Originalmente publicado em 27 de junho de 2012
Muito já se falou e ainda se fala a respeito do maniqueísmo. Muitos o consideram a única forma aceitável ou pelo menos a mais moral das maneiras de ensinar às crianças sobre conflitos interpessoais. Nos desenhos animados, versão do século XX para os contos de Charles Perrault ou dos Irmãos Grimm, a luta do Bem contra o Mal é encontrada sem disfarces ou maquiagem, em sua encarnação mais crua e plena. O Bem sempre vence o Mal. Uma parte da crítica se irrita com a invariabilidade desse roteiro e chega a fazer troça da ingenuidade da peça em questão. Pedagogicamente falando, como a função dos desenhos é em parte entreter e em parte moralizar, o objetivo é atingido com perfeição. Nuances como vilões que se redimem de seus erros passados ou de mocinhos que flertam com o “lado negro” da estória servem para temperar, apimentar, gerar expectativa, mas não transgridem as normas de forma decisiva.
Em defesa da sabedoria dessa tática (não em favor dela, num primeiro momento, mas tão-somente reconhecendo sua expertise), devo refutar aqueles que consideram esse modelo didático de expor conflitos e a complexidade humana como insípido, pueril e, em conseqüência, até mentiroso, o que desqualificaria os desenhos animados como fonte moral, uma vez que “quem mente não tem o direito de ensinar que não se deve mentir”. Todavia, sou obrigado a discordar. Nada mais “justo” ou, eu diria, realista do que uma estória maniqueísta saída do forno para o público jovem: como instâncias puramente relativas, o Bem e o Mal são definidos por aquele que conta, narra os fatos. Dado que o Bem sempre vence, é daí mesmo, por tabela, que ele é chamado Bem. O Mal não perde a disputa porque “é mal”, mas se torna o mal porque perdeu a disputa! Quando chega a era de sua exibição para o público, o desenho está produzido, está finalizado: quando o narrador começa a expor os acontecimentos, geralmente algum mal-entendido que vai gerando conseqüências cada vez mais graves, até o ponto de se tornar insustentável e exigir a interferência dos heróis, apesar de não o revelar, ele sabe como as coisas terminam. E foi depois de elas terem terminado que se batizou o lado vitorioso de Bem e o time perdedor de Mal. O vitorioso é o detentor da verdade e do discurso. Monopoliza a informação.
Se Shishio, da produção oriental Rurouni Kenshin, tem como lema “Só os fortes sobreviverão”, e em seguida é derrotado pela coalizão das forças de Himura – O Retalhador, Sanosuke Sagara e Saitou, isso não significa que sua afirmação estava errada, mas que simplesmente ele não era o mais forte, afinal. “Mas se muitos fracos se unirem, eles podem ganhar do forte; além de se utilizarem de sentimentos nobres nas horas críticas, como o amor”, redargüe-se. Procedendo ao estudo de caso da batalha entre o aspirante a ditador do Japão na era da Segunda Revolução Industrial Makoto Shishio contra os defensores do regime então em voga, verifica-se que Shishio possuía todos os atributos que poderiam defini-lo como mocinho, ou “do Bem”, desde que ele se sagrasse o vencedor do duelo mortal: tem um passado no qual foi vítima, “inocente”, de circunstâncias que o fizeram se fortalecer e buscar motivação; tem ele mesmo uma cara-metade, diante de quem sacrificaria todas as suas moedas (se ele acaba por fazer o contrário e utilizar sua amada como “escudo” entre ele e Himura, podemos alegar que o “amor pela causa” acaba por se mostrar maior que esse amor romântico – e como a própria mulher assentiu, ela também vivia pela meta de Shishio; na prática eles tinham pactuado, ambos compartilhavam da mesma meta, que transcendia a própria vida do casal); por fim, Shishio também tem seu séquito de seguidores, que ajudam a debilitar o elenco de heróis em combates prévios ao principal. Além disso, por mais que centenas se unissem para atacar Shishio, nenhum exército poderia derrotá-lo (como se vê em muitos desenhos animados, aliás): apenas Battousai, o alter ego de Kenshin Himura despertado quando ele está em seu limite de estafa física, detém a técnica especial que pode superar Makoto. E assim se sucede: os três guerreiros voltam para casa, Shishio morreu na explosão da própria base e seu plano de utilizar o petróleo para enriquecer sua nação foi por água (preta) abaixo… Mas se ele vencesse, não podemos afirmar que o mundo ganharia em brutalidade ou que de suas mãos não passaria a depender a felicidade de milhões de pessoas! Só que desde o início o narrador (o autor da estória, em última instância) já sabia a qual fim os envolvidos estavam destinados, então todos os personagens do lado do Bem apresentavam desde antes, dos primeiros capítulos, uma certa aura que justificaria suas futuras ações, fossem elas quais fossem. Os próprios bonzinhos, de vez em quando, sucumbem a dilemas éticos, nos quais têm de decidir “pelo menor de dois males”: nem todas as vidas podem ser salvas. Esse é o preço que o mundo paga pelo triunfo do Bem, que só pode se dar mediante a existência do Mal.
Apocalipse, dos X-Men, se comporta de forma parecida: considerando-se acima dos mutantes e dos humanos, como uma evolução dos primeiros (sendo os primeiros já uma nítida evolução dos segundos), arroga-se o direito de conquistar ou mesmo destruir todo o universo. Sua superioridade nos combates é mesmo extremamente óbvia. Mas se deixa de cumprir seus desígnios, invariavelmente, e devido a uma soma de coincidências e quase que milagres, é porque ele era o Mal, incapaz de vencer, já que a estória já estava escrita, e é contada pelo Bem. “Eu sou o poder!”, diz Apocalipse – O Imortal e Atemporal. Porém se depara com poderes montesquieusianos que conseguem freá-lo: no fim, é mais um fanfarrão que fala mais do que cumpre!
Hitler foi apenas um fraco com pretensões megalomaníacas, rezam os livros de História. Deus é o que é menos por ser o Bem do que por ser aquilo que não se pode bater, o dono dos discursos e criador das regras do jogo. Sendo assim, as crianças não estão sendo iludidas por um método pedagógico barato: já podem saber de antemão que apenas o mais forte sobrevive, porque ele é o Poder, ele é o Bem, autolegitimado.
