[ARQUIVO] MITO DO ETERNO RETORNO — Mircea Eliade

Originalmente publicado em 18 de julho de 2011

Cosmo vs. História. Para o homem primitivo, “Tudo o que ele faz já foi feito antes”. Na era do ouro (in illo tempore)… Adão teria sido enterrado abaixo do lugar em que Jesus foi crucificado. Esse mesmo sítio, o Gólgota, teria estado em uma altitude suficiente para não submergir perante o Grande Dilúvio. “umbigo do mundo”

“Os aborígenes da região sudeste da Austrália, p.ex., praticam a circuncisão com uma faca de pedra, porque foi assim que seus ancestrais lhes ensinaram a fazer”

AMANTES ROLANDO NO ORVALHO MATINAL…: “as orgias realizam-se em certos períodos críticos do ano, como, p.ex., no momento em que britam as sementes ou a plantação amadurece para a colheita, e sempre há uma hierogamia [sexo entre um deus e um humano] como seu modelo mítico.” “a libertinagem vista como regra na Europa central e do norte, no momento do festival da colheita, e contra a qual as autoridades eclesiásticas lutavam com enorme persistência.”

Na Antiguidade, dois séculos parecem o bastante para canonizar uma biografia. Entre nós, exceto para a Igreja Católica, nenhum milênio (se bem que nosso estilo moderno de pensar não durou ainda mil anos) serve para consagrar ninguém com feitos fantasiosos, folclóricos (justamente porque nos opomos ao folclore).

A não ser… Especulações e boatos jamais esclarecidos totalmente acerca dos mais venerados. E Homero não fala duma guerra ocorrida dois séculos antes no tempo?

QUANDO MARDQUE VENCE TIAMAT: “do mesmo modo que o desaparecimento da lua nunca é final (…) o desaparecimento do homem tampouco é final” “o Grande Ano”—Beroso//Heráclito fragmento 26B =66D

O autor afirmará em prefácio que seu eterno retorno nada tem a ver com aquele nietzscheano, mas posso verificar que esse, que foi o chamariz da minha leitura, afinal, está sendo contemplado, i.e., há sim verossimilhanças.

Platão teria enunciado o eterno retorno (quando todos os astros se realinham no céu). “a idéia de que a conjunção de todos os planetas é suficiente para provocar uma convulsão universal, sem dúvida alguma é de origem caldéia.”

133: não fosse o papel decisivo de uma restrita elite sacerdotal, a massa—mesmo aquela que já conhecia Javé—continuaria politeísta

“A crença na periódica destruição e criação do Universo já pode ser encontrada no Atharva Veda.” Ragnarok como herança germânica do hinduísmo (indo-arianismo).

“Assim, uma Mahayuga dura 12 mil anos (Manu, I, 69ss; Mahabharata, III, 12, 826).” decadência constante… “a Kali Yuga, na qual nos encontramos presentemente, é considerada como a ‘era das trevas’.” “Os 12 mil anos eram considerados ‘anos divinos’, cada um deles com a duração de 360 anos, o que produz um total de 4.320.000 para um único ciclo cósmico. Mil desses períodos constituem uma Kalpa; 14 Kalpas formam uma Manvantara. Uma Kalpa é equivalente a um dia [12h!] na vida de Veda [um Deus] (…) A vida de Veda é constituída de uma centena de ‘anos’.” Mas o universo dura ainda mais que a vida desse deus, e é perpetuamente renovável! 4 quatrilhões e 88 trilhões de anos!!! “essa verdadeira orgia de números”

Nenhum credo, por mais pessimista, consegue desbaratar a necessidade de “algo” depois do fim, tornar o Apocalipse o momento de “fim dos fins”, uma vez que ele é sempre um início ou reinício, só mais uma etapa dentro de um processo em si mesmo infinito de repetições de ciclos, ou seja, de finitos. Nem no Ocidente, nem no Oriente, em qualquer época, o homem escapa disso. “Desta maneira, no ponto final da filosofia marxista da história, encontramos a era de ouro das escatologias arcaicas.” Ah, os sofredores do XXe siècle! O projeto malfadado de Dilthey. “Heidegger tinha se dado ao trabalho de mostrar que a historicidade da existência humana proíbe toda esperança de transcendermos ao tempo e à história.” De acordo com o autor, o historicismo, conservador, burguês, é assumido pelo expectador, aquele que não sofreu suficientemente da violência. Quereria isso dizer que todo marxista (preservação da metafísica messiânica) seria um sofredor nato? O sofredor nato seria o fraco, que não agüenta, ou seria o forte, com vislumbre (mas, por favor, não ao ponto de poder ser chamado de “realista”)? Não poderia haver um sofredor que suportasse a visão nietzscheana das coisas (ou isso seria uma aberração), nem alguém que não viveu as agruras na pele crendo na legitimidade de uma justiça trans-histórica iminente? Como se fosse questão de escolha: querer-se consolar! Eu poderia acreditar na utilidade de crer em deus, mas esta hipótese está descartada (má-fé impossível a essa altura). O engraçado é que antes desse trecho imaginava que Marx seria pintado como o grande demiurgo da História humana contínua. “luta”

“em outra obra” “em outra obra” “voltar ao tema” “em out

“anticlímax que fatalmente se faz seguir a qualquer gesto exuberante da vida”

153: além do homem; a sabedoria cheia de frescor e aberturas do homem (ou seja lá o que for) do Oriente. O problema de Cioran—a hipertrofia da consciência. Cita Mannheim e a proposta de uma sociologia do conhecimento.

Estamos na Quarta Era.

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