A CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES — Pseudo-Xenofonte (trad. Pedro Ribeiro Martins), 2011.

NOTA PRÉVIA

“O autor é recorrentemente referido como Pseudo-Xenofonte, principalmente na bibliografia francesa, italiana e espanhola. A tradição anglo-saxônica designa-o com o qualificativo de Velho Oligarca (Old Oligarch), que se tornou famoso; essa designação, no entanto, não contribui para o debate, já que não podemos inferir com certeza a idade ou a identidade do autor.”


O AUTOR DA CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES

“A única voz contrária a esta tese na Antiguidade é a de Demétrio de Magnésia, historiador contemporâneo de Cícero, citado por Diógenes Laércio 2.57, no capítulo sobre a vida de Xenofonte. Nesta controversa passagem, a autoria da Constituição dos Atenienses e da Constituição dos Lacedemônios é posta em dúvida.”

“É ponto pacífico entre os filólogos modernos que o estilo de X diverge em quase tudo do de Xenofonte. Bowersock 1968 461 abre a introdução de sua edição ao texto, caracterizando-o como tantalizingly inept, para em seguida adicionar repetitive e awkward à lista dos seus traços estilísticos. Em contrapartida, Xenofonte é visto como um mestre da prosa ática, de linguagem refinada e clara.”

“Xenofonte, o Velho, foi membro do círculo socrático e é referido poucas vezes em obras conhecidas, como possivelmente em D.L. 2.59. Este personagem é conhecido por ter caído do cavalo e ter sido salvo por Sócrates durante a batalha de Délio (D. L. 2.22-23). Normalmente é confundido com o historiador Xenofonte, não só por este episódio da queda, mas também por ser indicado como o autor dos Hellenika. Sua idade, sua aproximação com os círculos filosóficos de Atenas e o fato de usar o mesmo nome são os argumentos positivos para a determinação de Xenofonte, o Velho, como autor da Constituição dos Atenienses.

Xenofonte de Melite, filho de Eurípides, foi um nobre que ocupou a hiparquia em 446 a.C. e a estrategia em 440 a.C., tendo morrido em batalha como estratego em 429 a.C. durante a campanha na Bótica (Thuc. 2.79). A coincidência do nome e o fato de este Xenofonte ter sido tanto estratego como hiparco são os grandes argumentos para o aceitar como autor da obra, pois, em 1.3, X afirma que a hiparquia e a estrategia são as únicas posições que ainda eram ocupadas somente pela classe alta.”

“Tucídides, o autor da História da Guerra do Peloponeso, aparece como uma hipótese pela semelhança dos temas abordados. A longa explanação sobre o poder naval de Atenas nos discursos atribuídos a Péricles guarda semelhança com a descrição do império naval na Constituição dos Atenienses.”

“A mais célebre destas comparações é a do capítulo 1.11, entre o direito de um espartano de surrar um escravo, seja ele sua propriedade ou não, e a atitude dos Atenienses de não aplicar castigos físicos aos escravos.”

“Há de se reter em mente que o autor é provavelmente um oligarca, que possivelmente ocupou uma função militar (estrategia, hiparquia ou trierarquia), que dividiu com Tucídides opiniões em voga na época, conviveu com círculos sofistas e, provavelmente, estava incluído nas conversações dos oligarcas que tramaram o golpe de 411 a.C. e o dos trinta tiranos de 404 a.C.”

“podemos afirmar, com bastante segurança, que o autor é um Ateniense, pois utiliza a primeira pessoa diversas vezes quando refere-se a esse povo”

“Contudo, Pseudo-Xenofonte abre exceções e refere-se aos Atenienses na terceira pessoa, quando explicita sua desaprovação com relação a uma decisão por eles tomada, como, por exemplo (1.1): Quanto à forma de governo dos Atenienses, que escolheram este tipo de constituição, eu não a aprovo.”

“mas, quando, por exemplo, a frota ateniense é citada, observamos uma aproximação do autor, pelo uso da primeira pessoa, como nesta frase: Exatamente destes materiais são feitos os meus navios (2.11).”

“Frisch 1942 187 sugere que o autor está fora da Ática no momento de composição da obra, que foi exilado ou banido, e se dirige a oligarcas de outra cidade. A argumentação de Frisch baseia-se no uso excessivo da palavra autothi que indica um distanciamento; o nome ‘Atenas’ é constantemente substituído por autothi ao invés de enthade. A tradução seria, então, ‘lá’ e não ‘aqui’ como se esperava de alguém que escreve dentro da cidade de Atenas.”

“Se detesta o fato de o povo ter poder de decisão, por outro lado exalta o poder da armada democrática. Como conciliar este paradoxo?”

“A teoria do diálogo como gênero do texto nunca foi levada a sério, porém a base de sua argumentação é mantida. De fato, existem duas vozes em enorme contraste.”

“por um lado, o Velho Oligarca é extremamente apegado às suas convicções morais, que o aproximam da nobreza e da oligarquia, provavelmente pela sua história de vida; mas, por outro, é fascinado pela magnitude bélica que a democracia pode oferecer, através de sua pujante marinha.”

“É um homem culto, frequenta os círculos intelectuais e está familiarizado com as ideias dos sofistas, apesar de não ser um deles.”


A DATA DA CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES

“Para todos os efeitos, consideramos que o texto foi escrito entre 431 e 424 a.C., concordando com as argumentações de Ste Croix 1972 309 e Marr e Rhodes 2008 6.”

“A única possibilidade de o texto não ter sido escrito durante o século V a.C. é a de termos em mãos um exercício de escola ou uma reconstituição histórica da Atenas do tempo de Péricles, tese defendida por Belot 1880.”

“Pseudo-Xenofonte descreve uma Atenas soberana nos mares, que desfruta de um sistema democrático estável e pujante. O que nos leva a acreditar que o opúsculo foi escrito antes da derrota naval na Sícilia (413 a.C) e depois da transferência da maior parte dos poderes do Areópago para a assembleia e para o conselho.”

“o Velho Oligarca refere algumas práticas imperialistas atenienses, tais como a perseguição às elites das cidades aliadas e o pagamento dos tributos em dinheiro ao invés do fornecimento de serviço militar. Esta mudança de comportamento da hegemônica Atenas é observada, principalmente, depois de 454 a.C., quando o tesouro da Liga de Delos é transferido para o seu território e as cidades aliadas deixam de fornecer apoio militar e passam a pagar seus impostos em dinheiro.”

“Por fim, se esta ou qualquer data antes de 420 a.C. for correta, podemos afirmar que este é o mais antigo exemplar de prosa ática e o primeiro dedicado a uma crítica do sistema democrático (Marr e Rhodes 2008 6).”


A NATUREZA DA CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES

“A única certeza sobre a forma da Constituição dos Atenienses é a de que não se trata de poesia por não obedecer a um esquema métrico. De resto, estamos no campo das especulações. O enigmático texto pode corresponder a uma carta pessoal, um discurso público, um texto recreativo para ser lido em grupos pequenos, um tratado argumentativo político, um tratado teórico sobre guerra e até mesmo um diálogo. Há uma longa discussão sobre as propriedades estilísticas do texto que continua em aberto.”

“Kirchhoff 1874 acreditava que o tratado estava demasiadamente fragmentado para ser lido como um texto completo, como por exemplo os parágrafos 1.13, sobre as casas de banho e palestras, e 2.9, sobre os sacrifícios e festivais, que parecem completamente deslocados dentro do contexto em que ocorrem (Frisch 1942 42); mas a partir da edição de Kalinka 1913, as dúvidas sobre a unicidade da obra foram postas de lado e hoje o texto é entendido como uma unidade, mesmo que apresente problemas de conexão entre os tópicos.”

“Roscher 1841, pioneiro da crítica moderna do tratado, acreditava estar diante de um relatório feito ao governo espartano, que explicava o sistema político ateniense. Belot 1880 considerava o texto uma carta pessoal de Xenofonte ao rei Agesilau, com o objetivo de levar ao rei espartano informações sobre a marinha e o sistema político atenienses. As duas hipóteses podem ser refutadas pelo argumento defendido por Frisch 1942 e que encontra aceitação entre a maioria dos críticos da obra. Para o autor dinamarquês, o texto tem um caráter oral muito bem marcado.”

“Distinguem-se as Politeiai escritas na Grécia dos séculos V e IV a.C em três grupos: filosófico, científico e político. A República de Platão e os livros 6 e 7 da Política de Aristóteles são os melhores exemplos de Constituições filosóficas, pois tratam a questão da disputa entre as constituições de maneira utópica e idealizada. A Constituição dos Atenienses de Aristóteles é a melhor representante do tipo científico, já que trabalha com uma suposta imparcialidade e analisa diacronicamente as instituições políticas de Atenas. O último tipo abarca obras como os discursos de Péricles, especialmente a oração fúnebre, onde Tucídides recria o discurso do estratego ateniense enfatizando o modelo político democrático e os efeitos concretos na vida política e militar de Atenas decorrentes deste modelo. O texto que estudamos certamente pertence ao último tipo.”

“Diferentemente da obra homônima de Aristóteles, Pseudo-Xenofonte não está interessado em analisar sistematicamente a transição das sucessivas formas de governo de Atenas, nem o seu mecanismo de funcionamento.”

“Pseudo-Xenofonte não tem interesse no futuro e na sobrevivência da sua obra. Fala do presente e tem intenção de influenciar o contexto em que vive. Seus escritos, provavelmente, não teriam sobrevivido se não tivessem sido, por algum motivo, adicionados ao corpus de Xenofonte.”

“Como também não tem preocupações artísticas, como Eurípides e Aristófanes, que contribuíram igualmente para o debate sobre os diferentes tipos de constituição, não necessita de esconder as palavras na boca de personagens. O Velho Oligarca não precisa ser sutil, não precisa emocionar sua plateia, nem produzir um espetáculo. Está livre para ir direto ao ponto.”

“A escrita de Politeiai passou a ser um gênero literário. Foram atribuídas à escola de Aristóteles 158 Politeiai, todas perdidas, exceto a mais célebre, a Constituição dos Atenienses. Crítias também escreveu, em verso, diversas Politeiai, tendo chegado a nós alguns fragmentos das Constituição dos Atenienses, Constituição dos Lacedemônios e Constituição dos Tessálios. Xenofonte deu o seu contributo ao gênero das Constituições e escreveu a Constituição dos Lacedemônios, obra na qual relata o modo de vida, sistema militar e organização política dos Espartanos.”

“o nome do tratado deve ter sido estabelecido posteriormente”

“O teatro trágico de Eurípides e cômico de Aristófanes dialogam com esta pequena obra em termos de vocabulário político e de conteúdo. Além deles, Heródoto 3.80-83 também divide o mesmo interesse político ao narrar a discussão dos nobres persas sobre a melhor forma de constituição. Procederemos a uma série de breves comparações, com o objetivo de evidenciar as divergências e convergências das obras citadas até agora com o opúsculo de Pseudo-Xenofonte.”

“Megabizo, o defensor da oligarquia no debate de Heródoto, certamente poderia fazer parte do clube de aliados políticos de Pseudo-Xenofonte. Eles dividem a mesma visão moral: existem pessoas melhores que outras e são elas que devem estar no poder. Servem-se dos mesmos argumentos para diminuir seus adversários – a falta de utilidade e a ignorância do povo. Diferenciam-se por questões práticas. Megabizo lança um voraz ataque à democracia e Pseudo-Xenofonte trabalha a possibilidade de se viver bem numa democracia. A diferença é que o Velho Oligarca tem uma democracia concreta para basear suas críticas positivas, enquanto que Megabizo raciocina apenas no plano das ideias.

O último a falar é Dario, vencedor do debate e defensor da monarquia. O futuro rei dos Persas deslegitima a oligarquia e a democracia usando um só argumento: os homens tendem a polemizar-se uns contra os outros, e desta disputa pelo primeiro lugar nascem discórdias que farão, eventualmente, com que retornem ao estado de monarquia. Pseudo-Xenofonte nada tem a dizer sobre a monarquia, pois não está interessado em debates teóricos; e, como sua realidade exige uma reflexão sobre o posicionamento político de oligarcas dentro de uma democracia, a monarquia parece uma alternativa distante demais para ser discutida neste pequeno texto.”


CONSTITUIÇÃO DOS ATENIENSES

“1.1. Quanto à forma de governo dos Atenienses, que escolheram este tipo de constituição, eu não a aprovo pela seguinte razão: aqueles que a escolheram optaram por privilegiar a ralé ao invés da elite. Eis por que a não aprovo. Mas já que decidiram desta maneira, pretendo demonstrar como eles conseguem preservar a sua constituição e resolver os restantes assuntos de Estado, mesmo recebendo a crítica dos outros gregos.”

(*) “No caso da strategia existiam dez vagas a serem preenchidas. Cada candidato apresentava-se e, em seguida, era submetido à aprovação dos membros da assembleia. Caso o candidato contasse com a aprovação da maioria, era incluído entre os dez strategoi. Se os dez postos já estivessem ocupados e outro candidato se apresentasse, o novo postulante deveria apontar contra qual dos strategoi entraria no pleito. Estabelecidos os dois candidatos, eles eram submetidos à escolha da assembleia novamente (Hansen 1993 272-273).”

“1.5. Em qualquer parte do mundo, a classe alta opõe-se à democracia. Nas camadas superiores há pouca desordem e injustiça e existe a preocupação com a preservação da boa moral, enquanto que entre o povo reina a ignorância, a desordem e a perversidade; a pobreza faz com que se cometam atos censuráveis, sendo a falta de educação e a ignorância de alguns o resultado da falta de dinheiro.”

“Se fossem os da elite a falar e a legislar, seria excelente para os do nível deles, mas mau para os membros do povo. Atualmente, porém, qualquer um da ralé que queira pode levantar-se e usar da palavra para defender os seus interesses e os do seu grupo.”

“1.8. A cidade pode não ser a ideal por praticar estas regras, mas a democracia está mais protegida desta maneira. Pois o povo não deseja um governo que o escravize, por melhor que ele seja. O que o povo deseja é ser livre e comandar, pouco importa se o governo for ruim”

“1.9. Mas se é um bom governo que procuras, verás, em primeiro lugar, os mais hábeis estabelecendo as leis no seu próprio interesse; daí resulta que os membros da elite castigarão os da ralé e decidirão sobre os assuntos da cidade, sem permitirem que os desequilibrados decidam, falem ou sequer tomem parte na assembleia. Em virtude destas medidas, que são excelentes, o povo sucumbiria rapidamente à escravidão.”

“1.10. Quanto aos escravos e aos metecos, [estrangeiros] tamanha é a impunidade em Atenas que lá não é permitido castigá-los fisicamente e o escravo não te dá passagem. Vou explicar por que existe este costume local: se fosse legítimo o homem livre bater no escravo, no meteco ou no liberto, corria-se o risco permanente de surrar um Ateniense, acreditando tratar-se de um escravo; é que lá o povo não se veste melhor do que os escravos e metecos e sua aparência também em nada é melhor.

1.11. Se há quem se surpreenda com o fato de que lá é concedido aos escravos viver uma vida confortável e até, em alguns casos, em grande estilo, devo dizer que também esta prática segue claramente um propósito. Pois onde quer que haja um poderio naval é necessário, por razões financeiras, depender dos escravos: pode assim receber-se parte dos rendimentos auferidos e lucrar com a sua alforria. Onde os escravos são ricos, não há condições que meu escravo tenha medo de ti.”

“A cidade precisa dos metecos por suas diversas competências e para a manutenção da frota. Por este motivo agimos com razão ao darmos liberdade de expressão aos metecos.”

“1.13. Em Atenas, o povo considera fora de moda os que praticam exercícios físicos e música, não por entender estas atividades como de mau gosto, mas porque ele mesmo não tem condições de praticá-las. Quanto aos encargos públicos da coregia, dos concursos atléticos e do apetrechamento das trirremes, é sabido que são os ricos que asseguram os coros, organizam as competições desportivas e equipam as trirremes, mas é o povo quem toma parte no coro ou nas competições atléticas e quem tripula as embarcações. O povo entende que deve ser pago por cantar, correr, dançar e tripular os navios, de forma a enriquecer cada vez mais e os ricos ficarem cada vez mais pobres. Nos tribunais preocupam-se mais em acumular vantagens para si do que com a justiça propriamente dita.”

“os Atenienses navegam por aí em permanentes denúncias; odeiam a elite, dentro do princípio de que quem comanda é necessariamente odiado pelos comandados. Ora se os ricos e a elite têm força nas cidades, o império do povo de Atenas durará pouquíssimo tempo. Por esta razão privam a elite dos seus direitos políticos, confiscam-lhes o dinheiro, exilam-nos, matam-nos, enquanto intercedem a favor da ralé. A elite ateniense socorre a elite das cidades aliadas, por perceber que é no seu próprio interesse que protege os membros da classe alta das outras cidades.”

“1.19. Ademais, por causa das possessões em terras estrangeiras e das funções públicas que exercem no exterior, os Atenienses e seus escravos aprendem, sem se dar conta, a manejar o remo. Afinal, um homem que navega com frequência acaba por aprender a usar o remo, assim como seu escravo, além de se familiarizar com os termos náuticos.”

“2.1. A infantaria pesada ateniense, que não tem uma boa reputação, foi estabelecida da seguinte forma: eles sabem que sua infantaria é inferior em número e força à de seus inimigos, mas sabem também que é mais poderosa que a de seus aliados pagadores de impostos. Consideram, então, que o poder da infantaria é suficiente enquanto forem superiores aos seus aliados.”

“2.3. Das cidades continentais sob o domínio de Atenas, as maiores são controladas pelo medo e as menores por pura necessidade, pois não existe cidade que não precise importar ou exportar produtos, e para tal é necessário haver o consentimento dos senhores do mar.

2.4. Ademais, é permitido aos talassocratas fazer o que os donos da terra só ocasionalmente conseguem: devastar a terra dos mais poderosos; pois lhes é possível navegar junto à costa onde há poucos ou nenhum inimigo e, caso sejam atacados, podem embarcar e zarpar. Quem realiza tal manobra enfrenta menos dificuldades do que quem envia auxílio usando a infantaria.”

“2.7. Se se considerar também os assuntos de menor importância, em primeiro lugar, os Atenienses, em razão do domínio marítimo, misturaram-se com outros povos e descobriram produtos de consumo variados, pois o que há de especialidades na Sícilia ou na Itália, no Chipre ou no Egito, na Lídia ou no Ponto, no Peloponeso ou seja onde for, tudo isso acaba reunido em um só lugar, em virtude do império marítimo.

2.8. Mais ainda, por ouvirem todos os dialetos, acabaram por adotar características de uns e de outros. Enquanto que os outros Gregos, em grande parte, conservam o seu próprio dialeto, modo de vida e maneira de vestir, os Atenienses usam uma mistura de tudo quanto é grego e bárbaro.”

(*) “Um exemplo da influência estrangeira, em termos de moda seguida pelos Atenienses nobres, é o abandono das túnicas de linho em favor de uma vestimenta mais modesta e a utilização de cabelos longos presos, seguindo a tendência espartana (Thuc. 1.6.3).”

“a cidade realiza muitos sacrifícios, à custa do erário público, mas é o povo que aproveita os banquetes, dividindo entre si as partes dos animais sacrificados”

“Nenhuma outra cidade possui estes dois tipos de produtos: não há na mesma cidade madeira e linho. A cidade que é rica em linho está implantada em território plano e sem madeira, do mesmo modo que da mesma cidade não vêm cobre e ferro, nem há duas ou três destas matérias-primas em uma mesma cidade, mas uma encontra-se em uma cidade e outra em outra.”

“2.13. Mais ainda: junto de toda costa continental há um promontório ou uma ilha posicionada de frente para terra firme ou um estreito, sendo assim possível aos senhores do mar [por mais que residentes também em terra firme] atracar em um destes lugares e pilhar os moradores do continente.”

“Quando algo mau acontece em decorrência das políticas do povo, logo culpam um punhado de homens como oposicionistas, pelos resultados catastróficos das suas políticas. Pelo contrário, se o resultado é positivo, atribuem a si mesmos os méritos.”

“poucos são os pobres e populares a sofrer ataques nas comédias, e quando o são é por terem o perfil de fofoqueiros ou por tentarem tirar vantagem do povo. Nesse caso, o povo não se incomoda em vê-los ridicularizados pela comédia.”

“2.19. Afirmo, então, que o povo ateniense sabe exatamente quais são os cidadãos de bem e quais os de índole duvidosa; apesar disso prefere idolatrar os que são mais convenientes e úteis aos seus interesses, mesmo que sejam de índole duvidosa; o povo tende a odiar os cidadãos de bem, pois não acredita que a excelência inata destes homens possa trazer algum benefício para si, pelo contrário, acredita que será danosa.”

“2.20. Pessoalmente, perdoo o povo pela democracia, pois todos os que procuram o melhor para si devem ser perdoados. Por outro lado, aquele que não pertence ao povo e no entanto escolheu fazer sua vida política numa cidade democrática e não numa oligárquica, assumiu uma atitude irregular, com a consciência de que, para uma pessoa de má índole, é mais fácil passar desapercebido em uma cidade democrática do que numa oligárquica.”

“por vezes nem o Conselho nem a Assembleia chegam a uma conclusão sobre os assuntos de um particular, mesmo que ele tenha esperado durante um ano. Mas isto acontece em Atenas unicamente pelo excesso de processos, porque não é possível deliberar-se sobre todos os casos e despachá-los.”

“3.3. Ouve-se dizer: se alguém for ao Conselho ou à Assembleia com dinheiro na mão, tem o seu processo tramitado. Eu concordo que muito se resolve em Atenas com dinheiro e mais ainda resolver-se-ia se mais dinheiro fosse gasto. Mas a verdade é que a cidade não conseguiria despachar todos os assuntos encaminhados nem se dessem aos conselheiros e membros da Assembleia todo o ouro e a prata do mundo.”

(*) “Os processos privados (dikas) e públicos (graphas) distinguem-se por terem acusadores diferentes. Enquanto que nos processos privados o acusador tem de ser obrigatoriamente a pessoa lesada, nos processos públicos qualquer cidadão pode assumir o papel de acusador. O processo de Sócrates, por exemplo, foi um processo público. A prestação de contas (euthyna) era a avaliação oficial que a Assembleia fazia de cada funcionário público ao término de seu mandato (Varona 2009 128-130).”

(*) “As Targélias, festival em honra de Apolo, aconteciam no sétimo dia do mês que leva seu nome (thargelion – entre maio e junho). Possuíam uma relação estreita com a fertilidade. Era durante este festival que se procedia também à purificação da cidade: dois homens eram alimentados às custas da cidade e logo em seguida eram expulsos, simbolizando a eliminação do mal em Atenas (Simon 1983 76-79). As Panateneias eram celebradas anualmente em honra de Atenas durante o hekatombaion (entre julho e agosto). É considerado o festival mais importante de Atenas e era composto por uma vigília, procedida por uma corrida noturna de tochas; o dia seguinte iniciava com uma grande procissão com a finalidade de levar à deusa o peplos; realizava-se então uma hecatombe e, em último lugar, tinham lugar as competições, destacando-se os concursos de música, regatas, corridas de carro e as provas atléticas (Rocha Pereira 2006 350-355).”

(*) “A composição dos júris em Atenas seguia um processo complexo e ao mesmo tempo prático. Para ser apto ao cargo, o voluntário deveria ter pelo menos trinta anos e ser cidadão. Do universo de voluntários, eram selecionados, por meio da sorte, seis mil juízes por ano; estes compunham a eliaia, termo que designava tradicionalmente a própria Assembleia dos cidadãos e depois passou a referir-se somente ao conjunto dos jurados. A partir do grupo dos seis mil, eram formados, aleatoriamente (através de um complexo processo descrito por Arist. Ath. 63-67), os pequenos tribunais deliberativos. Um tribunal contava, normalmente, com um grupo que variava de quinhentos a dois mil jurados, dependendo da importância do caso em questão. O pagamento pelo serviço de jurado, instituído por Péricles (Arist. Ath. 27.3), era de dois óbolos por dia, e depois foi aumentado para três óbolos diários, por influência de Cléon (MacDowell 1978 33-40).”

“3.8. Ademais, é preciso ter em conta que os Atenienses têm de organizar festivais, durante os quais os julgamentos ficam suspensos, e organizam o dobro de festivais que as outras cidades. E estou apenas a considerar os equivalentes aos que a cidade organiza, e que são pouquíssimos. Nestas circunstâncias entendo que não há outra forma de lidar com os negócios públicos em Atenas se não da maneira como eles o fazem nos dias de hoje. Exceto por algum detalhe que possa ser suprimido ou adicionado, mas não é possível mudar muito sem afetar a democracia.”

“3.12. Há quem pense que nenhuma outra cidade promove tanto a cassação injusta dos direitos de cidadão. Eu, por minha parte, sustento entretanto que são poucos os que são cassados injustamente, embora haja alguns.”


GLOSSÁRIO:

cleruco: “Cidadão que, na antiga Grécia, recebia um lote de terreno em um país conquistado e comumente para lá emigrava sem perda da cidadania.”

talassocracia: “Estado cujo poder reside especialmente no domínio marítimo.”

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