O mundo é constituído de portais móveis de acesso: é a única condição para o aparecimento de um novo homem. Quando tem de acontecer, a pessoa fica 9 meses na soleira desse estranho portal, esperando que lhe cantem a senha. Não há uma regra fixa para determinar como e com que freqüência se movem os portais, nem quanto tempo depois de utilizados eles se fecham. Há um número bastante elevado deles, porém muitos não preenchem as condições necessárias para convidar humanos. Ficam em estado de latência por um grande período, até que se saiba que viraram pedra e que não serão acometidos da magia da viagem, sob nenhuma hipótese, até que devagarinho se fecham, desaparecem, somem até os registros de que um dia foram uma tentativa. Em compensação, há tantos outros portais que recebem mais de uma pessoa! Não há realmente um limite conhecido, mas o portal envelhece e se danifica com o uso, como qualquer das criaturas que passa por ele. Há relatos de portais que recebem e por onde passam aqueles que um dia se converterão também em portais. Muitos seres humanos não conseguem se separar, por gratidão, do portal que lhe trouxe a este mundo, e o conservam ao lado por muitos anos, até que a lei natural encerre a existência de um dos dois (usualmente do portal em primeiro lugar) ou que o sujeito seja chamado para participar de complicados processos de forjas de novos portais, para os quais se exige muita responsabilidade e um certo exclusivismo: tudo o mais na vida do indivíduo passa a ser executado em função do seu novo trabalho. Outros seres humanos, porém, vêem seu portal desmanchar logo depois do acesso. Muitos passam décadas sem vê-lo, sem lembrar de seu aspecto, até que há um reencontro. Certo é que, embora tragam muitas pessoas, portais não podem oferecer o percurso inverso: ninguém pode abandonar este mundo para voltar, e do que havia ali é tabu comentar!
Quando em algumas regiões do mundo os portais parecem já ter perdido o fôlego de outrora, há sempre uma contrapartida, um outro lado do mundo em que os portais vivem uma era de ouro e dão boas-vindas a muitos seres. Não se sabe quando e como surgiu o primeiro portal e até quando poderá ingressar gente e os portais poderão funcionar e cumprir sua missão, que é afinal o que eles sabem fazer. Quem tenta adivinhar são os próprios marujos dessa migração dimensional, que tentam estabelecer um limite máximo de portais, bem como um número mínimo, sem os quais o equilíbrio seria desfeito. Atualmente há uma quantidade assustadora deles, mas a vontade de que eles existam declinou. Tentaria descrever, se pudesse, a melancolia e a sensação de estranhamento provocadas quando o portal se despede de seus respectivos viajantes. Estes olham para onde não mais está mas poderia estar aquele, ou seja, para o vazio, fundamentalmente, e exclamam: “A porta por onde eu vim se fechou! Que consolo tenho eu, senão terminar a minha parte da eterna obra de perecimento, mais humilde do que nunca?”.
8 de outubro de 2011
