[ARQUIVO] PRELÚDIO A ECONOMIA E SOCIEDADE

 

Originalmente publicado em 4 de junho de 2011. Anotações-base para aulas ministradas no ensino médio àquele ano.

A. CONTINUAÇÃO DE ARON (em Weber)

3: política como vocação

5: o “quase-não-político, o “peixe pequeno” e o “peixe graúdo”

“Pecar para se salvar de um pecado ainda maior”

O compreensivismo. Intersubjetividade do fenômeno =/= causalismo

247: o “se…” histórico, tão pouco empírico

“poderíamos acrescentar que a tendência dos historiadores é para considerarem ao mesmo tempo que o passado foi fatal e que o futuro é indeterminado. Ora (…) O tempo não é heterogêneo.” “a construção do irreal é um meio necessário para compreendermos como na realidade se desenrolaram os acontecimentos.”

“Weber não faz o elogio do maquiavelismo, e uma ética da responsabilidade não será necessariamente maquiavélica no sentido habitual do termo.”

262: os hindus e seus livros sacros. O grande consolo das castas inferiores é a transmigração das almas. Indra, o Céu indiano; Walhalla; Nirvana.

“Hitler e o general De Gaulle foram e são, de acordo com a definição weberiana, chefes carismáticos, por muito que sob outros aspectos difiram um do outro.”

267: o sobressair da dominação carismática

TEM IDIOTA PRA TUDO: “Alguns tentaram até fazer de Weber um precursor de Hitler, quando ele se limitou estreitamente à análise sociológica e ideal-típica de uma forma de dominação que existiu em todos os tempos.” Ex: Lukács

13: jornalismo como vocação

25: a(s) ética(s)

30: Irmãos Karamázovi

B. ECONOMIA & SOCIEDADE

“Quem tem sede de vingança não se preocupa com o motivo subjetivo, mas apenas com o resultado objetivo, que domina seus sentimentos, da ação alheia que provocou sua necessidade de vingança. Sua cólera desencadeia-se indiferenciadamente sobre objetos mortos da natureza que lhe causam dano imprevisto, sobre animais que o ferem inesperadamente (…) e sobre pessoas que o ofendem sem querer, por negligência ou de propósito.”

“Actio de pauperie”—quando um animal teria todos os motivos para estar manso e algo endógeno o move a danificar o alheio, o dono não pode ser responsabilizado, mas nem mesmo o animal, que ignora o porquê de seus instintos.

“Noxae Datio”—parece mais o caso do ser que tem que pagar pelo erro do escravo, ou do pai pelo do filho pequeno.

“Uma doutrina científica do direito público foi desenvolvida no Ocidente, porque somente nele a associação assumiu totalmente o caráter de uma instituição com competências racionalmente articuladas e divisão de poderes.”

direito racional vs. irracional (mágico)

direito racional: formal vs. informal

margem ao idealismo, i.e., “a lei pela lei”, quando se olvida a origem e a razão não deixa de recair em magia e irracionalidade.

formalismo absoluto casuística. Há então o constante feedback sociedade-lei, debate ajustamento

O direito natural sofre mutações/distorções incríveis ao longo do tempo. Proibia-se que aquilo que mede a riqueza das nações e dos indivíduos fosse o papel-moeda, até há bem pouco tempo. Mas se isso significava ver uma nação findar-se e a espécie perecer, paradoxalmente não passaria de legalismo (legalismo divino!). Mas então esse porta-voz de Deus chamado human being se encarregava de fazer—em seu nome—os arranjos necessários. Qual o limite dessas reformas? Destruir o mundo, for life’s sake?

“O preço condenável como ‘antinatural’ era agora aquele que não se baseava na concorrência de mercado livre, i.e., imperturbada por monopólios ou outras intervenções humanas arbitrárias.”

“a axiomática do direito natural caiu hoje em profundo descrédito.” razões: a) ceticismo inerente à modernidade; b) crise da disciplina do meta-direito; c) avanço do racionalismo.

“a história da primeira década do século, especialmente das relações entre a Alemanha e a França, mostra o enorme efeito produzido por esse elemento irracional de todas as relações políticas externas.”

“um imperator, i.e., um príncipe guerreiro carismático”

Já havia claro contraste econômico entre Leste e Oeste alemães.

A Polônia e sua queda pelo vizinho oriental (a Rússia).

Imperialismos: a) continental: EUA, URSS, China, Roma, Cartago; b) ultramarino: Inglaterra, Holanda, Atenas.

“a forte tendência à expansão política não é, portanto, nenhum produto casual, e para o futuro previsível cabe prognosticar-lhe um desenvolvimento favorável.”

Para Weber, não interessa se seria um imperialismo capitalista ou socialista: estranho seria ele não haver onde é lucrativo e em que todas as pré-condições estão dadas. (expansionismo forçado)

Tempo em que se julgava que a massa pouco tinha a perder com guerras. Ou nada.

“Uma casuística sociológica, em face do conceito valorativo empiricamente multívoco da ‘idéia de nação’, teria que desenvolver todas as espécies de sentimentos de comunidade e solidariedade em suas condições de origem e suas conseqüências para a ação social dos participantes.”

“arte e literatura puras, tipicamente alemãs, não surgiram no centro político da Alemanha.”

“Lutas salariais acontecem na Antiguidade e na Idade Média, até a época Moderna, somente como tentativas isoladas, cuja freqüência aumenta num ritmo muito lento; ficam totalmente atrás não apenas das rebeliões de escravos, como também das lutas no mercado de bens.”

Uma diferença palatável entre CLASSE e ESTAMENTO: fora do ambiente profissional, sujeitos de classes antagônicas são iguais. Um professor que cumprimenta um aluno na rua ou no ônibus, de forma até acanhada ou, pelo contrário, desamarrada, contanto que não com um olhar inquisidor, é a evidência disso.

Esitilização weberiana:

CLASSE produção/aquisição de bens

ESTAMENTO consumo dos mesmos (os tabus)

{sempre um tipo de monopólio excludente}

“os judeus constituem o mais grandioso exemplo histórico deste fenômeno [os párias].”

“uma categoria profissional é um ‘estamento’”

“Épocas e países em que prevalece a importância da situação de classe são, em regra, focos de revoluções técnico-econômicas, enquanto todo retardamento dos processos de reconfiguração econômica conduz logo à formação de complexos ‘estamentais’ e restabelece a importância da ‘honra’ social.”

* * *

TIPOS DE DOMINAÇÃO

O sentimento de piedade no cerne da DOMINAÇÃO PATRIARCAL e a adoção/vínculo-de-enteado ser tão enquadrável nesta categoria como qualquer outra relação filial-sangüínea.

“Segundo o direito romano, ainda nos tempos históricos, podia ele declarar, em princípio, seu escravo o herdeiro (liber et heres esto) e vender seu filho como escravo.”

Dominação “patrimonial” é quando o lar se torna demasiado grande. Ainda não são nações que se constituem, mas já não são simples famílias. Isso em si já é arrocho do poder do chefe, porque ele perde capacidade de controle.

“O submetido cumpre seu dever militar como escudeiro, condutor de carro, armífero, bagageiro—como ocorre nos exércitos de cavaleiros da Idade Média e nos exércitos de hoplitas da Antiguidade, com suas armas pesadas—ou também como guerreiro particular do senhor.”

O Egito seria o exemplo clássico de patrimonialismo. Subsidiariamente, califados mil, incas e até a Companhia de Jesus no Paraguai.

Quanto maior é o império e mais ele se complexifica, mais se distancia do patrimonialismo: estatal-patrimonial.

Há o funcionário público patrimonial, que se distingue do burocrático por estar às ordens do senhor, basicamente, ao invés do regulamento. O Estado, neste ponto, não é burocrático porque o senhor administra tudo como se negócio privado fosse; ou, em termos mais exatos, ainda não consegue separar um papel do outro, não enxerga uma vida dicotômica entre a res publica e a biografia ou personalidade. (Lembrando que onde nasceu o termo “coisa pública” também isso não estava amadurecido e o Estado era uma grande esfera sem “autonomia” fatiada entre os patrícios que viviam, de qualquer modo, para a política e contavam sua riqueza em cabeças de gado.)

“Um clérigo solteiro era mais barato do que um funcionário a sustentar uma família.”

Egito: classe notória dos escribas. Trabalho compulsório e grande veneração do Faraó. Egito Ptolomaico: ~300 a 30 a.C.—decadência final e incorporação à então República Romana (época de Cleópatra).

Estado Chinês divergente deste exemplo mais puro. Confúcio vs. Burocracia—existência pautada na arte. Weber chega a comparar Confúcio a Lutero.

“nulle terre sans seigneur”

286: a fascinante instituição dos juízes de paz ingleses

“O feudalismo é um ‘caso-limite’ da estrutura patrimonial, no sentido da estereotipagem e fixação das relações entre os senhores e os vassalos.”

Vassalo = honrado, ao contrário do escravo? Na pirâmide social feudal, estaria acima dos artesãos? Existiram feudos em vários espaços-tempos, mas não de forma macroscópica como na Idade Média. Segundo Weber, o patrimonialismo pode coadunar com o feudalismo, mas como mera subespécie deste. Outras subespécies incluem: a) feudalismo litúrgico—dos cossacos; b) feudalismo “livre”—samurais; a européia, espartanos. Povos do feudalismo patrimonial—Roma arcaica e Egito Antigo.

feudo vs. prebenda: Os primeiros são hereditários, mas têm de ser devolvidos caso o senhor morra. As segundas são exclusivas do atual possuinte e não expiram (caráter vitalício). A prebenda tem mais o caráter de um presente: o agraciado não paga impostos/tributos. Ou seja: o vínculo suserano-vassalo era o diferencial. Provavelmente, o filho do antigo senhor feudal, amarrado pelas circunstâncias, tinha de devolver o feudo ao camponês que perdeu temporariamente seu terreno após a morte do dono—não sem um novo ritual juramentar. “Novidade”: havia um contrato, e o servo podia renunciar ao feudo quando quisesse.

Os samurais tinham prebendas; recebiam também em arroz.

Ainda não falou da parte que cabia à Igreja, do acordo. Nem que apenas a “licença divina”.

Nos primeiros tempos, davam-se armas e montaria; com a participação progressiva da Europa e o fim ou esmaecimento das Cruzadas, passou-se a adotar o “auto-equipamento” e o servo não mais era treinado militarmente.

A honra do cavaleiro podia ser tão grande que ele se convertia em senhor—mormente, no entanto, em sistemas feudais que (por esse e outros motivos) eram mais precários.

SUB-VASSALAGEM: “guerras particulares entre os vassalos” “De acordo com seu princípio estrutural, o patrimonialismo era o ambiente específico para o desenvolvimento do ‘favoritismo’: são característico deles os cargos de confiança junto do senhor”.

Educação nas raias do patrimonialismo (em flagrante contraste com os dogmas eclesiásticos): fomento à arte, ginástica… Ainda longe da atual segmentação do ensino, além do caráter cumulativo, presente no sistema de prebendas.

Tendências: a) patrimonialismo & capitalismo (na forma burocratizada e centralista); b) patrimonialismo vs. feudalismo, ou, mais precisamente: regionalismo e “endocracias” vs. poder universalizador do Capital.

Déjà vu: por que ele, ao apurar a gênese do capitalismo, não está antagonizando mas complementando Marx, que não teve tempo de fazê-lo, e refutações ao trevor-ropismo [ou quiçá “hopismo”, em alusão a tão clamorosas esperanças!].

“socialismo estatal faraônico”

O JOGO: “Uma perfeição especificamente artística, com livre ingenuidade, experimentou o jogo uma vez no curso da evolução histórica: na sociedade guerreira helênica feudal ou semifeudal, partindo de Esparta.”

“Do ponto de vista político, o alemão era e continua sendo, de fato, o ‘súdito’ específico no sentido mais íntimo da palavra, sendo por isso o luteranismo sua religião adequada.”

Hitler desponta como a última ressaca do Ancião Patriarca bávaro ou bárbaro.

* * *

CARISMA

327: Aquiles

328: os ataques epilépticos dos profetas

“é um poder antieconômico por excelência” “fora dos vínculos deste mundo” “o celibato efetivo de numerosos portadores de um carisma profético ou artístico—tudo isto é expressão do espírito ‘apartado deste mundo’ daqueles que tomam parte no carisma.” Balzac, Lady Gaga (?!), entre outros.

“O portador pode perder o carisma, sentir-se ‘abandonado de seu deus’, como Jesus na cruz, mostrar-se a seus sequazes como ‘privado de sua força’: neste caso, sua missão está extinta, e a esperança aguarda e procura um novo portador.”

O enfraquecimento da TRADIÇÃO é um indício pró-dominação tradicional. Me parece que a hegemonia carismática hodierna pode ser explicada como resíduos de uma época de transição e de protocristalização de novos templos… Religião da Humanidade… “No entanto, é o destino do carisma recuar com o desenvolvimento crescente de formações institucionais permanentes.” (decadÇencia do mundo mágico)

338: “encarnações de Buda”—do fracasso do Budismo na Índia

O carisma no escopo democrático: eleição em 2 turnos. Carisma intra-partidário. Professores na Alemanha sempre agiam em prol dos partidos burgueses.

350: Maomé não deixou descendentes

O puritanismo e seu pathos democrático homogeneizador e isonômico (assassino do carisma).

Circuncisão: vestibular-ritual para o despertar do carisma.

Carisma: importância explode positivamente no momento de guerras.

* * *

PARTIDOS

Razões por que um parlamento só com representantes de profissões (estamentos) ao invés de partidos, no senso clássico, seria uma péssima idéia. As famosas “bancadas”…

556: Gladstone, O Carismático. Teria derrubado o tory Disraeli através de manobras no sistema eleitoral (fim do XIX).

“hoje os parlamentares ingleses (…) nada mais são, em geral, do que um rebanho de votantes bem-disciplinado.”

“Pode-se muito bem chamar o atual estado das coisas de ‘ditadura’ baseado no aproveitamento da emotividade das massas”

“Os Estados Unidos já não podem ser governados exclusivamente por diletantes.”

Tentativas de Weber de vaticinar o futuro do parlamentarismo alemão: os social-democratas como obstáculo/incógnita. “os governos de coalizão continuarão sendo uma necessidade” “agitadores remunerados”

DEMAGOGOS: “tendência cesarista na seleção do líder.” Apontada por W. como inevitável desde Péricles (caráter personalista do “fazer político”).

Bismarck, anti-parlamentarista e pró-universalização do eleitorado

“não se precisa ser sapateiro para saber se aperta ou não o sapato que o sapateiro fez.”

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