Gone” (Lynyrd Skynyrd), “The Small Hours” (a mais pesada da coletânea, da britânica Holocaust); sem falar no visível apreço dos caras pelo Queen de Freddy Mercury.

Em 1999, chegou o “Symphony & Metallica” para fechar com chave de ouro a seqüência de álbuns duplos atrás de álbuns duplos dos últimos anos, também disponível em versão DVD, registrando as apresentações históricas do Metallica à frente da Orquestra de São Francisco (sua terra natal, nunca é demais lembrar) capitaneada pelo maestro Michael Kamen, um novo conceito em música (embora tenha havido essa mistura por iniciativa de grupos de rock anteriores, como o próprio Queen que acaba de ser citado, ou o Savatage, mas talvez não num tal grau de perfeição). Incrivelmente, não só sucessos remasterizados em grande estilo mas novas composições estavam no repertório dos dois grandes dias de show: a meiga “No Leaf Clover” e a respeitável “Human”. Destaque para a versão “anabolizada” de “Call of Ktulu”, a instrumental de Ride The Lightning, exibindo todo seu potencial assustador. Presenças naturais eram “Master of Puppets”, “The Thing That Should Not Be”, “For Whom The Bell Tolls” e “Battery”, massivamente entoadas pelo público. O parágrafo termina com o refrão tocante de No Leaf, que não é a primeira e nem seria a última metáfora do grupo ligada a trilhos de trem: “E então você vê uma luz no fim do túnel / é só um trem-bala vindo em sua direção”!

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Ao mar de flores, sucedeu um período negro para a banda. O Metallica decidiu se engajar em uma guerra perdida contra as novas tecnologias, acusando alguns usuários e donos de softwares de serem patrocinadores de um “neo-barbarismo”, no caso digital. Tudo porque não enxergaram que o formato compact disc havia sido absolutamente ultrapassado pela disseminação das MP3, fazendo parte hoje apenas de um culto ou uma homenagem que os mais fanáticos sentem a necessidade de prestar aos músicos que tanto causaram impacto em suas vidas. Em outras palavras, tudo que começa como diversão (4 rapazes sendo “autênticos”) termina com a guerra da única coisa que passa sem deixar nada de significativo no coração humano, mas que outrossim é a única importante no mundo atual: do dinheiro. Direitos autorais, isso o artista tem de saber: são mera convenção, bem anterior ao capitalismo e ao “profissionalismo”, privilégio consensual direcionado aos mais talentosos de uma sociedade, sob diferentes formas de acordo com a era e a região. Não obstante, aquele que não é mais grato para com seu público perde a honra e o direito de estar sobre um palco, pois não há criação que se sustente sem quem a contemple, não há grandes espíritos sem mediocridade em torno deles e não há como não perder a dádiva dos deuses sendo avarento… Para o trio culpado, James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich, serve a antiqüíssima frase: “Aqui se faz, aqui se paga”. Por ironia do destino, o Metallica, que um dia proliferara graças ao troca-troca de cassetes piratas, resolveu atacar judicialmente o Napster – programa para baixar e compartilhar MP3 ilegalmente – e vários milhares de usuários que tinham feito download de músicas do Metallica através do serviço. Um autêntico papelão, pois era uma medida desproporcional contra muitos fãs de longa data da banda que não podiam ser chamados de criminosos. O episódio tinha mesmo de gerar o fim do Napster, ao menos como freeware (agora os usuários teriam de pagar taxas e só haveria compartilhamento de bandas que concordassem com os termos do site). Mas não só: a imagem e a credibilidade do Metallica em relação à comunidade de ouvintes ficou bem arranhada e chamuscada. Eles teriam de dar a volta por cima nos estúdios ou em cima do palco, porque nos bastidores, apesar de terem ganhado na justiça (a mesma que eles condenavam em seu quarto álbum), eles perderam feio.

A aurora do novo milênio realmente não foi nada agradável para o Metallica. Parecia um tempo de fechar para balanço. Ou mais que isso – a banda corria o risco de acabar. Em 2001 Jason Newsted, o baixista, se desligou do grupo. Sua motivação foi visivelmente dupla: não só teve danos físicos graves no braço direito devido aos intensos treinamento e agenda do grupo como parecia inevitável que um dia o desgaste na relação com os companheiros, que remontava à era …And Justice, estourasse.

Para além da carência na posição do baixo, o líder e porta-voz James H. decidiu que era o momento de se internar a fim de vencer a luta contra o alcoolismo e o estresse. O Metallica estava em cacos. A notícia das férias “pouco ortodoxas e nada agradáveis” de Hetfield caiu como uma bomba no QG dos músicos remanescentes (ia dizer rapazes, mas já devem saber que nos anos 2000 eles se tornaram verdadeiros coroas!), Ulrich e Hammett, onde, com a ajuda do produtor Bob Rock, assumindo o baixo, já se haviam iniciado as gravações do oitavo álbum oficial da banda, o primeiro de inéditas em 4 anos. Nada mais haveria que fazer a não ser esperar. O devenir do Metallica não passava de incógnita. A solidez encarnada do metal estava fraca e agonizante…

Dez meses depois, retornado do “exílio”, o quase-revigorado James espantou as especulações de que a banda terminaria naquele momento e, embora não pudesse estar tão presente como gostaria, o processo de composição voltou à regularidade do “segunda a sexta”. James fôra proibido pelos médicos de trabalhar mais do que 4h por dia, ao menos nesse começo, e sua reabilitação incluía dar mais atenção à família (o músico já era casado e tinha uma filha, bem como os outros dois da banda tinham as suas famílias). O novo baixista foi cirurgicamente escolhido: Robert Trujillo era membro do grupo Ozzy Osbourne, a carreira-solo do 1º vocalista do Black Sabbath, um dos principais responsáveis por Lars, James e Kirk terem traçado seus caminhos na música pesada. Da mesma faixa etária que seus colegas, o atlético e versátil Trujillo se adaptou rapidamente, recebendo diversos elogios de todos. Porém, na altura em que aterrissou, não pôde contribuir muito com o “St. Anger”, que estava prestes a sair do forno…

Sim, o novo CD do Metallica já tinha até nome, e expressava a intrincada antinomia em que a vida do recém-restabelecido quarteto se encontrava: Raiva Abençoada, vida e morte, fim e recomeço, céu e inferno, ressentimento e serenidade. Pensando bem, não há artista que sobreviva sem estes fatores. “Sem raiva, não se vence nada” – Aristóteles, filósofo grego.

As composições estavam carregadas de metalinguagem, refletindo o novo momento de auto-reconstrução da banda. Alguns temas eram meras ramificações das evocações simbólicas do Load-Reload, mas as músicas voltaram a ser mais compridas e era visível que os músicos se esforçaram por imprimir mais peso, voltando a suas origens. Mas o som era novo, relativamente inclassificável, impossível de rotular como heavy ou thrash metal. Era um hard rock com um feeling bem sujo e cru, notável nos timbres dos instrumentos, na voz intencionalmente rouca e expressiva de James e na bateria de Ulrich, cujos pratos traiçoeiros ficaram parecendo tampas de latas-de-lixo, para ódio da legião conservadora de fãs (ou eu deveria dizer “odiadores oficiais”?). A imprensa especializada torceu o nariz para o novo disco do Metallica, mas a prova de sua qualidade artística é que foi o quarto seguido do grupo a estrear em 1º lugar no ranking da Billboard, um feito inédito. Inclusive a música “Frantic”, sendo metal ou não, foi eleita pelo prêmio Grammy a melhor do gênero naquele ano (2003): apesar dos pesares, o Metallica se mantinha no topo! Então, bandas de rapazes de 20 e poucos anos que ouviam Metallica desde a infância já viravam sucesso e tinham a honra de dividir o palco com os mestres. Citarei alguns nomes à guisa de exemplo, mas apenas no final da matéria.

Uma coisa que desagradou muito o guitarrista Kirk Hammett foi a imposição do produtor Bob Rock de que não houvesse solos no St. Anger, o que limitava o desempenho de suas funções. A tal ponto que atualmente, quase 10 anos depois, o Metallica se nega a tocar músicas do St. Anger nos shows, bem como de sua fase mais light e de flerte com o pop – a Load –, com exceção da “mega-pedida” Fuel. Talvez parte disso seja pelas características muito peculiares do álbum: a canção “The Unnamed Feeling” (“O Sentimento Inefável”) tem linhas vocais tão sobrepostas e complicadas que seria quase impossível mantê-la razoavelmente parecida com a versão de estúdio em reprodução ao vivo, por exemplo.

Um detalhe engraçado é que durante esse período de estúdio o Metallica chegou a ter um terapeuta, para resolver seus problemas internos. Foi uma decisão polêmica, pitoresca e cara, que até hoje não sabemos se teve algum efeito. Não que os integrantes não tenham de fato resolvido suas diferenças e voltado a ser uma banda na acepção da palavra, mas atribuir o êxito somente ao terapeuta talvez fosse exagero. O que importa é que o Metallica estava consciente do que estava errado e se mexeu para buscar soluções. No fim das contas, o St. Anger parece, pelas letras, uma verdadeira sessão de terapia, pois está abarrotado de mantras e frases de auto-ajuda, enfáticas:

“Meu estilo de vida determina meu estilo de morte”, começa disparando a faixa-título. “Você vive ou você mente.” O teor autobiográfico é evidente: “A busca continua…” Nesse momento a banda está se debatendo com a pressão dos fãs, da imprensa, deles mesmos e do tempo. Para que a pressa para compor novos trabalhos sem esmero se for só para agradar os outros repetindo fórmulas? A cada novo dia os veteranos californianos tinham que provar que ainda mereciam sua boa reputação… A tal “busca” muitas vezes é frenética, e o refrão de Frantic é “tic-toc”, lembrando o badalar incessante do relógio.

O teor da ideologia do álbum oscila como um pêndulo entre o otimismo e o pessimismo. Versos do Kill ‘Em All são resgatados e reaparecem nas novas canções, misturados no furacão da raiva abençoada. Frantic, que cito pela terceira vez, representa quase um manifesto: “eu quero que minha raiva seja sadia, ela não pode me controlar”. Mas nisso, o eu-lírico aceita a raiva, sabe que ela é um ingrediente essencial do processo de criação. O Metallica pede às próprias forças inconscientes um terremoto produtivo. Na canção “Algum Tipo de Monstro”, tenta-se caracterizar o “monstro incorpóreo” do sentimento do descontentamento. “Essa é a voz do silêncio nunca mais / língua que fala por dentro / anda em círculos / [é] um deus nem tão santo”. Enfim, “é o fim que nunca termina”. Este momento (o da irracionalidade da raiva) somos nós. Temos de nos agüentar e a despeito de todos os reveses aprender a conviver.

Em outra música James berra: “sou juiz, júri e carrasco”. Alguns críticos se sentiram desconfortáveis em uma atmosfera de autismo e isolamento tão acentuados. A tônica do CD não os encantou: “eu me escondo, mas (se me cutucar) te mostrarei…” “Criança invisível” e “Meu Mundo” cutucam especialmente as feridas da infância: “Mamãe, por que chove no meu quarto? / neblina densa, nada eu vejo”. Minha favorita, particularmente, é “Shoot Me Again”: “manda bala de novo, ainda não morri / todos os tiros que levo cuspo de volta em você”. Às vezes o tom é altivo, seguro, quase arrogante. Noutras, cai no limbo da hesitação e do desespero.

Em outra passagem a entidade “raiva/fúria” reaparece: “Acorde o gigante adormecido / não, não, deixe-o hibernar!” Cabe espaço, nessa tempestade de desabafos, até para as relações amorosas, tema raríssimo no Metallica, ou cada vez mais freqüente, se se olhar a evolução temático-intelectual da banda: “Minto para obter um sorriso / doce fragrância do amor / será realmente doce? / Não danço com o que poderia ter sido / não danço com esqueletos”. Na continuação, insinua-se que o amor é raiva, mas também é controle dessa raiva. Até que ponto um dos amantes deve controlar o outro, já que se deixar levar pode ser o equivalente da indiferença mais insossa?

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Depois de longas excursões, durante 3 anos, a banda estava ansiosa para se reunir de novo no “bunker” do estúdio, em 2006, para compor material novo, a parte mais divertida da vida do artista. O tema da morte jamais abandonava a banda: “Death Magnetic” veio a ser muito aclamado pela imprensa. Bob Rock foi demitido. O Metallica sentia que devia retomar o padrão de qualidade e evitar ingerências, re-insistir em complicados solos e agradar a fração da clientela que havia desistido há muito de ver um Metallica anos 2000 que ainda portasse um espírito parecido com o oitentista. Manter-se na vanguarda é uma tormenta, uma tarefa das mais árduas, como o leitor desvenda em cada nova iniciativa do Metallica!

Death Magnetic foi o álbum mais parecido com o …And Justice For All em anos. O disco possui 10 faixas, uma delas instrumental (que, inclusive, teve sua demo intitulada “K2LU”, em referência a “Call of Ktulu”, a faixa sem voz do distante mas ainda muito enaltecido Ride The Lightning). “Essa Era Só a sua Vida”, a música introdutória, já mostra que a banda não estava para brincadeira: vocais velocíssimos e um Kirk com solos ressuscitados e, aparentemente, mais cascudos, elaborados e invocados do que nunca! No fim, talvez a única escolha questionável do álbum inteiro tenha sido a bateria de bumbo único, abafado e homogêneo demais durante todas as composições. O vocal de James ficou bastante destacado em todos os trechos. Ao contrário da era Jason, Rob Trujillo teve maior participação na autoria, ou pelo menos os créditos o indicam – todas as canções são apresentadas como esforço conjunto dos 4 colegas. “O Fim da Linha” apresenta riffs dignos de e estrutura parecidíssima com a de “Master of Puppets”. A nietzscheana “Quebrado, Derrotado & Machucado” (de refrão “O que não te mata, te fortalece”) estoura os tímpanos com seu solo duplo sincronizado (às vezes a gente até se esquece que o Hetfiel ainda se desdobra na guitarra-base, para dar um suporte ao mais pirotécnico Hammett!).

A divulgação do álbum havia começado com o videoclipe de “O Dia Que Nunca Chega”, nova incursão do Metallica na crítica à guerra, reavivando “Heróis Descartáveis”, de 1986. Outro clipe gravado mais tarde, de “All Nightmare Long”, apresenta elementos de animação e filmagens propositalmente de baixo orçamento, deixando o produto com a mesma cara artesanal do Metallica antigo batendo cabeça num depósito abandonado, como em “One”. Para delírio dos fãs, o CD Death Magnetic ainda brinda o ouvinte com a suposta conclusão da “saga do alcoólatra cheio de remorsos”, “The Unforgiven III”, que aliás é uma espécie de estação tranqüila dentro de um álbum tão preenchido por pancadarias torrenciais! A banda, sempre produtiva, ainda gravou 4 outras faixas que não cabiam na mídia, que com as 10 canções originais possuía praticamente 1h de duração. Esse material excedente foi lançado em 2011 num EP sob a alcunha de “Além do Magnético”, só na internet (média com os fãs, depois de aprender algumas lições com o passado?), e apresenta canções mais longas e elaboradas, com passagens de voz melódicas de James: “Hate Train” (outra vez a metáfora do trilho e do fim da linha), “Just a Bullet Away” (o grande destaque, bem no estilo Pantera), “Rebelde da Babilônia” (o Metallica voltando a falar de religião) e “Ao Inferno e De Volta” (de letras românticas, apesar do título).

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Falta pouco para chegar ao presente e finalizarmos nossa épica saga no CAPPDiem e no meu blog (O Esgoto a Céu Aberto na sua Rua) que narra a trajetória do eclético quarteto que virou um cânone da música pesada. Mas, antes, falta falar do último álbum de estúdio dos maus elementos: e eles fizeram das suas novamente – no melhor dos sentidos!

Algo tecnicamente inovador de artistas que já tinham tentado de tudo era, incrivelmente, possível. Um improvável encontro e troca de influências entre gerações foi o responsável por um dos trabalhos e experimentações mais diferentes que a indústria tem visto: o rockeiro “porra-louca” septuagenário Lou Reed, poeta do sórdido, Marquês de Sade do século XX, e o quarteto californiano de heavy metal, bem mais jovem, embora já veterano por si só, num mercado em que pululam jovens na casa dos 20 aninhos a cada dia! Só por essa razão já seria LOUvável (, Reed!) se não fizessem feio. Mas o projeto foi muito além disso…

Para variar, a inusitada parceria não coube num CD só, transformando-se em disco duplo, lançado no final de 2011. Certamente os fãs pagariam com prazer o custo extra. Mas é preciso especificar: os mais flexíveis dentre os fãs, somente, já que os headbangers ortodoxos e puristas continuam urrando irascivelmente e cuspindo abelhas africanas em todas as direções toda vez que o Metallica aparece em alguma operação arrojada que ultrapasse suas mentes limitadas. “Lulu”, o nome da empreitada radical, é uma peça de teatro de Frank Wedekind (um dramaturgo alemão que teria sido influência marcante de Bertold Brecht, este um cênico comunista bastante conhecido dos que aprenderam a História do século XX) convertida em música; com os versos geniais de Lou e o suporte instrumental dos desbravadores do metal por excelência, o ápice do lirismo foi atingido. James H. passa a maior parte do tempo apenas tocando a sua guitarra-base e só empresta a voz em 3 das 10 composições, não-raro no refrão. Lars volta com um kit de bateria mais diversificado. Hammett está ousado e nostálgico. Trujillo parece um bom árbitro de futebol – ajuda e dá substância porém sem ocupar os holofotes. A última música, “Junior Dad”, calhamaço de 20 minutos, teria arrancado lágrimas de todos da banda, devido ao tema ligado à paternidade, questão muito acintosa na vida de James, por exemplo. Lou Reed nunca havia perdido sua aura de bruxo ou feiticeiro dos palcos, mas alguns especialistas em sua carreira apontam este como seu melhor trabalho, além dele próprio. E temos razões para pensar que a declaração não se restringe a mero golpe de marketing!

Em quase toda a música “Mel Congelado” a guitarra de Hammett se parece com um zumbido de abelha. “Mistress Dread”, “Senhora Apavorada” ou “Senhora Pavor”, a depender da interpretação, parece tirada dos primeiros anos do Metallica, de tão potente. “Cheat On Me” tem um refrão leve e grudento, altamente cantante. “Pumping Blood” parece realmente fazer o sangue jorrar na frente do ouvinte. São detalhes tais que transportam o consumidor das ondas sonoras de Lulu a um mundo longe daqui e permitem afirmar que se trata de um novo clássico. As letras são muito polêmicas, soando a muitos críticos sem sensibilidade e tato, hiperbólicas e simples apologia da violência. Mas, não fosse a divergência de opiniões acerca de uma obra, não teria a menor graça! Podemos resumir a peça de Wedekind, cujo roteiro foi adaptado a devaneios filosóficos que tangem filmes de terror B de vez em quando, a algo que divaga principalmente sobre o vazio das relações amorosas e jogos de poder entre homem e mulher, muitas vezes preenchidos insuficientemente pelo prazer instantâneo da carne ou a inclusão do dinheiro, outra dinamite nesse coquetel já explosivo. Ora a perspectiva é a feminina, ora a masculina, às vezes na mesma canção. Lou não tem o menor pudor, e homossexualidade para ele nunca foi tabu.

A superficialidade e no fim das contas supremacia da beleza no amor é sentida principalmente entre os jovens, o que não escapa aos olhos perspicazes dos 5 que montaram Lulu em estúdio, ao longo de intensos meses. A canção de abertura grita: “Sou só uma garota de cidade pequena”, aquela que através do “coquetismo” hipnotiza e maltrata os homens desacostumados: “Eu cultivo a juventude / todo o resto me aborrece / Sua vida de razão / Você hesitando / quero te ver no chão”. E mais adiante: “Se eu sacudisse meu traseiro como uma prostituta obscena / Você pensaria mal de mim? / Você me cortaria, usaria uma faca em mim?”. Mas o homem também se humilha diante do sexo oposto, aliás como ninguém: “Você é perfeita, deixe-me seguir sua respiração e seus passos / Degrade-me! / Tem restos que eu possa beliscar?”. A mulher exibida aparece em incontáveis versos: “Muitos homens me amam / mas não amo nenhum deles”; “Acha que somos uma espécie de mesa / em que você descansa os pés quando bem entende? / nós te amamos, alteza / adoramos seu corpo perfeito / o seu cecê, o gosto da sua vulva e tudo nela / e você não tem significado / nunca nem ligou / pensar em você é uma outra forma de morrer / vou arrancar os seus mamilos! / seus azulejos brancos estão vermelhos agora / aquele que te rejeita é o vencedor”. Um drama psicológico reconhecidamente para poucos! Até o impulso sádico e inconsciente de muitos casais aparentemente harmônicos é descortinado: “Eu queria poder matar, machucar você / Case comigo, te quero como esposa”.

Alguns homens sentem-se afeminados diante de mulheres decididas e emocionalmente mais firmes: “Você é mais homem que eu / [Me sinto] seco e estéril sem-esperma como uma garota”. Outras vezes, os famosos milionários músicos expõem a crueldade da competição entre cãezinhos e grandes cães – na natureza, nada pode ser feito, mas no mundo humano o “tamanho” é comprável: “dinheiro te leva ao topo / a cadela não se importa com o resto / o cachorrinho com uma nota de 100 é um cachorrão, / [pois] já pode sentir o gostinho”.

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Nem podemos descrever com detalhes e nem sabemos por onde começar para sintetizar a idéia do fenômeno que é esta banda chamada Metallica! Um exemplo bobo poderia ser o jogo de videogame Guitar Hero inteiramente dedicado à banda. Um segundo, a passagem do Metallica pelo Brasil no “Dia do Metal” do Rock in Rio 2011, altamente louvada. Outra ilustração, que todo dia 7 de Março é oficialmente o Dia do Metallica, baseado em decreto da prefeitura de SanFran! E nada de listas longas e fidedignas demais sobre os grupos musicais cuja maior influência é reconhecidamente o Metallica, caso contrário poderíamos gastar o dobro dos caracteres que já foram gastos na (extensa) matéria: Mastodon, Slipknot, Avenged Sevenfold e Vader são 4, só uma módica amostra de novos nomes em parte promissores – e que em parte já mostraram conteúdo o suficiente para deixarem de ser apenas promessas – que só chegaram aonde estão por intermédio do grupo de vastos horizontes que sempre idolatraram, o alvo de nossos esforços biográficos, o Metallica!

Amados ou odiados: esse é o renascível-das-cinzas-como-fênix-super-grupo-do-rock-‘n’-roll-e-metal Metallica! Lars, certa feita, em algum ponto dos anos 2000 que não me lembro, declarou que era muito provável que ainda se ouvisse falar das proezas desta banda musical incrível por mais uns 20 anos, pelo menos. E então, o que eles estarão aprontando neste exato momento? Não sei se conseguiremos esperar até 2013!

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