Um besouro branco de olhos azuis na imensidão do cosmo. Esta era a desbravadora dos multiversos, aeronave da poderosa senhorita Bulma Briefs, filha do Dr. Briefs, dono da Corporação Cápsula.
A velocidade não é contável como os terráqueos a contam, isto é, em kilômetros por hora. Mas do lado de dentro não se sente nada. Bulma desperta depois de dormir de mau jeito tentando ler um livro de capa dura rosa, reclamando do braço dormente e realmente indisposta. Traja peças íntimas cinzas, que mais pareceriam biquínis desbotados de férias de verão. Ela abre uma cerveja azul que estava derrubada perto do colchão inflável.
— Ai, que tédio! Já é o sétimo dia, e essa viagem parece não ter fim! E faltam ainda uns 20! Eu devia ter inventado um dormidor instantâneo e profundo que me pusesse de molho um mês!—e seu ponto final é um bocejo.
Ainda pensa: “Será que esses dois também estão dormindo? Ou seria algum tipo de treino? Porque estão sentados nesse chão duro!”, ao olhar Kuririn e Gohan, poucos metros à frente. De costas parecem verdadeiramente calmos, mas seus semblantes são agônicos e tensos. Kuririn e Gohan, Gohan e Kuririn, travam batalhas homéricas num “plano interestelar” longe ou não muito dali (?!). Professor Xavier ficaria com inveja destes dois prodígios!
Kieizan, multiplicação de corpos, Masenko, Kame Hame Ha… As técnicas são muitas e espantosas… Makankousapou!… Não, não consegui desviar, argh!… Ufa! Não era real… exclamou o careca Kuririn.
– Que experiência, Gohan! Você é muito forte! Não me admira ser o filho do lendário Goku e discípulo número 1 do Rei do Mal Piccolo Daimao!
– Que isso, Kuririn! Sua técnica também me impressionou muito!
– Escutem vocês dois, podem treinar mentalmente o quanto quiserem! Mas este lugar está uma bagunça! Não podiam recolher todo este lixo?! Lembrem que há uma senhorita com vocês, né!
– Mas…
Madame Briefs estava de pé, descalça, maltrapilha, e bêbada.
– mas… esse lixo é… seu!
– Eu tô muito ocupada! Sou a comandante de bordo! E vocês aí sentados, sem preocupações!!
– Ainda há pouco você disse que estava entediada!
– O quê?! Podem ouvir os outros enquanto treinam concentrados? Grr… Já não me importa; como pensei que um marmanjo e um garotinho poderiam entender os sentimentos complexos de uma garota fora de série como eu?
Sai desfilando com ar afetado. E se espreguiça, chutando inadvertidamente uma das latinhas vazias.
– Se ela fosse uma dama não se comportaria assim!
Alguns minutos depois, com o cômodo da nave mais limpo… Voltando-se de sua cadeira de pilota e comandante:
– Kuririn, queria te perguntar uma coisa… Por um acaso sabe pra onde foi aquele saiyajin sanguinário chamado Vegeta?
– O quê?! Como assim?
– Ele não podia voltar pro planeta dele já que foi destruído há muito tempo, certo?
– É verdade… e ele também estava gravemente ferido. Talvez tenha desembarcado em algum outro planeta civilizado pra poder se curar! Acha que ele pode conhecer tantos planetas?
– O irmão mais velho do Goku já tinha comentado sobre isso, lembra? Eles são piratas siderais, vivem para encontrar planetas com meio ambiente equilibrado, matam sua população e depois vendem para outros alienígenas malignos. São muito espertos! Ei… você não acha que ele está num hospital de gente má como ele?!
– É possível… Por via das dúvidas, tomara que esteja bem longe da nossa rota! Assim, vamos voltar pra Terra antes dele.
– Já dá pra ficar aliviada… por algumas semanas, pelo menos… Ei!… vocês viram? Que brilho foi aquele?
– É, eu também vi!
– Não é Namekuzei, é?!
– Seja o que for, tá indo rápido demais! Na verdade o sensor diz que vai bater na nossa nave a qualquer momento se não modificarmos a trajetória!
– Ué, Bulma, mas eu já não consigo ver nada!
O alerta vermelho da nave ligou.
– Isso só acontece quando estamos perto de objetos e em perigo de colisão! Meninos…
Houve um poderoso estrondo.
E de repente perceberam, pelo vidro super-reforçado da cabine, que uma nave gigantesca tinha encostado a deles.
— Eu não acredito!—Bulma se ergueu—É uma nave de modelo IGUAL ao nosso! Mas esta é a ÚNICA que a Corporação produziu!
Então, antes que pudessem raciocinar, algo aconteceu que engoliu os três tripulantes, e eles sumiram do espaço por nós conhecido.
Uma espécie de balão negro, negro não, da cor de fundo do universo, quase indistinto, a não ser por um certo verniz, que refletia a pálida luz de estrelas mega-distantes, era o novo envoltório dos nossos heróis.
– Onde estamos?
– Nós morremos?
– Não mudamos de lugar?
– Estamos intactos?!?
– Não acho que estejamos mais no espaço… Olha… não consigo enxergar nenhuma galáxia… O que vamos fazer, esperar ou sair da nave?
– Seria suicídio!
– Calma, podemos “medir” o ambiente exterior para termos segurança do que estamos fazendo…
– É verdade, Bulma?
– Sim, olha só… o computador inteligente diz que estamos num lugar com oxigênio! E que ele não deve ser muito grande, pois a circulação do ar é restrita… Eu acho que chegamos a uma atmosfera habitável, rapazes!!
– Oba!!!
– Desçamos já!
Como se não precisasse fazer cerimônia diante de novos povos e civilizações, e como se não fossem os primeiros terráqueos pisando em outros “países” por aí, Bulma sai com sua roupa indecorosa e sem ao menos calçar uns sapatos ou pantufas. Os outros estão mais dignos, mas não vestem nenhum traje de pompa, como a ocasião pediria.
Kuririn, sentindo-se o responsável pelo grupo, coloca o boné do Mestre Kame na cabeça, pede que o sigam e é o primeiro a se adiantar até o elevador. Mas está a matutar consigo: “Droga! Eu devia ter ficado na Terra com o Yajirobe!”
Quando já estavam fora:
– Oh, não, esqueci completamente de botar uma roupa!
– Ué, mas você está vestida, Bulma!
– Ahhh, claro que tô, eu tava falando duma calça, ou sei lá! Bom, não faz mal.
– Eu espero que você não envergonhe os terráqueos!
– Vai logo, Kuririn!
– Não me empurre, Gohan!
O trio segue por este salão escuro, tão escuro que não dá para ver as paredes… Mas se não venta, e se é possível respirar… intui-se que seja um salão, ora! Até que o caminho se estreita e se transforma num corredor. Kuririn sente a falta de um apoio, já que a vista não ajuda, e se escora na parede.
– Mas o que é isso? Eu segurei num cano! Olha a textura disso…
– Seria “sente” a textura disso, correto?
– Gohan, isso não é hora pa…
O cano se retorce fazendo um barulho medonho de engrenagem, e parece mirar o crânio de Kuririn. Buracos são abertos nas paredes e outros canos se revelam, apontando sempre para os três.
– São metralhadoras! Corram!
E sebo nas canelas dos astronautas intrépidos sem macacões espaciais…
Pelo menos a gravidade é igual a da Terra!
– Quantos metros mais? Ufa, passou!
Ainda no corredor, mas sem perigo ou ameaça aparente, os três descansam, esbaforidos.
– Gohan, tome cuidado, este lugar é um mistério!
– Ué, Kuririn, foi você que apertou o cano!
– Hm…
– Escutem! Acho que vocês estão muito relapsos! E se eu levasse um tiro? Vocês têm a obrigação de me proteger mais de perto!
Um baque se faz ouvir por detrás deles.
– E essa agora? Uma armadilha! Deitaram outro muro por trás de nós e transformaram esse maldito fim de corredor num alçapão pra nós!
– Bulma, não se esqueça que nenhuma parede pode nos deter… Preparem-se para um Kame Hame Ha com toda a força e…
– Espera, Kuririn, não destrói essa parede! Olha essa gosma verde invadindo as quinas…
– Essa não, Gohan, Bulma, recuem! Pode ser um…
Ele mesmo dá dois passos desajeitados para trás, seu boné despenca da cabeça e evapora ao tocar no líquido espesso e borbulhante.
– Vamos virar sopinha se não sairmos daqui!
– Socorro, socorro, o ácido vai se espalhar por todo o ch…
Bulma dá um salto e um grito, mas seus pés não mergulham no verde assassino, uma vez que Gohan, que sabe levitar, estava lá para sustentar a dama pelos braços. Kuririn também domina a técnica do vôo e não tem problemas para evitar o pior.
– Agora eu vejo que não tem outro jeito senão explodir essa parede! Rezem para não espirrar qualquer coisa na gente!
Foi muito fácil fazer desmoronar uma parte do “beco sem-saída” com uma simples magia azul saída das mãos.
O longo corredor continuava, às vezes se curvando para um dos dois lados. Só conseguiam ouvir o eco dos próprios passos.
– Tudo indica que estamos numa fortaleza militar, e que a raça que procuramos pode não querer nenhum contato, a não ser com mortos!
– Bulma, você acha que pode ser uma nave espacial de saiyajin em que a gente entrou?—indaga sem pensar nas palavras o Gohan.
– E se o Vegeta vier nos receber, hein?
– Não diga isso, Kuririn. Já estou com calafrios!
E ela parou.
– Ah, vamos, Bulma! No fim podemos estar especulando… E ele morreu agonizando naquela navinha dele pouco depois de ter conseguido fugir da Terra! Há esperanças!
* * *
“Maldito Kakaroto, você me paga!”
é um pensamento sussurrado nalgum canto obscuro da galáxia…
* * *
– Eu não sei quanto a vocês, mas eu estou com a sensação de andar em círculos!
– É, já estou cansada… não tem saída!
– Ei…!
Kuririn tateia pelo teto, até encontrar um… cano?!
– Calma, pessoal, aquilo não vai acontecer de novo! Eu acho que é uma maçaneta… Vamos forçar, venham!
– Não consigo!—arremete Gohan. Nem os dois juntos com toda sua força conseguem mover o que parece ser uma portinhola de emergência, quem sabe para um duto de ventilação.
– Estou ouvindo algo… Vocês dois, venham! A parede de um dos lados se abriu!
– Quem sabe isso não fosse um botão?!
– Estranhos esses aliens…
– Vamos, então! É mais um corredor. Onde vocês acham que vai d…
O chão era retrátil, e é recolhido para fazer nossos três heróis perderem a fala. Na verdade eles gritam desesperados, pois estão em queda livre.
– Eu vejo estrelas!
– Onde?!
– Lá embaixo!
– Essa não, estão nos expulsando deste lugar e nos ejetando rumo ao nada lá fora!
Para Gohan e Kuririn, nada é irreversível. Eles soltam raios amarelos pelas mãos que vão até o exterior e, como um efeito de empuxo, são tragados de volta para cima. Um dos dois segura Bulma por uma das pernas, ou ela estaria perdida.
– Sabem, essa coisa toda tá me deixando com fome!
– Por que você vem me falar em comida numa hora d…
– Percebeu?!
– É, está cheirando a frango frito, hm, que delícia!
– Onde ainda podemos chegar nesse labirinto sem nexo?! Num restaurante? Acho que estamos ficando doidos…
Mas o corredor elíptico tinha mesmo um final, que dava para uma saleta com iluminação, afrodisíaca, cor cereja. Havia uma mesa com iguarias situadas em cima de uma refinada toalha.
– Parece que está quente! E olha só quantos talhares…
– Pode ser uma armadilha!
Mas Gohan não deu ouvidos a Bulma e já foi se sentando. Quando ele segurou uma faca, ela se impeliu sozinha contra o que estava na frente, mas por sorte não pegou em ninguém. Fincou na parede.
E logo depois perceberam que era uma operação meticulosamente preparada, porque ela, a faca, acionou um botão, que tocou uma sirene, e que finalmente chamou a atenção dos anfitriões de forma mais direta…
– Essa pilastra vai cair em cima de mim! – foi o que Bulma pensou.
Os dois garotos ficaram do outro lado, sem saber o que se passou. Mas Bulma não fôra esmagada. Era na verdade a capa dum domo que a envolveu completamente.
– Consegue nos ouvir? BULMA!
– Me ajudem!
– Bulma, por que é que você sempre nos dá problemas? Vamos abrir também essa coisa com um dos nossos K…
– Espera…! Não exploda nada, eu estou presa perto da parede, e estão me segurando!
– Quem está?!
– ELES!
Abriu-se o domo, porque o disfarce não era mais necessário. Bulma ficou de refém, e o que se via não eram criaturas de outro mundo, pelo menos não na aparência. Não eram mais estranhos, por exemplo, que Gohan em sua roupa de menino mimado, não podiam nem fazer figura ao temível Sr. Piccolo.
Dois garotos antropomorfos apontavam canos grossos para a cara da senhorita Bulma.
– Não se mexa, intrusa!
Eis que incontáveis outros domos se erguem, como se fossem estruturas infláveis, e deles saem muitos outros “pivetes espaciais”, crianças com óculos parecidos com os de nadadores profissionais e roupas de soldados. Incrível como ninguém ali parecia ter mais de um metro e meio.
Kuririn e Gohan vêem-se completamente cercados.
– Não atirem, não somos seus inimigos! Não existe um adulto com quem possamos falar e resolver esse mal-entendido?!
Um dos pivetes, o menos pivete de todos, o líder, se aproximou, com sua pistola em riste e o inconfundível visor. Trajava calças púrpura que pareciam mais largas que seu tamanho e cuja bainha ficava enfiada nas botas surradas. Seu camisolão era cor creme e nas extremidades viam-se luvas verdes, igualmente gastas. Parecia um uniforme desajeitadamente improvisado por uma mente malsã.
– Por favor, escutem! Nós viemos de um planeta chamado Terra—ensaiou Gohan, mas foi interrompido rápido demais:
– ZUM!
Não por uma interjeição, como “cala a boca!”, mas por um tiro de plasma da pistola. Uma criança quase de colo, ruiva, chorou.
O tiro foi propositalmente no chão, só para assustar. Mas o “susto” era igual um buraco profundo no assoalho da nave espacial. Se Gohan esticasse as pernas meteria o pé dentro da concavidade quente que a arma abriu; saía fumaça da depressão.
– Não queremos escutar o que dizem, invasores!—Apesar do tratamento ríspido, eram os corsários que tremiam, e não os garotos capturados.
Kuririn quis argumentar, mas o líder disparou uma rajada de três tiros com sua arma do futuro; só não contava que Kuririn pudesse desviar tão facilmente, mesmo que tivessem ido à queima-roupa na altura do tronco!
– Ei, rapazes! Era Bulma. Eles estão falando a verdade! Falam demais, são meio bobos, mas eles estão dizendo a verdade!—um dos capangas que a alvejava de perto espremeu ainda mais a pistola à garganta da dondoquinha. Meninos, façam alguma coisa, mostrem a eles!!!
Kuririn decidiu explodir seu ki. Fechou os olhos, concentrou-se, berrou alto e chamou a si a espiritualidade do universo, viu que os soldados hesitavam e pareciam querer recuar, sair correndo, como se não estivessem todos armados, como se não fossem uma perversa maioria. Mas antes de completar sua tarefa, Kuririn olhou bem para o chão, onde estava, diante de si, a poucos centímetros, a menininha ruiva que havia esperneado agora há pouco. Ela abraçava um ursinho. Olhou pra cima intrigada (não batia nem na cintura de Kuririn) e deu-lhe um chute na canela. Kuririn não só perdeu toda a concentração de guerreiro como sentiu uma dor imensa, e não pôde disfarçar. Saiu pulando num pé só, agarrando a perna machucada, para, talvez noutra ocasião menos grave, risos de todos, que preferiram não rir da boca pra fora dessa vez.
– Ei, fedelha, volta aqui!
– Não se mexa—esbravejou o líder. Se você se mexer eu atiro. E não importa que tente desviar, quando uma bala pegar em você…
– Grrr….
Entrou um novo soldado na roda, quase da altura do líder, e aparentemente mais corajoso e estourado que seus colegas: — A gente tem que acabar logo com eles, eles são servos do Freeza, eu tenho certeza! O elemento impetuoso tinha uma cicatriz de um dos lados da face, provocada por um desses monstros de quem falava. Ele não usava os óculos de nadador e tinha a íris clara. Talvez isso o dotasse de mais humanidade que o resto, nesta cena onírica e bizarra.
– Está certo! Não tenho outra escolha… a não ser matá-los.
Mas o líder se sentia sob pressão e suava frio. Nunca matara ninguém antes. Era um imperativo de seu povo, senão…
Kuririn sentiu que não podia mais adiar. Ele sabia que ia machucar gente inocente, mas a situação pedia que…
Um grave tremor.
E o foco das atenções se dissipou.
A luz vermelha do sistema de segurança da nave começou a bombardear as vistas dos presentes, intermitentemente.
– Zash, temos problemas! É uma chuva de meteoritos!
– Que droga, agora não! O líder virou as costas para o grupo refém e saiu correndo para a sala de máquinas.
– Vigiem os invasores! Se tentarem qualquer coisa, eliminem-nos. Este era o rapaz corajoso que apareceu por último, que também gostava de dar ordens, e devia ser o segundo na linha de comando. E a ruiva começou a chorar novamente.
Os meteoros começaram a causar estragos na fuselagem.
– Que estão esperando?! Venham me tirar daqui depressa!
Bulma se aproveita que não havia mais vigilantes a oprimindo, embora ainda estivesse amarrada.
Kuririn e Gohan voaram num átimo para ajudar a sua amiga. E antes que as crianças maltreinadas pudessem perceber, já não havia intruso algum sob seus olhares ou sob seu domínio.
Os três corriam até a sala de máquinas, único lugar onde poderiam fazer alguma coisa para salvar as próprias peles; e, indiretamente, mesmo que não desejassem (mas seus corações puros sempre o desejavam!), as de todos a bordo.
Eis que, antes de acessarem o corredor, o teto do amplo salão começou a ceder. Os dois garotos seguraram a estrutura e algumas crianças menores, agachadas e com as mãos na cabeça, puderam agradecer os irônicos salvadores.
– Vocês estão bem?!
Um garoto tremia muito, mas conseguiu acenar com a cabeça.
– Ótimo!
Zash observou a cena, no plano de fundo.
– Eles são muito fortes!—também estava atento a tudo, o tal corajoso de há pouco.
Zash retirou seus óculos que o estavam incomodando e revelaram-se seus olhos verdes. A verdade é que todos os tripulantes dessa esquisita, espelhada e infantil nave tinham olhos verdes, como se fizessem parte de um único e mesmo povo, uma única e mesma raça, mas não como na Terra, onde ninguém poderia deduzir um parentesco remoto entre o Sr. Popo e Tenshinhan, por exemplo. Pareciam solidários na desgraça, e mal sabiam que estavam prestes a descobrir uma verdade esperançosa.
Em outro ponto, começou a pegar fogo. Kuririn, sempre mais solícito quando é a voz de uma mulher que clama, correu para ajudar. Zash foi junto.
Bulma pensava consigo que poderiam muito bem ser menos amáveis com quem ia matá-los não fosse um fenômeno da natureza e…
Um meteoro pegou em cheio no veículo, e a moça do cabelo azul acabou sendo arrematada ao chão.
– Ahhhh, idiotas! Quem tá pilotando essa nave, afinal!?!?
E seguiu seu caminho para a sala das máquinas. E quando viu que quem comandava o painel não sabia o que estava fazendo, retirou a pessoa à força e começou a operar ela mesma.
– O que está fazendo? Esta mulher é louca! Vai nos matar!
– Deixa que eu piloto!
– Não podemos confiar em você, disse alguém, e já apontou a escopeta a vácuo para sua cabeça novamente.
– A gente não precisa da tua ajuda, mulher!—gritou o corajoso.
– Eu não estou fazendo isso por vocês, dá licença! Hmmm… vamos ver… Como funciona? Como eles simbolizam o manche… Hm… Ei, cadê o velocímetro?!
Os soldadinhos infantis arregalavam os olhos, inteiramente dominados pela presença impositiva da dama enxerida.
– Vai logo, me fala onde tá, você quer morrer, é??
E o rapazinho que estava com a arma apontada a deixou cair no solo. Não lhe restava alternativa senão obedecer cegamente à nova e inusitada ama.
– São os botões à esquerda!
Como num videogame em que treinou toda a vida, Bulma conseguia desviar a nave de todos os meteoritos que representavam ameaças ao motor com enorme naturalidade.
Enquanto isso, na contenção do incêndio, Gohan mostrava seus dotes sobrenaturais, apagando as chamas com seus feixes de luz azul: como é que essas coisas saíam do corpo dele e obedeciam suas ordens?, pensavam as quase-vítimas de uma tragédia cósmica.
– Nem as mangueiras tinham surtido qualquer efeito!
– Ó!
Zash continuava observando, sem tomar a palavra.
A tempestade lá fora passou.
Bulma finalmente relaxou. Mas…
Quando os anfitriões recobraram o ânimo e a razão, pior para as visitas. Kuririn, Gohan e Bulma foram de novo levados ao salão para continuarem o julgamento interrompido.
– Não estão vendo que viemos em missão de paz?!
– Isso não importa! Conhecemos seus estratagemas! E sei que seus amigos ocasionaram a destruição do nosso planeta!—Era o discurso do corajoso.
– Que amigos?
– Não se faça de boba!
– Admitam logo que são servos de Freeza! Não salvarão suas vidas com mentiras!
– Freeza?!
– Ele é o único que viaja assim pelo universo… Ele e suas tropas! Sem temer a ninguém…
– É! E a prova disso é quando vimos os dois bárbaros utilizando todo o seu poder…
– Gohan, ele nos chamou de bárbaros!!
– Bem, eu até concordo com vocês que estes dois aí são bárbaros, mas eu sou uma seguidora fiel do amor e da justiça e, como vocês viram, meu jeito de lidar com as coisas é fugir da violência, e desviar de asteróides!—gostaram do meu controle?! Acho que me devem um agradecimento!
– Gente, vamos calar a boca desses astutos do espaço… Eles são bons de lábia, não podemos deixar que nos comovam!
– AUTO!
– Zash?!
– Pessoal, podem abaixar as armas—ele abriu um sorriso até então inédito na estória.
– Zash, o que significa isso?
– Não tem nenhum problema! Eles não são quem pensam que são!
– Qual é o seu problema, capitão? Foram os amigos desses caras que mataram nossos pais! E agora… não temos um lar!
– Se fossem servos do Freeza já estaríamos mortos há muito tempo… Teriam nos apunhalado pelas costas e gargalhado de nossa inocência…
– É verdade! Os servos de Freeza apareceram do nada e mataram nossos pais, sem nem dizer um <ai!>. Foi a menininha ruiva que o disse, sua forma de agradecer pelo jeito como Gohan a salvou uma ou duas ou três vezes naquele tumulto todo poucos minutos atrás.
O corajoso subitamente se emocionou lembrando as últimas palavras de seu pai, e como aquele comportamento estrangeiro não condizia com a imagem que tinham dos detestáveis homens de Freeza, seus piores inimigos.
“O olhar por detrás do rastreador… era horrível.”
Por isso o corajoso nunca usava aqueles óculos. Porque lhe lembravam dos rastreadores verde e azul escuros dos homens de Freeza.
– Garoto! Respeite os seus pais! Disse o corajoso a Gohan, e o desamarrou.
Gohan ficou sem entender, mas o corajoso não iria explicar, pois logo se retirou.
– Obrigado por confiar em nós!, falou Bulma.
– Esses caras de que você falou… me parece que só podem ser os saiyajins! Esses monstros… tinham cauda?!
– Cauda? Não! Eles não tinham cauda nenhuma…
– Entendo… Então eram outros alienígenas…
– Quer dizer então que tem gente pior neste grande universo?
– E o que aconteceu com seu planeta, por favor, nos diga! Gohan era um menino curioso. Inconveniente? Curioso!
Zash contou como “eles” usavam mini-naves, que pareciam azeitonas incapazes de alojar pessoas. Cada soldado de Freeza vinha numa dessas, e podia causar o apocalipse num país inteiro!
Em poucos dias o mundo virou escombros. Disseram aos pobres meninos, agora órfãos, que o planeta virara colônia do Grande Imperador do Universo Freeza, e que todos deviam se sentir agradecidos, pois passavam a fazer parte do sistema de planetas da Civilização que estava sendo erguida; a primeira do cosmo.
Mas os moleques conseguiram fugir, e a sorte deste povo era ser tecnológico o suficiente para propiciar viagens no espaço com facilidade. Com muito mais facilidade que dentre os terráqueos, tanto que eles têm um suprimento de combustível virtualmente ilimitado, para a curta extensão de suas vidas, ainda que envelheçam sem cruzar com as tropas de Freeza de novo, o que certamente os fadaria à morte precoce.
– E são só vocês, do planeta inteiro?
– Não. Foram mais de 200 mil naves espaciais com todas as crianças, que os servos de Freeza não quiseram matar porque seríamos seus escravos. Eis que quando descobriram nossa fuga em massa, partiram numa perseguição e extermínio sumário. Fomos a única tripulação que temos notícia de ter se salvado, graças a nosso sistema espelhado protetor!
– Uma nave com espelho? Do lado de fora?… Já sei como viemos parar aqui—eram as brilhantes deduções de Bulma Briefs. Este enorme espelho impecável reflete todo o universo para o observador externo, e não há instrumento que a detecte! Logo, pensamos que colidimos com uma nave espacial igual a nós próprios, e fomos engolidos pela nossa própria imagem…
– É incrível!
– Sim, sua teoria está correta! Foi isso mesmo que aconteceu! Se fossem inimigos, pretendíamos fazer com que pagassem com suas vidas aqui dentro… ou expulsando-os para o vácuo, como tentamos!
– É fascinante!
– Ei, e para onde estão indo agora?!
– Bom, estamos caçando um novo planeta, com uma atmosfera agradável semelhante ao nosso. Nossos computadores dizem que após meses de viagem não estamos tão longe! Alguns de nossos pais já tinham visitado esse planeta… Estou certo de que seremos bem tratados quando chegarmos!
Depois de confraternizarem, comerem e contarem mais histórias, ambos os povos oprimidos, ou diríamos o povo oprimidos e os três intrépidos terráqueos em busca de vingança contra os saiyajins, se despediram desejando boa sorte, cada um em seu intuito, embora aquela gente de olhos verdes não tenha entendido nada desse papo de esferas que pudessem realizar qualquer desejo e fosse inútil que Kuririn explicasse tintim por tintim as desventuras de sua infância ao lado de um estranho garoto com cauda que virava gorila e na verdade não era humano…
– Precisamos ir logo, tem muita coisa pra fazer e arrumar nessa nave! E eu nem sei por onde começar a procurar Namekuzei!
– Não seja estraga-prazeres, Bulma! Namekuzei nunca vai sair do lugar!
– O quê?! Namekuzei? Não me digam que estão indo pra lá!
– Estamos sim!
– Ei, nós passamos por lá há umas duas semanas…
– Vou lhes dar uma dica: se forem na direção dos pontos K5162 poderão cortar caminho!
– Tá falando sério? São essas as coordenadas? K5162?
– Sim, são essas, mas…
Bulma agradeceu e foi empurrando atabalhoadamente os garotos. A nave deles já estava a postos para a continuação da viagem. O alçapão-elevador se fechou detrás dos três.
– Esperem… Eu ainda não disse que…
– OBRIGADA! A TERRA AGRADECE, POVO DOS OLHOS CLAROS!
– …Freeza pretendia passar nesta terra com seus homens e espalhar a aridez e a destruição entre os Nameks! E não esqueçam que o atalho oferece peri…
Tarde demais, os gases já haviam iniciado a explosão, e a nave foi propelida a muitos anos-luz mais da saudosa Terra… e de qualquer outro planeta habitável para as bandas de cá.
