Originalmente publicado entre 13 e 22 de março de 2012
MEIONÇA
Ora, que venha alguém com muitas onças m’enfrentar!
Garanto que nem todas as riquezas mais ferozes bastarão!
Não preciso comprar meus inimigos
Que eles venham inteiro ou ao meio(-dia)
O brio que sucede não fraciona
Diante do rugido fedorento, das garras bem-aparadas
De um animal de casa, grã-grosseria é a minha
Não sou preço ou dívida, para que se me abata
Por decreto, como se não existira
Gatuno, montanha de especulação
Quando alqueiras alquebrar-te, me avise!
Tão másculo és, não vives sem bolsa
On’tá teu instinto?
Eu sim não minto sobre minha tropa, ela é nada
não a guardo debaixo dum assento
para que vire púrpura urina!
Herança que queda aos meus filhos
deve de ser não ter nem temer
Animal silvestre, todos vão perecer
por terem vindo investir com cobiça nos réis da selva
MI’A MOR-TO(N)TEM
Se é verdade que a vida é uma reprise,
cada dia a seu dia os mesmos gestos
Não deixe para amanhã viver o hoje
porquanto amanhã é hoje e não o depois
Somente hoje se promete
se promete todo o tempo ao vento
Hoje viver, amanhã morrer
palavras de insignificância
não servem para amortecer a ânsia
Da queda perpétua
que se consuma /ou consome num instante
Pedante ante a vida
Morri pelo fim, vi o VT
Mercê me crê
Repise o quinto piso
O quanto insisto nisto
*
Novela móvel interativa
Mexi no constructo, não alterei a ordem
Destilo impaciência ao caminhar
Que mentira, escrevo um poema
Coisa que ontem não me ocorreu
De óculos mirando o breu
Cada dia um novo dia,
Festas, gestas
Gestalts, Gestapos, guess & penetras n’ farrapos
O pensamento me fugiu
enquanto pensava
Evaporou ao passo que se concretizava
O mote já nem sei, nasceu como motim
Um montão de ideias
correias de mar
-fim
COMILANÇAS DE ULISSES, E ARROTEI!
Tão burra que acredita na própria recuperação!
Yin-Yang são dois gordos
se devorando, eu não tenho lugar
no esbocexistencial, no bojo do nojo nostálgico!
MI’A MOR-TO(N)TEM II
“Deixe para amanhã viver o amanhã”
O amanhã nunca é vivido, criança!
Se é, é porque o amanhã é sempre hoje
“Sempre” ou até morrer
Um ontem a viver
Um amanhã déjà-visto
Um hoje fugidio como a esposa espevitada
Pula a cerca sem se ver
Mas amanhã que é o hoje sai nos jornais
Cristaliza—e se acredita
que se viveu, tem testemunhos!
Tempo que se vende quando se obtém
porque dele não se encontra proveito utilidade
E se choraminga, se pechincha quando
se inveja o alheio, enredado em obrigações
Picos de felicidade eterna
Constâncias de tristezas singelas dissolutas
dissolvidas
Prolongamento cantante
silêncio de missa
respeitoso, olha o dízimo!
Calvário proletário festinha se anima
Sindicato do tempo restituindo horas extras
para cedermos ao tédio egoisticamente
com aquela impressão de tempo perdido
mas usufruído
*
Feliz é quem vê TV aberta
Alerta sempre às novidades
mata os desafios com bocejos e risos
nenhuma fadiga, só a de retornar
a si
Ferroada fumada
tosse expectorada
Caminhada solitária
Pisadas de sapato no asfalto
Nó bem dado, semblante de te descontraio
Bem-aprumado, celular num saco
*
Tratantes insistentes
Sorrisos cheios de dentes
mas pouco conteúdo
Monólogo assistido, compulsão vazia
Julgamento doutrem, justo d’a quem falta
uma existência mais pia
*
Expulsa isso de mim
Roqueiros malcriados
Contatos desaforados
Textos não-mostrados
Nem com nervos de aço!
Anais dos amores passados,
ficaram para trás
hemorróidas voyeurísticas
Inocência embutida,
pressuposta
Fatura exposta dos meus
Ché, quês barras de códigos
lunáticos taxas que olvido cinismo além do barato
*
Conta-gotas de suor
Acréscimos de um tempo,
Preliminares da vida
Incertidumbre
Pascal me abisma!
Sebo e cravo nas canelas
o alarme toca
Ação toma conta
não enrol /e no anzol
*
Você só tem de fazer o que tem de fazer, tudo o mais é inútil.
Lamuriar é necessidade
Então o que é tudo o +?
