INTRODUCTION TO VEDANTA: Understanding the Fundamental Problem // INTRODUÇÃO AO VEDANTA: Mais próximo à filosofia ocidental do que se imagina. – Swami Dayananda, 1997.

“This book is based on the opening talks given by Swami Dayananda at the start of a 3-year course in November 1979, at Piercy, California. The first text studied at this course was Tattvabodha, a simple textbook of definitions, comprising an outline of Vedanta. (…) Barbara Thornton compiled, abridged and edited the talks.”

1. AS BUSCAS HUMANAS

Os purushartha buscados pelo purusha

(Os 4 bens supremos buscados pelo homem.)

dharma ética

artha segurança (‘bem’, ‘felicidade’ ou ‘paz’ na filosofia ocidental)

kama princípio do hedonismo

moksha liberação

Artha e kama pertencem ao reino animal. A parte mais primitiva e ancestral do socius e os instintos mais básicos. Apenas o dharma e o moksa constituem buscas do homem, indivíduo, na acepção mais nobre da palavra. O homem, ou o animal super-ansioso.

Kama ou Mercúrio

“Tempo condiciona o desejo [desejo stricto sensu]. Espaço condiciona o desejo. Individualidade condiciona o desejo.” Quase podemos dizer que o princípio mercurial foi enunciado no Ocidente por Kant. Seguem-se considerações no reino da Estética.

Artha ou Especificidades do homem

Sendo artha e kama as metas mais volúveis para o indivíduo, que se guia por valores mutantes, a cultura ou civilização é uma forma de tornar estes valores mais estáveis, estabelecendo um valor dos valores (prisão consensual ou condicionada).

As normas que controlam o livre-arbítrio se chamam karma.

Aqui iniciam as considerações sobre a subordinação do prazer e da segurança à ética. A primeira constatação do homem ético é: o próximo também vive (é purusha) e busca os bens supremos (purushartha). Não posso usá-lo como escada para minha auto-realização.

A fonte da ética

Se nenhum sistema ético ou ética idiossincrática é perfeito(a), há sistemas éticos que constituem medianas sociais exigentes e boas o suficiente para serem seguidas quase universalmente. A ética que deriva de escrituras sagradas de natureza remota no tempo, chamada de código religioso, é chamada no hinduísmo de dharma. Dharma estão acima de karma, porém karma é uma forma básica do dharma. O dharma é secular (deste mundo). O material de onde deriva pode ter qualquer status (secular ou sacro).

Interpretação de imperativos éticos, Falibilidade do homem e da astúcia: Lei e virtude como meios para um fim ou fim em si

Do valor destrutivo da Verdade, o imperativo ético mais difícil.

Da não-obrigatoriedade do cumprimento de tabus (vocação especial do sacerdote ou asceta), parte sagrada ou tradicional dos imperativos éticos.

O Dharma

O dharma é um misto de imperativos éticos seculares (senso comum) e fórmulas consagradas nos Vedas, com interdições e recomendações específicas para o seguidor do livro.

O que no Ocidente se costuma chamar de karma, sem conhecimento oriental, é justamente um princípio do dharma verdadeiro: o de que toda ação apresenta conseqüências, a curto, médio e longo prazo, boas ou ruins. O karma está falsamente associado, na cabeça do ocidental leigo, ao destino inexorável.

Punya é a boa ação cujos frutos podem ser imediatamente notados e colhidos. A própria prática da boa ação pode ser automatizada ou introjetada individualmente como um prazer.

Papa é a má ação cujos frutos podem ser imediatamente notados e colhidos. O Ocidente associa a expressão a pecar (e curiosamente não associa nada a punya). Papa tem a ver com a ocorrência de um futuro indesejado.

A árvore purushartha

Dharma está na copa da árvore dos purushartha, liderando em importância. Até agora a árvore parece um triângulo ou uma divisão tripartite. Foram citados apenas 3 dos bens supremos buscados. Isso tem uma motivação ulterior.

Moksha na verdade está além do dharma, mas na vida da maioria absoluta dos seres humanos não desempenha qualquer papel. Veremos adiante o quanto eu me oponho a essa “tese”… É possível levar uma vida prazenteira, feliz, confortável e mesmo ética, legítima e não-destrutiva para os outros; mas o dharma, sendo secular, possui limites bastante claros. É o limite dos bens supremos temporais. A partir de então fala-se em moksha, o que já é abstrato ou mais-que-abstrato, já que a ética é em si abstrata: supra-sensível.

Quando o corpo se torna uma prisão: Do belo & Para além da individualidade

O que Platão quer dizer com a metempsicose? A roda dos desejos.

“Que tudo esteja no seu devido lugar é evidenciado pelo desejo de que nada fôra diferente do que as circunstâncias do momento.”

A vida inteira como este momento.

Todo ser humano tem a memória de já ter vivido um momento de moksha. Há correntes e há cavernas.

2. A QUESTÃO FUNDAMENTAL

A fonte do erro

Estar no meio do caminho é sempre pior que fora do caminho, para não dizer “no caminho certo”. Melhorando a analogia, saber de algo pela metade é sempre pior do que nada saber.

A auto-avaliação da inadequação

(…) Começa a adquirir um ar inopinado de auto-ajuda barata!

A busca pela perfeição via mudança

(…) Descrição modorrenta da vida do pequeno-burguês.

Valores pessoais determinam os tipos de mudança

(…)

Atitude quanto a mudanças

(…)

Ganho por mudanças pressupõe perdas

(…)

Volubilidade do prazer

(…)

Reconhecimento do problema

(…)

Análise da experiência

Finalmente algum conteúdo não-facilmente apreensível pelos adultos de 20 anos típicos (idiotas profusos): “A pessoa madura atinge o desapego (nirveda). Discerne que o incriado (infinito) não pode ser produzido pela ação.” Literalmente nenhum cristão é capaz de entender a segunda frase. O mundo enquanto mundo só tem sentido para o cristão porque é um mundo criado, com um Autor; derivado de uma Ação todo-poderosa daquele que é nossa imagem e semelhança elevadas à enésima potência.

Nesse momento o não-experimentado-o-bastante cai na tentação de contrariar a própria descoberta, e crer-se diferente só porque “descobriu” o tal “infinito”. E esse erro está sendo premeditado neste tópico pelo próprio autor! Quanto mais sabedoria, mais humildade, não é possível entender esse incriado e superar a ação, modo fundamental do homem! Em outros termos, o autor está confundindo o leitor leigo, não orientando-o bem.

A inadequação é centrada em si mesmo

Dos males o menor: essa interpretação pelo menos já desautoriza a conduta do convertido fanático que “vende todas as suas coisas” e parte seguindo Jesus… Nada ter e tudo ter são essencialmente idênticos.

O livro conceitua brahmanah como “pessoa madura”, descartando todo o racismo inevitável nos textos sagrados hindus. Não estou dizendo que não deveria fazê-lo, mas passa de largo que na literatura, e durante milênios, essa não foi uma possibilidade: ou se era da casta ariana ou os arcanos lhe estavam vedados!

“He recognizes that what he really wants is a drastic change in himself, not a situational change.” Não! Como dito, o autor cai na precipitação (diria, cai no precipício) de piorar o erro, após citar o aforismo do incriado!

Noção de adequação: a norma para se auto-avaliar

A exposição retroagiu de novo para contemplar os babacas na casa dos 20. Exemplo: “One cannot consider something as bad unless one knows what is good. There is no dissatisfaction if there is no norm for satisfaction.”

“…Therefore one struggles for security and pleasure” O idiota continua querendo. O não-brâmane! Porque a noção de adequação é mais uma falsificação das aparências.

A busca direta pela liberdade a partir da inadequação

Moksha como a “senda” que leva à adequação (falso!). Mumukshu, quem busca a libertação. De nada adianta, porém, abrir um terceiro olho se ele também é cego!

Mumukshus e hedonistas: demasiado parecidos, demasiado pequenos olhados à distância, demasiado humanos…

E neste ponto, falta dharma, a ética, único campo genuíno das relações humanas (nirveda nirvana)… Mas foram 29 páginas circulares e silogísticas até aqui, num livro de apenas 120!

3. A BUSCA MADURA

A solução fútil

Resumo do capítulo anterior.

A experiência da adequação

Mais um pouco de resumo, i.e., tratamento infantil do conceito de ataraxia dos gregos antigos.

“Alegria e inadequação não podem existir em mim no mesmo instante.”

Falácia. O alegre pode se sentir inadequado (o ganhador da mega-sena, que “tem tudo”, mas sabe que não tem “o que mais precisa”). Ou seu inverso, o infeliz que se sente adequado: segue a moral dos melhores, é ético, vive porém com pessoas corrompidas e inferiores. Vive da melhor maneira, mas seus vizinhos, sua sociedade, fá-lo um rematado infeliz.

Distinguindo conhecimento e experiência

Mais colocações óbvias.

Mais falácias:

  1. “Experiences can be contradictory.”

Talvez falar em falácia seja exagero, mas é uma meia-afirmação inútil: experiências são, inerentemente, sempre contraditórias umas com as outras. Não é questão de possibilidade, é uma certeza inexorável.

  1. “Knowledge cannot be contradicted.”

O conhecimento é apenas um raciocínio qualquer. Tanto quanto as experiências, os conhecimentos se contradizem o tempo todo. Mesmo se conhecimento = Verdade absoluta, há várias “verdades absolutas”, mais cedo ou mais tarde a filosofia e a observação da vida diária chegam a essa conclusão. E não há árbitro capaz de decidir pela preeminência de uma verdade absoluta sobre as outras. Aporia.

Parece um livro-texto furreca de psicologia dos anos 60: (p. 33) “Any given set of perceptual impressions gained from experience may or may not conform to knowledge. To qualify as knowledge they must pass the test of inquiry.” O que, uma junta de especialistas, banca monográfica?! Haha.

“The questions are: Is the experience of a sun that rises in the east and sets in the west fact or not? Is this observation true? What about the polar sun that can be seen traveling in a circle? How does this observation correspond with fact?”

“Knowledge: With respect to the earth the sun is stationary, neither rising nor setting nor moving in a circle” Então o conhecimento são os universais!

“After inquiry and analysis, the contradictions are resolved in a true understanding” Desde que num tema já exaurido pela ciência da época.

“The experiences were only mithya, apparent”

Investigação da natureza do si mesmo: atma-vicara

O sol, comparado a um si mesmo, é fixo, absoluto, mera coisa. Podemos dizer que temos um conhecimento objetivo sobre o sol. E, ao lado dessa afirmação, podemos dizer que ninguém tem um conhecimento objetivo sobre qualquer outro alguém (ao sujeito não é dado conhecer o sujeito). Sobre adequação ou inadequação de alguém. Como o Homo sapiens é primeiramente um animal crítico, dir-se-ia que “até Alexandre o Grande tinha suas inadequações”, mas que nos confins da Terra acharemos um “perfeito inadequado”. Por mais que queiramos, Bolsonaro, p.ex., ainda é costumeiramente adequado, até endeusado (absolutizado!) por muitos “seres humanos” (não-brâmanes)…

“A investigação necessária para resolver a questão particular da auto-adequação é chamada atma-vicara. Atma significando ‘eu’ ou si mesmo, e vicara atendendo por pesquisa, inquérito, investigação.”

“O tópico deve ser mantido em aberto.” Ó!

O que se tenta aqui não é resolver uma equação de segundo grau, rapazes, é um pouco mais complexo que isso!

Análise da busca pela adequação

Repetição.

“A busca pela adequação é universal e não está em poder de ninguém desistir”

Repetição (cita mumukshu duas vezes, nada conclui).

A natureza da realização

“Mudança de situação, mudança de lugar, passagem do tempo são relevantes somente para aquilo que é limitado.” Bom, aqui pelo menos refuta-se o além cristão. Não há redenção à morte (futuro temporal máximo do ponto de vista individual).

A conquista do já-realizado

(…)

Liberdade da inadequação: uma meta já consumada

“The first 3 human goals, dharma, artha, kama, the ethical pursuit of sec…” Grave erro. Quando foi que o ser humano incipiente buscou ética? Jamais!

“Inquiry into the nature of adequacy shows that this is the only category in which we can put moksha.” Desisto desse livro.

A busca madura

Grosso modo, podemos reduzir o dito à p. 43 como: “sou burro, doravante busco conhecimento”. Nada que Sócrates-Platão não tenham ensinado com palavras muito mais poéticas.

“An informed mumukshu is called a jimasu” Mas o mumukshu já não era “informado” (maduro)?

mumu… busca liberdade

jima… busca conhecimento

“Many examples can be found in almost all religions of severe, painful, and sometimes strange practices undertaken for the sake of deliverance from limitation.” (mumu) Muitas, inclusive o próprio asceta hindu. O Código de Manu está inteiramente informado, para usar um trocadilho, desses casos.

A progressiva decadência (auto-retirada do mundo da ação) do homem…

“This inquiry into the self which leads to discovery of the nature of oneself is called Vedanta.” Charlatanismo. Não o Vedanta, mas esta palestra.

4. IGNORÂNCIA E CONHECIMENTO

Vejam os subtítulos de mais este capítulo inecessário e “circular”, para “pegar leve”:

Todos nascem ignorantes

A desfolhação da ignorância

Conexões: sambandha

Objetos são conhecidos via percepção

Os meios para conhecer devem ser adequados

Inferências são baseadas na percepção

Conhecimento intelectual é conhecimento inferencial

O conhecimento é incriado [Platão já esteve aqui, etc., etc.]

Conhecimento válido

Percepção é inútil para o auto-conhecimento

A necessidade do auto-conhecimento

Os meios de obtenção do auto-conhecimento

Para o auto-conhecimento, procure um guru qualificado [mero esquema de pirâmide milenar]

Conhecimento indireto e direto via palavras

As palavras do guru dão o conhecimento direto do si mesmo

Chuva de lugares comuns. Creio, por bem, que devamos parar por aqui! Aquele que necessita de um guru não pode “ser salvo”, muito menos “salvar-se a si mesmo”…

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