[ARQUIVO] O ORFANATO

As duas crianças cutucam Gohan—outra criança ainda menor—com um galho, hesitantes. Temem um não sei quê do corpo inconsciente, estirado de bruços na areia.

– Será que ele tá morto, mano?

– É claro que sim, tá vendo que ele não se mexe, mana?

Mas antes que o cadáver pudesse ser alvo de mais exames interessantes por parte da dupla, um objeto brilhante chama ainda mais a atenção dos investigadores-mirins: é uma espada de bom fio, deposta ao lado do caído.

– Uau! Que maravilha! Eu sou um pirata, iá!

– Cuidado, você pode se cortar!—respondeu Gohan, tão de repente de pé, ao reparar no estranho balançando sofregamente sua espada pesada. As ondas batem nos calcanhares de Gohan. Ele ainda veste as mesmas botas.

– Um fantasma!

– Essa espada é minha…—mas Gohan, fraco, desfalece novamente.

O garoto solta a espada, de susto…

– Fantasmas podem morrer?—era a dúvida de sua irmã de 6 anos.

* * *

Quando Gohan voltou a acordar estava debaixo de um teto. Uma casa. Embora o lugar fosse velho e as paredes e o forro estivessem todos descascados.

– Ai minha cabeça!

Os dois estão de pé bem perto da cama improvisada, e parecem empolgados.

– Este é o Rum, Garrafa de Rum, meu irmão mais velho, e eu sou a Cris! Qual é o seu nome?

– Eu me chamo Gohan. Onde estou?

– Esse é um dos nossos esconderijos secretos, gostou?

– De onde você veio?

– Eu não sei! Acho que tentei atravessar o mar e de repente…

Gohan não pôde terminar a frase (e acho que não terminaria…) porque Rum, hiperativo, já havia saltado para o canto, onde se pôs a batucar sem ritmo e sem jeito no que sobrou de um antigo órgão aristocrata.

– Você quer ser nosso amigo? Aqui é a República das Crianças! Aqui não tem adultos mas todos que agüentam ficar sem chorar são bem-vindos!

Rum dá um peteleco na orelha direita de Cris, que faz meia-volta furiosa e começa a puxar o mano pelos cabelos, e depois o morde no cotovelo.

– Quem aqui é chorona?! Isso era antes!

– Ué, mas eu não disse nada!

Os três riram.

* * *

O primeiro lema dos órfãos é: os órfãos se ajudam uns aos outros! Que tal, CORRAM?

– Ã… é Gohan! GO! É que, bem, eu, ã, eu tenho uma… ã, uma…

– HAHA, GO-AN—Gohan! Você é gaguinho?

– Me desculpa! É que faz muito tempo que não falo com ninguém, a última pessoa com quem falei nem era assim uma pessoa, sabe?

– Não, não sei, garoto esquisito!

– Gohan, chega de papo besta, você não quer conhecer os outros?

– Os outros? Tem mais gente?

– Mas é claro que tem!

* * *

Não muito longe dali…

Um furgão com três pessoas uniformizadas de semblante fechado percorre a estrada esburacada…

* * *

E de volta:

– Sabe, Gohan… Há dois anos teve uma tsunami na vila, e você não vai acreditar! Quase nenhuma casa ficou de pé! E os adultos, nossos pais e os pais de todos, fizeram de tudo pra nos proteger. No final, os que não morreram afogados acabaram doentes e depois morreram! Uns amigos da gente também morreram! Foi muito triste!

– É sério? Quem é o mais velho de vo…

A sala estava lotada. Era uma assembléia de boas-vindas. Mas um apito, silvo realmente irritante, do lado de fora interrompeu a conversa. Quem ficou de sentinela na copa da árvore notou a aproximação do furgão.

– SÃO AQUELES CARAS DE NOVO!

– Ô, QUE SACO!

– GOHAN, CORRE, SE ESCONDE!

– Quem?

– VEM LOGO, VEM LOGO!

– Todo dia eles vêm, esses caras não desistem! Pessoal, pro plano!

O robusto motor parou de roncar com um breque. Barulho de portas se abrindo e se fechando rapidamente.

– É, esses moleques e suas emboscadas…

– Vamos! Hoje eles vão ter uma surpresa maior que a nossa!

Dois eram homens parrudos. Mas a motorista, uma mulher.

– Rápido, CORRAM, eles vão te pegar! Sobe, sobe, sobe!

Eram terríveis lances de escada, às escuras.

– Esse é o terraço! Olha ali, na ponta! Tem um bambu! A gente usa pra pular praquela casa da árvore! E ninguém alcança a gente aqui! Gohan, peraí, eu levo a Cris que não sabe pular, depois eu volto e te levo!

– Espere, garoto!

Antes de Rum voltar, os funcionários da van tinham adivinhado que se ocultavam no terraço e encurralaram Gohan. “Fim da linha, pivete! Ou se esborracha ou vem com a gente!” Um dos homens tirou um porrete de dentro das calças beges imundas.

Gohan deu os três passos pra trás que o parapeito ainda permitia.

– Não se mexe! Ninguém vai machucar você! A menos que peça!

Do outro lado as crianças gritavam: “E agora? Se o Gohan não tem o bambu, ele não…” Mas Gohan fechou os olhos, e quando um dos gorilas ia abraçá-lo…

ZOOOOMP!

Ele pulou feito o Homem na Lua. Todas as testemunhas se confundiram, relatando, depois, a história para quem não tinha visto: disseram que ele, o recém-chegado, o novato, um dos mais novos, não tinha nada de bobo, tanto é que VOAVA!

Os trabalhadores do orfanato da cidade vizinha se recusavam a acreditar no milagre.

– Mas o que eles querem? Tinha gritado Gohan, depois de chegar sem ajuda de uma vara de bambu à casa d’árvore.

– Eles vão levar a gente pra prisão!

– Vão comer a gente vivo!

– A mulher que tá com eles é bruxa!

– É sim! Um garoto que conseguiu fugir da prisão disse que não davam comida nenhuma e levavam surra!

– É verdade! Eles te levam pra tomar banho e até cortam suas unhas!

– Urg…!

Mas quando as crianças viram, os dois brucutus e a outra capanga já tinham se dispersado pelo acampamento juvenil. Um deles apareceu puxando uma linda moça pelo braço, de dentro de outra casa, metade desabada.

– Me solta agora, seu velho tarado!

Um vulto velocíssimo retirou a indefesa donzela do maciço pulso do gorilão de uniforme. De cara suja e uma faixa amarrada na testa, à moda de um revolucionário, o vulto se revelou como um outro menino, mas um pouco maior que todos os demais, aparentando uns 14 anos. A menina resgatada, de uns 11 anos, com cara de miss acampamento aliviada, se ocultou detrás do corpo do atlético adolescente, exceto que esticou o pescoço e mostrou a língua para o feroz ex-captor.

– É o Fígaro!, vários dos meninos na casa d’árvore exclamaram.

– Ela não quer ir com vocês, seus ratos! Rosnou ameaçadora a grossa voz do garoto delinqüente. Agora seria Fígaro contra o gorilão mais próximo. Ele avança com um cassetete, mas Fígaro não quer saber de machucar ninguém com as próprias mãos: só ginga com o corpo e faz o grandalhão tropeçar vexatoriamente e comer terra.

Os outros funcionários sabem que podem menos ainda com o rebelde mais velho e já ensaiam um recuo. Só para decretar o lado vencedor, os meninos abrigados no alto saúdam os do furgão com várias pedras. A mulher ao volante, contrariada, tenta argumentar, mas as crianças fazem um escarcéu e ela mal é ouvida por si mesma. Resolve chamar seus homens para o veículo e arrancar cantando pneu.

– Esses pirralhos acham que podem viver soltos assim pra sempre! Grrr…

Ponto para a República!

– Já podem descer! Hm… Você é novo aqui? Fígaro encara Gohan, mas seu olhar não é bem de censura, e sim complacência.

– É, encontramos o CORRAM na beira do mar depois da tempestade!—isto foi Rum quem disse.

– Não, o meu nome é Gohan! Muito prazer.

– Sabe, ele ainda é muito pequeno, vamos ter que cuidar dele e dar de comer também!—veio, oportunista e empurrona, a Cris.

– Rá, olha só quem fala! Você também é bem pequena, não é? Atalhou Fígaro. Risos gerais.—Bem, Gohan, a única regra é: um órfão é bonzinho com outro órfão!

Ambos, Gohan e Fígaro, apertaram as mãos.

* * *

O dia correu na maior tranqüilidade e despreocupação, típica da idade, e sem supervisão neste República livre, com todos os tipos de brincadeira, de adivinhação a combate policial, amarelinha a pega-pega. Gohan nem se lembra da última vez que riu tanto assim!

* * *

No dia seguinte, Gohan foi com seus novos amigos passear no restante da ilha, ou continente, o que quer que fosse essa terra, e descobriu que aquela não era a única cidade! Havia, a vários quilômetros das casas semi-destruídas, mais longe da costa, centros muito mais desenvolvidos—uma grande feira ao ar livre só com adultos trabalhando, por exemplo!

Já estava tudo esquematizado. Gohan parecia um filhinho-da-mamãe todo fofinho e arrumado, então ele é que devia dar início ao golpe: salivante diante da tenda onde anunciavam com vigor maçãs frescas e brilhantes, ele desmaiou convincentemente, fazendo uma roda de almas preocupadas se fechar em torno dele num instante. Virou o foco de atenção da feira.

Enquanto isso, enquanto prestavam socorro ao pobre Gohan, outros meninos esvaziavam os estoques de tudo que podiam, abastecendo seus sacolões de comida. Assim a República prospera!

Quando descobriram a armação, já era tarde demais. Uma negociante corpulenta ainda partiu pra cima do bando dizendo “Ô, mas que malandros sem-vergonha!”, mas cansou rápido, pois não estava habituada a exercícios. Os mais adiantados iam com toda a bagagem conquistada no saque-de-mestre, em bicicletas enferrujadas. Gohan, que longe de ser bobo se ergueu do chão assim que se vira ignorado pelos adultos em meio ao tumulto, corria quase tão depressa quanto as rodinhas das magrelas.

– Não foi divertido, CORRAM? Podemos viver sem os nossos pais!

– É, gostei muito!

Depois disso, inconscientemente, o sorriso de Gohan sumiu do rosto e ele ficou cabisbaixo.

– Mas o que foi?—perguntou a bonitinha do bando, salva por Fígaro no dia anterior, que era sensível para essas coisas.

– Ah, não foi nada, he-he!

* * *

De novo o sossego litorâneo, só se ouvindo o bater das ondas nas encostas pedregosas, o grasnido das gaivotas e o barulho do estômago trabalhando lento, depois da rica refeição. Aquela hora no fim da tarde que dá uma leseira na gente, danada de boa…

Muito estranho, mas pela primeira vez desde o desastre o furgão do orfanato não apareceu e as crianças puderam relaxar e curtir. O futuro era brilhante e promissor!

* * *

Escureceu. Gohan, enquanto os meninos dormem, procura uma moita do lado de fora. Esgueirando-se, percebe uma presença. Antes que pudesse se assustar, dá-se conta de que é Fígaro, imponente, ereto, ar de não-cansado.

– Oi, o que você tá fazendo aqui?

– Eu tô de sentinela, Gohan. Precisamos proteger a República o tempo todo. A gente nunca sabe quando aqueles brutamontes vão voltar…

– Você acha mesmo, Fígaro? Acho que eles desistiram!

(ou será na verdade que Gohan queria ir além de um passeio ao mictório?)

– Além do mais… Há outras pessoas com más intenções por aí, Gohan. Nem sempre são do orfanato.

– Fígaro…

– O que foi, Gohan?

– Eu tenho um segredo… Na verdade eu não sou órfão… Não sou… totalmente órfão… Tenho uma mãe que me espera na Montanha Paoz… E meu vovô também…

– Então era isso, por isso você é diferente!—um dos moleques mais novos gritou, do parapeito da janela. Não estavam tão adormecidos assim…

– Me… me desculpem!

– Ora, Gohan, não precisa se desculpar!—Fígaro—Só tem um problema: a Montanha Paoz fica meio longe, como você veio parar aqui?! Tem ainda uma extensa rodovia e aí sim na Floresta de Bambus você já pode se considerar em casa. Mas vamos te levar lá! Amanhã…

– Como?

– Eu tenho um plano pra roubarmos o veículo!

E deu uma piscadinha. Tudo dependeria da visita dos inconvenientes adultos do maldito orfanato.

– Ei, CORRAM, sua mãe é legal com você?

– Ãhm, acho que não, ela fica brigando e me mandando estudar o tempo todo!

Óbvio que riram, mas aqueles que sabiam que jamais veriam sua mamãe de novo sentiram uma muda ponta de inveja.

– Gohan, de que matéria você mais gosta?

– Ah, eu acho que sou bom em Geografia, Desenho e Matemática!

– Eu detesto Ginástica! Mas gosto de Inglês.

– Já eu prefiro Ciências!

– Eu nunca fui pra escola…—acrescentou a Cris, desanimada.

– É claro, você é muito novinha!

Ela faz seu gesto costumeiro de dar a língua. Aliás, quantos linguarudos na República!

– Pelo que eu tô vendo, vocês tão a fim de ir pra escola, certo?—Fígaro se intrometeu.

– Não, além disso tanto faz! Agora não adianta mais mesmo!

– Ué, vocês podem se matricular na escola quando quiserem!

– Não fala isso, Fígaro, que papo é esse agora?!? Aquele lugar cheira a remédio!!

– Eu também não quero voltar.

– É, nem eu!

– Você conhece bem, já que fugiu!

– HAHAHA!

O papo continuou, besta, mas confortador, e os grilos cricrilejavam.

– Então, pessoal, amanhã acordem cedo porque vamos levar o Gohan à mãe dele!

– Ié!

– Oba!

– Viva o CORRAM!

Gohan corou, mas se contentou por dentro, embora uma dúvida cinza ainda o importunasse em alguma parte…

Ninguém dormiu muitas horas àquela noite…

* * *

Todos a postos. Sabiam, no íntimo, que os gorilas impiedosos não os deixariam em paz dois dias consecutivos, sem falar que viriam mais bem-preparados. Mas a recíproca também era verdadeira: ninguém deixaria o ronco de um motor pegá-los de surpresa dessa vez.

– Não vê nada?

– Não!—Rum, de binóculo.

– Está passando da hora!—Fígaro, preocupado.

– Ei… E-espera! Tá vindo! Tão vindo!

– Abaixem-se todos! Vamos fingir que tá tudo normal!

Dessa vez eram três, e não dois, os seguranças-armários. Logo que se retiraram da van, uma salva de pedras destinada a batizá-los foi atravessando o ar.

— Tomem isso, e isso!—Até a Cris e as outras garotas caprichavam na pontaria dos estilingues.

Os homens se dispersaram para se tornarem alvos mais difíceis, afastando-se da combi. Era a brecha desejada por Fígaro, que não teve dificuldade em expulsar rispidamente a motorista choramingona. Ele assoviou e toda a molecada se preparou para embarcar no bagageiro gigante. Ninguém queria ficar pra trás.

— Ah não!

Sirenes se ouviram. Eles tinham se planejado ainda melhor.

— Desçam do carro!—vociferou Fígaro—Esses sabujos chamaram a polícia!

Estavam cercados por incontáveis motocas e viaturas. O incidente de ontem na feira já havia despertado a atenção das autoridades. Sem plano nenhum, os meninos começaram a lutar com funcionários do orfanato e homens-da-lei, indistintamente. Uns com mais dificuldade, outros menos. Era notória a vantagem no corpo-a-corpo de Fígaro e de Gohan, que sozinhos davam conta de vários deles. Até a Cris, valente, mordia o braço de seus aprisionadores! Voavam voadoras e pedrinhas pra tudo que era canto. Os adultos devolviam com bravatas, botinadas e cacetadas. Pois é. Para a jovem República, estava claro que toda resistência tinha um limite, e até Fígaro foi dominado e algemado ao furgão pelos mais velhos. Gohan, num rompante de fúria (sempre um rompante de fúria), sacou sua espada, deu um de seus pulos fenomenais e quebrou o elo de ferro com a maior facilidade. Mas quando Fígaro se ergueu, assustado, e virou-se de costas, viu que todos os mais novos exceto seu salvador já estavam sob custódia. Haviam perdido? Fígaro parou para meditar uns dez segundos, enquanto os policiais, confiantes, mantinham-se alertas, prestes a dar o bote final. Um relâmpago atravessou-lhe a mente. Estamos falando de Fígaro, o líder da República em dissolução: “Melhor assim… Sentirei saudades.”

— Gohan, vem comigo!—e correram.

O gesto surpreendeu os policiais, que não imaginavam que os pestinhas se deslocassem na direção oposta.

— E os outros?!

— Só vem comigo!

Ouviam-se os gritos daqueles pequeninos, já amarrados e sem consolo algum:

— Fígaro! Fujão!

— Traidor!

— Não deixa a gente aqui, Fígaro!!

G. e F. montaram num conversível da polícia, arrancaram e deixaram a República e as ruínas e as moscas, e os adultos, e a Lei, e os amigos, para trás. Para ser fiel aos fatos, o mais velho e parrudo dos capangas do orfanato ainda tentou se agarrar ao pára-choque, mas sua queda foi de gibi. As crianças-reféns só não sabiam se riam ou se lastimavam, enraivecidas pelo abandono do ex-estimado líder.

— Fígaro!!! CORRAM!!—Em vão um ainda tentou: eles já tinham sumido de vista…

* * *

Na auto-estrada os dois, Fígaro ao volante, ainda tiveram de fintar alguns policiais motorizados, mas estes acabavam batendo ou perdendo a pista. Quando chegaram à Floresta de Bambus e se retiraram do carro, Gohan abordou Fígaro, sério e indignado:

— Por que, por que você largou seus amigos? E empurrava seu parceiro de fuga na altura do quadril, sem querer compreender. Fígaro deu-lhe um murrão na cara que o derrubou.

— Acorda, Gohan! É a melhor saída pra todos eles! Eles não têm idade pra serem uns vândalos! Não merecem essa vida que eu levo!—Dava pra sentir a umidade em seus olhos—Gohan! Eu percebi… Você não é um garoto comum! É muito mais forte do que eu, e olha seu tamanho!

— Você vai voltar, Fígaro?

— Não! Se eu voltasse, não encontraria mais ninguém! Bom… A gente se vê… por aí! Seja bonzinho pra tua mãe!

— Traga eles, Fígaro! Mas esse grito foi só um último ornamento à amizade que cresceu entre eles. Assim como os moleques da finada República berravam à toa, Gohan já sabia que Fígaro não devia ter escutada nada, por causa do barulho do carro. E no fundo concordava com o mais velho, embora isso fosse bem triste. Rum, Cris, a “miss” e os outros! Então ele se virou e foi trotando pela mata… Em dez minutos chegaria…

— Tá perto! Já reconhecia os padrões de vegetação da vizinhança—Uf, uf… Puff!… Já posso ver minha casa!!! —Esbaforido, mas era todo sorrisos e alívio. Chi Chi, sua mãe, fatiando legumes na cozinha, nada podia ver, mas seu sexto sentido entrou em ação—seu coração apertou. Chi Chi correu para o quarto do garoto, deixado como estava havia seis meses, esperando o retorno do dono. Vários livros empilhados, repletos de equações e teorias das mais estranhas…

— Hum! Suspirou, e engoliu o vento, amarga.

Ela, sem saber a que estava obedecendo, saiu correndo da casa, mirando ao longe…

Era na mesma direção de Gohan que ela fitava. Ambos, mãe e filho separados pela catástrofe, não uma tsunami, mas algo bem pior, iriam voltar a se encontrar!

“…sua mãe é legal com você?…eu nunca fui pra escola!…seja bonzinho pra tua mãe!…” Essas frases invadiam a consciência do garoto-guerreiro-misterioso. Mas por quê? Por que agora? Espera… tem algo faltando!

“Garoto especial…”

“O mundo precisa de você…a invasão.”

Suas veias estalaram e se comprimiram…

— Eu não posso! Se eu voltar as costas, todas as casas e famílias vão acabar!

Seu problema de amnésia estava de todo curado, de súbito. Não só sua identidade no deserto, antes de conhecer o Senhor Robô, mas todos os eventos macabros de meses atrás se perfilaram em seu álbum de fotografias mental. Não só sua mãe, mas até seu pai, e o outro…

E ele correu ao avesso. Tarde demais para Chi Chi, que não conseguiria alcançá-lo por nada. Nem seu coração terno de mãe podia com as passadas miraculosas de Gohan, o eleito… E, de mais a mais, ela não viu nada nem ninguém nos contornos da floresta, a não ser folhas farfalhando e bambus balançando. Podia ter sido tudo uma ilusão da carência e da loucura da solidão…—Goku, Gohan!…—Ela amarrotou uma foto que segurava na mão direita…

* * *

Gohan já evadia a floresta e chegava ao pé de uma montanha. O céu límpido. Começou a ventar muito. Pétalas de cerejeira e folhas agrediram sua cara, em redemoinhos ascendentes. Ele olhou pra cima. Lá estava ele, tapando o Sol. O turbante impecavelmente branco, apesar da negra sombra que projetava. Semblante fechado, poderoso, pairando no ar.

— Qual é a sua missão, pequeno? Indagou, tonitruante, taxativo. Vamos, me diga!

— É vencer os saiyajins… E salvar… A TERRA!

— Isso mesmo. Vamos voltar.

Voltar? Pra onde, se não é pra casa?! Ao Deserto. Ao Deserto vasto e cruel, de onde só por milagre se poderia escapar. Mas Gohan não tinha escapado? Treinar lá, com seu mestre, para produzir mais milagres.

Contagem regressiva.

2 de fevereiro de 2013

[ARQUIVO] O CULPADO DE SÍSIFO

Um homem está ao relento, do lado de fora da entrada de uma extensa gruta, tudo isso no altiplano de um morro de encosta bastante íngreme que dá para uma estrada de terra. O homem não passa de um jovem.

Lá embaixo alguns passantes fazem uso da estrada. Parece uma procissão que sai de uma vila em direção a algum sítio mais afastado e menos profano. Há uma grande pedra no mesmo cimo em que o jovem se encontra. Embora não seja perfeitamente regular, ela é redonda e rolaria pelo declive com facilidade.

O jovem se estirou sobre o topo chato da montanha e contemplou o céu pensativo. Não sabe por que está ali, não sabe que multidão é aquela lá embaixo. Por puro tédio, seria capaz de fazer aquela pedra rolar. Por tédio e ócio, brincaria de deus, se tornaria um homicida. Por capricho, rebaixar-se-ia como valor humano. Agora que essa fagulha de malignidade reluziu despretensiosamente em seu campo de ação consciente, agarrou-se a ela como se trepadeira fosse, e não podia mais se livrar dela.

Atos gratuitos não geram despesas. Tudo de que precisava era ir até lá, movimentar os músculos, animar-se a tirar do lugar todo aquele peso. No fim, em movimento ou estático, tanto faz, tudo é monstruosidade da natureza.

Nem bem ele havia se perguntado se deixaria seu corpo ser guiado pela nova vontade, a pedra já tinha percorrido toda a ladeira, e como a fila de sujeitos caminhando era ininterrupta, alguém foi atingido letalmente. Em que pese o forte ruído da descida e a visibilidade considerável que se tinha da pedra, a rampa tinha sua bruxaria de fazer com que o objeto ganhasse mais e mais velocidade ao final da trajetória e surpreendesse os cálculos dos homens. Os companheiros do homem que morreu na mesma hora do impacto com a pedra tentaram alertá-lo, mas este infeliz integrante do comboio pensou que ainda era possível desviar quando já não era. A pedra passou-lhe por cima como um trator. Adicionalmente, a distância muito grande e enganosa entre o ponto inicial de escorregamento da pedra e a estrada não deixava que nenhum homem, na base ou no topo do monte, percebesse as feições de quem estava na extremidade oposta. Foi um crime anônimo.

O rapaz, da boca da gruta, apenas pressentiu algo trágico, sem entender direito. Ouviu lamentos femininos e uns três varões bradando impropérios. Mas eram vultos indistinguíveis. Se é que havia um cadáver, ele já fôra há muito escondido pela multidão que se avolumava em torno quando o jovem tentou espreitar correndo alguns metros e forçando a vista. Só a pedra era perceptível daquela distância, colosso agora imóvel e inofensivo.

Como se inquietasse porque os minúsculos homens lá embaixo não se moviam, e após um instante de alvoroço tudo soasse calmo, resolveu que iria descer, por mais imprudente que fosse sua jogada. É possível que essa reação já estivesse embutida na vontade de arremessar a pedra, fazendo de homens estranhos meros pinos de boliche.

Após a resfolegante descida cheia de vento, interpelou os homens. Ofereceu auxílio. Deu a entender que esperava se deparar com machucados ou feridos, mas não com um moribundo. Alguns o receberam de modo irritado, por saberem de onde aquele rapaz chegara: “Foi você que nos jogou essa pedra maldita?”. O jovem ficou realmente embaraçado. Não poderia ter simulado a cor corada da pele do rosto. Mas mentiu convincentemente. Disse que havia outros homens lá, que ele não concordara com a idéia macabra de um deles e tentou demovê-lo da ação bárbara e despropositada, obviamente sem sucesso. Explicou que, como tentativa de expiação, desceu para entender direito o que a pedra havia provocado. Esperava que perguntassem o que estavam fazendo ali naquela gruta assustadora e que tipo de ligação o aproximava de homens tão abjetos. Mas foi outro o questionamento: “E, pois, por que demorou tanto para descer do morro?” É verdade. Ele não sabia por que hesitara antes da descida. “Esperava que alguém fosse ter conosco”, respondeu sua máscara instintiva. Alguns dos ouvintes emitiram um misto de guincho de dor pelo amigo atingido pela pedra, resmungo bonachão e gargalhada galhofante. E então lhe viraram as costas e foram olhar para o morto uma última vez. Uma das mulheres do bando foi a única que não o desprezou e ressaltou o evidente: a pedra vitimou uma pessoa, portanto o jovem havia chegado tarde demais se queria ajudar, e a menos que fosse um médico ou feiticeiro, nada poderia ter feito, de qualquer maneira.

O descaso em relação a um possível perigo ou algoz deixou o assassino e mentiroso tomado de um furor incontrolável. Quando as atenções se deslocavam para o material em decomposição, o rapaz insistiu: “Escutem… Não querem subir até a caverna para verificar o que eu disse?”

– Isso não é preciso, confiamos em você.

O rapaz engoliu em seco. Ficou minutos gelado por dentro, estirado, ali, de pé, em meio a desconhecidos, enquanto um pequeno grupo dentre os homens da caravana se encarregava de levar o corpo na direção do poente, ou seja, da vila. Não se sabe se ouvia os balbucios dos homens restantes. Estalava os dedos da mão e as juntas pelo corpo inteiro, tentando se livrar do choque provocado pelo último revide do diálogo: “Não desconfiavam de mim, não iam subir pela trilha careca do morro atrás do responsável? Com que tipo de lassidão me deparo neste lugarzinho? Uns frouxos!”

Com um sobressalto, o jovem se removia a si mesmo das reflexões um tanto inúteis e fazia o possível para interromper o caminho dos homens que, àquela altura, também caíam em si e se dividiam: uns seguiam em romaria para o leste, aonde já deviam ter ido não fosse o incidente; outros, todos os que estavam acompanhados da esposa, principiavam a caminhada em sentido contrário, o sentido do cadáver. Não contavam com aquele homem mais novo que todos eles gesticulando e balançando mais catatônica que euforicamente, tropeçando nas palavras… Vomitando uma confissão! “Fui eu que matei! Não há mais ninguém lá! Eu fiz rolar esse pesado pedregulho… Esperem, vocês não podem voltar para suas casas desse jeito—se dirigiu em especial aos que já iam longe, n’oeste—, ignorando quem fez isso com seu amigo morto.”

Fez-se um círculo em torno do confessor, olhares e barbas ameaçadores se tornavam mais nítidos. Ele esperava que o “líder” entre eles o sacudisse pela roupa e exigisse o porquê daquele ato, pior, daquele teatro. O porquê de ter descido, o porquê de ter se condoído a princípio, de ter, em outras palavras, se oferecido para ser a janta caso fosse desmascarado, mas em seguida se revelando a si próprio, como se fosse um cativo resignado que se atira vulnerável caldeirão fervente adentro, sem nenhum trunfo, num automatismo de brutamontes. Mas ninguém se mexia e ele se viu compelido a fazer sua versão retrospectiva completa, como que constrangido por uma mão invisível a chacoalhar sua gola, mas na verdade atendendo o pedido do próprio júri de sua cabeça.

Depois do discurso detalhado, esbaforido, o Sísifo de ocasião se deixou desmilingüir e pousou no solo, de cócoras, lentamente. A sua volta, para além de várias ondas de murmúrios se propagando aos oito cantos, um misterioso consenso mudo tinha brotado como efeito. Muito longe de demonstrarem qualquer feição amigável e sem mesmo olhar nos olhos do infrator, do perturbador daquele fim de tarde quente na aldeia, os ouvintes se escoraram nas palavras austeras de um porta-voz, centralizado na multidão: “Eu não sei qual poderia ser a direção tomada pelo mundo caso os mais novos e impetuosos fossem os únicos guias das coisas e dos destinos dos entes. Nós não entendemos que deva haver qualquer tipo de reparação diante de uma perda, de uma pedra, de um mal. Perdoamos você por ser o que é, se é isso que busca, essa idéia de redenção, de renascer e regenerar-se. Perdoamos você por ser o que é e por ter chegado aqui e cruzado nosso caminho. Mas temos o direito de exagerarmos nas suspeitas da próxima vez. Qualquer palavra sua soará como uma pedra. Seu destempero deve tornar qualquer um que faça parte do seu passado um desconfiado por natureza, você mesmo se comportou como se esperasse que reprisássemos aquilo que foi sua vida até este ponto, não é mesmo? Sua alma afundaria se fosse separada do seu corpo e jogada num lago, ela é mais pesada que a rocha que rolou por essa encosta, mas se isso fosse tudo… Seu lago não tem fundo. Não há o nirvana que procura.”

O jovem, abandonado finalmente a si, só pensou que malignidade nenhuma parecia fazer sentido quando não era combatida, quando era até permitida. A postura desses homens desencorajava, ridicularizava, o tipo do valentão vil, ou simplesmente essa espécie que hoje abunda, a dos adolescentes de alma, rosto calejado ou não, cansada do mundo, indiferentes a qualquer destruição e qualquer milagre. Aqueles homens logo se afastariam de sua vida, mesmo simbolicamente, e ele continuaria sua jornada? Como poderiam, se ele em primeiro lugar é que deveria rolar como uma pedra para longe dali? E vislumbrava, o rapaz, uma grande e espessa parede, uma muralha intransponível e cinzenta, de centenas de rochas iguais à que agora podia ser chamada de sua. Deveria amadurecer para buscar transpô-la. Destruir as lembranças. Os homens o perdoariam, mas ele continuou culpando-se diante do reflexo das águas.

[ARQUIVO] O SENHOR ROBÔ

Abandonado no deserto. O garoto nem sabe direito como foi parar ali. Seu pai está morto. Ele chora. Tem uma espada que mais parece um facão e se alimenta de pequenos animais. Isso é tudo com que conta. Não pode se lembrar de sua idade, de seu nome, nem de seu propósito, a não ser… Sua mãe! Ele tem uma mãe e precisa chegar até ela. Fugir desse lugar como puder. O solo arenoso dá lugar a um outro tipo de piso. Calcário rachado, desgastado pelo sol perene da região.

Após alguns passos na pouco convidativa e árida superfície, o chão começa a ceder debaixo dos pés do garoto. Ele está em uma galeria subterrânea! Uma câmara enorme se estende diante de seus olhos. A luminosidade é escassa. Ele analisa as pinturas rupestres que encontra gravadas nas paredes. Tem certeza de já tê-las visto antes! Algumas delas não são imagens, são letras: querem descrever qualquer coisa ou dão um aviso importante. O garoto desafortunado procura uma saída, mas o único jeito seria escapar por onde entrou, o buraco no teto, a mais de quatro metros de altura. A temperatura não é como lá fora. Faz frio. O garoto, vestido apenas em um kimono esfarrapado, cabelo desgrenhado, se encolhe e encosta em uma das quinas irregulares, sem nenhuma idéia.

Mas, ciente de que, de alguma forma, está sendo observado, ergue o olhar de súbito, desconfiado. Em frente, na extremidade oposta do salão, há um objeto, ou talvez um amontoado de detritos cintilantes. A cor prata do montículo reflete a pálida luz que consegue penetrar na gruta, produzindo um belo efeito à vista. O garoto se reergue sobre trêmulos membros inferiores e se aproxima, devagar. A cada passo as coisas ficam mais claras: trata-se de um robô! Mas deve estar “morto”. À guisa de comprovar sua condição de solitário nesse sítio tão inóspito, o garoto cutuca o esqueleto platinado, cadáver tecnológico, com sua pequena espada infantil, ainda embainhada, bem na parte do tronco, que continha uma grande cabeça inanimada, à maneira de uma moldura que envolve um relógio, vermelha, ao contrário da cor de metal enferrujado do envoltório. E se fosse o coração da máquina, sua bateria, um botão, o botão de ligar/desligar? O garoto intruso premedita alguns passos para trás. O que ele quer com o ferro-velho dos outros? Não há tempo para brincadeiras. Seu estômago clama por outras providências… Cadê a mamãe?

Antes de executar o plano—sair de perto dessa parede e desse boneco estranho—, o garoto é surpreendido por movimentos. O robô, cerca de três vezes mais alto e duas vezes mais largo que o menino, se aproxima perigosamente articulando duas hastes enormes e bambas que o cientista que o criou deveria chamar de pernas. Um brilho qualquer partiu de dentro da cabeça do bicho, uma centelha inquisidora, acompanhada de voz bruxuleante, de walkie-talkie. O garoto acaba de lembrar que na antiga vida que levava ele já brincara de guerra-por-rádio com seus amigos, e a voz dos companheiros, distante, saía mais ou menos assim:

– Quem é você? Como ousa me incomodar?

O menino espadachim solta um berro. Pó cai em sua cabeça. Talvez não tenha sido uma boa idéia! Como não obteve uma resposta inteligível, o robô voltou à entrevista:

– Quem está aí?

– Eu sou um garoto do deserto… Tentando sair do deserto… Eu não tenho um nome, Senhor!

– Você não tem um nome? Eu preciso do seu nome, eu não posso reconhecer um ser vivo sem um nome!

– Eu… eu…

Um relâmpago atravessa a mente hesitante do garoto e tudo parece mais coerente do que há poucos segundos:

– Meu nome é… Gohan!

– Ah, então se lembrou!

– Desculpe, Senhor, mas o que o Senhor faz num esconderijo tão afastado?

– Gohan, isso não interessa. Desligue o interruptor e saia o quanto antes.

– Mas não tem saída!

– Atrás de mim!

– Mas… mas… Só o que tem é a rocha!

– Tenho no meu computador os dados. Não sei quanto tempo passei desativado. Mas você precisa sair daqui, Gohan.

– Deve ter tido um desabamento. Nós estamos presos, Senhor!

– Gohan, isso não é minha responsabilidade. Desligue-me, humano! Desligue-me! Já não tenho mais a quem servir ou qualquer propósito. O ideal seria que eu jamais fosse despertado uma terceira vez…

– Sr. Robô, eu vou morrer aqui… Me faça companhia até o final!

– Isso é absurdo. Isso é absurdo, Gohan!

– Você, quer dizer, o Sr., o Senhor só sabe repetir? O Senhor tem vontade própria também, não tem?

– O que é isso?

– Senhor robô, o Senhor sabe como a gente faz para subir até aquele orificiozinho lá no teto?

– Gohan, meu visor foi muito prejudicado pela desativação. Sou quase cego. Por favor, você não pode me pedir nada. Eu não sou um robô atlético. Eu era um robô da ciência. Agora minha vontade é dormir o sono dos sábios.

Desesperado, Gohan emprega todas as artimanhas que conhece para convencer o robô astuto e obstinado a achar uma solução, querer sair do lugar e ir com ele pelo deserto… Mas era inútil. A máquina, obsoleta, teimava em ser um zero:

– Gohan, vou parar de responder as suas perguntas. Este lugar está condenado. Meu computador calcula que em 12 horas, sem interferência de seres vivos, todas as pedras vão desabar e soterrar essa caverna. Esse espaço oco dentro do chão vai deixar de existir. Todos os que se negarem a sair morrerão. Você tem de saltar por sua própria conta. Adeus.

Alguns minutos de silêncio…

– Ainda está aí, Gohan?

– Sr. Robô, eu vou consertar os seus olhos. Eu conheço tecnologia!

Gohan remexeu nuns fios que se ligavam às órbitas redondas daquela criatura artificial e, voilà, como que convertidas em lanternas elas adquiriram uma chama dourada, e passaram a enxergar Gohan nitidamente.

– Gohan, o que você fez foi inútil! Eu só quero dormir. O que garotinhos tão precoces fazem longe de seus pais? Desligue-me! Desligue-me!

Gohan obedeceu e dormiu de cansaço. Quando voltou a si, sobressaltou-se com algo rastejante a poucos metros e seu instinto o fez religar o Senhor Robô, bem no botão vermelho encefálico.

– Gohan!!

– Calma, Sr. Robô! Aqui tem cobras, o Senhor pode matá-las para mim?

– Gohan, você é um garoto intrometido e carente! Eu não devia, mas porque detesto choro de criança, vou assá-las para você…

– Muito obrigado, Sr. Robô!

E assim Gohan, de um golpe só, saciou o estômago e se livrou da companhia dos répteis asquerosos. O amigo robô disparou raios laser de cavidades estranhas em suas laterais. Sua eficácia para preparar churrascos é prodigiosa!

– Está satisfeito com o banquete, Gohan? Agora me desligue. Minha bateria vai acabar, mas eu gostaria de me despedir sem delongas…

– Eu acho que queimei a língua, Senhor Robô, mas estava uma delícia! Embora eu prefira o tempero da minha mamãe…

– Gohan…

– O que é, Senhor?

– DES…

– Tá bom, tá bom, já sei! O Sr. não teria uma mola para me ajudar a sair daqui?

– Gohan, lamento mas não consigo pensar em nada! Você pode, por consideração, apertar o meu botão?

– É que… Olha, só vou fazer umas perguntas antes, pode ser?

– Não, Gohan!

– Vou fazer sim, o Senhor não tem escolha!… Por que o Sr. está aqui?

– É uma longa história, Goha…

A voz do robô fica mais trêmula do que o normal.

– Senhor, Sr., o que foi?

– Eu não tenho mais energia para continuar es.. …ver..

– Robô, robô, Sr. Robô! Essa areia toda infiltrando nos circuitos do Senhor, é por isso que perdeu a mobilidade, não é?

– …

– Não precisa responder, eu vou tirar nós dois daqui, dou algum jeito! ALGUÉM ME AJUDE!!!

Tendo elevado a voz para pedir ajuda, Gohan se esqueceu de que poderia precipitar um deslizamento. Muito pó cede do teto e algumas porções do salão de calcário trincam. Gohan sabe que não terá muito tempo e que seu amigo não poderá mais ouvi-lo. Mas ele sabe—agora—que é uma criança diferente, senão não estaria no deserto passando por provações, nem teria uma espada ou… tanta sorte de arranjar um amigo até num calabouço tão escuro, no fim do mundo. Algo formiga dentro dele e ele se sente o rei do universo. Como quem pula por sobre um girassol ou um pé-de-milho, ele solta incríveis quatro metros e se agarra à beirada do buraco por onde havia caído. A borda é frágil, vai ceder se Gohan não puxar seu corpo para cima rápido. É o que ele faria, se não se lembrasse, na última hora, que esquecera de desligar o botão!

– SENHOR ROBÔ, O SENHOR NÃO PODE SOFRER POR MINHA CAUSA!!

A criança deixa-se cair de volta ao breu em dissolução. Seu último grito de solidariedade faz outras tantas rochas se desprenderem do teto. Mas ele precisa alcançar o botão luminoso… Ele deve isso ao anfitrião da caverna…

Ao tentar acioná-lo, o robô emite uma grande descarga, Gohan leva um choque e desmaia.

* * *

– Gohan, Gohan, acorde! A caverna está por um fio! Você ficou inconsciente depois de tocar em mim enquanto eu estava em curto! Mas graças a você ativei minha bateria reserva!

– Senhor… Senhor Robô, o Senhor está bem?!? Que bom!… Me desculpe… Eu me esqueci de desligar o botão quando estava prestes a sair e…

– Isso não importa mais. Não temos muito tempo.

Uma pedra de grandes dimensões cai perto dos dois, fazendo Gohan sobressaltar.

– Eu vou arremessar você, Gohan. Suba em mim e sente sobre a minha cabeça!

– Não, Senhor Robô! Eu não quero! E se eu sentar no botão o Senhor vai desligar para sempre! Preciso salvar o Senhor do desabamento!

– Não seja tola, criança! Estamos condenados se você não fizer o que eu lhe digo. O botão não vai me desligar. Eu posso mudar minhas configurações. Viu?

O robô passou a emitir uma aura azul, diferente da dourada de antes.

– Isso, assim mesmo. Agora comprima meu botão vermelho até o fundo! Prepare-se para EJETAR!

Um grande estrondo indicava que não só Gohan evadira em grande velocidade do reino subterrâneo como o próprio reino subterrâneo já não existia…

– Senhor Robô, onde o Senhor está? SENHOR ROBÔ!!

As lágrimas de Gohan são o único indício de umidade no vasto deserto, mas são logo arrancadas de seu rosto pela ventania. Breve anoitecerá e a temperatura diminuirá sensivelmente. Gohan não tem forças para erguer os escombros formados após o impacto para procurar seu heróico e mais novo amigo. Ele desembainha sua espada, engole em seco, ergue a cabeça e obedece a uma voz interior que o incita a seguir em frente…

28 de novembro de 2013

[ARQUIVO] DIÁLOGO DA FOME: AQUILO QUE É MAIS IMPORTANTE PARA O ANIMAL HOMEM

– Todos têm uma morte preferida. Um desejo de morrer de tal ou qual forma. Ou pelo menos uma intuição, uma forte impressão de que vão morrer de determinada maneira, não importa o que fizerem.

– Eu sou assim.

– E qual é a morte que lhe aguarda?

– Inanição.

– Sob quais circunstâncias?

– Não sei ao certo. Não sei com que idade. Não sei depois de quê. Pode haver messias epilépticos, neste país ou neste mundo, que sabem até mesmo a hora e o dia da semana em que morrerão. Mas eu ignoro o contexto. Sou mais simples. Mas algo me diz que estarei atirado na ruína, ou por algum motivo estarei em algum tipo de floresta longe da civilização, onde não me restam mais alternativas. Para falar a verdade, pensei na morte de fome em várias circunstâncias diferentes. Temo que não aconteça como em nenhum de meus pensamentos, romanceados. Não será trancado com meu filho em uma torre, como em Dante. (É isso mesmo? Mas isso foi realidade, e não ficção!) E confesso que prefiro a inanição em decorrência da miséria que de algum desastre eventual, como por exemplo ser seqüestrado, depois fugir e se arrepender, porque o cativeiro estava em lugar ermo! Sim, creio mesmo que algo me tirará a profissão, e me arrancará todas as possibilidades de recorrer a alguma ajuda. Ou talvez eu não queira essa ajuda. Talvez seja no meio da cidade, na praça, para todos verem. Um espetáculo público! Quem sabe haja outros mendigos, uma árvore, e então eu peça encarecidamente: Amarrem-me a este tronco com grossas correntes. Talvez tenhamos que roubá-las em uma oficina ou qualquer coisa do gênero. E por nada nesse mundo me soltem, nem que eu implore com os olhos marejados: Não me dêem de comer, não me ofereçam água. Deixem-me prostrar, até perder os sentidos, pouco importa quantos dias leve.

– Isso me parece um tanto trágico! Crê mesmo que é possível?

– Se essa pergunta é bem ou mal-formulada, eu não sei, mas se me deparo com ela sempre ao falar sobre isso, é porque faz sentido. Já me disseram inúmeras vezes que é impossível se morrer de fome de propósito, que existem formas muito mais nobres e imediatas de suicídio. Eu digo que não é um suicídio, pois é apenas uma natureza sem travas ou impedimentos, que faz seu trabalho. Acontece que não tem propósito continuar vivendo apenas para comer regularmente. Talvez nem fazendo outras coisas além de comer, mas isso não vem ao caso! Pois me dizem que o homem se torna um animal e não mede esforços para conseguir a próxima refeição. Mataria e comeria o próximo, se preciso fosse. Mas eu renuncio a ser homem. É bem verdade que não posso prever, não tendo antes passado fome ou me perdido no deserto, que tipo de reação sobreviria, mas é por isso que tomaria tal precaução. Atar-me-iam e me deixariam só.

– Besteiras… O corpo de bombeiros apareceria.

– Aborrece minha especulação!

– Continue…

– Seja como for, por ser ignominioso, proscrito, infame… Teria que acreditar que ninguém na cidade gostaria que eu me restabelecesse… Então se eu mesmo quisesse que assim fosse, nada haveria para me impedir… E supondo que o desespero não me desse força bruta como nunca antes, as correntes cumpririam seu propósito. Alguns acham mesmo que ninguém ama tanto a vida quanto um mendigo com disenteria. Que meu impulso, ou minha “previsão”, não passa de uma enfermidade ou desvio temporário. De fato o é, mas ele, ou ela, é recorrente. Nos meus piores momentos, essa visão sempre regressa. Eu acho que sei como é passar fome, ou quem sabe só os cadáveres descarnados o saibam! É o mesmo de quando passamos do horário de nossa refeição e não podemos mais ficar de pé, de tão trêmulos. A diferença é que quem verdadeiramente passa fome sente com tal banalidade esse fenômeno que em verdade não o sente mais. Já consegue andar, conversar, até carregar uma pedra pesada sem se queixar. O estômago não dói mais. Talvez volte a comer por inércia, ou por medo de alguma superstição!

– Não estou de acordo em tudo; mas acho até que esses bons samaritanos da caridade não compreendem muito bem “a fome”. Pode bem ser algo indescritível, que cada um sinta a sua maneira, como os pesadelos… Uma última pergunta: acredita que a mesma pessoa, em tempos diferentes, possa ter passado aguda fome e enfim decidido comer, depois de sua resolução suicida ter falhado, e, na segunda ou terceira vez que passar pela mesma situação, ter fibra o suficiente para levar o luto até o fim? Isso de morrer de fome me parece mais um dom, ou se tem ou se não tem!

– Acredito em tudo, meu amigo. Acredito mesmo que se em tal dia chove, a pessoa pode cometer um crime, ao passo que se fizesse sol ficaria em casa fazendo a sesta! Eu acredito, acima de tudo, que sempre podemos mudar para melhor!

[ARQUIVO] O DIA EM QUE BRASÍLIA ASSUMIU SUA VERDADEIRA FORMA

Originalmente publicado em 10 de setembro de 2013

Uma megalópole. Pessoas escorrendo pelo ladrão, como ratos, afobados, de cá pra lá. Quem sabe de longe façam sentido e sejam uma turba coordenada. É assim que um tempo se resume.

Mas falo do seguinte. Em um ponto que não chegou a vivenciar a realidade da superpopulação. Um oásis perdido de máscaras e parcos zumbis. É ainda mais estranho, ouso dizer, quando uma casa de um ou dois membros fica de repente vazia do que a deserção pós-festa ou banquete! Uma cidade que já era meio-fantasma, com a outra metade do copo finalmente vazia? Onde a normalidade não seria obtusamente diferente, mas aí é que está a sutileza do espanto. Pensávamos que estávamos acostumados ou que nos podíamos acostumar aos dias de solidão absoluta, quando ela era apenas relativa. E a solidão relativa é bastante acolhedora.

Olhei pela janela assim que acordei. Não notei nada de diferente. Saí do apartamento e desci pelas escadas, como de hábito, já que o elevador não funciona faz tempo. Ninguém na guarita. Nenhum carro em movimento. Ninguém dentro dos carros parados. A não ser que se ocultassem por trás dos vidros escuros. Um carro ou outro se encontrava parado no meio da rua, uma porta ou portas abertas. Percorri a quadra. Subi à W3. Ainda não senti vida, nem pombas ou pássaros. É de tarde, suponho. O silêncio não é ensurdecedor, como diz o clichê: ele só é ele mesmo, inacreditável tanto quanto a calma mantida pelo pulsar de meu organismo. Imaginei, um dia, que eu podia ser O Escolhido e que isso aconteceria, e então meu primeiro pensamento era poder correr pelado impune, invadir um frigorífico e ter com o que me suster por muito tempo. Agora que chegou, será realmente assim? A moral não me massacrará sempre? Ou eu me descobrirei a pior companhia tão rápido quanto o tédio me invadir e eu implorar pela “reversão”?

Devo começar lendo livros, praticando assaltos ou atingindo 200 por hora num veículo aleatório? Esperar inerte ou provocar a morte? Decidi escrever memórias antes de ter do que lembrar-me.

[ARQUIVO] SOMBRAS QUE SE APROCHEGAM…

 

Originalmente publicado em 16 de julho de 2013

1855

Jack, O Estripador, o maior serial killer de todos os tempos, está relembrando um por um de seus assassinatos e tentando desvendar seus motivos mais profundos para cometê-los, se existirem, antes de terminar a sua grande obra chamada vida com o homicídio-apoteose: o próprio. Antes do suicídio se consumar, uma entidade interrompe Jack e diz que ele não conhece a sensação de poder como pensa que conhece, nem a de privar o ser humano, efetivamente, da existência, já que há muitas verdades metafísicas que ele ignora. Para ele se tornar um serial killer completo, deveria segui-lo. Seguir Legion. Aliciando Jack, ele quer que o estripador o ajude a erguer uma catedral do medo capaz de reunir todas as almas penadas do Outro Mundo, a ser batizada de Asilo, o pré-requisito para fazer os dois planos (o além e o aqui-e-agora) fundirem-se num só. Em troca, Jack ganharia o direito de ser o vice-pontífice desse reino do horror e a imortalidade: poderia, agora sim, se matar no mundo dos vivos, somente para ser eternizado como Jack, O Estripador, o morto-vivo—Jack, o Supra-Extirpador! E é o que ele faz…

… os guinchos dum patinho de borracha na banheira deserta, a risada dum bebê que não pressente o perigo, uma broca de dentista em funcionamento, e depois vários e intensos gritos de morte, de crianças e mulheres—acompanham a soturna e deliciosa melodia de Beethoven …

1999

Michael LeRoi jubilou no curso de literatura por vícios como o álcool, e como não queria voltar à casa dos pais, no estado natal, cabisbaixo e derrotado, tratou de achar um bico como taxista—a profissão mais legal do mundo, dizem—no mesmo local, a fim de ganhar a vida. Miserável vida. Numa noite de trabalho, um dos passageiros de Michael não era flor que se cheirasse e acabou sendo assassinado num linchamento coletivo, bem na sua frente, logo após descer do veículo. Temendo pela própria vida, Mike dá o fora da cena do crime cantando pneu. Algumas horas depois ele descobre que o passageiro falecido havia deixado uma sacola no banco de trás com muito dinheiro—20 mil dólares—… Pelo menos para ele, isso era muito dinheiro, sim. Grana, muita grana! Que Mike usa para comprar presentes para toda a família antes de passar merecidas férias em sua antiga residência, simulando que está tudo bem, que ele vai seguir carreira…

Os mesmos fulanos que tiraram a vida do passageiro desconhecido descobrem tudo sobre Michael LeRoi e sua vida precária e patética. Os pais e o irmão caçula de Mike são os primeiros a pagar—com a vida—pelo inocente uso dos 20 mil dólares… Como se a situação do taxista, ex-taxista ou seja lá o que ele for agora, não pudesse piorar!!

Drenando um pouco mais de seu vigor vital para chorar as mágoas num bar de quinta categoria, Mike é abordado por uma mulher muito suspeita, Agnetta, doravante apenas Nettie. Uma sacerdotisa de magia negra, poderosa manipuladora e rainha dos vodus. Ela seduz o bêbado e ambos dormem juntos essa noite. Com seu dom macabro, o propósito desse flerte é cedo revelado: ela costura uma máscara na altura do peito de Mike, que daqui em diante será conhecido somente pelo apodo Shadow Man, uma entidade capaz de fazer travessias entre as duas dimensões do universo, o Lado dos Vivos e o Lado dos Mortos. Isso porque agora ele não está nem vivo nem morto, propriamente falando… Na verdade, essa dicotomia é tão absurda quanto a descrença no absurdo!

… na poeira ou terra batida, é um som seco e áspero, como o de pequenas e frágeis pedras sendo esmigalhadas pela sola de sapatos frementes; atravessando canos, alumínio ou metal, o som é aquele típico clank, clank; superfícies molhadas farão aquele squish, squish análogo ao dos monstros do lago nessie …

Ultimamente, a ancestralmente sábia e bela Nettie, que não sabemos há quanto tempo co-habita com os vivos, anda tendo sonhos proféticos acerca da vinda do Apocalipse. São cinco—e não quatro—os arautos do Armageddon. A energia negra que possibilitará a invasão está próxima de ser finalmente reunida e despejada, ela o sente. Alguém passou os últimos séculos colecionando almas…

Michael, Jack, Legion, Nettie…

… o tempo está correndo e Shadow “Mike” Man, a mando de Nettie, precisa correr atrás das almas negras pendentes antes dos inimigos LOUCOS, ou será o fim dos tempos como a humanidade os conhece e concebe! A profecia interpretada por Nettie significa que, além de Jack, Legion tem outros subordinados super-eficazes no seu trabalho mesquinho de artesãos da carne podre: outros dos maiores serial killers da História se juntaram à dupla nessa cruzada | anti-cruzada, prótons e neutrinos no café-da-manhã …

[ARQUIVO] MI PUTA… MI PUTITA

Originalmente publicado em 25 de outubro de 2012

Estou enamorado

Toda vez que me debruço na janela para fumar, porque não tenho mais um cinzeiro, eu quebrei o cinzeiro, contemplo a mesma paisagem soturna. Tão próximo, mas tão distante, gesticula um objeto na penumbra. É como se estivesse nu. E quase está. Ela desempenha seu serão. Obviamente eu não sei seu nome. Obviamente, eu não sou um dos seus consumidores. E acho melhor conservar na utopia a brasa encendida chamada meu peito. Escura como está, e sem rosto, como manequim, ela é meu carvão. Ela pulsa. É a única viva esta noite. Como em todas as noites. São só sete minutos que a observo a cada dia.

Mas agora estou enlutado. Viro-me para baforar a fumaça pelas narinas e quando fixo de novo os olhos na reta—algumas árvores, uma pista, prédios nas laterais nos separam—ela desapareceu. Se foi minha putita.

Ouço pneus cantando no asfalto… Só a amo, só me enterneço, porque ela não é minha. Meia hora. Suja por dentro. Lubrificada. Que macho sou eu que não posso comprá-la? Comprar-lhe um pão com salsicha. Amanhã ela estará de pé ali de novo. Na vitrine de carne. Se bem que nunca está, para mim… Minha de uma forma secreta. Sei que é correspondido, porque ela ama o estranho que não a corrompe! Não a estiola. Quem mais pura do que a flor que sempre após ser estiolada outra vez desabrocha?

Monica em

“EM NOME DA HONRA”

Originalmente publicado em 8 de janeiro de 2010.

Inspirado na fábula da Chapeuzinho Vermelho

Cabelos loiros, lisos e que mal chegavam aos ombros. Nariz afilado e empinado. Lábios finos e rosas. Uma flor delicada. Monica tinha dezesseis anos e começava a ser uma preocupação para os pais. Filha de um poderoso industrial da Wolfstation – pequena vila inglesa – do século XIX, sua beleza aliada a sua riqueza a tornavam um objeto de intensa cobiça por parte dos homens da cidade. Galanteios de meninotes, rapazolas e mesmo dos amigos do pai nunca foram surpresa na vida da colegial. Porém a atenta Sra. Williams percebeu que a filha não mais recusava as investidas de imediato com um firme: “Não desejo um faz-de-conta burguês e ambas as nossas infelicidades”. Na sala de visitas, dava a entender que não cederia, mas já não era tão resoluta como antes. Se não se tratasse de uma moça rica, poder-se-ia pensar que Monica gostaria de prolongar os casos, quem sabe forjar um noivado, unicamente em busca de dinheiro. A Sra. Williams, como qualquer mulher madura, conhecia muito bem aquelas transformações no corpo e mente da adolescente, da menina-adulta. No entanto, sentia-se constrangida diante dos arroubos de sensualidade da criatura fervilhante que se exibia pela primeira vez debaixo de seu teto e diante dos seus olhos. Cantarolava ao espelho, perfumava-se toda. Nunca havia visto sua filha assim. Resolvera esperar até o dia do baile escolar para dar um passo além da simples observação: chamou Monica a um canto, na cozinha, enquanto assava alguns bolinhos, e pediu que não comprometesse a posição da família na alta sociedade com burlas namoradeiras. Monica sabia o que a palavra burla queria dizer.

Manteve-se afastada de bons partidos na escola; reprimiu seus sentimentos até aquela idade, em que já não era possível ocultar os batimentos acelerados e a maçã rubra das faces quando o assunto das garotas adentrava o sexo oposto. Julgava usufruir de uma vida muito mais confinada do que a das amigas, e mais recatada do que o necessário. Mas não ousava afrontar o pai. Não se sabe ao certo se planejava algo, se nutria rancor pela educação severa que recebia, porém tudo indica que o respeito que demonstrava pelo Sr. Williams não devia ser dissimulação. Acontece que toda santa alma um dia se cansa…

Há meses Monica observava, de longe e sem ser notada por nenhum dos colegas, um bando de alunos da série superior. Populares entre a juventude e malvistos pelos professores, constituíam seis ou sete bolsistas da região pobre da cidade. Não provinham de família abastada, mas freqüentavam a mesma escola da filha de Henry Williams. Este, dono de tecelagens por todo o país e bem-informado pelas amizades e pelos jornais, sabia da política acolhedora da instituição de ensino, e espumava de raiva a cada lembrete do tipo de gente que podia sentar-se às carteiras adjacentes à de seu tesourinho.

Talvez se inclinasse a lutar no parlamento por mudanças na aceitação de estudantes pobres, mas adiava a iniciativa, combinando com o advogado os argumentos perfeitos para a sessão plenária (onde pisava quando bem entendesse), além de aguardar que um célebre comerciante, conhecido seu, assumisse a cátedra de diretor, no rodízio previsto pelo regimento da escola, em apenas dois meses. Poder-se-ia dizer que o inconveniente de misturar a rebenta com uns pobretões da zona operária de Wolfstation não era de trato urgente. Enquanto isso, fazia vistas grossas até mesmo às filhotas dos outros industriais, a inculcar em Monica a idéia de comprar novos vestidinhos, tomara-que-caias, que deixavam as rapariguinhas de ombros escandalosamente desnudos, ou saiões com cortes indecentes.¹ Considerava as filhas dos outros capitalistas putas de luxo, sem exceção.

¹ A tomara-que-caia é “invenção” do século XX, mas esse conto se dispensa da obrigatoriedade de fugir de anacronismos.

Monica decidiu que se aproximaria dos bolsistas na festa do baile. Sabia que, quando muito, um ou dois valeriam a pena; os outros seriam grosseiros por saberem quem ela era – se tem uma coisa por que os sem-dinheiro zelam é o velho orgulho de classe. Não disfarçar antipatias. Não alimentar falsas esperanças de “subir na vida se casando com uma princesa ao invés de uma plebéia”. Não quando seria de cortar o coração de tão humilhante, e aquele Sr. Henry não era o tipo de pai que deixaria barato em uma entrevista eliminatória. Quando se estuda em escolas assim, além do mais, seria muito mais gratificante descontar essa frustração de berço cuspindo no chão e apontando o dedo para ricaças insinuantes.

A princesa penetra da história já desconfiava do gênio desses rapazes. Mas é provável que a cólera direcionada aos burgueses não fosse uniforme. Um ou dois poderiam pensar diferente, no íntimo. E estava cada vez mais complicado para uma loira vistosa e enfeitada de jóias hipnotizantes ao longo do pescoço, dos pulsos, das orelhas e dos dedos, quando não incrustadas nos vestidos, enfim, para uma baronesa com corpo de sereia, lidar com esses novos impulsos: a necessidade de amigos descolados das tradições, o instinto de buscar o diferente, o exótico, o rebelde. Todos têm a idade desse despertar. Ao mesmo tempo, continuar fiel às amigas. E, para isso, deveria ter alguma proeza para contar. Era a mais inexperiente do grupo, e já gerava risitos incontidos nos falatórios no departamento “homens”. Não tinha opinião formada sobre casamento, sobre o melhor estágio da vida para descobrir o marido ou o grau de liberdade que deve ser tolerado entre casais não-reconhecidos pela Igreja. Tudo veio rápido demais para essa moça. Monica quis apenas se auto-afirmar em seu grupo de amigas, não que isso implicasse em ser uma Williams maculada.

Foi no baile que, surpreendentemente, Monica, sem tomar nenhuma iniciativa, foi cortejada pelos famosos bolsistas da Wolfstation Noble School. Do mesmo jeito que costumava ser, debaixo das vistas da própria mãe, só que agora num amplo salão sem obrigações de sangue a interferir. Sorriu muito com o mais alto, aparentemente o “líder”. Respondeu todas as perguntas com inocência e temeu fazer alguma. Confirmou que era filha de Henry Williams, o famoso cidadão freqüentador número 1 do único banco da cidadezinha. Sabe-se lá o que vai fazer duas vezes por dia, religiosamente, às catorze e às dezoito horas, sempre demorando quinze minutos do lado de dentro. Assentiu também às suspeitas de que o pai era dono inclusive de termelétricas e exploradoras de carvão em Northsville, a cidade mais próxima de Wolfstation. E que aqui ele ainda era dono de uma companhia de bondes, mas adorava seus passeios de charrete. Possuía um cocheiro, três cavalos de elite e um carro pintado de ouro. Se era a tinta ou se era ouro de verdade, sobre isso não especulou. Dúvidas tão tolas as daqueles rapazes. E eles aparentavam segurança e auto-domínio quando conversavam longe de seus ouvidos, no gramado. Pessoalmente, não passavam de molecotes. Havia entre eles uma mulher, que Monica não tardou em julgar ser uma prostituta literal. Tinha aquela pinta perto dos lábios que rapidamente se associa à profissional mais antiga do mundo. E aquele sorriso de canto de boca, naquela noite de gala com um decote que fazia os gorilas do sexo oposto arfarem.

* * *

Dois dias depois de ter trajado aquele vestido vermelho de brilhantes e aquela tiara da mesma cor, com sapatos pontiagudos e de salto, além de uma pesada maquiagem, Monica e Edward, o rapaz alto do bando, já trocavam juras intensas de amor. Um amor infantil, diga-se. Nem mesmo se beijavam, só davam-se as mãos, cruzavam os braços ao caminhar, mal se tocavam. Ela já se sentia à vontade entre os bolsistas, no horário das classes. Ou melhor, nos intervalos, uma vez que as regras da distinta instituição eram rígidas e Monica tinha medo de que as fofocas viajassem alguns quilômetros até o escritório do pai.

A Sra. Williams, dotada daquele clássico sexto sentido feminino e materno, esperava a melhor ocasião para abordar a filha. Não perguntaria: “Está se encontrando com um homem às escondidas?”, mas “Qual o nome dele?”. Justo numa tardinha, quando ambas silenciavam na sala e a mãe tricotava ensaiando o discurso na cabeça, uma carruagem deu sinal à janela. Segundo consta, era o criado de Henry, dizendo que Monica devia seguir com ele até onde estava o pai. “Uma conversa no meio do expediente?”, pensou a madame. Mas se tranqüilizou ao se dar conta de que o pai também notava os pormenores da agitada vida da filha: “Vá, vá conversar com ele!”.

Era de fato o criado, mas no banco de trás estava Edward. Ele havia pagado duas libras para que o condutor enganasse a dona da mansão. Capataz muito confiável, sucumbiu à pomposa gorjeta. É um valor que um bolsista duvidosamente poderia desperdiçar pelos cantos. Monica se sentiu divina com este regalo apaixonado. Ambos foram deixados a sós em um parque, o mais espesso da região. Brincaram, rolaram pelo gramado, se enroscaram pelos troncos. E aí Monica percebeu que toda a sua etiqueta não seria suficiente contra pulsões tão selvagens. Pediu, quase tremendo, de excitação, não de pavor, que só continuasse enquanto ela consentisse. O rapaz balançou a cabeça verticalmente. Ambos se embrenharam nas matas mais altas e no canto mais afastado daquele passeio verde, e Monica tentou fazer silêncio. Quando a afoiteza de Edward já era evidente, aliás, o único que se podia notar nele, ela pediu para seu namorado parar. O garotão não podia se conter diante daquela beleza loira tão frágil e agora corrompida. O sangue, o suor, a água da garoa que caía, tudo se juntou com outro fluido. Como nas garras de alguém com quem não se pode comunicar, Monica apenas rangia os dentes, paralisada pela dor do arrependimento e da genitália azarada. Tudo estava turvo demais para reações precisas como aquelas da polida sala-de-estar de antigamente, e ela sequer soube em qual segundo as coisas tinham passado de uma brincadeira entre dois inconseqüentes para uma outra coisa, uma violação; em que momento ela própria se converteu de aventureira intrépida em vítima de estupro.

Edward a largou de bruços, esgotada, e se retirou, como se nada tivesse acontecido. Depois daquele encontro voraz, Monica regressou a pé para casa, de saltos quebrados nas mãos, trancou-se no quarto durante três dias e só aceitou duas visitas: a mãe e a criada que trazia a comida, ainda que quase não a tocasse. A par do que talvez tivesse ocorrido, desconhecendo contudo os detalhes mais ásperos, a Sra. Williams apenas consolava a filha: “Há homens que não revelam sua natureza lupina logo ao segundo encontro”. O senhor e a senhora da casa julgavam ser uma fatalidade natural, o primeiro desengano amoroso de uma garotinha, e se aliviaram por saber que a preocupação com os desordeiros do colégio e as precipitações de Monica não iriam se repetir, resolvidas ambas de uma cajadada.

“O que os amigos de papai iriam dizer?”, foi a frase fixa, o fluxo neurótico que latejava na má-consciência daquela adolescente em prantos e frangalhos. Mas a experiência não fôra tão traumática, a ponto de no quarto dia o bom humor ter instantaneamente se restabelecido. Na escola, pôs as conversas com as antigas amigas, com quem rompera brevemente, em dia, chegando a uma concordata. Não contou nada a ninguém sobre “o bosque”. Na saída, Edward apareceu. Monica se limitou a fitá-lo com uma extraordinária repulsa, curvando-se em meia-circunferência, ainda abalada. Foi agarrada pelo braço esquerdo. Mas quando virou o oleoso pescoço, banhado em suor frio, não era o rosto do rapagote canalha, aquele arquétipo de Don Juan com requintes de maníaco, aquele que enxergou. Era um de seus comparsas, que defendeu o parceiro Eward: “Olha, ele achava que você era um tipo mais arrojado de garota. Ele chorou no meu ombro, disse que confundiu tudo, pensou que sua aflição fazia parte daquele momento de quebra de regras, da nova vida aflorando, de não ser mais uma menininha do papai…”. Uma bofetada na cara seria a reação mais natural, mas Monica apenas baixou ainda mais o rosto, constrangida.

* * *

Passaram-se mais duas semanas sem que ela dirigisse palavra àquela turma. Um dia antes do recesso de fim de ano, decidiu finalmente endereçar uma mensagem a Edward, ao vê-lo desacompanhado. Entregou-lhe um bilhete: “Encaminhe-se ao mesmo local do nosso primeiro encontro. Eu, Monica Williams, por ter sido manchada em meu sangue azul, dou-lhe uma segunda chance, com o ônus de que seja meu pelo resto da eternidade. Contei a meu pai sobre você.” As extremidades do corpo de Edward gelaram. Pensava vertiginosamente em todo o conteúdo do bilhete. Queria saber o que era contar ao pai sobre si, a que nível de profundidade o relato chegara. E conjeturava – se aquilo era mesmo uma proposta de casamento, quão rude não havia sido! Porém, como se esperasse por um acontecimento não muito diferente desse, pôs-se mais uma vez sereno, ajeitou a gola da camisa, pigarreou, socou uma mão na outra, suspirou, relaxou as costas e começou a andar em velocidade até uma casa, de propriedade anônima. Telefonou para a mansão Williams e disse: “Banco Wolfstation. Por favor, transmita o recado. O Sr. Williams precisa falar com o gerente de saldos, ele estará presente apenas às dezoito horas”. Era meio-dia e ele teria tempo para agir.

No reencontro, nenhum movimento suspeito, ainda que num certo breu das árvores. Pelo contrário, rumaram para a casa de Edward, onde a mãe os recebeu com pães de queijo e tagarelices amistosas. No correr da modesta reunião, mudança de planos: “Vamos nos reunir todos, os bolsistas do décimo ano, na casa de Mike”. Lá, um sobrado cinzento, a campainha tocou três vezes até que um risonho Mike desse as caras. Um teto a quatro metros de altura dos convivas, escadas em espiral, sofás fedendo a mofo. Um sítio suntuoso, embora semi-abandonado.

– Onde estão os outros? – perguntou Monica.

– Não haverá outros. Você está em cativeiro.

Alguém veio por trás e abafou-lhe o grito agudo com um saco grosso de algodão, que agora encobria toda sua cabeça. Monica foi levada para o sótão.

Enquanto isso, a garota soube que seu pai seria conduzido a uma cilada. O mais velho do grupo, ainda um rapaz, entretanto mais robusto e barbudo o suficiente para se passar por um respeitável representante bancário, interceptou o Sr. Williams antes que ele pisasse no banco, pelo fim da tarde. Passeavam pela cidade a quatro rodas enquanto conversavam, mas Henry percebia o tom abstrato do “sermão matemático”.

– Conte-me de uma vez, furtaram o meu cofre? E onde está o Sr. Phillips?

– Não, mas iremos… – respondeu o adolescente parrudo, ignorando por completo a segunda pergunta, sobre o real gerente do banco.

Henry Williams nunca havia levado um tiro. Ao ler romances e estórias de detetive sempre se indagava como seria a dor da bala perfurando a pele e a carne após disparo à queima-roupa. Era um ardor ou trauma semelhante a uma mordida brutal. A mordida de um urso, por exemplo. Foi na tíbia direita, pouco acima do osso do tornozelo. A perna inteira parecia ter sido tragada por uma fogueira. Mas fogueiras não fazem sangrar. O vermelho que grassava e se espalhava agora pelo chão da carroça mudou também o tom da dor, agora um repuxar insuportável dos músculos. O atirador puxou o homem pela camisa, imperativo: “Estamos com sua filha; se quiser que os jornais de amanhã contem o que está acontecendo na casa onde ela está, senhor industrial, não faça nada, e nos mande pra cadeia, inclusive. Não vai nos matar porque somos muitos”. “Tu…do bem.” E prosseguiu: “Nós queremos que na sua próxima visita ao banco peça ao gerente, o gerente de verdade, que aumente seu limite de transferências e deposite o lucro do ano anterior da sua tecelagem Wearing Co., que eu conheço pelas notas da imprensa, nestas quinze contas. Vai dizer que essa bala partiu de um ex-cliente furioso que não pôde identificar e que está fazendo isso para sua segurança legítima, pela integridade de seus bens e de seus familiares”. Depositou então um papelote no bolso do sobretudo daquele grisalho outrora imponente. “Não vai perguntar sobre sua filhinha, não é mesmo?… O que importa é… Bem, ela lhe será entregue assim que confirmarmos as transferências; esteja neste mesmo lugar.” Chutou-o para fora da charrete de ouro: “Esteja aqui, não chame a polícia! Nós temos tudo que a força da guarda desta cidade não tem!”. E não era mero blefe. O Sr. Williams mal se mexeu por duas horas, reclinado sobre um tronco, recusando até mesmo a assistência vespertina de uns andrajosos que passavam por perto. Até que percebeu que, pelos dizeres do malfeitor, deveria caminhar de contínuo até o banco, não longe dali, ferido como estava, para realizar o protocolo. Estava atrasado, atrasaria ao todo em mais de meia hora em relação ao combinado. Os cuidados médicos poderiam esperar.

Em torno de oito e meia da noite, com a conta da Wearing esvaziada e o referendo da matriz do banco em Londres (a soma era vultosa), chegava àquela clareira do parque público o reluzente carro do próprio Henry Williams em que um tiro havia soado, dessa vez com três capangas e Monica, toda encolhida. A filha parecia feliz e aliviada ao ver seu progenitor. Abraçaram-se, e ele perguntou:

– Aconteceu alguma coisa?

– Nada, papai… Claro que não houve nada!…

DATA NO REAL

Aconteceu a primeira vez quando eu tinha 32 anos, em 27 de fevereiro de 2021. Não recebo muitas visitas. Moro só. Estamos há quase um ano vivendo a pandemia do corona. Às 20h19 recebi uma visita insólita: alguém que bateu à minha porta, sem muito estardalhaço. Não tenho campainha. Fiquei alarmado, pois é preciso ter uma chave para ter acesso às escadas que conduzem ao meu apartamento. Pensei imediatamente: “O que um vizinho quer comigo agora?”. Vivo em paz e isolamento, mal sei-lhes os rostos. Decidi usar o olho mágico, e num átimo fiquei lívido. “Eu disse para ele não vir aqui! Nós não nos falamos há anos! O que ele quer com isso?!?” Disse em voz alta que não iria abrir, que era para a visita ir embora. Mas a resposta veio num tom e numa voz que me desconcertaram. Não pode ser ele – pode? Olhei de novo. Bem, se parece muito, mas a verdade é que nem se veste como ele. Uma barba média, acho que, pensando melhor, deve ser uns 10, 20 anos mais jovem. Calça comprida, camisa social, bem-abotoada, manga longa. Chove quase sem intercursos há vários dias, coisa que eu nunca havia presenciado no Distrito Federal. Decidi abrir a porta. Voltei a ficar confuso, dei três passos para trás – antes que pudesse pronunciar qualquer sílaba, o homem ergueu o braço em sinal de que eu me tranquilizasse e de que iria esclarecer toda a situação sem que eu devera ficar nervoso. Ele deu alguns passos dentro do apartamento sem pedir licença.

– Oi, eu lembro alguém para você?

– Sim. (Ele é a cara do meu pai, porra, só pode tá de sacanagem!)

– Meu nome é Rafael…

Essas 4 palavras pareceram me dar um choque. Meu cérebro girava com mil conclusões em intensa velocidade. Emiti uma risada sarcástica involuntariamente, afinal essa era a resposta que “tudo isso” parecia pedir de qualquer mortal sensível…

– …de Araújo Aguiar. Por isso eu o lembro. Como vê, você cortou seu cabelo.

– Impossível, que porra é essa?!

– 27/02/2021, dia que recebi a visita de um cavalheiro que me disse: “Meu nome é Rafael – de Araújo Aguiar, por isso eu lembro seu pai, não tenha medo!” Como calcula, pela minha idade, “ele já morreu”, isto é, para mim. Você um dia vai usar o cabelo curto de novo, e etc., etc.

Meu sorriso amarelo de deboche continuava na cara. Mas eu tinha que me mexer e respirar, então acabei por forcejar que ele, uma vez que já tinha entrado, se pusesse à vontade, que se sentasse onde quisesse… Não havia mais hostilidade em meu ser.

– E, por fim, aos 50 anos você fará a mesma coisa, com você mesmo. É inútil explicar. Eu sempre tive um forte senso de destino, desde criança, e isso não vai mudar em tempo algum!

– Que me resta – devo acreditar em você! Se não quiser revelar muita coisa, bem. Mas então por que veio? – não vou perguntar como…

– Eu vim salvar sua vida. Não vá trabalhar amanhã! Você iria morrer nas ferragens do metrô. Assim de chofre é tudo quanto posso dizer. Ah!… Os livros! – ele vira minha estante na sala e correu para esse setor da casa de que tanto gosto. – Revelações chocantes sobre você, eu direi duas: um dia essa não será mais a sua casa. Você morará num espaço um pouco maior. E morará com algumas pessoas… – Ele continuou desfilando os olhos pelas prateleiras próximas da entrada da varanda, parecendo se agitar e querer mexer em tudo ao mesmo tempo, sem conseguir se decidir.

– Ah, é tanto tempo! Vou dizer a você, em caráter confirmatório, anedotas relacionadas a alguns desses exemplares.

Eu fiz uma cara de “Não tema, apenas continue o que você está fazendo”, sem precisar emitir sons.

– Comos, Carl Sagan. O livro de que não gostamos, de que você não gosta mais. O outro dele aqui, O mundo assombrado… Ó, alguns dos nossos próprios livros! E David Harvey, Condição pós-moderna… Não se preocupe em separá-los dos outros… Dimitri acabará não os comprando…

– Eu já esperava!…

– Já tem livros em latim e italiano? Vou te dizer: eu sei 6 línguas. Leio nas seis. Tirando o português, é claro. Você aprenderá mais essas duas e enjoará de aprender outros idiomas. Assim se dará.

Ele falou isso porque viu uma folha com uma conjugação de verbos em Latim.

– Schur… Haha! Você já se desiludiu com a psicanálise, não é verdade? Roazen, já quase sem lombada… É, é pra essa época que eu vim!

– Caralho!…

– Os exemplares de jornal da Escala, a obra completa de Nietzsche que eu comprei no curso de sociologia!

Ele parecia estar mais falando consigo mesmo do que… Quero dizer, parecia estar sozinho na sala! Passou a mão por mais algumas lombadas de livros…

– Foi há pouco que você os meteu em ordem alfabética de novo, não foi? Você vai ler todos estes que ainda não leu e tem dúvida se vai viver o suficiente para ler de fato… José Lins do Rego, Pedra Bonita… O apanhador no banco de centeio… campo de centeio… Solha, Israel Rêmora ou o Sacrifício das Fêmeas… Aquele It ali em cima… E este computador…

Ele apontou para meu PC ligado.

-…Ele tem uns 2 tera de HD, não é isso mesmo?

– É.

Ele parecia rir de uma coisa nostálgica e bem antiga, como um tamagotchi para mim.

– Em qual tomo do Sítio do Pica-Pau Amarelo você está?

– O quinto. Você deve lembrar que eu lia sempre no banheiro… O exemplar está ao lado da pia…

– É mesmo!!

E continuou o exame…

– O Capital… Sabe, Rafa… As revoluções mentais e de caráter que mudaram sua vida até aqui… Houve várias, não houve? O contato com Nietzsche, a conversão desabrida ao marxismo, depois a virada em 180 graus quanto a Platão… A descoberta dos reais méritos da “Pseudanálise” de “Fraude”… Você ainda viverá duas revoluções nessa mesma escala de valores… Continuará perfeiçoando sua ética, lixando sua estátua moral, melhorando e ficando mais e mais conformado consigo mesmo…

– Interessante. Só que eu não consigo imaginar…

– Se pensa que vou contar essa parte em detalhes, ou o que acontece lá fora, está muito enganado!

– Muito bem – talvez seja melhor assim!

– Ah, os CDs… O que você anda escutando na last.fm?

Agora nós dois sorríamos, cúmplices de um crime perfeito incomunicado.

– Eu estou no meu “mês de fevereiro de Overkill”… Se tornou minha terceira banda, só atrás de Metallica e Black Sabbath. Nós montamos umas listas bem fodas, divididas em “gêneros” que “enxergamos” nas canções…

– É, é isso mesmo! Uau!

– Você se surpreende com o próprio passado! E eu que recebo um “viajante no tempo” estou aqui, com sangue frio…

Eu queria terminar a frase para ele não me crer tão pedante ou não aproveitar qualquer brecha, mas ele deu de ombros. Nós não iríamos conversar sobre nosso pai, é claro que não.

– Então… eu só vim reiterar: não vá trabalhar amanhã, e um dia você estará contando isso a você mesmo também… Era o objetivo total da minha visita, o resto foi bônus!

– Não imaginava coisa diferente, até porque hoje…

– Mas vou quebrar sua expectativa…

Ele retirou do bolso da calça um cartão que eu nunca vira. Disse que era para eu usar em 2030, ou assim que a tecnologia o permitisse. Que todos os dados necessários estavam no próprio cartão, não havia uma senha, meu corpo bastaria para ser reconhecido como dono legítimo do objeto e daquilo que eu possuiria através dele… E ele me disse:

– Você encontrará algum dinheiro. Ele é seu. Eu vou embora agora… Você queria ter me perguntado no início… É, aconteceu dessa mesma maneira, e eu lembrava algumas reações que você forçosamente teria… Eu mesmo me embananei e esqueci de dizer que tinha a chave, mas que importância tinha, quando você percebeu que era eu! Agora vejo que o homem que me visitou também havia se embananado! Por isso abri lá embaixo, mas não queria ser mal-educado e deixar de bater, aqui em cima… É verdade, não me esforcei para cumprir um script ou atuar… Não é que, como antes ele tinha batido, eu bati também… É que realmente não me parecia idéia boa… Queria também que coincidisse de você estar em casa, não tinha certeza mais se o horário estava correto, se essa primeira visita daria certo… Mas pode deixar, eu vou te trancar aqui.

E riu.

– Até sempre!

– Até sempre!

Eu manuseei aquele cartão de crédito do futuro, e deplorei a tragédia da condição humana: então é sempre assim mesmo! quando finalmente conseguimos dinheiro, é quando já nos tornamos indiferentes a ele…