Originalmente publicado em 25 de abril de 2012
Há uma discussão tão longa e acalorada—principalmente entre os brasilienses, supostos habitantes de uma “cidade do rock”—que me propus a escrever sobre isso, para que não me repita em conversas por aí, além de poder ordenar melhor minhas idéias. Primeiramente, um pouco sobre mim: amo a música, mas não sou músico. Quando criança aprendi a tocar teclado como que obrigado pelos pais, portanto sem amor ou espontaneidade. Minha paixão por escutar bandas adveio somente na adolescência. Hoje tenho 24 anos, portanto obviamente haverá muitos leitores com mais experiência do que eu, podendo eu me desculpar desde já pela eventual leviandade de minhas palavras! Em segundo lugar, diria que durante 90% do tempo dedicado a ser ”expectador desta maravilhosa arte” estou ouvindo “metal e derivados” e disso são os shows que prefiro freqüentar. Considero que somente nesses meios tenho o que se pode chamar de amigos. Mas não me rotularia de metaleiro (ainda que meu vestuário cotidiano se componha quase totalmente de camisetas de bandas do gênero!), por não ser fechado a outros estilos nem me considerar pertencente a uma ideologia ou grupo exclusivamente de metalheads ou headbangers. A despeito das muitas pessoas brilhantes e visionárias que conheço e que se enquadram no rótulo, estas são as exceções. Devo retratar o metaleiro-padrão, o famoso “estereótipo”, como um ser desagradável e superficial, tanto quanto o pagodeiro-padrão, o indie médio ou o sertanejo-clichê. Creio que não preciso me alongar mais neste ponto.
Sem mais delongas à polêmica: incentivar ou não shows cover em Brasília? Dizem que “a cena morreu”, que “não se fazem mais bandas como antigamente”, “o pessoal não leva compromissos a sério”, “ninguém respeita os músicos”, “o preconceito ainda é grande contra nós roqueiros”, “não há casas de espetáculo disponíveis”, “não sabem produzir”, “a audiência não é fiel”, etc., etc. Não gostaria de repisar esses discursos, que ora refletem a realidade ipsis literis, ora não passam de falácia! Podemos contar nos dedos os eventos, a cada fim de semana ou mês, que contemplem a galera do heavy metal (procurando englobar gêneros adjacentes como punk, hard rock, hardcore, thrash, death, black, grindcore, grunge, stoner, crust na medida do possível) em todo o DF. Dentre estes, há(veria?) uma subdivisão do público: aqueles que preferem as bandas que tocam o som de outras bandas mais renomadas; e os que têm em mais alta conta os “artistas autorais”, isto é, que mandam ver com seu próprio som em cima do palco.
A meu ver, não existe música sem boa dose de ambas as vertentes, ainda que seja seu direito ter uma “favorita”. Estudar o passado é obrigatório para quem quer, por sua vez, fazer escola. E se ater exclusivamente ao passado é martelar pregos no caixão. Dos menores aos maiores nomes da música contemporânea, não vejo banda que não tenha dedicado tempo a regravar aqueles que os inspiraram, e que não tenha perdido noites pensando, rabiscando, compondo, ensaiando, enfim, criando material inédito…
À parte a dupla categorização, dizem que shows com apenas músicas próprias são economicamente inviáveis para bandas em seus começos, se não forem excepcionalmente qualificadas, porque não haveria demanda por procurá-las ou o menor interesse empresarial por revelá-las. Pode ser que sim. É até mais difícil cativar o público que não conhece as melodias (ou a falta delas, dependendo do estilo), as letras, às vezes nem o nome de quem está se apresentando! O que não entendo é por que isso se transforma, para alguns, em ódio manifesto aos concertos-tributos, de covers dos clássicos. Como se as bandas cover fossem as responsáveis pela propalada “decadência” do cenário das bandas independentes! Como se tais shows não ajudassem imensamente a divulgar aquele som e aquela cultura e a fomentar a criatividade em mentes férteis! Se os eventos cover são mais numerosos (e eu não sei se isso é mesmo verdade), mais bem-divulgados, vamos agradecer pela oportunidade de louvar os “deuses”—mortos ou vivos—do rock ‘n’ roll e do metal, ao invés de emburrar e nos lamentar por tal predomínio e pela escassez das “bandas de verdade” (como se um cover não fosse também uma performance autêntica, que exige energia e muito treino), como já me disseram.
Dever-se-ia militar por mais shows, de ambas as variedades (autorais e covers), por eventos que mesclassem ambas as tendências, não pela ABOLIÇÃO ou pelo BOICOTE de eventos cover. Sinto esse dissídio, essa eterna tensão entre dois extremos inconciliáveis, por onde passo. Posso estar pintando com cores exageradas e extravagantes, estilizando os pontos de vista um bocadinho. Talvez seja, ao cabo, uma percepção enganosa de minha parte, mas nas ruas, nos encontros e nas redes sociais é esse o teor da coisa. Sobre a credibilidade da testemunha, não posso opinar, porque qualquer auto-análise seria distorcida. Só gostaria de lembrar que a dita “cena” é construída por TODOS, ainda que não haja uníssono ou consenso entre as partes… E que todos que amam o estilo querem que ele cresça.
