As conversas com amigos. Inocentes. Sobre o futuro. Despretensiosas. De pé. Enrolando para haver a despedida. O estômago só roncará depois. O céu enegreceu. Sei que foi só fumaça, era como o interlocutor de dentro, eu quero crescer, estourar, enrugar, gemer, ah
O sofrimento é o que nos torna únicos. A música é a única prova. O único sofrer está nela.
Eu sou o que eu não posso ser na telinha jogando o jogo real da vida.
* * *
[untitled]
Já fui mais sozinho?
Me apegando a terapias
Rolando no vômito
Estudando
Sendo expulso, reentrando, descansando
Exasperando-me por coisas vãs
O pão comprando
Já fui mais sozinho?
Cinema sem amigos…
A família decepcionando
Não estou namorando
Quero pedir carona no coração de alguém
Muito ermo esta parada, este ponto.
* * *
VÃ VOCÊ
Você é o gato de Schroedinger do meu coração
viva e morta, puta e bela esposa, imprestável ex-amiga e vício mais vivo, meu amanhã, meu eterno e meu nada, insignificante a ponto de merecer meu poema.
*
Alguém mais interessante como um personagem que conservo.
Casca de carne.
*
Você é só isso
Casca de carne.
A musa inspiradora dum escritor
Mas eu prezo a escrita mais que qualquer coisa, então
Realmente isto está 20 mil léguas acima de 1 beijo.
*
Você é uma planta desprovida de atitude que tem pena de mim.
Jack, O Estripador, o maior serial killer de todos os tempos, está relembrando um por um de seus assassinatos e tentando desvendar seus motivos mais profundos para cometê-los, se existirem, antes de terminar a sua grande obra chamada vida com o homicídio-apoteose: o próprio. Antes do suicídio se consumar, uma entidade interrompe Jack e diz que ele não conhece a sensação de poder como pensa que conhece, nem a de privar o ser humano, efetivamente, da existência, já que há muitas verdades metafísicas que ele ignora. Para ele se tornar um serial killer completo, deveria segui-lo. Seguir Legion. Aliciando Jack, ele quer que o estripador o ajude a erguer uma catedral do medo capaz de reunir todas as almas penadas do Outro Mundo, a ser batizada de Asilo, o pré-requisito para fazer os dois planos (o além e o aqui-e-agora) fundirem-se num só. Em troca, Jack ganharia o direito de ser o vice-pontífice desse reino do horror e a imortalidade: poderia, agora sim, se matar no mundo dos vivos, somente para ser eternizado como Jack, O Estripador, o morto-vivo—Jack, o Supra-Extirpador! E é o que ele faz…
… os guinchos dum patinho de borracha na banheira deserta, a risada dum bebê que não pressente o perigo, uma broca de dentista em funcionamento, e depois vários e intensos gritos de morte, de crianças e mulheres—acompanham a soturna e deliciosa melodia de Beethoven …
1999
Michael LeRoi jubilou no curso de literatura por vícios como o álcool, e como não queria voltar à casa dos pais, no estado natal, cabisbaixo e derrotado, tratou de achar um bico como taxista—a profissão mais legal do mundo, dizem—no mesmo local, a fim de ganhar a vida. Miserável vida. Numa noite de trabalho, um dos passageiros de Michael não era flor que se cheirasse e acabou sendo assassinado num linchamento coletivo, bem na sua frente, logo após descer do veículo. Temendo pela própria vida, Mike dá o fora da cena do crime cantando pneu. Algumas horas depois ele descobre que o passageiro falecido havia deixado uma sacola no banco de trás com muito dinheiro—20 mil dólares—… Pelo menos para ele, isso era muito dinheiro, sim. Grana, muita grana! Que Mike usa para comprar presentes para toda a família antes de passar merecidas férias em sua antiga residência, simulando que está tudo bem, que ele vai seguir carreira…
Os mesmos fulanos que tiraram a vida do passageiro desconhecido descobrem tudo sobre Michael LeRoi e sua vida precária e patética. Os pais e o irmão caçula de Mike são os primeiros a pagar—com a vida—pelo inocente uso dos 20 mil dólares… Como se a situação do taxista, ex-taxista ou seja lá o que ele for agora, não pudesse piorar!!
Drenando um pouco mais de seu vigor vital para chorar as mágoas num bar de quinta categoria, Mike é abordado por uma mulher muito suspeita, Agnetta, doravante apenas Nettie. Uma sacerdotisa de magia negra, poderosa manipuladora e rainha dos vodus. Ela seduz o bêbado e ambos dormem juntos essa noite. Com seu dom macabro, o propósito desse flerte é cedo revelado: ela costura uma máscara na altura do peito de Mike, que daqui em diante será conhecido somente pelo apodo Shadow Man, uma entidade capaz de fazer travessias entre as duas dimensões do universo, o Lado dos Vivos e o Lado dos Mortos. Isso porque agora ele não está nem vivo nem morto, propriamente falando… Na verdade, essa dicotomia é tão absurda quanto a descrença no absurdo!
… na poeira ou terra batida, é um som seco e áspero, como o de pequenas e frágeis pedras sendo esmigalhadas pela sola de sapatos frementes; atravessando canos, alumínio ou metal, o som é aquele típico clank, clank; superfícies molhadas farão aquele squish, squish análogo ao dos monstros do lago nessie …
Ultimamente, a ancestralmente sábia e bela Nettie, que não sabemos há quanto tempo co-habita com os vivos, anda tendo sonhos proféticos acerca da vinda do Apocalipse. São cinco—e não quatro—os arautos do Armageddon. A energia negra que possibilitará a invasão está próxima de ser finalmente reunida e despejada, ela o sente. Alguém passou os últimos séculos colecionando almas…
Michael, Jack, Legion, Nettie…
… o tempo está correndo e Shadow “Mike” Man, a mando de Nettie, precisa correr atrás das almas negras pendentes antes dos inimigos LOUCOS, ou será o fim dos tempos como a humanidade os conhece e concebe! A profecia interpretada por Nettie significa que, além de Jack, Legion tem outros subordinados super-eficazes no seu trabalho mesquinho de artesãos da carne podre: outros dos maiores serial killers da História se juntaram à dupla nessa cruzada | anti-cruzada, prótons e neutrinos no café-da-manhã …
Assim que entrou no bar sua figura se distorceu em três:
MOSCA FILOSÓFICA:
E o que acontecerá, num mundo sem dinheiro outra vez?
OCIDENTAL OBSCURO:
Como chegamos a isso?
MESTRE TRÁGICO DO EXISTIR:
Eu voltarei a reinar supremo!
OO:
Bobagem: não importa em qual mundo, sempre estaremos eclipsados! Nossos sonhos debaixo dos escombros, a promessa nunca cumprida. E você, Mosca Pensante?
MF:
Eu não estarei viva até lá, para mim isto basta.
MTE:
Seu nome é mesmo “Ocidental”? Pois parece que o Oriente, e o Sol, e a Lua, e todas as estrelas desta e de outras galáxias não passam de buracos negros, uma ruína perene, se é que isto não seria um contra-senso! Tem medo do amanhã?
OO:
O Mestre devia saber, eu sou o ocaso de todos os tempos e otimismo não posso enxergar. Fui ensinado desde cedo que é falácia. Mesmo que sejam mesmo, você impetuoso, o outro cavalheiro inseto esperto, superiores a mim, não importa, desde que do meu ponto de vista Deus, Gaia, o estrume e o escaravelho estão igualados.
MF:
Quem vai pagar a conta?
MTE:
Vocês não são moscas, são homens-tentáculos, sempre agarrando nossas pernas e nos fazendo descer do céu. O nosso céu pessoal. Mas ainda hoje e ainda na terra eu sou senhor. Como diz você, Sombrio: contra os fatos! Dentro do meu coração tenho espaço para todas as contradições, e até para o seu NÃO! E sobra um bocado para a indecisão.
OO:
Mas me conte do seu Reino, Quimera do Circo!
MTE:
Meu avesso regurgita moedinhas, eu sou o fliperama que despeja fichas ao invés de puxá-las. Quem quer ser um indigente? Moscas não conseguem se pensar sem seu açúcar, porque sem seu açúcar estão mortas. Mas eu sou massinha de modelar. Eu sou a esperança para frente e até para trás. Sabe escrever, não sabe? Sabe se ser—e ainda lamuria pelos cantos! O triste é que gostaria de lhe dizer que falta algo, mas não falta nada! Você já tem você. O resto são moscas na sopa, ou no refrigerante, certo? Vou zunir minha verdade estilizada: sou do topo da casta. O sonho com pés no subsolo, cabeça na estratosfera, banho gelado ou que escalda.
Com o tempo o Um vira nós 3—ou até nós 4, quando o Judeu Maometano quer ressuscitar—, as pessoas rumam cada uma para um canto, concertam seus solilóquios, treinam interações e depois festejam juntas, não importa se como escravos ou senhores. Saturno acabou, que venha Marte!
Quando as forças produtivas colapsam, o forte e seu instinto protetor é que cagam as regras!
A pressão absurda da ação imediata. A música é inimiga da preguiça e diante dela nosso maior arrependimento é não ter feito coisas o bastante. Ficar paralisado aprisionado soterrado se torna por 3 minutos a maior dor do universo. Desorientação como barata sem cabeça—para onde eu vou? O que devo começar agora para não perder para o tempo? Depois o aparelho a máquina desliga e voltamos ao estado anestesiado anterior. Aquelas metas foram aniquiladas não podem ser lembradas a pulverização do heroísmo. Meta utopia ridículas. O cigarro que precisa ser aceso, para fazer ode (elegia?) a um precioso momento irrepetível. O coração batendo mais forte—ela vai voltar. Os anos dourados, a lembrança cor de sépia acinzentado… desmancham com prazer com o sereno do silêncio. Se bem que permanece o zunido cósmico de fundo. Seria uma troca de estilos de poder ao invés da perda de poderes? Sabemos que a música é a onda que leva o homem até a crista máxima, o acme do movimentar, estar vivo, deixar a vida passar… É a projeção da perfeição poética, o sumo do desejável, o supra-homem, sem carne. Mas não é dizer que seja professora dum projeto possível, carnoso! O homem tem seus limites, e quaisquer que sejam os futuros, eu—como eu—não pertenço a eles. Para mim, para mim, o que é a música, senão epilepsia, trânsito momentâneo do caótico? Eu sou o miúdo profeta do silêncio. Nele eu ajo ou fico em crisálida, porque minúsculos e discretos como somos só precisamos de um canto para ficarmos quietos.
A bolha chamada momento é impiedosamente circundada pelos nões do vazio. Assim que se evade, o curso normal segue. Pode soar chato, mas o som não se propaga no vácuo…
Misérias antepassadas. Rascunhos maravilhosos. Implosões no meio da obra.
Não devem me enganar, essas sensações. Sigo trilhando o meu caminho. Frio, que é o melhor…
“o homem e seu gosto pela contradição, que ordinariamente o leva a deformar e a interpretar mal mesmo as coisas proferidas com maior clareza”
“penso que teria de renunciar a contribuir para o progresso da filosofia, se quisesse ocupar-me em instruir a mocidade.” O polidor de lentes.
“não é necessário, para que eu saiba, que saiba que sei, e muito menos ser necessário que saiba que sei que sei”
29: propriedades do mundo fenomênico
Toda moral é provisória.
* * *
B) SCOTT FITZGERALD
“aquela eterna inércia que vem viver conosco um dia e fica até o fim.”
Nosso suposto auge social é só uma mancha.
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C) SHAKESPEARE
Ares de Romeu & Julieta. O Direito (até pré-romano) de matar a filha caso esta não se case com o favorito do Pai-Deus. As escolhas são três: o casamento indesejado, o convento ou a morte.
“O Amor não vê com os olhos, mas com a mente; por isso é alado, e cego, e tão potente. Eterna criança: eis como é apelidado, por ser sempre na escolha malogrado.”
Bem como em Hamlet, a peça dentro da peça.
“Sou feia como um urso. Para feiúra tal não há recurso.”
“Com prosa lhana João pega Joana. Quem boa potranca tem, acha que tudo está bem.”
A peça é trágica, embora seu fim seja feliz. A peça dentro da peça é cômica, embora trágico tenha sido o roteiro.
* * *
D) REPRODUZA ESSE POEMA, POR FAVOR!
Sinto-me tão pobre e bajulador!
Comparado à 10treza de Leoda20 eu devo ser um amputado.
Pois pra mim gramática é ciência exata
o que tenho de introjetado
aprendi dos mestres mas não sei a equação
Nossas mentes não suportam mais!
mal posso suportar a visão dum teclado ou duma lira
Toda vez que me debruço na janela para fumar, porque não tenho mais um cinzeiro, eu quebrei o cinzeiro, contemplo a mesma paisagem soturna. Tão próximo, mas tão distante, gesticula um objeto na penumbra. É como se estivesse nu. E quase está. Ela desempenha seu serão. Obviamente eu não sei seu nome. Obviamente, eu não sou um dos seus consumidores. E acho melhor conservar na utopia a brasa encendida chamada meu peito. Escura como está, e sem rosto, como manequim, ela é meu carvão. Ela pulsa. É a única viva esta noite. Como em todas as noites. São só sete minutos que a observo a cada dia.
Mas agora estou enlutado. Viro-me para baforar a fumaça pelas narinas e quando fixo de novo os olhos na reta—algumas árvores, uma pista, prédios nas laterais nos separam—ela desapareceu. Se foi minha putita.
Ouço pneus cantando no asfalto… Só a amo, só me enterneço, porque ela não é minha. Meia hora. Suja por dentro. Lubrificada. Que macho sou eu que não posso comprá-la? Comprar-lhe um pão com salsicha. Amanhã ela estará de pé ali de novo. Na vitrine de carne. Se bem que nunca está, para mim… Minha de uma forma secreta. Sei que é correspondido, porque ela ama o estranho que não a corrompe! Não a estiola. Quem mais pura do que a flor que sempre após ser estiolada outra vez desabrocha?
O mundo é constituído de portais móveis de acesso: é a única condição para o aparecimento de um novo homem. Quando tem de acontecer, a pessoa fica 9 meses na soleira desse estranho portal, esperando que lhe cantem a senha. Não há uma regra fixa para determinar como e com que freqüência se movem os portais, nem quanto tempo depois de utilizados eles se fecham. Há um número bastante elevado deles, porém muitos não preenchem as condições necessárias para convidar humanos. Ficam em estado de latência por um grande período, até que se saiba que viraram pedra e que não serão acometidos da magia da viagem, sob nenhuma hipótese, até que devagarinho se fecham, desaparecem, somem até os registros de que um dia foram uma tentativa. Em compensação, há tantos outros portais que recebem mais de uma pessoa! Não há realmente um limite conhecido, mas o portal envelhece e se danifica com o uso, como qualquer das criaturas que passa por ele. Há relatos de portais que recebem e por onde passam aqueles que um dia se converterão também em portais. Muitos seres humanos não conseguem se separar, por gratidão, do portal que lhe trouxe a este mundo, e o conservam ao lado por muitos anos, até que a lei natural encerre a existência de um dos dois (usualmente do portal em primeiro lugar) ou que o sujeito seja chamado para participar de complicados processos de forjas de novos portais, para os quais se exige muita responsabilidade e um certo exclusivismo: tudo o mais na vida do indivíduo passa a ser executado em função do seu novo trabalho. Outros seres humanos, porém, vêem seu portal desmanchar logo depois do acesso. Muitos passam décadas sem vê-lo, sem lembrar de seu aspecto, até que há um reencontro. Certo é que, embora tragam muitas pessoas, portais não podem oferecer o percurso inverso: ninguém pode abandonar este mundo para voltar, e do que havia ali é tabu comentar!
Quando em algumas regiões do mundo os portais parecem já ter perdido o fôlego de outrora, há sempre uma contrapartida, um outro lado do mundo em que os portais vivem uma era de ouro e dão boas-vindas a muitos seres. Não se sabe quando e como surgiu o primeiro portal e até quando poderá ingressar gente e os portais poderão funcionar e cumprir sua missão, que é afinal o que eles sabem fazer. Quem tenta adivinhar são os próprios marujos dessa migração dimensional, que tentam estabelecer um limite máximo de portais, bem como um número mínimo, sem os quais o equilíbrio seria desfeito. Atualmente há uma quantidade assustadora deles, mas a vontade de que eles existam declinou. Tentaria descrever, se pudesse, a melancolia e a sensação de estranhamento provocadas quando o portal se despede de seus respectivos viajantes. Estes olham para onde não mais está mas poderia estar aquele, ou seja, para o vazio, fundamentalmente, e exclamam: “A porta por onde eu vim se fechou! Que consolo tenho eu, senão terminar a minha parte da eterna obra de perecimento, mais humilde do que nunca?”.
THE ESSENTIAL VEDANTA: A New Source Book of Advaita Vedānta – Eliot Deutsch & Rohit Dalvi // Um esforço por compreender os ensinamentos éticos hindus e de crítica do cristianismo via herança da filosofia continental.
“We are concerned in short to understand Advaita Vedānta both in terms of cultural history and philosophy.”
“We have not included in this work any material from the neo-Vedānta that has developed in India in recent decades (e.g., Vivekananda, Aurobindo, Radhakrishnan) as the literature of this movement, having been written in English, is readily accessible.”
PART I.
BACKGROUND IN TRADITION: THE THREE DEPARTURES
“Vedānta means in the first place the ‘Conclusion of the Veda’ in the double sense that the Veda has come to an end here and that it has come to a conclusion. This final portion of the Veda comprises principally the Upanishads, which form the last tier in the monument we call the Veda.
In the second place, Vedānta is an abbreviation of Vedāntamīmāmsā, or the ‘Enquiry into the Vedānta’—the name of the most interesting, most influential, and most diverse of the philosophical traditions of Hindu India. Its very name implies a program: it is a tradition which intends to base itself on the Vedānta in the primary sense, the Upanishads.”
“Classical Vedānta recognizes 3 ‘points of departure’ (prasthānatraya) for its philosophy; that is to say that all Vedānta true to its name accepts the authority of three texts, or sets of texts, which authenticate its conclusions. There is, then, first the set of Upanishadic texts; further, the text of the Bhagavadgītā; and finally, the text of the Brahmasūtras. Each adds a new dimension to the others.
It is clear, therefore, that any investigation into Vedānta must be preceded by an enquiry into its traditional sources. These sources may appear to be difficult and at times indeed abstruse; but they set up the problems to which Vedānta addresses itself and which it intends to resolve through its commentaries on these sources.
The basic works of the founders of the different Vedānta schools present themselves as commentaries on the traditional sources; while most of their works are original to a high degree and often seem to owe little more to the admitted sources than an inspiration, nevertheless the philosophers themselves in all honesty present themselves as commentators only.”
“We shall briefly sketch the 3 Departures under the headings of ‘Revelation’, ‘Recollection’, and ‘System.’”
1.1 REVELATION
“If we are to form a proper understanding of the meaning and scope of ‘Revelation’, we do well to forget at once the implications of the term in the Mediterranean religions, Judaism, Christianity, and Islam. Strictly speaking, ‘revelation’ is a misnomer, since ultimately there is no revealer. The Sanskrit term for it is śruti, literally ‘the hearing’, which means an erudition acquired by listening to the instruction of a teacher. This instruction itself had been transmitted to the teacher through an uninterrupted series of teachers that stretches to the beginning of creation.
Revelation, therefore, is by no means God’s word—because, paradoxically, if it were to derive from a divine person, its credibility would be impugned. (…) It is axiomatic that revelation is infallible, and this infallibility can be defended only if it is authorless.”
“For some of the Mīmāmsā (or orthodox, exegetical) thinkers who have addressed themselves to this problem, the world is beginningless and the assumption of a creator is both problematic and unnecessary.” A resposta está tão no presente quanto em qualquer passado. Implicações para a filosofia continental: Dasein.
“And even if a beginning of the world is assumed, as in later Hindu thought when it is held that the universe goes through a pulsating rhythm of origination, existence, and dissolution, it is also held that at the dawn of a new world the revelation reappears to the vision of the seers, who once more begin the transmission.”
“Revelation (…) lays down first and foremost what is our dharma, our duty. This duty is more precisely defined as a set of acts which either must be done continuously (nitya), or occasionally (naimittika), or to satisfy a specific wish (kāmya).”
“Orthodox consensus recognizes 3 fundamental means of knowledge (…) Of these means (pramānas), (1) sensory perception (pratyaksa) holds the first place, for it is through perception that the world is evident to us. Built upon perception is (2) inference (anumāna), in which a present perception combines with a series of past perceptions to offer us a conclusion about a fact which is not perceptibly evident. (…) (3) Revelation is authoritative only about matters to which neither perception nor inference gives us access”
“the orthodox Exegetes would reject most of the Bible as Revelation: most of it they would classify as itihāsa or purāna, ‘stories about things past’, describing events which were accessible to perception and hence require only the authority of perception; but, for example, the chapters dealing with the Law in Deuteronomy would be considered Revelation in the true sense, since here rules are laid down and results are set forth which escape human perception and inference.
Led by this principle, the Exegetes classified Revelation under 3 basic rubrics, ‘injunction’ (vidhi or niyoga, including prohibition or nisedha), ‘discussion’ (arthavāda), and ‘spell’ (mantra). Spells comprise the mass of formulae, metric or in prose, which were employed at the execution of the rites. Discussion comprises all the texts which describe, glorify, or condemn matters pertaining to rites. Injunction comprises all the statements, direct or indirect, which lay down that certain rites or acts must be done or must not be done.
The stock example is svargakāmo jyotistomena yajeta, ‘he who wishes for heaven should sacrifice with the soma sacrifice’. It is in such statements that the authority of Revelation finally resides. It enjoins an action (offering up a sacrifice), the nature of which escapes human invention, for a purpose (heaven) whose existence neither perception nor inference could have acknowledged, upon a person (the sacrificer) who stands qualified for this action on the basis of the injunction. Declarations [mantras?] which accompany the description of the sacrifice, e.g., ‘the sacrificial pole is the sun’, while strictly speaking untrue and carrying no authority, have a derivative authority insofar as they are subsidiary to and supportive of the injunction, and may be condemnatory or laudatory of facts connected with the rite laid down in the injunction (e.g., the sacrificial pole is compared to the sun in a laudatory fashion for its central function at the rite). The spells accompanying the festive celebration of the rite have their secondary, even tertiary, significance only within the context of the rite laid down in the injunction.”
“the Four Vedas as we call them, the Veda of the hymns (rk), the formulae (yajus), the chants (sāma), and the incantations (atharva), are almost entirely under the rubric of ‘spell’. The large disquisitions of the Brāhmanas are almost entirely ‘discussion’, except for the scattered injunctions in them; and the same largely holds for the 3rd layer of texts, the Āranyakas. Generally speaking, Vedānta will go along with this view.
It is, however, with the last layer of text (the Vedānta or the Upanisads) that Exegetes and Vedāntins come to a parting of ways. For the Exegetes the Upanisads are in no way an exception to the rules that govern the Revelation as a whole. Nothing much is enjoined in them nor do they embody marked spells. In fact, they are fundamentally ‘discussion’, specifically discussion of the self; and such discussion certainly has a place in the exegetical scheme of things, for this self is none other than the personal agent of the rites and this agent no doubt deserves as much discussion as, say, the sacrificial pole.
Basically therefore the Exegetes find the Revelation solely, and fully, authoritative when it lays down the Law on what actions have to be undertaken by what persons under what circumstances for which purposes. Vedānta accepts this, but only for that portion of Revelation which bears on ritual acts, the karmakānda. But to relegate the portion dealing with knowledge, the jñānakānda, to the same ritual context is unacceptable.”
“The consensus of the Vedānta is that in the Upanisads significant and authoritative statements are made concerning the nature of Brahman. § From the foregoing it will have become clear that very little of the Revelation literature preceding the Upanisads was of systematic interest
to the Vedāntins. For example, Śamkara quotes less than 20 verses from the entire Rgveda in his commentary on the Brahmasūtras, about 14 lines from the largest Brāhmana of them all, the Śatapatha Brāhmana, but no less than 34 verses from the Mundaka Upanisad, a fairly minor and short Upanisad.”
Rgveda X, 129
“Among the hymns of the Rgveda that are clearly philosophical both in character and influence none is more important than the Hymn of Creation. This hymn exhibits a clear monistic or non-dualistic concern, an account of creation that gives special attention to the role of desire, and a kind of skeptical or agnostic attitude concerning man’s (and even god’s) knowledge of creation. The following translation is from A.A. Macdonell, n.d.
Non-being then existed not nor being:
There was no air, nor sky that is beyond it.
What was concealed? Wherein? In whose protection?
And was there deep unfathomable water?
Death then existed not nor life immortal;
Of neither night nor day was any token.
By its inherent force the One breathed windless:
No other thing than that beyond existed.
Darkness there was at first by darkness hidden;
Without distinctive marks, this all was water.
That which, becoming, by the void was covered,
That One by force of heat came into being.
Desire entered the One in the beginning:
It was the earliest seed, of thought the product.
The sages searching in their hearts with wisdom,
Found out the bond of being in non-being.
Their ray extended light across the darkness:
But was the One above or was it under?
Creative force was there, and fertile power:
Below was energy, above was impulse.
Who knows for certain? Who shall here declare it?
Whence was it born, and whence came this creation?
The gods were born after this world’s creation:
Then who can know from whence it has arisen?
None knoweth whence creation has arisen;
And whether he has or has not produced it:
He who surveys it in the highest heaven,
He only knows, or haply he may know not.”
Chāndogya Upanisad VI
“This text portion, which comprises the entire sixth chapter of the Chāndogya Upanisad, is no doubt the most influential of the entire corpus of the Upanisads.”
“It lays down for Vedānta that creation is not ex nihilo, that the phenomenal world is produced out of a preexistent cause. This cause is the substantial or material cause (upādāna), which, by the example of the clay and its clay products (section 1), provides the authority for the tenet that the phenomenal world is non-different from its cause.” “the Existent (sat) referred to is no other than Brahman” “Thus this text presents us with the basic problem of Vedānta, the relation between the plural, complex, changing phenomenal world and the Brahman in which it substantially subsists.”
“It teaches that <You are That,> and thus, for Vedānta, lays down that there is an identity (however to be understood)¹ between the Brahman and the individual self. This makes the text one of the <great statements> (mahāvākya) for Śamkara, who reads in it the ultimate denial of any difference between the consciousness of the individual self and the consciousness that is Brahman.”
¹ “whether this non-difference signifies a complete non-dualism (Śamkara), a difference-non-difference (Bhāskara),a or a non-difference in a differentiated supreme (Rāmānuja).”b
a Dialética hegeliana. Este é o famoso matemático/lógico a que somos traumaticamente introduzidos na quinta série.
b Essencialmente o que se pergunta é uma coisa só: Eu também sou Brahma. Mas o que isso quer dizer de fato (e esta será a maior preocupação de todos os textos sagrados)?
Em suma, a criação é um processo voluntário e deliberado. O Cristianismo particularmente apresenta uma criação ex nihilo, ao mesmo tempo em que acusa o credo hindu de recair na mesma “falha” (que eles o considerem de voz própria uma falha já diz muita coisa).
“The text is presented in a new translation by J.A.B. van Buitenen. It differs in many instances from previous translations which, he believes, have been unduly influenced by the interpretation of Śamkara. For example in section 4, the repeated <fireness has departed from fire,><sunness has departed from sun,> <moonness has departed from moon,> <lightningness has departed from lightning> do not signify that there is in reality no fire, sun, moon, and lightning, but rather that these 4 entities, which previously had been considered irreducible principles, can be further analyzed into compounds of the Three Colors or Elements that Uddālaka sets up.”
“Since a source book should avoid presenting sources in a controversial manner, the reader is urged to consult, e.g., Franklin Edgerton’s translation in Beginnings of Indian Philosophy, Hume’s in Thirteen Principal Upanisads, Radhakrishnan’s in The Principal Upanisads, to quote the more accessible ones, for further reference.”
“At the age of 12 he went to a teacher and after having studied all the Vedas, he returned at the age of 24, haughty, proud of his learning and conceited.
…
‘Śvetaketu, now that you are so haughty, proud of your learning and conceited, did you chance to ask for that Instruction by which the unrevealed becomes revealed, the unthought thought, the unknown known?’
…
‘…Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam, namely clay.
…
Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam, namely copper.
…
Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam, namely iron.’
‘Certainly my honorable teachers did not know this. For if they had known, how could they have failed to tell me? Sir, you yourself must tell me!’
‘So I will, my son,’ he said.
…
‘The Existent was here in the beginning, my son, alone and without a second. On this there are some who say, The Nonexistent was here in the beginning, alone and without a second. From that Nonexistent sprang the Existent.’
…
‘How could what exists spring from what does not exist? On the contrary, my son, the Existent was here in the beginning, alone and without a second.’
…
‘I may be much, let me multiply.’
…
‘Of these beings indeed there are 3 ways of being born: it is born from an egg, it is born from a live being, it is born from a plant.’
…
[3:4 PRINCÍPIO DA REALIDADE QUATERNÁRIA – O UNO QUE TRIPLICA E AINDA SE CONSERVA (3 + 1), SENDO O TRIPLO UNO AO MESMO TEMPO – FILOSOFIA CONTINENTAL OCIDENTAL: AS 3 DIMENSÕES + A VONTADE, INVISÍVEL, REGEDORA.]
‘I will make each one of them triple. This deity created separate names-and-forms by entering entirely into these 3 deities with the living soul.’
…
‘The red color of fire is the Color of Fire, the white that of Water, the black that of Food. Thus fireness has departed from fire.Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam,namely the Three Colors.
The red color of the sun is the Color of Fire, the white that of Water, the black that of Food. Thus sunness has departed from the sun.Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam,namely the Three Colors.
The red color of the moon is the Color of Fire, the white that of Water, the black that of Food. Thus moonness has departed from the moon.Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam,namely the Three Colors.
The red color of lightning is the Color of Fire, the white that of Water, the black that of Food. Thus lightningness has departed from lightning.Creating is seizing with Speech, the Name is Satyam, namely the Three Colors.’
[A luz é diferente: dela emana o Único, não importa o objeto emissor, não importa o objeto refletor. Fogo, sol, lua, relâmpago. Sangue é a cor da vida, acorde fundamental do homem.]
…
‘Now no one can quote us anything that is unrevealed, unthought, unknown,’
…
‘If something was more or less red, they knew it for the Color of Fire; if it was more or less white, they knew it for the Color of Water; if it was more or less black, they knew it for the Color of Food.
[calor/energia, líquido e vida em si]
If something was not quite known, they knew it for a combination of these 3 deities. Now learn from me, my son, how these 3 deities each become triple on reaching the person.
The food that is eaten is divided into 3: the most solid element becomes excrement, the middle one flesh, the finest one mind.
The water that is drunk is divided into 3: the most solid element becomes urine, the middle one blood, the finest one breath.
The fire that is consumed is divided into 3: the most solid element becomes bone, the middle one marrow, the finest one speech.’
[Fez-se vento, palavra e consciência.]
…
‘Man consists of 16 parts, my son. Do not eat for 15 days. Drink water as you please. The breath will not be destroyed if one drinks, as it consists in Water.’
He did not eat for 15 days. Then he came back to him. ‘What should I say, sir?’
‘Lines from the Rgveda, the Yajurveda and the Sāmaveda, my son.’
‘They do not come back to me, sir.’
…
‘Eat. Afterwards you will learn from me.’
…
‘Just as one ember, the size of a firefly, that remains of a big piled-up fire will blaze up when it is stacked with straw and the fire will burn high thereafter with this ember, so, my son, one of your 16 parts remained. It was stacked with food and it blazed forth, and with it you now remember the Vedas. For the mind consists in Food, my son, the breath in Water, speech in Fire.’ This he learnt from him, from him.
…
‘When a man literally sleeps, then he has merged with Existent. … that is why they say that he sleeps. For he has entered the self.’
…
‘the breath is the perch [residência] of the mind, my son.’
…
‘water is food leader’
…
‘fire is water leader’
…
‘the fire is root’
…
‘All creatures are rooted in the Existent.’
…
‘Of this man when he dies, my son, the speech merges in the breath, the breath in the Fire, the Fire in the supreme deity. That indeed is the very fineness by which all this is ensouled, it is the true one, it is the soul. YOU ARE THAT, Śvetaketu.’
…
‘Just as the bees prepare honey by collecting the juices of all manner of trees and bring the juice to one unity, and just as the juices no longer distinctly know that the one hails from this tree, the other from that one, likewise, my son, when all these creatures have merged with the Existent they do not know, realizing only that they have merged with the Existent.’
…
‘The rivers of the east, my son, flow eastward, the rivers of the west flow westward. From ocean they merge into ocean, it becomes the same ocean. Just as they then no longer know that they are this river or that one, just so all these creatures, my son, know no more, realizing only when having come to the Existent that they have come to the Existent. Whatever they are here on earth, tiger, lion, wolf, boar, worm, fly, gnat or mosquito, they become that.’
…
‘If a man would strike this big tree at the root, my son, it would bleed but stay alive. If he struck it at the middle, it would bleed but stay alive. If he struck it at the top, it would bleed but stay alive. Being entirely permeated by the living soul, it stands there happily drinking its food.
If this life leaves one branch, it withers. If it leaves another branch, it withers. If it leaves a third branch, it withers. If it leaves the whole tree, the whole tree withers. Know that it is in this same way, my son, that this very body dies when deserted by this life, but this life itself does not die.’
[O receptáculo passageiro morre, mas a vida mesma não.]
…
‘Bring me a banyan fruit.’
‘Here it is, sir.’
‘Split it.’
‘It is split, sir.’
‘What do you see inside it?’
‘A number of rather fine seeds, sir.’
‘Well, split one of them.’
‘It is split, sir.’
‘What do you see inside it?’
‘Nothing, sir.’
…
‘This very fineness that you no longer can make out, it is by virtue of this fineness that this banyan tree stands so big. Believe me, my son. It is this very fineness which ensouls all this world, it is the true one, it is the soul….’
…
‘Throw this salt in the water, and sit with me on the morrow.’
…
‘Well, bring me the salt that you threw in the water last night.’
He looked for it, but could not find it as it was dissolved.
‘Well, taste the water on this side.—How does it taste?’
‘Salty.’
‘Taste it in the middle.—How does it taste?’
‘Salty.’
‘Taste it at the other end.—How does it taste?’
‘Salty.’
‘Take a mouthful and sit with me.’ …
‘It is always the same.’
… ‘You cannot make out what exists in it, yet it is there.…’
…
‘Suppose they brought a man from the Gandhāra country, blindfolded, and let him loose in an uninhabited place beyond. The man, brought out and let loose with his blindfold on, would be turned around, to the east, north, west, and south.
Then someone would take off his blindfold and tell him, Gandhāra is that way, go that way. Being a wise man and clever, he would ask his way from village to village and thus reach Gandhāra. Thus in this world a man who has a teacher knows from him, So long will it take until I am free, then I shall reach it.’
…
‘When a man is dying, his relatives crowd around him: Do you recognize me? Do you recognize me? As long as his speech has not merged in his mind, [become oneself again – somos o desdobramento e o desbordamento]his mind in his breath, his breath in Fire, and Fire in the supreme deity, he does recognize.
But when his speech has merged in the mind, the mind in the breath, the breath in Fire, and Fire in the supreme deity, he no longer recognizes.…’
…
‘They bring in a man with his hands tied, my son: He has stolen, he has committed a robbery. Heat the ax for him! If he is the criminal, he will make himself untrue. His protests being untrue, and covering himself with untruth, he seizes the heated ax. He is burnt, and then killed.
“If he is not the criminal, he makes himself true by this very fact. His protests being true, and covering himself with truth, he seizes the heated ax. He is not burnt, and then set free.’ [o conceito de ser libertado deveria ser o de ser queimado e assassinado]
…
This he knew from him, from him.”
(Este capítulo está numerado em 16 partes.)
Chāndogya Upanisad V, 3-10
“Here Śvetaketu, almost always the incompletely instructed pupil, complains to his father that he is unable to answer the riddles posed by a baron (ksatriya). This text, along with one closely related in the Brhadāranyaka Upanisad, presents the fullest account of the doctrine of transmigration, which on the whole is rather understated in the Upanisads.”
“The text is further remarkable in that it presents this doctrine as special knowledge of the ksatriya class. This has given rise to the hypothesis that there was a lively ambience of philosophy among the barons from which the brahmins were excluded.”
“Śvetaketu, the grandson of Aruna, went to the assembly of the Pañcālas. Pravāhana Jaivali said to him, ‘Boy, has your father instructed you?’
‘He has, sir.’
‘Then do you know where the creatures go from here?’
‘No, sir.’
‘Do you know the bifurcation of the two paths, the Way of the Gods and the Way of the Ancestors?’ [paralelo com Parmênides]
‘No, sir.’
‘Do you know why the world beyond does not fill up?’
‘No, sir.’
‘Do you know how the water in the 5th oblation becomes known as man?’
‘Not at all, sir.’
‘Then how do you call yourself instructed? How could one call oneself instructed if he does not know the answers?’
…
‘To be sure, your reverence told me, without having instructed me, that you had instructed me! Five questions did that accursed baron ask me, and I could not resolve a single one of them!’
‘The way you have stated them, my son, I do not know any one of them. If I had known the answers, why would I not have told you?’
…
‘Keep your human wealth, king! Relate to me the discourse which you mentioned before the boy!’
The king was cornered. He ordered him, ‘Stay a while.’ He said, ‘This wisdom, as you state it to me, Gautama, has never before you gone to the brahmins. That is why the rule in all the worlds belongs to the baronage.’
…
‘The world beyond, Gautama, is a fire. Of it the sun is the kindling, the rays the smoke, the glow the day, the embers the moon, the sparks the constellations.
In this fire the gods offer up faith; from the oblation springs King Soma.
The monsoon, [clima de chuvas intermitentes de verão – implica no firmamento, abaixo apenas da morada ígnea dos deuses] Gautama, is a fire. Of it the wind is the kindling, the cloud the smoke, the lightning the glow, the thunderbolt the embers, the hail stones the sparks.
In this fire the gods offer up King Soma. From this oblation springs the rain.
The earth, Gautama, is a fire. Of it the year is the kindling, space the smoke, night the glow, the compass points the embers, the intermediate points the sparks.
In this fire the gods offer up the rain. From this oblation springs food.
Man, Gautama, is a fire. Of him speech [falo] is the kindling, breath the smoke, the tongue the glow, the eye the embers, the ear the sparks.
In this fire the gods offer up food. From this oblation springs the seed.
Woman, Gautama, is a fire. Of her the womb is the kindling, the proposition the smoke, the vagina the glow, intercourse the embers, pleasure the sparks.
In this fire the gods offer up the seed. From this oblation springs the child.
Thus in the 5th oblation water becomes known as man. The embryo, enveloped by its membrane, lies inside for 10 months, or however long, then it is born.
Once born he lives for as long as he has life. When he has died his appointed death, people carry him from here to the fire, from which he had come forth and was born.
They who know it thus and in the forest devote themselves to faith and austerity, they go into the fire’s glow, from the glow to day, from day to the fortnight of waxing moon, and from that fortnight to the 6 months when the sun goes the northern course. From these months to the year, from the year to the sun, from the sun to the moon, from the moon to lightning. [?]There is a person who is not human; he conducts them to Brahman. This is the Way of the Gods as described. [Faetonte-Aqueronte-Caronte-Carente-Cura-do-ente…]
Now those who in the village devote themselves to rites and charity, they go into the fire’s smoke, from the smoke to night, from night to the other fortnight, from the other fortnight to the 6 months when the sun goes the southern course.They do not reach the year.
From the months they go to the world of the ancestors, from that world to space, from space to the moon: he is the King Soma, it is the food of the gods, the gods eat it.
There they stay out the remainder, then they return by the same way, namely to space, from space to wind. Having become wind, they become smoke. Having become smoke, they become mist. [zzz]
Having become mist, they become the cloud, and having become the cloud, they rain forth.They are born on earth as barley and rice, herbs and trees.From thence escape is indeed difficult.If a person eats that food and then ejaculates his semen, then one becomes once more.[um brâmane é um repetente]
They who in this world[forest or city] have been of pleasant deeds, the expectation is that they attain to pleasant wombs, of a brahmin, or a baron, or a clansman. But if they have been of putrid deeds, the expectation is that they attain to putrid wombs, of a dog, or a swine, or an outcaste.
[Essa é uma versão pobre e a-filosófica da doutrina da transmigração.]
But by neither of these paths go the lowly creatures that again and again come back.[the third way is a no-way] That is the third level, that of: Be Born! Die!Therefore the world beyond does not fill up. Hence one should watch out. There is this verse:
The thief of gold, the drinker of wine,
The corruptor of his teacher’s bed, a brahmin-killer,
Those four fall, and so the fifth who consorts with them.
If one does know these 5 fires, then one is not smeared with evil, even though consorting with them. Clean, pure, and of auspicious domain becomes he who knows it thus, who knows it thus.’” A salvação do brâmane me parece assaz fácil!
Taittirīya Upanisad II, 1–8
“It outlines, even though in primitive terms, a hierarchy of the person—5 ‘sheaths’ (kośa) of increasing interiority.”
“This is his head, this his right side, this his other side, this his trunk, this his tail, his foundation.” O homem tem 5 partes físicas, e uma delas é a cauda?!
“2. From food arise the creatures, whichsoever live on earth, and through food alone do they live, and to it they return in the end. Of all elements, food indeed is the best, hence it is called the best medicine. They forsooth attain to all food who contemplate on Brahman as food. From food are the creatures born, and once born they grow through food. It is eaten and eats the creatures, hence it is called food.”
“The prāna is its head, the vyāna its right side, the apāna its left side, space the trunk, earth its tail, its foundation.” O rabo do homem é a terra, é o chão, é o solo, a base. Ele não pode voar (seu rabo não regride).
4. “Faith is its head, order the right side, truth the other side, discipline the trunk, mahas the tail, the foundation.”
5. “Happiness is its head, joy its right side, rapture its other side, bliss its trunk, Brahman its tail, its foundation.”
“6. Nonexistent becomes he when he knows Brahman as nonexistent. When he knows that Brahman exists, they know him by that to exist.” Interessante.
“7. In the beginning the Nonexistent was here, from it was born the existent. It made itself into a self, that is why it is called well-made. That which is well-made is the sap[seiva, vida]. For upon attaining to this sap one becomes blissful. For who would breathe in and breathe out if there were no bliss in his space?”
O oitavo parágrafo (críptico): Brahma é a Morte?
Katha Upanisad
“[this book] sets forth a state of bliss to be had through an intense concentration of consciousness and, finally, a surpassing state of joy and liberation.
The text, given here in its entirety, is a translation of Patrick Olivelle”
“So he asked his father: ‘Father, to whom will you give me?’ He repeated it for a second time, and again for a third time. His father yelled at him: ‘I’ll give you to Death!’”
“A mortal man ripens like grain,
And like grain he is born again.”
“You, O Death are studying,
the fire altar that leads to heaven;
Explain that to me, a man who has faith;
People who are in heaven enjoy the immortal state—
It is this I choose with my second wish.”
“(Death)
I shall explain to you—
and heed this teaching of mine, O Naciketas,
you who understands the fire altar that leads
to heaven, to the attainment of an endless world,
and is its very foundation.
Know that it lies hidden, in the Cave of the heart.”
“Choose your third wish, O Naciketas.
There is this doubt about a man who is dead.
‘He exists,’ say some, others, ‘He exists not.’
I want to know this, so please teach me.
This is the third of my wishes.
(Death)
As to this even the gods of old had doubts,
for it’s hard to understand, it’s a subtle doctrine.
Make, Naciketas, another wish.
Do not press me! Release me from this.
(Naciketas)
As to this, we’re told, even the gods had doubts,
and you say, O Death, it’s hard to understand.
But another like you I can’t find to explain it;
and there is no other wish that is equal to it.
(Death)
Choose sons and grandsons who’d live a hundred years!
Plenty of livestock and elephants, horses and gold!
Choose as your domain a wide expanse of earth!
And you yourself live as many autumns as you wish!”
Resposta fraca
“And if you would think this an equal wish—
You may choose wealth together with a long life;
Achieve prominence, Naciketas, in this wide world;
And I will make you enjoy your desires at will.
You may ask freely for all those desires,
hard to obtain in this mortal world;
Look at these lovely girls, with chariots and lutes,
girls of this sort are unobtainable by men—
I’ll give them to you; you’ll have them wait on you;
But about death don’t ask me, Naciketas.”
Outrossim, a sedução do diabo no deserto (Novo Testamento).
“(Naciketas)
Since the passing days of a mortal, O Death,
sap here the energy of all the senses;
And even a full life is but a trifle;
So keep your horses, your songs and dances!
*
With wealth you cannot make a man content;
Will we get to keep wealth, when we have seen you?
And we get to live only as long as you allow!
So, this alone is the wish that I’d like to choose.
*
What mortal man with insight,
who has met those that do not die or grow old,¹
himself growing old in this wretched and lowly place,
looking at its beauties, its pleasures and joys,
would delight in a long life?”
¹ Seria uma interessante parábola, se existissem tais deuses ou vampiros! Ou, conforme veremos adiante, Naciketas fala dos sábios, em sentido puramente alegórico.
“The point on which they have great doubts—
what happens at that great transit—
tell me that, O Death!
This is my wish, probing the mystery deep,
Naciketas wishes for nothing
other than that.”
Didn’t anybody say that to you: Careful what you wish?
UMA CRÔNICA DE DOIS IRMÃOS:
“(Death)
The good is one thing, the gratifying[prazeres] is another;
their goals are different, both bind a man.
Good things await him who picks the good;
By choosing the gratifying, one misses one’s goal.
*
Both the good and the gratifying
present themselves to a man;
The wise assess them, note their difference;
And choose the good over the gratifying;
But the fool chooses the gratifying
rather than what is beneficial.
*
…
This disk of gold, where many a man founders,
You have not accepted as a thing of wealth.
*
Far apart and widely different are these two:
Ignorance [prazer] and what’s known as knowledge. [o bem]
I take Naciketas as one yearning for knowledge;
The many desires do not confound you.
*
Wallowing in ignorance, but calling themselves wise,
Thinking themselves learned the fools go around,
staggering about like a group of blind men,
led by a blind man who is himself blind. [um homem cego é mesmo cego!]
*
This transit lies hidden from a careless fool,
who is deluded by the delusion of wealth.
Thinking ‘This is the world; there is no other’,
he falls into my power again and again.”
Creio que ninguém ainda entendeu o verdadeiro sentido do texto. Em vermelho: o hedonista ou materialista pensa “não há outro mundo, só este, carpe diem, etc.”. Mas é só este quem morre. O outro mundo é neste mundo mesmo, invisível, habitado somente pelos sábios. Eles nunca morrem.Apud Sócrates-Platão-…
“Many do not get to hear of that transit;
and even when they hear,
many don’t comprehend it.
Rare is the man who teaches it,
Lucky is the man who grasps it;
Rare is the man who knows it,
Lucky is the man who is taught it.”
Mais más concepções: não se ouve a verdade muito amiúde; quando se a escuta, se a ignora como se ela nunca fôra proferida. Isto é Zaratustra livro I, cena da praça e do mercado. Não é raro o homem que ensina a sabedoria: tantos quantos são estes professores (os sábios, a.k.a. virtuosos), uma vez na vida eles acreditam poder ensinar – esse é seu erro; a virtude não pode ser ensinada. Portanto, só quem sábio se torna, sábio já era. Torna-te aquilo que tu és. Raro é o homem assim constituído. Sortudo é quem nasceu nessa condição, pois só assim “lhe foi ensinado” o conteúdo: por si mesmo.
“Though one may think a lot, it is difficult to grasp,
when it is taught by an inferior man.
Yet one cannot gain access to it,
unless someone teaches it.
For it is smaller than the size of the atom,
a thing beyond the realm of reason.”
Não existe o guru. Quantas vezes ter-se-á de dizê-lo? Quantos murros em ponta de faca? O final, porém, é adequado: a vontade ou Idéia é menor que qualquer pedaço de matéria, o que o século XX chama de partículas sub-atômicas fundamentais. Não é deste mundo, é do outro mundo vivenciado neste mundo pelos privilegiados de nascença (se há algo do mito brâmane que sobrevive é esse fatalismo: ou se nasce sábio e bom, ou se nasce ignorante e mau). E é vontade ou Idéia, esses nomes “estranhos”, embora familiares no léxico (mas quase nunca sabem seu significado!), porque não é razão, está além da razão. Quem disse que o sábio o é em virtude da razão?! Quem disse que a Idéia de Platão ou a virtude são alcançadas pela inteligência? Somente pelo instinto, pela inclinação natural em vê-las e senti-las, em sê-las (com isso que chamam de Brahma).
“One can’t grasp this notion by argumentation;¹
Yet it’s easy to grasp when taught by another.²
You’re truly steadfast dear boy,
you have grasped it!
Would that we have, Naciketas,
One like you to question us.”²
¹ A dialética esvaziada de um Aristóteles, o Racional.
² O outro é sempre si mesmo, sempre a ressalva em relação aos textos sagrados hindus, que ainda não tinham a consciência da origem da sabedoria, talvez a única vantagem oferecida pela filosofia ocidental sobre o maior trabalho, a maior sabedoria, embora inconsciente, trazida pelo Oriente, e que hibernou por tanto tempo, entre nós e até eles próprios, os professores do Veda! Us também não existe. Quem formula as perguntas e também as respostas naquele que não pode ser igualado (Platão)? Ele mesmo. A Morte neste Upanishad não é uma fraude, um espírito trickster, mas, pelo contrário, o alter ego de Naciketas: este é um diálogo, a maiêutica do sábio. Quem preside é ele mesmo, mediante suas reminiscências. Outra frase célebre: Dai a César o que é de César, significa: dai a este mundo o que quer este mundo: a humildade, a labuta, um mal-disfarçado senso de superioridade (porque os tolos, em sua maior parte, crêem na sua modéstia e na sua inferioridade, não se pode usar a sabedoria para angariar vantagens no jogo temporal). Assim quitais vossas dívidas com eles. Nosso eterno sofrimento, a eterna convivência com os eternos anões. O preço de nosso paraíso, no outro mundo que é aqui, sem testemunhas senão nossos poucos iguais. Jesus Cristo, o incompreendido. Ao mesmo tempo que não iniciou, o Juízo já terminou e está acontecendo. Acontece. Todo ele é a existência. A existência é uma criação escatológica.
“What you call a treasure, I know to be transient;”
tesouro transcendental
“Therefore I have built the fire altar of Naciketas,
and by things eternal I have gained the eternal.”
Jogando minha alma na aposta eu consegui meu objetivo: a eternidade. O outro mundo neste mundo. O presente do presente, o único tempo real. A única felicidade tangível. Sem necessidade de nenhuma providência; pois já estava lá, sempre esteve.
“[Já não importa quem fala, é o Um e o Mesmo]
The primeval one who is hard to perceive,
wrapped in mystery hidden in the cave,¹
residing within the impenetrable depth—
Regarding him as god,² an insight
gained by inner contemplation,³
both sorrow and joy the wise abandon.”4
¹ E quem é que começa a vida preso à caverna, no mito (ou inclusive na historiografia “séria” – como se o mito não o fosse –: homem das cavernas)? O homem. Não é que o homem busque o sol que é a Iluminação ou instrumento necessário para iluminar aquilo que não se vê. Ou em outras palavras: aquilo que não se vê a descoberto é a si mesmo. O homem não se sabe homem, não sabe o que é, precisa do sol para entender que é o que tanto procurava. O mistério da vida é o mistério do homem diante do espelho. O eu, o maior enigma. O mundo dos homens, normalmente entendido como tão despido de significado quanto “o mundo de um deus desconhecido”, ou “de um deus que morreu”. O Mito da Caverna inverte a mitologia grega em geral: não estamos destinados a nos tornar sombras, mas somos sombras que eventualmente se incorporam e ganham volume, densidade, matéria, substância, cor, tangibilidade, vida.
² Na minha interpretação é o exato oposto: sem a companhia de ninguém, e deixado à própria sorte no fundo da caverna, em sua cela do Ser, o homem não pode atingir a hubris nem a auto-afirmação: divino é o estado mais difícil. O Um sem o Outro é prosaico.
³ Isso só pode ser exato depois da própria jornada, da odisséia, do retorno diferente ao mesmo lugar do princípio.
4 Como resultado inevitável da viagem exitosa. Quem tem o presente seria por definição feliz, como quer o hindu. Porém, em face do conhecimento da eternidade neste mundo (o outro mundo), sensações transitórias perdem o significado: o que é tristeza, o que é alegria sem contraste ou interrupção, sem-fim? Nada.
“When a mortal has heard it, understood it;
when he has drawn it out;
and grasped this subtle point of doctrine,
he rejoices, for he has found
something in which he could rejoice.
To him I consider my house
to be open, Naciketas.”
A liberação é saber que fora de todo o possível, fora do eterno presente, só fora, e só para quem está consciente do presente, no impossível (pois não existe esse fora), finalmente é concedido o direito de morrer. Não há transição. Só há transição na eternidade do presente e da ação. Mas o que é bênção para nós é maldição para quem tem medo da morte ou esperança eterna num outro mundo que não seja deste mundo. Eles já vivem neste outro mundo que desejam: eles são objetos, não são homens. O tempo corre para eles. Estão condenados a jamais morrer, porque para eles a vida é uma morte contínua.
Veja que o próprio compilador, ou tradutor, está confuso quanto à identidade de quem fala (como eu disse, não importa, é a mesma pessoa!):
“Seeking which people live student lives”
Buscando quais pessoas vivem vidas de estudante. O estudante dos Vedas é a figura perfeita dos Vedas. Não só dos Vedas: da existência mesma, das Idéias de Platão e da vontade de Nietzsche. O professor dos Vedas é só um artifício didático: ele é outro estudante, o daimon guia do bom caminho. Nunca cessamos de aprender, e de nos tornar mais sábios, mas não existe a Idéia do sábio: a idéia, a busca da sabedoria. A imagem perfeita. Tão perfeita que poderíamos nos perguntar se essa imagem não é a Idéia mesma. A imagem é a Idéia sobre a Idéia. A Idéia é a imagem da Idéia. A Idéia voltada para si mesma, a Idéia ao espelho. A sabedoria socrática. Esse é o infinito, pois não termina ou conclui, e é ao mesmo tempo um estado em perpétuo movimento. Um estado não-estado. Um movimento não-movimentado. A imagem das imagens.
A vontade, palavra do século XIX para o mesmo: deliberações sobre as entrelinhas de Platão, o contínuo debate da Idéia. Não menos perfeito que a Idéia, por não ser exatamente uma poesia da maiêutica (e quem disse que os aforismos não o são?), pois pressupõe a Idéia, já que não é debate estático. E é ao mesmo tempo estanque, porque não evadiu o bom caminho da Idéia. O invisível vivido pelo estudante (mestre).
OM é tudo, é vontade e é Idéia. Vibração contínua. Sempre há um ponto cego para o sábio, mas é ele que indica o bom caminho. Há sempre um mistério residual. Dádiva negativa do presente. Tê-lo em forma viva e depois querer tê-lo no mundo material para auferir vantagens é o mesmo que dele abdicar, cair na tentação sensualista da Morte na proposta ao estudante, do diabo a Jesus no deserto, da glória mundana. Uma confirmação empírica da Idéia desvaneceria a Idéia, descaracterizando seu ar incomunicável, indemonstrável, autorreferente e exclusivista, entrada para poucos e seletos. Ouvem-se as palavras Idéia, vontade e OM, mas, como disse a Morte acima, os habitantes deste mundo que esperam o outro mundo, sem saber que ele é este mesmo, não escutam. Escutam as palavras, mas não as compreendem. E escutar é compreender desde que o homem é homem. Escutar a mais bela melodia e não entender sua beleza? Quem não riria dessa “sabedoria” e deste pragmatismo dos tolos? Num mundo em que existem bem e mal, quem se dá bem, se dá mal. Assim poderíamos traduzir as palavras mais próximas a nosso tempo “muito além do bem e do mal”: o bem vigente não é o bem de Platão. Daí a razão da reviravolta que não é reviravolta (filosofia extrema de combate ao niilismo): contorceram tanto as palavras que já é necessário desfazer mal-entendidos a fim de se afirmar a mesma coisa de dois milênios atrás. O que já foi OM, e o que hoje não é entendido pelos exegetas hindus do OM, voltará a ser o mesmo OM originário, etc. Credo quia absurdum est?
“When, indeed, one knows this syllable,
He obtains his every wish.”
Sorte que nós não somos muito exigentes, e não pedimos desejos absurdos (com o perdão do trocadilho com o final do texto acima). Para nós tudo é possível, mas nem tudo é permitido (por nós mesmos), se pudermos incluir Dostoievsky na conversa, porque somos virtuosos e nossos desejos nada têm a ver com as fábulas dos adoentados morais, os sequiosos do outro mundo, materialistas incuráveis, a imaginar gênios que lhes concedam todo tipo de coisa inesgotável neste mundo; quando este mundo mesmo é esgotável (pelo menos para eles, pela forma como eles esperam saciar sua sede neste mundo, ainda contando com um outro!), que desejo logo não daria sede-de-mais aos pedintes? Esses mendicantes querem ganhar na mega-sena; os poucos que logram continuam sendo mendicantes, não há escapatória.
“And when one knows this support,
he rejoices in Brahman’s world.”
Brahman’s world = Brahman’s word
Outro mundo = Idéia, vontade, OM, presente eterno, vida do sábio
“The wise one—
he is not born, he does not die;
he has not come from anywhere;
He is the unborn and eternal, primeval and everlasting.
And he is not killed, when the body is killed.
(The dialogue between Naciketas and Death appears to end here.)”
Com minha ajuda, vocês certamente perceberam, o único mistério que subjaz é salutar para a compreensão do texto (o ponto cego do sábio). Então, modéstia à parte, não haveria nem mais que dizer – hora perfeita para encerrar o trabalho de parto (maiêutica do sábio). O Katha Upanishad não encerra aqui, porém; a narração objetiva, fora de qualquer diálogo, dá continuidade aos ensinamentos.
“If the killer thinks that he kills;
If the killed thinks that he is killed;
Both of them fail to understand.
He neither kills, nor is he killed.”
Caim não matou ninguém, apenas passou por tolo! Abel vive ainda. A natureza se feriu. Mas a natureza é imortal.
“Finer than the finest, larger than the largest,
is the self (Ātman)¹ that lies here hidden
in the heart of a living being.
Without desires and free from sorrow,
a man perceives by the creator’s grace
the grandeur of the self.”
¹ Provável etimologia de nossa palavra “alma”.
“Sitting down, he roams afar.
Lying down, he goes everywhere.¹
The god ceaselessly exulting—
Who, besides me, is able to know?”
¹ Uma das características do homem pós-moderno esvaziado de sentido é viajar (territorialmente falando mesmo) sempre que pode. À procura de algo que nunca encontra. Sempre em movimento – mas ironicamente sempre estagnado no mesmo lugar – tentando fugir inadequadamente de sua sombra. A viagem talvez seja uma característica indispensável do ser humano. Mas é possível atingir a Idéia, ou o presente eterno, nunca saindo de sua província, como é possível errar como o judeu amaldiçoado sem qualquer conseqüência. Ulisses seria um bom exemplo daquele que viaja e sai do lugar ao mesmo tempo. O turista do capitalismo tardio, no entanto, apenas repete tudo que sabe fazer enquanto erradicado na província, necessitando, não obstante, de novas vistas na janela e de uma gorda fatura no cartão de crédito – suas provas empíricas de que ele viveu. Que bebeu a mesma Heineken vendida em sua vizinhança além-mar…
“When he perceives this immense, all-pervading self,
as bodiless within bodies,
as stable within unstable beings—
A wise man ceases to grieve.
This self cannot be grasped,
by teachings or by intelligence,
or even by great learning.
Only the man he [the self] chooses can grasp him,
Whose body this self chooses as his own.”
Aqui, estranhamente, cai a exigência de um guru, de um mestre para o estudante do Veda, e a auto-eleição fatídica que comentei acima fica sancionada.
“Not a man who has not quit his evil ways;
Nor a man who is not calm or composed;
Nor even a man who is without a tranquil mind;
Could ever secure it by his mere wit.”
Nenhum religioso com segundas intenções. A “frieza” do sábio não é a frieza do erudito, tão reparada e criticada em nossos tempos. O sábio não é um erudito. Erudito é o filisteu da cultura de massas. Sócrates é o anti-filisteu clássico. A frieza do sábio não é a incapacidade de se comover, mas a impassibilidade com que entende a inevitabilidade do funcionamento do princípio da Teoria das Idéias, da Vontade de Potência, do Om. Queira ele ou não, queira seu ego ou não, estas são Verdades que ele compreende como verdadeiras, e por isso as aceita (com impassibilidade, sinônimo circunstancial de frieza). Doravante, este é o “eleito”, de mente tranqüila, calmo e composto. Não levemos essa exigência longe demais: quem duvida que um Sócrates apaixonado por Alcibíades, que um Nietzsche compondo os livros mais destrutivos da cultura filistéia, não cumprem o requisito desta compostura exigida? Um homem calmo não vive em fúria, mas pode demonstrar fúria – caso contrário não seria um homem que os hindus estariam procurando, mas um embotado qualquer, já incapaz da ira.
A conhecida mente fervilhante do artista tampouco é uma vedação: suscetível às mudanças no mundo e crente nesta vida (e não somente em outra) ele sabe se isolar em seu próprio espaço, concentrado (o outro mundo neste mundo), onde não tem igual (Rafaello Sanzio, Miquelângelo, etc.). Acima de tudo ele pode contemplar sua situação no mundo com a mesma objetividade de um deus, de um filósofo (como dito acima) e de alguém que está desinteressado de lucros mundanos (o que os demasiado espertos são incapazes de compreender – “se eu tivesse seu talento, eu faria acontecer, eu seria muito maior, estaria no topo do mundo” – se um pequeno ou medíocre tivesse o talento do talentoso, ele não “faria acontecer”, porque então ele não seria apenas um esperto sem sabedoria e não pensaria como pensa o sem-talentos).
“For whom the Brahmin and the Kshatriya
are both like a dish of boiled rice;
and death is like the sprinkled sauce;
Who truly knows where he is?”
Quem senão essa super-alma qualificada, este que incorporou Brahman, para ver até mesmo a casta superior indiana como um mero equivalente inanimado da classe dos guerreiros que não estudam os Vedas? A morte é um fenômeno como outro qualquer, um tempero que aumenta o gosto da comida. E quem anseia pelo outro mundo, o que quer com isso? Quer escapar da morte como quem desmaia e acorda bem-tratado pelos outros, anestesiado, fugidodas pesadas implicações. Isso pelo menos quando ele está anormalmente convicto do outro mundo. Na maioria do tempo essas pessoas sentem a própria insignificância e banalidade, e tremem diante da simples palavra morte, como que pressentem que estão erradas e falam da boca para fora.
“They call these two ‘Shadow’ and ‘Light’,
The two who have entered—
the one into the cave of the heart,
the other into the highest region beyond,
both drinking the truth
in the world of rites rightly performed.”
A semelhança com o Mito da Caverna ou princípios como os recitados no mazdeísmo são óbvios.
“the imperishable, the highest Brahman,
the farthest shore
for those who wish to cross the danger.”
Decerto “as margens mais afastadas” não são um batismo ritual indiferente e vazio, “feito por fazer”, “herança dos costumes dos pais”, incompreendido em “seus mistérios”, realizado mais por medo que por qualquer outro sentimento, extremas unções, confissões e idas semanais à igreja, “para não ir para o inferno”. Não, essa odisséia não é para almas covardes que recorrem a atalhos inofensivos gravados nas pedras! Quem pode nos dizer, num país cristão, que já não estava impregnado de todas essas ridicularias desde que se entendeu por indivíduo? Porque, claro, podiam significar nada, mas há sempre um parente ou conhecido para dizer: “Antes de tal coisa, fazer 3 ave-marias e rezar 10 pais-nossos, se não funciona, ao menos não prejudica”. E assim assimilamos costumes que não podemos chamar de imbecis, porque só consideramos imbecil aquilo que podemos compreender, para avaliar; isso é menos que imbecil, é apenas um mistério herdado, automático, parte de nosso “arrumar a cama – escovar os dentes – etc.”. Não se pode jogar essas coisas fora sem substituí-las por algo melhor, dir-se-ia. O algo melhor é a verdade do conhecimento sagrado inconsciente hindu, que finalmente se tornou acessível a nós após séculos de filosofia ocidental. Não que possamos encarnar em qualquer outro a função de guru; o ritual de ascensão do ignoto herdado ao autoesclarecimento é sempre individualmente doloroso. Por isso os materialistas (hedonistas que se dizem espiritualistas!), seguros do outro mundo, são incapazes de efetuar essa transmutação.
“Know the self as a rider in a chariot,
and the body, as simply the chariot.
Know the intellect as the charioteer,
and the mind, as simply the reins.”
Uma imensa sabedoria condensada e destilada em 4 versos. Seria incapaz de enumerar a série de referências que enxergo em nosso saber ocidental ao ler somente as duas primeiras linhas: já a figura da carroça que ascende ao saber está presente na mitologia grega, na própria alusão ao deus-sol e seus servos. Hélio e Faetonte são pai e filho e contudo com o passar das gerações já se confundem num só ente. A carroça voadora deveria descrever a parábola do percurso do sol durante as 12 horas do dia (depois ele submerge e passa por debaixo dos oceanos, voltando ao leste). Mas Faetonte já é associado, a dado momento, à própria carruagem (o eu-controlado da figura poética acima). É ele, esse deus, na forma humana, qualquer que seja o nome, o único apto a conduzir a carroça sem se queimar (ou desviar do percurso correto). Desdobramentos, ainda helênicos, são perceptíveis na estória de Ícaro e seu malfadado vôo, nos escritos de Parmênides sobre o Um, no daimon de Sócrates (o self mais profundo, que conduz a ele próprio, o indivíduo histórico), que o orienta até em sonhos musicais na véspera de beber a cicuta (que ele não tema, aliás, o oposto: que ele celebre e comemore a vida no momento do estar-morrendo).
Essa voz interior passa, mais explícita ou menos explícita, pelos textos de todos os principais pensadores, até aterrissar nas investigações sobre o inconsciente, o novo nome para o daimon, nosso verdadeiro senhor. O que é um espírito-livre senão o escravo de si mesmo, ou melhor, aquele bom discípulo de si mesmo, que sabe dominar seus impulsos (ou assiste, enquanto impulsos cegos, a este domínio que vem aparentemente de fora, mas que é ele mesmo?), malgrado seu, e sabe ouvir os conselhos da sua verdadeira personalidade, desconhecida em seu todo até pela própria vida consciente do indivíduo? É o homem ético e abnegado que vê os filisteus de cima, meras manchas topográficas – esses filisteus que se julgam alpinistas de elite!
E ainda nem falei da metade final! O intelecto é o cocheiro. Que intelecto – depois que a duras penas aprendemos a desconfiar desse intelecto lato sensu desde Aristóteles até Kant? Decerto não é o intelecto cartesiano, o intelecto dos ceticistas dogmáticos, o intelecto dos Iluministas franceses, dos ateístas franceses – cristãos amargurados! –, o intelecto dos cabeças-de-vento do séc. XIX tão criticados por Nietzsche, a raça dos eruditos alemães! Não é o intelecto dos românticos que sucederam a Hegel, nem do próprio Hegel, o Aristóteles de nossa era. Mas um Goethe, que se equilibrou entre o Romantismo moderno e a serendipidade dos antigos, este está acima do gradiente que criticamos aqui! Dele que é o Fausto, já antigo e do folclore, mas que de sua pena é o mais célebre – mais um Jesus Cristo depenado por seu daimon errado. Mefistófeles é só um agente externo, a sociedade, o gênio da lâmpada dos que querem vencer na vida ganhando na mega-sena, não o demônio interior verdadeiro do sábio. E o ícone intelectual que ainda subsiste para nós na terceira década do séc. XXI – a fraude chamada Sigmund Freud, este compartimentador do inconsciente, que transformou num mapa ou num cubículo as forças incompreensíveis e virtualmente ilimitadas que nos regem – fariseu dos fariseus, pois como judeu esclarecido este homem sabia ser um filisteu, e continuou interpretando seu papel jocoso por maldade e ganho pessoal. O ápice do racionalismo deletério – o Descartes pós-descoberta explícita do daimon, pela primeira vez, desde Sócrates-Platão. E quantos séculos ele não terá retardado o estado das coisas? Não decerto para os poucos privilegiados, que vêem por trás da opacidade de sua pseudanálise, que enxergam por detrás dessas paredes (pontos cegos do indivíduo médio).
E as correntes de pensamento continuaram, na segunda metade do século XX, errando em pontos fundamentais, aprisionando esse self hindu. Marxistas desfiguradores do princípio maiêutico-dialético provisoriamente resgatado no XIX… Não faltava mais nada! A filosofia continental se fecha e vive de comentadores dos clássicos – talvez devêssemos comemorar. Já sabiam os últimos clássicos e já sabem os melhores comentadores que as próximas respostas úteis (úteis para nós, os anti-utilitários) devêm do Oriente, que, contrariando a projeção geológica de que os continentes africano e americano à deriva estariam se aproximando coisa de 10cm por ano, parece estar vindo a nosso encontro a galope… Portanto, para arrematar: o self hindu não é esse tipo de intelecto, só para deixar claro!
A mente simplesmente como os freios (rédeas). No sentido do poema a mente me parece apenas essa faculdade consciente dos eleitos que efetuam a boa jornada. A mente de Dédalo, o pai do imprudente Ícaro, a prudência altruísta, sem ambições solares, mas orgulhosa o suficiente para não recair em abismos.
“The senses, they say, are the horses,
and sense[d?] objects are the paths around them;
He who is linked to the body (Ātman), senses, and mind,
the wise proclaim as the one who enjoys.”
Quem é este que encontrou a eternidade verdadeira no único mundo possível senão “the one who enjoys”? Que momento há para gargalhar se não o presente? É verdade que a carruagem segue um percurso, mas não estamos atrás de nenhum destino particular. Como Ulisses, apesar das aparências, também não estava. Sobre cavalos, poderia até citar David Lynch, para quem, em Twin Peaks, o cavalo branco era o símbolo da morte próxima e também do vício, representado pelo hábito cocainômano da protagonista (uma protagonista que morre antes mesmo da série começar, eis uma quebra de normas!), nas duas primeiras temporadas apresentado de forma mais sugestiva, vaga, anedótica e espaçada. Na terceira temporada, no entanto, ganhamos também um poema sobre eles, os cavalos brancos, que nos brindam com muito mais associações, ou pelo menos com um termômetro para julgar as sugestões das primeiras temporadas: …The horse is the white in the eyes/ and dark within, (mais alusão ao yin-yang) embora eu tenha omitido a primeira metade desta outra quadra (!), para não me estender com conteúdo não-relacionado aos Vedas (se é que existe um que não o seja). Novamente o contraste entre o preto e o branco, a luz e as trevas, elementos da odisséia, dialética que leva à verdade. Mas, cavalo branco ou não, alado ou não, essa charrete mitológica também tem o seu, ou os seus. Embora pareça pouco funcional, podemos dizer que são 5, os cinco cavalos são os 5 sentidos. Cinco cavalos que puxam servilmente a carruagem (você). Se a vacuidade emocional dos filisteus de nosso tempo é uma imagem de cortar o coração, (!) não nos enganemos: os sentidos, raiz dos sentimentos, não são desprezíveis para o sábio – acontece que aqui eles têm tratamento pejorativo, sem dúvida. Os cavalos ou os pégasos cavalgam ou flutuam por uma estrada ou por um arco imaginário no firmamento. A estrada do Um de Parmênides. A mente precisa subordinar os cavalos: o cavalo que olha é na verdade cego; o cavalo orelhudo é na verdade surdo; o cavalo frenético e suscetível tem na verdade a epiderme dormente; o cavalo narigudo não tem faro; e o cavalo linguarudo nem saberia se ingere capim ou torrões de açúcar. Sem uma coordenação estes cinco não são nada. E para quem sabe coordená-los, veja, eles são tudo! A via de acesso ao nosso outro mundo, que está aqui. Uma via insuficiente por si só, mas indispensável para a alma. Há quem ache que o presente são os próprios sentidos. Rematados tolos. Eles são a paradoxal via para o invisível, o que eles percebem são apenas os objetos e os contornos da estrada para o presente.
Acaba de me chamar a atenção o fato de que, consultando o dicionário, obtive que “obscuro” é um antônimo de presente. E acima se contrapôs a parte do olho que enxerga, a retina, à brancura dos cavalos, prenúncio de armadilha. Pois o que não seria essa fala na boca de um dos agentes do Black Lodge de David Lynch, nesse contexto de cavalgar por uma senda necessariamente perigosa, senão uma grave advertência sobre a mais próxima vizinhança entre o enxergar bem e o viver com um antolho nos olhos? E eu que achei que já havia secado este poço (esta é a hora dos fãs de Twin Peaks mais ligados rirem bastante)!
“When a man lacks understanding,
and his mind is never controlled;
His senses do not obey him,
as bad horses, a charioteer.”
Apenas um lembrete, já que tudo isso já foi bem-comentado e o trecho é simples: o cocheiro (o daimon, o Ātman) é muito mais que a mente. É evidente que esta não é apenas uma enumeração paralela de uma hierarquia dupla, é mais complexo que isso. [De modo simples: cocheiro/o inconsciente (guia maior) > homem/vida consciente/carruagem > mente/corpo/intelecção > cavalos/sentidos (guias menores).] Maus cavalos não impossibilitam o sucesso da viagem (zero cavalos sim); uma mente em frangalhos, um corpo lasso e a estupidez (tudo junto conotando uma carroça em pedaços), sim.
“When a man lacks understanding,
is unmindful and always impure;
He does not reach that final step,
but gets on the round of rebirth.”
Renascer tem quase sempre conotações positivas. Não aqui, seja para o hinduísmo conforme os exegetas hindus seja para mim, que me arrisco a uma interpretação ainda alhures, conectada a um outro mundo no aqui e agora. Nada pode ser pior do que o renascimento contínuo neste contexto. É o mesmo que ensinar a doutrina do eterno retorno para os fracos em Assim Falou Zaratustra. A bênção de uma “vida” eterna não é nada no colo de mortos-vivos. A sua odisséia não é completada, é só uma grande tortura sem-sentido. OM omento presente não tem um último degrau, mas o último degrau é necessário para os sentidos do homem (sua parte menos importante).
RESUMO DO CREDO HINDU SEGUNDO RAFAEL DE ARAÚJO AGUIAR (LEMBRANDO QUE UM LIMITE MÁXIMO – QUE CHAMAMOS DE DEUS – QUE NÃO SAIBA RIR DE SI É INÚTIL, TANTO EXISTINDO COMO APENAS ALMEJANDO EXISTIR, DÁ NO MESMO):
No que os intérpretes (todos os já consultados por mim, pelo menos) do hinduísmo e eu discrepamos é: para eles, sair da roda da existência é a libertação. Eu acredito que os Vedas genuinamente pregam, no lugar, o seguinte:
Om. Quando se diz que sair da roda da existência é a libertação, está-se dizendo isso para os tolos; pois são os tolos que lêem ensinamentos nos livros e sempre os absorvem da pior forma. Desta feita, não proibiremos a leitura aos tolos, mas nos certificaremos que eles sempre retirarão deste manancial de sabedoria a interpretação mais literal e espúria possível: para eles, escapar da roda da existência via santidade é a libertação suprema. Isto não é Brahman, mas seria pecaminoso contra a própria vida ensinar a verdadeira religião para aqueles que não a merecem. O texto está redigido de forma que os merecedores de absorvê-la saberão interpretar nosso único credo a contento. A libertação é oni-presente e inevitável, sempre esteve aqui e agora e sempre estará para o leitor puro e consciente (aquele que aspira à sabedoria na vida). Isto é Brahma. Não há reencarnações, esse é apenas um dogma regulador para os hOMens mais vis. O dOM da vida é único e especial, pois a morte não é o que se entende vulgarmente pela morte: ela não encerra nada. O presente é eterno. A realidade é una. Não há progressos, regressos, ciclos ou aléns. O fato de indivíduos nascerem e morrerem confunde as massas, porque quem se crê indivíduo tenta se colocar no lugar de outro indivíduo, no que sempre falhará até os mínimos detalhes. É preciso entender que a existência não é algo linear sobre o qual o tempo – condição de possibilidade da própria existência, mas apenas uma de suas engrenagens – tenha qualquer poder. O tempo só funciona de acordo cOM o próprio desígnio inerente do que se chama realidade ou existência. Ele, o tempo, serve a e é inseparável da vida mesma. E a individualidade, o nascer e perecer são elementos, fundamentos da existência. Não significa que os indivíduos crus sejam Brahman (a existência mesma). Mas estão equipados para entender Brahman e se tornar Brahman. Pois Brahman pensou em tudo desde o sempre, já que o tempo é apenas uma engrenagem sua e ‘sempre’ é apenas uma palavra vazia fora da percepção dos hOMens, ligada às grandes limitações dos sentidos. Início e fim só existem para os indivíduos que são tolos. Brahman só pode ser usufruído pelo que chamam de presente. A vida dos tolos é um eterno sofrer, e o que é mais irônico: um sofrer baseado em algo que não existe – sua dilaceração, sua aniquilação, sua morte. O pavor do fim. Pois eles não sabem que são eternos, e isso gera a contradição muito lógica de que eles sofrem eternamente devido mesmo a esta ignorância, que em certa medida é obra deles próprios, pois eles também são Brahman, em crisálida. A forma de reestabelecer a harmonia e a ressonância cOM Brahman, o real, é, cOMpreendendo o real, efetivá-lo (sendo real, vivendo o presente, isto é, a eternidade). Esta condição carece de sofrimento penoso; o que (os tolos) chamam de sofrimento, na vida de quem entendeu Brahman é apenas atividade e saúde, a plena realização do Brahman, separado em indivíduos apenas formalmente, para apreciação dos eternamente tolos, tolo Brahman brincalhão (a verdade é que cada um que cOMpreende Brahman é Brahman, e Brahman é indivisível)! Por que nós, Brahman, dar-nos-íamos ao trabalho de escrever de forma tão límpida para nós mesmos, Brahman, o que é Brahman, se Brahman (os tolos, agora, os Brahman não-despertos e necessários ao Brahman) ainda assim não irá entender, da mesma forma que lendo poesia e enigmas? Pois este ensinamento carece da possibilidade de ser entendido pela mera literalidade e baixeza vital. É preciso ler mais do que palavras, porque Brahman é mais do que palavras. O “inferno” de Brahman é que Brahman é tudo, e a tolice é parte indissociável deste único e melhor dos mundos, o sempre-existente. O inferno de Brahman é Brahman, mas Brahman não se importa, o que é, aliás, muito natural e desejável. Brahman é o mais vil e o mais alto, e nunca se pára de cair e nunca se pára de subir segundo o axiOMa inquebrantável de Brahman, o Um ou Ser ou Ente. Brahman é perfeito e não quer se liberar de Brahman. E nem poderia se assim desejasse. Om.
Digo que Brahman em algum momento através de mim achou de bom tom ser mais literal, para satisfazer Sua vontade (e a minha), quebrando as regras num sentido e duma forma infinitesimal que não descaracteriza Brahman, num limiar bastante desprezível do que os tolos chamam de tempo-espaço que eu traduziria em palavras como sendo minha vida, os anos que eu vivo (da perspectiva de uma terceira pessoa)¹ nos lugares que eu vivo em torno de quem eu vivo (meus amigos, coetâneos e leitores).
¹ O que é a terceira pessoa (tanto do ponto de vista metafísico quanto do ponto de vista gramatical de todas as línguas)? É a junção fictícia das duas primeiras pessoas. Eu sou a terceira pessoa de vocês; vocês são a terceira pessoa para mim. E no entanto a primeira pessoa sou eu (vocês, isoladamente) e a segunda pessoa são vocês em conjunto (eu e os outros, para vocês, individualmente).
“When a man’s mind is his reins,
intellect, his charioteer;
He reaches the end of the road,
That highest step of Vishnu.”
Com esse trecho não vou gastar saliva. Irei apenas traduzi-lo para o formato da prosa familiar a nossa cultura, omitindo as palavras desnecessárias para a compreensão total (não faz sentido, na tríade homem-mente-intelecto, pelo menos nessa tradução em inglês, conservar mind e intellect; só man já é mais do que o bastante):
“When a man (…) is (…) his charioteer, he reaches the end of the road, that highest step of Vishnu.”
“Higher than the senses are their objects;
Higher than sense[d?] objects is the mind;
Higher than the mind is the intellect;
Higher than the intellect is the immense self;”
“Mais elevados que os sentidos são as coisas que percebemos por via dos sentidos, o mundo visível; [Que eu citei acima, na hierarquização simplificada, como intelecção – esta parte do mundo visível não fazendo referência ao próprio sujeito, e para sermos sujeitos está implicado que tem de haver o binômio sujeito-objeto, pode ser omitida, inclusive porque a mente, como veremos abaixo, interpreta automatica-mente todas as percepções dos 5 sentidos, integrando-as, e não se pode falar de mundo visível (veja como nos expressamos sempre hiper-valorizando os olhos!)/sentido sem que haja a mente do ator dotando este mundo de sentido (bússola das sensações).]
Mais elevada que o mundo visível é a mente;
Mais elevado que a mente é o intelecto; [Aqui sinto que nosso pensar ocidental entra em colisão com o vocabulário hindu – ou será problema da tradução para o inglês? –, pois mente e intelecto estão indissociados de acordo com nossa maneira de representar a ambos. A terceira linha, como a segunda linha, devem ser omitidas numa tradução explicativa superior.]
Mais elevado que o intelecto é o imenso self.”
Para melhorar, destarte:
“Mais elevada que os sentidos é a consciência;
Mais elevado que a consciência é o inconsciente.”
(mundo animal < mundo humano < mundo divino [somos divinos!]) (*) O mais irônico, se seguíssemos o ‘roteiro’ do Veda seria que posicionaríamos o mundo mineral acima do animal, i.e., o mundo visível, os objetos, as coisas, a estrada que os cavalos percorrem como sendo mais importantes até que nosso tato, audição, visão, olfato e paladar, o que é absurdo, pois não vivemos em subserviência aos objetos, e sim o contrário: somos nós que os criamos graças a nossa condição de seres vivos, por assim dizer.
A palavra que mais pode gerar confusão na tradução aperfeiçoada acima é a última. O inconsciente é o sábio que mora em nós sem que possamos ou devamos cobrar aluguel. Na verdade é ele que nos sustenta, em grau ainda mais surpreendente que a consciência sustenta os meros instintos. Porém, o INCONSCIENTE sofreu muitas malversações nos últimos tempos. Não temos palavra melhor para caracterizar “o verdadeiro senhor da consciência”, mas infelizmente a psicanálise poluiu imensamente essa palavra, para não falar das (más) psiquiatrias, psicologias e filosofias (jamais leiam Von Hartmann, um homem que interpretou Schopenhauer da pior maneira possível e teve grande influência sobre os ‘apreciadores da filosofia’). É preciso decantar e esterilizar a palavra para reutilizá-la, não temos escolha, e na verdade não devíamos nos subjugar a algumas poucas gerações de tolos, ou teríamos de reinventar nomes para quase todas as coisas. Mesmo assim, para iniciar esse processo e a revalorização do termo inconsciente, bem-descrito no Veda como imenso, muito mais abrangente que a consciência (como o oceano perante uma piscina), vindo a ser em última instância tão importante que pode ser igualado a Brahman, já que qualquer entidade separada de nós e portanto de nossa instância mais elevada seria apenas criar quimeras e fábulas que só multiplicariam as complicações, quando sabemos que o que o hinduísmo diz é que somos Brahman, ao contrário do cristianismo, que estabelece um Deus infinitamente inacessível ao homem, tão inacessível que se tornou a religião favorita do niilista ocidental,¹ quer dizer, maioria da população, que é niilista sem o saber… Em suma, quero dizer que de uma forma ou de outra, se quisermos respeitar o credo hindu, devemos equiparar a noção “despoluída” de inconsciente ao Todo desta querida religião. Seja falando simplesmente inconsciente, seja empregando, se se quiser, o termo inconsciente coletivo de Jung.
¹ Podemos até dizer que quanto mais crente se é, mais ateu! Só uma religião tão mesquinha seria capaz de provocar a morte teórica de deus, gerando tamanho estrago civilizacional que os filósofos tiveram de interferir nos negócios dos padrecos!
Por outro lado, se ainda assim o leitor fizer questões de sinônimos, como mais acima, para me referir a ‘inconsciente’, recorreria a:
BRAHMAN = OM = INCONSCIENTE (COLETIVO) (Filosofia, Psicologia, Jung) = UM (Parmênides) = DAIMON (Sócrates) = Idéia (Platão)¹ = MUNDO (vulgar) = OUTRO MUNDO (Filosofia Ocidental)² = VONTADE DE POTÊNCIA ou VONTADE NÃO-UNA ou VONTADE NÃO-LIVRE (Nietzsche)³ = VIDA DO SÁBIO (hinduísmo e outros sistemas) = ETERNIDADE ou PRESENTE ETERNO4
¹ Como Sócrates não escreveu, estamos autorizados a referir o daimon socrático ao próprio gênio de Platão: tão “egoísta” que criou dois nomes para Brahman ou aquilo que há de mais sagrado!
² Emprego aqui o Outro Mundo no sentido “recuperado” que já demonstrei, em relação ao Além da maioria das religiões: o Outro Mundo é o mundo das Idéias de Platão, localizado na alma do sábio, e portanto neste mundo mesmo, no presente, aqui e agora. Esse é o tesouro máximo do hinduísmo: uma religião de massa que não nega o amor à vida e não incita à hipocrisia e à mentira, prometendo recompensas num futuro indefinido. O que é do sábio sempre foi, é e será do sábio. A eternidade já foi alcançada. Desde pelo menos Schopenhauer ou Kierkegaard (admito que Kant é um caso talvez especial; já Hegel acreditava apenas num canhestro progresso da História, sem entender que o presente já havia trazido todas as evoluções que ele só podia atribuir ao futuro da Europa), após o longo e sombrio hiato entre Platão e o mundo moderno (quase ainda ontem!), chegando ao trabalho de autores definitivamente afirmadores de um e somente um mundo, este aqui, como Husserl, Heidegger, os existencialistas, praticamente todos os filósofos dignos do século passado e deste, o Outro Mundo dos fanáticos religiosos e dos Escolásticos – considerados filósofos apenas nominalmente, meros escribas de patrões temporais (a Igreja) – foi abandonado em prol de uma nomenclatura despida de conotações deletérias, fraudulentas e niilistas: o Outro Mundo de que falo, sinônimo da nova Zeitgeist de retorno ao Oriente, é o Outro Mundo que eu interpreto estar exposto nos Vedas: o mundo do sábio que chegou à realização de que a eternidade é o presente. O reencantamento do mundo; por isso também incluo a palavra mundo, porque é no mundo que vivemos, e em nenhum outro, em que tudo é possível. Este mundo é o Um.
³ O termo “vontade de potência” gera confusão. Primeiro porque faz parte do espólio de Nietzsche, que provavelmente teria mudado a expressão antes de publicá-la ou pelo menos não a elegeria como título de sua próxima obra. Segundo, por culpa do estudante filisteu de filosofia, que tende a associar “potência” (que já é uma adaptação à tradução portuguesa de “poder” na tentativa de evitar ambigüidades e enganos!) com o conceito de poder/monopólio da violência do Estado na Política, e em decorrência a doutrinas absolutamente anti-nietzscheanas como “sobrevivência do mais forte aplicada à Ciência Política”, nazifascismo, psicologias de auto-ajuda (como se se tratasse aqui de uma ‘força de vontade’ individual tendente ao infinito, calcada na imaginação desconexa da materialidade do mundo!), etc. A terceira problemática, e que quis evidenciar empregando sinônimos como VONTADE NÃO-UNA e VONTADE NÃO-LIVRE, é a falsa equiparação que se faz entre a Vontade schopenhauriana e a Vontade propriamente nietzscheana. Como Nietzsche é influenciado por Schopenhauer, muitos filósofos até razoavelmente competentes podem cair na cilada de não enxergarem onde está uma linha de ruptura definitiva do primeiro pensador com este último. E é importante tocar no assunto, já que Schopenhauer teria cunhado o termo Vontade justamente influenciado, por sua vez, por suas leituras orientalistas vinculadas ao hinduísmo! Há aqui, pelo que se vê, uma espécie de mal-entendidos em cascata. Desfaçamos esse nó górdio de vez! Se eu estiver certo e Schopenhauer errado (e uma coisa é decorrente da outra, pois temos pontos de vista divergentes), o que Schopenhauer entendeu dos Vedas e particularmente do budismo que se desenvolveu a partir da Índia, é exatamente a leitura leiga, ou a leitura tola e literal, da ascensão rumo à Verdade bramânica. Isso porque para Schopenhauer a doutrina budista é um quietivo da vontade. Sua Vontade, em letra maiúscula, é a entidade metafísica que rege secretamente todos os fenômenos do mundo visível e observável (que ele chamará de Representação). O mundo da representação de Schopenhauer se assemelha muito ao Samskara, o inferno hindu, em que não há um propósito para a existência. Aí entra a volição individual do homem: ao se aperceber da futilidade deste mundo (e percebendo, no caso de Schopenhauer – este um grande mérito seu) que não existe um outro mundo, tudo que resta ao indivíduo informado, ou ao sábio, é negar a vontade, com letra minúscula, o outro mundo que existe neste mundo. Ora, mero produto de um mundo sobre o qual ele não tem o menor controle, o asceta budista ao menos se empenha em emascular sua vontade, ou seja, a parcela dessa grande e única Vontade que configura seus instintos e portanto seu impulso vital, tratando, em primeiro lugar, de se guardar de gerar prole (instinto da reprodução e perpetuação da vida); em segundo lugar – e não cabe aqui citar o suicídio, pois Schopenhauer sabe que não há fuga da existência, ele fala de uma mortificação da vontade individual a despeito de que no mundo aparente nada mude – de refugiar-se na ascese espiritual, descartando o quanto puder traços de egoísmo, evitando agir sobre este mundo que não tende a nada e é só uma sucessão indefinida de acontecimentos vãos e sem valor. Uma forma de conseguir reduzir sua vontade virtualmente a zero (além de escrever um tratado filosófico sobre isso), para Schopenhauer, é que o sábio se dedique a refugiar-se na arte; principalmente na Música. Schopenhauer vê na música o elemento fenomênico (sensível) mais próximo da inacessível Vontade cega regedora do universo. Através dela o ser humano pode perpassar pelo circuito de todas as emoções, e ao mesmo tempo não viver, isto é, limitar-se a sentir paixões sem qualquer conseqüência prática ou interferência no mundo exterior. Para Schopenhauer todo grande artista é um negador da vida, um budista mascarado. Discordo frontalmente desse ponto de vista. Como eu acredito no Veda como uma alegoria que quer significar exatamente o oposto – a valorização do presente e da vida –, é necessário pontuar: minha principal influência filosófica é Nietzsche, e sua vontade opera em contraposição máxima ao “niilismo passivo” schopenhaueriano. Nietzsche quer restaurar as condições do grande homem, da grande cultura, da grande civilização, algo que o Ocidente não é mais capaz de proporcionar. Daí se explica que a filosofia oriental tenha, por tabela, exercido impacto proeminente no pensar de Nietzsche. Sua vontade é não-una porque diferentemente da Vontade indivisível, “em bloco”, de Schopenhauer, Nietzsche enxerga esse elemento metafísico como sendo manifestações completamente aleatórias e independentes entre si, de modo que o que realmente há não é uma tirania da Vontade sobre este mundo material, mas a presença de vontades dispersas, cada uma unilateral, procurando exercer seu “ponto de vista” sobre as demais, e conseguintemente sobre o mundo material. Esta vontade que “não é livre” (são palavras do próprio Nietzsche), ou todas essas porções infinitesimais de vontade, só sabe uma coisa: ser aquilo que ela é; forçar seu caminho, chegar a seus últimos limites; e os últimos limites são as outras vontades. Essas vontades não são entes abstratos absolutos, quer seja, não existem desde sempre e para sempre, consideradas individualmente. Conforme o jogo de forças, que seria apenas o espelho do jogo de forças do mundo material (daí ser possível a Nietzsche descrever uma vontade que pode ser apenas nomeada por hipótese, lembrando que os sentidos, guiados pela intelecção, no homem sábio, são a via para a Verdade, exatamente como nos Vedas, e exatamente como em todo e qualquer grande filósofo; esta é uma lei), vontades antes autônomas podem se ver reagrupadas (talvez uma vontade mais poderosa englobou ou absorveu outra, vencida), como um “tecido de vontade” pode se desmembrar em múltiplas vontades com novos vetores e potencialidades… Esse jogo não termina, pois jamais houve nem haverá um vencedor. É uma “guerra democrática”, já que uma só vontade jamais se tornará soberana (a Vontade no sistema schopenhaueriano é tirânica, soberana, pois não há oposição dela consigo mesma). Não só a vida é regida pela vontade, mas ela é evidentemente seu campo de atuação primordial. Cada instinto nosso pode ser interpretado como a manifestação aparente de uma vontade. Isso explicaria, o que Schopenhauer deixou em aberto, por que num mesmo indivíduo tantas volições contraditórias precisam combater entre si para se manifestar, num jogo de sucessões intermináveis. Podemos ter uma personalidade definida e coerente, mas basta lembrar que essa é só nossa vida consciente. Por debaixo do pano “n” vontades lutam para fazerem-se valer, partindo do inconsciente até serem traduzidas no reino visível ou “mundo das aparências”. Acontece que a contraposição ao mundo das aparências, onde atuam as vontades, não é outro reino senão o ideal, o fictício, forjado principalmente pelas grandes religiões do passado do homem. O Cristianismo, o próprio Budismo são inimigos do homem que encontrou a Verdade na revelação do mundo como vontades em eterno conflito. Nietzsche reconhece que esta é a vida e ela não deveria ser diferente do que é no presente; necessariamente o que torna o homem burguês decadente haverá de ser vencido um dia, por novos valores, novas vontades, novas potências. Embora tudo nasça, se desenvolva, atinja um auge, decline e finalmente morra, o fato de as vontades se entrechocarem o tempo todo, de a realidade da Vontade de Potência ser “estar sempre em contradição consigo mesma”, ambos os fatos são o fundamento da existência, e isto é o que há de constante neste grande pensamento. Exatamente como nos Vedas. Por esse lado, Nietzsche parece ser o inimigo de um credo que buscaria a ascese suprema, a libertação, a evasão do ciclo de reencarnações, a fusão com Brahman. Mas tudo depende de se Nietzsche – que não foi explícito nesse tocante – entendeu os Vedas dessa forma ou se “empatou” com minha conclusão: os Vedas foram, até hoje, mal-interpretados. Eles são um hino à vida, coincidentes com a filosofia nietzscheana. E o que é mais espantoso é que Nietzsche, que tanto se bateu com Platão, pode (pode! não sabemos bem o que ele deixou de declarar deliberadamente – coisa de filósofos!) não ter percebido que a dialética-maiêutica de Platão, sua teoria das reminiscências e das Idéias, tudo aquilo que o alemão parece ter associado, a princípio, à negação da vida em prol de “meras conjeturas servíveis apenas num Além-mundo”, é no fundo uma filosofia gêmea a sua! São duas aproximações que redundam nas mesmas conclusões. O primeiro e maior filósofo do Ocidente encontra em Nietzsche seu acabamento, e o acabamento da filosofia ocidental como um todo, como são muitos os que o afirmam. Ou podemos considerar Nietzsche um iniciador, e Platão o responsável pelo acabamento? Não faz diferença, quando a filosofia (a busca pela sabedoria) é atemporal e não tem fim ou começo. As filosofias mais sábias e honestas tenderão a chegar às mesmas conclusões, por mais que seus métodos e termos-chaves pareçam tão distintos e antípodas – esse pseudo-antagonismo não resiste a uma análise mais detida, não são filosofias ou fés, mas a Fé, a Filosofia Verdadeira. E não é um império dual, mas um triunvirato, se eu estiver certo: o hinduísmo corrobora, antes mesmo da História do Ocidente devir, estes dois maiores filósofos, o alfa e o ômega da historiografia da disciplina; nossos legítimos contemporâneos. Nietzsche declarou que Heráclito podia ter enunciado seu eterno retorno. Talvez seja o ponto cego inerente a cada filósofo que ele não tenha visto algo tão evidente para nós: Parmênides e Platão são os legítimos filósofos do eterno retorno da Antiguidade. A teoria das reminiscências é muito afim ao karma hindu e à proposta ética de Nietzsche para passarmos esta semelhança por alto. De onde quer que se parta, o Um parmenídeo, a Idéia platônica, o daimon socrático, a vontade de potência ou o privilégio da fusão do sábio com o verdadeiro invisível dos livros sagrados da Índia, a rota percorrida parece exatamente a mesma.
Para uma explicação mais detalhada das vontades em N. e S., recomendo meu post dedicado à filosofia de Schopenhauer (HISTÓRIA DAS IDÉIAS 3) ou ainda meu livro VONTADE DE INTERPRETAÇÕES (à venda em https://clubedeautores.com.br/livro/vontade-de-interpretacoes-2). E sim, o título do meu livro foi escolhido sarcasticamente, muito em virtude das distorções voluntárias ou não de exegetas quanto ao termo vontade de potência!
4 1) Eternidade é a palavra mais fácil a que atribuir autor: pode ser determinada como de uso vulgar desde os tempos mais imemoriais;
2) Esta nota de rodapé existe em razão do segundo termo, seu equivalente, se bem que, ao mesmo tempo, enfatizador da obviedade de que em havendo eternidade só pode haver uma eternidade presente. Isso porque não nos interessa aqui considerar a divisão tripartite do tempo entre passado, atualidade e futuro, o que seria jogar pela janela toda essa interpretação, julgo eu, em alto nível dos Vedanta, e aliás regressar às noções cavernícolas de tempo para Isaac Newton, sendo que Immanuel Kant destroçou pouco depois qualquer possibilidade desse “tempo em linha reta de jardim de infância” ter qualquer validade acadêmica séria. Como não sou Arnold Schwarzenegger me recuso a retornar ao jardim de infância, ainda que seja para dar aulas que gerem mais polêmica que o tira no filme! Afinal de contas, se quiséssemos falar de pseudo-eternidades (conceitos vulgares a-filosóficos) poderíamos partir para análises historiográficas de como não fazemos rigorosamente idéia de quantos anos há para trás ou para frente no universo, debate aliás absurdo e completamente improdutivo que é uma obsessão quase sexual e do subgênero sado-masoquista (uma parafilia) desses “especialistas sem espírito” (Weber) chamados físicos modernos, que falam com pompa e autoridade sobre asneiras como “big bang ou singularidade” (o ‘Adão e Eva’ dos filisteus™), “universo antes do universo existir, (!) previamente ao início do tempo, (!!) sob a forma de um ponto de densidade infinita (!!!)” ou ainda como “uma suposta idade atual do universo na casa dos 13 ponto sei lá quantos bilhões de anos”… Tampouco me interessa, aliás, tampouco interessa a qualquer habitante do planeta Terra, para sermos francos, quantos bilhões de anos o sol demorará para “queimar”, “explodir” ou “simplesmente se apagar”, primeiro porque no ritmo do capitalismo a Terra queimará “sem ajuda” antes, muito, muito antes; segundo porque não está provado– já que os cientistas amam de paixão esta palavra –, mesmo assumindo a absurdidade da hipótese de um universo com início-meio-fim proposta por físicos que quebra as próprias leis da física,(*) que não poderia haver uma – na falta de termo melhor, e de empréstimo da astronomia – precessão das condições de ‘sobrevivência’ do sistema solar, para começo de conversa, quando eventos teoricamente prováveis em escala de bilhões de anos segundo nossos melhores matemáticos, estatísticos, físicos e químicos não poderiam ser descartados por inumeráveis fatos intervenientes no decorrer de todo esse tempo (5 bilhões de anos de vida restantes para nosso Astro-Rei!) no próprio reino da ciência estritamente acadêmica, ainda mais levando em conta que não há disciplina que não sofra grandes revoluções de paradigmas em um módico intervalo de décadas! Para se ter idéia, se preservássemos todas as condições de realização do Campeonato Brasileiro de Futebol numa estufa, dando vida eterna aos jogadores, dentro de bilhões de anos até o Coritiba, atual equipe de várzea, viria a ser campeã dos pontos corridos um sem-número de vezes com até 100% de aproveitamento em alguma das ocasiões!!! Bilhões de anos é uma quantidade de tempo imensurável. Tudo e qualquer coisa acontece num “período” tão vasto (é tão vasto que ouso dizer que nenhuma mente humana foi formatada para conceber quão verdadeiramente vasta é a quantidade de 1 milhão de anos, de modo que se multiplicarmos isso por mil podemos ter certeza de que todos os lobos do planeta terão sido extintos pelo mero apetite de uma única criança chamada Chapeuzinho Vermelho).
Para chegarmos direto ao ponto (que não é um ponto de densidade infinita que estourará, devido a uma maldosa singularidade, justo na sua cara, fique tranqüilo!), avancemos. Obviamente não fui eu quem cunhou a expressão PRESENTE ETERNO, mas no momento eu não saberia dizer quem foi o primeiro a utilizá-la, e no sentido aqui proposto. Tenho razoável confiança de que Nietzsche chegou a utilizar este binômio; de qualquer forma, não sendo o caso, foi ele quem influenciou autores do séc. XX a forjá-lo neste sentido que tenho em mente, se for mesmo verdade que já não o tomaram de empréstimo. Mas suspeito que antes de Nietzsche esta expressão, para um sentido parecido em Metafísica, já estava em voga. Ainda preciso pesquisar a respeito.
(*) DESABAFO EM CAPS LOCK
ME DIGAM EM QUE HOSPÍCIO JÁ SE VIU TAMANHA LOUCURA! MAS FALAR NISSO EM TEMPOS DE IVERMECTINA PARA TRATAMENTO DA COVID, EU SEI, CHEGA A SER UMA BLASFÊMIA, PORQUE DESCREDIBILIZA A CIÊNCIA ESTABELECIDA, EMBORA “ISSO” QUE OS FÍSICOS CHAMAM DE “TEORIA DO BIG BANG” PASSE LONGE DE SER MÉTODO E DE SER CIÊNCIA, MOLE OU DURA! ACONTECE QUE UM DIA, A LONGO, PRAZO, ISSO DEVERÁ SER ENDEREÇADO E DISCUTIDO, ENTÃO EU ARREMESSO A PRIMEIRA PEDRA SEM PUDOR E SEM MEDO – CIENTE DO MEU LEGADO – DE SER CHAMADO POR ALGUM CABEÇA-DE-BOI DE negacionista, MINHA CONTRA-DEFINIÇÃO POR EXCELÊNCIA! PORQUE, INFELIZMENTE, QUEM TEM VOZ NESSE DEBATE ATUALMENTE E QUE ATAQUE A TEORIA DEMENTE DO BIG BANG É OU CRIACIONISTA (COMO SE INVENTAR COISAS TÃO ESTAPAFÚRDIAS COMO UM PONTO DE DENSIDADE INFINITA PARA EXPLICAR A ORIGEM DA EXISTÊNCIA NÃO FOSSE DEIXAR OS COMUNS DOS MORTAIS DE CABELO EM PÉ, LOUCOS PARA ENTRAREM NUMA IGREJA E PEDIREM SOCORRO A UM PASTOR!) OU TERRAPLANISTA, OU SEJA, ESCÓRIA DA ESCÓRIA, AINDA MAIS DEMENTES QUE OS “FÍSICOS CONTEMPORÂNEOS”…
* * *
Mas ainda não acabou a hierarquia do texto sagrado! A ele devemos regressar:
“Higher than the immense self is the unmanifest;
Higher than the unmanifest is the person;
Higher than the person there’s nothing at all.
That is the goal, that’s the highest state.”
Acontece que eu equalizei o immense self ou inconsciente a todo o imanifestável, como foi visto exaustivamente acima! O Nada. Quase consigo acreditar que esses trechos dos Vedas sofreram interpolação de fanáticos de época posterior. Olhando dessa maneira, parece que os vaticínios de Schopenhauer fariam todo o sentido! Mas não percamos de vista que o Veda é um poema e não deve ser mal-interpretado. Tendemos a ler o “nada” deste escrito tão antigo como o nada da filosofia contemporânea, o que é um erro. Claro que não posso justificar em mil anos a segunda linha. Persons, se estivermos falando de individualidades, consciências, já ficaram muito abaixo na hierarquia. Por isso a diferença no matiz dos verdes: quanto mais escuro, mais censurável. Se acima do inconsciente ou, que seja!, daquilo-que-não-pode-ser-manifestado, só há o nada, ou não há nada, não significa que o último passo já foi dado? E não foi isso que foi dito no verso sobre Vishnu mais acima? A meta é chegar à realização do presente como a felicidade máxima: mais que isso é impossível, é absurdo. A pergunta pode até ser colocada: Existe outro degrau? Mas a resposta invariável é: Não.
“Hidden in all the beings,
this self is not visibly displayed.
Yet, people of keen vision see him,
with eminent and sharp minds.”
Pode até mesmo ser que o “nada” se refira apenas aos tolos. Sabemos que o invisível que o sábio vê no topo de todas as coisas do mundo, do único mundo, é Brahman, são as vibrações do Om. É o self no sentido hinduísta. E por que voltariam a citar “this self”quando, supostamente, a hierarquia ainda “subiu mais”, citando “unmanifest”depois, e “persons”(sic)? Porque os quatro versos de “Higher than the immense self…” a “…that’s the highest state.”são de importância relativa quase nula se compararmos a tudo o que precede e sucede!
“A razor’s sharp edge is hard to cross—
that, poets say, is the difficulty of the path.”
E no entanto não basta ensinar, como eu já disse. A jornada não pode ser ensinada. Quantos tolos não existem para cada Platão? Quantos puderam entender Platão? Quantos especialistas em Platão (oximoro) me dirão que estou correto sobre Platão? A eternidade não é uma descoberta no estilo Eureka!. Posso enunciá-la quantas vezes quiser. Alguém a terá mesmo obtido, na forma como descrevi? Eu mesmo, vivo no presente sem me autoenganar, em minha potencialidade máxima, isto é, na potencialidade máxima que cabe ao homem? Sobre isso, Bíblias demais já foram escritas para que incorramos nas mesmas e repisadas fraudes… Fechando o parágrafo com uma piadinha: desde Gutenberg, nenhuma bíblia foi escrita. Os copistas perderam o emprego!
“It has no sound or touch,
no appearance, taste, or smell;
It is without beginning or end,
undecaying and eternal;
When a man perceives it,
fixed and beyond the immense,
He is freed from the jaws of death.
*
The wise man who hears or tells
the tale of Naciketas,
an ancient tale told by Death,
will rejoice in Brahman’s world.”
Quem senão a Morte (o Nada, pois nada está acima de Brahman) poderia contar o antigo conto (tale também pode ser traduzido como história ou conversa – o que é muito revelador sobre Platão e o método dialógico)?
“If a man, pure and devout, proclaims this great secret
in a gathering of Brahmins,
or during a meal for the dead,
it will lead him to eternal life!”
“He who was born before heat,
who before the waters was born,
who has seen through living beings—
Entering the cave of the heart,
(one sees) him abiding there.
So, indeed, is that!
She who comes into being with breath,
Aditi, who embodies divinity,
who was born through living beings—
Entering the cave of the heart,
(one sees) her abiding there.
So, indeed, is that!”
“Whatever is down here, the same is over there;
and what is over there is replicated down here.
From death to death he goes, who sees
Here any kind of diversity.
With your mind alone you must understand it—
there is here no diversity at all!
From death to death he goes, who sees
here any kind of diversity.
A person the size of a thumb
resides within the body (Ātman);
The lord of what was and what will be—
From him he does not hide himself.
So, indeed, is that!
The person the size of a thumb
is like a fire free of smoke;
The lord of what was and what will be;
the same today and tomorrow.
So, indeed, is that!
As the rain that falls on rugged terrain,
runs hither and thither along the mountain slopes;
So a man who regards the laws as distinct,
runs hither and thither after those very laws.”
“…
Seated in the truth, seated in heaven;
Born from the water, born from cows,
Born from the truth, born from rocks;
The great truth!
The out-breath he conducts upward,
the in-breath he drives backward;
All the gods worship him,
the Dwarf seated in the middle.”
Atman, o inconsciente.
“When this embodied self dwelling in the body
comes unglued and is freed from the body—
what then is here left behind?
So, indeed, is that!
Not by the out-breath, not by the in-breath,
does any mortal live;
By another do people live, on which those two depend.
Come, I’ll tell you this secret and eternal
formulation of truth (Brahman);
And what happens to the self (Ātman), Gautama,
when it encounters death.”
“This person, creating every desire,
who lies awake within those who sleep;
That alone is the Pure! That is Brahman!
That alone is called the Immortal!
On it all the worlds rest;
beyond it no one can ever pass.
So, indeed, is that!
As the single fire, entering living beings,
adapts its appearance to match that of each;
So the single self within every being,
Adapts its appearance to match that of each;
yet remains quite distinct.”
“As the sun, the eye of the whole world,
is not stained by visual faults external to it;
So the single self within every being,
Is not stained by the suffering of the world,
Being quite distinct from it.
The one controller, the self within every being,
who makes manifold his single appearance;
The wise who perceive him as abiding within themselves,
they alone, not others, enjoy eternal happiness.”
“‘This is that’—so they think, although
the highest bliss can’t be described.
But how should I perceive it?
Does it shine?
Or does it radiate?
There the sun does not shine,
nor the moon and stars;
There lightning does not shine,
Of this common fire need we speak!
Him alone, as he shines, do all things reflect;
This whole world radiates with his light.
“Its roots above, its branches below,
this is the eternal banyan tree [Vata Vruksham].¹
That alone is the Bright! That is Brahman!
¹ Figueira-de-bengala. O paralelo da Yggdrasil.
(*) “This Pattachitra painting, meaning a painting done on a dried palm leaf called patta, depicts this eternal banyan tree as the largest of all, portraying its superiority and immortality. Around it, we can find animals, birds and other life forms flourishing in abundance while the waters flow in all their purity.” artisanscrest.in
(*) “A figueira-de-bengala (Ficus benghalensis) ou baniano é uma espécie de figueira endêmica do Bangladesh, Índia e Sri Lanka. Em sânscrito o seu nome é Vatavrkscha ou WataWrkscha. No português de Goa eram conhecidos como árvores da gralha (em concani: vôdd). A figueira-de-bengala produz raízes aéreas delgadas que crescem até atingir o solo, começando então a engrossar até formarem troncos indistinguíveis do tronco principal. Deste modo, podem crescer até ocuparem vários hectares.” pt.wikipedia.org
“O que acontece para a árvore, acontece também para o homem. Quanto mais deseja elevar-se para as alturas e para a luz, mais vigorosamente enterra suas raízes para baixo, para o horrendo e profundo: para o mal.”
Nietzsche
“The fear of it makes the fire burn;
The fear of it makes the sun shine;
The fear of it makes them run—
Indra and Wind,
And Death, the fifth.”
Quem é them? Todos os animais? Todos os homens isentos do imortal?
ENCORE
“Higher than the senses is the mind;
Higher than the mind is the essence;
Higher than the essence is the immense self;
Higher than the immense is the unmanifest.
Higher than the unmanifest is the person,
pervading all and without any marks.
…”
“When the five perceptions are stilled,
together with the mind,
And not even reason bestirs itself; [se agita]
They call it the highest state.
When senses are firmly reined in,
that is Yoga,so people think.
From distractions a man is then free,
for Yoga is the coming-into-being,
as well as the ceasing-to-be.”
Minha hipótese é a de que a verdade mais elevada foi vulgarizada como uma prática que não guarda a mínima relação com a original – a yoga deteriorada da contemporaneidade, das madames da alta sociedade. Mas “so people think” dá o que pensar! Os tolos pensam que yoga, o estado inabalável, é apenas o controle ascético dos 5 sentidos, uma etapa das mais baixas…
“One hundred and one, the veins of the heart.
One of them runs up to the crown of the head.”
“A person the size of a thumb in the body (Ātman),
always resides within the hearts of men;
One should draw him out of the body with determination,”
É isso que eu não consigo entender. Por que expulsar o daimon do coração? Este é seu lugar.
“Then, after Naciketas received this body of knowledge,
and the entire set of yogic rules taught by Death,
He attained Brahman; he became free from aging and death;
so will others who know this teaching about the self.”
Brhadāranyaka Upanisad II, 4, 5
“This Upanishadic passage consists of a dialogue between Yājñavalkya, who is the principal teacher in the Brhadāranyaka Upanisad, and his wife Maitreyī. Yājñavalkya ‘is about to depart this place’ and instructs Maitreyī on the nature of the eternal Ātman. The text given here is a translation of Patrick Olivelle from The Early Upanishads.”
“One holds a husband dear, you see, not out of love for the husband; rather, it is out of love for oneself (Ātman) that one holds a husband dear. One holds a wife dear not out of love for the wife; rather, it is out of love for oneself that one holds a wife dear. One holds children dear not out of love for the children; rather, it is out of love for oneself that one holds children dear. One holds wealth dear not out of love for wealth; rather, it is out of love for oneself that one holds wealth dear. One holds the priestly power dear not out of love for priestly power; rather, it is out of love for oneself that one holds the priestly power dear. One holds the royal power dear not out of love for the royal power; rather, it is out of love for oneself that one holds the royal power dear. One holds the worlds dear not out of love for the worlds; rather, it is out of love for oneself that one holds the worlds dear. One holds the gods dear not out of love for the gods; rather, it is out of love for oneself that one holds the gods dear. One holds beings dear not out of love for beings; rather, it is out of love for oneself that one holds beings dear. One holds the Whole dear not out of love for the Whole; rather, it is out of love for oneself that one holds the Whole dear.”
…so I say, after death there is no awareness.”
“By what means can one perceive him by means of whom one perceives this whole world? Look—by what means can one perceive the perceiver?”
Brhadāranyaka Upanisad III, 7
“This Upanisadic passage is a favorite of Rāmānuja. It once more introduces Uddālaka Gautama, now as challenger of Yājñavalkya who is the principal teacher in the Brhadāranyaka Upanisad as Uddālaka is in the Chāndogya.”
“The Unseen Seer; the Unheard Hearer; the Unthought Thinker; the Unknown Knower. There is no other Seer; there is no other Hearer; there is no other Thinker; there is no other Knower. This is thy Self, the immortal inner controller. Whatever is other than this is evil.—Then Uddālaka son of Aruna subsided.”
Brhadāranyaka Upanisad III, 8
“It culminates in the famous description of Brahman as ‘Not, Not’ (neti neti), perhaps the most succinct statement of the unqualified supreme as held by Śankara.”
Brhadāranyaka Upanisad IV, 2, 3, 4
“He said: This person in the right eye is called Indha (the kindler). He, who is Indha, is called Indra, cryptically as it were; for the gods may be said to love the cryptic and dislike the obvious.
Now this that has the form of a person in the left eye is his consort, Virāj(queen or majesty). The concert of these two is this space within the heart. Their food is this mass of blood within the heart. Their covering is this net-like thing within the heart. Their path, which is traversable, is this channel which goes upward from the heart.
He (the Self, union of Indha and Virāj) has these channels called Hitā, as fine as a hair split in 1000 parts.”
“Of this same person, the eastern vital powers are the eastern quarter, the southern vital powers are the southern quarter, the western vital powers are the western quarter, the northern vital powers are the northern quarter, the upward vital powers are the zenith, the downward vital powers are the nadir; all his vital powers are all the quarters.
This is the Self that is not, not.”
O resto é metafísica barata, estou decepcionado.
“Now as this dream-state is an approach to the other-world state, entering on this approach, he sees both the evils of this world’s state and the joys of the other world’s state. When this Spirit dreams, he takes material from this world with all its contents, and cutting it down himself, building it up himself, by his own radiance, by his own light, he dreams. Under these circumstances his own self serves as light to man (Spirit, purusa) here.”
“It is simply consciousness (samjñāna, which must mean or include the prāna and the several prāmas) that follows along with it”Depois de dizer que os sentidos desfalecem após a partida da alma individual do corpo e a Unificação, diz-se, imbecilmente, que apenas a consciência ou o vulgar sexto sentido é o que permanece como entidade autônoma!!! Do ponto de vista filosófico pouco se nos dá a reencarnação, no que não toca o fenômeno da reminiscência durante nossa consciência humana…
“So far one who is desirous. Now one who no longer desires. He who is desireless, who is without desire, who desires (only) the Self, who has attained his desires—from him the vital powers (of the body) do not mount upward; they are collected together right in him. Being just the Brahman, unto the Brahman he (the Soul) arrives.”
Ó, QUE GRANDE AMEAÇA! “Into blind darkness enter they who are devoted to not-coming-into-being (who believe in no rebirth); into what seems even greater darkness than that, those who take delight in coming-into-being (who crave rebirth, further existence).
Those worlds are called the demons’ worlds; they are enveloped in blind darkness. Ignorant, foolish folk enter into them after death”
“By the mind alone must it be understood, that there is nothing manifold in this world. Death after death attains he who thinks he sees manifoldness in this world.”
“it is the unborn, great, constant Self, free from impurity, higher than the ether.”
“it is the dyke that holds apart these worlds, lest they should crash together”
HIPOCRISIA MONÁSTICA: “Therefore those brāhmanas of old, learned and wise, desired no offspring, thinking: What shall we do with offspring, we who possess this Self, this (equivalent of the) Heavenly World (which is the traditional object of begetting sons)?—Abandoning both the desire for sons and the desire for possessions and the desire for heaven, they wandered forth a-begging. For the desire for sons is the same as the desire for possessions, and the desire for possessions is the same as the desire for heaven; for both are nothing but desires.”
“This is that great unborn Self, ageless, deathless, fearless, immortal—the Brahman. You have attained fearlessness, O Janaka!”
1.2 RECOLLECTION
“No Revelation is enough, and all Revelation is too plentiful. Every tradition that bases itself on revealed truth makes its selection, and in the end it is often no more than a few handfuls of assertions that finally constitute the scriptural foundation of a faith. At the same time, however great be the guidance of scripture in matters of high truth and ultimate destiny, it frequently is insufficient to guide the conduct of the believer”
“Islam has formed a large collection of hadīth, traditions concerning Muhammad’s reactions and responses to problems and questions that were not completely provided for by the Qur’ān. Likewise Indian religion has added to the monument of śruti the hostel of smrti.”
“We have seen that Revelation, which is beginningless and authorless, came to the vision of the seers at the dawn of creation. The seers thereupon started an uninterrupted transmission to a series of pupils that stretches until today. At the same time these seers conducted themselves in certain ways: in the first place their conduct was in accordance with the dictates of the Vedas, but they observed also customs and practices not explicitly mentioned in the Vedas. Such behavior they also transmitted to their pupils and it is such behavior, not explicitly Vedic but inferable from the Vedas, which is deemed smrti”
“for instance the smrti of Manu—here the word practically approaches the notion of a book of law. The usage was extended to any work that dealt with the dharma, and indeed hardly any work from early Sanskrit literature does not qualify as such.” “the smrtis of Manu and Yājñavalkya are authoritative, but the smrti of the Buddha, for instance, is not.”
“While Vedānta accepts as a matter of course the authority of a number of smrtis, it gives first place to one text, the Bhagavadgītā, thus bowing to the popularity the text had acquired.”
“The Gītā is in many respects very dissimilar to the Upanisads. There is first the fact that it forms part of the huge epic of the Mahābhārata, which gives it a very different tone.”
“Although there are some discontinuities in it, it presents itself as, and largely is, a continuous discourse which is more extensive than any such in the Upanisads.”
“The Gītā is a dialogue. It is a dialogue, formally, between the warrior Arjuna who, when finally faced with a family war in which he finds close relatives, friends, and gurus drawn up against him and his party, has second thoughts and refuses to engage in the battle. But beyond that it is a dialogue, sometimes approaching a debate, between diverging attitudes concerning and methods toward the attainment of release (moksa). § Transmigration, still muted in the Upanisads, is now completely axiomatic.”
“The Gītā can be placed roughly about the beginning of the Christian era, within a margin of two centuries, and the authors must have seen the appeal of the soteriologies both of the ‘heterodox’ traditions of Buddhism and Jainism and of the more ‘orthodox’ ones of Sākhya and Yoga.”
“This ethics of duty has been transcended by a different, seemingly incompatible ethics of release, which demands that man quit acting at all and rise ‘beyond the good and evil’ of being of this world.”
“Formally, Arjuna’s dilemma is to choose between conflicting dharmas: as a warrior his dharma is to fight a just war; as a man of honor, facing on the battlefield his kinsmen and betters, this war, however just, is unjust and against dharma since it attacks the family, the basic unit of dharma ethics”
“While apparently forbearing to judge between the Way of the Task (karma-yoga) and the Way of the Insight (jñāna-yoga), Krsna’s emphasis is very strongly on the Task, and he offers the solution that the Task, if accomplished without attachment to its reward, leads equally to an escape from bondage as does the Way of the Insight, which harbors its own hypocrisies.”
O LADO VONTADE DE POTÊNCIA DA SABEDORIA HINDU: “There is the strand that holds the world so lightly that it can conceive of release only as the utter negation of it, and the only way to be pursued is that which leads to the liberating insight into the absolute otherness of the Brahman; this is exemplified by Śamkara. There remains the strand that dharma must not be ignored, that the world must be kept together, and if indeed the insight in Brahman’s nature is necessary, this nature cannot be absolutely other than this world. There must be a continuity between this and that as there must be between living in this world and fulfilling one’s task, and the insight that liberates from bondage; this is exemplified by Bhāskara. And finally there is the strand which holds that the very purpose of Vedānta is to explicate and glorify God and that both task and insight come together and are sublimated in devotion; this is exemplified by Rāmānuja.
It may well be this universalism of the Gītā which gave rise to its popularity, which in turn demanded that Vedānta, whose intentions became more and more universal, deal with it. It is in no way a systematic treatise, although it has a greater inner cohesion than the Upanisads.”
THE BHAGAVADGĪTĀ
“My limbs collapse, my mouth dries up, there is trembling in my body and my hair stands on end;
The bow Gandiva slips from my hand and my skin also is burning;
I am not able to stand still, my mind is whirling.
And I see evil portents, O Krsna, and I foresee no good in slaying my own kinsmen in the fight.
I do not desire victory, O Krsna, nor kingdom, nor pleasure. Of what use is kingdom to us, O Krsna, of what use pleasure or life?
Those for whose sake we desire kingdom, pleasures and happiness, they are arrayed here in battle, having renounced their lives and riches. Teachers, fathers, sons, and also grandfathers; uncles, fathers-in-law, grandsons, brothers-in-law and other kinsmen;
These I do not wish to kill, though they kill me, O Krsna”
“In the ruin of a family, its immemorial laws perish; and when the laws perish, the whole family is overcome by lawlessness.”
“…and mixture of the caste arises.”
“their ancestors fall, deprived of their offerings of rice and water.”
“Thou grievest for those thou shouldst not grieve for, and yet thou speakest words that sound like wisdom. Wise men do not mourn for the dead or for the living.
Never was there a time when I did not exist, nor thou, nor these rulers of men; nor will there ever be a time hereafter when we shall all cease to be.”
“The sage is not bewildered by this.
Contacts with the objects of the senses, O Arjuna, give rise to cold and heat, pleasure and pain. They come and go, they are impermanent; endure them, O Arjuna.”
“Of non-being there is no coming to be; of being there is no ceasing to be.”
“Therefore fight, O Arjuna!
He who thinks that this soul is a slayer, and he who thinks that this soul is slain; both of them are ignorant. This soul neither slays nor is slain.”
“Just as a man casts off worn-out clothes and takes on others that are new, so the embodied soul casts off worn-out bodies and takes on others that are new.”
“As much use as there is for a pond when there is everywhere a flood, so much is there in all the Vedas for a brahmin who understands.
In action only hast thou a right and never in its fruits. Let not thy motive be the fruits of action; nor let thy attachment be to inaction.”
“remaining even-minded in success and failure; for serenity of mind is called yoga.
Mere action is far inferior to the discipline of intelligence, O Arjuna. Seek refuge in intelligence; pitiful are those whose motive is the fruit of action.”
“…for yoga is skill in action.”
“When thy intelligence shall cross the tangle of delusion, then thou shalt become indifferent to what shall be heard and to what has been heard in the Veda.
When thy intelligence, which is now perplexed by the Vedic texts, shall stand immovable and be fixed in concentration, then shalt thou attain yoga.”
PROTOPRAXIS: “In this world, O Arjuna, a twofold path has been taught before by Me; the path of knowledge (jñāna-yoga) for men of discrimination (sāmkhyas) and the path of works (karma-yoga) for men of action (yogins).”
“Everyone is made to act helplessly by the gunas born of prakrti.
He who controls his organs of action, but dwells in his mind on the objects of the senses; that man is deluded and is called a hypocrite.
But he who controls the senses by the mind, O Arjuna, and, without attachment, engages the organs of action in karma-yoga, he excels.”
“Perform thy allotted work, for action is superior to inaction; even the maintenance of thy body cannot be accomplished without action.
This world is in bondage to karma, unless karma is performed for the sake of sacrifice. [sentença mais incompreensível]”
“There is nothing in the three worlds, O Arjuna, to be done by Me, nor anything unobtained that needs to be obtained; yet I continue in action.
For if I, unwearied, were not always in action, O Arjuna, men everywhere would follow my example.
If I did not perform action, these worlds would be destroyed, and I should be the author of confusion and would destroy these people.
As the ignorant act with attachment to their work, O Arjuna, so the wise man should act but without attachment, desiring to maintain the order of the world.”
“But he who is deluded by egoism thinks, ‘I am the doer.’”
“the gunas … act upon the gunas”
“Surrendering all actions to Me, with thy consciousness fixed on the supreme Self, being free from desire and selfishness, fight freed from thy sorrow.”
“As fire is covered by smoke, as a mirror by dust, and as an embryo is enveloped by the womb, so this knowledge is covered by that passion (wrath).”
“Although unborn, although My self is imperishable, although I am Lord of all beings, yet establishing Myself in My own material nature, I come into being by My own mysterious power (māyā).”
“What is action? What is inaction? About this even the wise are confused. Therefore I will declare to thee what action is, knowing which thou shalt be freed from evil.
One must understand the nature of action, and one must understand the nature of wrong action, and one must understand the nature of inaction: hard to understand is the way of action.
He who sees inaction in action and action in inaction, he is wise among men; he does all actions harmoniously.”
“Having abandoned attachment to the fruits of action, always content and independent, he does nothing even though he is engaged in action.”
“…performing action with the body alone, he commits no sin.”
“He who is content with what comes by chance, who has passed beyond the pairs of opposites, who is free from jealousy and is indifferent to success and failure, even when he is acting he is not bound.”
“The action of a man … who performs action as a sacrifice, is completely dissolved.”
“As the fire which is kindled makes its fuel into ashes, O Arjuna, so the fire of knowledge makes all actions into ashes.
There is no purifier in this world equal to wisdom. He who is perfected in yoga finds it in the self in the course of time.”
“But the ignorant man who is without faith and of a doubting nature perishes. For the doubting self, there is not this world, nor the next, nor happiness.
Actions do not bind him who has renounced actions in yoga, who has cast away doubt by knowledge, who possesses himself, O Arjuna.”
“Renunciation of works and the unselfish performance of works (karma-yoga) both lead to the highest happiness. But of these two the unselfish performance of works is better than the renunciation of works.” Surpreendente do ponto de vista védico.
“He who neither hates nor desires should be known as the eternal renouncer; free from the pairs of opposites, O Arjuna, he is easily released from bondage.
Children, not the wise, speak of renunciation and yoga as separate; for he who is well established in one obtains the fruit of both.”
“Renunciation, O Arjuna, is difficult to attain without yoga. The sage who is disciplined in yoga soon goes to Brahman.”
“Sages look equally on a brahmin endowed with knowledge and breeding, or on a cow, an elephant, and even a dog and an outcaste.”
“One should not rejoice when obtaining the pleasant, nor be agitated when obtaining the unpleasant. Unbewildered, with firm intelligence, the knower of Brahman is established in Brahman.”
“The enjoyments which are born of contacts with objects are only sources of sorrow. These have a beginning and end, O Arjuna; the wise man does not rejoice in them.”
“Among thousands of men perchance one strives for perfection, and of those who strive and are successful, perhaps one knows Me in essence.
This is My divided 8-fold nature: earth, water, fire, wind, ether, mind, intellect and self-consciousness.”
“Learn that all beings arise from this higher and lower nature of Mine. I am the origin of the whole world and also its dissolution.”
“The foolish think of Me, the unmanifest, as having only come into manifestation; not knowing My higher nature which is immutable and supreme.”
“My Self, which is the source of beings, sustains all beings but does not rest in them.”
“And these actions do not bind Me, O Arjuna; I am seated as one who is indifferent, unattached to these actions.”
“The worshipers of the gods go to the gods; the worshipers of the ancestors go to the ancestors; sacrificers of the spirits go to the spirits; and those who sacrifice to Me come to Me.”
“I am equal to all beings, there is none hateful nor dear to Me. But those who worship Me with devotion, they are in Me and I am in them.
Even if a man of very evil conduct worships Me with undivided devotion, he too must be considered righteous, for he has resolved rightly.”
“If Thou thinkest that it can be seen by me, O Lord, then reveal Thy immortal Self to me, O Lord of Yoga! [Arjuna]
The Blessed Lord said:
Behold, O Arjuna, My forms, by hundreds and by thousands, manifold and divine, of various colors and shapes.
Behold the Ādityas, the Vasus, the Rudras, the two Aśvins, and also the Maruts. Behold, O Arjuna, many marvels not seen before.
…
But thou canst not see Me with thine own eye. I give thee a divine eye. Behold My divine yoga.”
“Of many mouths and eyes, of many marvelous visions, of many divine ornaments, of many uplifted weapons; Wearing divine garlands and garments with divine perfumes and ointments, full of all wonders, radiant, infinite, His face is turned everywhere.” Nada plasticamente aprazível pode derivar dessa descrição adescritiva.
“I see all the gods in Thy body, O God, and also the various kinds of beings: Brahmā, the Lord, seated on the lotus seat, and all the sages and divine serpents.”
“The Rudras, the Ādityas, the Vasus, the Sādhyas, the Viśvedevas, the two Aśvins, the Maruts and the Ushmapās, and the hosts of Gandharvas,
Yakshas, Ashuras, and perfected ones all gaze at Thee in amazement.”
“my inmost self is shaken and I find no strength or peace, O Vishnu!” O banquete canibal de Meruem.
“Some are seen with pulverized heads, stuck between Thy teeth. As the many water currents of rivers race headlong to the ocean, so these heroes of the world of men enter into Thy flaming mouths. As moths swiftly enter a blazing fire and perish there, so these creatures swiftly enter Thy mouths and perish.”
“I wish to know Thee, the primal one; for I do not understand Thy ways.” Já não viste o bastante, mortal?
“Time am I, the world destroyer, matured, come forth to subdue the worlds here. Even without thee, all the warriors arrayed in the opposing
armies shall cease to be.”
“Conquering thy enemies, enjoy a prosperous kingdom. By Me they have already been slain. Be thou the mere instrument, O Arjuna.”
“Be not distressed, fight! Thou shalt conquer thy enemies in battle.” Heitor já havia sido destruído pelo decreto olímpico, mas isso não significa que Aquiles tivesse o direito de pular fora de seu dever instrumental.
“It is right, O Krshnha, [a transliteração desse nome sem os acentos nas consoantes é complicada] that the world rejoices and is pleased by Thy fame. Ogres flee in terror in all directions, and all the hosts of perfected ones bow down before Thee.”
“O Great One, who art greater than Brahmā, the primal creator?” “Thou art being and non-being, and that which is beyond both.” Leu, Sartre?
“And whatever disrespect I showed Thee for the sake of jesting, whether at play, on the bed, seated or at meals, whether alone or in the company of others, O sinless one, I pray forgiveness from Thee, the boundless one.”
“Having seen what was never seen before, I am glad, but my mind is distraught with fear. Show me, O Lord, that other form of Thine; O Lord of gods, be gracious, O refuge of the world.
I wish to see Thee as before with Thy crown, mace and disk in hand. Be that four-armed form, O thousand-armed one of universal form!”
“Not by the Vedas, by sacrifices or study, not by gifts, nor ritual, nor severe austerities can I, in such a form, be seen in the world of men by any other but thee, O Arjuna.” O google se tornou o deus dos deuses.
“The Great One, having become again the gracious form, comforted him in his fear. (…) Even the gods are constantly desiring the sight of this form.”
“He who does My work, who regards Me as his goal, who is devoted to Me, who is free from attachment and is free from enmity to all beings, he comes to Me, O Arjuna. (XI, complete)”
MAS TODAS AS ESTRADAS SÃO POSSÍVEIS: “Those who, fixing their mind on Me, worship Me with complete discipline and with supreme faith, them I consider to be the most learned in yoga.”
But those who worship the Imperishable, the Undefinable, the Unmanifested, the Omnipresent, the Unthinkable, the Immovable, the Unchanging, the Constant,
And have restrained all their senses, and are equal-minded and rejoice in the welfare of all beings—they also obtain Me.
The difficulty of those whose minds are fixed on the Unmanifested is much greater; the goal of the Unmanifested is hard for the embodied to attain.” Mas Arjuna é um guerreiro, que só acredita vendo.
“This body, O Arjuna, is called the field, and he who knows this is called the knower of the field by those who know him.”
“Hear from Me briefly what the field is, what its nature is, what its modifications are, whence it comes, who he (the knower of the field) is and what his powers are.
This has been sung by the seers in many ways; in various hymns distinctly and also in the well-reasoned and definite words of the aphorisms about Brahman.
The gross elements, the I-sense, the intellect and also the unmanifested, the ten senses and one (the mind) and the five objects of the senses;
Desire, hatred, pleasure, pain, the organism, intelligence and firmness; this, briefly described, is the field together with its modifications. (XIII, 1–6)”
“It is the beginningless supreme Brahman who is called neither being nor non-being.”
“Appearing to have the qualities of all the senses, and yet free from all the senses; unattached and yet supporting all;”
“Know that both prakrhti and purusha are beginningless; and know also that modifications and the gunhas are born of prakrhti.
Prakrhti is said to be the cause of the generation of causes and agents, and purusha is said to be the cause of the experience of pleasure and pain.
The purusha abiding in prakrhti experiences the gunhas born of prakrhti.”
“He who knows the purusha and prakrhti together with its gunhas, though in whatever state he may exist, he is not born again.” Entregou-se ao anel. Aqui eu defendo a equivalência da doutrina do eterno retorno da filosofia ocidental e o bramanismo revelado. A vontade de existir perpetuamente é a vontade de que tudo seja, e a aceitação da finitude do tempo individual, portanto não há contradição, sequer lógica. Esse é o non plus ultra do conhecimento ativo e ético. Aquele que atingiu esse estágio, esse Platão, esse platô, não necessita mais se apoiar na metempsicose. Tornou-se consciente da metempsicose, o “intuito original”, por assim dizer. Tudo lhe é indiferente agora.
intermezzo
Eu não esperava menos, é lógico. Que eu fosse o primeiro a ligar os pontos seria muito pretensioso, antinatural! Rapidamente googlando achei alguém que já atingiu a mesma conclusão: “This theory is finally compared with the Western idealist and realist conceptions of consciousness, intentionality and subject-object duality. The nondualism of the Indian systems, is argued, represents a possible resolution of the ontological and epistemological problems of Western philosophy.”Final da sinopse de artigo de Michele Cossellu. (academia.edu)
fim do intermezzo
“He who sees the supreme Lord abiding equally in all beings, not perishing when they perish, he truly sees. (XIII, 19–27)”
“Since I transcend the perishable and am higher even than the imperishable, I am renowned in the world and in the Vedas as the highest
Spirit.”
“Thus the most secret doctrine has been spoken by Me, O sinless one. … (XV, 16–20)”
“Better is one’s own dharma, though imperfect, than the dharma of another, well performed.” “One should not abandon his natural-born action, O Arjuna, even if it be faulty, for all undertakings are clouded with faults as fire by smoke.”Torna-te aquilo que tu és, conhecendo-te no processo. Fusão de extremos.
“If, centered in egotism, thou thinkest <I will not fight>, vain is this thy resolution; prakrhti will compel thee.” Eu não serei é impossível.
“The Lord abides in the hearts of all beings, O Arjuna, causing all beings to revolve by His power as if they were mounted on a machine.”
“Thus the wisdom, more secret than all secrets, has been declared to thee by Me. Having considered it fully, do as thou choosest. (XVIII, 45–63)”
Um papo um tanto exaustivo antes de uma grande batalha, no entanto! Ainda bem que não passa de alegoria sobre saber viver e saber morrer!
1.3 SYSTEM
“In brahministic usage, the word sūtra has a rather different meaning than it acquired among the Buddhists. With the latter it became a general word for a doctrinaire disquisition, sometimes of considerable length, in which a body of doctrine was explicated in full detail. But in its orthodox use the word denotes something quite sui generis. It means primarily ‘thread’—the word is distantly related to our verb to sew. A thread, however, only has a provisional existence of its own; its purpose is to be sewn or woven into a cloth. It is this clothout-of-threads that covers the System.”
“Exposition is already saying too much; indication would be closer. Parsimony of statement is pushed to the extreme; a common witticism has it that an author of sūtras takes greater delight in the saving of a vowel than in the birth of a son.”
“Originally, it proceeded without the aid of books; education declined their use. When, later, Śankara looks for an illustration of the relation between the semi-real world and the supreme, he quotes the relation between the written word and the spoken word. The written book is but a crutch for the scholar, a sign of defective learning or failing memory: there need be no intermediary for the learned man between the possession of erudition and the vocal expression of it. Knowledge is verbal, not typographical, and the teacher makes certain that the pupil is word-perfect.”
“The Upanisads are but the second part of the Veda, the crowning part no doubt, but essentially sequential. Vedānta is therefore also known as the uttaramīmāmsā, the ‘Second Enquiry’, presupposing a First Enquiry into the First Part of the Veda.”
“In the Brahmasūtras the Chāndogya Upanisad holds the central place, followed by the Brhadāranyaka Upanisad and the Taittirīya Upanisad.” “The next stratum is that of the early metrical Upanisads of which the most important ones are the Katha and Śvetāśvatara”
“The [following] text is divided into 4 lessons, each with 4 quarters. Each quarter is subdivided into a number of topic sections, which may cover a group of sūtras, but also a single one.”
“TOPIC: I (1). Brahman is the object of the study of Vedānta.”
“III (11–12). The two beings of Ka. Up. 1. 3. 1 are Brahman and the individual soul.”
“VIII (24–25). The Thumb-sized Person of Ka. Up. 2. 4. 12 is not the individual soul but Brahman itself.”
“I (1–2). Sāmkhya may not quote smti against Vedānta.
II (3). Neither may Yoga quote its smti against Vedānta.”
“V (13). It is not true that this makes Brahman subject to experience and thus to karman.”
“XI (32–33). Brahman has no motivation in creating the world.
XII (34–36). As Brahman creates with a view to the souls’ karman it cannot be imputed with partiality and cruelty.”
“2. 2. 1–45
I (1–10). Arguments against the Sāmkhyans.
II (11–17). Arguments against the Vaiśe
ikas.
III (18–27). Arguments against the Buddhist Realists.
IV (28–32). Arguments against the Buddhist Idealists.
V (33–36). Arguments against the Jainas.
VI (37–41). Arguments against theists maintaining that God is only the efficient cause.
VII (42–45). Arguments against the Pāñcarātra.
“IV–VI (8; 9–12; 13). Breath is derived from Brahman; it is different from wind and the faculties, and it is atomic.”
“On the whole it is assumed that when Śamkara and Bhāskara agree on a topic, that view is traditionally held. If Bhāskara and Rāmānuja agree, and if Śamkara’s difference is prompted by his particular division of reality, the former view is probably more original. But this list of topics does not aim at more than to give the reader at least some table of contents of the Brahmasūtras.”
PART II.
PHILOSOPHICAL AND CULTURAL BACKGROUND
2.1 (chapter 4). EARLY HISTORY AND CULTURAL VALUES OF VEDANTA
“In philosophy as well as religion we find a guruparamparā, a succession of gurus: the sūtra is the guru of the commentary. The guru is not merely a predecessor in the same field whose views might become antiquated and open to revision; he is an ancestor, worthy of a veneration inspired by faith. If he had not occurred, the discipline would not have existed at all, or the line of transmission would have been interrupted and the lineage of learning expired.”
“It is also clear that the meaning of the word ‘Vedānta’ cannot have the same precision in the history of Indian philosophy as such names as ‘Mīmāmsā’ and ‘Logic’. It is a name like ‘Buddhism’, which combines under one general concern and faith a variety of philosophies. The common ground that we are trying to discover is likely to be a similar one of faith and concern.
Whatever else the Mahābhārata and the Purānas were intended to do, what they did was notice the variety of beliefs and cults of popular culture and eventually to organize them in the catholic totality which we usually call Hinduism. This word is hard to define. Hinduism is not a church, nor a theology, nor entirely an agglomeration of popular lore and mores, but something in between. It has two foci, social behavior and the worship of Gods. It is Brahministic insofar as brahmins have come to be regarded as the guides to this social conduct and as the priests of this worship.”
“In a civilization where North and South were separated by a language barrier, Sanskrit served as the bridge. In a land where the loyalties were on a less than subcontinental scale and limited by region, language, and village dialect, Sanskrit permitted the part to participate in a thus grown whole. Among a people differentiated into a large number of castes, the brahmin belonged to the only universal class, and the prime instrument of this class in maintaining its universality and that of its culture was Sanskrit.”
“The local god was no other than Visnu, the Visnu grew thereby; and Visnu was no other than the local god, whose respectability was now assured.”
“It was in Southern India where this consciously Brahminic culture, interacting with Hindu culture and powerful enough to counteract heterodoxy, had its broadest base. And it was from there that all the major philosophies of Vedānta were to come forth.”
2.2 COMMON PHILOSOPHICAL PROBLEMS
(…)
2.3 CRITICISMS OF RIVAL SYSTEMS
“The first system following the Sutras which Samkara attacks is the Samkhya. This is one of the oldest and most important systems of Indian thought. According to tradition it was formulated by one Kapila in the seventh century B.C.E.” “Its description of evolution is generally accepted by (i.e., is incorporated into) Vedanta, but not its metaphysical basis or its spiritual interpretation.”
“The Vedanta argument against the Samkhya is essentially a ‘theistic’ criticism of a naturalistic world view. Although, as we will see later, Samkara rejects the ultimacy of any theistic position, he is appealing to such a position in his critique of the Samkhya.”
“Such people might therefore think that those systems with their abstruse arguments were propounded by omniscient sages, and might on that account have faith in them. For this reason we must endeavor to demonstrate their intrinsic worthlessness….”
Geralmente proposições bem ingênuas, protofilosóficas…
“The next system which the Sutras and Sakara criticize is the Vaisesika. The main text of this school is the Vaisesika Sutra which was compiled in the first century C.E. and is ascribed to one Kanada. The Vaisesika is a realistic and pluralistic system of cosmology and physics. It emphasizes an ‘atomic’ theory of matter and a classification of all objects in the universe into six categories (padarthas).”
“In its account of the creation of the world the Vaisesika maintains that the primal atoms combine first in dyads and then in molecules; the creative act (which follows regularly upon the state of universal destruction, pralaya) always has reference to the totality of merit and demerit (adrsta, the ‘unseen’ principle) acquired by individual souls in previous lives.”
“Following his criticisms of the Samkhya and the Vaisesika, Samkara attacks the ‘non-orthodox’ tradition of Buddhism—and here one is confronted with several special problems. Adhering apparently to traditional Hindu classifications, Samkara divides Buddhism into three types: the ‘realists’ (sarvastitvavadins), the ‘idealists’ (vijñanavadins), and the ‘nihilists’ (sunyavadins); and he treats these Buddhist schools with a notable lack of sympathetic insight into their spiritual dimensions. Now few, if any, Buddhist scholars would classify the entire Buddhist tradition on its philosophical side, from Buddha through the rise and development of the Theravada and Mahayana schools, in this simple threefold manner, and many would take great exception to the characterization of sunyavada, the ‘theory of the void’ associated primarily with the Madhyamika school of Nagarjuna, as mere ‘nihilism’.
The problem of understanding the Vedantic treatment of Buddhism is further compounded by the fact that Samkara himself was called a crypto-Buddhist by other Vedantins (viz., Bhaskara), who meant by this that much of Samkara’s metaphysics, especially his analysis of the world as maya, was taken from Buddhist sources. In any event a close relationship between the Mahayana schools and Vedanta did exist with the latter borrowing some of the dialectical techniques, if not the specific doctrines, of the former.”
“Moreover, Buddha by propounding the three mutually contradictory systems, teaching respectively the reality of the external world, the reality of ideas only, and general nothingness, has himself made it clear either that he was a man given to make incoherent assertions, or else that hatred of all beings induced him to propound absurd doctrines by accepting which they would become thoroughly confused.”
“Following his sharp criticism of Buddhism Samkara turns his attention to the philosophical-religious tradition of Jainism. Jainism has a long history in India. It maintains that its basic teachings are eternal, however, and that they are revealed in various periods of the world’s evolution—with Mahavira, a contemporary of Buddha, being regarded as the last prophet (tirthankara) to espouse the creed.
The word ‘Jainism’ comes from jina or ‘conqueror’—one who achieves enlightenment through the conquest of everything within oneself that stands in the way of it. On its religious side Jainism lays great stress on the doctrine of ahimsa or ‘non-injury’ to any living creature. Being essentially a-theistic Jainism emphasizes that perfection is obtained only through self-effort: to be a jina is entirely up to oneself. At one time Jainism was immensely influential, being a strong competitor of Buddhism in many parts of India. Today there are only approximately a million and a half Jainas in India.”
“According to the Jainas, all affirmations or negations about something are true only within certain restricted frameworks: nothing can be affirmed with absolute certainty. Every object of experience appears to us with various qualities (those that it possesses and those that it lacks—e.g., a rose may be said to be red, not-blue, not-yellow, etc.) and in various relations to other objects and can be grasped, apprehended, or understood by us only from a certain number of ‘standpoints’ or nayas.”
“This leads the Jainas to formulate a kind of perspectival epistemology and a relativistic ordering of judgments. Since various, and from different standpoints contradictory, characteristics may be assigned to an object, any judgment about an object may be true in one sense or from one standpoint and false in another sense” Também chamados gimnosofistas.
“The Sutras and Samkara now turn to those theories which affirm that God is only the operative or efficient cause of the world and not the material cause as well—with special mention of the Nyaya system.”
“But as with Jainism, the most important contributions of the Nyaya to Indian philosophy are not metaphysical or theological, rather they are epistemological and logical. The Nyaya system articulated the various means of knowledge (the pramanas) which, although some times added to, are accepted by the other orthodox systems; it codified a model of ‘inference’ and set forth criteria for testing the validity of a rational argument. This model of correct reasoning was accepted, with minor qualifications, by all Vedantic schools.”
“The last system which the Brahmasutras and Samkara take up for criticism is not so much a philosophical system (a darsana) in the Indian sense of the term as it is a popular religious movement which is supported by a ‘cosmology’. Samkara refers to it as ‘the doctrine of the Bhagavatas’.
The Bhagavata movement was a religious cult which developed during the late Vedic period and was non-Brahmanic, and possibly non-aryan, in origin. It worshipped a transcendent deity, Vasudeva, and believed that salvation could be obtained through fervent devotion (bhakti) to Him.”
“On its theological side the so-called Bhagavatas incorporated the ancient philosophy known as the Pañcaratra (whose origin is obscure), which had worked out an elaborate theory of the levels (vyuhas) of the divine nature. These are identified with Vasudeva and members of his family and also with some of the categories of the Samkhya system.”
PART III.
SOURCES OF ADVAITA VEDANTA
3.1 (chapter 7). GAUDAPADA
“The dates of Gaudapada’s life are not known and the question has even been raised as to whether such a person lived at all. But if tradition is correct in maintaining that he was literally Samkara’s paramaguru then he must have lived no earlier than the seventh century.”
“The main doctrine that Gaudapada puts forth is called ajativada—the theory of no-origination. According to ajativada the entire world of duality is merely an appearance: nothing ever really comes into being, for nothing other than Brahman really exists—the whole world is an illusion like a dream. At times Gaudapada blurs the distinction between waking and dream consciousness, a distinction which Samkara later insists upon, and suggests that the whole of our waking experience is exactly the same as an illusory and insubstantial dream.”
“II, 11. (Objector’s question). If in both states the objects are unreal, who is it that perceives these objects? Who is it that imagines them?
II, 12. The self-luminous Self (Atman) imagines Itself through Itself by the power of its own illusion. It is itself the cognizer of objects.”
“II, 32. There is no dissolution and no creation, no one in bondage and no one who is striving for or who is desirous of liberation, and there is no one who is liberated. This is the absolute truth.”
“III, 48. No individual is born, for there is nothing to cause (its birth). This (Brahman) is that highest truth—where nothing is born.”
3.2 SAMKARA
(…)
3.3 SURESVARA
“This dispute about the locus of ignorance is central to the doctrinal divisions between the two main sub-schools of Advaita—the Bhamati (represented by thinkers such as Vacaspati Misra, Amalananda, etc.) and the Vivarana (represented by thinkers such as Padmapada, Sarvajñatman, Prakasatman, etc.).”
3.4 MANDANA MISRA
(…)
3.5 PADMAPADA
(…)
3.6 VACASPATI MISRA
(…)
3.7 SARVAJÑATMAN
(…)
3.8 VIMUKTATMAN
(…)
3.9 VIDYARANYA
(…)
3.10 MADHUSUDANA SARASVATI
(…)
3.11 SRIHARSA
(…)
3.12 SADAMAMDA
(…)
3.13 DHARMARAJA
(…)
3.14 APPAYA DIKSITA
(…)
4. SUMMARY
“The world is a manifestation of Isvara; it is brought forth and it is reabsorbed in recurring cycles. The world is without an absolute beginning in time.”
“Isvara does not give rise to the world from any motive or purpose. Creation is lila, play or sport. It is a spontaneous release of energy for its own sake”
“From the standpoint of Reality, though, there is no creation and there is no creator god. The effect is really only an apparent manifestation of the cause (vivarta); in reality, there is only Brahman.”
“The supreme value towards which all human effort should finally be directed is moksa—release from samsara, from the cycle of ceaseless birth and death and rebirth. On its positive side moksa means perfect insight and self-determination.”
“Moksa is not something that is attained, rather it is an already existing state of one’s being that needs to be realized as such.”
Cabelos loiros, lisos e que mal chegavam aos ombros. Nariz afilado e empinado. Lábios finos e rosas. Uma flor delicada. Monica tinha dezesseis anos e começava a ser uma preocupação para os pais. Filha de um poderoso industrial da Wolfstation – pequena vila inglesa – do século XIX, sua beleza aliada a sua riqueza a tornavam um objeto de intensa cobiça por parte dos homens da cidade. Galanteios de meninotes, rapazolas e mesmo dos amigos do pai nunca foram surpresa na vida da colegial. Porém a atenta Sra. Williams percebeu que a filha não mais recusava as investidas de imediato com um firme: “Não desejo um faz-de-conta burguês e ambas as nossas infelicidades”. Na sala de visitas, dava a entender que não cederia, mas já não era tão resoluta como antes. Se não se tratasse de uma moça rica, poder-se-ia pensar que Monica gostaria de prolongar os casos, quem sabe forjar um noivado, unicamente em busca de dinheiro. A Sra. Williams, como qualquer mulher madura, conhecia muito bem aquelas transformações no corpo e mente da adolescente, da menina-adulta. No entanto, sentia-se constrangida diante dos arroubos de sensualidade da criatura fervilhante que se exibia pela primeira vez debaixo de seu teto e diante dos seus olhos. Cantarolava ao espelho, perfumava-se toda. Nunca havia visto sua filha assim. Resolvera esperar até o dia do baile escolar para dar um passo além da simples observação: chamou Monica a um canto, na cozinha, enquanto assava alguns bolinhos, e pediu que não comprometesse a posição da família na alta sociedade com burlas namoradeiras. Monica sabia o que a palavra burla queria dizer.
Manteve-se afastada de bons partidos na escola; reprimiu seus sentimentos até aquela idade, em que já não era possível ocultar os batimentos acelerados e a maçã rubra das faces quando o assunto das garotas adentrava o sexo oposto. Julgava usufruir de uma vida muito mais confinada do que a das amigas, e mais recatada do que o necessário. Mas não ousava afrontar o pai. Não se sabe ao certo se planejava algo, se nutria rancor pela educação severa que recebia, porém tudo indica que o respeito que demonstrava pelo Sr. Williams não devia ser dissimulação. Acontece que toda santa alma um dia se cansa…
Há meses Monica observava, de longe e sem ser notada por nenhum dos colegas, um bando de alunos da série superior. Populares entre a juventude e malvistos pelos professores, constituíam seis ou sete bolsistas da região pobre da cidade. Não provinham de família abastada, mas freqüentavam a mesma escola da filha de Henry Williams. Este, dono de tecelagens por todo o país e bem-informado pelas amizades e pelos jornais, sabia da política acolhedora da instituição de ensino, e espumava de raiva a cada lembrete do tipo de gente que podia sentar-se às carteiras adjacentes à de seu tesourinho.
Talvez se inclinasse a lutar no parlamento por mudanças na aceitação de estudantes pobres, mas adiava a iniciativa, combinando com o advogado os argumentos perfeitos para a sessão plenária (onde pisava quando bem entendesse), além de aguardar que um célebre comerciante, conhecido seu, assumisse a cátedra de diretor, no rodízio previsto pelo regimento da escola, em apenas dois meses. Poder-se-ia dizer que o inconveniente de misturar a rebenta com uns pobretões da zona operária de Wolfstation não era de trato urgente. Enquanto isso, fazia vistas grossas até mesmo às filhotas dos outros industriais, a inculcar em Monica a idéia de comprar novos vestidinhos, tomara-que-caias, que deixavam as rapariguinhas de ombros escandalosamente desnudos, ou saiões com cortes indecentes.¹ Considerava as filhas dos outros capitalistas putas de luxo, sem exceção.
¹ A tomara-que-caia é “invenção” do século XX, mas esse conto se dispensa da obrigatoriedade de fugir de anacronismos.
Monica decidiu que se aproximaria dos bolsistas na festa do baile. Sabia que, quando muito, um ou dois valeriam a pena; os outros seriam grosseiros por saberem quem ela era – se tem uma coisa por que os sem-dinheiro zelam é o velho orgulho de classe. Não disfarçar antipatias. Não alimentar falsas esperanças de “subir na vida se casando com uma princesa ao invés de uma plebéia”. Não quando seria de cortar o coração de tão humilhante, e aquele Sr. Henry não era o tipo de pai que deixaria barato em uma entrevista eliminatória. Quando se estuda em escolas assim, além do mais, seria muito mais gratificante descontar essa frustração de berço cuspindo no chão e apontando o dedo para ricaças insinuantes.
A princesa penetra da história já desconfiava do gênio desses rapazes. Mas é provável que a cólera direcionada aos burgueses não fosse uniforme. Um ou dois poderiam pensar diferente, no íntimo. E estava cada vez mais complicado para uma loira vistosa e enfeitada de jóias hipnotizantes ao longo do pescoço, dos pulsos, das orelhas e dos dedos, quando não incrustadas nos vestidos, enfim, para uma baronesa com corpo de sereia, lidar com esses novos impulsos: a necessidade de amigos descolados das tradições, o instinto de buscar o diferente, o exótico, o rebelde. Todos têm a idade desse despertar. Ao mesmo tempo, continuar fiel às amigas. E, para isso, deveria ter alguma proeza para contar. Era a mais inexperiente do grupo, e já gerava risitos incontidos nos falatórios no departamento “homens”. Não tinha opinião formada sobre casamento, sobre o melhor estágio da vida para descobrir o marido ou o grau de liberdade que deve ser tolerado entre casais não-reconhecidos pela Igreja. Tudo veio rápido demais para essa moça. Monica quis apenas se auto-afirmar em seu grupo de amigas, não que isso implicasse em ser uma Williams maculada.
Foi no baile que, surpreendentemente, Monica, sem tomar nenhuma iniciativa, foi cortejada pelos famosos bolsistas da Wolfstation Noble School. Do mesmo jeito que costumava ser, debaixo das vistas da própria mãe, só que agora num amplo salão sem obrigações de sangue a interferir. Sorriu muito com o mais alto, aparentemente o “líder”. Respondeu todas as perguntas com inocência e temeu fazer alguma. Confirmou que era filha de Henry Williams, o famoso cidadão freqüentador número 1 do único banco da cidadezinha. Sabe-se lá o que vai fazer duas vezes por dia, religiosamente, às catorze e às dezoito horas, sempre demorando quinze minutos do lado de dentro. Assentiu também às suspeitas de que o pai era dono inclusive de termelétricas e exploradoras de carvão em Northsville, a cidade mais próxima de Wolfstation. E que aqui ele ainda era dono de uma companhia de bondes, mas adorava seus passeios de charrete. Possuía um cocheiro, três cavalos de elite e um carro pintado de ouro. Se era a tinta ou se era ouro de verdade, sobre isso não especulou. Dúvidas tão tolas as daqueles rapazes. E eles aparentavam segurança e auto-domínio quando conversavam longe de seus ouvidos, no gramado. Pessoalmente, não passavam de molecotes. Havia entre eles uma mulher, que Monica não tardou em julgar ser uma prostituta literal. Tinha aquela pinta perto dos lábios que rapidamente se associa à profissional mais antiga do mundo. E aquele sorriso de canto de boca, naquela noite de gala com um decote que fazia os gorilas do sexo oposto arfarem.
* * *
Dois dias depois de ter trajado aquele vestido vermelho de brilhantes e aquela tiara da mesma cor, com sapatos pontiagudos e de salto, além de uma pesada maquiagem, Monica e Edward, o rapaz alto do bando, já trocavam juras intensas de amor. Um amor infantil, diga-se. Nem mesmo se beijavam, só davam-se as mãos, cruzavam os braços ao caminhar, mal se tocavam. Ela já se sentia à vontade entre os bolsistas, no horário das classes. Ou melhor, nos intervalos, uma vez que as regras da distinta instituição eram rígidas e Monica tinha medo de que as fofocas viajassem alguns quilômetros até o escritório do pai.
A Sra. Williams, dotada daquele clássico sexto sentido feminino e materno, esperava a melhor ocasião para abordar a filha. Não perguntaria: “Está se encontrando com um homem às escondidas?”, mas “Qual o nome dele?”. Justo numa tardinha, quando ambas silenciavam na sala e a mãe tricotava ensaiando o discurso na cabeça, uma carruagem deu sinal à janela. Segundo consta, era o criado de Henry, dizendo que Monica devia seguir com ele até onde estava o pai. “Uma conversa no meio do expediente?”, pensou a madame. Mas se tranqüilizou ao se dar conta de que o pai também notava os pormenores da agitada vida da filha: “Vá, vá conversar com ele!”.
Era de fato o criado, mas no banco de trás estava Edward. Ele havia pagado duas libras para que o condutor enganasse a dona da mansão. Capataz muito confiável, sucumbiu à pomposa gorjeta. É um valor que um bolsista duvidosamente poderia desperdiçar pelos cantos. Monica se sentiu divina com este regalo apaixonado. Ambos foram deixados a sós em um parque, o mais espesso da região. Brincaram, rolaram pelo gramado, se enroscaram pelos troncos. E aí Monica percebeu que toda a sua etiqueta não seria suficiente contra pulsões tão selvagens. Pediu, quase tremendo, de excitação, não de pavor, que só continuasse enquanto ela consentisse. O rapaz balançou a cabeça verticalmente. Ambos se embrenharam nas matas mais altas e no canto mais afastado daquele passeio verde, e Monica tentou fazer silêncio. Quando a afoiteza de Edward já era evidente, aliás, o único que se podia notar nele, ela pediu para seu namorado parar. O garotão não podia se conter diante daquela beleza loira tão frágil e agora corrompida. O sangue, o suor, a água da garoa que caía, tudo se juntou com outro fluido. Como nas garras de alguém com quem não se pode comunicar, Monica apenas rangia os dentes, paralisada pela dor do arrependimento e da genitália azarada. Tudo estava turvo demais para reações precisas como aquelas da polida sala-de-estar de antigamente, e ela sequer soube em qual segundo as coisas tinham passado de uma brincadeira entre dois inconseqüentes para uma outra coisa, uma violação; em que momento ela própria se converteu de aventureira intrépida em vítima de estupro.
Edward a largou de bruços, esgotada, e se retirou, como se nada tivesse acontecido. Depois daquele encontro voraz, Monica regressou a pé para casa, de saltos quebrados nas mãos, trancou-se no quarto durante três dias e só aceitou duas visitas: a mãe e a criada que trazia a comida, ainda que quase não a tocasse. A par do que talvez tivesse ocorrido, desconhecendo contudo os detalhes mais ásperos, a Sra. Williams apenas consolava a filha: “Há homens que não revelam sua natureza lupina logo ao segundo encontro”. O senhor e a senhora da casa julgavam ser uma fatalidade natural, o primeiro desengano amoroso de uma garotinha, e se aliviaram por saber que a preocupação com os desordeiros do colégio e as precipitações de Monica não iriam se repetir, resolvidas ambas de uma cajadada.
“O que os amigos de papai iriam dizer?”, foi a frase fixa, o fluxo neurótico que latejava na má-consciência daquela adolescente em prantos e frangalhos. Mas a experiência não fôra tão traumática, a ponto de no quarto dia o bom humor ter instantaneamente se restabelecido. Na escola, pôs as conversas com as antigas amigas, com quem rompera brevemente, em dia, chegando a uma concordata. Não contou nada a ninguém sobre “o bosque”. Na saída, Edward apareceu. Monica se limitou a fitá-lo com uma extraordinária repulsa, curvando-se em meia-circunferência, ainda abalada. Foi agarrada pelo braço esquerdo. Mas quando virou o oleoso pescoço, banhado em suor frio, não era o rosto do rapagote canalha, aquele arquétipo de Don Juan com requintes de maníaco, aquele que enxergou. Era um de seus comparsas, que defendeu o parceiro Eward: “Olha, ele achava que você era um tipo mais arrojado de garota. Ele chorou no meu ombro, disse que confundiu tudo, pensou que sua aflição fazia parte daquele momento de quebra de regras, da nova vida aflorando, de não ser mais uma menininha do papai…”. Uma bofetada na cara seria a reação mais natural, mas Monica apenas baixou ainda mais o rosto, constrangida.
* * *
Passaram-se mais duas semanas sem que ela dirigisse palavra àquela turma. Um dia antes do recesso de fim de ano, decidiu finalmente endereçar uma mensagem a Edward, ao vê-lo desacompanhado. Entregou-lhe um bilhete: “Encaminhe-se ao mesmo local do nosso primeiro encontro. Eu, Monica Williams, por ter sido manchada em meu sangue azul, dou-lhe uma segunda chance, com o ônus de que seja meu pelo resto da eternidade. Contei a meu pai sobre você.” As extremidades do corpo de Edward gelaram. Pensava vertiginosamente em todo o conteúdo do bilhete. Queria saber o que era contar ao pai sobre si, a que nível de profundidade o relato chegara. E conjeturava – se aquilo era mesmo uma proposta de casamento, quão rude não havia sido! Porém, como se esperasse por um acontecimento não muito diferente desse, pôs-se mais uma vez sereno, ajeitou a gola da camisa, pigarreou, socou uma mão na outra, suspirou, relaxou as costas e começou a andar em velocidade até uma casa, de propriedade anônima. Telefonou para a mansão Williams e disse: “Banco Wolfstation. Por favor, transmita o recado. O Sr. Williams precisa falar com o gerente de saldos, ele estará presente apenas às dezoito horas”. Era meio-dia e ele teria tempo para agir.
No reencontro, nenhum movimento suspeito, ainda que num certo breu das árvores. Pelo contrário, rumaram para a casa de Edward, onde a mãe os recebeu com pães de queijo e tagarelices amistosas. No correr da modesta reunião, mudança de planos: “Vamos nos reunir todos, os bolsistas do décimo ano, na casa de Mike”. Lá, um sobrado cinzento, a campainha tocou três vezes até que um risonho Mike desse as caras. Um teto a quatro metros de altura dos convivas, escadas em espiral, sofás fedendo a mofo. Um sítio suntuoso, embora semi-abandonado.
– Onde estão os outros? – perguntou Monica.
– Não haverá outros. Você está em cativeiro.
Alguém veio por trás e abafou-lhe o grito agudo com um saco grosso de algodão, que agora encobria toda sua cabeça. Monica foi levada para o sótão.
Enquanto isso, a garota soube que seu pai seria conduzido a uma cilada. O mais velho do grupo, ainda um rapaz, entretanto mais robusto e barbudo o suficiente para se passar por um respeitável representante bancário, interceptou o Sr. Williams antes que ele pisasse no banco, pelo fim da tarde. Passeavam pela cidade a quatro rodas enquanto conversavam, mas Henry percebia o tom abstrato do “sermão matemático”.
– Conte-me de uma vez, furtaram o meu cofre? E onde está o Sr. Phillips?
– Não, mas iremos… – respondeu o adolescente parrudo, ignorando por completo a segunda pergunta, sobre o real gerente do banco.
Henry Williams nunca havia levado um tiro. Ao ler romances e estórias de detetive sempre se indagava como seria a dor da bala perfurando a pele e a carne após disparo à queima-roupa. Era um ardor ou trauma semelhante a uma mordida brutal. A mordida de um urso, por exemplo. Foi na tíbia direita, pouco acima do osso do tornozelo. A perna inteira parecia ter sido tragada por uma fogueira. Mas fogueiras não fazem sangrar. O vermelho que grassava e se espalhava agora pelo chão da carroça mudou também o tom da dor, agora um repuxar insuportável dos músculos. O atirador puxou o homem pela camisa, imperativo: “Estamos com sua filha; se quiser que os jornais de amanhã contem o que está acontecendo na casa onde ela está, senhor industrial, não faça nada, e nos mande pra cadeia, inclusive. Não vai nos matar porque somos muitos”. “Tu…do bem.” E prosseguiu: “Nós queremos que na sua próxima visita ao banco peça ao gerente, o gerente de verdade, que aumente seu limite de transferências e deposite o lucro do ano anterior da sua tecelagem Wearing Co., que eu conheço pelas notas da imprensa, nestas quinze contas. Vai dizer que essa bala partiu de um ex-cliente furioso que não pôde identificar e que está fazendo isso para sua segurança legítima, pela integridade de seus bens e de seus familiares”. Depositou então um papelote no bolso do sobretudo daquele grisalho outrora imponente. “Não vai perguntar sobre sua filhinha, não é mesmo?… O que importa é… Bem, ela lhe será entregue assim que confirmarmos as transferências; esteja neste mesmo lugar.” Chutou-o para fora da charrete de ouro: “Esteja aqui, não chame a polícia! Nós temos tudo que a força da guarda desta cidade não tem!”. E não era mero blefe. O Sr. Williams mal se mexeu por duas horas, reclinado sobre um tronco, recusando até mesmo a assistência vespertina de uns andrajosos que passavam por perto. Até que percebeu que, pelos dizeres do malfeitor, deveria caminhar de contínuo até o banco, não longe dali, ferido como estava, para realizar o protocolo. Estava atrasado, atrasaria ao todo em mais de meia hora em relação ao combinado. Os cuidados médicos poderiam esperar.
Em torno de oito e meia da noite, com a conta da Wearing esvaziada e o referendo da matriz do banco em Londres (a soma era vultosa), chegava àquela clareira do parque público o reluzente carro do próprio Henry Williams em que um tiro havia soado, dessa vez com três capangas e Monica, toda encolhida. A filha parecia feliz e aliviada ao ver seu progenitor. Abraçaram-se, e ele perguntou:
Algumas pessoas, cientes de meus vícios, me dirigem perguntas como: Por onde devo começar a ler Nietzsche? São perguntas honestas e que eu mesmo faria, e aliás fiz, antes de “ter algum conhecimento” em alguma matéria que muito me interessava… Do tipo: quais marxistas do século XX devo ler primeiro?, uma questão para a qual nunca recebi respostas repetidas. E no entanto as respostas são mais difíceis, quão mais “especialista” na matéria me julgo, uma espécie de dilema socrático. Quanto ao próprio Nietzsche, podemos deixá-lo de lado até uma próxima oportunidade.
Hoje gostaria de responder à pergunta de um amigo: Por onde devo iniciar a apreciação de Fiodor Dostoievski (nunca censurem alguém por escrever um nome russo errado – só escrevemos certo quando usamos a língua e os caracteres russos – tudo o mais é convenção, até mesmo se Tolstoi leva acento ou nãoo, sem falar na grafia Tolstoy, preferida pelos anglos – sem falar, também, que não se pronuncia Tolstoi, mas tem uns “a”s e “r”s invisíveis na prosódia, o que muita gente se admira de saber, inclusive eu!)?
Dostoievski escreveu clássicos atrás de clássicos. Poderíamos nos aventurar a ranqueá-los em grupos (o que não faremos), mas seus livros “A-” talvez em nada devam aos “SS”. Vamos citar suas principais obras, e defender, no fim, por que eu pessoalmente não recomendo que o primeiro livro a se ler de Dostoievski sejam os seus mais icônicos, Crimes e Castigo e Irmãos Karamazovi, em primeiro lugar. Livros que eu já considerei perfeitos – mas todos os livros têm falhas, e até esses podem ser criticados com fundamento. Ainda que fossem perfeitos, poderia haver razões muito mundanas (e nem por isso incorretas) de recomendar que sejam leituras apenas posteriores… Enfrentemos o caso em vista!
Gente Pobre, A Vila de Spatchikovo, Humilhados e Ofendidos, O Jogador e O Eterno Marido eu classificaria como novelas menos densas, monotemáticas, por assim dizer: geralmente o foco é a pobreza ou comportamentos obsessivos (como o vício no jogo ou ciúmes patológicos). Embora sejam “simples e diretos” comparados a outros trabalhos de D., são por si só ricos e obras-primas em seu gênero. Talvez não dêem a impressão de estarmos lidando potencialmente com o maior escriba russo, no caso de ser a primeira leitura de alguém.
Dos escritos precoces de D., sem dúvida os mais interessante são O Duplo, Memórias do Subsolo e Memórias da Casa dos Mortos. Sempre achei O Duplo e Subsolo contos (são maiores que contos, embora não tenham nem de perto a espessura de Irmãos Karamazovi ou O Adolescente) que se misturavam, a ponto de, ao passar alguns anos que os havia lido, confundir cenas de um como se fossem do outro. Achava que isso podia se dar pelo fato de eu os ter comprado juntos, tendo o livro físico de ambos, da mesma editora e da mesma coleção (a 34). Tendo-os relido recentemente, confirmei minha impressão ancestral, porém: apesar dos anos que separam ambas as composições, tanto um livro como o outro tratam de um protagonista espiritualmente miserável que descreve aos leitores anódinos como acabou por se apartar dos homens, ao que tudo indica sem possibilidade de retorno. Não as recomendo como primeiras leituras, no entanto, especialmente O Duplo, por serem narrativas muito pesadas, capazes de assustar e voltar a assombrar, tamanha a perspicácia do pensamento dos protagonistas e seu descaro em resumir as hipocrisias da vida social, mesmo leitores veteranos do querido autor. No caso d’O Duplo o agravo é ainda maior, por tratar ao mesmo tempo da degeneração mental, da subserviência de um funcionário público sem perspectivas e do abismo infinito que separa a aristocracia russa dessa gente “classe média”, que tem renda para possuir seu próprio servo mas que precisa pegar empréstimos ou empenhar bens a fim de comprar roupas que a faria aceitável ou pelo menos tolerada em círculos mais refinados. Portanto, se fosse escolher uma primeira leitura dentre a trinca do “D. jovem”, optaria pela Casa dos Mortos, um relato semi-autobiográfico sobre os anos de Dostoievski no degredo siberiano, por razões políticas. Por ser um material menos fictício e mais historiográfico, e em primeira pessoa, vai interessar sobretudo os que buscam conhecer quem foi o homem D., e não só o que ele escrevia. Muitas reflexões sobre a culpa contidas neste tratado já antecipam os tormentos de Raskolnikov, de Crime e Castigo, um dos protagonistas mais conhecidos da literatura universal.
Talvez o próprio Crime e Castigo seja incensado demais. Fiquei com essa impressão à segunda leitura. Não acontece muita coisa, materialmente falando, na estória; o aspecto grotesco, entrecortado e febril dos capítulos se deve sobretudo à crise interior do personagem principal. Aos 20 anos eu podia me identificar muito mais com Raskolnikov. Talvez agora, e vendo o tema do crime e suas consequências mais bem-apresentado em outras obras de D., eu seja reticente em recomendar C&C – entre as novelas mais indispensáveis, pelo menos.
Irmãos Karamazovi é a obra mais ambiciosa de D., e sua última, enquanto novela. Consumiu 3 anos de sua velhice; foi publicada em vida. Mas era prometido um segundo volume. Como nunca ocorreu, tratamos o (já bojudo) tomo inicial como uma narrativa completa e autônoma. E com efeito a vida dos três irmãos não prescinde de três epílogos muito bem-elaborados. Alguém só pode pensar que tipo de desenvolvimentos D. planejava para essa trinca de personagens tão distintos uns dos outros. Há fortes indicações de que Aliocha, o “irmão santo”, desempenharia o papel principal. São feitas alusões proféticas a seu futuro, carregado de martírio, mas simultaneamente auspicioso, se ele se mantivesse na senda reta. Sem revelar detalhes minuciosos ou muito relevantes da trama, Aliocha teria de lidar com os pecados de outrem, se tornar um mártir; e como cristão ortodoxo sua relação amorosa, proto-desenvolvida no livro que D. pôde nos legar, provavelmente nunca se consumaria. O que temos do “projeto Karamazov” ainda contém passagens que representam, em minha opinião, o acme da literatura ocidental, mas acho que o leitor de D. pode conhecê-lo abrindo outras portas, e deixar este umbral maciço para depois!
Restam os clássicos que ainda não citei: O Idiota, Os Demônios (ou Os Possuídos) e O Adolescente. D. foi, ao que parece, diminuindo gradativamente a idade de seus protagonistas. O Adolescente era mais um degrau em sua escada como autor, que ele pretendia percorrer até o final, com uma novela focada na importância das crianças russas – projeto impossibilitado por sua morte. O Adolescente é sobre a relação de um jovem que não tem posição no mundo público petersburguês e após muito tempo recebe a notícia de que reencontrará seu pai, figura ambígua, da qual ele não sabe o que esperar. Ou talvez o protagonista seja muito impressionável, e não consiga definir seu pai a não ser recaindo em extremos ao longo das páginas da história. Está claro que sua irmã, uma pessoa bem mais simples, já amadureceu emocionalmente muito mais depressa nesta compreensão de laços de parentesco. Tudo em que o adolescente se baseia são em memórias longínquas da meninice, antes do pai abandonar a família. As razões não são claras. A mãe ainda ama o marido e nunca permitiu que o protagonista masculino e sua irmã falassem ou pensassem mal de seu progenitor ausente. Como é uma figura que, ainda quando presente, se mostra misteriosa e lacônica, o jovem terá de ser um detetive da alma até sacar uma conclusão final, em meio a relações com figuras nobres que se iniciam relações com sua família, tudo aparentemente por causa do retorno de seu pai, ou seria tudo uma grande coincidência – e o jovem começa a sentir que tanto se sua irmã for a noiva quanto se sua irmã for rejeitada como a noiva de um certo magnata imoral, o nome da família ficará manchado e na lama, o que fere seu orgulho e suas ambições como uma adaga afiada. É uma novela que li em tempo recorde, durante férias, e não vejo qualquer ressalva a estabelecê-lo como uma porta de entrada convidativa em todos os sentidos.
Os Demônios pode ser considerado o livro mais sombrio de D., se excluirmos o mal-estar que O Duplo e o tal “Homem do Subterrâneo”, apócrifo, podem causar a naturezas como a minha, pelo menos. Um grupo de niilistas terroristas quer estabelecer o caos numa cidade russa, com vários personagens se reencontrando após longas ausências. Suas relações interrompidas e recém-retomadas estão carregadas de antigos ressentimentos, mas também de muita empatia escondida e difícil de comunicar. E o protagonista é um mistério para o leitor e todos a sua volta até o grande final. Uma passagem desta obra que lida com um crime de pedofilia foi censurada no século XIX, mas reintroduzida em algumas traduções mais modernas, ainda que como anexo. Creio que o personagem principal deste longo conto foi o protótipo depois fendido ao meio para dois dos três irmãos Karamazovi. As reflexões dostoievskianas sobre a religião só são maiores n’O Idiota que n’Os Demônios.
O Idiota também supõe como um epiléptico retraído, “santo e ingênuo” subitamente tornado milionário se comportaria, jogado diante de uma das situações mais problemáticas ao iniciar sua vida na mais alta sociedade: se apaixona por uma mulher de má-fama, tem dó de seu destino, e por isso acha paradoxalmente que não tem o direito de possuí-la, não por egoísmo, mas porque não a merece, é-lhe inferior; pois só a piedade não é o suficiente para o amor autêntico. Natasha, a mulher co-protagonista, também é apaixonada pelo Príncipe Michkin, o “idiota” do caso, mas a sua maneira. Estabelece-se um esboço de triângulo amoroso. Eu ainda acho as duas novelas descritas mais acima mais apropriadas para um “primeiro passo”, se bem que O Idiota não está mal; o caso é que acho que só adquire o efeito desejado quando a relemos, para entender melhor o intrigante protagonista…
A estória curta mais fenomenal de D., muitos concordam, é O Sonho de um Homem Ridículo, e pode ser lida em algumas coletâneas de seus contos e ensaios.
Muito se fala sobre esperteza, inteligência e sabedoria. O povo é bom em apreender imediatamente qualidades, mas ruim em definir conceitos.
A esperteza está associada à imediatidade da memória e ao egoísmo. Seu contrário é a lerdeza.
A inteligência, ao acúmulo da memória, tendente à paralisia se o uso da memória se aproxima do máximo, como com uma caixa de e-mail e seu espaço de armazenamento cada vez mais curto sem a manutenção do usuário. Tendem também a inteligência e seu constante cultivo a uma espécie de desinteresse, embora existam outras (espécies de desinteresse). Seu oposto é a burrice clássica.
Esperteza e inteligência são termos relativamente intercambiáveis no uso do dia a dia, e esse fato não é acidental. Há um pressentimento de que alguém é “um dos dois”, mas não ambos em conjunto. É até quase impossível ser inteligente sendo esperto. Ou ser esperto sendo inteligente, graças à natureza de “depósito da memória” da faculdade da inteligência. Do ângulo da mundanidade, o esperto e o inteligente são como água e óleo. A sabedoria é transcendental e ainda não entrou na conversa.
É que do sábio e da sabedoria nada se pode afirmar. A sabedoria é tão instável e flutuante quanto o humor e, para todos os efeitos, todo homem é instável de humor, caso essa simples analogia não tenha bastado para estabelecê-lo diante do leitor. Estamos em uma aporia. Precisaremos da ajuda de um filósofo consagrado neste momento:
“SÓ SEI QUE NADA SEI” (Sócrates) nunca foi uma afirmação irônica ou falsa modéstia. Sempre significou no seu mais profundo aquilo que diz literalmente (em modo alongado, para melhor compreensão), quer seja, “Cheguei a saber o que vem a ser a sabedoria, mas me é impossível determinar se sou ou não sábio, exatamente em virtude da própria descoberta, visto que nenhum homem neste mundo pode dizê-lo e ter esperança de atingir a verdade da questão. Pode ter a mais plena convicção de ser sábio e no entanto estar errado. Normalmente está, quando tem certeza. Somente o que se pode afirmar é: sou ‘mais sábio’ do que era outrora; e quem haveria de afirmar que é ‘menos sábio’? É bem possível (a situação de se tornar menos sábio ao longo do tempo), mas o ego não admitiria, seria uma chaga profunda. Talvez possamos dizer que nosso ego nunca é sábio. Enfim, sou mais sábio do que já fui antes, mas quão mais sábio me torno mais vejo o quanto sou ignorante, e posso prever uma situação em que sou dez vezes mais sábio que agora, e teria dez vezes mais dúvidas sobre minha própria sabedoria, pois me sentirei, neste caso, o possuidor do décuplo da ignorância. Portanto, como posso dizer, se as coisas são assim, que isto – meu eu atual – é a detenção da sabedoria? Decerto que ANTES não era sábio, se é que agora o sou; aí termina todo meu conhecimento.”
É isso que significa a transcendentalidade da sabedoria. Ela é indeterminável por discursos mundanos. Pela nossa capacidade de observação empírica. Não só nunca poderemos avaliar se somos sábios como nenhum homem poderá emitir este juízo sobrequalquer de seus semelhantes.
Também salta aos olhos que a ética é matéria transcendental, assunto para a metafísica. É por isso que seguirá para sempre indeterminada, porque o ser-ético depende sempre do contexto. O “SOU BOM?” e o “SOU SÁBIO?” caminham de mãos dadas.
Há uma imensidão de espertos, mas pode-se, sem dúvida, ser lerdo, burro e ignorante (este último o contrário de sábio), tudo ao mesmo tempo. Nem água, nem óleo. O esperto costuma ser arrogante e depreciar a esperteza alheia. Uma conduta demasiado inesperta.
Ao sábio, figura intangível, tanto se lhe dá: se é lerdo ou atento, precavido ou desprotegido, se tem a cabeça ‘cheia’ ou ‘vazia’, se é o cume do egoísmo ou o cume do heroísmo altruísta. Isso são valores humanos, inúteis no reino da sabedoria, e é por isso que, se um sábio houver, ele ainda assim não passa de um homem, porque chega o instante em que estes valores lhe são muito caros; todo desprezo é afetação ou estratégia conscientemente temporária. Sempre voltamos ao mesmo lugar. Talvez essa seja a tragédia do sábio, que sendo cotidiana e se repetindo ad nauseam se torna por fim uma comédia: ele deve ser o mais esperto e inteligente que jamais vimos, mesmo sem querer sê-lo! Está sempre correndo de e atrás de si mesmo. E o homem – qualquer homem – pode ele ficar parado?
O próprio Sócrates, na opinião de muitos homens, tinha a pior das mulheres. Mas talvez fosse a melhor, a que mais lhe convinha. Dela mesmo, podemos dizer que não fosse sábia? Assumindo que tudo que a historiografia machista nos deixou seja fidedigno, ainda assim ela foi casada com o homem que em seu tempo era considerado pelos outros homens (ou pelo menos pelos cidadãos atenienses) o mais sábio. Quem mais podia se jactar de tamanha sorte? A isto aceito a objeção de que com família é como com dinheiro: nem esperteza, nem inteligência, nem sabedoria atuam, é questão de sorte. Mas o que resta saber é se no caso de Xantipa o único móvel, a única causa, em sua biografia, para ter se tornado a esposa de Sócrates foi mesmo a sorte.
No entanto, Sócrates, além de cunhar a frase definidora da sabedoria (ou melhor: definidora da indefinibilidade prática da sabedoria, no limiar mais mestiço entre ignorância e saber jamais registrado), e de ter tido uma “esposa interessante” (porque gera muito debate entre os estudiosos até hoje) conforme a historiografia (e devemos suspeitar do fato de que Platão, o maior biógrafo ou romancista de Sócrates, jamais se preocupara com esta personagem), completou sua vida do modo lendário que mais depõe a favor da hipótese de que Sócrates era um sábio (como mártir ou inaugurador de religiões ou doutrinas): se não podemos afirmar quem foi sábio e ter certeza de acertar, podemos dizer que quem tem medo da morte¹ não pode ser um sábio (e veja: para complicar, até para isso, para o morrer, existe a capacidade do simulacro; que homem de aspecto valente diante do cadafalso podemos dizer com certeza que não está no fundo apenas representando um papel? que covarde não nos poderia estar secretamente pregando uma peça, talvez pregando uma peça até a si mesmo?).
¹ Afirmação arbitrária? Se a morte é justamente incompreensível para nós, inevitável e uma incógnita que define nosso modo ético de ser, como capítulo importante da vida! Como o sábio teria medo da morte, este acontecimento sem testemunhos, se forçosamente ignora este fenômeno como todos os ainda vivos, e se a sabedoria é justamente ter consciência perfeita de sua imensa ignorância? Se ‘tanto se lhe dá’ isso como aquilo, como dito acima?
Nenhuma flecha mergulha com mais ímpeto rumo a seu alvo do que o sábio rumo à morte, esta é a única certeza. Que ele será bem-sucedido no mergulho, disso tampouco podemos falar, não podemos cravar nada! Sócrates foi soldado na guerra e viveu por sete décadas. Não morreu uma morte precoce de Alexandre Magno, como não morreu uma morte tísica de poeta romântico.
Esse artigo (contendo também anotações fragmentárias) visa a integrar os conhecimentos transmitidos pelos Vedas-Upanishads (livros sagrados hindus) com o conhecimento em Primeira filosofia (Metafísica no sentido estrito ou Filosofia Continental, abarcando autores de Platão (séc. IV a.C.) ao pós-estruturalismo francês dos anos 1960). O post poderá ser lido em conjunto com outros da categoria Religião e da subcategoria Hinduísmo já presentes no Seclusão e indexados no menu. Usarei The Roots of Vedanta, de Sudhakshina Rangaswami, como bibliografia principal para as citações dos textos védicos (traduzidos por mim do inglês quando necessário).
Os Upanishads (revelações comentadas) são a cabeça e os Vedas em si são o tronco da visão e conhecimento hindus; a correta leitura dos Upanishads, portanto, pode ser considerada a aquisição da consumação da sabedoria transmitida pelos textos sagrados antigos da Índia. Mal comparando, os Upanishads seriam como os textos dos Escolásticos sobre o Antigo e o Novo Testamentos (Santo Agostinho e São Tomás de Aquino como os principais); mas o paralelo cessa quando se entende que, para o praticante da religião hindu, os Upanishads são de quase tão remota origem quanto os Vedas e, apesar de reconhecidamente escritos por mãos humanas, de indivíduos considerados “gurus”, são tratados como texto sagrado, indispensável para compreender a elaborada natureza dos Vedas. Isso faz com que os Upanishads gozem de uma autoridade que a Cidade de Deus ou a Suma Teológica jamais gozaram no Ocidente, mesmo em face da Igreja Romana.
O fato fundamental dos escritos Upanishads é que eles reconhecem a característica de arbitrariedade e às vezes insuficiência da língua para transmitir idéias, compreensão básica da Lingüística moderna e o esteio principal de toda a bibliografia, por exemplo, de Ludwig Wittgenstein. Como a linguagem, a partir de determinado ponto, se torna inadequada para articular a experiência em sua essência, os sábios antigos do Oriente utilizaram o recurso da exposição de mitos e símbolos como alegorias de seus ensinamentos (paralelo com Platão), chegando mesmo à utilização de conceitos puramente negativos (Hegel), necessários para abordar as intuições que levam ao Absoluto.
Os Upanishads são a primeira fonte direta (śruti prasthāna) do oriental para a cognição da Realidade Absoluta. Há mais de cem Upanishads, de forma que o que se realiza aqui é apenas um esboço de introdução ao tema. Os dez Upanishads comentados pelo sábio Sankara são considerados os Upanishads clássicos ou mais importantes, aqueles que se deve tentar ler, caso não haja tempo para a leitura de todo o catálogo dos Upanishads. Os Upanishads, desde o início, não pretendem ser uma descrição literal ou hiper-concentrada de saberes, dogmas ou revelações, como a Bíblia. Dessa forma, não está organizado em versículos, mas em capítulos de prosa como os livros técnicos ou de ficção ocidental modernos em sua quase totalidade, aproximando-nos do olhar védico. O importante será a compreensão holística de todo o conteúdo ali apresentado, e não debruçar-se sobre uma sentença, procurando o significado de um vocábulo como aforismo ou sentença para a vida. O que interessa é a compreensão global pelo adepto. Fenômeno similar se dá com o estudante de filosofia, que adquire conhecimento aos poucos consultando os vários autores de primeira grandeza, para só então partir para os de segunda ou terceira grandeza, buscando conhecimentos mais específicos. Tampouco há uma ordem preestabelecida para a leitura: pode-se começar por qualquer Veda ou Upanishad. O aprendizado é cumulativo, cíclico e recursivo.
Afora o próprio binômio Vedas-Upanishads, o texto da literatura mais importante para Sankara, a maior autoridade sobre o assunto, é o épico Bhagavad Gita. É como se na Ilíada e Odisséia homéricas estivessem comprimidos toda a doutrina de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Kierkegaard, Leibniz, Spinosa, Pascal, dentre outros. O Bhagavad consegue resumir os principais preceitos dos Upanishads e pode ser uma primeira leitura iniciática, ou uma leitura posterior, de reforço dos ensinamentos védicos.
A forma de trabalho da linha dos Upanishads é diametralmente oposta à do Bhagavad Gita, mas ambos atingem a mesma meta: os primeiros enfatizam a renúncia e meditação em Brahma como a disciplina espiritual que conduz à liberação; o segundo, poema-diálogo, ensina a trilha da ação desinteressada neste mundo, a prática do karma-yoga, evoluindo gradativamente ao mais espiritualizado inana-yoga, que pode incluir ou não a devoção a um deus antropomorfizado (objetivo do bhakti-yoga), abrindo, tanto quanto os Upanishads, o caminho para a liberação sem a prática da renúncia ascética. Alguns dos temas deste parágrafo são complexos e foram utilizadas expressões diretamente retiradas dos próprios textos sagrados. Por isso, entraremos em explicações mais detalhadas adiante, “quebrando” os vários temas em seções:
A trilha da ação desinteressada
Em última instância, a prática do karma-yoga equivale a princípios ocidentais como o enunciado de Friedrich Nietzsche “como filosofar com o martelo”. Em Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche, escritor alemão do séc. XIX, expõe seu “método destrutivo do pensamento”. Destrutivo não deve ser entendido de forma pejorativa. Como na frase acima “chegando mesmo à utilização de conceitos puramente negativos”, o “pensar destrutivo” nada mais é do que lutar contra preconcepções potencialmente nocivas adquiridas involuntariamente durante o processo normal de educação do ser humano. Através da aplicação do pensamento crítico sobre os valores herdados pelo homem ocidental, Nietzsche pretende pôr em questão algumas afirmações tidas como verdade que não passam, no sentido da filosofia, de “puras aparências”. Filosofar a marteladas nada tem de violento, ou mesmo de atividade corporal voltada ao mundo material em si: é, traduzida em outras palavras, a função do filósofo. Porém, Nietzsche escreve em um tempo que já carrega uma grande herança da Filosofia, diferente de quando Platão escreveu. Por isso, para ele, é fundamental desconfiar e reler os filósofos do passado, analisando-os filosoficamente, a fim de não acabar criando castelos de areia, isto é: a desvinculação do pensador a noções antigas e erradas deve ser priorizada em relação a “criar novos conteúdos deônticos (princípios éticos para a convivência humana)”. Ele estava aplicando o karma-yoga sem o saber. O karma-yoga é a meditação oriental que ensina a iniciar o caminho da renúncia das ilusões materiais.
Através dos fenômenos, experiências e aparências chegamos enfim àquilo que não é passível de ser pronunciado com suficiência de sentido (a Idéia de Platão conforme exposta n’A República). Quer dizer, o ioga é visto por grande parte dos ocidentais como um mero exercício de relaxamento, equivalente à passividade e inação. Esta é a “aparência enganosa” do ioga e do iogue (praticante). O próprio termo “praticante” levaria à conclusão imediatamente contrária, no entanto: ele pratica, ele age, o ioga é ação – contradição de sentido com a visão exotérica ocidental (vulgar, depreciativa) sobre o ioga. Ação que sufoca a ação através do controle da respiração.
Depois de compreender o ioga como ação, entretanto, é hora de compreender o ioga num nível ainda mais esotérico (de disciplina verdadeira): não como ação comum, mas como ações das ações. Esta assim num sentido novo é tanto oposta à inação ou renúncia conhecidas do público em geral como à ação comum do cotidiano. O que se faz aqui é exatamente o proceder dinâmico da filosofia de Georg Hegel, se tivermos que pensar não mais em Platão, mas no primeiro filósofo moderno de importância que podemos usar para nos auxiliar na compreensão do hinduísmo. Não é que o hinduísmo deva ser necessariamente analisado filosoficamente, nem a filosofia moderna “superada” ou sentida religiosamente pelo guru capacitado por Brahma, mas há essa constatação intermédia: as duas vias são o Um e o Mesmo. Tese (popular, concepções mundanas) – antítese (começo crítico do aprendizado de “filosofar com o martelo” ou do karma-yoga) – síntese (consumação, sabedoria efetiva, inana-yoga ou o conceito da Idéia de Platão em seu sentido mais elaborado).
A trajetória da compreensão pelo sujeito aspirante ao saber de que o mundo das experiências é nosso meio (nossa técnica) para alcançar o Absoluto: assim também pode ser resumido o karma-yoga. E alcançar o Absoluto no sentido carma-iogue é: compreender que participo de um destino em perfeita harmonia com todo o universo, me fundo com ele. A expressão karma, muito mal-utilizada no Ocidente, deve ser interpretada pelo estudante dos Vedas como destino, mas não na concepção clássica e fatídica de destino. Trata-se do destino sentido não como um peso ou castigo infligido ao indivíduo (compreensão popular de “carma”), mas como a leveza de espírito para a prática da ação responsável. O eterno retorno de Nietzsche buscava a mesma conclusão ética. O saber é sempre recursivo. Estou explicando estas mesmas equivalências pela terceira ou quarta vez no Seclusão Anagógica. Mas isso é uma virtude, não um defeito: a sabedoria é esse ir e vir pelos mesmos pensamentos, até solidificar o conhecimento adquirido. Eu aprendo enquanto ensino; não importa de onde parti, nem onde chego; percorro círculos; não importa se o leitor me lê pela primeira vez agora ou acessa esse texto depois de ler outras explicações anteriores (ou futuras). Ele se junta ao círculo seleto, aprende e também ensina.
A devoção a um deus antropomorfizado (bhakti-yoga)
“O caminho da devoção a uma forma pessoal de Deus abre as portas da liberação mesmo para aqueles incapazes de renunciar ao mundo (inquilinos do mundo).” Esta é uma citação de Sankara nos Upanishads. Ter fé numa entidade divina (religião significa re-ligare, entrar em fusão com) é uma das formas disponíveis para atingir a liberação védica, mesmo sem a disciplina espiritual mais rogorosa dos Upanishads, como ensina o Bhagavad Gita. Ao que se renuncia quando se diz “aqueles incapazes de renunciar”? Ao mundo? Sim e não. Sim no sentido das aparência enganosas, não no sentido de que não se renuncia à vida neste mundo, contanto que a vida neste mundo esteja ligada à busca da verdade mais profunda (o Absoluto). Há que prestar atenção na palavra inquilino. Nossa casa é o mundo, mas não somos os proprietários: estamos de passagem, utilizando uma vida cedida por empréstimo num todo maior.
Apesar da semelhança à primeira vista entre o bakthi-yoga e as religiões ou monoteísmos ocidentais, que são baseadas no culto a um Deus pessoal, a primeira vantagem do hinduísmo sobre o credo cristão (sempre citarei o Cristianismo pela sua maior popularidade e aderência no Ocidente, mas a rigor me refiro a todas as religiões de massa por metonímia) é que o hinduísmo não é um ateísmo, não é um monoteísmo e não é um politeísmo, apesar de ser todos os três ao mesmo tempo (aparências divergem das idéias). O caminho da devoção seria interpretado como “oração” ou “reza” no Ocidente. Está no limiar do que seria a passividade – ajoelhar-se, entregar-se, pedir socorro, etc. – e do que seria a atividade – executar um rito por volição própria, aliar-se ao seu deus, ser ativo na transformação do mundo ao se encontrar apto a transformá-lo, encarnando, representando ou se manifestando como, sendo carne e estando presente no mundo material, a vontade divina neste mundo –.
Em outros termos: ajoelhar-se (símbolo da submissão) e performar são sinônimos. Entregar-se, desistir, dar por encerrado, transferir a responsabilidade, ser o forjador de uma aliança, puxar para si a responsabilidade, iniciar a resolução de um problema concreto são também sinônimos. Pedir socorro e socorrer, ser o agente de alguém, representar algo maior do que a si mesmo são sinônimos. É natural vulgarmente separar todo fenômeno em “ação” ou “renúncia”, inação, como se viu na explicação introdutória sobre o ioga. Porém, as fronteiras entre essas categorizações arbitrárias são enganosas.
Indo além: renunciar ao mundo, seria uma ação ou uma desistência? O discípulo de Cristo, que no ato de se tornar discípulo distribui todas as suas riquezas para peregrinar com Cristo, não age? Aquele que renuncia ao mundo, não desiste da vida, se entrega, se anula? Ambas as perspectivas estão corretas. Covardia ou coragem? O debate ou simpósio entre ambas as alternativas seria eterno e inconclusivo. Há aqueles formatados para o que o mundo chama de ação; há aqueles formatados para o que o mundo chama de inação. Todos são, não obstante, homens, e muito mais parecidos em essência do que revelam as simples aparências. Assim como o ioga pode ser ação, inação, o que é ação e inação e o que não é ação nem inação ao mesmo tempo, o mesmo se aplica à intervenção militante no mundo. Cristo é reconhecido por qualquer cristão, do papa ao mais tímido e “ignorante” dos fiéis, tanto como aquele que disse: “Dai a César o que é de César, meu reino não está neste mundo”; como aquele que militou fervorosamente (veja o advérbio), com bastante ênfase e barulho, no seio do judaísmo: curar os doentes, ensinar a verdade, acusar os fariseus, destruir ídolos, arregimentar um exército de apóstolos. Portanto, tanto o reacionário político quanto o comunista clássico da guerra de guerrilha poderão dizer, com acerto, tanto que:
a) Cristo era, mesmo que de carne, Deus ou o Espírito Santo (mistério triplo, imagens que não correspondem às idéias), a manifestação ativo-passiva (tanto faz) de Deus, o Único, na Terra, com “destino selado”, ao mesmo tempo que dirigente autônomo das próprias ações, para o cumprimento final da Palavra e do Evento. Em última instância, a apologia mais completa de tudo que aconteceu, acontece e acontecerá. O pregador da doutrina de que “não importa o Estado, nos preparemos para o outro, o verdadeiro Reino”.
b) Cristo foi o comunista consumado. Revolucionário, transformador, ativista-modelo para a humanidade póstuma. Mártir, lutou por um futuro melhor para seus camaradas, derramando sangue para que seus filhos pudessem sorrir, viver a vida, sem carregar nenhuma cruz. Um libertador das condições materiais opressoras, desafiador de César e do templo dos hipócritas, instaurador de boas-novas, de uma nova verdade, de novos valores. O mundo se divide em dois, afinal – como negá-lo? Antes de Cristo e depois de Cristo; pelo menos pode-se generalizar dessa forma contanto que não levemos em conta a Ásia. (Curiosamente, de onde vêm os três reis magos? Do Oriente. Folclore popular que se integra com o que existe no Novo Testamento.)
Renunciar ao mundo não é nem uma ação nem uma renúncia, no sentido vulgar. Cristo não foi nem um corajoso herói nem um herege tumultuador e covarde. Ecce homo: Eis o homem. Cristo foi um homem. A única unidade entre esses pólos fictícios que traçamos é nossa própria condição e convivência no mesmo planeta.
A esse ponto, já ficou muito claro, após uma exposição tão numerosa em exemplos, que não importa a estrada, a esotérica (erudita) ou a exotérica (popular), a crença num panteão, num Deus único e supremo, o panteísmo ou o ceticismo extremos, o acolhimento do budismo ou do ateísmo clássico no seio da modernidade pós-Revolução Francesa (a negação do Deus cristão, que após Jesus Cristo, para os fiéis, nada quer dizer para o indivíduo senão “condenar-se ao inferno”)… Todos os caminhos levam ao mesmo caminho, ao mesmo ponto de chegada. É claro – no hinduísmo, a religião mais antiga e perfeita, completada, este caminho é explicado, e desde o Bhagavad Gita foi ensinado o método mais econômico para percorrê-lo.
Seja pela compreensão e estudo aplicado dos Vedas em alto nível de abstração, seja pela crença popular nos avatares de Brahman, o hinduísmo permite o ecumenismo: quem desejar segui-lo poderá atingir o mesmo efeito (em última instância, a fusão com Brahman, a renúncia ao mundo ou a completa inserção no mundo, no real, conforme o próprio indivíduo interprete e descreva o próprio credo). A velha polêmica (tão recente, se comparada com todo o sistema hindu!) entre Calvino e Lutero sobre a salvação via fé ou via obras é uma bobagem, uma dialética de boteco entre os dois mais importantes cristãos da Europa do período reformista.
Para voltarmos ao hinduísmo: As portas da liberação são abertas, sem olhar a quem. O ser humano é um inquilino no mundo. Ou antes: o corpo é o inquilino da alma, que é Brahman. As aparências estão de passagem no seio do Absoluto, que as contém e retém e é o dono do espaço que elas ocupam. Toda morada é temporária, por isso a expressão inquilino: nosso corpo não é o dono do imóvel. O homem é, apesar de tudo, nômade, no sentido espiritual, mesmo o mais sedentário: ele chegou e irá partir. Enquanto mero indivíduo, é um ser provisório.
Pensando na expressão inglesa usada no Upanishad traduzido naquela língua, o house-holder, o chefe de família ou dono do seu lar, no sentido empregado na frase, é o meu inquilino, é o corpo e não a alma. Como posso estar tão certo, pois, de traduzir desta maneira? No próprio inglês haveria um termo muito mais inequívoco para descrever um house-holder que não é apenas um sujeito de ocasião (um inquilino, que mora no mundo apenas de aluguel, no sentido cotidiano). Este termo é o landlord, “aquele que aluga para os outros”. O único landlord num sentido metafísico (e quem é Senhor da terra é Senhor do tempo e de tudo que ambos contêm) é Brahma. Mesmo Vishnu e os outros deuses-avatares da hierarquia hindu, e abaixo deles os sábios inspirados que escreveram, sistematizaram e interpretaram os Vedas numa linha sucessória, são apenas manifestações de aluguel, procuradores (no sentido jurídico daquele que representa) do Um. A explicação, pelo menos para mim, é muito mais intelectiva, simples, que o mistério da Santíssima Trindade, e nem por isso o hinduísmo deixa de ser uma religião, isto é, vira apenas um sistema de regras e saberes secular (por não conter mistérios que não podem ser revelados). Toda religião tem seus mistérios, é um sine qua non (condição de existência de uma religião). Os do Cristianismo, entretanto, podem e devem no mais longo prazo levar à vertigem, à estupefação e a uma incompreensão completa e duradoura.
O hinduísmo, pelo contrário, é explícito e honesto: enquanto alguém que não crê em Cristo é sempre alguém que não crê no Deus-Pai (e vice-versa) conforme o cânone cristão, um hindu poderá dizer: eu só acredito neste mundo, no meu lar e em minha família; isso não “interessa” a Brahman (trilha da ação desinteressada). Caso siga sua crença aparentemente simplória da maneira correta, este hindu (consciente ou inconsciente de sê-lo) entenderá eventualmente que tudo (sua casa, sua família, seu mundo) é real, e que, no entanto e apesar disso, tudo isso é Brahman, oriundo de Brahman. Não crer no ‘divino’ ou crer demasiado no ‘divino’ são uma e a mesma coisa para o hinduísmo: seja um indivíduo como Platão, seja um venerador público de Vishnu, seja um venerador secreto de Indra, seja um ‘venerador’ ou venerador de Brahma… (Quem põe as aspas? Responde-se à pergunta mais adiante.) Se ele sabe quem é Brahma, as portas estão abertas para ele. Brahma é apenas uma palavra.
A evolução transcendental ao inana-yoga: estar-com-Brahman
Quem acredita em Brahma como um colega-acima-dos-outros, que vive em relação com eles, sendo um outro para eles, diferente, como por exemplo Zeus para os outros deuses gregos ou o general para seu exército, é um herege, herege no sentido absoluto do bramanismo (hinduísmo), pois não é isto que Brahma é (malversação das escrituras). E no entanto, Platão, que viveu sob a religião ateniense, e não hindu, onde Zeus presidia, onde Zeus como primeiro-acima-dos-outros-deuses era a única norma sancionada, e pré-requisito da conservação da cidadania na polis (cidade-Estado de Atenas), sem nunca negar explicitamente a mitologia grega, chegou à Verdade, “apenas” trocando as palavras.
Aquele que jejua hipocritamente, ritualiza apenas teatralmente e diviniza ou amaldiçoa erradamente (não chega a Brahman embora pareça ser do credo de Brahman; amaldiçoa em verdade o mundo, que é Brahman, enquanto alega que o faz por Brahman, não entendendo o vínculo entre aparência e Verdade), esse alguém não compreendeu Brahman, então não importa que seja um devoto no sentido clássico ou popular (um asceta que se conduz de modo perfeito no exterior). Pois este que desrespeita tanto a casa em que mora de aluguel quanto as portas da libertação da frase traduzida acima, a única verdade é que se encontra fora da doutrina hindu, condenado à eterna imanência. E este que respeita sua moradia passageira e conduz-se às portas de Brahman, é Um com Brahman. E é impossível desrespeitar a casa (alegoria para o mundo material) respeitando o que é mais importante que o material ao mesmo tempo (pois a “casa” é a via de acesso ao que é invisível, a senda espiritual), como é uma situação impossível desprezar as portas da liberação, a Idéia, ao passo que respeita concomitantemente as aparências. (Respeitar as aparências não é ser materialista – é tratar aparências como aparências! Respeitar é entender.) Não! Não existe distinção final ou factual entre corpo e alma, entre casa e portas supremas, do ângulo hindu: ou se está com Brahman, ou não se está com Brahman, de corpo e de alma.
Estar-com-Brahman é um conceito, portanto não pode ser determinado por um observador externo, o mais zeloso: não é uma opinião, não é aparência. O conceito é Idéia. Que segundo os outros homens alguém esteja ou não com Brahman, e pratique ou não o bramanismo, isto é indiferente no tocante à vida deste homem determinado (e à resposta para a pergunta: ele está com Brahman?). Pois as aparências enganam, e enganam todos os observadores do sensível sem exceção. Enganam até quando enganam ou “não enganam”: o asceta hipócrita, o asceta legítimo, o homem conhecido por seus pares como mau, o homem conhecido por seus pares como bom, todos estes são aparência, mas quem haverá de dizer se correspondem ou não em essência? Quem determina com infalibilidade a hipocrisia? Quem está acima do conceito de legitimidade, de bem e de mal? Quem no mundo das aparências não é apenas joguete dessas noções humanas, demasiado humanas? Quem será o juiz temporal da transcendentalidade de um ser?
O cristianismo cavou a própria cova quando erigiu a Igreja, matéria-carne que proclama o monopólio do espírito. É a infância do ser humano em forma institucional: comete os erros mais fundamentais a respeito das aparências e do caminho ao mundo-verdade. E quando a religião definhava e foi reformada, os juízes saíram das igrejas e se instalaram por todo o mundo debaixo do céu, como câmeras de vigilância de um panóptico da Torre de Babel, tão onipotentes quanto inúteis, pois os reformadores, tanto quanto os iniciadores, não reconheceram o mesmo princípio universal exposto pelos Vedas: não há juízo temporal da transcendentalidade alheia. Não se julga do sagrado (verdadeiro) com opinião (aparência). Ninguém nega boas intenções onde há. Ninguém nega má-fé onde há. Mas no caso do Ocidente as boas intenções dos tradutores, disseminadores e pastores, “democratas do espírito”, geraram o mesmo mal-entendido que a má-fé pura: povoou-se o mundo de sacerdotes, em vez de eliminá-los, tal qual o bramanismo, que já nasceu onisciente e infalível por um simples motivo: é uma religião sem sacerdotes, que proíbe o sacerdócio sobre os outros. É por isso que a origem dos Vedas é tão remota que só pode ser falada em termos de fábulas, mitos e lendas, pois o que já não fosse transcendental a partir de sua estada-no-mundo não poderia gerar transcendência. Indivíduos não autorizam (no sentido tanto de autorização quanto de serem os autores) religiões.
A impossibilidade da divinização do indivíduo e de provar o sagrado: Por que o Ocidente precisa do Oriente
O mundano só existe “em-transcendência”, não é possível tratar uma Revelação como aparência, experiência derivada dos cinco sentidos – mesmo os eventos geradores ou supostamente geradores de transcendência que se localizem após a pré-história (i.e., numa cronologia humana consciente) são fabulosos: Cristo existiu? Onde ele foi crucificado? Qual era sua aparência (ironia tríplice)? Quem hoje tem parentesco mais próximo com ele? Ele ressuscitou? Por que ele ressuscitou em segredo diante de seus mais próximos e de Maria Madalena, e não diante de toda a cidade, de toda a colônia, de toda a civilização romana (a mesma pergunta da crônica esportiva: por que ele não calou os críticos?)? Por que milagres não são fatos científicos (ambos são conceitos mutuamente contraditórios)? Por que cada apóstolo conta um evento de forma diferente, tendo Cristo no mesmo instante pronunciado algo distinto conforme a testemunha?
Porque não seria fato gerador de uma religião de massa nada que não suscitasse tantas perguntas sem resposta! Somente havendo tantas dúvidas sobre a identidade ou mesmo a existência de Cristo é que foi possível tornar fascículos sabidamente escritos pelos homens chamados X., Y., Z. e K., depois reunidos necessariamente em uma outra geração por outro homem que jamais conheceu Cristo a não ser por relatos, Paulo, ele mesmo santificado (num tempo em que santificavam pessoas apenas após a morte; é constrangedor ter de incluir essas ressalvas entre parênteses!), somente por toda essa via errática é que o Cristianismo pôde nascer como uma fé (fora da História, embora ‘na’ cronologia histórica). Tudo isso apenas gerará pano para manga enquanto coserem-se hábitos, surgirem panos com manchas misteriosas para movimentar discussões vãs e enquanto átomos não puderem ser fotografados.
Um exemplo de por que não há novas religiões a partir da modernidade, nem pode haver: Napoleão Bonaparte gerou partidários, admiradores e fanáticos, mas não uma religião. Quem sabe em outro milênio uma figura tornada finalmente mitológica chamada Napoleão, de quem pouco se sabe de concreto, venha a inspirar um novo credo transcendental, o Napoleonismo! Não, porém, enquanto houver uma foto de Napoleão ou o sentido de fotografia não recair novamente no mitológico (esquecimento da técnica fotográfica, tratamento da evidência da imagem como produção sobrenatural). Insisto sobre o sentido de ‘fotografia’ como ícone moderno da palavra chamada ‘prova’ e do método científico, consistente em ‘provar uma série de fenômenos’, visto que pretendo voltar ao assunto no próximo subtítulo.
Mas isso – a divinização no sentido autêntico de Napoleão – seria impossível para a França que tanto sabe sobre ele, para o Ocidente inteiro agora, historiograficamente informado sobre o indivíduo Napoleão Bonaparte, objeto de inúmeros tratados políticos e biografias científicas. O pior tirano imaginável sobre a Terra não poderia fundar uma religião à força e ser bem-sucedido; mas uma miríade infinita de tiranos de esquina poderia se perpetuar no poder firmemente falando em nome do deus estabelecido – o que evidencia a diferença infinita entre a esfera do transcendente (Brahman) e o poder terrenal (mundo de César). De fato, o Ocidente se tornou tão desconfiado que a própria noção de Deus em sua cultura vive no fio da navalha, e seguirá se complicando cada vez mais, enquanto o Ocidente for Ocidente, e não uma cultura nova e reoxigenada, alimentada pelo intercâmbio cultural com o Oriente, o único lugar do universo que hoje pode ressuscitar o sagrado da outra metade do globo mortificada e anestesiada, mundanizada.
Aplicação do anteriormente estabelecido às contradições da ciência pós-moderna (reino da não-filosofia)
“…enquanto átomos não puderem ser fotogrados”: retomaremos este trecho como um exemplo prosaico da transcendentalidade de todo o mundano fora do próprio tema religioso: é fisicamente impossível, e isto foi declarado pela própria Física, que o principal objeto de estudo da ciência chamada Física seja fotografado, ou, de forma ainda mais astuciosa podemos dizer, no lugar de fotografado: comprovado (requisito mínimo da cientificização de um conhecimento, qualquer que seja ele). Este fracasso é a razão precípua de dizermos que “as ciências exatas estão em crise”, e de essa crise ser administrada – e sem dúvida ao longo de muitos séculos ainda por vir continuará sendo administrada, o que significa “adiada”, ou “não-resolvida” – desde há não muito tempo pelo inteligente expediente da troca da denominação “exatas” por “naturais”, o que certamente dissipa ao menos parcialmente o constrangimento, o escândalo e a sangria mais explícitos que ocorreriam, tendo em vista a denominação antiga (o que é exato pode ser totalmente definido, sem lacunas), caso contrastassem diariamente o termo exato ou hard com a patente inexatidão atual do conhecimento técnico Esta inexatidão não decorre de erro ou incompetência. Este “fracasso” não é, do ângulo científico, um fracasso: ele é conseqüência natural e direta do grande sucesso da aplicação do método científico por um par de séculos. A inexatidão das ciências naturais é conseqüência inevitável de seu enorme e vertiginoso progresso.
Nos tempos áureos da ciência moderna a “tradutibilidade” dos conhecimentos tecnológicos era ampla. Todo o conteúdo das ciências clássicas está bem-explicado em livros-textos escolares atuais. Porém, os novos conhecimentos derivados do método científico em crise, no que chamo de decadência da ciência moderna ou sua fase pós-moderna, não são comunicáveis ao grande público com a mesma facilidade, pois os dados não são mais o que costumavam ser, e é preciso refundar o conceito de lógica (hoje tributário de Aristóteles, i.e., lógica formal, mas não a única lógica passível de existir) para acomodar resultados de observações e experimentos, vd. física quântica. E é exatamente por isso que as pessoas leigas ficam cada vez mais insatisfeitas com os resultados divulgados como conquistas das ciências, e que cientistas não dão entrevistas em grandes jornais, porque há uma longa cadeia de pessoas que precisa processar e filtrar a informação emanada pelas maiores autoridades em determinado assunto, reformatando a informação para que ela seja recebida pelo grande público em palavras – finalmente para ele – compreensíveis. Talvez os últimos eventos a capitalizarem grande parte da atenção mundial (sem necessidade de conhecimento técnico sobre fabricação de foguetes ou as propriedades dos átomos instáveis usados em bombas nucleares, seja por parte dos jornalistas e comunicadores ou do cidadão comum) tenham sido a criação da bomba atômica e a aterrissagem do homem na Lua.
A quem se pergunta, “compreensíveis” acima significa, no sentido mais sincero possível, que, na verdade, nada de significativo está sendo dito ou veiculado, e talvez devêssemos agradecer por isso, se pensarmos exclusivamente na preservação de nossa saúde mental em uma sociedade tão complexa, e se desprezarmos o outro lado da questão e que é a pior parte de tudo isso, ou seja, que evidências socialmente verificáveis não cessam de indicar que um público necessariamente cada dia mais ignorante passará a exibir comportamentos negacionistas de manada mais e mais aleatórios, ridículos e perigosos – sem que se conheça por ora o limite macabro desta “torção cognitivo-coletiva” –, recusando-se um grande número de indivíduos, por exemplo, para nos restringirmos à época atual e não sucumbirmos à tristeza tentando prever o que virá a seguir, a tomar vacinas que facilmente previnem doenças graves e que são muito transmissíveis, a ponto de que os próprios cientistas de “médio escalão” poderão estar mais e mais sujeitos a esta mesma lei (da involução cognitiva pari passu à evolução do compartimento das ciências em múltiplos e pequeníssimos nichos mais e mais “intraduzíveis” ao cidadão comum), havendo alguns que, não por charlatanismo nem qualquer intenção de ganho pessoal, repercutem os mesmos discursos de manada, genuinamente convencidos por ele, até que num dia não muito distante os físicos, biomédicos e bacteriologistas mais especializados em seus sub-sub-sub-ramos (previsão:) venham a se encontrar mais isolados de qualquer contato humano que K., o agrimensor do livro O Castelo, ponto em que já não haverá possibilidade de retorno (fratura do campo científico como jamais se viu, mesmo durante a sofrida transição da opulenta Idade Antiga para a fervilhante Idade Moderna). Corre-se o risco do turismo espacial se tornar realidade simultaneamente a quebras de recordes para a resposta ‘sim’ em enquetes como “você acredita que vive num mundo que tem o formato de um tabuleiro?” (obviamente que até lá a palavra usada não será tabuleiro, pois esse termo tão complicado terá caído em desuso), e o risco conseqüente de que esse contraste absurdo nada cause em termos de convívio social, pois cidadãos dos espectros mais afastados coexistirão harmoniosamente dentro de suas culturas e subculturas (cada qual enterrado e cem por cento esterilizado em sua própria bolha inexpugnável, chamando tudo o mais de falso e conspiratório, já incapaz, porém, de se incomodar de verdade com isso, apenas reproduzindo comportamentos automáticos como dizer no elevador que “parece que vai chover” ao negar a eficácia de vacinas). Essa situação não mudará caso estejamos falando de colegas de trabalho, roommates ou parentes próximos ou ainda marido e mulher situados em campos extremos e opostos (imagine o casal: um é funcionário de agência espacial e outra uma atleta que vem se preparando para a expedição de exploração das cachoeiras infinitas das bordas do tabuleiro terrestre).
Recuando um pouco, tudo isso é a razão precípua, ainda, da filosofia ser a mãe de todas as ciências mas de forma nenhuma nem sequer uma meia-ciência (ou seja, um título honorífico), porque ela fala do transcendental, que o mundo moderno aprendeu a considerar não só inecessário como até mesmo inexistente ou indesejável caso existisse, em vez de vital. Dada a própria natureza indeterminável do objeto teórico ‘átomo’, vulgar “menor partícula da matéria”, que na verdade nem é matéria, podemos dizer que toda a decadência do saber transcendental no Ocidente é, ironicamente, uma questão de lógica da mais rapace ou degradada.
Por outro lado, que se pense na implicação do átomo como partícula dual é já um sintoma de que mundo das aparências (a matéria, o real, o perceptível) e a verdade invisível que rege sobre ele (ser duas coisas ao mesmo tempo, cientificamente validado) estão se aproximando, e não se afastando inequivocamente. Somos matéria; somos átomos, sem dúvida. O átomo é um (excelente) modelo, não pode ser provado, significando que nós mesmos, que sabemos que existimos enquanto aparência, átomos que somos, pressentimos que somos, embora também átomo e matéria, algo mais, que não conseguimos definir com palavras, i.e., opera-se uma crescente necessidade de revitalização do transcendental, muito lenta e imperceptível para os desatentos, mas cujo mecanismo é similar ao desenvolvimento da Filosofia Continental e à doutrina contida nos Vedas-Upanishads.
Trocando em miúdos, em uma sociedade em que todos andam com uma câmera no bolso, capaz de registrar “coisas” instantaneamente, a fim de convencer os ausentes de coisas improváveis (via sentidos), desconfiamos da própria realidade dos entes, da própria acepção das palavras prova, coisa e fotografia. Duvidamos do que está aí, presente, e por uma questão até de sobrevivência cada indivíduo-coisa se vê, embora não veja (a realidade imaterial), obrigado a perguntar por sua própria essência e considerar o que não está aí para nenhum dos cinco sentidos, procurando um sentido metafísico para sua existência e presença, um caminho que seja, diferente do caminho das coisas (método científico, experimental ou positivista, o caminho não-filosófico ou irreligioso e o modo completamente mundano da existência).
Conclusão da tese: hinduísmo e filosofia continental como duas versões da Verdade revelada
E no entanto, a despeito da superioridade metafísica do hinduísmo, percebida tautologicamente apenas pelos próprios adeptos do hinduísmo, o mundo segue seu curso histórico sem nenhuma modificação fundamental até agora quanto à dimensão de alcance e prevalência das grandes religiões. A despeito da fraude autodemonstrada da religião cristã, a humanidade está e é livre para ter sacerdotes. Se no Oriente, por hipótese, o povo viesse a desejar de forma inédita o sacerdócio em nossos moldes, haveria o sacerdócio! Haveria a hipocrisia, e, aliás, há a hipocrisia entre “hindus” como há dentro de qualquer outro credo (e como os outros credos apresentam seus Platões, brâmanes inconscientes, i.,e., os praticantes honestos).
O que se pode afirmar, percorrendo a História, entretanto, é que o hinduísmo prevalece internamente imutável – sem necessidade de um movimento ou clamor popular por uma reforma nas práticas e nos escritos dos Vedas –, uma vez que como ele é e como ele está, ele conduz à Idéia, à Verdade, a Brahman. Já os pressupostos das religiões monoteístas que conhecemos não resistem a uma análise bramânica ou filosófica pós-moderna, i.e., o próprio Ocidente veio a negar sua religião (suas religiões) em tempos relativamente recentes. No Oriente, semelhante acontecimento ‘mundano’ não teve lugar. Nele, filosofia e religião são Um só. Entre nós verificamos dolorosamente o contrário, e a dor é mútua e equivalente: a dos Escolásticos (quando a religião se dizia a própria filosofia, hoje extintos) e a dos sábios laicos, em voga, momento definidor em que a filosofia emancipou-se e após caminhar certo tempo com as próprias pernas descobriu sobre a calamidade da morte de Deus – Nietzsche em Gaia-Ciência – e sobre a inevitabilidade do transcendental da condição humana – O Mundo como Vontade & Representação, Assim Falou Zaratustra –, logo, tragicamente, no momento em que via essa mesma transcendentalidade escorrer pelo ralo – o Ser e Tempo de Heidegger, etc. –, cenário este que, a filosofia pós-moderna o sabe, inviabiliza a própria continuidade da filosofia e, destarte, da vida.
Esse texto foi um retrabalho das anotações feitas durante a leitura do livro indicado no primeiro parágrafo, Rangaswami, The Roots of Vedantha, e a síntese e principais aspas desta obra serão publicados posteriormente no Seclusão.
Eu já fui um liberal de tipo PSDBista. Odeio liberais. Odeio os ‘social-democratas’ (falsa esquerda, quinta-coluna). Eu já fui um ateu militante (na pré-adolescência, é verdade). Odeio esses ateus mais cristãos que os cristãos (leia-se: mais anticristãos que os anticristãos!). Odeio quem ama a sociologia. Odeio os hedonistas. Odeio metaleiros. Odeio são-paulinos. Odeio otakus. Odeio “gamers”. Odeio os que levam o trabalho a sério demais e adoecem por isso. Adoro aqueles que sabem ser anti-monoteístas, stalinistas, maoístas, fidelistas, chavistas, putinistas, aqueles que sabem usar a sociologia como anti-sociologia, para o verdadeiro progresso da sociedade (no sentido oposto a Comte-Durkheim), aqueles que sabem ouvir heavy metal, assistir e falar de futebol, apreciar jogos de videogame e desenhos japoneses sem parecerem completos imbecis infantilizados e extremistas desnorteados. Com efeito, odeio hoje todo e qualquer colega dos tempos de escola (avatares de todas estas categorias reunidas). Eles não acompanham o ritmo da dança. A classe média insossa do DF, minha grande nêmese. Já fui o mais insosso dos sem-sal, hoje sou um tempero exótico da Índia.
“Não precisais temer o fluxo das coisas: esse rio flui de volta para dentro de si: ele não foge de si apenas duas vezes.
Todo ‘era’ há de ser novamente um ‘é’. Todo vindouro morde o pretérito no rabo.”
ANÁLISE
Ambigüidade na tradução: em duas ocasiões o rio cessa de fugir de si mesmo ou ele foge bem mais vezes (e por que dizer duas vezes neste caso?)? A fluência do rio é a angústia humana (encarado como aspecto negativo do Ser: ‘temer’). Fluir de volta para dentro de si é harmonizar-se, ainda que temporariamente no tempo (linguajar voluntariamente heideggeriano). É atingir a essência (o Ser) no próprio devir. Ora, que o rio sempre está a fugir é um lugar-comum. Ele foge infinitamente de si mesmo. O que Nietzsche é celebrado por haver ensinado pela primeira vez na modernidade (canção já antiga)? Que o rio retorna. O rio deságua todo em seu próprio olho d’água ou manancial depois de as águas terem submergido por um tempo no subterrâneo, até voltar ao transcurso habitual do leito (metáfora para vida, pois é na cama, lugar de repouso e paz, também do sono, vizinho da morte, que a vida é gerada). E retorna infinitas vezes; é só modo de dizer, é verdade. Mas para o indivíduo, para o filósofo, para o ser vivo: quantas vezes? Minha opção é pela primeira semântica da tradução. Se o rio pára de fluir e se reencontra Uno consigo duas vezes, só pode ser em dois momentos: no nascimento e na morte. Porém para nós não faz diferença: é uma vez, na interseção dos dois. Há angústia pelo fluir do rio, não pela morte (um rio não morre, o rio da eternidade nunca seca, a existência nunca deixa de existir, este é seu modo, o da insistência do ser). Tanto quanto não pode haver angústia por haver nascido (a não ser para psicanalistas, que deviam todos estar em manicômios), se esse é o total do ser, e ele nunca foi (um não-ser), por exemplo, pedra. E, supondo que tivesse sido, (não pode) ainda carregar a sabedoria de ser pedra (novo absurdo, meramente expressável porém inconcebível) dentro de si. Nem a pedra no leito do rio nem o homem, o rio, com efeito, têm por que angustiar-se, jamais. Ainda assim, o homem se angustia. É só uma constatação. A pedra mais desesperada do universo não sentiria o menor átimo de ansiedade. O homem no mais remoto dos Shangri-Las e nirvanas ainda sofreria, se angustiaria, bastante. É nosso modo de existir. Por que se angustiar “ao quadrado” com o fato de que a angústia é inevitável? Ainda poder-se-ia dizer que este é o modo de existir do homem, ou ao menos do filósofo! Mesmo que existisse a cura, não obstante, o homem a preteriria, pois preferiria continuar sendo homem.
“Em torno do herói tudo se torna tragédia; em torno do semi-deus – tudo sátira”
Por muito tempo meditei sobre esse aforismo, que não tinha entendido quando li a primeira vez, em 2009. Podemos evocar a famosa frase de Marx para nos ajudar a explicar seu significado. Mas eu ainda diria mais:
a) nosso mundo não tem mais heróis, não tem mais o caráter heróico; tem, sim, a necessidade, antropológica mesmo, do homem superar o homem; antes que substituir o deus morto seja uma realidade, o grau máximo que pode ser descrito é uma figura, a do semi-deus. Ele é um Zaratustra que aprendeu a rir de si mesmo. Tragédias são coisa do passado. Não há lugar para Édipos na atualidade;
b) pode ser apenas um comentário psicológico, despido de qualquer historicidade, e por isso nem Marx pode ajudar: depende da seriedade do próprio personagem (leitor), e com que gravidade ele enxerga a própria biografia. Mas por que “semi-deus”? Num mundo em que deus está morto, ter sido herói, ser um sábio, já é estarsemi-morto. Não vale muita coisa. Quem deixou de ser herói e com isso não se tornou um vilão (recorro a mais uma frase famosa, provavelmente apenas uma re-citação de autor antigo, mas que, ao contrário da sentença marxiana, é apenas uma falácia), não degenerou completamente… ainda tem o aspecto exterior de um bufão. E onde já se viu palhaço triste? Menos Pierrots, mais respeito ao nosso passado que nos trouxe aqui, mas nunca em excesso… Nunca se tornar prisioneiro dos nossos (bons) feitos… Nem temos saúde para bancar de novo os Dons Quixotes, ainda que isso fosse possível! Resta reconhecer que hoje somos diferentes, menos rijos, mas que não podemos e nem queremos apagar nosso passado, mais ou menos distante… Ele ainda mora em nós.
Exemplo pessoal: antes, que eu tivesse um pai tirano era questão de vida ou morte. Hoje, sobrevivente, independente, ainda psicologicamente afetado pela experiência, e com o tirano ainda vivo, tudo é muito cômico e risível. Como pode e pôde uma pedra tão enxuta num sapato tão largo (ou o sapato era firme e apertado, o que impedia o seixo de rolar e atrapalhar? Sim, bufões usam sapatões maiores que os próprios pés!) me causar tantos problemas num nível tão fundamental? Como pôde a mais inferior das criaturas se interpor entre mim e o sol? Mas nem era imperador – e daí que fosse? De todo jeito não lhe resta solução senão sair do caminho, nem que fosse para vir atrás de briga… E, com o tempo, toda(o) coroa… vira areia. Quanto mais tempo bloqueou minha luz solar montado em seus cavalos chamados Prepotência, mais queimou as costas (uma singela inversão de Dédalo, o pai sábio, e Ícaro, o filho imprudente). E pra quê, se tive meu banho caloroso do mesmo jeito? É verdade que ele, este pai, é o “macaco de Zaratustra”: gostaria de ser eu. Hoje é ele que me imita, sem saber o que ou como imita. Mas ele quer fazer o dono, o original, ficar bravo, perder a sombra (posto que à sombra não há sua sombra). E se a indignação for só uma máscara da gargalhada, e se o macaco é que está enfezado por dentro? Sim, sinto pânico, mas essa é a parte doentia da árvore genealógica, o orgânico que atingiu seu limite. Até ele, porém, é uma atuação, em último grau. É sempre material para ressurgir.
Toda podridão pode ser cinzas para uma fênix. E macaco não é fênix. O ruim de dar azo pra macaco é que é um bicho muito folgado, por isso, mesmo descontraídos, precisamos manter meia-distância. Quem é mais triste? O macaco ignorado ou o macaco perseguido (letalmente perseguido)? O esgar dos dois por debaixo da máscara deve ser o mesmo. Talvez o macaco seja, então, nosso espelho? Com ele é o inverso, ele viveu a paródia e agora tudo termina em tragédia? Macaco com capa. Macaco capado. Bucéfalo empacado diante de Diógenes.
O sentido final da hipótese b), portanto, é que devemos vencer nosso próprio macaco, o macaco de Zaratustra, etapa e desafio obrigatórios a fim de avançarmos enquanto projetos conscientes de sermos além-homens. E esse passo exige encarar o humor com seriedade e leveza, não amargura; e desafiar a tragédia que ameaça nos aniquilar como se ríssemos de uma boa piada.
Este é um estudo que intenta a interpretação do livro Katha, um Upanishad (livro sagrado hindu), por meio da Filosofia Ocidental. As conclusões a que chego são que o Katha Upanishad corrobora os achados dos principais filósofos de nossa própria cultura, ou, antes, dado que o Katha é mais antigo que as contribuições de Platão e de todos os seus sucessores, são os achados da Metafísica Continental ou Primeira Filosofia que corroboram estes trechos da religião-filosofia oriental do Hinduísmo como autênticos e acertados (documentos que chegam ao que convencionamos como a Verdade em sentido filosófico). Não defendo, com essa tese, que Platão e os demais em seu conjunto foram influenciados pelo Katha; ao contrário: em geral, nossos autores chegaram às mesmas conclusões, porém de forma autônoma e independente, o que fortaleceria minha interpretação deste livro sagrado. Em verdade, apenas os últimos filósofos importantes a se considerar puderam ler os Upanishads, como Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche e Heidegger. Antes do século XIX nenhum filósofo de monta havia tido acesso a boas traduções destes livros, bem como o conhecimento do Ocidente sobre o hinduísmo era meramente fragmentário.Foram utilizadas citações do Katha na tradução inglesa de Patrick Olivelle, orientalista contemporâneo (os textos hindus estão sempre em itálico).
“So he asked his father: ‘Father, to whom will you give me?’ He repeated it for a second time, and again for a third time. His father yelled at him: ‘I’ll give you to Death!’”
“A mortal man ripens like grain,
And like grain he is born again.”
“You, O Death are studying,
the fire altar that leads to heaven;
Explain that to me, a man who has faith;
People who are in heaven enjoy the immortal state—
It is this I choose with my second wish.”
“(Death)
I shall explain to you—
and heed this teaching of mine, O Naciketas,
you who understands the fire altar that leads
to heaven, to the attainment of an endless world,
and is its very foundation.
Know that it lies hidden, in the Cave of the heart.”
(Death)
“Choose your third wish, O Naciketas.
*
(Naciketas)
There is this doubt about a man who is dead.
‘He exists,’ say some, others, ‘He exists not.’
I want to know this, so please teach me.
This is the third of my wishes.
*
(Death)
As to this even the gods of old had doubts,
for it’s hard to understand, it’s a subtle doctrine.
Make, Naciketas, another wish.
Do not press me! Release me from this.
*
(Naciketas)
As to this, we’re told, even the gods had doubts,
and you say, O Death, it’s hard to understand.
But another like you I can’t find to explain it;
and there is no other wish that is equal to it.
*
(Death)
Choose sons and grandsons who’d live a hundred years!
Plenty of livestock and elephants, horses and gold!
Choose as your domain a wide expanse of earth!
And you yourself live as many autumns as you wish!”
Resposta fraca da Morte nesta alegoria, evidentemente não comprada pelo filósofo e crente (aprendiz dos Vedas e Upanishads) Naciketas. Mas a Morte (pense em Mefistófeles aqui) não desiste:
“And if you would think this an equal wish—
You may choose wealth together with a long life;
Achieve prominence, Naciketas, in this wide world;
And I will make you enjoy your desires at will.
*
You may ask freely for all those desires,
hard to obtain in this mortal world;
Look at these lovely girls, with chariots and lutes,
girls of this sort are unobtainable by men—
I’ll give them to you; you’ll have them wait on you;
But about death don’t ask me, Naciketas.”
Outrossim, a sedução do diabo no deserto (Novo Testamento).
“(Naciketas)
Since the passing days of a mortal, O Death,
sap here the energy of all the senses;
And even a full life is but a trifle;
So keep your horses, your songs and dances!
*
With wealth you cannot make a man content;
Will we get to keep wealth, when we have seen you?
And we get to live only as long as you allow!
So, this alone is the wish that I’d like to choose.
*
What mortal man with insight,
who has met those that do not die or grow old,¹
himself growing old in this wretched and lowly place,
looking at its beauties, its pleasures and joys,
would delight in a long life?”
¹ Seria uma interessante parábola, se existissem tais deuses ou vampiros! Ou, conforme veremos adiante, Naciketas fala dos sábios, em sentido puramente alegórico.
“The point on which they have great doubts—
what happens at that great transit—
tell me that, O Death!
This is my wish, probing the mystery deep,
Naciketas wishes for nothing
other than that.”
“(Death)
The good is one thing, the gratifying [prazeres] is another;
their goals are different, both bind a man.
Good things await him who picks the good;
By choosing the gratifying, one misses one’s goal.
*
Both the good and the gratifying
present themselves to a man;
The wise assess them, note their difference;
And choose the good over the gratifying;
But the fool chooses the gratifying
rather than what is beneficial.
*
…
This disk of gold, where many a man founders,
You have not accepted as a thing of wealth.
*
Far apart and widely different are these two:
Ignorance [prazer] and what’s known as knowledge. [o bem]
I take Naciketas as one yearning for knowledge;
The many desires do not confound you.
*
Wallowing in ignorance, but calling themselves wise,
Thinking themselves learned the fools go around,
staggering about like a group of blind men,
led by a blind man who is himself blind. [um homem cego é mesmo cego!]
*
This transit lies hidden from a careless fool,
who is deluded by the delusion of wealth.
Thinking ‘This is the world; there is no other’,
he falls into my power again and again.”
Creio que ninguém ainda entendeu o verdadeiro sentido do texto. Em vermelho: o hedonista ou materialista pensa “não há outro mundo, só este, carpe diem, etc.”. Mas é só este quem morre. O outro mundo é neste mundo mesmo, invisível, habitado somente pelos sábios. Eles nunca morrem. Apud Sócrates-Platão-…
“Many do not get to hear of that transit;
and even when they hear,
many don’t comprehend it.
Rare is the man who teaches it,
Lucky is the man who grasps it;
Rare is the man who knows it,
Lucky is the man who is taught it.”
Mais más concepções: não se ouve a verdade muito amiúde; quando se a escuta, se a ignora como se ela nunca fôra proferida. Isto é Zaratustra livro I, cena da praça e do mercado. Não é raro o homem que ensina a sabedoria: tantos quantos são estes professores (os sábios, a.k.a. virtuosos), uma vez na vida eles acreditam poder ensinar – esse é seu erro; a virtude não pode ser ensinada. Portanto, só quem sábio se torna, sábio já era. Torna-te aquilo que tu és. Raro é o homem assim constituído. Sortudo é quem nasceu nessa condição, pois só assim “lhe foi ensinado” o conteúdo: por si mesmo.
“Though one may think a lot, it is difficult to grasp,
when it is taught by an inferior man.
Yet one cannot gain access to it,
unless someone teaches it.
For it is smaller than the size of the atom,
a thing beyond the realm of reason.”
Não existe o guru. Quantas vezes ter-se-á de dizê-lo? Quantos murros em ponta de faca? O final, porém, é adequado: a vontade ou Idéia é menor que qualquer pedaço de matéria, o que o século XX chama de partículas sub-atômicas fundamentais. Não é deste mundo, é do outro mundo vivenciado neste mundo pelos privilegiados de nascença (se há algo do mito brâmane que sobrevive é esse fatalismo: ou se nasce sábio e bom, ou se nasce ignorante e mau). E é vontade ou Idéia, esses nomes “estranhos”, embora familiares no léxico (mas quase nunca sabem seu significado!), porque não é razão, está além da razão. Quem disse que o sábio o é em virtude da razão?! Quem disse que a Idéia de Platão ou a virtude são alcançadas pela inteligência? Somente pelo instinto, pela inclinação natural em vê-las e senti-las, em sê-las (com isso que chamam de Brahma).
“One can’t grasp this notion by argumentation;¹
Yet it’s easy to grasp when taught by another.²
You’re truly steadfast dear boy,
you have grasped it!
Would that we have, Naciketas,
One like you to question us.”²
¹ A dialética esvaziada de um Aristóteles, o Racional.
² O outro é sempre si mesmo, sempre a ressalva em relação aos textos sagrados hindus, que ainda não tinham a consciência da origem da sabedoria, talvez a única vantagem oferecida pela filosofia ocidental sobre o maior trabalho, a maior sabedoria, embora inconsciente, trazida pelo Oriente, e que hibernou por tanto tempo, entre nós e até eles próprios, os professores do Veda! Us também não existe. Quem formula as perguntas e também as respostas naquele que não pode ser igualado (Platão)? Ele mesmo. A Morte neste Upanishad não é uma fraude, um espírito trickster, mas, pelo contrário, o alter ego de Naciketas: este é um diálogo, a maiêutica do sábio. Quem preside é ele mesmo, mediante suas reminiscências. Outra frase célebre: Dai a César o que é de César, significa: dai a este mundo o que quer este mundo: a humildade, a labuta, um mal-disfarçado senso de superioridade (porque os tolos, em sua maior parte, crêem na sua modéstia e na sua inferioridade, não se pode usar a sabedoria para angariar vantagens no jogo temporal). Assim quitais vossas dívidas com eles. Nosso eterno sofrimento, a eterna convivência com os eternos anões. O preço de nosso paraíso, no outro mundo que é aqui, sem testemunhas senão nossos poucos iguais. Jesus Cristo, o incompreendido. Ao mesmo tempo que não iniciou, o Juízo já terminou e está acontecendo. Acontece. Todo ele é a existência. A existência é uma criação escatológica.
“What you call a treasure, I know to be transient;”
tesouro transcendental
“Therefore I have built the fire altar of Naciketas,
and by things eternal I have gained the eternal.”
Jogando minha alma na aposta eu consegui meu objetivo: a eternidade. O outro mundo neste mundo. O presente do presente, o único tempo real. A única felicidade tangível. Sem necessidade de nenhuma providência; pois já estava lá, sempre esteve.
“[Já não importa quem fala, é o Um e o Mesmo]
The primeval one who is hard to perceive,
wrapped in mystery hidden in the cave,¹
residing within the impenetrable depth—
Regarding him as god,² an insight
gained by inner contemplation,³
both sorrow and joy the wise abandon.”4
¹ E quem é que começa a vida preso à caverna, no mito (ou inclusive na historiografia “séria” – como se o mito não o fosse –: homem das cavernas)? O homem. Não é que o homem busque o sol que é a Iluminação ou instrumento necessário para iluminar aquilo que não se vê. Ou em outras palavras: aquilo que não se vê a descoberto é a si mesmo. O homem não se sabe homem, não sabe o que é, precisa do sol para entender que é o que tanto procurava. O mistério da vida é o mistério do homem diante do espelho. O eu, o maior enigma. O mundo dos homens, normalmente entendido como tão despido de significado quanto “o mundo de um deus desconhecido”, ou “de um deus que morreu”. O Mito da Caverna inverte a mitologia grega em geral: não estamos destinados a nos tornar sombras, mas somos sombras que eventualmente se incorporam e ganham volume, densidade, matéria, substância, cor, tangibilidade, vida.
² Na minha interpretação é o exato oposto: sem a companhia de ninguém, e deixado à própria sorte no fundo da caverna, em sua cela do Ser, o homem não pode atingir a hubris nem a auto-afirmação: divino é o estado mais difícil. o Um sem o Outro é prosaico.
³ Isso só pode ser exato depois da própria jornada, da odisséia, do retorno diferente ao mesmo lugar do princípio.
4 Como resultado inevitável da viagem exitosa. Quem tem o presente seria por definição feliz, como quer o hindu. Porém, em face do conhecimento da eternidade neste mundo (o outro mundo), sensações transitórias perdem o significado: o que é tristeza, o que é alegria sem contraste ou interrupção, sem-fim? Nada.
“When a mortal has heard it, understood it;
when he has drawn it out;
and grasped this subtle point of doctrine,
he rejoices, for he has found
something in which he could rejoice.
To him I consider my house
to be open, Naciketas.”
A liberação é saber que fora de todo o possível, fora do eterno presente, só fora, e só para quem está consciente do presente, no impossível (pois não existe esse fora), finalmente é concedido o direito de morrer. Não há transição. Só há transição na eternidade do presente e da ação. Mas o que é bênção para nós é maldição para quem tem medo da morte ou esperança eterna num outro mundo que não seja deste mundo. Eles já vivem neste outro mundo que desejam: eles são objetos, não são homens. O tempo corre para eles. Estão condenados a jamais morrer, porque para eles a vida é uma morte contínua.
Veja que o próprio compilador, ou tradutor, está confuso quanto à identidade de quem fala (como eu disse, não importa, é a mesma pessoa!):
“Seeking which people live student lives”
Buscando quais pessoas vivem vidas de estudante.O estudante dos Vedas é a figura perfeita dos Vedas. Não só dos Vedas: da existência mesma, das Idéias de Platão e da vontade de Nietzsche. O professor dos Vedas é só um artifício didático: ele é outro estudante, o daimon guia do bom caminho. Nunca cessamos de aprender, e de nos tornar mais sábios, mas não existe a Idéia do sábio: a idéia, a busca da sabedoria. A imagem perfeita. Tão perfeita que poderíamos nos perguntar se essa imagem não é a Idéia mesma. A imagem é a Idéia sobre a Idéia. A Idéia é a imagem da Idéia. A Idéia voltada para si mesma, a Idéia ao espelho. A sabedoria socrática. Esse é o infinito, pois não termina ou conclui, e é ao mesmo tempo um estado em perpétuo movimento. Um estado não-estado. Um movimento não-movimentado. A imagem das imagens.
A vontade, palavra do século XIX para o mesmo: deliberações sobre as entrelinhas de Platão, o contínuo debate da Idéia. Não menos perfeito que a Idéia, por não ser exatamente uma poesia da maiêutica (e quem disse que os aforismos não o são?), pois pressupõe a Idéia, já que não é debate estático. E é ao mesmo tempo estanque, porque não evadiu o bom caminho da Idéia. O invisível vivido pelo estudante (mestre).
OM é tudo, é vontade e é Idéia. Vibração contínua. Sempre há um ponto cego para o sábio, mas é ele que indica o bom caminho. Há sempre um mistério residual. Dádiva negativa do presente. Tê-lo em forma viva e depois querer tê-lo no mundo material para auferir vantagens é o mesmo que dele abdicar, cair na tentação sensualista da Morte na proposta ao estudante, do diabo a Jesus no deserto, da glória mundana. Uma confirmação empírica da Idéia desvaneceria a Idéia, descaracterizando seu ar incomunicável, indemonstrável, autorreferente e exclusivista, entrada para poucos e seletos. Ouvem-se as palavras Idéia, vontade e OM, mas, como disse a Morte acima, os habitantes deste mundo que esperam o outro mundo, sem saber que ele é este mesmo, não escutam. Escutam as palavras, mas não as compreendem. E escutar é compreender desde que o homem é homem. Escutar a mais bela melodia e não entender sua beleza? Quem não riria dessa “sabedoria” e deste pragmatismo dos tolos? Num mundo em que existem bem e mal, quem se dá bem, se dá mal. Assim poderíamos traduzir as palavras mais próximas a nosso tempo “muito além do bem e do mal”: o bem vigente não é o bem de Platão. Daí a razão da reviravolta que não é reviravolta (filosofia extrema de combate ao niilismo): contorceram tanto as palavras que já é necessário desfazer mal-entendidos a fim de se afirmar a mesma coisa de dois milênios atrás. O que já foi OM, e o que hoje não é entendido pelos exegetas hindus do OM, voltará a ser o mesmo OM originário, etc. Credo quia absurdum est?
“When, indeed, one knows this syllable,
He obtains his every wish.”
Sorte que nós não somos muito exigentes, e não pedimos desejos absurdos (com o perdão do trocadilho com o final do texto acima). Para nós tudo é possível, mas nem tudo é permitido (por nós mesmos), se pudermos incluir Dostoievsky na conversa, porque somos virtuosos e nossos desejos nada têm a ver com as fábulas dos adoentados morais, os sequiosos do outro mundo, materialistas incuráveis, a imaginar gênios que lhes concedam todo tipo de coisa inesgotável neste mundo; quando este mundo mesmo é esgotável (pelo menos para eles, pela forma como eles esperam saciar sua sede neste mundo, ainda contando com um outro!), que desejo logo não daria sede-de-mais aos pedintes? Esses mendicantes querem ganhar na mega-sena; os poucos que logram continuam sendo mendicantes, não há escapatória.
“And when one knows this support,
he rejoices in Brahman’s world.”
Brahman’s world = Brahman’s word
Outro mundo = Idéia, vontade, OM, presente eterno, vida do sábio
“The wise one—
he is not born, he does not die;
he has not come from anywhere;
He is the unborn and eternal, primeval and everlasting.
And he is not killed, when the body is killed.
(The dialogue between Naciketas and Death appears to end here.)”
Com minha ajuda, vocês certamente perceberam, o único mistério que subjaz é salutar para a compreensão do texto (o ponto cego do sábio). Então, modestia à parte, não haveria nem mais que dizer – hora perfeita para encerrar o trabalho de parto (maiêutica do sábio). O Katha Upanishad não encerra aqui, porém; a narração objetiva, fora de qualquer diálogo, dá continuidade aos ensinamentos.
“If the killer thinks that he kills;
If the killed thinks that he is killed;
Both of them fail to understand.
He neither kills, nor is he killed.”
Caim não matou ninguém, apenas passou por tolo! Abel vive ainda. A natureza se feriu. Mas a natureza é imortal.
“Finer than the finest, larger than the largest,
is the self (Ātman)¹ that lies here hidden
in the heart of a living being.
Without desires and free from sorrow,
a man perceives by the creator’s grace
the grandeur of the self.”
¹ Provável etimologia de nossa palavra “alma”.
“Sitting down, he roams afar.
Lying down, he goes everywhere.¹
The god ceaselessly exulting—
Who, besides me, is able to know?”
¹ Uma das características do homem pós-moderno esvaziado de sentido é viajar (territorialmente falando mesmo) sempre que pode. À procura de algo que nunca encontra. Sempre em movimento – mas ironicamente sempre estagnado no mesmo lugar – tentando fugir inadequadamente de sua sombra. A viagem talvez seja uma característica indispensável do ser humano. Mas é possível atingir a Idéia, ou o presente eterno, nunca saindo de sua província, como é possível errar como o judeu amaldiçoado sem qualquer conseqüência. Ulisses seria um bom exemplo daquele que viaja e sai do lugar ao mesmo tempo. O turista do capitalismo tardio, no entanto, apenas repete tudo que sabe fazer enquanto erradicado na província, necessitando, não obstante, de novas vistas na janela e de uma gorda fatura no cartão de crédito – suas provas empíricas de que ele viveu. Que bebeu a mesma Heineken vendida em sua vizinhança além-mar…
“When he perceives this immense, all-pervading self,
as bodiless within bodies,
as stable within unstable beings—
A wise man ceases to grieve.
*
This self cannot be grasped,
by teachings or by intelligence,
or even by great learning.
Only the man he [the self] chooses can grasp him,
Whose body this self chooses as his own.”
Aqui, estranhamente, cai a exigência de um guru, de um mestre para o estudante do Veda, e a auto-eleição fatídica que comentei acima fica sancionada.
“Not a man who has not quit his evil ways;
Nor a man who is not calm or composed;
Nor even a man who is without a tranquil mind;
Could ever secure it by his mere wit.”
Nenhum religioso com segundas intenções. A “frieza” do sábio não é a frieza do erudito, tão reparada e criticada em nossos tempos. O sábio não é um erudito. Erudito é o filisteu da cultura de massas. Sócrates é o anti-filisteu clássico. A frieza do sábio não é a incapacidade de se comover, mas a impassibilidade com que entende a inevitabilidade do funcionamento do princípio da Teoria das Idéias, da Vontade de Potência, do Om. Queira ele ou não, queira seu ego ou não, estas são Verdades que ele compreende como verdadeiras, e por isso as aceita (com impassibilidade, sinônimo circunstancial de frieza). Doravante, este é o “eleito”, de mente tranqüila, calmo e composto. Não levemos essa exigência longe demais: quem duvida que um Sócrates apaixonado por Alcibíades, que um Nietzsche compondo os livros mais destrutivos da cultura filistéia, não cumprem o requisito desta compostura exigida? Um homem calmo não vive em fúria, mas pode demonstrar fúria – caso contrário não seria um homem que os hindus estariam procurando, mas um embotado qualquer, já incapaz da ira.
A conhecida mente fervilhante do artista tampouco é uma vedação: suscetível às mudanças no mundo e crente nesta vida (e não somente em outra) ele sabe se isolar em seu próprio espaço, concentrado (o outro mundo neste mundo), onde não tem igual (Rafaello Sanzio, Miquelângelo, etc.). Acima de tudo ele pode contemplar sua situação no mundo com a mesma objetividade de um deus, de um filósofo (como dito acima) e de alguém que está desinteressado de lucros mundanos (o que os demasiado espertos são incapazes de compreender – “se eu tivesse seu talento, eu faria acontecer, eu seria muito maior, estaria no topo do mundo” – se um pequeno ou medíocre tivesse o talento do talentoso, ele não “faria acontecer”, porque então ele não seria apenas um esperto sem sabedoria e não pensaria como pensa o sem-talentos).
“For whom the Brahmin and the Kshatriya
are both like a dish of boiled rice;
and death is like the sprinkled sauce;
Who truly knows where he is?”
Quem senão essa super-alma qualificada, este que incorporou Brahman, para ver até mesmo a casta superior indiana como um mero equivalente inanimado da classe dos guerreiros que não estudam os Vedas? A morte é um fenômeno como outro qualquer, um tempero que aumenta o gosto da comida. E quem anseia pelo outro mundo, o que quer com isso? Quer escapar da morte como quem desmaia e acorda bem-tratado pelos outros, anestesiado, fugidodas pesadas implicações. Isso pelo menos quando ele está anormalmente convicto do outro mundo. Na maioria do tempo essas pessoas sentem a própria insignificância e banalidade, e tremem diante da simples palavra morte, como que pressentem que estão erradas e falam da boca para fora.
“They call these two ‘Shadow’ and ‘Light’,
The two who have entered—
the one into the cave of the heart,
the other into the highest region beyond,
both drinking the truth
in the world of rites rightly performed.”
A semelhança com o Mito da Caverna ou princípios como os recitados no mazdeísmo são óbvios.
“the imperishable, the highest Brahman,
the farthest shore
for those who wish to cross the danger.”
Decerto “as margens mais afastadas” não são um batismo ritual indiferente e vazio, “feito por fazer”, “herança dos costumes dos pais”, incompreendido em “seus mistérios”, realizado mais por medo que por qualquer outro sentimento, extremas unções, confissões e idas semanais à igreja, “para não ir para o inferno”. Não, essa odisséia não é para almas covardes que recorrem a atalhos inofensivos gravados nas pedras! Quem pode nos dizer, num país cristão, que já não estava impregnado de todas essas ridicularias desde que se entendeu por indivíduo? Porque, claro, podiam significar nada, mas há sempre um parente ou conhecido para dizer: “Antes de tal coisa, fazer 3 ave-marias e rezar 10 pais-nossos, se não funciona, ao menos não prejudica”. E assim assimilamos costumes que não podemos chamar de imbecis, porque só consideramos imbecil aquilo que podemos compreender, para avaliar; isso é menos que imbecil, é apenas um mistério herdado, automático, parte de nosso “arrumar a cama – escovar os dentes – etc.”. Não se pode jogar essas coisas fora sem substituí-las por algo melhor, dir-se-ia. O algo melhor é a verdade do conhecimento sagrado inconsciente hindu, que finalmente se tornou acessível a nós após séculos de filosofia ocidental. Não que possamos encarnar em qualquer outro a função de guru; o ritual de ascensão do ignoto herdado ao autoesclarecimento é sempre individualmente doloroso. Por isso os materialistas (hedonistas que se dizem espiritualistas!), seguros do outro mundo, são incapazes de efetuar essa transmutação.
“Know the self as a rider in a chariot,
and the body, as simply the chariot.
Know the intellect as the charioteer,
and the mind, as simply the reins.”
Uma imensa sabedoria condensada e destilada em 4 versos. Seria incapaz de enumerar a série de referências que enxergo em nosso saber ocidental ao ler somente as duas primeiras linhas: já a figura da carroça que ascende ao saber está presente na mitologia grega, na própria alusão ao deus-sol e seus servos. Hélio e Faetonte são pai e filho e contudo com o passar das gerações já se confundem num só ente. A carroça voadora deveria descrever a parábola do percurso do sol durante as 12 horas do dia (depois ele submerge e passa por debaixo dos oceanos, voltando ao leste). Mas Faetonte já é associado, a dado momento, à própria carruagem (o eu-controlado da figura poética acima). É ele, esse deus, na forma humana, qualquer que seja o nome, o único apto a conduzir a carroça sem se queimar (ou desviar do percurso correto). Desdobramentos, ainda helênicos, são perceptíveis na estória de Ícaro e seu malfadado vôo, nos escritos de Parmênides sobre o Um, no daimon de Sócrates (o self mais profundo, que conduz a ele próprio, o indivíduo histórico), que o orienta até em sonhos musicais na véspera de beber a cicuta (que ele não tema, aliás, o oposto: que ele celebre e comemore a vida no momento do estar-morrendo).
Essa voz interior passa, mais explícita ou menos explícita, pelos textos de todos os principais pensadores, até aterrissar nas investigações sobre o inconsciente, o novo nome para o daimon, nosso verdadeiro senhor. O que é um espírito-livre senão o escravo de si mesmo, ou melhor, aquele bom discípulo de si mesmo, que sabe dominar seus impulsos (ou assiste, enquanto impulsos cegos, a este domínio que vem aparentemente de fora, mas que é ele mesmo?), malgrado seu, e sabe ouvir os conselhos da sua verdadeira personalidade, desconhecida em seu todo até pela própria vida consciente do indivíduo? É o homem ético e abnegado que vê os filisteus de cima, meras manchas topográficas – esses filisteus que se julgam alpinistas de elite!
E ainda nem falei da metade final! O intelecto é o cocheiro. Que intelecto – depois que a duras penas aprendemos a desconfiar desse intelecto lato sensu desde Aristóteles até Kant? Decerto não é o intelecto cartesiano, o intelecto dos ceticistas dogmáticos, o intelecto dos Iluministas franceses, dos ateístas franceses – cristãos amargurados! –, o intelecto dos cabeças de vento do séc. XIX tão criticados por Nietzsche, a raça dos eruditos alemães! Não é o intelecto dos românticos que sucederam a Hegel, nem do próprio Hegel, o Aristóteles de nossa era. Mas um Goethe, que se equilibrou entre o Romantismo moderno e a serendipidade dos antigos, este está acima do gradiente que criticamos aqui! Dele que é o Fausto, já antigo e do folclore, mas que de sua pena é o mais célebre – mais um Jesus Cristo depenado por seu daimon errado. Mefistófeles é só um agente externo, a sociedade, o gênio da lâmpada dos que querem vencer na vida ganhando na mega-sena, não o demônio interior verdadeiro do sábio. E o ícone intelectual que ainda subsiste para nós na terceira década do séc. XXI – a fraude chamada Sigmund Freud, este compartimentador do inconsciente, que transformou num mapa ou num cubículo as forças incompreensíveis e virtualmente ilimitadas que nos regem – fariseu dos fariseus, pois como judeu esclarecido este homem sabia ser um filisteu, e continuou interpretando seu papel jocoso por maldade e ganho pessoal. O ápice do racionalismo deletério – o Descartes pós-descoberta explícita do daimon, pela primeira vez, desde Sócrates-Platão. E quantos séculos ele não terá retardado o estado das coisas? Não decerto para os poucos privilegiados, que vêem por trás da opacidade de sua pseudanálise, que enxergam por detrás dessas paredes (pontos cegos do indivíduo médio).
E as correntes de pensamento continuaram, na segunda metade do século XX, errando em pontos fundamentais, aprisionando esse self hindu. Marxistas desfiguradores do princípio maiêutico-dialético provisoriamente resgatado no XIX… Não faltava mais nada! A filosofia continental se fecha e vive de comentadores dos clássicos – talvez devêssemos comemorar. Já sabiam os últimos clássicos e já sabem os melhores comentadores que as próximas respostas úteis (úteis para nós, os anti-utilitários) devêm do Oriente, que, contrariando a projeção geológica de que os continentes africano e americano à deriva estariam se aproximando coisa de 10cm por ano, parece estar vindo a nosso encontro a galope… Portanto, para arrematar: o self hindu não é esse tipo de intelecto, só para deixar claro!
A mente simplesmente como os freios (rédeas). No sentido do poema a mente me parece apenas essa faculdade consciente dos eleitos que efetuam a boa jornada. A mente de Dédalo, o pai do imprudente Ícaro, a prudência altruísta, sem ambições solares, mas orgulhosa o suficiente para não recair em abismos.
“The senses, they say, are the horses,
and sense[d?] objects are the paths around them;
He who is linked to the body (Ātman), senses, and mind,
the wise proclaim as the one who enjoys.”
Quem é este que encontrou a eternidade verdadeira no único mundo possível senão “the one who enjoys”? Que momento há para gargalhar se não o presente? É verdade que a carruagem segue um percurso, mas não estamos atrás de nenhum destino particular. Como Ulisses, apesar das aparências, também não estava. Sobre cavalos, poderia até citar David Lynch, para quem, em Twin Peaks, o cavalo branco era o símbolo da morte próxima e também do vício, representado pelo hábito cocainômano da protagonista (uma protagonista que morre antes mesmo da série começar, eis uma quebra de normas!), nas duas primeiras temporadas apresentado de forma mais sugestiva, vaga, anedótica e espaçada. Na terceira temporada, no entanto, ganhamos também um poema sobre eles, os cavalos brancos, que nos brindam com muito mais associações, ou pelo menos com um termômetro para julgar as sugestões das primeiras temporadas: …The horse is the white in the eyes/ and dark within, embora eu tenha omitido a primeira metade desta outra quadra (!), para não me estender com conteúdo não-relacionado aos Vedas (se é que existe um que não o seja). Novamente o contraste entre o preto e o branco, a luz e as trevas, elementos da odisséia, dialética que leva à verdade. Mas, cavalo branco ou não, alado ou não, essa charrete mitológica também tem o seu, ou os seus. Embora pareça pouco funcional, podemos dizer que são 5, os cinco cavalos são os 5 sentidos. Cinco cavalos que puxam servilmente a carruagem (você). Se a vacuidade emocional dos filisteus de nosso tempo é uma imagem de cortar o coração, (!) não nos enganemos: os sentidos, raiz dos sentimentos, não são desprezíveis para o sábio – acontece que aqui eles têm tratamento pejorativo, sem dúvida. Os cavalos ou os pégasos cavalgam ou flutuam por uma estrada ou por um arco imaginário no firmamento. A estrada do Um de Parmênides. A mente precisa subordinar os cavalos: o cavalo que olha é na verdade cego; o cavalo orelhudo é na verdade surdo; o cavalo frenético e suscetível tem na verdade a epiderme dormente; o cavalo narigudo não tem faro; e o cavalo linguarudo nem saberia se ingere capim ou torrões de açúcar. Sem uma coordenação estes cinco não são nada. E para quem sabe coordená-los, veja, eles são tudo! A via de acesso ao nosso outro mundo, que está aqui. Uma via insuficiente por si só, mas indispensável para a alma. Há quem ache que o presente são os próprios sentidos. Rematados tolos. Eles são a paradoxal via para o invisível, o que eles percebem são apenas os objetos e os contornos da estrada para o presente.
Acaba de me chamar a atenção o fato de que, consultando o dicionário, obtive que “obscuro” é um antônimo de presente. E acima se contrapôs a parte do olho que enxerga, a retina, à brancura dos cavalos, prenúncio de armadilha. Pois o que não seria essa fala na boca de um dos agentes do Black Lodge de David Lynch, nesse contexto de cavalgar por uma senda necessariamente perigosa, senão uma grave advertência sobre a mais próxima vizinhança entre o enxergar bem e o viver com um antolho nos olhos? E eu que achei que já havia secado este poço (esta é a hora dos fãs de Twin Peaks mais ligados rirem bastante)!
“When a man lacks understanding,
and his mind is never controlled;
His senses do not obey him,
as bad horses, a charioteer.”
Apenas um lembrete, já que tudo isso já foi bem-comentado e o trecho é simples: o cocheiro (o daimon, o Ātman) é muito mais que a mente. É evidente que esta não é apenas uma enumeração paralela de uma hierarquia dupla, é mais complexo que isso. [De modo simples: cocheiro/o inconsciente (guia maior) > homem/vida consciente/carruagem > mente/corpo/intelecção > cavalos/sentidos (guias menores).] Maus cavalos não impossibilitam o sucesso da viagem (zero cavalos sim); uma mente em frangalhos, um corpo lasso e a estupidez (tudo junto conotando uma carroça em pedaços), sim.
“When a man lacks understanding,
is unmindful and always impure;
He does not reach that final step,
but gets on the round of rebirth.”
Renascer tem quase sempre conotações positivas. Não aqui, seja para o hinduísmo conforme os exegetas hindus seja para mim, que me arrisco a uma interpretação ainda alhures, conectada a um outro mundo no aqui e agora. Nada pode ser pior do que o renascimento contínuo neste contexto. É o mesmo que ensinar a doutrina do eterno retorno para os fracos em Assim Falou Zaratustra. A bênção de uma “vida” eterna não é nada no colo de mortos-vivos. A sua odisséia não é completada, é só uma grande tortura sem-sentido. OM omento presente não tem um último degrau, mas o último degrau é necessário para os sentidos do homem (sua parte menos importante).
RESUMO DO CREDO HINDU SEGUNDO RAFAEL DE ARAÚJO AGUIAR (LEMBRANDO QUE UM LIMITE MÁXIMO – QUE CHAMAMOS DE DEUS – QUE NÃO SAIBA RIR DE SI É INÚTIL, TANTO EXISTINDO COMO APENAS ALMEJANDO EXISTIR, DÁ NO MESMO):
No que os intérpretes (todos os já consultados por mim, pelo menos) do hinduísmo e eu discrepamos é: para eles, sair da roda da existência é a libertação. Eu acredito que os Vedas genuinamente pregam, no lugar, o seguinte:
Om. Quando se diz que sair da roda da existência é a libertação, está-se dizendo isso para os tolos; pois são os tolos que lêem ensinamentos nos livros e sempre os absorvem da pior forma. Desta feita, não proibiremos a leitura aos tolos, mas nos certificaremos que eles sempre retirarão deste manancial de sabedoria a interpretação mais literal e espúria possível: para eles, escapar da roda da existência via santidade é a libertação suprema. Isto não é Brahman, mas seria pecaminoso contra a própria vida ensinar a verdadeira religião para aqueles que não a merecem. O texto está redigido de forma que os merecedores de absorvê-la saberão interpretar nosso único credo a contento. A libertação é oni-presente e inevitável, sempre esteve aqui e agora e sempre estará para o leitor puro e consciente (aquele que aspira à sabedoria na vida). Isto é Brahma. Não há reencarnações, esse é apenas um dogma regulador para os hOMens mais vis. O dOM da vida é único e especial, pois a morte não é o que se entende vulgarmente pela morte: ela não encerra nada. O presente é eterno. A realidade é una. Não há progressos, regressos, ciclos ou aléns. O fato de indivíduos nascerem e morrerem confunde as massas, porque quem se crê indivíduo tenta se colocar no lugar de outro indivíduo, no que sempre falhará até os mínimos detalhes. É preciso entender que a existência não é algo linear sobre o qual o tempo – condição de possibilidade da própria existência, mas apenas uma de suas engrenagens – tenha qualquer poder. O tempo só funciona de acordo cOM o próprio desígnio inerente do que se chama realidade ou existência. Ele, o tempo, serve a e é inseparável da vida mesma. E a individualidade, o nascer e perecer são elementos, fundamentos da existência. Não significa que os indivíduos crus sejam Brahman (a existência mesma). Mas estão equipados para entender Brahman e se tornar Brahman. Pois Brahman pensou em tudo desde o sempre, já que o tempo é apenas uma engrenagem sua e ‘sempre’ é apenas uma palavra vazia fora da percepção dos hOMens, ligada às grandes limitações dos sentidos. Início e fim só existem para os indivíduos que são tolos. Brahman só pode ser usufruído pelo que chamam de presente. A vida dos tolos é um eterno sofrer, e o que é mais irônico: um sofrer baseado em algo que não existe – sua dilaceração, sua aniquilação, sua morte. O pavor do fim. Pois eles não sabem que são eternos, e isso gera a contradição muito lógica de que eles sofrem eternamente devido mesmo a esta ignorância, que em certa medida é obra deles próprios, pois eles também são Brahman, em crisálida. A forma de reestabelecer a harmonia e a ressonância cOM Brahman, o real, é, cOMpreendendo o real, efetivá-lo (sendo real, vivendo o presente, isto é, a eternidade). Esta condição carece de sofrimento penoso; o que (os tolos) chamam de sofrimento, na vida de quem entendeu Brahman é apenas atividade e saúde, a plena realização do Brahman, separado em indivíduos apenas formalmente, para apreciação dos eternamente tolos, tolo Brahman brincalhão (a verdade é que cada um que cOMpreende Brahman é Brahman, e Brahman é indivisível)! Por que nós, Brahman, dar-nos-íamos ao trabalho de escrever de forma tão límpida para nós mesmos, Brahman, o que é Brahman, se Brahman (os tolos, agora, os Brahman não-despertos e necessários ao Brahman) ainda assim não irá entender, da mesma forma que lendo poesia e enigmas? Pois este ensinamento carece da possibilidade de ser entendido pela mera literalidade e baixeza vital. É preciso ler mais do que palavras, porque Brahman é mais do que palavras. O “inferno” de Brahman é que Brahman é tudo, e a tolice é parte indissociável deste único e melhor dos mundos, o sempre-existente. O inferno de Brahman é Brahman, mas Brahman não se importa, o que é, aliás, muito natural e desejável. Brahman é o mais vil e o mais alto, e nunca se pára de cair e nunca se pára de subir segundo o axiOMa inquebrantável de Brahman, o Um ou Ser ou Ente. Brahman é perfeito e não quer se liberar de Brahman. E nem poderia se assim desejasse. Om.
Digo que Brahman em algum momento através de mim achou de bom tom ser mais literal, para satisfazer Sua vontade (e a minha), quebrando as regras num sentido e duma forma infinitesimal que não descaracteriza Brahman, num limiar bastante desprezível do que os tolos chamam de tempo-espaço que eu traduziria em palavras como sendo minha vida, os anos que eu vivo (da perspectiva de uma terceira pessoa)¹ nos lugares que eu vivo em torno de quem eu vivo (meus amigos, coetâneos e leitores).
¹ O que é a terceira pessoa (tanto do ponto de vista metafísico quanto do ponto de vista gramatical de todas as línguas)? É a junção fictícia das duas primeiras pessoas. Eu sou a terceira pessoa de vocês; vocês são a terceira pessoa para mim. E no entanto a primeira pessoa sou eu (vocês, isoladamente) e a segunda pessoa são vocês em conjunto (eu e os outros, para vocês, individualmente).
“When a man’s mind is his reins,
intellect, his charioteer;
He reaches the end of the road,
That highest step of Vishnu.”
Com esse trecho não vou gastar saliva. Irei apenas traduzi-lo para o formato da prosa familiar a nossa cultura, omitindo as palavras desnecessárias para a compreensão total (não faz sentido, na tríade homem-mente-intelecto, pelo menos nessa tradução em inglês, conservar mind e intellect; só man já é mais do que o bastante):
“When a man (…) is (…) his charioteer, he reaches the end of the road, that highest step of Vishnu.”
“Higher than the senses are their objects;
Higher than sense[d?] objects is the mind;
Higher than the mind is the intellect;
Higher than the intellect is the immense self;”
“Mais elevados que os sentidos são as coisas que percebemos por via dos sentidos, o mundo visível; [Que eu citei acima, na hierarquização simplificada, como intelecção – esta parte do mundo visível não fazendo referência ao próprio sujeito, e para sermos sujeitos está implicado que tem de haver o binômio sujeito-objeto, pode ser omitida, inclusive porque a mente, como veremos abaixo, interpreta automatica-mente todas as percepções dos 5 sentidos, integrando-as, e não se pode falar de mundo visível (veja como nos expressamos sempre hiper-valorizando os olhos!)/sentido sem que haja a mente do ator dotando este mundo de sentido (bússola das sensações).]
Mais elevada que o mundo visível é a mente;
Mais elevado que a mente é o intelecto; [Aqui sinto que nosso pensar ocidental entra em colisão com o vocabulário hindu – ou será problema da tradução para o inglês? –, pois mente e intelecto estão indissociados de acordo com nossa maneira de representar a ambos. A terceira linha, como a segunda linha, devem ser omitidas numa tradução explicativa superior.]
Mais elevado que o intelecto é o imenso self.”
Para melhorar, destarte:
“Mais elevada que os sentidos é a consciência;
Mais elevado que a consciência é o inconsciente.”
(mundo animal < mundo humano < mundo divino [somos divinos!]) (*) O mais irônico, se seguíssemos o ‘roteiro’ do Veda seria que posicionaríamos o mundo mineral acima do animal, i.e., o mundo visível, os objetos, as coisas, a estrada que os cavalos percorrem como sendo mais importantes até que nosso tato, audição, visão, olfato e paladar, o que é absurdo, pois não vivemos em subserviência aos objetos, e sim o contrário: somos nós que os criamos graças a nossa condição de seres vivos, por assim dizer.
A palavra que mais pode gerar confusão na tradução aperfeiçoada acima é a última. O inconsciente é o sábio que mora em nós sem que possamos ou devamos cobrar aluguel. Na verdade é ele que nos sustenta, em grau ainda mais surpreendente que a consciência sustenta os meros instintos. Porém, o INCONSCIENTE sofreu muitas malversações nos últimos tempos. Não temos palavra melhor para caracterizar “o verdadeiro senhor da consciência”, mas infelizmente a psicanálise poluiu imensamente essa palavra, para não falar das (más) psiquiatrias, psicologias e filosofias (jamais leiam Von Hartmann, um homem que interpretou Schopenhauer da pior maneira possível e teve grande influência sobre os ‘apreciadores da filosofia’). É preciso decantar e esterilizar a palavra para reutilizá-la, não temos escolha, e na verdade não devíamos nos subjugar a algumas poucas gerações de tolos, ou teríamos de reinventar nomes para quase todas as coisas. Mesmo assim, para iniciar esse processo e a revalorização do termo inconsciente, bem-descrito no Veda como imenso, muito mais abrangente que a consciência (como o oceano perante uma piscina), vindo a ser em última instância tão importante que pode ser igualado a Brahman, já que qualquer entidade separada de nós e portanto de nossa instância mais elevada seria apenas criar quimeras e fábulas que só multiplicariam as complicações, quando sabemos que o que o hinduísmo diz é que somos Brahman, ao contrário do cristianismo, que estabelece um Deus infinitamente inacessível ao homem, tão inacessível que se tornou a religião favorita do niilista ocidental,¹ quer dizer, maioria da população, que é niilista sem o saber… Em suma, quero dizer que de uma forma ou de outra, se quisermos respeitar o credo hindu, devemos equiparar a noção “despoluída” de inconsciente ao Todo desta querida religião. Seja falando simplesmente inconsciente, seja empregando, se se quiser, o termo inconsciente coletivo de Jung.
¹ Podemos até dizer que quanto mais crente se é, mais ateu! Só uma religião tão mesquinha seria capaz de provocar a morte teórica de deus, gerando tamanho estrago civilizacional que os filósofos tiveram de interferir nos negócios dos padrecos!
Por outro lado, se ainda assim o leitor fizer questões de sinônimos, como mais acima, para me referir a ‘inconsciente’, recorreria a:
BRAHMAN = OM = INCONSCIENTE (COLETIVO) (Filosofia, Psicologia, Jung) = UM (Parmênides) = DAIMON (Sócrates) = Idéia (Platão)¹ = MUNDO (vulgar) = OUTRO MUNDO (Filosofia Ocidental)² = VONTADE DE POTÊNCIA ou VONTADE NÃO-UNA ou VONTADE NÃO-LIVRE (Nietzsche)³ = VIDA DO SÁBIO (hinduísmo e outros sistemas) = ETERNIDADE ou PRESENTE ETERNO4
¹ Como Sócrates não escreveu, estamos autorizados a referir o daimon socrático ao próprio gênio de Platão: tão “egoísta” que criou dois nomes para Brahman ou aquilo que há de mais sagrado!
² Emprego aqui o Outro Mundo no sentido “recuperado” que já demonstrei, em relação ao Além da maioria das religiões: o Outro Mundo é o mundo das Idéias de Platão, localizado na alma do sábio, e portanto neste mundo mesmo, no presente, aqui e agora. Esse é o tesouro máximo do hinduísmo: uma religião de massa que não nega o amor à vida e não incita à hipocrisia e à mentira, prometendo recompensas num futuro indefinido. O que é do sábio sempre foi, é e será do sábio. A eternidade já foi alcançada. Desde pelo menos Schopenhauer ou Kierkegaard (admito que Kant é um caso talvez especial; já Hegel acreditava apenas num canhestro progresso da História, sem entender que o presente já havia trazido todas as evoluções que ele só podia atribuir ao futuro da Europa), após o longo e sombrio hiato entre Platão e o mundo moderno (quase ainda ontem!), chegando ao trabalho de autores definitivamente afirmadores de um e somente um mundo, este aqui, como Husserl, Heidegger, os existencialistas, praticamente todos os filósofos dignos do século passado e deste, o Outro Mundo dos fanáticos religiosos e dos Escolásticos – considerados filósofos apenas nominalmente, meros escribas de patrões temporais (a Igreja) – foi abandonado em prol de uma nomenclatura despida de conotações deletérias, fraudulentas e niilistas: o Outro Mundo de que falo, sinônimo da nova Zeitgeist de retorno ao Oriente, é o Outro Mundo que eu interpreto estar exposto nos Vedas: o mundo do sábio que chegou à realização de que a eternidade é o presente. O reencantamento do mundo; por isso também incluo a palavra mundo, porque é no mundo que vivemos, e em nenhum outro, em que tudo é possível. Este mundo é o Um.
³ O termo “vontade de potência” gera confusão. Primeiro porque faz parte do espólio de Nietzsche, que provavelmente teria mudado a expressão antes de publicá-la ou pelo menos não a elegeria como título de sua próxima obra. Segundo, por culpa do estudante filisteu de filosofia, que tende a associar “potência” (que já é uma adaptação à tradução portuguesa de “poder” na tentativa de evitar ambigüidades e enganos!) com o conceito de poder/monopólio da violência do Estado na Política, e em decorrência a doutrinas absolutamente anti-nietzscheanas como “sobrevivência do mais forte aplicada à Ciência Política”, nazifascismo, psicologias de auto-ajuda (como se se tratasse aqui de uma ‘força de vontade’ individual tendente ao infinito, calcada na imaginação desconexa da materialidade do mundo!), etc. A terceira problemática, e que quis evidenciar empregando sinônimos como VONTADE NÃO-UNA e VONTADE NÃO-LIVRE, é a falsa equiparação que se faz entre a Vontade schopenhauriana e a Vontade propriamente nietzscheana. Como Nietzsche é influenciado por Schopenhauer, muitos filósofos até razoavelmente competentes podem cair na cilada de não enxergarem onde está uma linha de ruptura definitiva do primeiro pensador com este último. E é importante tocar no assunto, já que Schopenhauer teria cunhado o termo Vontade justamente influenciado, por sua vez, por suas leituras orientalistas vinculadas ao hinduísmo! Há aqui, pelo que se vê, uma espécie de mal-entendidos em cascata. Desfaçamos esse nó górdio de vez! Se eu estiver certo e Schopenhauer errado (e uma coisa é decorrente da outra, pois temos pontos de vista divergentes), o que Schopenhauer entendeu dos Vedas e particularmente do budismo que se desenvolveu a partir da Índia, é exatamente a leitura leiga, ou a leitura tola e literal, da ascensão rumo à Verdade bramânica. Isso porque para Schopenhauer a doutrina budista é um quietivo da vontade. Sua Vontade, em letra maiúscula, é a entidade metafísica que rege secretamente todos os fenômenos do mundo visível e observável (que ele chamará de Representação). O mundo da representação de Schopenhauer se assemelha muito ao Samsara, o inferno hindu, em que não há um propósito para a existência. Aí entra a volição individual do homem: ao se aperceber da futilidade deste mundo (e percebendo, no caso de Schopenhauer – este um grande mérito seu) que não existe um outro mundo, tudo que resta ao indivíduo informado, ou ao sábio, é negar a vontade, com letra minúscula, o outro mundo que existe neste mundo. Ora, mero produto de um mundo sobre o qual ele não tem o menor controle, o asceta budista ao menos se empenha em emascular sua vontade, ou seja, a parcela dessa grande e única Vontade que configura seus instintos e portanto seu impulso vital, tratando, em primeiro lugar, de se guardar de gerar prole (instinto da reprodução e perpetuação da vida); em segundo lugar – e não cabe aqui citar o suicídio, pois Schopenhauer sabe que não há fuga da existência, ele fala de uma mortificação da vontade individual a despeito de que no mundo aparente nada mude – de refugiar-se na ascese espiritual, descartando o quanto puder traços de egoísmo, evitando agir sobre este mundo que não tende a nada e é só uma sucessão indefinida de acontecimentos vãos e sem valor. Uma forma de conseguir reduzir sua vontade virtualmente a zero (além de escrever um tratado filosófico sobre isso), para Schopenhauer, é que o sábio se dedique a refugiar-se na arte; principalmente na Música. Schopenhauer vê na música o elemento fenomênico (sensível) mais próximo da inacessível Vontade cega regedora do universo. Através dela o ser humano pode perpassar pelo circuito de todas as emoções, e ao mesmo tempo não viver, isto é, limitar-se a sentir paixões sem qualquer conseqüência prática ou interferência no mundo exterior. Para Schopenhauer todo grande artista é um negador da vida, um budista mascarado. Discordo frontalmente desse ponto de vista. Como eu acredito no Veda como uma alegoria que quer significar exatamente o oposto – a valorização do presente e da vida –, é necessário pontuar: minha principal influência filosófica é Nietzsche, e sua vontade opera em contraposição máxima ao “niilismo passivo” schopenhaueriano. Nietzsche quer restaurar as condições do grande homem, da grande cultura, da grande civilização, algo que o Ocidente não é mais capaz de proporcionar. Daí se explica que a filosofia oriental tenha, por tabela, exercido impacto proeminente no pensar de Nietzsche. Sua vontade é não-una porque diferentemente da Vontade indivisível, “em bloco”, de Schopenhauer, Nietzsche enxerga esse elemento metafísico como sendo manifestações completamente aleatórias e independentes entre si, de modo que o que realmente há não é uma tirania da Vontade sobre este mundo material, mas a presença de vontades dispersas, cada uma unilateral, procurando exercer seu “ponto de vista” sobre as demais, e conseguintemente sobre o mundo material. Esta vontade que “não é livre” (são palavras do próprio Nietzsche), ou todas essas porções infinitesimais de vontade, só sabe uma coisa: ser aquilo que ela é; forçar seu caminho, chegar a seus últimos limites; e os últimos limites são as outras vontades. Essas vontades não são entes abstratos absolutos, quer seja, não existem desde sempre e para sempre, consideradas individualmente. Conforme o jogo de forças, que seria apenas o espelho do jogo de forças do mundo material (daí ser possível a Nietzsche descrever uma vontade que pode ser apenas nomeada por hipótese, lembrando que os sentidos, guiados pela intelecção, no homem sábio, são a via para a Verdade, exatamente como nos Vedas, e exatamente como em todo e qualquer grande filósofo; esta é uma lei), vontades antes autônomas podem se ver reagrupadas (talvez uma vontade mais poderosa englobou ou absorveu outra, vencida), como um “tecido de vontade” pode se desmembrar em múltiplas vontades com novos vetores e potencialidades… Esse jogo não termina, pois jamais houve nem haverá um vencedor. É uma “guerra democrática”, já que uma só vontade jamais se tornará soberana (a Vontade no sistema schopenhaueriano é tirânica, soberana, pois não há oposição dela consigo mesma). Não só a vida é regida pela vontade, mas ela é evidentemente seu campo de atuação primordial. Cada instinto nosso pode ser interpretado como a manifestação aparente de uma vontade. Isso explicaria, o que Schopenhauer deixou em aberto, por que num mesmo indivíduo tantas volições contraditórias precisam combater entre si para se manifestar, num jogo de sucessões intermináveis. Podemos ter uma personalidade definida e coerente, mas basta lembrar que essa é só nossa vida consciente. Por debaixo do pano “n” vontades lutam para fazerem-se valer, partindo do inconsciente até serem traduzidas no reino visível ou “mundo das aparências”. Acontece que a contraposição ao mundo das aparências, onde atuam as vontades, não é outro reino senão o ideal, o fictício, forjado principalmente pelas grandes religiões do passado do homem. O Cristianismo, o próprio Budismo são inimigos do homem que encontrou a Verdade na revelação do mundo como vontades em eterno conflito. Nietzsche reconhece que esta é a vida e ela não deveria ser diferente do que é no presente; necessariamente o que torna o homem burguês decadente haverá de ser vencido um dia, por novos valores, novas vontades, novas potências. Embora tudo nasça, se desenvolva, atinja um auge, decline e finalmente morra, o fato de as vontades se entrechocarem o tempo todo, de a realidade da Vontade de Potência ser “estar sempre em contradição consigo mesma”, ambos os fatos são o fundamento da existência, e isto é o que há de constante neste grande pensamento. Exatamente como nos Vedas. Por esse lado, Nietzsche parece ser o inimigo de um credo que buscaria a ascese suprema, a libertação, a evasão do ciclo de reencarnações, a fusão com Brahman. Mas tudo depende de se Nietzsche – que não foi explícito nesse tocante – entendeu os Vedas dessa forma ou se “empatou” com minha conclusão: os Vedas foram, até hoje, mal-interpretados. Eles são um hino à vida, coincidentes com a filosofia nietzscheana. E o que é mais espantoso é que Nietzsche, que tanto se bateu com Platão, pode (pode! não sabemos bem o que ele deixou de declarar deliberadamente – coisa de filósofos!) não ter percebido que a dialética-maiêutica de Platão, sua teoria das reminiscências e das Idéias, tudo aquilo que o alemão parece ter associado, a princípio, à negação da vida em prol de “meras conjeturas servíveis apenas num Além-mundo”, é no fundo uma filosofia gêmea a sua! São duas aproximações que redundam nas mesmas conclusões. O primeiro e maior filósofo do Ocidente encontra em Nietzsche seu acabamento, e o acabamento da filosocia ocidental como um todo, como são muitos os que o afirmam. Ou podemos considerar Nietzsche um iniciador, e Platão o responsável pelo acabamento? Não faz diferença, quando a filosofia (a busca pela sabedoria) é atemporal e não tem fim ou começo. As filosofias mais sábias e honestas tenderão a chegar às mesmas conclusões, por mais que seus métodos e termos-chaves pareçam tão distintos e antípodas – esse pseudo-antagonismo não resiste a uma análise mais detida, não são filosofias ou fés, mas a Fé, a Filosofia Verdadeira. E não é um império dual, mas um triunvirato, se eu estiver certo: o hinduísmo corrobora, antes mesmo da História do Ocidente devir, estes dois maiores filósofos, o alfa e o ômega da historiografia da disciplina; nossos legítimos contemporâneos. Nietzsche declarou que Heráclito podia ter enunciado seu eterno retorno. Talvez seja o ponto cego inerente a cada filósofo que ele não tenha visto algo tão evidente para nós: Parmênides e Platão são os legítimos filósofos do eterno retorno da Antiguidade. A teoria das reminiscências é muito afim ao karma hindu e à proposta ética de Nietzsche para passarmos esta semelhança por alto. De onde quer que se parta, o Um parmenídeo, a Idéia platônica, o daimon socrático, a vontade de potência ou o privilégio da fusão do sábio com o verdadeiro invisível dos livros sagrados da Índia, a rota percorrida parece exatamente a mesma.
Para uma explicação mais detalhada das vontades em N. e S., recomendo meu post dedicado à filosofia de Schopenhauer (HISTÓRIA DAS IDÉIAS 3) ou ainda meu livro VONTADE DE INTERPRETAÇÕES (à venda emhttps://clubedeautores.com.br/livro/vontade-de-interpretacoes-2). E sim, o título do meu livro foi escolhido sarcasticamente, muito em virtude das distorções voluntárias ou não de exegetas quanto ao termo vontade de potência!
4 1) Eternidade é a palavra mais fácil a que atribuir autor: pode ser determinada como de uso vulgar desde os tempos mais imemoriais;
2) Esta nota de rodapé existe em razão do segundo termo, seu equivalente, se bem que, ao mesmo tempo, enfatizador da obviedade de que em havendo eternidade só pode haver uma eternidade presente. Isso porque não nos interessa aqui considerar a divisão tripartite do tempo entre passado, atualidade e futuro, o que seria jogar pela janela toda essa interpretação, julgo eu, em alto nível dos Vedanta, e aliás regressar às noções cavernícolas de tempo para Isaac Newton, sendo que Immanuel Kant destroçou pouco depois qualquer possibilidade desse “tempo em linha reta de jardim de infância” ter qualquer validade acadêmica séria. Como não sou Arnold Schwarzenegger me recuso a retornar ao jardim de infância, ainda que seja para dar aulas que gerem mais polêmica que o tira no filme! Afinal de contas, se quiséssemos falar de pseudo-eternidades (conceitos vulgares a-filosóficos) poderíamos partir para análises historiográficas de como não fazemos rigorosamente idéia de quantos anos há para trás ou para frente no universo, debate aliás absurdo e completamente improdutivo que é uma obsessão quase sexual e do subgênero sado-masoquista (uma parafilia) desses “especialistas sem espírito” (Weber) chamados físicos modernos, que falam com pompa e autoridade sobre asneiras como “big bang ou singularidade” (o ‘Adão e Eva’ dos filisteus™), “universo antes do universo existir, (!) previamente ao início do tempo, (!!) sob a forma de um ponto de densidade infinita (!!!)” ou ainda como “uma suposta idade atual do universo na casa dos 13 ponto sei lá quantos bilhões de anos”… Tampouco me interessa, aliás, tampouco interessa a qualquer habitante do planeta Terra, para sermos francos, quantos bilhões de anos o sol demorará para “queimar”, “explodir” ou “simplesmente se apagar”, primeiro porque no ritmo do capitalismo a Terra queimará “sem ajuda” antes, muito, muito antes; segundo porque não está provado– já que os cientistas amam de paixão esta palavra –, mesmo assumindo a absurdidade da hipótese de um universo com início-meio-fim proposta por físicos que quebra as próprias leis da física,(*) que não poderia haver uma – na falta de termo melhor, e de empréstimo da astronomia – precessão das condições de ‘sobrevivência’ do sistema solar, para começo de conversa, quando eventos teoricamente prováveis em escala de bilhões de anos segundo nossos melhores matemáticos, estatísticos, físicos e químicos não poderiam ser descartados por inumeráveis fatos intervenientes no decorrer de todo esse tempo (5 bilhões de anos de vida restantes para nosso Astro-Rei!) no próprio reino da ciência estritamente acadêmica, ainda mais levando em conta que não há disciplina que não sofra grandes revoluções de paradigmas em um módico intervalo de décadas! Para se ter idéia, se preservássemos todas as condições de realização do Campeonato Brasileiro de Futebol numa estufa, dando vida eterna aos jogadores, dentro de bilhões de anos até o Coritiba, atual equipe de várzea, viria a ser campeã dos pontos corridos um sem-número de vezes com até 100% de aproveitamento em alguma das ocasiões!!! Bilhões de anos é uma quantidade de tempo imensurável. Tudo e qualquer coisa acontece num “período” tão vasto (é tão vasto que ouso dizer que nenhuma mente humana foi formatada para conceber quão verdadeiramente vasta é a quantidade de 1 milhão de anos, de modo que se multiplicarmos isso por mil podemos ter certeza de que todos os lobos do planeta terão sido extintos pelo mero apetite de uma única criança chamada Chapeuzinho Vermelho).
Para chegarmos direto ao ponto (que não é um ponto de densidade infinita que estourará, devido a uma maldosa singularidade, justo na sua cara, fique tranqüilo!), avancemos. Obviamente não fui eu quem cunhou a expressão PRESENTE ETERNO, mas no momento eu não saberia dizer quem foi o primeiro a utilizá-la, e no sentido aqui proposto. Tenho razoável confiança de que Nietzsche chegou a utilizar este binômio; de qualquer forma, não sendo o caso, foi ele quem influenciou autores do séc. XX a forjá-lo neste sentido que tenho em mente, se for mesmo verdade que já não o tomaram de empréstimo. Mas suspeito que antes de Nietzsche esta expressão, para um sentido parecido em Metafísica, já estava em voga. Ainda preciso pesquisar a respeito.
(*) DESABAFO EM CAPS LOCK
ME DIGAM EM QUE HOSPÍCIO JÁ SE VIU TAMANHA LOUCURA! MAS FALAR NISSO EM TEMPOS DE IVERMECTINA PARA TRATAMENTO DA COVID, EU SEI, CHEGA A SER UMA BLASFÊMIA, PORQUE DESCREDIBILIZA A CIÊNCIA ESTABELECIDA, EMBORA “ISSO” QUE OS FÍSICOS CHAMAM DE “TEORIA DO BIG BANG” PASSE LONGE DE SER MÉTODO E DE SER CIÊNCIA, MOLE OU DURA! ACONTECE QUE UM DIA, A LONGO, PRAZO, ISSO DEVERÁ SER ENDEREÇADO E DISCUTIDO, ENTÃO EU ARREMESSO A PRIMEIRA PEDRA SEM PUDOR E SEM MEDO – CIENTE DO MEU LEGADO – DE SER CHAMADO POR ALGUM CABEÇA-DE-BOI DE negacionista, MINHA CONTRA-DEFINIÇÃO POR EXCELÊNCIA! PORQUE, INFELIZMENTE, QUEM TEM VOZ NESSE DEBATE ATUALMENTE E QUE ATAQUE A TEORIA DEMENTE DO BIG BANG É OU CRIACIONISTA (COMO SE INVENTAR COISAS TÃO ESTAPAFÚRDIAS COMO UM PONTO DE DENSIDADE INFINITA PARA EXPLICAR A ORIGEM DA EXISTÊNCIA NÃO FOSSE DEIXAR OS COMUNS DOS MORTAIS DE CABELO EM PÉ, LOUCOS PARA ENTRAREM NUMA IGREJA E PEDIREM SOCORRO A UM PASTOR!) OU TERRAPLANISTA, OU SEJA, ESCÓRIA DA ESCÓRIA, AINDA MAIS DEMENTES QUE OS “FÍSICOS CONTEMPORÂNEOS”…
* * *
Mas ainda não acabou a hierarquia do texto sagrado! A ele devemos regressar:
“Higher than the immense self is the unmanifest;
Higher than the unmanifest is the person;
Higher than the person there’s nothing at all.
That is the goal, that’s the highest state.”
Acontece que eu equalizei o immense self ou inconsciente a todo o imanifestável, como foi visto exaustivamente acima! O Nada. Quase consigo acreditar que esses trechos dos Vedas sofreram interpolação de fanáticos de época posterior. Olhando dessa maneira, parece que os vaticínios de Schopenhauer fariam todo o sentido! Mas não percamos de vista que o Veda é um poema e não deve ser mal-interpretado. Tendemos a ler o “nada” deste escrito tão antigo como o nada da filosofia contemporânea, o que é um erro. Claro que não posso justificar em mil anos a segunda linha. Persons, se estivermos falando de individualidades, consciências, já ficaram muito abaixo na hierarquia. Por isso a diferença no matiz dos verdes: quanto mais escuro, mais censurável. Se acima do inconsciente ou, que seja!, daquilo-que-não-pode-ser-manifestado, só há o nada, ou não há nada, não significa que o último passo já foi dado? E não foi isso que foi dito no verso sobre Vishnu mais acima? A meta é chegar à realização do presente como a felicidade máxima: mais que isso é impossível, é absurdo. A pergunta pode até ser colocada: Existe outro degrau? Mas a resposta invariável é: Não.
“Hidden in all the beings,
this self is not visibly displayed.
Yet, people of keen vision see him,
with eminent and sharp minds.”
Pode até mesmo ser que o “nada” se refira apenas aos tolos. Sabemos que o invisível que o sábio vê no topo de todas as coisas do mundo, do único mundo, é Brahman, são as vibrações do Om. É o self no sentido hinduísta. E por que voltariam a citar “this self” quando, supostamente, a hierarquia ainda “subiu mais”, citando “unmanifest” depois, e “persons” (sic)? Porque os quatro versos de “Higher than the immense self…” a “…that’s the highest state.” são de importância relativa quase nula se compararmos a tudo o que precede e sucede!
“A razor’s sharp edge is hard to cross—
that, poets say, is the difficulty of the path.”
E no entanto não basta ensinar, como eu já disse. A jornada não pode ser ensinada. Quantos tolos não existem para cada Platão? Quantos puderam entender Platão? Quantos especialistas em Platão (oxímoro) me dirão que estou correto sobre Platão? A eternidade não é uma descoberta no estilo Eureka!. Posso enunciá-la quantas vezes quiser. Alguém a terá mesmo obtido, na forma como descrevi? Eu mesmo, vivo no presente sem me autoenganar, em minha potencialidade máxima, isto é, na potencialidade máxima que cabe ao homem? Sobre isso, Bíblias demais já foram escritas para que incorramos nas mesmas e repisadas fraudes… Fechando o parágrafo com uma piadinha: desde Gutenberg, nenhuma bíblia foi escrita. Os copistas perderam o emprego!
“It has no sound or touch,
no appearance, taste, or smell;
It is without beginning or end,
undecaying and eternal;
When a man perceives it,
fixed and beyond the immense,
He is freed from the jaws of death.
*
The wise man who hears or tells
the tale of Naciketas,
an ancient tale told by Death,
will rejoice in Brahman’s world.”
Quem senão a Morte (o Nada, pois nada está acima de Brahman) poderia contar o antigo conto (tale também pode ser traduzido como história ou conversa – o que é muito revelador sobre Platão e o método dialógico)?
“If a man, pure and devout, proclaims this great secret
in a gathering of Brahmins,
or during a meal for the dead,
it will lead him to eternal life!”
E assim termina o monumental capítulo do Upanishad chamado Katha, ou pelo menos a parte que mais nos interessa.
De forma puramente SUBJETIVA – quanto mais somos conscientes de nós próprios (o crítico apreende a obra como algo estranho, sujeito x objeto, esqueceu que a criação do artista, sua objetividade, está em ser o objeto enquanto o objeto é consciência, na fusão dos pólos). Propriamente falando, o artista não julga o que é ou não é o belo, pois se torna provisoriamente o próprio belo. Como pode a beleza argumentar intelectualmente sobre a beleza? Ela apenas é. Narciso não se reconhece ao espelho, está menos consciente de si, pode julgar seu reflexo (o outro) como belo. Narciso é o crítico – quem está desinteressado de si está interessado no outro (a obra). Nele, sujeito e objeto estão divorciados, Narciso não é a imagem de Narciso. O artista é todo consciência-de-si, ele e a obra são cegos à outridade, entendem apenas os reflexos (o espelho que reflete a si próprios), estão fechados em si numa subjetividade infinita – mas como não há outro, apenas mesmidade, identidade, trata-se da OBJETIVIDADE PERFEITA E AUTO-SUFICIENTE DO QUE É IGUAL A SI MESMO. Narciso, o crítico, se afoga porque carece, busca o complemento, a beleza (Narciso não é a beleza, ele é inconsciente de si, seu corpo não está em consideração a não ser como outro, infinitamente separado por um abismo). O reflexo (a obra) não quer nada. Sujeito e objeto aqui são um, o mundo. O exterior e o interior simultâneo. O Ser. Não há logos, só recursividade tautológica. Vênus é. O amor é cego e no entanto não deseja enxergar (interagir com o exterior). O amor é o processo de criação. O amor está na boca do mundo, é discursado pelos loucos da subjetividade irrestrita. Só neste sentido, o amor é a Poesia (subjetividade) e a crítica é a Verdade (objetiva). Homero descreve o mundo; a verdade desmistifica-o. A verdade é a verdade dos homens, discurso, sempre carente da serena objetividade muda e inacessível da beleza.
Goethe compreendeu esta antítese, e por isso sua autobiografia se chama Poesia & Verdade. Poesia é a sua obra, verdade o indivíduo biografado. Por ser uma obra, versando sobre a obra e a crítica, é Poesia, como foram antes seus poemas que não falavam de poemas, mas uma poesia sem objeto, inacabada. Por ser uma crítica, prosando sobre a crítica e a obra, é Verdade, verdade clínica e impessoal de sua vida. Beleza deficitária, crítica consumada. Tentativa de uma síntese impossível a não ser dentro da obra de arte que é o artista enquanto indivíduo. O jeito do belo ver, elogiar, participar – a possibilidade da crítica ser bela e definitiva.