[ARQUIVO] 2013: VELHOTES AUDAZES, LETRADOS & SARADOS!

Originalmente publicado em 20 de agosto de 2013

Trinta e cinco anos depois do (agora pen)último álbum de estúdio com Ozzy Osbourne, cerca de 45 anos após as primeiras reuniões da banda… a lenda negra revive. Sábado Negro, o quarteto que continua sendo o ápice e a referência máxima dentro do tema “música pesada”, dá uma volta completa no círculo: sua contemporaneidade são as próprias origens, com exceção do carcomido baterista. Muitos boatos há a respeito do seu não-retorno ao lado dos outros Três Cavaleiros do Apocalipse, mas pouco de confiável podemos entrever mediante tanta névoa—nem as entrevistas dos músicos deixam os entreveros claros. Mas, como a noite, essa banda nunca nasceu para ser clara!

O que esperar de [[[13]]], o álbum que nem precisaria ter saído numa sexta-feira para deixar todos de cabelos em pé? Mais do que uma revolução ou injeção de novo fôlego, é um pastiche que mostra que ninguém ali caducou de verdade, e todos sabem reprisar a velha fórmula das canções clássicas do Sabbath, aproveitando-se dos novos e tecnológicos instrumentos para maximizar o impacto.

“O Final do Começo” abre estrategicamente o CD. O clima é de faroeste. Versos-clichê, na boca de Ozzy, tornam-se uma verdade universal testada e consagrada pelo tempo. O ar “anti-científico” e pessimista das primeiras letras nos rememoram algumas incursões do Technical Ecstasy, embora a sonoridade esteja bem mais grave e intimidadora. Como sabemos, a lentidão do Black Sabbath é 50% de sua sensação de peso, e nem isso é capaz de manter os thrashers compulsivos e tarados por velocidade afastados da obra, graças ao virtuosismo não-aborrecido de Iommi e ao baixo sinistro de Butler, dobradinha que deixa qualquer malcriado dorme-sujo em casa onde quer que esteja ouvindo, estirado num sofá de veludo preto imaginário. Mas essa porrada foi só um aquecimento diante da faixa 02…

A faixa é 2, mas o número 4—Volume 4—é o que vem à tona de imediato. O jogo dialético sombra-luz não tem fim nas imediações do BS. Não que alguém esteja cansado por enquanto. O niilismo ataca novamente após hibernar quase meio siglo, e as filosofias do século XIX renovam sua fama de “as mais atuais” para o homem ou Homem, o que quer que ainda reste após o deicídio longamente anunciado pelas trombetas e promovido por nossas próprias mãos. Remanesce uma hesitação, uma dúvida. Ele realmente morreu? Continua, o evento, mero pressentimento de uma alma rancorosa e sem resposta no fundo da caverna…

Não é de um dia para o outro que o Além, cada vez mais desacreditado, perderá toda a sua importância paliativa, e que a esperança de sua existência de fato cessará. Até que a esperança se converta em maldição, nos agarraremos a qualquer indício de uma pós-vida. Interlocutor, você pode ajudar o eu-lírico perdido dessa canção-tumba? A agonia é muito mais longa que a duração das lamentações verbais, não se esqueça… Embora elas permaneçam como um eco surdo em nossas mentes por não poucos dias após escutarmos!

“Johnny Blade”: A Continuação? É o que parece. “Loner” é a revisitação de um tema muito conhecido pelos esquizóides fãs de Sabbath, incompreendidos entre seus pares inferiores. Ou superiores? Somos incapazes de adaptação por sermos além-do-medíocre ou sub-homens rapaces? Seria impossível tentar ser gregário sem culpa depois de ouvir o trecho:

I wonder if the loner can assimilate.

A life less lived alone plays devil’s advocate.

Através de uma música assim, comunica-se o incomunicável.

Em seguida, ninguém vai deixar de reparar que a Caravana de Planetas (não confundir com Caverna de Platão) ainda não terminou—também pudera, anos-luz são muita coisa para ser atravessados em décadas! Sabbath nunca foi sinônimo de clausura em um gênero só. Ele foi definidor, principalmente, de um (com seus diversos sub-ramos), mas isso não significa inaptidão para o restante. Lírico, melan(al)c(o)ólico, triste: assim é o lado sentimental dos quatro. Nada diferente do nosso, ou de uma criança. Só quando a Terra adquire as dimensões de um ponto perdido no espaço, oculto pelo brilho fraco e azul de Doppler de um Sol que já não é mais do que uma estrela semi-visível da galáxia vizinha, nos damos conta da nossa condição de desacompanhados de tudo e todos a não ser poeira que vaga sem gravidade por aí…

The love I feel as I fly endlessly through space

Lost in time I wonder will my ship be found

A idade da razão se sobrepuja ao desespero da nave perdida no abismo sem-fim e absurdo. Seu terror sobrepuja esse do viajante solitário, marujo do céu, porque talvez seja muito pior definhar na Terra, o falso lugar da lógica e do império da racionalidade. O relâmpago e o trovão—nessa ordem—são a síntese da desordem, e até hoje a ciência não os domou. Até hoje? Talvez estejamos no lucro de não termos sido tostados pela fúria vendética de uma nimbus gigantesca cansada de nós! Uma extinção sustentável a curto prazo é do que somos profetas. Como é viver sabendo-se que não há herdeiros para o que fize(r)mos? Nossa insônia é só um sintoma… Somos sementes estéreis, a despeito de podermos ser criativos acerca do nosso momento fatal.

Já se perguntou quando esses músicos morrerão? Se pensa que é heresia de fã, deveria, porque eles se perguntam o tempo todo. Como é isso de querer viver e morrer ao mesmo tempo? Ah, francamente… Todos nós sabemos! Somando o ontem, o hoje e o amanhã, ao menos. A vida carrega cores desbotadas de sonho, mas é melhor ter sonhos ruins e pesadelos do que afundar sem uma reminiscência, uma Musa a cantar suas desgraças…

Se existe uma canção que eu considero menos do que as outras nesse conjunto nada menos que semi-perfeito, é “Damaged Soul”, mas talvez seja só questão de tempo. Curiosamente, é a introdução mais intelectual do CD inteiro, me lembra o quase-jazz distorcido pelas assombrações do álbum seminal. O vocal de Ozzy também foi propositalmente trabalhado para parecer excepcionalmente jovem e altissonante aqui. “Evil” e “graveyard” já aparecem nas primeiras linhas. Isso que é saber pagar um tributo a si mesmo! “Age of Reason” e “Beginning of The End” refluem ainda neste ponto da trilha:

Religion won’t save me, the damage is done.

The future has ended before it’s begun.

Enquanto Deus e o Diabo duelam na Terra do Sol os perdedores somos apenas nós.

“Querido Pai”, o nome, havia me deixado cético quanto ao “fim” (proto-, ilusório) do ressurgimento. Mas não é só a chuva final que remete ao começo de tudo, senão a qualidade que perpassa todos os segundos da produção. Não se deixe enganar pelo título piegas como eu fui. Parece o cabeçalho duma carta, se pensar bem, algo já visto em Dehumanizer, sem o Ozzy. Até os “yeahs” do cantor se encaixam bem nessa música. Uma carta de despedida para deus, quem sabe. Quem sabe? Talvez o dentista de Ozzy que coleciona revistas TIME. Ou pode ser que “father” queira dizer aqui Padre. Crucificado numa cruz de espírito. Isso deve doer, sr. Frankenstein ao contrário! Somos melhores como formigas do formigueiro da fazenda de crianças ou como peças de um lego de um adulto? Em realidade esse foi um Juízo Final às avessas, com um martelo pesadíssimo segurado pelo povo.

Mas o epílogo era falso. Ainda tem o BÔNUS da orgia sonora. Quem um dia já fez um hino à maconha e outro tão poderoso ao pó agora está do lado de cá, do Proerd e da consciência da vaidade dos prazeres: “Methademic” é a vingança do corpo contra seus fugazes espoliadores. Titio Ozzy também é maxima moralia, meus amigos! Você jovem vive rápido demais, tão rápido quanto essa música, uma “Symptom of the Universe” deluxe edition. Uma Sabotagem tão gratuita quanto bem-vinda…

“Peace of Mind” e “Pariah” parecem nascidas do mesmo caldo, aquele caldo anticristão em eterna ebulição que, insaciável, depois de tanta porrada no disco ainda quis dar umas últimas chibatadas sádicas no mito do messias e seu ultra-ícone, Jesus:

A product of a virgin birth

Another god on earth

Yes that’s your fantasy (…)

Make your own truth, and get out of my way

Do outro lado do mundo foi onde tudo começou. O homem virou homem. Nada mais justo do que haver uma faixa exclusiva para os olhos-puxados, então. Faixa cujas iniciais equivalem a “N.I.B.”, um dos clássicos mais velhos da banda – fechando com chave negra.

[ARQUIVO] REFLEXÕES DE UM TOLO — Tomo I

Originalmente publicado em 22 de julho de 2013

Pode alguém se desvincular da música? De uma paisagem, não é preciso ser cego, basta fechar os olhos. De uma sensação, recolher o corpo. Do olfato, prender a respiração. Do paladar, retrair a língua. Mesmo com todos os estímulos aos sentidos trabalhando ao mesmo tempo, mesmo diante de um furacão de sensações, o homem tem como, no olho do torvelinho, se concentrar, se controlar, se desligar, raciocinar só de si para consigo mesmo, ignorando qualquer coisa lá fora—ainda que digam que o “consigo mesmo” só pode estar em relações com os sons, os cheiros, os tatos, os gostos, as imagens…

Assim seria com os outros quatro sentidos mais fracos e mais simples, mais rasos, mais epiteliais. Mas A MÚSICA não é driblada por nenhuma finta ou artimanha da consciência. Ela é suprema. Os surdos ainda escutam. E não podemos falar aqui dos mortos. Estar vivo e centrado em si o suficiente para não ser desestabilizado pela música—este é o ponto. Só com outra música? Silêncio pode ser música?

O resultado de uma vitória é só outro confronto? Em última instância, outros combates ou a derrota, a agonia sempiterna seguida do sepulcro?

[ARQUIVO] A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS — João do Rio

 

Originalmente publicado em 12 de junho de 2012

« Je suis la rue, femme èternellement verte »

“Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam.”

“o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos”

“Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas.” “O flâneur é o bon-homme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.” “…acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio.”

Quem há de pensar que vi este menino a engatinhar!

E as ruas sem nome, ou de nome-nº? Ou ruas não-ruas?

“A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias.”

“eubá, o esperanto das hordas selvagens”

“Os malandros e os garotos de uma olham para os de outra como para inimigos.” São cães infantes marcando território!

“homem-sandwich é o infeliz “cartaz ambulante”, metido num panfleto, a divulgar alguma marca ou ideologia na rua.

“O Esgoto a Céu Aberto na Sua Rua” “É quase sempre na rua que se fala mal do próximo.”

“A palavra tatuagem é relativamente recente. Toda a gente sabe que foi o navegador Loocks que a introduziu no ocidente, e esse escrevia tattou, termo da Polinésia de tatou ou totahou, desenho. Muitos dizem mesmo que a palavra surgiu no ruído perceptível da agulha na pele: tac, tac. Mas como é ela antiga! O primeiro homem, decerto, ao perder o pêlo, descobriu a tatuagem.” Crianças de 10 anos que sabem “marcar”, i.e., agulhar. “Pelo número de coroas da Monarquia que eu vi, quase todo esse pessoal é monarquista.”

Eu detesto tanto meu sinal no queixo

que a barba bem grande aí eu deixo

“É como um poeta sem emprego diante de um oligarca estadual”

Algumas rezas pudicas mais parecem magia negra!


Nós somos animais

Para o bem ou para o mal

para o mal, creio que é mais


“Cada sujeito desses pode passar a vida bem. As livrarias vendem baratíssimo os livrecos procurados. Em cada um, os vendedores ganham, no mínimo, 600%.” Sem falar na qualité dos volumes! “Só esse Carlos Magno tem causado mais mortes que um batalhão em guerra.”

“O testamento da pulga, do mosquito ou da saracura, não seria para fazer rebentar de riso os mortais, nem mesmo agora, neste mortal período de desinfecções e higiene à outrance.”

“Se nas obras populares aparecer alguma coisa de novo, com certeza teremos tolices maiores que as anteriores…”

“Era domingo, dia em que o trabalho é castigar o corpo com as diversões menos divertidas.”

“os prodígios do gramofone—essa maravilha do séc. XIX, que não deixa de ser uma calamidade para o séc. XX”

Tocador de realejo—há profissão mais mecânica dentro da arte?

“Uma sanfona faria Harpagon generoso e Lady Macbeth boa.”

“Herófilo pretendia que as pulsações das veias se fazem de acordo com o ritmo musical.”

“Há talvez em outras terras, mais gastas e mais frias, a miséria dos músicos ambulantes, sem fogo, sem pão, caindo sob a neve, depois de uma dolorosa vida.”

Mais uma testemunha de fim dos tempos gloriosos, bem à Levi-Strauss.

Tantas expressões sui generis… Parece até um outro idioma! Ex: cordão—o trio elétrico da época; camisa de meia—regata.

No princípio pensei que seria uma apologia idiotizante, mas é um autor tão ranheta quanto eu!

Quem diria: o Carnaval do Rio já era, e sem o samba! Só três dias de folia? Nem pensar!

“Ora, este país é essencialmente poético. Não há cidadão, mesmo maluco, que não tenha feito versos.” “São uns animais! Este país está todo errado. Há mais poetas que homens. Eu, governo, mandava trancafiar metade, pelo menos.”

“canção e lei eram a mesma palavra entre os helenos.”

Cerne do livro: a modinha, versos/cancioneiro popular que não pode ser considerado arte (tanto que não se conservam seus autores). De certa forma, se assemelha aos dizeres de Schopenhauer sobre a Música. “a musa da urbs”

“e esse estranho Álvares de Azevedo, o único genial do bando romântico, o único predestinado como os grandes vates, o único que no choro de praxe desamargurado de estilo tinha o soluço presciente de uma tumba a abrir-se, o único que conservava no torvelinho das paixões uma alma de rosa cujo perfume desejava o céu, o único que hoje, amanhã, ninguém lerá sem sentir o soluço, o travo da morte, o ai! das agonias e a tristeza que nos causa o desaparecer de um astro, o murchar de uma flor, o tombar de um pássaro cujo breve cantar não passou de uma alegria em torno do próprio ninho…”

“Os grandes poetas não fazem mais versos para toda gente (…) e os vates são parnasianos, são simbolistas, procuram a forma sensível e a essência oculta.”

“Outrora ela bebia para cantar. Agora canta para beber.”

“Dudu das Neves canta apenas as suas obras.” O youtube o desmente, João!

“O sucesso e a popularidade de Santos Dumont são devidos menos aos seus trabalhos de aviação que ao ter causado a admiração de Paris.”

“Vós me pedis, suponde, que eu faça a poesia para certa música. Crede que eu, imediatamente, sem mais reflexão, empunhe a pluma e a vaze do papel? Não. Há algumas dessas músicas que me fazem levar horas inteiras a interpretar-lhes os sentimentos, os queixumes, as mágoas de que sofrem os seus autores.” Catulo, Poeta da Calçada.

109: a hilária modinha sobre a peste bubônica


GLOSSÁRIO:

flanar: vadiar “é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, levado pela primeira impressão”

nefelibata: avoado; homem das letras que está sempre no mundo da maionese; escritor sem-estilo que não sabe conectar idéias e só diz disparates.

[ARQUIVO] LULU & OUTROS POEMAS

 

Originalmente publicado em 4 de junho de 2012

A MEMÓRIA PERSISTE (PRIMA-DONA)

E escurecer a luz de uma já apagada Prima Donna

Enquanto o sol de Hollywood se põe às suas costas

A banda não pode continuar?

Apenas escute, eles tocam minha música!

“Fade to black”

Pequena deusa de latão

Perfure a casca da maçã

Você morde mais do que precisa

Cuspa a semente da verdade!

O DRAMA DO NASCIMENTO

Toda criança toca o sol

Queima os dedos um por um…

Já aprende da guerra com soldados de plástico

Acorde, dorminhoco

Hora de salvar o mundo

*

Você traz o pobre cão da chuva

Só que ele só quer sair de novo

O espelho que eu quebrei

Para retratar a minha cara

Pode curar o que o pai fez?

Ou tapar o buraco no filho da mamãe?

LULUXO DA PRIMAVERA

Mas eu, estou feliz porque tenho minha fraldinha

e algum ópio para me deixar na linha

Realidade misturada com cachaça

Bread & Burger Gay

A frieza da maioria das belezas é um desafio que nossa juventude deve rapidamente transpor

Não há tempo para culpa

ou reflexão baseada no sentimento

Eu cultivo a juventude

todo o resto me aborrece

Sua vida de razão

quero te ver no chão

e no caixão

sua alma sacudindo

Você hesitando

em cada conhecimento acumulado

GORY

Tal qual abelhas no ar

Se eu sacudir meu traseiro como uma prostituta suja

Você pensaria menos de mim?

Você me cortaria, usaria uma faca em mim?

Violação suprema

Jack, eu te imploro!

Sangue na cozinha

Vou me render a sua lâmina mais afiada

como o pau de um homem de cor

O sangue esguichando

Perdão, perdão!

Você é perfeita, me deixe seguir sua respiração e seus passos

Degrade-me!

Tem restos que eu posso beliscar?

Cuspa na minha boca

Abra-me! Você é meu Golias

ASS: SENHORA APAVORADA

Você faz outros se sentirem gelatina

muitos homens me amam

mas não amo nenhum deles

*

Sou uma onda indiferente surfando o mar

Não tenho mais ninguém

*

No meu léxico do ódio

As batidas seguem num ritmo anormal

O medo percorre meu corpo

uma espada entre minhas coxas

Eu queria poder matar machucar você

case comigo, te quero como esposa

mas eu também amo seus olhos

ANATOMIA ANIMAL

Você é mais homem que eu

Estar seco e estéril sem-esperma como uma garota

o cachorrinho espera demais, é um monge

o cachorrão tomou seu lugar

ouça-o ganindo

ele quer entrar, ele quer entrar

*

um pintinho

dinheiro te leva ao topo

a cadela não se importa com o resto

enquanto puder aparentar

você pode sentir apenas o gostinho do que o cachorrão

tem à disposição

o cachorrinho com uma nota de 100 é um cachorrão

dinheiro pode fazer qualquer coisa

*

Você se acha especial

os outros são peões

para sua satisfação sexual

criatura penosa!

acha que somos uma espécie de mesa

em que você descansa os pés quando bem entende?

nós te amamos alteza

adoramos seu corpo perfeito

o seu cecê, o gosto da sua vulva e tudo nela

e você não tem significado

nunca nem ligou

pensar em você é uma outra forma de morrer

vou arrancar os seus mamilos

seu vestido de couro está guinchando

seus azulejos brancos estão vermelhos agora

aquele que te rejeita é o vencedor

tenho um truque na manga

chamado coração

as digitais correm seus cabelos que sensação

gloriosa

ser tão rejeitado!

REMIX ZURETA (SANTA RAIVA, MORTE MAGNÉTICA & CARGA)

Originalmente publicado em 9 de maio de 2012


You live it or lie it

Meu estilo de vida determina meu estilo de morte

Siga procurando

A busca continua…

Frenética tica tica tica tic-toc mente

*

PRA QUE A PRESSA?

*

ABENÇOADA RAIVA

*

Fuck it all and no regrets

I hit the lights on this dark sets

raiva no pescoço, eu me enforco, logo…

e eu quero que minha raiva seja sadia

só pra mim

ela não pode me controlar

*

ingrediente necessário

quero que ela seja eu

*

que ela se liberte! um terremoto produtivo

mensagens que beiram a redundância, é preciso estar vivendo ou ter vivido um período semelhante

*

ALGUM TIPO DE MONSTRO

*

Essa é a voz do silêncio nunca mais

língua que fala por dentro—explorando o corpo

ela anda em círculos

o deus nem tão santo

mais vivo do que nunca!

as garras que cutucam as feridas

é o fim que nunca termina

é uma nuvem de verdades

este momento somos…

*

Eu sou quem eu penso que sou?

julgamento, eu martelo—sou juiz, júri e carrasco

ambigüidade inerente

*

autismo, isolamento

preso no seu cérebro

qualquer um é suspeito

eu me escondo, mas (se me cutucar) te mostrarei…

me deixe desaparecer no horizonte

*

abra seu coração, estou batendo à porta

ó, que bom menino você é

desplugando de tudo

orbitando a si mesmo

foi invadido:

MEU MUNDO

Mamãe, por que chove no meu quarto?

anime-se, o tempo vai abrir

neblina densa, nada eu vejo

os filhos da puta tentam entrar na minha cabeça e me mudar

não é que eu não saiba a resposta

eu nem sei qual é a pergunta

manda bala de novo, ainda não morri

todos os tiros que levo

cuspo de volta em você

toda merda que atira

volta pra te assombrar

*

*

que diferença eu fiz?

*

*

Mesmo com uma bala nas costas, não sairei do lugar

Atire em mim, leve um tiro!

tô encalhado e por minha conta (TIC-TOC)

*

mordo minha língua tentando não revidar

*

acorde o gigante adormecido, a besta, o cão, não, deixe-me hibernar!

*

minto para obter um sorriso

doce âmbar—incenso (do amor)

quão doce é você

quão doce pode ficar?

*

gato e rato

eu fujo mas eu volto

*

já estive aqui antes

cada instante aqui morro um pouco mais

o sentimento inefável desperta e me domina

segurança na solidão

eu espero esse trem

joelhos sobre os trilhos-recorrentemente

*

tudo lavado, ficou branco, só sinto o cheiro doce do passado, não danço com o que poderia ter sido, não danço com esqueletos

*

amor é controle (raiva controlada?)

morrerei se me deixar levar

odeie-me

deixo-a correr depois puxo a rédea

*

só deixarei você respirar

o ar que eu te der

-se não quiser sufocar

depois veremos se deixarei me ama[ta]r

*

Desejo poder, desejo fazer

Satisfeito?

cuidado com o que deseja, pois pode obtê-lo! Você quer tirar a própria vida

*

você quer ficar só

*

desperdiçar o ódio

vou guardar pra mim

queria um abraço, mas só a pedra fria pode dá-lo

*

Enquanto nos reunimos hoje

Nos despedimos

O escravo se torna o senhor

Futuro e passado ambos discordam

vejo o fim em

mim…

[ARQUIVO] UMA ODE AOS COVERS

Originalmente publicado em 25 de abril de 2012

Há uma discussão tão longa e acalorada—principalmente entre os brasilienses, supostos habitantes de uma “cidade do rock”—que me propus a escrever sobre isso, para que não me repita em conversas por aí, além de poder ordenar melhor minhas idéias. Primeiramente, um pouco sobre mim: amo a música, mas não sou músico. Quando criança aprendi a tocar teclado como que obrigado pelos pais, portanto sem amor ou espontaneidade. Minha paixão por escutar bandas adveio somente na adolescência. Hoje tenho 24 anos, portanto obviamente haverá muitos leitores com mais experiência do que eu, podendo eu me desculpar desde já pela eventual leviandade de minhas palavras! Em segundo lugar, diria que durante 90% do tempo dedicado a ser ”expectador desta maravilhosa arte” estou ouvindo “metal e derivados” e disso são os shows que prefiro freqüentar. Considero que somente nesses meios tenho o que se pode chamar de amigos. Mas não me rotularia de metaleiro (ainda que meu vestuário cotidiano se componha quase totalmente de camisetas de bandas do gênero!), por não ser fechado a outros estilos nem me considerar pertencente a uma ideologia ou grupo exclusivamente de metalheads ou headbangers. A despeito das muitas pessoas brilhantes e visionárias que conheço e que se enquadram no rótulo, estas são as exceções. Devo retratar o metaleiro-padrão, o famoso “estereótipo”, como um ser desagradável e superficial, tanto quanto o pagodeiro-padrão, o indie médio ou o sertanejo-clichê. Creio que não preciso me alongar mais neste ponto.

Sem mais delongas à polêmica: incentivar ou não shows cover em Brasília? Dizem que “a cena morreu”, que “não se fazem mais bandas como antigamente”, “o pessoal não leva compromissos a sério”, “ninguém respeita os músicos”, “o preconceito ainda é grande contra nós roqueiros”, “não há casas de espetáculo disponíveis”, “não sabem produzir”, “a audiência não é fiel”, etc., etc. Não gostaria de repisar esses discursos, que ora refletem a realidade ipsis literis, ora não passam de falácia! Podemos contar nos dedos os eventos, a cada fim de semana ou mês, que contemplem a galera do heavy metal (procurando englobar gêneros adjacentes como punk, hard rock, hardcore, thrash, death, black, grindcore, grunge, stoner, crust na medida do possível) em todo o DF. Dentre estes, há(veria?) uma subdivisão do público: aqueles que preferem as bandas que tocam o som de outras bandas mais renomadas; e os que têm em mais alta conta os “artistas autorais”, isto é, que mandam ver com seu próprio som em cima do palco.

A meu ver, não existe música sem boa dose de ambas as vertentes, ainda que seja seu direito ter uma “favorita”. Estudar o passado é obrigatório para quem quer, por sua vez, fazer escola. E se ater exclusivamente ao passado é martelar pregos no caixão. Dos menores aos maiores nomes da música contemporânea, não vejo banda que não tenha dedicado tempo a regravar aqueles que os inspiraram, e que não tenha perdido noites pensando, rabiscando, compondo, ensaiando, enfim, criando material inédito…

À parte a dupla categorização, dizem que shows com apenas músicas próprias são economicamente inviáveis para bandas em seus começos, se não forem excepcionalmente qualificadas, porque não haveria demanda por procurá-las ou o menor interesse empresarial por revelá-las. Pode ser que sim. É até mais difícil cativar o público que não conhece as melodias (ou a falta delas, dependendo do estilo), as letras, às vezes nem o nome de quem está se apresentando! O que não entendo é por que isso se transforma, para alguns, em ódio manifesto aos concertos-tributos, de covers dos clássicos. Como se as bandas cover fossem as responsáveis pela propalada “decadência” do cenário das bandas independentes! Como se tais shows não ajudassem imensamente a divulgar aquele som e aquela cultura e a fomentar a criatividade em mentes férteis! Se os eventos cover são mais numerosos (e eu não sei se isso é mesmo verdade), mais bem-divulgados, vamos agradecer pela oportunidade de louvar os “deuses”—mortos ou vivos—do rock ‘n’ roll e do metal, ao invés de emburrar e nos lamentar por tal predomínio e pela escassez das “bandas de verdade” (como se um cover não fosse também uma performance autêntica, que exige energia e muito treino), como já me disseram.

Dever-se-ia militar por mais shows, de ambas as variedades (autorais e covers), por eventos que mesclassem ambas as tendências, não pela ABOLIÇÃO ou pelo BOICOTE de eventos cover. Sinto esse dissídio, essa eterna tensão entre dois extremos inconciliáveis, por onde passo. Posso estar pintando com cores exageradas e extravagantes, estilizando os pontos de vista um bocadinho. Talvez seja, ao cabo, uma percepção enganosa de minha parte, mas nas ruas, nos encontros e nas redes sociais é esse o teor da coisa. Sobre a credibilidade da testemunha, não posso opinar, porque qualquer auto-análise seria distorcida. Só gostaria de lembrar que a dita “cena” é construída por TODOS, ainda que não haja uníssono ou consenso entre as partes… E que todos que amam o estilo querem que ele cresça.

[ARQUIVO] ORIGEM DA TRAGÉDIA —OU GRÉCIA E PESSIMISMO—

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

30: a ilusão do eu vs. o caos

38: Rei Midas e Sileno, o tutor de Dioniso

44: A Transfiguração, de Raffaelo Sanzio (capa)

51: lições de perspectivismo

61: “o aniquilamento budista da vontade na Grécia Antiga; Hamlet, o Homem “Ridículo e Envergonhado” do Vontade de Potência.

72: Édipo em Kolonos: o passivo ativo e o ativo passivo

75: Adão, Eva e Prometeu, o Ariano

79: o Platão dionisíaco

82: Eurípides, o discípulo teatrólogo de Sócrates, o envenenador involuntário da Tragédia e do mito

83: “O grande Pan morreu!”

91: o paradigma da participação

101: sabe-se que o protagonista não morrerá—por uma ficção anti-heróica

107: a ciência enquanto ócio criativo e jogo

111: “renascença da tragédia”

142: bazuca agora mira a universidade e o jornalismo

149: o choque fatal da barca de Tristão e Isolda como uma solução mítica, digna de Édipo!

151: mérito, ou “escapatória”: enxergar (ou inserir) finalmente a necessidade do apolíneo, tão trucidado ao longo do texto

155: desde já um ferrenho antagonismo a Aristóteles

163: exortação à guerra ariana


“a morte é o prazer supremo, enquanto significa o reencontro com a origem.” Ciro Mioranza

“Existe um pessimismo da força?”

“um livro que (…) deu satisfação aos ‘melhores de seu tempo’ (…) entretanto, não quero dissimular de modo algum a impressão desagradável que hoje me produz: quão estranho se apresenta a mim dezesseis anos depois” Nietzsche 1888

“Talvez hoje eu fosse mais circunspecto, menos eloqüente para tratar de uma questão psicológica tão complicada como é a busca das origens da tragédia entre os gregos.”

“Há porventura—pergunta para os psicanalistas—uma neurose da saúde?”

“um desejo de nada, de morte, de repouso, até o ‘sabbat dos sabbats’”

“passagem do ‘matador de dragões’ (…) Não é a autêntica e verdadeira profissão de fé do romantismo de 1830 sob a máscara do pessimismo de 1850?”


“Meu amigo, esse é precisamente o trabalho do poeta,

Observar e interpretar seus sonhos

Acredite, a ilusão mais verdadeira do homem

a ele se manifesta no sonho;

Toda arte poética, toda poetização

Nada mais é que tradução verdadeira do sonho.”

Hans Sachs, Mestres Cantores


“Ouvi dizer também que certas pessoas possuíam a faculdade de prolongar a causalidade de um só e mesmo sonho por três e mais noites consecutivas.”

“Eurípides em As Bacantes, o sono nos altos caminhos das montanhas, sob o sol do meio-dia.”

“Se esse mundo tendesse a um fim, esse fim já teria sido alcançado”

“se esquece aquilo que todos sabem”—se esquece que não há indivíduos

METAFÍSICA DO ARTISTA: “Todo o nosso conhecimento da arte é no fundo absolutamente ilusório (…) É somente no ato de criação artística e na medida em que se identifica com esse artista primordial do mundo que o gênio sabe algo da eterna essência da arte; pois, nesse estado, é então, por milagre, semelhante à perturbadora figura da fábula, que tem a faculdade de voltar seus olhos para dentro e se contemplar a si mesma; ele é agora, de uma só vez, sujeito e objeto, de uma só vez poeta, ator e espectador.”

“O conhecimento mata a ação, à ação pertence a miragem da ilusão—este é o ensinamento de Hamlet.”

“em todos os criadores, o instinto é precisamente a força positiva, criadora, e a razão consciente é uma função crítica, desencorajadora”

TODOS OS POSTULADOS DO ETERNO RETORNO E DO NIILISMO JÁ INCLUSOS EM SUA OBRA INICIAL: “Quando, cheio de espanto, vê nesse limite extremo a lógica se enrolar sobre si mesma como uma serpente e morder-se a cauda—então surge diante dele a forma mais nova do conhecimento, o conhecimento trágico, do qual lhe é impossível suportar unicamente o aspecto, sem a proteção e o auxílio da arte.”

CONTINUAÇÃO DO EQUÍVOCO: “reflexo da própria vontade e, portanto, representa, com relação a todo o físico do mundo, o metafísico, e com relação a toda aparência, a coisa em si. De acordo com isso se poderia denominar o mundo (…) música corporificada” Schopenhauer

“O deus ex machina tomou o lugar da consolação metafísica.” HAPPY END—imagine-se Aquiles voltando pra mamãe!

“cultura alexandrina [socrática] ou helênica ou budista.”

“Parece somente que revivemos analogicamente, de algum modo na ordem inversa, as grandes épocas decisivas do helenismo e que remontamos, p.ex., da era alexandrina até a época da tragédia.”

“Com o tirso(*) nas mãos, coroem-se de heras e não se admirem se o tigre e a pantera se deitam a seus pés, acariciando-os. Ousem ser agora homens trágicos: pois, devem ser redimidos. Vocês devem escoltar o cortejo dionisíaco da Índia à Grécia!”

(*) “O tirso era um bastão encimado por uma pinha rodeada de gavinhas de videira e de ramos de hera; era um dos símbolos de Dioniso.”

“Para sair do orgiasmo, não há para um povo senão um caminho, aquele do budismo indiano.”

“Em cada propagação importante de excitações dionisíacas, pode-se sempre notar que a liberação dionisíaca das algemas do indivíduo se manifesta primeiramente numa depreciação dos instintos políticos que chega até a indiferença e mesmo até a hostilidade.”

ANTI-ANTICRISTO: “Colocados entre a Índia e Roma e impelidos a uma escolha tentadora, os gregos conseguiram descobrir, com pureza clássica, uma terceira forma, a qual não foi usada por eles por longo tempo, mas, justamente por causa disso, é imortal.” Falta de vontade ou excesso de vontade: o Cila ou Caribde do macrocosmo cultural.

“os prediletos dos deuses devem morrer cedo”

“com um exame rigoroso cada um (…) [vai] chegar (…) por intermédio de abstrações, a acreditar numa existência real do mito no passado.” “As imagens do mito devem ser os guardas demoníacos, invisíveis e onipresentes, propícios ao desenvolvimento da alma adolescente e cujos sinais anunciam e explicam ao homem sua vida e suas lutas”

“Não escrevo tratados; estes são para asnos e leitores de periódicos”


Anotações de cunho pessoal & Poesia:

Parece que de um modo ou de outro eu sou um exímio artista plástico!

Por que desejaríamos o pesadelo?

Eu não sou um indivíduo, eu sou só uma retaliação.

O GATILHO—Assim como Billy Elliot quando dança, quando escrevo já não sou mais eu. Eu, rá, que petulância! Sou só um hospedeiro, e a caneta mais segue a natureza que uma mão humana volitiva!

There’s nothing to worry about…

It’s never YOU, never your fault!

Cause of the click of the forgotten…

Querer ser um artista—o que representa? Vontade de reconhecimento instantâneo, de matar dragões.

As cerimônias do Ocidente foram todas feitas para acentuar o que há de ridículo nas pessoas.

O que os olhos não vêem, o coração não sente, mas especula. E não há anestésico melhor do que a certeza do olho.

Pp. 92-4 (trecho também em O Caso Wagner): Sócrates mata essa personalidade sobrenatural tácita no artista, de modo que subsista tão-somente a capa/máscara, i.e., aquilo que antes deveria ser o corpo e hospedeiro—mas que, por não ter mais nenhuma função metafísica, perde a razão de existir, de estar aí. Esterilização do mundo. Anti-natureza. O homem como desafio, aberração, excrescência. Ilusão de que se pode mudar a História (essa própria reviravolta não passando de uma fatalidade dionisíaca, por Dioniso). Perda “agendada” do Uno de si mesmo.

Gênese do conceito de “sombra” em Nietzsche: quando seu segundo, sua segunda natureza (ou sua primeira) surge e dialoga ou então toma a palavra tiranicamente. Resta ao corpo frágil aparar as arestas ou tornar-se o pára-raio das conseqüências, com os dedos cruzados. Porém, este é um personagem que jamais pode ser chamado. Ele aparece, no nosso melhor humor.

But everything is gonna work out fine

If it don’t, I think I’ll lose my mind, yeah!

A importância apregoada ao sonho do fim da vida de Sócrates: “Sócrates se dedicando à música”. Ele que chegou às culminâncias… Se há uma teleologia do indivíduo, aquele que antes da metade da vida já é adepto do trágica fica então louco!

O que deve ser corrigido na análise: a Música per se não define o triunfo do trágico, porque ela pode ter sido elaborada segundo a dialética socrática; ao mesmo tempo, produções culturais presentes ou vindouras podem se apresentar num formato cênico; porém com elementos trágicos predominantes, i.e., o instinto grego original sendo aquele que conduz as personagens, por trás da trama aparentemente racional.

CONCLUSÃO: Não existe a variável artística proeminente/sobressalente que determine as demais.

Unidade nos fragmentos, seus tolos!

O hiper-defeito de Marx: cego em relação à arte (Ideologia Alemã como panfleto político icônico). Engels, a despeito de entender “a vida como um processo contínuo”, ainda só quer o fim dele. O conceito consciente de comunismo é apenas disfarce. A. e T. estão todos no mesmo rol dos doentes caluniadores da vida. Não há diferença nenhuma entre eles, a rigor, para a análise que se aprofunde 3 milímetros na epiderme.

“Então Prometeu foi CASTIGADO porque…”—tal não existe. O auto-aniquilamento da força—quer viver, POR ISSO, quer também morrer. “Viveu como morreu” filósofo Bart. O herói da era cristã nunca está atrás de promover o injusto! Só “consertar erros”… Existência eternamente falhada. Depois do happy end, todo herói morre. Nós tornamos o mundo imperfeito para que, durante o grande jogo, ele tenha realmente ares de perfeito.

É porque 90% dos expectadores de filmes são passivos e não modificam suas vidas, nada aprendem, que eu tinha uma aversão metafísica pelo gênero? Preferia livros, moldadores de caráter? Só assim eu aceito “participar”: música e outros que reflitam nos meus próximos passos. [escolher: meditar o trabalhar—parece que de nenhuma forma se é mais do que um zumbi]


De 30 de março a 4 de abril de 2011

[ARQUIVO] O CASO WAGNER

4ª CONSIDERAÇÃO INTEMPESTIVA: WAGNER EM BAYREUTH

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

92: a recorrente puxada de orelha nos alemães e seus estudos históricos

93: a orientalização do mundo, desde Alexandre

98: o problema da arte como única justificativa para a vida

100: a linguagem universal

110: da transição de um talento a outro: Wagner, Goethe, Schiller—da expressão escrita à oral/musical?

112: da árvore que finca raízes; Zaratustra.

126: as músicas de Wagner são versadas

129: as diversas sensações suscitadas no ouvinte pelo desenvolvimento das técnicas musicais

130: para entender Beethoven

131: Wagner e Heráclito


Já não acreditava mais no que escrevia? Última homenagem terna?

“Em toda parte o homem só encontra sua insuficiência pessoal, sua impotência total ou parcial. Que coragem teria para combater se não tivesse recebido previamente a consagração de uma causa que ultrapassa sua personalidade?” “nossa tríplice insuficiência”—“Não podemos estar felizes”; “não podemos ser morais”; “não podemos até mesmo ser sábios” “a arte é a atividade do homem em repouso”, isso quer dizer: “A arte não é o mestre e o mentor da atividade concreta”—porque somos como somos e as personagens não ditam nosso comportamento. Mas adoramos ser múltiplos.

Arte como mapa da vida, a vida como o JOGO DOS JOGOS: “a grandeza e o valor insubstituível da arte consistem precisamente no fato de que evoca a aparência de um mundo mais simples, de uma solução mais rápida para os enigmas da vida. Aquele que a vida fere não pode prescindir dessa aparência, como não pode prescindir do sono.” …AND JUSTICE FOR ALL

“Impedir que o arco se rompa, essa é a razão de ser da arte.”

O erro nietzscheano, se existe algum aqui, consiste na crença na instantaneidade da mudança e em seu marco divisório, que certamente não era este Wagner nem esta Bayreuth!

Elogios alter-biográficos que num espaço de uma década e meia seriam convertidos em autobiográficos: Ecce Homo, ele mesmo! Despojado de seu ídolo, superado…

Um pouco de afetação, aqui e acolá. Alguns anos depois, em que hierarquia situaria seu “primeiro músico absoluto”?


O CASO WAGNER (p.d.)

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

20: Benjamin Constant

22: sobre querer-se fundir com o amante

24: “o nada, a Circe indiana”

38: Wagner e Hegel—“a música como idéia”

44: Nietzsche contra os adolescentes

45: Wagner, o Minotauro. Ou comunista, comedor de criancinhas.

47: os tipos mórbidos de Dostoievsky


Ouvir 20 vezes uma mesma música devia ser algo bastante excepcional, àquele tempo.

Um libelo chauvinista.

Humor picante, sob a égide cesárea (“dizer o sério rindo”).

Como no Ecce Homo, tratado encharcado de citações em francês.

Siegfried//Shakespeare—tanto Siegfried e Brunilda quanto Romeu e Julieta “só podem se amar no Além”: logo, o “depois” é mais importante que o REAL.

“Wagner resume a modernidade. Não adianta, deve-se começar por ser wagneriano…”

“Um ser esgotado é atraído por aquilo que é nocivo: um vegetariano o é pelos legumes.”

Mais para o final da vida, começou a citar jornais em seus textos.

“Quando não se é rico, é preciso ser suficientemente digno para se ser pobre!…”

Só no epílogo, a crítica mais contundente e clara: uso dos mitos que sustentavam uma moral aristocrática para posar e se refestelar sobre a massa cristã. Ainda ensina: não se CONVENCE alguém ou uma época a favor ou contra uma crença.


Anotações de cunho pessoal:

De repente, acordamos pensando horrores daqueles por quem guardávamos uma alta estima!


NIETZSCHE CONTRA WAGNER

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

58: tiradas sarcásticas com direito até a merchand!

62-3: no parágrafo sobre a música como eco tardio de uma outra época, a previsão do gênero folk!

67: lamenta a França igualmente perdida… e já lamantara a Itália, no prefácio


“Ninguém leva ao teatro o sentido mais refinado de sua arte, muito menos quando se é artista que trabalha para o teatro—a solidão faz falta, a perfeição não tolera testemunhas… No teatro, nos tornamos plebe, rebanho, mulher, fariseu, gado eleitoral, patrono de igreja, idiota—wagneriano: é ali que a consciência mais pessoal se submete ao encanto nivelador da maioria, é ali que reina o próximo, ali é que nos tornamos próximo…”

“Foi assim que, progressivamente, passei a compreender Epicuro, antítese de um grego dionisíaco, e igualmente o cristão que, de fato, não passa de uma espécie de epicurista e se conforma a seu axioma ‘a fé torna feliz’.”

“A doença é sempre a resposta se queremos duvidar de nosso direito à nossa missão, se começamos a tornar as coisas mais fáceis para nós em qualquer sentido. Estranho e assustador ao mesmo tempo! São nossas facilitações que devemos expiar mais duramente! E se, depois disso, quisermos recuperar a saúde, não há mais escolha: temos de nos carregar mais pesadamente do que estávamos antes…”


De 5 a 8 de março de 2010

[ARQUIVO] METALLICA À VENDA? (Ian Christe)

De 29 de junho a 19 de julho de 2011

“Mais uma vez, os fãs tornaram-se ratos escondidos pelos cantos. À medida que o metal sofria à vista do público, o Metallica fazia pouco para ajudar a contornar a situação. Por anos eles puseram o mundo do heavy metal em primeiro lugar, mas agora pulando irreconhecivelmente na frente dos holofotes em toda cerimônia de premiação ou sessão de vídeo, a banda viajou com os grupos alternativos Hole e Veruca Salt em setembro de 1995 para tocar em um festival patrocinado pela cerveja Molson Ice na vila ártica de Tuktoyaktuk. A banda que havia se recusado por mais de sete anos a até mesmo fazer um videoclipe estava agora aceitando eventos promocionais.”

“I put my cock into the carcass

My climax can wait no longer

Expectorate my seed of hate

Onto her mutilated corpse”

“‘Eu não usei cuecas nos últimos quinze anos’, Lars Ulrich contou à Melody Maker, ‘mas nove meses atrás decidi que não iria mais usar jeans novamente. Porque como eu não sou circuncidado, diferente da maioria dos norte-americanos, haveria uma quantidade considerável de urina espalhada pela minha calça cara por causa do consumo excessivo de álcool. Então minha esposa sugeriu que eu usasse cuecas para que eu não mijasse nas minhas lindas e caras calças de estilistas famosos o tempo todo.’”

“‘O Metallica pode fazer o que quiser agora’, disse Shawn Crahan, do Slipknot. ‘Eles venceram. Eles conquistaram o direito de fazer o que quiserem hoje em dia.’”

“Zombification ejaculation over mutilation

On the Mother’s body hacked into pieces

The sludges from my cock gives her life once again

Sewing the remains of the child deep within her”

“She’s already dead, I masturbate with her severed head

My lubrication, her decomposition

Spending my life molesting dead children”

“Conforme seus cabelos lentamente voltavam a crescer, o Metallica redescobria sua origem metal. Para a turnê norte-americana de 1997, prepararam um show com um palco sofisticado que representava a realidade maliciosa na qual a banda então vivia. Inspirados no dramático acidente com James Hetfield em Montreal, todas as noites, na metade do show, uma parte falsa da iluminação explodia, para deixar a figura de um técnico em chamas balançando pelos ares, preso por um cabo de segurança. Para dar seqüência ao tema de destruição já iniciado, torres de iluminação caíam até uma posição predeterminada, e roadies corriam para apagar o fogo. O técnico de iluminação era levado em uma maca para uma ambulância que estava à espera ao lado do palco, enquanto a mesa de som lançava loops de ruídos de estática. § Com o equipamento supostamente destruído, os membros da banda fingiam então buscar uma solução para a catástrofe. Reuniam-se em um canto remoto do palco onde havia apenas dois conjuntos de guitarra e amplificador e algumas lâmpadas que pendiam do teto, e rapidamente improvisavam um medley ‘caseiro’ de ‘Four horsemen’ e outras músicas antigas de Kill ‘em all. Devagar, o operador de som reforçava até um volume digno de estádio. Foi um evento extraordinário que brincava com desastres para contar a hoje lendária origem da banda. Com logística mais complexa do que qualquer palco gigantesco do Iron Maiden nos anos 80, a produção foi genialidade pura do Metallica e fingiu zombar das convenções do rock, até mesmo ao entregar-se de corpo e alma a elas. Naturalmente, a empresa de efeitos especiais recebeu o prêmio Designer do Ano da revista Stagecraft industry.”


FISSURAS E INTEGRIDADE NO MUNDO DA MÚSICA

Ou: Em busca do riff perdido atrás do arco-íris captável somente através dos ouvidos

As bandas e os gêneros floresciam e morriam, florescem e ainda morrem, rápido demais. As brechas deixadas por colossos como Black Sabbath e Metallica na incompletude e periferia de cada álbum, e nos hiatos entre as gravações, e nas inevitáveis negações perpetradas pelas escolhas (afirmações) naturais, talvez tudo isso se desenrole por décadas e não se tenha perdido uma (várias) oportunidade(s) para sempre. Não são os próprios músicos que vivenciaram os atalhos geniais de suas obras-primas que devem chegar lá, mas o legado vivo por eles plantado. Um gigante veterano tateando atrás de seu novo melhor álbum de todos os tempos não passa de comédia?

[ARQUIVO] O VIAJANTE E SUA SOMBRA

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

13: a importância do silêncio no grande diálogo

21: a luz em Platão

27: gravidez

28: “a lanterna”

33: a estratégia do advogado criminalista

35: a reputação do réu

36: Ájax e a inveja dos deuses

40: “náusea”

41: sobre o indigente

48: pistas da loucura cavalar

49: a prova natural de que o caminho mais curto entre dois pontos não é a linha reta

50: o “fatalismo turco”, Moira

55: a necessidade da barba no sábio varonil, para que o queixo não contraste com seus olhos de águia velha e o rosto não apresente duas idades

64: “O pão neutraliza o gosto”

69: “Para ler em voz alta é necessário estar disposto a fazê-lo.”

72: o final do Fausto

86-7: prazer na música como artista (pelo presente, pelo que ela é) x prazer na música como leigo (nostalgia); possibilidade da arte diretamente vinculada ao trabalho e sua flexibilização.

89: minha relação residual com a sociologia; sobre a personalidade que quer encontrar “o fim dos fins” em tudo em que põe as mãos.

90: da pesada amargura; e sobre o pateta palhaço por opção

93: selecionar o amigo com base em suas opiniões religiosas

94: alimentação e mau humor

98: para a história (benéfica) do desinteresse…

101: não ter filhos; afastar-se dos amigos, mas não da natureza.

102: “Aquele que disser agora: ‘Nada me aconteceu ainda’—passa por um imbecil.”

107: Uniformes e nacionalismo. Moda como antídoto. Novo conceito de moda para além de “o que sai de circulação rapidamente”.

111: Helvétius

112: cidadezinha e grande cidade—entendendo melhor nossas utopias e devaneios

113: sucinta fisiologia da máquina, até melhor que a mcluhaniana; Epicuro.

118: mendicância

128: Europa hoje (XXI)

129: sobre as abstenções eleitorais

131: sobre a precariedade da mercadoria no capitalismo avançado

132: Ampliar o quadro de professores? Que tal o contrário?

135: contra o mendigo e o bilionário; para entender a reforma agrária; tocquevilleanismo.

139: quando caminho com um bando, eu sempre vou atrás—desconfiado de que não me seguiriam

153: o supra-homem e o animal

154: cão e gato


A vaidade: tema recorrente, demasiado recorrente.

Homem significa: “aquele que mede”. Aquele que sabe que sabe que mede. Mas mais nada mede.

“O remorso é, como a mordida de um cão numa pedra, uma asneira.”

Só o trabalho faz o tédio.

Quase sempre os gêneros de aforismos obedecem à mesma seqüência.

“escrever bem e ler bem—essas duas virtudes aumentam e diminuem ao mesmo tempo” “A forma das frases indica se o autor está cansado”

“Para um livro é uma maneira conhecida de envelhecer o fato de descer a idades cada vez menos maduras.”

PARA O ABSTÊMIO MUSICAL: “Se ouvirmos música depois de termos sido privados dela por muito tempo, ela passa rápido demais no sangue, como um desses vinhos encorpados do sul, e deixa na alma uma embriaguez parecida com a de um narcótico que a mergulha num estado de semi-sono e de desejo” “acreditamos finalmente ouvir a música como se entrasse numa prisão onde a nostalgia impede um pobre homem de dormir.”

“Então—foi talvez em torno dos nove anos de nossa vida—ouvimos a primeira música”

“para o profano, toda música antiga parece se tornar sempre melhor e toda música recente passa a ter pouco valor, pois não desperta ainda essa ‘sentimentalidade’ que, como indiquei, é o principal elemento de felicidade na música, para quem não sente puramente prazer nessa arte como artista.”

“173—RIR E SORRIR—Quanto mais o espírito se torna alegre e seguro de si mesmo, tanto mais o homem desaprende a risada explosiva”

NIILISMO EUROPEU: “Uma vez que as palavras ‘moderno’, ‘europeu’ são aqui quase equivalentes, entendemos por Europa extensões de território bem maiores que aquelas que a Europa geográfica abrange, a pequena quase ilha da Ásia: devemos especialmente compreender a América, porquanto é filha de nossa civilização.”

“Se todas as esmolas só fossem dadas por compaixão, todos os mendigos já estariam mortos de fome.”

“As interrupções são os corvos que trazem alimento ao solitário”


Anotações de cunho pessoal:

A sombra do cigarro. Dimitri e um pouco de pigarro. Narradores prosadores comediantes. Discurso melodioso. A me(sca)lina das amenidades.

O metal é stravinskyano-romântico—Master of Puppets como encarnação disso, com seu solo diante do quê você procura com seu corpo o que fazer, e não acha, até a audição passar, boquiaberto. Ainda predomina esse tipo de objetivo entre as pessoas (vide meu apreço por Prisoner of Your Eyes, Cardigans, Calcanhotto… pelas fases posteriores do Megadeth, o carinho pelas lembranças suscitadas, mas ao mesmo tempo tem um tempo que venho me concentrando na técnica em-si, ou pelo menos no limiar. e.g.: Death).

De 26 a 28 de novembro de 2009

MELANCOLOGY: Black Metal Theory & Ecology – Scott Wilson (ed.), 2014.

“The theorist who connects the energetic model of the material universe with its atheological double is, of course, Georges Bataille whose system of general economy relates cosmic forces to human societies, inner experience and evil.”

“The founder of the idea of acoustic ecology in the 1970s is the composer and theorist F. Murray Schafer. In a chapter called ‘The Music of the Environment’, Schafer refers to two apparently contrary Greek myths concerning the origin of music. The most familiar myth, from Homer, accounts for the invention of the lyre by Hermes when he discovers that a turtle shell can produce sound.” “The contrary myth, from Pindar’s Twelfth Pythian Ode, concerns Pallas Athena who, upon hearing of Perseus’s slaying of Medusa, attempts to ‘connect’ with ‘the sorrowful lamentations’ of her sisters, and ‘framed the full-sounded harmony of the reeds that she might imitate with instruments the deep groans proceeding from Euryale’s fell cheeks’ (…)All music, according to this myth, is infused with death and mourning.”

“Imagine the agonies of Christ on the Cross multiplied to infinite proportions, the maximum of tragic intensity giving rise to measureless expenditures of energy in the form of sonic vibrations. This is the sound of the universe, the melancholic sound that constitutes the universe, the cosmic noise from which all form and structure derives as oscillations coalesce into dark matter, atomic matter and light producing the stars from which life ultimately, derives, a universe in which, with supreme irony, human forms of life will perceive divine harmony and mathematical consistency, the very image of creation that God sought to avoid, but through avoiding, in his tragic stupidity brings about.”

“This domain of excess (the excessive negation of being) and of absolute evil is therefore exactly the same as the absolute good of black metal itself: the expenditure of a sonic drive that propels a blackened self-consciousness, a melancological consciousness without being that is necessarily prior to any positive ‘ecological’ intervention in the ‘environment’ that could only repeat the process of its human exploitation and subjugation.”

“It is perhaps appropriate here to emphasise what the ethos of melan-cology is not: it is not a form of morality; it is not a set of rules relating to social behaviour, civic duty, code of conduct, biopolitical governance, nor does it relate to any form of socio-political order dedicated to organizing and improving human survival or the survival of any other form of (inter-)planetary life.”

“Ecology and economy are virtually the same word and when the former becomes the basis of the latter there is always the serious danger of a drift towards fascism because it is always a question of deciding who or what lives and dies usually on an aesthetic/utilitarian (or ends/means) basis.”

“For the entrenched and domestic Werther-ism of so-called ‘depressive/suicidal black metal’ risks collapse into the perfect commodity-form of private, solitary, defeatist quietism, leaving black metal ripe for critical re-territorialization as nothing more than ambient shoegaze dressed up with gothic posturing (something for lone wolves rather than for packs). In his polemic of 1931, ‘Left Wing Melancholy’, Walter Benjamin long ago flagged the quietistic implications of this emotion, lambasting the ultimately harmless and conciliatory aura of ‘tortured stupidity’ that it proffers as an inadequate response to capitalism.”

Badiou, Lógica dos Mundos

“The black metal kvltist chooses to drown the present in a fog of black bile, offering what Badiou terms ‘the paradox of an occultation of the present which is itself in the present’.”

“melancholy, melaina khole, or black bile, the humor associated in Hippocratic medicine and its Galenic, medieval and early modern inheritors with autumn, cold, solitude, night-time, old age, and a wildly variant affective spectrum: sorrow and anxiety above all, but also rage, lycanthropy, psychotic hallucinations, religious devotion, sexual jealousy, artistic inspiration, catatonia and mania.”

“To move from Exodus’s ‘Bonded by Blood’ to Beherit’s ‘The Oath of Black Blood,’ is to reject the jocular and homosocial bonds of friendship in favor of the sorrowful, creaturely solidarity of melancholy suffering.”

“Bracketing this personal hit parade, the Encyclopaedia Metallum indicates at least five bands simply called Melancholy from Greece, Mexico, Lebanon, Poland and Russia, not to mention Czech Republic’s Melancholy Pessimism.” Lituânia, não Líbano. Há ainda, em 19/11/2025: Beyond Melancholy (DSBM, Itália), Enthroned Melancholy (atmospheric black metal, Suécia), Evil Melancholy (black metal, Áustria), Forgotten Melancholy (gothic/doom metal, Romênia), Martyr’s Melancholy (deathdoom, EUA), Melancholy Cry (doom metal, Polônia), Oppressive Melancholy (experimental BM, Finlândia), Starlit Melancholy (atmospheric BM, EUA), Autumn Rain Melancholy (gothic/doom, Rússia), Blood of Melancholy (black metal, México), Meadows of Melancholy (atmospheric BM, EUA), Melancholy of Evil (BM, Brasil), Morose Months of Melancholy (BM, Ucrânia), Shores of Melancholy (BM, EUA), Tears of Melancholy (gothic, Suécia), Veiled in Melancholy (atmospheric post-BM, Dinamarca) e Void of Melancholy (atmospheric BM, Finlândia). Há ainda uma Melankoly black metal sinfônico do Líbano (op. cit.), Melancholie, atmospheric/ambiente holandesa, e Melancolie, gótico italiana.

“If we look at Melencolia I (1514), we see that Dürer’s angel has a noticeably dark face: she is not, as it were, ‘white’ but is quite literally a dark angel. This is because the blood within the body of a melancholy person was imagined to run black. As Marsilio Ficino puts it in the chapter of De Vita Libri Tres (1489) titled ‘How Many Things Cause Learned People Either to Be Melancholy or to Become So’, this is a result of a drying of the brain caused by agitation”

“As melancholy lost its humoral meaning and became an elite aesthetic mode of ‘sadness’, what was bleached away, literally, was its association with dark-skinned faces.”

“This achieves its zenith in the romantic cult of languid pallor and the crypto-sexualization of the symptoms of tuberculosis. Tom Moore, visiting Lord Byron in Patras in 1828, hears the poet declare ‘I look pale. I should like to die of consumption’; taking the bait and asking why, he is told ‘because the ladies would all say Look at that poor Byron, how interesting he looks in dying.’”

“Pythagorean worship of the numeral 4 begat the Empedoclean combinatorial model of the elemental composition of the universe out of earth, air, fire and water, and this led in turn to a Galenic medical practice fashioned after this Pythagorean/Empedoclean image, populated by 4r broad types of human beings: sanguine, phlegmatic, choleric and melancholic.”

“The mainstream media, predictably ravenous in its cool hunting search for hotzones radioactive with even the most notional cachet of authenticity, has predictably fastened onto the comedic potential of corpsepaint as a means to both co-opt and condescend to black metal as an extremist sub-culture. Exhibit A of this process is the thinly veiled transposition of Immortal’s Abbath into the avatar Lars Umlaut in the Guitar Hero video game franchise. Current retail for this series is over 2 billion dollars, and with more than 25 million units sold, it is safe to say that Guitar Hero constitutes the most widely disseminated representation of a black metal musician on this planet.”

“take a press photo of Immortal, replace battle axes with kittens, and you’ve got yourself a hilarious new image to use as an online avatar which shows that you’re aware of ‘that stuff but that you don’t take it too seriously.’”

“Through corpsepaint, black metal achieves the re-occultation of black blood as an immanent experience of asymmetric struggles between life and death, dark and light, then and now.”

“This transformation of the face of the entertainer into a cartoonishly legible form thus recalls the minstrelsy tradition of white European and American entertainers ‘blacking up’ so that they can look like African-Americans, a dialectical process that foregrounds the artificiality of race as a construction while still effectively reinforcing that construction’s normative force.”

“black metal theory awaits its rendezvous with both queer theory and critical race theory.”

“Obsessed as it is with thinking negation, negativity, hostility and failure, recent queer theory might yet constitute a particularly generative lens through which to think about the fetishistic circulation of the Third Reich as a ‘lost cause – melancholically embraced because it is lost – within black metal aesthetics.”

“At the level of scene politics, if the commentary of its pioneers is any indication, the Ursprung of corpsepaint may not lie in Norway, Finland, or Sweden but in Brazil: whenever the origins of this makeup style are discussed, mention is swiftly made of the foundational influence of Sarcofago’s debut album ‘I.N.R.I.’ (1987) upon the visual presentation of the first wave of Scandinavian black metal artists, who more or less copied the signature look from these citizens of Belo Horizonte: spiked bracelets, bullet belts, white cheeks, black circular eye makeup. Corpsepaint might well have been required in order for South American musicians to look sufficiently ‘vampiric’ and ‘ghoulish’, i.e. white—but even if corpsepaint is quite specifically about looking like a dead white person, its ultimate horizon gestures beyond racial legibility towards the species-being based project of turning the human face – any human face – into a skull.”

“In a dynamic of impurity familiar from the theorization of drag performance, this very falseness offers a violation of a boundary that reifies the very line that it also subverts through crossing.”


I had a dream, which was not all a dream.
The bright sun was extinguish’d, and the stars
Did wander darkling in the eternal space,
Rayless, and pathless, and the icy earth
Swung blind and blackening in the moonless air

Lord Byron,
‘Darkness’
(1816).

“Stanton Marlan in The Black Sun: The Alchemy and Art of Darkness (2005) approaches the notion of a black sun or Sol Niger and blackness not as a representation of the nigredo or blackness phase in the process of the alchemical opus that disappears when the work is completed, or in terms of Jungian psychology where the black sun of the nigredo phase is associated with suffering and the melancholic soul’s struggles with this shadow of darkness.”

“The Burkean sublime shares much with the darkness and terror of black metal’s arctic gothic atmospheres and resonates with what Eugene Thacker calls ‘the world-without-us’; a world neutral to humans which can be found ‘in the very fissures, lapses, or lacunae in the World and the Earth’, in ‘a nebulous zone that is at once impersonal and horrific’.”

“Kali, who represents the process of dying and is the ‘terrible Mother of the cremation ground’, is worshipped by the Tantrics who believed that, ‘sitting next to corpses and other images of death, one is able to transcend the pair of opposites (i.e., good-bad, love-hate, etc.)’”

“This essay focuses primarily on examining black metal’s presence in photographic images, drawings, and sculptural installations by three American artists: Grant Willing, Terence Hannum, and Banks Violette. It argues for a black metal art history that may be used to articulate how the language of black metal is used by artists to construct meanings.”

“The chorus, that is so common in classic rock, is rejected in many black metal songs in favour of a symphonic quality of alteration that forces the listener to constantly renegotiate their experience. Riffs repeat, but transform over the length of a track—which commonly reigns closer to ten minutes than the three minutes of pop music, long enough to build a dense and complex sonic landscape. The double bass drum frequently sounds like a racing heartbeat or blood rushing through my body.”

“Seen only from the back of the head, her hair is messed in a head banging nod to the speakers. In the distance where the two rows of amplifiers might meet there are no musicians mediating between the amps and the single audience member. In fact, the details between the individual and the technology in both ‘Black Diadum’ and ‘Descension’ appear to sink into the material of the pitch-black paper itself. It is formless: it looks like empty space. Yet here, exemplified by the texture within the ground of the paper substrate, Hannum allows the physicality of the media to resonate throughout the drawing, suggesting the artwork itself as a space charged with intense sonic activity.”


Caminhante sobre o mar de névoa

Burke

“This skeletal structure was a direct reference to both the Fantoft stave church’s burning in 1992 and the photographic representation of its charred ruins featured on the cover of Burzum’s 1992 album Aske.”

“Violette’s 2006 exhibition at the Maureen Paley gallery was initiated with an hour-long performance by the drone metal band Sunn O))) which took place on the ground floor of the gallery during opening night” “To attend a Sunn O))) performance is to experience a deep, pressure-filled amplifier massage penetrating your entire body as the band builds a dark, atmospheric, resonating sonic landscape felt long before and after it is heard. Adding to Sunn O)))’s performance at Maureen Paley was a vocal performance by Mayhem’s Attila Csihar, conducted entirely from within a sealed coffin made by Violette out of salt and resin. When the concert ended, the musicians exited unseen and viewers were finally admitted, like forensics, to witness the afterbirth.”

“We are left wanting […] for the sculptures raise expectations of sound, movement, fury, fame, only to render such prospects void by the absence of any.”

“Doom metal presents a music of tempo that is so grave that it negates tempo. Finally, drone metal, with its minimalist dissipation of all music into a monolithic, dense line of sound, presents us with the whittling away of all harmony into a single, thick, absolute tone, collapsing the musical spectrum into a dense black hole.”

“To give us an idea of how this unsound is different from an anti-sound or a super-sound, we could consider a number of examples in contemporary sound art, examples that cross genres, from black metal to avant-garde to dark ambient. Each can be understood as effecting different strategies that point to, but never, of course, arrive at, the unsound.”

“In one group would be works that utilize what we might call a strategy of invocation. Lustmord’s Black Star (from 2000 album Purifying Fire), Keiji Haino’s Milky Way (1973), Striborg’s Spiritual Catharsis (2004) [‘coldwave’], and Darkspace’s Darkspace II (2005) might be cited as examples.”

“In another group would be works that utilize a strategy of darkening. Raison d’Être’s Metamorphyses (2007), Nurse With Wound’s Soliloquy for Lilith (1988), Francisco Lopez’s Untitled series, and Thomas Köner’s Permafrost (1993) are examples.”

“In a third group would be those works that use a strategy of density. Sunn O)))’s Grimm Robe Demos (1988), Wold’s Screech Owl (2007), Winterkälte’s Structures of Destruction (1997), and Merzbow’s Merzbuddha (2005) are examples. Rather than adopt a subtractive approach, these works do the opposite, condensing, congealing, and clustering sound beyond its audible, or indeed, acoustic, capacity.”

“A final group would comprise works that utilize a strategy of writhing. Iancu Dumitrescu’s Medium II (1978-79; for double-bass), György Ligeti’s Ramifications (1968-69), Iannis Xenakis’ Syrmos (1959), as well as the spectralist work of composers such as Tristan Murail, and Gérard Grisey, might be cited as examples. In these works sound becomes sculptural, writhing, indefinite, flailing and formless. While the techniques may range from ‘micropolyphony’ (Ligeti) to stochastic mathematics (Xenakis), the result is that of acoustic metamorphosis, the continual undoing of sonic form. Xenakis’s scores, in particular, display this forming and de-forming quality of sound (indeed many of his sketches for sound installations look like the black avatar of Fludd’s celestial monochord). Here the abyss is the absolute writhing of sonic form, sound as the writing of the abyss”

Botanist

[ARQUIVO] A ESTRADA ASSASSINA (Tradução de The Killing Road do Megadeth)

De novo nos cercamos ao palco

Na velocidade do som nós vamos

Alimentando o ímpeto do povo

O gato grande deixou a sua jaula

De novo no ônibus

Pra pegar outro avião

Esse comportamento é doentio

Mas fazemos isso pela fama!

Eu perdi minha cabeça, eu perdi meu dinheiro (!?)

Eu perdi minha vida para a estrada assassina

A estrada nunca vai acabar

Sempre começa de novo

Outro show envolve a tensão

Outro grande amigo perdido

Sem expressão, como a neve

Não tem nada de mais na estrada

É só mais um esforço

É só que é muito comprida, isso é tudo

5 de fevereiro de 2011

[ARQUIVO] METALLICA!NDO ou A ODISSÉIA MAGNÉTICA

UMA CRÔNICA RETARDADA [ANA-CRÔNICA], MAS QUEM SABE ISENTA DE FALHAS, NO ESPAÇO-TEMPO: MEU SONHO REALIZADO EM SÃO PAULO

Rafael de Araújo Aguiar, de Brasília, madrugadas de 18 e 19 de janeiro de 2011, praticamente um ano depois do ocorrido:

A) ANTECEDENTES

Não escondo de ninguém que há algum tempo minha banda favorita é o Metallica (ironicamente, roubou o cetro, em minha preferência pessoal, do grupo que muitos consideram seu principal concorrente, o Megadeth). E se torna desnecessário expressar o quanto é significativo e elevado quando se tem a oportunidade de presenciar uma exibição dos seus artistas prediletos. Muitas vezes isso acontece quando eles excursionam pela América do Sul, pelo Brasil, e passam, conseqüentemente, pela sua cidade. Mas com o Metallica seria diferente: exigentes, fariam seus maiores fãs atravessarem o Brasil de Norte a Sul para que pudessem ser vistos. Essa frase não é uma simples alegoria: com shows agendados apenas para o Rio Grande do Sul e São Paulo (nem respeitaram o famoso Eixo Rio-SP de atrações culturais de renome!), aqueles das partes centrais e setentrionais do país que quisessem prestigiar um bom e velho thrash metal ou hard rock (a depender da fase da banda) precisariam desembolsar uma boa grana e energia. Isso, confesso, só aumentava minha vontade de estar lá, para depois narrar o quanto fora difícil e recompensador viver o momento! Só não esperava que depois de tudo não sentiria a necessidade de compartilhar os eventos, pelo menos não de forma imediata. Deixei o tempo correr e, 12 meses depois, o que era música em minha cabeça finalmente merece ser convertido em palavras – estou sereno o bastante para isso! Porque com as palavras, sabe-se, é preciso lidar com cuidado.

Soube da vinda do Metallica aproximadamente em setembro ou outubro de 2009, e comecei a mexer meus pauzinhos. Na realidade havia uma grande expectativa pela inclusão de uma data para Brasília na turnê brasileira do Death Magnetic (nome do último álbum da banda). Após a decepção gerada pelo anúncio oficial de apenas dois shows em território nacional, ambos longe daqui, soube que teria de pedir ajuda a meus pais por não estar trabalhando e não ter como obter o dinheiro para essa aventura. E o pior de tudo não seria o deslocamento, pois quando metaleiros se reúnem para fretar ônibus o custo baixa bastante. Mas as empresas que organizam essa variedade de mega-espetáculos são realmente exploradoras num sentido, eu diria, de capitalismo arcaico, com exceção da alta burocracia e dos lucros envolvidos. Porque tratar o consumidor como gado não é próprio, ou não deveria ser próprio, de um serviço de luxo contemporâneo. De luxo, sim, pois é uma ocasião especial, e nem todos têm as condições de pagar para usufruí-la. É claro que só vai quem quer, e não se pode reclamar de uma viagem até um estádio apinhado numa megalópole onde seria possível conhecer, nem que um pouquinho de longe e mais pelo telão, os lendários três sobreviventes da formação original (ou quase isso) do maior grupo de metal da História: James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich. Os preços não seriam camaradas sequer para o padrão classe média alta, com ingressos premium passando dos 500 reais, sem o valor da meia-entrada. Muito já se discutiu sobre a legalidade da questão das meias-entradas em atrações de música ou semelhantes, e juro que não entrarei nesse mérito, pois isso seria repetir literatura. Só o que preciso informar é que desisti, a princípio, sabendo que não havia mais a meia-entrada para pista premium ou mesmo para a pista comum, e que talvez não valesse a pena vir de Brasília para acompanhar o show das cadeiras do estádio. Agora não me recordo se elas também estavam preenchidas em seus valores de meia-entrada para estudantes. É bem possível. Foi duro ter de abdicar, depois de todas as expectativas geradas, mas ir ao Metallica parecia ter sido mesmo um devaneio temporário, sorte demais para ser realidade.

Semanas depois, entretanto, foi confirmado um segundo show paulista, um dia depois do primeiro, em atendimento à demanda gigantesca inesperada. (Fala a verdade, inesperada? Eu não duvidaria nunca do apelo exagerado de fãs e até de não-fãs por entradas para a volta do Metallica ao Brasil, depois de 11 anos – com direito a um “bolo” no meio do caminho, devido a uma desistência e cancelamento de apresentação em 2003, já depois de iniciada a venda de ingressos!) E a informação era de que as coisas seriam mais calmas dessa vez, pois dificilmente o estádio do Morumbi receberia lotação máxima uma segunda vez. Esperei ansiosamente pela abertura das vendas no portal da internet e novamente foi impossível a compra de uma meia-entrada para o setor mais badalado (entradas premium com desconto esgotadas na pré-venda!). Me contentei com a meia da pista comum. Não haveria excursões rodoviárias rumo a São Paulo, porque o sujeito que mais cuidava dessa parte se encarregou da fretagem de veículo apenas para o primeiro dia, antes que se soubesse de uma segunda data, e não manifestou interesse nem houve muita movimentação relativa ao segundo show. Ficou decidido, portanto, que eu iria de avião, porém como não pertenço a nenhum grupo sólido ou fechado, mesmo no meio do metal brasiliense, não combinei com ninguém em específico, e, quando pude contatar as pessoas mais próximas e que poderiam estar no mesmo hotel que eu quando chegasse a São Paulo – os músicos da banda cover de Metallica de Brasília, Fierce Fire –, soube que elas pegariam vôos que seriam uma opção questionável para mim, restando-me apenas o subterfúgio de encontrá-los já em São Paulo; ou seja, ir e vir por minha própria conta e risco (isso se verificaria uma boa idéia, pois fiz uma nova amizade já no vôo de ida, como veremos). Os integrantes da Fierce Fire eram três: Arthur Silva, vocais e guitarra-base; Hara Dessano, o guitarrista principal; e Renato Mendes, baterista, aquele com quem tinha a amizade mais antiga, desde os tempos em que iniciei meu inacabado curso de jornalismo. A banda se encontrava sem baixista no momento.

A compra foi por volta do dia 20 de dezembro e eu passei o mês de janeiro inteiro dormindo mal, pensando em todos os preparativos para o show, além, claro, de tentar projetar em minha mente cada emoção que invadiria meu corpo durante aquelas 2, somente 2, porém mágicas, horas de som ininterrupto. O último dia do primeiro mês do ano é que abrigaria esse marco. No meio do caminho, dia 16 de janeiro, ainda encarei um aperitivo, Deicide em Brasília! Confesso que uma das minhas maiores preocupações era com relação ao consumo de álcool: deveria aproveitar bastante a viagem e não me poupar de nenhum prazer, mas que isso não significasse perder a linha, prejudicar-me e ter muitas dores de cabeça depois, tendo em vista estar sozinho em uma cidade até então por mim desconhecida, com fama de violenta e caótica, com dinheiro e documentos importantes a resguardar. E seria lamentável se eu por algum motivo me encontrasse fora do ar, me perdesse ou não conservasse na memória algum dos minutos da experiência única que é ver a banda (“a” banda!) entrando no palco e percorrer todo o set list até a saideira (que apesar de perfeitamente previsível não seria nem um pouco monótona)! Então, tomei a precaução de conversar bastante com uma amiga por enquanto só de de internet residente em SP, a Natália “Bowie”; também cansei de analisar mapas da capital no Google Maps, e mesmo do restante do estado (uma vez que eu desembarcaria num aeroporto periférico, o de Guarulhos, em Cumbica, praticamente fora da cidade, e precisaria bolar uma forma de me deslocar para não pagar uma onerosa corrida de táxi, o que incluía aprender de cara a usar o intrincado sistema de metrô sincronizado com bilhetes para ônibus naquela capital). Para um pacato candango que mal sabe direito o que é um metrô, quem dirá um metrô superlotado, isso exigiria um bocado de atenção! Havia também o lado de “curtir as músicas”, na verdade estudá-las, memorizar as que eu conhecia menos, enfim, deliciar-me com a banda para chegar com as melodias na ponta dos cascos, porque a goela não seria perdoada na hora fatal! Obviamente, a etapa de convencimento dos pais já havia sido superada, de forma que entenderam o quanto isso seria relevante para mim e que, ao contrário de muitos filhos da minha idade ou até mais novos, eu nunca tinha feito uma viagem-solo, e seria ótimo para sair um pouco de debaixo desse mesmo teto e da rotina e previsibilidade. É, depois de tantos anos eu merecia um “presentinho de aniversário fora de época”… Eu voaria pela Webjet, chegando um dia antes, o suficiente para conhecer algo em São Paulo além da sede do evento, o Morumbi, e voltaria na manhã consecutiva ao show. Me hospedaria num famoso hotel para universitários e/ou aventureiros econômicos num lugar bem acessível, o Formule One, onde racharia um quarto com mais dois do Fierce Fire. A última coisa que faltava dizer nesse item “A” é que a sede do evento, o Estádio Roberto Pompeu de Toledo, era também o do meu clube de coração¹ e – se não era para ver um jogo da minha equipe – meu grande anseio era que conhecer o “templo” fosse acompanhado de uma emoção e sobressalto pelo menos comparáveis aos de uma final de Libertadores: bingo!

¹ [Nota 2025] À época.

B) EM TERRAS “ESTRANGEIRAS” [Duplo sentido: O METAL É SEMPRE UMA NO MAN’S LAND!]

A princípio pensei que a velha máxima, de que tudo de errado acontece consigo no dia em que o azar menos poderia atacar, estava se concretizando: meu irmão, a pessoa que combinara de me levar ao aeroporto, não aparecia de jeito nenhum em casa. Minha mala tão aprumada e eu, devidamente trajado, estávamos à espera de notícias do motorista da tarde. Não quis usar o telefone até que o relógio marcasse realmente uma hora que me parecesse desesperadora; e foi o que fiz. Diogo atendeu e disse que inesperadamente um amigo seu começou a prendê-lao em determinado local com papos intermináveis e solicitações fúteis, típicas de quem bebeu umas a mais e parece retirar prazer de empatar a vida de alguém que está atrasado para um compromisso sério!! Meu irmão me garantiu que iria livrar-se desse estorvo e dispensar o amigo bebum nesse exato momento em que falava, deixando-o em casa ou algum ponto próximo a ela (segundo o que entendi, esse amigo queria uma carona para um lugar mais distante que, se fosse realmente acontecer, atrasaria completamente meu check-in!). Para o bem desse relato, seja como foi, Diogo cumpriu com o acordado e me deixou não muito cedo no Aeroporto Internacional de Brasília, mas também não muito tarde. Lembro que até trotei, engoli em seco, bufei e tremi, na fila do bilhete eletrônico. Isso é fácil de explicar: nunca havia deixado Brasília sem outras pessoas ao meu lado, e se eu perdesse alguma coisa agora, se deixasse qualquer coisa, como a identidade ou os ingressos, cair do meu bolso, me sentiria frustrado até a morte! Reconheço que eu e a paranóia, exceto por alguns rompimentos esporádicos, convivemos muito bem um ao lado da outra.

Dentro do avião, foi fácil perceber o quanto o show do Metallica mexia com a vida de pessoas do país inteiro: vários ali estavam indo para fazer o mesmo que eu, e logo entabulamos conversa. Em especial, eu e um trio de pessoas aparentemente da minha idade ou um pouco mais novas. Eram da Ceilândia. A única pessoa com quem falei depois desse dia e de cujo nome me lembro é o Philippe “D.R.I.”, como gostava de ser chamado (de Dirty Rotten Imbeciles), que comentou que ainda pretendia voltar a SP para ver o NOFX, dali a um ou dois meses. Como seu amigo estava com uma camisa do Palmeiras, e eu com a do meu clube, o papo logo recaiu para esse lado, e a garota que estava com eles não participou muito. O Philippe era flamenguista. Ambos iriam nas duas datas do Metallica e se hospedariam com um tio. Separamo-nos meia hora depois do desembarque, mas trocamos telefones. Soube que não iria precisar levar a efeito meu complicado cálculo de horários e estações a fim de chegar ao hotel com menos de 10 reais gastos (por causa do sistema de bilhete único!), mas que seria muito mais conveniente pagar 30 reais para pegar um ônibus que me deixaria virtualmente na frente do referido hotel, que passava de 2 em 2h, e dali a 40 minutos reapareceria na frente de Guarulhos. O engraçado é que soube depois que se eu rachasse o táxi com alguém poderia ter gastado ainda menos, o que não correspondia à absurda estimativa da Natália de uma corrida de 100 reais entre Cumbica e o Centro! Telefonei para ela e combinei de ligar outra vez quando me assentasse no hotel: Nanee Bowie seria minha guia turística por uma noite nos bares da Rua Augusta e nos points de relevo da Paulista, me apresentando ao maior número de loucuras possíveis. Ou iríamos desfrutar bem pouco, até o horário dos últimos ônibus do dia, ou viraríamos a noite inteira, e a segunda opção foi afinal de contas a eleita. Preferia perigar me sentir cansado no maior show da minha vida e ter esse convívio com ela e com a vida noturna da cidade esticados do que simplesmente achar depois que perdi grandes oportunidades e que não voltaria a São Paulo tão cedo. Eu sabia que mesmo que não me restasse mais energia eu a tiraria de algum lugar quando as músicas do Metallica começassem, assim mesmo, sem nenhum argumento científico ao qual me remeter, apenas com uma convicção sobrenatural no êxito do meu plano ébrio mirabolante, convicção que, como veremos, não era lá muito infundada…

A primeira pessoa, as primeiras pessoas, que encontrei já no saguão do Formule One foram o guitarrista do Fierce Fire e sua namorada e um amigo da banda que o Renato disse que eu conheceria, e que precisava mesmo conhecer, pois era uma peça, o Kleuber. Subi para meu quarto no segundo andar, e nenhum dos dois que dividiam as diárias comigo estava. O Arthur já tinha se deslocado para o Morumbi, pois veria o Metallica nos dois dias. O Renato logo estaria de volta, havia saído com o pai para comer ou passear em outros lugares. Arrumei as coisas no quarto, liguei para minha mãe e para a Natália, desci, fumei um pouco no pórtico do hotel e vi a gremista radicada em São Paulo que gosta de David Bowie aparecer e gentilmente servir de bengala a este cego que mal podia imaginar o que iria encontrar nas esquinas e botecos desse centro amalucado… Infelizmente não serei muito preciso nessa narrativa, mas garanto que isso não guarda a menor relação com o consumo de álcool: foi uma noite até agora jamais repetida em minha vida em que bebi cerveja por 17 horas consecutivas sem me sentir alcoolizado, embora bastante eufórico, naturalmente, a cada minuto, me sentindo mais como uma criança, por causa das conversas sobre o Metallica e as diferenças da vida urbana paulista e da (ausência de) vida urbana brasiliense. Foram muitos os bares em que abrimos conta, e eu retribuí esse grande favor da Natália de me “amparar” naquele ninho de pessoas e poluição interminável (embora eu não tenha presenciado engarrafamentos, chatices e grosserias dos transeuntes – do que eu sinceramente não esperava me esquivar, quando pensei nos costumes de uma cidade tão grande). O fato é que as pessoas podiam ser relativamente indiferentes a você, pois estavam acostumadas com todo tipo de cidadão, turista ou aberração possível, enfim, a um circo diante de suas caras todo santo dia, cosmopolitas que eram, mas uma vez solicitadas se mostravam polidas e de uma elegância que eu imaginaria ser viável apenas em Buenos Aires ou coisa do tipo. Não recordarei tantos nomes (acho que Augusta e Paulista são, em si, suficientes). Só sei que nada ali podia ser posto no mesmo patamar do sossego (eufemismo para tédio!) candango, onde o medo de ser assaltado por ser o único alvo na rua à noite é o oposto desse lugar que, às quatro da manhã, parecia a muvuca de um recreio de escola, com pessoas indo e vindo num fluxo incessante. Eu só não achei esse continuum mais assustador durante aquele dia porque não tive tempo de raciocinar que era simplesmente uma situação perpétua! Em nenhum dos 365 dias haveria calmaria naquelas ruas. Pode parecer irritante para alguns essa aparente tentativa, por minha parte, de engrandecer uma ligeira visita por um lugar tão prosaico e, para muitos, estúpido, velho, ultrapassado. Mas eu senti como se não tivessem sido 3 dias, ou 1 e meio, a se considerar que cheguei ao fim de uma tarde e me despedi no transcurso de outra manhã, mas vários deles! Após essa maratona de cervejada e os mais variados papos, com pessoas se retirando e voltando, partindo e não mais vindo ou simplesmente aparecendo tarde demais na história, ali estava um Rafael um tanto mais maravilhado com a vida e uns 80 reais mais miserável, de volta ao pórtico do hotel, não bêbado-bêbado, porque de alguma forma o ritmo lento e comedido dos goles e a espécie de ar úmido de São Paulo o impediram de sair de si. Ou talvez fosse o juízo, o intenso zelo com que me propus a atravessar essa viagem sem perrengues e com sensação de dever cumprido ao máximo. A medicina ou meu discurso não explicariam, deixa pra lá! Enquanto o taxista (da minha ida ao aeroporto, dia 1 de fevereiro, pós-show) espirrava, só para citar, reclamando das partículas de poeira, eu sentia minhas narinas desentupidas como nunca antes, como se só então eu me desse conta de que vivendo no cerrado eu estava sempre puxando menos ar do que a capacidade natural dos meus pulmões permitia. Estranho, deveras!

Natália se foi (depois de ter ficado um tanto íntima do senhor Kleuber!) – tendo chegado a cogitar comprar a entrada para o show, pois seu primo de 11 anos começava a gostar da banda por causa do Guitar Hero; mas ter de comprar outro ingresso pra ele lhe quebraria as pernas, então ela mudou de idéia, se despediu e desejou um bom show – e então todos pareceram perder o ânimo. Simplesmente todo o pessoal do hotel foi dormir (os que ainda não tinham ido, mas o Renato e outros mais comportados já se encontravam no oitavo sono) e repor as energias. Os últimos a sair foram uns caras de outros quartos que vieram de Manaus (!) para ver o Metallica, que já estavam se dirigindo ao aeroporto, não sem antes descreverem tudo de mais espetacular que viram na noite de sábado (meu show era no domingo). Tão felizes estavam que um deles parecia pouco se importar com o bico desse tamanho que a namorada amuada fazia na hora de entrar no táxi, gabando-se de que ela não sabia o que estava perdendo, se trancava no quarto do hotel e deixava de conhecer as pessoas, não suspeitava de que nós vivíamos uma coisa única, pois o mais provável é que nunca voltaríamos a nos ver de novo, mas que esse diálogo estaria registrado na história do mundo e que não poderia ser deletado. Esse “nós”, claro, era o jeito do amazonense se referir a todo e qualquer fã fervoroso do Metallica que estava vindo de praias distantes (ou mangues distantes!) para aproveitar ao máximo cada minuto, sem recusar encontros e contingências divertidas, mesmo que isso lhe custasse um namoro.

Pois bem! Depois dessa rica apreensão (que eu realmente demorei para mastigar – na hora fiquei pensando se tudo aquilo não ia entrar por um ouvido e sair pelo outro!), eu de repente me vi sozinho empunhando uma latinha na frente do Formule One, numa cidade grande que não pára, apesar de as pessoas dormirem (só mudam os rostos)! Finalmente percebi que também eu não era nenhum Highlander e precisava me recolher, por pouco tempo que fosse, me desligar daquela simbiose entre mim e todo aquele concreto – me pareceu que se dependesse exclusivamente de mim, nunca iríamos parar de circular (eu e São Paulo éramos um só)… E como o tédio até a hora do show iria grassar (principalmente porque um dos lugares que mais gostaria de conhecer, a Galeria do Rock, pelo menos foi o que me disseram, fecha aos domingos), era a hora apropriada para uma sesta. Novamente, ninguém na área ou, antes um Renato bastante abatido, quase sumindo debaixo das cobertas, com inflamação na garganta, que já não sabia se estaria no show de logo mais. Foi ao hospital tomar injeção para ver se melhorava imediatamente (sim, de fato isso ocorreu e ele não se desgraçou), e enquanto isso eu cometi a atrocidade de baixar a temperatura do ar condicionado do nosso quarto para DOZE graus, sem perceber, apagando em seguida. Fui despertado pelo Hara e pelo Kleuber quase dentro de um esquife de gelo! Duas ou três horas, no máximo, foi o que eu dormi, mas encontrei um ambiente diferente. Voltei a me sentir apenas uma pessoa que mal e mal se adaptava ao ambiente, fusão desfeita com aquele circo louco de carros e barrigas esfomeadas. Porque antes parecia que eu poderia rir e beber cervejas até o mundo acabar, e todos do hotel me cumprimentariam com um sorriso. Mas toda farra chega ao fim – claro que a principal sequer havia começado, mas voltei a me centrar na sobriedade da missão (uma farra séria!): o Metallica exigiria um dia menos hedonista, decerto, porque eu vim para testemunhar cada segundo de uma obra artística na qual eu não devia interferir, muito menos “arruinar” com algum entorpecente.

Fui com o Arthur primeiro ao Banco do Brasil e depois a um shopping qualquer da cidade, a pé mesmo, para almoçarmos. Depois todos da banda estavam reunidos num táxi que ficou bem barato. A única ressalva é que todos iriam assistir o Metallica na pista premium menos eu. Uma garoa chata resolveu aparecer antes de sairmos do carro, mas eu achei que não era tão incômoda a ponto de comprar aquelas capinhas descartáveis. Quando me vi do lado de fora do Morumbi exclamei para mim mesmo que estava no meio-termo mais perigoso daquela viagem: entre o tudo e o nada, pois se de repente sumisse meu ingresso seria um desapontamento inigualável, um “quase” bem acre de se engolir! Também imaginava, nas minhas melhores perspectivas, que encontraria uma aglomeração de cabeludos malucos do lado de fora e conversaria bastante antes de entrar, só que o Morumbi era tão gigantesco e a chuva parecia afugentar tanto os outros que eu não encontrei aglomerações e decidi passar de uma vez. Lacrimejei quando olhei para o entorno de dentro, pela primeira vez. Não quis bancar o são-paulino emotivo diante de um público numeroso, contudo, para não dar margens a piadinhas… E eu não cansei de ir e vir de um lado a outro daquela imensa pista ou tablado, lona, colocada em cima do gramado, para me locupletar, esbaforido, com a sensação de ser um jogador cobrindo várias funções na mesma partida, marcando e depois atacando, reconhecendo cada montículo de grama do campo. Ah, sim, a grama! Pude arrancar um tufo quando me aproximei do escudo do São Paulo Futebol Clube, onde terminava a lona (e, se querem que faça mais uma dessas observações rápidas entre parênteses, não levei câmera fotográfica, não registrei nada disso, mas agora vocês vêem que 1 ano não foi suficiente para avariar meu HD, que era o que realmente importava: gravar tudo na retina e depois estocar essas informações no meu precioso disco rígido, que nem milhões de cervejas seriam capazes de formatar!).¹ Eis que, justo quando admirava aquele ícone (o escudo do meu time, de aproximadamente 15 metros quadrados, rente ao solo, próximo a um dos setores de arquibancadas), centenas de vezes visto apenas pela TV, foi que encontrei por pura casualidade um fã de Metallica que foi quem me apresentou à banda, em 2001! Outrora melhor amigo, não mais meu vizinho, não deixa de ser inusitado e ao mesmo tempo justo, perfeito, que o destino nos quisesse fazer esbarrar tão longe de nossas casas. Um cumprimento entre mim e o Aloísio foi sucedido por saudações a seus amigos, todos de capas de chuva e que diziam querer “pular o show do Sepultura”, pois não vieram para isso. Aparentemente, tinha um grupo com quem curtir o show. Mas não queria estar com aquela galera, com quem pouco me identificava, que não parecia curtir o Metallica exatamente do jeito que eu curtia e ainda curto, do modo sujo e agressivo que eu escolhi para apreciá-lo, da maneira deferente e old school com que eu insisto em me referir ao grupo. É, a música preferida do Aloísio é The Outlaw Torn, algo impensável para quem sabe, como os próprios membros da banda, o posto secundário ou mesmo terciário que ocupam os álbuns Load na indústria fonográfica, ou diante do grande público (no fim das contas, essas coisas são a mesma coisa, porque não há populacho sem os barões das gravadoras e eles precisam entusiasmar alguns banguelas meio surdos para vender seu peixe!). Então eu me dirigi ao banheiro, prometendo voltar, mas preferi ir me posicionar no canto oposto ao que eles escolheram para acompanhar o show. E cada vez mais pessoas que vinham chegando impediriam qualquer tentativa de procurar quem quer que fosse, mesmo se eu quisesse! Era quase verdade que para se situar ali o jeito era driblar para um lado e para o outro, como um jogador que encontra todos os companheiros sob cerrada marcação. A parte de não tomar uma cervejinha para ver os shows (pois eu queria muito ver o Sepultura, banda de entrada, também!) não se devia exclusivamente à possibilidade de ficar “bobo demais” de forma indevida, mas a um problema que tenho, e que penso ser mais acentuado em mim do que em qualquer outra pessoa: o de me dirigir ao banheiro a intervalos cada vez mais curtos conforme vou virando a bebida, sem poder mesmo reter a urina, porque isso me deixa quase paralisado de dor, sem poder andar ou pular. Não queria estar desconfortável e pedindo para que o show passasse depressa, isso seria contraditório demais depois de toda a luta para estar ali! Estipulei 1h30 antes da hora marcada para o Metallica, ou um pouco menos que isso (porque não sou inglês) como uma boa margem de segurança, e de resto me limitei a fumar um ou outro cigarro. O Sepultura começava agora a se apresentar, a chuva diminuía até a intermitência de pingos esquizofrênicos, e eu tinha a certeza de aproveitar uma boa banda, ótima banda, brasileira e de respeito, para me elevar em êxtase, ainda de forma tímida, é verdade, sem pressa, ciente de que o ápice viria em hora melhor. Não podia mesmo agitar demais, primeiro porque só agora sentia mais que antes o cansaço por tudo aquilo que havia feito, virando a noite daquele jeito, comendo pouco, tendo deixado de repousar (como se eu fosse conseguir dormir a madrugada inteira trancado no hotel, com a cabeça a mil!), e certo princípio de cãibra nos braços, dores nas juntas, nas pernas, e sabia que ficaria em pé sem ter onde escorar por várias horas.

¹ [Nota 2025] Engraçado como 2010 ainda não era uma época de ubiqüidade de celulares com câmera!

E se o leitor realmente está se perguntando se eu fiz uma boa escolha ao me desfiliar da turma do Aloísio (e como já estava separado do pessoal da Fierce e de qualquer outro, se foi apropriado passar o show sozinho), afirmo que fiz exatamente o que quase sempre faço (no show do Megadeth foi a mesma coisa!), e não poderia imaginar nada melhor do que não parar para conversar com ninguém ou simular algum tipo de reação, positiva ou negativa, em relação a qualquer coisa, que não fosse exatamente aquilo que eu estava sentindo, só para agradar os outros, como tantas vezes acontece! Apesar de ter puxado papo com inúmeros grupos e apurado que um grosso contingente provinha de regiões do interior como Campinas, e que o Morumbi àquela altura tinha mais corinthianos do que qualquer coisa, eu sabia que aquele momento era de mim para mim mesmo e que não cabiam interferências externas. E após o show do Sepultura, com o atraso do Metallica e o escurecimento do céu, esse cansaço crescente foi apertando, de forma que quase me arrependi de todo esse auto-isolamento e achei que não seria uma boa noite. Mas essa ligeira apatia seria pulverizada e convertida em cinzas quando de repente as luzes do local foram totalmente apagadas (e senti muito medo, então, de eventualmente desmaiar e ser pisoteado!) prenunciando a entrada triunfal do quarteto mais importante. Os primeiros acordes não deixavam dúvidas: eu extrairia energias de onde fosse preciso, uma certa anestesia estava já sendo inoculada pelo meu próprio sistema de defesa; e se eu tivesse de pagar alguma coisa por isso, que fosse depois, bem depois de sair dali! Aí sim eu enfrentaria 10 dias seguidos de ressaca de bom grado, quando já estivesse em Brasília e esse momento fosse parte do passado gostoso de lembrar! Não sei mesmo como eu me sentia tão detonado ao fim da primeira música, Creeping Death, que achei que não conseguiria mais erguer o braço direito, e como eu estava incorporado por uma entidade na décima primeira música, de forma que poder-se-ia pensar que descansei a semana toda esperando apenas a hora de One, minha faixa preferida! Ou seja, a cada música que passava eu me sentia mais revigorado, uma espécie de Benjamin Button do Metal! A bateria de batidas de cabeça para o violento trecho final de One excedeu todo o “treino” a que me submeti em casa, foi insano! Retirei meus óculos e não parei de me contorcer para todos os lados ao ritmo do thrash mais encardido do …And Justice for All, e talvez do universo!, sabendo que aquela era a apoteose. E que havia esse tempo todo um tanque energético em stand-by aguardando o gatilho, que foi disparado junto com os sons de metralhadoras e morteiros da introdução da faixa (ainda estou falando do hino anti-bélico One!). Parece-me que o veterano Lars Ulrich não tem o mesmo ímpeto para gastar, mas isso já nem tinha tanta importância… Confesso que me constrangi, tendo de me impedir de me entusiasmar, por uma questão de honra, sendo ainda assim trabalhoso fazê-lo, nas canções mais marqueteiras do Metallica, que agradavam sobretudo os casaizinhos que eu sentia serem muito mais fãs estilo Aloísio do que headbangers, penetras no espetáculo (se bem que ultimamente os verdadeiros metaleiros andam tão escassos que eu devia ser o penetra ali!). Mas que se dane. Fuel e Nothing Else Matters¹ quase se desmancham como episódios inofensivos do que no geral era um impecável massacre, que, afinal, precisava ser intercalado com essas “baladinhas”. That Was Just your Life felizmente mostrou que o Metallica ainda sabe ressuscitar o ímpeto dos anos 80, se os músicos entrarem em acordo, se é isso realmente que eles querem. Sad But True e Welcome Home (Sanitarium) apresentam a sintonia perfeita entre a velha guarda e os que estavam ali por causa da influência assombrosa do Metallica no mundo pop que se deu desde o lançamento do [untitled]/Black Album. Porque Welcome Home, apesar de ser de uma fase pregressa, apresenta já a característica de olhar para os dois lados, vista no álbum negro: o peso, sim, mas o verniz também! Não faltaram os clássicos que seria imperdoável ver de fora, como Ride The Lightning, Fight Fire With Fire, Master of Puppets (que eu homenageava através da minha camisa, sem perceber na hora, porque nada mais me importava além do som e do rosto do James no telão – e dos punhos do Hammett, eventualmente, cabendo ao Trujillo uma leve figuração, ideal para ele, ideal aliás para qualquer baixista)… E até o tradicional cover de Diamond Head, embora fosse com a inesperada Helpless! Esse encontro assimétrico, em que eu venero os que estão lá, mas no qual eles gritam o nome da cidade, e nunca o meu (se bem que eu era São Paulo naquele momento!), só podia mesmo terminar com dois petardos primitivos, Hit the Lights e Seek & Destroy (que me fizeram prometer que, se um segundo encontro acontecesse, seriam objeto do meu tributo, com uma camisa do Kill ‘em All, da próxima vez). E eu já nem sabia como saía do chão com essa história de fazer um escaneamento na cena daquela cidade àquela noite, procurando alguém pra começar uma briga (primeira estrofe), porque achei que o gás final fôra dado em One, lá atrás! Só que a loucura é contagiosa, e eu só via gente energizada ao meu redor, então achei que não seria falta de nobreza roubar um pouquinho da deles. É verdade, também, que, depois, já mergulhado no silêncio (pois ainda estava em êxtase e sequer ouvia os bochichos das pessoas ao meu redor), eu demorava 10 segundos para dar dois passos e precisei remar na contra-mão das pessoas que saíam do estádio, rumo aos banheiros. E que depois não sabia se cantava ou não, junto com os são-paulinos, no túnel, que o Corinthians não tinha nenhuma Libertadores e que por isso não precisava ser levado a sério.² O Metallica merece vários estudos de caso: como pode agradar a tanta gente tão diferente?!

¹ [Nota 2025] Curiosamente hoje eu aprecio muito mais essas músicas dos anos 90!

² [Nota 2025] Não demoraria muito para ter (2 anos e alguns meses, para ser exato).

Estranhamente, me senti em casa. Sim, porque não parava de pensar o quanto eu era uma ilha ali, o quanto era absurdo penar tanto para ver apenas 2h, ou quiçá 1h40, de 4 excêntricos empunhando instrumentos pouco ortodoxos, que não emitiam nada, porque o que emitia alguma coisa eram caixas monstruosas bem longe da banda; os responsáveis por todos os transes eram muito menos místicos do que quereríamos, eram computadores, fios, máquinas, engenharia fina, cálculo frio… Agora se pergunte se o fã não se sente vingado de toda essa impessoalidade quando se vê nas letras…

Dormi pouco, reencontrei o Philippe no aeroporto, também voamos de volta juntos embora não tivéssemos combinado nada disso, e até apertamos a mão do Rodolfo ex-Raimundos e Rodox, que quase passa despercebido em meio àquela gente, sem fãs nem moscas rondando sua cabeça, andando com sua esposa entre as lojas, prestes a embarcar sei lá para onde (outra grande ironia, chegar a conhecê-lo longe da capital de Brasília, onde nós dois crescemos, embora ele seja de uma ou duas gerações anteriores à minha). Até voltei mais rápido do que imaginava à morosidade candanga, a ouvir outras bandas que destoam do padrão Metallica (a meu ver, isso iria demorar, depois da magnitude do concerto!). Mas ficou algo pendente e entalado. Não quis descrever tão pormenorizadamente por muito tempo tudo que vivi. Acho que fiquei com medo de que tudo isso se diluísse com comentários dos outros, que não poderiam imaginar com fidedignidade minha experiência difícil de pôr em palavras… Eu até esqueci de dizer, por exemplo, que a garoa fina cessou completamente logo após o “até a próxima!” do Sepultura… Como se o Metallica controlasse até o clima. É claro que esses detalhes só parecem poesia na visão dos presentes ao espetáculo. Só o tempo é que romantiza de uma forma menos pitoresca essas facetas, e nos permite quebrar o silêncio! I’m not, anymore, trapped under ice!

HIDEOUS GNOSIS: Black Metal Theory Symposium 1 (blackmetaltheory.blogspot.com) [best quotes] – Edited by Nicola Masciandaro

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Questions may be directed to: hideous.gnosis@gmail.com

“Black metal, whose shriek of birth occurred in the 1980s and achieved full articulation in the early 1990s, represents a return to orthodoxy after an interlude of laxness. The enemy was not only to be found outside of the metal community, but also within.”

“The lexicon of black metal is comprised, to an extent unmet by other forms of music, of references to the enduring, the abiding, and the transcendent: the arctic tundra, the unyielding night of the northern winter, virgin woods and wastelands, stone, mountains, the moon, and the stars.”

“The heaviest metal found on Earth is uranium; enriched uranium is plutonium, a substance that conjures up the Lord of the Dead. Heavier elements occur only in space, where Pluto mournfully orbits the Sun at a distance of 3,666 million miles. Somewhere still farther off in the void floats the philosopher’s stone, black metal.”

“The black metal that was born in Scandinavia in the mode of Fortification¹ can be termed Hyperborean Black Metal. Hyperborean Black Metal is lunar, atrophic, depraved, infinite and pure. The symbol of its birth is the Death of Dead. Its tone is Nihilism and its key technique is the Blast Beat.

[¹ Banda praticamente impossível de encontrar. Checar Eternal Fortification no M-A, porém!]

Today USBM stands in the shadow of Hyperborean Black Metal. The time has come for a decisive break with the European tradition and the establishment of a truly American black metal. And we should say ‘American’ rather than ‘US’: the US is a declining empire; America is an eternal ideal representing human dignity, hybridization and creative evolution.”

“Hyperborean Black Metal is the culmination of the history of extreme metal (which is itself the culmination of the history of the Death of God). The subject of this history may be compared to a mountaineer, maneuvering over and across the various terrains of thrash, grindcore and death metal – or rather, carving these terrains into the mountainside – and striving to reach the Haptic Void, dimly understood but strongly felt, glimmering brightly at the summit.”

“Transcendental Black Metal is in fact nihilism, however it is a double nihilism and a final nihilism, a once and for all negation of the entire series of negations. With this final ‘No’ we arrive [in] a sort of vertiginous Affirmation, an Affirmation that is white-knuckled, terrified, unsentimental, and courageous.”

“The infinite is everywhere and cheap. It is the finite that is rare. It is the finite that is peculiar to humankind. Finitude means confronting what is present at hand authentically and doing what is honest with the means one has at one’s disposal. The solar nourishes the finite. The finite is born, strives, and dies.”

“Transcendental black metal sacralizes the penultimate moment, the ‘almost‘ or the ‘not yet’, because it has been found that there is nothing after the penultimate moment. The penultimate moment is the final moment, and it takes place at every moment. The fabric of existence is open. There is nothing that is complete; there is nothing that is pure.”

“Depravity is dissimulation; courage is authenticity. Courage has no image of itself. It is trailblazing. It has no path before it. Its only trace is the wake it leaves behind.”

“After the dust settles, and the work of modernity and postmodernity is done, and the divisions between high culture, mass culture and counterculture have been obliterated, what is left? A single, shining Culture which is True, Good, and Beautiful.”

Teutoburg Forest

“The primary level of decay conveyed in black metal concerns the predisposition toward matters of the human body’s decomposition. A recurring scenario involves the ritualistic debasement of the decomposing corpse at the hands of the living, in what can often be understood as a de-sanctifying ritual that rids the rotting corpse of its illusory spiritual wholeness.”

“Second, it can certainly be said that black metal, in its varying and perpetually evolving states, employs a literal decomposition and decay of its own presence” “Beyond merely producing a record that sounds grimy, faraway, muddled, etc., these artists create a presence that is wholly separate from the music.”

“It is only after disfigurement and debasement of the corpse take place that necrophilic urges can emerge, in which the corpse is wallowed in, raped, or sodomized in a ritual of great satisfaction, as in Decay’s song, Copulation With the Gutted Corpse”

“a great deal of anti-Christian black metal maintains a knowledge of such objects that are lost to the now predominant rabble of evangelical Christians, whose masses often take place in fluorescent-lit recreation centers and whose priests often wear sweatsuits.”

(*) “For a beautiful simultaneous satire/homage of the life of the suburban black metaller, see the gorgeous black metal montage of Harmony Korine’s 1999 film Gummo.”

“If we were to define a degree zero of Black Metal politics then it would be an unstable amalgam of Stirnerite egoism and Nietzschean aristocratism: a radical anti-humanist individualism implacably hostile to all the ideological ‘spooks’ of the present social order, committed to creating an ‘aristocracy of the future’, and auto-engendering a ‘creative nothing’.” “Of course these are often ‘spooks’ associated with the extreme right, Nazism, fascism, and ultra-nationalism. Whereas Stirnerite individualism might be regarded as anarchist, or at best indifferent to politics, this racial-national metaphysics is often, although not always of course, deployed to re-territorialise and establish a ‘grand politics’.” “the critic from the left can safely handle and enjoy Black Metal and proclaim their sophistication by condescending to the naiveté of such adolescent political posturing which ‘unfortunately’ marks an otherwise admirably radical aesthetic.”

“It should be noted that a Gramscian politics of hegemony has been invoked by the far right, in particular in France by Alain de Benoist, ideologue of the ‘new right’. His culturalist racism and anti-Americanism bear many similarities to the views of Sale Famine, however Famine’s elitism and anti-popular stance incarnate a peculiarly constrained vision of hegemony – one occult and elitist.”

(*) “Famine states that the next Peste Noire album will be ‘pure reggae’ (Travis Interview), inhabiting his usual mode of deliberate provocation, but also implying his own ability to define a true Black Metal, in quasi-Duchampian mode, as whatever he nominates.”

Carl Schmitt, Theory of the Partisan, 1963.

“The apocalypse leads to the post-apocalypse. Contrary to this, Armageddon is the site of the terminal end.”

“What does this have to do with black metal, or with Mayhem’s demo title as a founding gesture?”

“Hence the absence of the usual dialectical suspects: not void, not synthesis, not the not-not of the negation of the negation.”

“It is the war fought between two totalities, between black metal’s endless antagonism and liberal capitalism’s eternal present.”

“it predicts and describes a final battle, yet it grasps that final battle as one which has been there all along.”

“Therein the desperation of black metal vocals: it’s just the howl of the thought that this is at once the worst of all possible worlds and the only possible world.” “In this way, despite its moronic and frequent attempts to be Fascist and despite the fact that we should wage total war against all such attempts, it never can be.” “all non-Nazi black metal is still NSNSBM (not so National Socialist black metal).” “Black metal dreams a sovereign, and, in the next breath, severs his head to spatter the blood across all. What remains are the headless horsemen of the apocalypse, the acephalic leaders of a chiefless crowd marching off to permanent war.”

“the act of becoming headless opens the way for the second gesture, that of the cephalophore,¹ the head-bearer, the one defined not by the condition of being without head but by the act of picking the head back up.”

¹ Botânica: que tem flor em forma de cabeça.

“Black metal makes appear as decision what is in truth a general state of affairs, not just of its imagined post-apocalypse but of the systemic chaos and non-direction of the contemporary world. Hence the performative theatricality: the head already removed, the axe’s swing is a magician’s trick, tracing the negative space there all along between the body and the head.”

“But despite its recurrent anti-intellectualism and penchant for uncritical reenactment of stale dark vitalist tropes, black metal is smarter than it thinks. Appropriately for its Satanic grounding, it shares much with the integral atheism of de Sade: to take on abstraction and the generic, you have to do so on its own terms.”

“I like some bands from the U.S. but never would have conceived of hording them altogether under some catchy, marketable little moniker like USBM. It implies a sense of unity, which I cannot see manifesting in the States on any comprehensible scale.”

“He Who Crushes Teeth, Bone Awl: I think the first band to make a uniquely American statement in Black Metal was Grand Belial’s Key. They use the same method as the Europeans in not just bending Death Metal a little bit but really making that leap, playing music that is rooted in the history of the country. Even though their music falls nicely into Black Metal as category, when I listen to Mocking the Philanthropist I hear American folk music, I hear the racial tension of the south, I hear hot American climates and landscapes. I hear the civil war. They did a fitting job including the surrounding culture into the sound, which most American bands completely fail to do.”

“Blaash, Bahimron: (…) We become soulless to a point – a hollow meandering consumer

who thinks they are xtian until theyre rapin’ their daughter one day . . . School shootings, mass murder, serial killers, suicide – all of the ‘real subjects’ – not Viking heritage or killing the ‘Christians’ in lyrics”

“Jordan, Wrath Of The Weak: In some respects, it seems like USBM has taken the destructive side of black metal and turned it against itself, so instead of church burnings and murders it manifests itself in the hatred and self-loathing that’s present in a lot of the acts which get labeled as suicidal/depressive/etc. I suppose you could take that as a reaction of sorts against our current habit of ignoring and/or medicating away any mood that isn’t neutral or somewhat positive.”

“Andee, Aquarius Records/tUMULt: Most black metal musicians did not grow up listening to black metal. Many might not have listened to metal at all. And you can hear that in the music: Elements of doom, psych, stoner rock, post rock. Black metal guys who are my age, which is a lot of them, were into Slint¹ way before they were into black metal, and were listening to Drive Like Jehu¹ and Unwound¹ before they had ever heard Mayhem or Immortal. That stuff informs everything they do. Even when they’re playing some part that is total Darkthrone worship, often those years of listening to other music seeps in and turns it into something new.”

¹ Math rock/indie/emo precursores norte-americanos.

“Blaash, Bahimiron: USBM incorporates more ‘brutality’, I think, then some European acts—ignoring the obvious stalwart murderers like Immortal, Marduk, or after them Dark Funeral…”

“Imperial, Krieg: What I do see as something typically American (to which much outside of the US and unfortunately only a small portion within the country would agree) is the pseudo idea of American superiority to outside art, culture and music. This is why you see so many bands doing the paint by numbers sort of thing, regurgitating what’s already been done yet thinking it’s their own. As Americans we have a strong artistic and literary heritage, especially post WW2 from the Beat movement, Warhol’s idea of Popism, La Monte Young‘s musical experiences,¹ etc. but we don’t draw on it, we just keep pushing out McBlackmetal.”

¹ Artista nascido em 1935 citado como ‘minimalista’, ‘vanguardista’ e mesmo drone!

“I don’t see our music as aggressive; I see it as a contemplation of your own heartbeat. The heart never stops; it never stops until you’re dead. It is never not drenched in blood. It is the most violent rhythm you can think of. When a body becomes so big it needs a heart, this is when music becomes real.”

“Josh, Velvet Cacoon: (…) The east coast stuff was really incoherent and unconvincing, it offered nothing and went nowhere. There was no direction and it seemed like they were playing black metal because it was the alternative to being just a fan. Have you ever heard Kult ov Azazel¹ or any of those types of east coast groups? Everything from the music to the lyrics, song titles and artwork screams ‘generic’. I don’t know how these guys get out of bed each morning.”

¹ Extrato da last.fm

“He Who Crushes Teeth, Bone Awl: Anything good in American black metal is happening on the West Coast…. There is more culture in California. More global influence. More computers. Less McDonald’s. More Starbucks. More Mexicans. More People. More numbers. Less women. More gay people. More cars. More traffic. More violence. More romance. More life in general. An abundance of living things.”

“UMESH, Brown Jenkins:¹ All it would take would be half a dozen ambitious writers in America and the U.S. black metal scene would have its own sordid narrative to struggle with. These are creations of the press, of course. If you think about it, the heart of the Norwegian narrative, for example, is a story with a black hole at the middle of it—no one really knows what happened the night Euronymous was murdered except Varg Vikernes. The other person involved is dead. Varg has told different stories about what happened over the years—does he even really remember? So even at the very center of an attempt to apply meaning and a grand, overarching story to the history of the Norwegian black metal scene, there is a wall beyond which no one can penetrate. It’s meaningless. People can make whatever they want of it.”

¹ Parece interessante: doom metalgaze!

“In A Thousand Plateaus Gilles Deleuze and Félix Guattari introduce the concept of ‘becoming-animal’ which refers to the subject’s movement from a stable position, from identity to a nomadic, anarchic existence. (…) Other Black Metal musicians have adopted new names to describe their becomings-wolf. Burzum’s Kristian Vikernes has changed his name into Varg which means wolf. Darkthrone’s Leif Nagell is known as Fenriz. Fenrir or Fenris is the name of the Nordic monstrous wolf, the son of the god Loki and Angerboda. Ulver is the name of a BM band from Norway whose lyrical themes are those of lycanthropy and fairy tales among others. Ulv means wolf in Norwegian and ulver is the plural form of the word.”

“A living incarnation of Satan has taken the place of a dead God. But the original father needs to be brought back and recomposed repeatedly for the transgressive act to have meaning. Logos demands to be there first, in order that Chaos may later renounce it, for the wolf to commit its prohibited crimes. Without a paternal figure transgression becomes a fruitless act, an empty simulation of repetition. And this is where black metal’s contradictions take place. The thirst for annihilation, the violent transgression of limits, the disruption and the illicit crossing of boundaries are only manifested and secured with the presence of the phallus. The Christian father haunts black metal, the way King Hamlet’s ghost haunts Denmark.”

“The annihilation of melody and the repetition of raw sounds of the same fast tempo reflect the condition of modernity’s mechanical reproductive experience, the simulation of simulations, the emptiness of the sign, the disenfranchised being’s uniform activities.”

“In Kadenzza’s¹ album The Second Renaissance (2005) songs based on the story of little red riding hood manifest the wolf’s masculine authority over the maternal and feminine. In the Woods red riding hood creeps through a hole in the door only to find the wolf offering her the flesh of her dead mother as food. It seems that both the wolf and red riding hood have transgressed into the mother’s house, the womb in the forest. In The Wolfoid the wolf incarnated as man unleashes his violent instincts through aggressive vocals and fast, repetitive, symphonic parts that deliver his nightmarish visions of devouring the mother and red riding hood. It is the ‘sinful nectar’ dripping from red riding hood’s ‘nasty lips’ that arouses the beast. Unable to make any choices red riding hood will have to drink the blood and eat the flesh of her mother, until finally the wolf will consume her body. Here Kadenzza play with the oral tradition of this fairy tale before Perault’s version which included the cannibalistic act of eating the grandmother and presented red riding hood as a slut who would eat the flesh and drink the blood of her grandmother. Wolves are the evil seducers whose ferocious instincts drive them in the consummation of their female victims.”

¹ “You Oshima

~ all vocals ( harsh vocal, natural vocal, voice )

~ all guitars ( electric and accoustic )

~ synthesizers ( …and theremin )

~ programming

~ sampling”

Satanic Corpse, banda feminina.

“If wolves howl, then red riding hoods can scream non-linguistic forms attacking the symbolic order.”

“From Keat’s ‘Ode on Melancholy’ to the ecstasies of metallic desiring machines, Melencolia Estatica, the project of the mysterious Climaxia, gives free rein to both aggression and romantic intensity. The sexual difference that these female black metal bands try to incorporate into black metal’s structures, a rewriting of female desire into the codes of music is a challenging creative power that destroys the ‘silence’ assigned to them by the phallus.”

Astarte

“If female black metal bands manipulate the qualities that patriarchy has endowed them with through the use of sexuality in their performances, the language of nihilism or the repetition of black metal’s masculine discourses, then the perpetuation of the similar will persist and their presence will forever be silenced. Black metal is a strange place to be.”

“‘Freezing’ atmospheres of, say, Judas Iscariot or Old Wainds easily give way to the ‘blazing’, ‘burning’, hell-fire clamor of bands like the German Katharsis, 1349, or Averse Sefira without any drastic alteration of formal principles, and the force that mediates between these thermal intensities is a sort of conductive violence, a constant and potent accident of atmosphere that has the quality of a heat-transference which works upon something and draws it toward a limit, one of either over-excitation or exhaustion.”

METIMANENTE

i(ll)mmanent metal

m(l) a e t

“the writings of Madame Blavatsky and Rudolph Steiner are exemplary in their trans-cultural and trans-historical breadth. In books such as Isis Unveiled (1877) or The Secret Doctrine (1888), Blavatsky covers everything from archaic mystery cults to modern paranormal research, giving one the sort of global perspective found in anthropology classics such as James Frazer’s The Golden Bough (1890).”

“We could be even more specific and refer to this perspective not just as cosmic, but as a form of ‘Cosmic Pessimism’. The view of Cosmic Pessimism is a strange mysticism of the world-without-us, a hermeticism of the abyss, a noumenal occultism. It is the difficult thought of the world as absolutely unhuman, and indifferent to the hopes, desires, and struggles of human individuals and groups. Its limit-thought is the idea of absolute nothingness, unconsciously represented in the many popular media images of nuclear war, natural disasters, global pandemics, and the cataclysmic effects of climate change.” Ao contrário! É justamente o oposto! Metal demasiado humano, apenas humano.

“Cosmic Pessimism has a genealogy that is more philosophical than theological. Its greatest – and most curmudgeonly [rabugentamente] – proponent was Arthur Schopenhauer, the misanthrope who rallied as much against philosophy itself as he did against doctrinal religion and the nationalist politics of his time.”

NOUSTALGIA

A vontade à vontade a-vontade.

“To find an equal to Schopenhauer, one would have to look not to philosophy but to writers of supernatural horror such as H.P. Lovecraft, whose stories evoke a sense of what he termed ‘cosmic outsideness’ – the black tentacular voids that surround us and that stretch into the furthest ‘black seas of infinity.’” Não é à toa que eu gosto mais de Poe que de Lovecraft.

“One could even suggest that some of the formal experiments in black metal, from the minimalism of Sunn O)))’s Grimmrobe Demos to the wall-of-noise in Wold’s Stratification might offer musical equivalents of the Cosmic Pessimism meaning of the word black.”

“The most striking example of Cosmic Pessimism comes from outside of the metal genre altogether. It is by the Japanese multi-instrumentalist, poet, and mystic Keiji Haino. Haino’s album So, Black is Myself takes the subtractive minimalism of Sunn O))) further, while borrowing techniques from everything from Butoh to Troubadour singing. Clocking in at just under 70 minutes, So, Black is Myself uses only a tone generator and voice. Its sole lyric is the title of the piece itself: ‘Wisdom that will bless I, who live in the spiral joy born at the utter end of a black prayer.’ The piece is brooding, rumbling, deeply sonorous, and meditative. Sometimes the tone generator and Haino’s voice merge into one, while at other times they diverge. Haino’s voice itself spans the tonal spectrum, from nearly subharmonic chant to an uncanny falsetto perhaps produced only by starving banshees.”

“To the role of medicine in Weyer, and the role of law in Bodin, we have the role of skepticism in Scot. While Weyer and Bodin are on opposite sides of the fence politically, theologically they both remain committed to the existence of supernatural forces and the conflict paradigm of good vs. evil. Scot, who had the advantage of relative financial independence, was neither beholden to the Church nor to science in his opinions – though the Discoverie of Witchcraft was printed at his own expense, was unregistered, and did not contain the publisher’s name. Most likely spurred on by a series of controversial witch trails in England in the early 1580s, Scot’s treatise is much more sarcastic, even humorous, in its criticisms.”

“Science fiction works such as Fritz Leiber’s Gather, Darkness! and James Blish’s Faust Aleph-Null, written in the shadow of world war and mass extinction, suggest a ominous affinity between technology and the supernatural. In Leiber’s novel a futuristic Papacy utilizes a whole panoply of special-effects technologies to both ensure the fidelity of the masses to the hegemony of the Church. Against them a demonic underworld of witches, warlocks, and familiars carry out their revolutionary cause. By contrast, Blish’s novel suggests that with weapons of mass destruction, a renewed Faustian pact has been made, with quantum physics as a form of necromancy.”

“see Abgott’s recent foray into mafia politics with Godfather in Black and God Dethroned’s WW1 story of Paschendale.”

EXTREME METAL: Music and Culture on the Edge, Keith Kahn-Harris

“For example, the US band Cannibal Corpse had to produce ‘censored’ versions of their cover art in order for their albums to be stocked in various countries. The Christian right has occasionally and erratically attacked extreme metal. For example, one Christian schoolteacher in Germany made a concerted attempt to ban Cannibal Corpse from playing certain venues during their 1995 tour. In 1996, in a speech that received some media coverage, US presidential candidate Bob Dole attacked Cannibal Corpse as part of a general attack on the media. The attack rebounded when Dole admitted he had never heard the band. In 1999, presidential candidate Gary Bauer attacked a number of ‘anti-Catholic’ artists, including ‘the homosexual music group Rotting Christ’. Rotting Christ is a Greek black metal band with no known connections to homosexuality.” HA-HA-HA!

“The history of extreme metal music represents a radical and systematic process of removing metal from this kind of cultural dialogue. The blues roots of metal are virtually imperceptible in extreme metal. Additionally, the connection with baroque music has been weakened (although not severed) as the importance of guitar solos has declined. While, as we shall see in Chapter 6, extreme metal has increasingly reinstituted a dialogue with a number of other kinds of music, the principal musical trajectory of the scene in its formative period in the 1980s was to close itself off in a self-conscious attempt to explore the radical potential of metal.”

“Modes are eight-note, one-octave scales featuring particular arrangements of tones and semitones. Walser points out that: ‘Most heavy metal is either Aeolian or Dorian, for example, although Speed Metal is usually Phrygian or Locrian; most pop songs are either major (Ionian) or Mixolydian’ (1993: 46).”

“The Locrian is the only mode to contain a flattened fifth – the so-called ‘tritone’. Famously, the use of this interval was discouraged by the medieval Catholic Church and referred to as the diabolus in musica.”

“One common metal guitar technique is downtuning, in which the pitch of the guitar is lowered by one or two steps. Extreme metal bands have taken downtuning to extremes, with the bottom E string often tuned as low as B or A. This level of downtuning requires the use of a heavier string gauge, together with specialist amplification and production techniques. Different extreme metal sounds are put together in different ways. Some may be based on extremely ‘clear’, compressed but still heavily distorted sounds, such as the famous ‘Florida sound’ of death metal, developed in the late 1980s at Morrissound Studios, Tampa, by the producer Scott Burns with bands such as Deicide and Obituary.”

“Black metal guitars are generally not downtuned and are often played at a higher register and produced with considerable treble.”

“Extreme metal voices are also overdriven, but vocalists generally do not use sustain or vibrato, neither is there any ‘brightness’ in their vocals.”

“Generally speaking, death metal bands use growled vocals and black metal bands use screamed vocals. Vocals may also be semi-spoken, chanted or simply shouted.”

“Tempo is one of the most transgressive elements of extreme metal. Songs often range between 150 and 250 beats per minute (BPM). Extreme metal bands also pioneered the ‘blast beat’, drumming at 300–400 BPM and above.”

“Conversely, guitarists may play ‘tremolo’ riffs of 500–600 BPM while the drummer plays at slower tempos. The use of tempos of 200 BPM and above can create an odd effect of stasis in the music. This paradoxical stasis, together with the simultaneous combination of fast and slow tempos on drums and guitar, can make the music seem both fast and slow.”

“For all its exploration of transgressive sounds, the scene constantly emphasizes musical control. Extreme metal bands almost never improvise on stage and strictly control guitar feedback. They also set strict limits on the use of solos, never letting them dominate the songs themselves.”

“This constant flirtation with the formless sonic abject produces dominance of the abject. In doing so, extreme metal is associated with a form of masculinity that is based on a fear of feminine weakness. The ‘musical fundamentalism’ that Deena Weinstein identifies in extreme metal can be seen in its strict discipline, and its obsessiveness. The abject cannot simply be controlled once; dominance has to be proven again and again. This obsessiveness produced extreme metal as its logical conclusion and produces thousands of identical-sounding recordings to this day.”

“Nick Terry (1998) has argued that extreme metal and hardcore in the 1990s are characterized by an obsession with the apocalypse and millenarianism. War, particularly nuclear war, has long been an obsession in all forms of metal.”

“Estrangement from non-metal friends can make it difficult for some members to find sexual partners. Since the scene is male dominated, heterosexual scene members are forced to look outside the scene for a partner, which can be a difficult process”

“While bands do send unsolicited CDs and demos to large metal labels, this is almost never successful.”

“More prevalent, in fact, is a ready display of affection for parents and family, even from those who produce highly transgressive music. Acknowledgements on album sleeves frequently contain expressions of musicians’ gratitude to parents, as in the following example from Cult Of The Initiated by the US satanic death metal band Pessimist (1997):

I endlessly and profusely thank ‘Pessi-Mom’ and the ‘Big Guy’ for putting up with practice three times a week, for sleeping through countless parties and noisy late-night load-ins, for feeding and providing a crash pad for countless bands and other assorted derelicts . . . and for always supporting me 100% in everything I do . . . I love you both”

“Even those parents who disapproved of extreme metal themes offered support in other ways, a testimony to the efforts made by scene members not to antagonize them.” Estranho, pelo menos no Brasil!

“Many scene members are married and have children. The support for the family within the scene is conceivably part of the ambivalence towards sexual excess and women that I discussed in the previous chapter. Certainly, including the family in extreme individualist and satanic discourses creates surprisingly few problems. For example, one Swedish black metal musician explained to me that having a family did not contradict his individualism as he aimed to be like an animal and animals have ‘hoards’ that they protect.”

“A solipsistic outlook or, at the very least, a capacity to be alone, is an important element of a reflexively managed scenic career. Unlike other scenes, the extreme metal scene is not based on collective experiences involving gatherings of large numbers of people. Of course, in many parts of the world, there are frequent gigs and some members do interact within the scene with small groups of friends. But, as we shall see in the next chapter, the scene is so diffuse that its institutions have developed in such a way that isolated members can easily participate.”

“With few exceptions, bands cannot get a recording deal or sell their recordings solely by playing live. Live performance can help a band to develop musically and to solidify a reputation, but it is not the principal route to a scenic career. Similarly, a non-musician within the scene quickly finds that greater involvement within and enjoyment from the scene cannot come without writing letters, contributing to bulletin boards, writing fanzines and hunting them down.”

“This discourse of professionalism is not, perhaps, what we might expect from a scene so devoted to the production of transgression. Other scenes frequently emphasize opposition towards the mundane world of work. For example, a frequently reported element of punk discourse is its concern about ‘selling out’ and negative attitudes to those who make a living from music (Fox 1987). Making a living from the scene is problematized much less in the extreme metal scene than in other scenes.”

“For Tony, the pleasure of contributing to the scene fades as it becomes simply routine. The pleasure that many scene members feel when they start to write letters and receive demos is threatened when letter writing becomes a daily chore. There is a danger that a scenic career may simply become a job like any other. This is particularly the case for those who earn a living from the scene, who may be unable to simply leave:

KKH: What do you listen to at home? Do you listen to death metal?

R: I don’t listen to anything any more because you used to sit here eight hours or ten hours and –

KKH: You got fed up with it?

R: Yeah. You know before I started with this thing, I played in four bands in the same time, one after the other just, well I stopped playing because it was too much, so I miss that part of it. Actually you shouldn’t work with the thing you love . . . But I don’t know what I would do otherwise so. I don’t want to stand in the car factory. (Goran)”

“In music making, very few all-female bands exist. Female musicians tend to be vocalists or, more rarely, keyboard players or bass guitarists and tend to be more numerous in bands playing more melodic forms of extreme metal.”

“While loose groupings of gay heavy metal fans occasionally emerge (such as the satirical glam metal act Pink Stëël), there has been absolutely no overt organization of gay and lesbians within the extreme metal scene.”

“At gigs they see other women with their partners or female friends, often dressed glamorously, but they see few autonomous women who are not defined by their sexuality. Women who enter the scene with partners are often subtly marginalized in scenic interaction.”

“As Walser argues (1993), a key element of metal is the misogynist fantasy of a world without women. Metal masculinity is founded on notions of strength and power, embodied, as Weinstein shows, in the ‘pumped up’ torso that many scene members aspire to.”

Black metal sem black people.

“There was a brief period in the early 1990s when a few bands were signed to ‘major’ labels, such as Morbid Angel who were signed to Giant/Warner in the USA, and the British label Earache even had a short-lived licensing deal with the American giant Columbia. However, there was never any major commercial breakthrough and today only a small number of extreme metal bands such as Slayer are signed to major labels.”

“For example, the Swedish death metal band Entombed issued three demo tapes (two of which appeared under their former name, Nihilist) before the release of their debut album, Left Hand Path (1990). Today, with the erosion of tape trading and with bands selling their recordings from an early stage, scenic activity involves an earlier and greater engagement with capital. Bands and labels have adopted business practices drawn from the wider music industry. Larger labels generally behave like large independent labels in any other scene. Bands sign a contract for one or a number of albums and are either paid an advance, from which recording costs must be met, or have their recording costs paid for them in return for a lower royalty rate.”

“the highly influential US death metal band Morbid Angel were signed in 1989 by the prominent UK label Earache on the basis of the personal recommendations of members of a number of bands already associated with the label.”

“The structure of extreme metal bands varies greatly. Some resemble the traditional stereotype of the rock band: a gang of close male friends playing together for years. More commonly, extreme metal bands are characterized by a great fluidity of personnel, with members continually dropping in and out. In contrast to Bennett’s (1980) argument that the identity of rock musician is only possible inside a rock group, the identity of the extreme metal musician does not necessarily have to involve being in a group.”

“Scandinavian bands, for example, are notorious for their constantly revolving lineups. Scandinavian musicians are often associated with three or four bands simultaneously. For example, the Swedish guitarist Michael Aamodt used to play in the death metal bands Carcass and Carnage. He now plays in the death metal band Arch Enemy and the psychedelic doom metal band Spiritual Beggars. He has also played as a ‘session’ member of a number of other bands. Within the scene there is a strong culture of relocation. Many of the personnel in the bands that developed the influential death metal scene in Florida in the 1980s had moved from other parts of the country. International collaboration is also common (for example, Michael Aamodt’s previous band, Carcass, was based in the UK).”

“Demos are often indistinguishable from ‘proper’ releases in terms of sound quality, and this was frequently true even in the 1980s. Bands generally pay for as much time as possible in the most expensive studio they can afford. Although the scene contains an aesthetic of fast and ‘dirty’ production, particularly within black metal, this aesthetic is fairly marginal. Extreme metal is a difficult music to record and, as a result, certain studios and producers have come to specialize in its production such as Fred Nordstrom’s Studio Fredman in Gothenburg.”

“The number of recordings that bands need to sell to make a living varies. However, most musicians I have spoken to generally agreed that bands needed to sell at the very least 60,000–100,000 CDs to make even a subsistence living and few bands are able to achieve this.”

“Many tours do not visit Scandinavia or the UK, owing to the extra travel expenses involved. In areas marginal to the scene, the scarcity of live performances may ensure relatively large audiences.”

“Big summer outdoor European festivals such as Wacken (Germany), Fury Fest (France) and Graspop (Belgium) bring fans from across Europe in their tens of thousands. Their line-ups also tend to contain heavy metal, nu metal and sometimes punk bands as well, but extreme metal tends to dominate the running order, even if the headliners are from more popular genres.”

“Some prominent fanzines that developed in the 1990s, such as Finland’s Isten and Norway’s Nordic Vision became as likely to criticize bands as they are to encourage them. In this way, fanzines have come to resemble the wider music press (Toynbee 1993).”

“Magazines differ from fanzines in that they use telephone or face-to-face interviews, have paid staff and are available from a wide selection of outlets.”

“For a long time, most extreme metal bands never made videos. This may have been partly an ideological decision (despite their popularity Metallica never made a video until ‘One’ in 1988) but there were few outlets for extreme metal on television until the 1990s. Until its cancellation in 1995, MTV’s ‘Headbanger’s Ball’ did show some extreme metal videos, live shows and interviews (particularly on its ‘Into The Pit’ feature).”

“Even if sales of downloaded music have as yet not replaced sales of CDs and other formats, online file sharing systems such as Soulseek contain a vast array of extreme metal recordings, including notable rarities and demos.” Up to this day!

“Extreme metal tends to be most popular and productive in provincial areas within powerful countries. In the UK, extreme metal has always been much more important in the Midlands and South Yorkshire than in London. Similarly, in the USA, the most important extreme metal scene has been in Tampa, Florida, rather than Los Angeles. Globally, extreme metal is similarly important in countries that are close but not too close to global centres of power; so Norway and Sweden are superpowers in extreme metal terms.”

“Although bands have continued to emerge sporadically from the Bay Area, the scene has lost its productive, genre-defining edge. In truth though, the Bay Area scene was a product of a set of bands and live shows and lacked enduring and globally extensive institutions such as fanzines, distros and record labels.” É engraçado pensar em Metallica e Megadeth como extreme metal.

“An important part of the Tampa scene was the bands’ use of Morrissound Studios and the engineers Tom Morris and Scott Burns. Albums produced at this studio by Morris and (particularly) by Burns had a highly distinctive sound – highly ‘produced’, clean and ‘middle range’ with crisp, drum sounds and an almost inaudible bass. The prestige of the Tampa bands gave impetus to another generation of Tampa and Florida bands, such as Malevolent Creation and Cannibal Corpse, which were quickly signed to record labels. Further, Morrissound Studios attracted bands from across the world and in doing so helped to standardize death metal in the late 1980s and early 1990s.”

“The great attention given to Tampa in the late 1980s and early 1990s resulted in a greater number of bands from the area being signed to labels and although this may have acted as a stimulus to local musical production, it was not necessarily a sign that the Tampa scene was any more popular or more vibrant than anywhere else. Indeed, gigs appear to have been no more frequent in Tampa than anywhere else in the USA. But more importantly, the Tampa scene was not especially institutionally productive. No long-standing or influential fanzines, labels or distros came out of it and even Morrissound was never primarily a metal studio.”

“The history of the Tampa scene illuminates the coexistence of vibrant musical creativity with weak institutional creativity that characterizes most American extreme metal scenes. There has been no shortage of important and popular American extreme metal bands and at times these bands have been concentrated in particular local scenes. But the development of key scenic institutions has been much more erratic. Important American fanzines such as Grimoire of Exalted Deeds and important labels such as Relapse, have largely developed completely unconnected from any kind of local scenic anchor.”

“An exception is the New York scene, which has historically benefited from the city’s strong punk and hardcore scenes to develop a productive and long-lasting extreme metal scene, based largely around death metal. The New York scene is also an exception to the rule that global metropolises are relatively unimportant in extreme metal.”

“America’s weak welfare system and massive divides between the rich and the poor make it more difficult than in some other countries for members to find the time and resources to devote to the scene. The history of persecution of American youth cultures, including metal, and the relative disenfranchisement of American youth (high drinking ages, youth curfews, etc.) only reinforce this difficulty.”

“The American scene remained musically conservative, tied to death metal until the end of the 1990s, only slowly and erratically adopting black metal. Black metal emphasizes austerity, self-control and solipsism whereas American metal culture emphasizes partying and live performance. Black metal emphasizes ethnicity and national identity. American metal culture is so much at the heart of global music culture that it has found it hard to see itself as ‘different’ in any way. Interestingly, two of the American bands that have been most interested in drawing on ideas of ethnicity and difference have drawn on heritages entirely alien to them: Absu, who have drawn on a bizarre mixture of Scottish and Mesopotamian mythology, and Nile, who draw on Egyptian mythology.”

“Since the turn of the century, the American scene has produced a new distinctive subgenre sometimes called the new wave of American heavy metal. Bands such as Killswitch Engage and God Forbid have drawn on metalcore (a cross between metal and hardcore) and Swedish death metal to create a music that is becoming increasingly popular worldwide. Yet it is unlikely to become globally dominant in the way that nu metal or 1980s American metal was. Rather, the new wave of American heavy metal perhaps represents the American scene coming to terms with its position as just another scene and concentrating on producing interesting new takes on extreme metal rather than dominating the global scene.”

“In the early 1990s a number of bands in Gothenburg emerged playing a highly distinctive form of death metal featuring noticeably melodic rhythm guitar patterns. From the mid 1990s a number of these bands, particularly In Flames, Dark Tranquillity and At The Gates, rose to global prominence.”

“Musicians will often play in several bands at once, playing different forms of music in each. One example of this is Peter Tägtgren who plays in the death metal band Hypocrisy and the industrial metal band Pain.”

“As Robert Burnett argues, Sweden’s music industry is a ‘substantial earner of foreign exchange for the Swedish economy’ (2001: 16) and ‘this makes Sweden one of the largest net exporters of popular music, after the US and the UK’ (2001: 18). Part of the reason for the strength of the Swedish music industry is the country’s high level of support for musicians. Music education, both in schools and municipal music schools is strongly supported financially by the state. Estimates from the 1980s suggested that 200,000 young were studying music in schools at any one time,1 and Burnett states that 400,000 people sing in choirs.”

“Unlike in the UK, for example, metal bands are often found on national television and bands with extreme metal roots such as In Flames have been nominated for Swedish Grammie awards. Indeed, metal can come close to being part of the Swedish establishment – in 2006 the popular power metal band Hammerfall recorded a video with the Swedish women’s Olympic curling team! While the more difficult forms of extreme metal are much less visible, there are many exceptions to this. For example, in 1998 the black metal band Dark Funeral played the large annual Hultsfred music festival.”

“Some ‘serious’ UK bands such as Carcass and Gorerotted have had a markedly tongue-in-cheek attitude to some of the more outrageous aspects of extreme metal.”

“Black metal’s ‘no fun’ slogan was always out of step with UK metal culture and UK black metal bands such as Cradle of Filth have emphasized irony and an earthy normality in interviews.”

“The Jerusalem scene in particular has thrived off the seeming contradiction of its location within a ‘holy’ city, producing amongst other things, the black metal band Arallu’s iconoclastic Satanic War in Jerusalem (2002). In contrast, the Tel Aviv scene benefits from its location in the heart of secular Israel in a city with a vibrant alternative music culture.”

“Metal is very popular in a number of South-East Asian countries, particularly Malaysia, Singapore, and Indonesia, with active scenes producing the full range of musics and institutions. (…) Few bands from this region have ever made more than a minimal impression on the global scene (Singapore’s Impiety and Indonesia’s Kekal being rare exceptions).”

“Japan has long provided a lucrative market for some bands and has also produced a number of influential bands such as S.O.B., Sigh and Loudness.”

Deranged

“Some extreme metal bands have also refined their sound in less esoteric ways, coming close to producing a new form of ‘alternative rock’. For example, the UK’s Anathema were originally a doom metal band, but went on to develop a form of music with strong similarities to Pink Floyd and Radiohead. The Gathering from the Netherlands, also previously a doom/death metal band, now play a form of psychedelic/gothic rock.”

“Other bands such as Sunn0))) or Blut Aus Nord play music at the fringes of the avant-garde. The music of such bands still circulates almost exclusively within the extreme metal scene.”

“Nu metal has become an ‘other’ against which subcultural capital can be claimed”

“One reason for nu metal’s pariah status is its perceived ‘trendiness’, particularly regarding its emphasis on visual image.”

“Within the scene sexuality is something to be ignored, or conquered with an excessive masculinity. The fact that nu metal bands often conceal a rampant misogyny and fear of femininity behind their anxiety does not matter – the presence of femininity in any shape or form cannot be tolerated within the extreme metal scene.”

“Partly in response to the rise of nu metal, the extreme metal scene has, since the mid 1990s, begun to (re-)incorporate elements of traditional heavy metal.” “This nostalgic tendency was consolidated by subsequent revivals of thrash and power metal. By the late 1990s, power and heavy metal bands such as Iced Earth, Nevermore and Hammerfall had achieved great popularity within the scene and some 1980s bands that had lost popularity in the 1990s, such as Manowar, became popular again.”

“In my research into the extreme metal scene I have encountered many apparently baffling instances of unreflexivity in which the practice of reflexivity seemed to be absent or limited. For example, I met an ex-punk scene member who claims to be committed to anti-fascism who also told me that ‘Enoch Powell was right’. There is the strange case of the prominent Norwegian black metal musician who has made many racist comments, but is, in fact, of Moroccan descent.”

“Susan Sontag defined camp as the ‘love of the unnatural: of artifice and exaggeration’ (1982: 105), as ‘art that proposes itself seriously, but cannot be taken altogether seriously because it is <too much>’ (1982: 112).”

“I always had a tongue in cheek attitude towards it [black metal]. When it first started out I just couldn’t believe these things that these people were saying and that other people actually thought that they really seriously meant what they were saying half the time, like Euronymous saying I wouldn’t care if all my friends died and they just didn’t, they just made me laugh, these sort of things. I didn’t take them seriously. (Tony)”

“Metal parody bands such as Insidiöus Törment, Pink Stëël and Nanowar, generally parody the conventions of mainstream heavy metal (such as the ‘heavy metal Umlaut’ in the case of the first two bands – see the Wikipedia entry of the same name).”

“Another black metal parody, Impaled Northern Moon Forest, a side project of the grindcore band Anal Cunt, play songs with titles such as ‘Gazing At The Blasphemous Moon While Perched Atop A Very Very Very Very Very Very Very Forsaken Crest Of The Northern Mountain’.”

“So highly developed is the practice of reading elements of extreme metal as comic that some scene members initially had difficulty in reading Norwegian black metal as serious. For example, Digby Pearson, manager of the British label Earache, initially could not believe on meeting him that Varg Vikernes was a Nazi as he claimed to be, only realizing that he was sincere when his activities in Norway were later revealed (Mudrian 2004).”

“Yet why attempt to avoid controversy at all? Why not embrace fascism and racism? If Darkthrone had gone down this route, the band would have become enmeshed in public controversy within and outside the extreme metal scene. Moreover, their ‘attitudes’ would have been foregrounded at the expense of their music and this is anathema to most extreme metal musicians.”

“Transgression of anti-sexist and anti-racist discourses would perhaps not be so problematic if it were to take place within a project of ‘total’ transgression (perhaps similar to the ‘aesthetic terrorism’ advocated by Parfrey 1990). Such a project would undoubtedly be nihilistic, in that it would render every discourse worthless and all politics impossible. However, nihilism does at least provide a continuous revelation of the fragile discursive underpinnings of the world. This is a similar project to poststructuralism, which has been accused of being nihilistic but, nonetheless, provides one of the most searching critiques of existence ever produced, providing a powerful antidote to intellectual arrogance and essentialism. Moreover, the work of post-structuralist feminists has shown that reclaiming an anti-essentialist politics is still possible (e.g. Butler & Scott 1992).”

Einstürzende Neubauten

“The suspicion that scene members have of the political is widely shared throughout popular music culture. For example, No Direction Home (2005), the acclaimed documentary on Bob Dylan, shows the singer repeatedly denying that there was any political relevance to his work, despite the evident impact that his music had on the politics of the 1960s. It may be that the de-politicization of the extreme metal scene is simply part of a wider problem with music itself.”

“Extreme metal has always walked a knife-edge – between destruction and continuity, between obscurity and popularity, between unity and fragmentation, between radicalism and conservatism.”

[ARQUIVO] METALLICA X NAPSTER: O CAPÍTULO MAIS NEGRO DA HISTÓRIA DA MÚSICA

Originalmente publicado em 6 de março de 2010.

A idéia original era dar curso a uma série intitulada “Os 10 atos mais estúpidos da Música Contemporânea” ou coisa próxima disso, mas por falta de dados bibliográficos e disponibilidade de tempo pude executar apenas “a parte mais nobre” desse “desonroso pódio”, se assim podemos dizer; e minha ansiedade é tanta (talvez do mesmo tamanho que meu amor pelos ofendidos neste artigo!) que decidi publicá-lo logo de cara, sem saber se um dia voltarei à baila com os outros 9 atos “quase tão estúpidos” quanto este no universo da indústria fonográfica.

* * *

Na virada do milênio, uns dinossauros da Música mostraram que realmente estavam caducos e caretas e perpetraram a atitude mais covarde da Música desde o advento do WWW, e que permanecerá no topo desse ranking infame por um bom tempo…

Este comentário é um recorte no tempo, por isso não interessa o que eles fizeram antes nem depois: o grupo de thrash metal / heavy metal / hard rock /pop rock (a depender da década e da taxa de ingestão alcoólica dos membros) mais popular da História (considerando-se que encabeça o Big Four californiano e que possui um leque de ouvintes tão ou até mais variado que outras bandas do estilo metal que se consagraram diante do grande público “exterior”, como o Iron Maiden) iniciou uma guerra perdida contra as novas tecnologias, o “barbarismo digital”. Tudo porque não enxergaram que o formato compact disc havia sido absolutamente suplantado pela disseminação das MP3, fazendo parte hoje apenas de um culto ou uma homenagem que os mais fanáticos sentem a necessidade de prestar aos músicos que tanto causaram impacto em suas vidas. Em outras palavras, tudo o que começa como diversão (4 rapazes sendo “autênticos”) termina com a guerra da única coisa que passa sem deixar nada de significativo no coração humano, mas que outrossim é a única importante no mundo atual: do dinheiro. Direitos autorais, isso o artista tem de saber: são mera convnção, bem anterior ao capitalismo e ao “profissionalismo”, privilégio consensual direcionado aos mais talentosos de uma sociedade, sob diferentes formas de acordo com a era e a religião. Não obstante, aquele que não é mais grato para com seu público perde a honra e o direito de estar sobre um palco, pois não há criação que se sustente sem quem a contemple, não há grandes espíritos sem mediocridade em torno deles e não há como não perder a dádiva dos deuses sendo avarento… Para o trio culpado, James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich, serve a antiquíssima frase: “Aqui se faz, aqui se paga”. O que veio a seguir é a maior prova, e também está nesse top 10. Mas cansei de falar. Sou jovem e não vivi essa época, por isso trago à tona alguém que esteve lá, com consciência para discernir o que se passava, desde os idos dos anos 80:

“Uma grande parte da cena thrash sobreviveu graças à troca de fitas K-7. Os trocadores se comunicavam por seções de pen-pal em revistas norte-americanas de hard rock como Kerrang! e a hoje defunta Sounds. Havia poucos estúdios de gravação preocupados com o metal àquele tempo; trocávamos demos e fitas ao vivo de dúzias de bandas que nunca tinham gravado nada oficialmente. O metal underground era tão legítimo quanto qualquer cena punk, especialmente na Bay Area de São Francisco. Algumas das bandas chegavam eventualmente a um sucesso limitado; poucas ainda estão por aí (destaques especiais para Anthrax, Megadeth e Slayer), mas a maior parte dessas bandas nunca chegou a lançar mais de um álbum ou um single, e a maioria está agora, de fato, esquecida (menções que não podem faltar: Jaguar, Blitzkrieg, Control e Anvil Chorus).

(…)

Em 1982, uma banda em início de carreira chamada Metallica abasteceu alguns amigos trocadores de fitas com uma demo contendo 7 músicas, chamada ‘No Life ‘Til Leather’. Copiada, re-copiada e re-re-copiada, a fita fez seu caminho da Califórnia a Chicago, de Nova Iorque à Inglaterra, à Holanda, à Alemanha. Em meses, a banda tinha fãs espalhados pelo mundo inteiro – sem a ajuda de um só jornalista, de alguém de assessoria ou de qualquer campanha de marketing. Não passam de chutes afirmações sobre quantas pessoas estavam envolvidas nessa rede de troca e multiplicação de fitas, mas um bom número desses fãs de carteirinha (casseteiros) do Metallica era contribuinte amador em vários zines underground da época (e destacamos aqui o Metal Mania, Whiplash, Aardschok, além do Metal Forcer); seu entusiasmo por essa banda desconhecida da costa oeste foi cedo retransmitido para milhares de outros leitores.

O resto, como dizem, é história. Kill ‘em All foi uma sensação; Master of Puppets ficou entre os 40 mais vendidos do planeta; alguns anos depois, o Black Album seria responsável pela venda de 12 milhões de unidades.

(…)

Avançamos rapidamente no tempo para 13 de abril de 2000, e o anúncio de que o Metallica e seus representantes haviam iniciado uma ação judicial contra a companhia de softwares Napster e as Universidades de Southern California, Yale e Indiana nos surpreendeu bastante. Não deixa de ser trágico e irônico vindo de uma banda que se ergueu sobre pirataria de fãs.”

(Fonte original das aspas: Brian Lew, 09/05/2000, Metallica, como você pôde?, traduzido e levemente modificado por mim.)

[ARQUIVO] CEM ANOS APÓS O PROJETO VONTADE DE POTÊNCIA OU ESCOMBROS MUSICAIS

Originalmente publicado em 13 de janeiro de 2010 (anotações de 26/01 a 01/02/09); conteúdo condensado e observações enxertadas em março de 2024.

I. Da Vontade de Poder para a Gênese e Interpretação da Filosofia do Poder de Nietzsche

You’re reaching your nadir

Your will has disappeared

Como babacas com a bunda colada a suas poltronas poderiam entender o meta-alcance trágico do Nietzsche e Marx? Referência à velocidade relativa do trem-bala:¹ jamais será possível aos passageiros fazer essa verificação.

¹ (P.S. 2024) Cfr. DESENCANTO E REENCANTO DO MUNDO, 22 de janeiro de 2009, https://seclusao.org/2021/01/01/desencanto-e-reencanto-do-mundo/.

“Se, porém, libertarmos a vontade schopenhaueriana do seu fundamento metafísico, o que resta é apenas uma vontade de existência”

A única coisa que inexiste – e cuja inexistência está demonstrada – é a autoconservação do sistema, o mítico ponto de equilíbrio.

A “sociedade do poder” é aquela configuração mais poderosa já vista: age com poder sobre seu entorno, diminuindo ao máximo a imprevisibilidade. Efeitos colaterais: desastres naturais são fenômenos cada vez mais freqüêntes, “regulando o sistema”, readicionando a imprevisibilidade que o sistema político pensou exterminar. E na vida urbana o sedentarismo seguro dá lugar aos desastres contumazes de automóvel, boa parte letal.

II. A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos: Da Sabedoria dos Filósofos Trágicos à Inversão do Socratismo

(…)

III. Espinosa e Nietzsche: A Vontade de Poder

(…)

IV. Nietzsche e Kant: Em Torno do Niilismo

(…)

V. A Corporeidade como Esquematismo da Razão em Kant e Nietzsche

(…)

VI. Hegel e Nietzsche, Hermeneutas da Modernidade

Levar o mal da Europa para fora.

POR QUE AS GUITARRAS ELÉTRICAS VIERAM DEPOIS DE HIROSHIMA? A música clássica é sabidamente música romântica, para além do nome. O Classicismo chega atrasado nessa arte das artes. No século XX temos Stravinsky, um Baudelaire atrasado. Qual é a realidade representada pelo espelho da Bay Area nos anos 1980? Disposable Heroes se parece com o Vietnã. Peace Sells com o arrocho dos regimes comunistas orientais. The System has Failed com a (primeira) Guerra do Golfo somente (14 anos de hiato). United Abominations cheira a apartheid. O indie me recorda a fossa econômica das massas no reaganismo. O rap anos 90 é tão Martin Luther King…

ONE PIECE: Não deixar a academia me intoxicar. Ela fala de um século perdido (século vazio). E chega de reformadores! Eu realmente mexo com IT: Idade Trágica! Depois de sorrir no enterro, eu irei presenciar jovens que choram no parto de seus filhos… O lado insuportável da egomania: os millennials, meus coetâneos!

VII. O Papel da Idéia de Eterno Retorno na Gênese do Projeto de Transmutação de Valores

“Aos olhos de Nietzsche a crítica de todos os valores estava concluída no momento em que, no início de janeiro de 1889, a sua consciência se afundou no silêncio”

Quando se vem a conhecer aquilo que se é já é tarde demais para ser o que em tese se gostaria de ser.

O que faz o cristianismo? Condena o passado, sempre, qualquer que seja a vertente. E insiste na promessa do futuro. Já o desprezo do passado (característico do supra-homem) não equivale a nenhuma malversação. É como se ele fosse uma ponte permanente para algo mais.

FROM THE PAST COMES THE STORMS: Desprezar não é nem passar uma borracha, nem endeusar. O futuro pune em ambos os casos. O inaceitável é que a agressão e o trauma não sirvam de estímulo, mas de paralisante. A nuvem negra do cristão é achar que a vida vai melhorar – que é desejável que ela melhore.

VIII. Nietzsche e a Modernidade: Considerações em Torno da II Intempestiva

“De onde vem a distância necessária para se falar sobre a época, estando dentro dela?”

“não significa que a destruição total não seja possível (…) mas ser possível quer dizer ter já ocorrido na imaginação”

IX. Pragmatismo e Perspectivismo

Citações de Rorty e Peirce.

X. Nietzsche e Pessoa

(…)

[ARQUIVO] DIÁRIO DE UMA VIAGEM A FORTALEZA

Originalmente publicado em 10 de janeiro de 2010. Escrito entre 30 de janeiro e 1º de fevereiro de 2008.

30/01/2008

Talvez também sob influência de meu pessimismo contumaz, das minhas mais recentes leituras (num prazo de dois anos) e do desprezo que sinto por interlocutores de pensamento vil é que apresento este fragmento. É necessário deixar claro que o “interlocutor vil” em questão é um magnata cearense de nome Pelé, sem embargo, não conservo a mínima vergonha de meus antecedentes familiares (ele vem a ser meu tio-primo), resquício algum de racismo regional (vulgo xenofobia) ou aversão por cidadãos financeiramente afortunados. O que não tolero é a incapacidade dos ricos em complementar sua educação socratizando-se um pouco que seja – para ser mais atual-televisivo: vestindo as sandálias da humildade. Tampouco apresento, então, a essa altura, qualquer desprezo pela nomenclatura do maior atleta da História deste universo! É só um codinome, e ter chegado a ele tem lá seu método… Seu erro, meu algoz, foi ter aberto a boca demais! Isso e apenas isso…

Eu, tão lento para apreender opiniões concisas acerca de terceiros, descrevê-lo-ia como um sujeito de mediano para bom no entender político, no que dependesse de nosso primeiro encontro. Mas, de segunda, afirmo: és um parvo, um paspalho! Das coisas da vida, da essência invisível, do mundinho paralelo, do faz-de-conta de que I. falou tu nada entendes! Como aquele povaréu de Tianguá, só há uma coisa que mova sua vida: o dinheiro. É inútil encobrir teus anseios com esta capa, homúnculo! Para essas futilidades se é sempre competente, se desejável. De resto você não passa de um velhaco com alma de menino – não, nada de “puro”… Apenas parece distante do olhar filosófico e próximo demais do seu útero-sol, padece de um complexo de Édipo mal-resolvido. Por tabela, é um amoral inconsciente. E não são estas bestas (ou burros de carga) da igreja os mais perigosos? A filha, N., não pode julgá-lo porque não o conhece. Olha para cima ao divisá-lo – aliás, como toda e qualquer Electra. Eu não sofro desse problema, incontornável na terra (não-física) do cabresto, onde ser de elite não significa muito, no meu mundo de (não-)valores.

Sua infantil presunção de que, assim se julga e não esconde nem por um minuto à mesa, se trata de um homem culto quase me comove. Porque homens cultos não podem afirmar a juventude como único período de erro. Sua concepção assoberbada da vida, neste ponto, só já não me assustava pelas prévias revelações de seu caráter fascista.

No momento troco poucas frases com meu tio – menos pretensioso e de raciocínio mais ligeiro que o de Pelé, o pseudo-mecenas da família Ferreira. Mas tais balbuciações já se afiguram como material suficiente, meu caro “Maluco Beleza das Metamorfoses Ambulantes”, para tecer o único elogio à pessoa aqui em evidência: seu correr na praia – ou caminhada, já que é um frágil, mesmo – é meu escrever. Sim, que falta me faz descascá-lo, debulhá-lo nestas folhas como insípido feijão que vem a ser! Enquanto isso (já não sei mais se falo dele ou para você – de você ou para ele; com você ou 2ª pessoa, com tu ou a terceira), nosso nobre magnata precisa de seu retiro existencial bi-semanal. Pode me enganar, vou fingir que no pacote não está inclusa aquela masturbadela na água quentinha do nascer do sol – coisas bem-aceitas para um cara casado que enfrenta a crise da meia-idade.

Mas o papo, comigo, raras vezes esteve ou foi tão prosaico. Parece (ou mais do que parece) que peguei uma raiva excessiva do sujeito. É que realmente usar Darwin para a raça humana é chumbo grosso… E um indivíduo, ou menos, ente, que se auto-define como conhecer e interessado em buscar mais conhecimento, tolerante, bom ouvinte, reflexivo, sempre aberto a novas quebras de paradigmas (e que não sabe por certo o que representa um sintagma, p.ex.), não pode ter 10% do utilitarismo neo-yuppie (ops, embaralhei dois nomes) apresentado na pior festa que freqüentei desde que boêmio sou (o churrasco do enterro e da fossa). Se foi uma ocasião ruim é por dois (e entrelaçados) motivos: não bebi o suficiente e você (de novo minha mistura pronominal, já não dou um dedo mínimo) estava presente. (Mesmo Dostoievsky mistura pessoas na conjugação.)

O que depõe a meu favor neste cenário de aparente sordidez é que, se não bebi e não usufruí dos dotes das convidadas como mais desejaria (além dos regalos alimentícios), ao menos posso lembrar de cada ato falho seu (do Pelé!) sem a mínima distorção. O caro colega, deixe-me ver, acredita no bem e no mal. Nunca ouvira falar de Nietzsche. E nem que o Raul é um dos brasileiros mais escutados e idolatrados fora de palco de todos os últimos 400 anos. O que pode ser mais ridículo que um homem que acredita no diploma universitário como sinônimo de credibilidade irrefutável? Nem Descartes e Kant juntos!

31/01/08

(fim do 1º mês de um ano de até agora agonia gástrica)

“Sabe o que é bastante interessante também?”

O quê?

“Que em virtude de meu atual patamar…”

Vá às favas, com todo o respeito que seu ar grisalho merece mas que as ligações neurais comprometem!

Eu sob a mais crônica das diarréias certamente tenho, ainda, um pensamento mais ajustado e coerente que o seu! [Neste ponto decidi-me pelo emprego definitivo da interpelação direta, num misto de falta de vontade de escrever “fascista” a cada duas linhas e de excesso de disposição de fantasiar uma repulsa à la genro-sogro – explicando melhor: gosto da alternativa impossível em que sou um desafiante jovem, apontando o dedo de maneira não-acovardada para a cara do tolo pai de uma princesinha metida a roqueira… Em termos mais breves: meus devaneios com o corpo, o sorriso, a ginga e a burrice da distante prima N. — infelizmente distante em vários sentidos – parecem tornar Pelé alguém mais custoso de engolir, até porque a filha já é comida o suficiente]

01/02/08

Torcendo para escapar do Inferno…

#offtopic MEGADETH et al. (A luz no fim do túnel)

(comentando execuções aleatórias no meu MP3 player.)

  1. Train of Consequences

A estória de um assaltante de trem cargueiro e a moral por trás de seus atos me convocam novamente a uma série de questionamentos de natureza recente: o bem, o mal, os subjugados a eles e os acima dos valores. Minha opinião não é escutada por ninguém que não eu mesmo. A teoria dos grupos de influência não precisa ser lembrada aqui porque considero as pessoas suficientemente autônomas para escolherem seus veículos de comunicação, interlocutores e ações por si próprias. Eu sou apenas mais um canal, uma fonte informativa, integrante de um todo mais complexo ou descartável.

Figuras como Deus são ambíguas, duais. E representações como o diabo ou o ladrão são consideradas “puras” no sentido da essência. Mas hoje ouço falar tão pouco no diabo! Ninguém razoável e com mais de 6 anos realmente acredita em uma forma de vida (ou de morte) parecida, pois já incorporou as lições fundamentais do processo de socialização: o mal está no homem, que ejeta os direitos humanos não por outro motivo que a necessidade de controlar seus sórdidos e irrefreáveis (doutro modo) impulsos.

Fazer o certo e fazer o errado. Ser sacana e ter peso na consciência. Receber o castigo merecido. Essas discussões estão enredadas ao passado. Na situação da sociedade dos jogos ou niilista o único valor de si é aquele percebido por si mesmo, imortalizado em alguma imagem auto-louvável. O ladrão de cargas dilapida todas as vidas dos passageiros e trabalhadores do trem ao pilhar seus pertences. Conquanto não se é um deles, seus atos variam da aprovação à indiferença, em cujo trajeto mora a inveja. Às vezes penso como a vida do roubo é fácil: um sujeito se apropriou do meu televisor e do meu micro sem executar nenhuma transação financeira. Usou da violência, da imprevisibilidade física. Mas o complicado é cogitar-se pondo em prática esse “fácil”. Por que eles podem e eu não posso? Questões de berço (não literalmente, mas de uma ótica fatalista – há os furtadores provenientes de berços de ouro maciço).

  1. Killing Yourself to Live (Black Sabbath)

O ano deve ser um dos da irreversível crise do welfare state. “This is not the way the world was meant” e “Take a look around, what do you see? Pain, suffering and misery”. Além, claro, do título da música. Um ambiente de insegurança suportável graças às benesses teatrais da liquidez do dinheiro. Só o que almejo é o mesmo lar doce lar alheio, e com menos papel-moeda. O montante suficiente, que seja.

A onda de violência obriga o indivíduo a desconfiar de todos e se ver seguro – se possível – apenas dentro de seus próprios portões, ou jaula, a dita propriedade privada, capaz de resguardar até certo ponto todos os outros, tudo que já perdeu sua liquidez e não é mais pertencente a nada nem ninguém. Nem ao capital estrangeiro.

  1. Gears of War

Se a cultura não fosse a simples negação da natureza e respeitasse mais os princípios de sua Mãe o ser humano, além de cagar novas vidas e impor-lhes o ônus do trabalho, não fabricaria um arsenal nuclear, terminando, com tal atitude, por mais desestabilizar que “ajudar” (não precisa ser ajudada) sua biosfera. Uma mente tão corrupta olha a Terra com bons olhos só enquanto não coleciona as prometidas colônias espaciais que permitirão nossa continuidade. Vã continuidade. Viagem modorrenta. Muito curioso esse desenvolvimento, no sentido cíclico mesmo. Nada de linhas retas ascendentes. As marchas da guerra [ou equipamentos, armas] não pensam na preservação da espécie. Não há a menor garantia de que uma hora a rachadura não abra de vez. É um empreendimento de incomensurável risco, bem ao gosto do modo de produção ocidental e… está caduco dizer ocidental. No passado foram os muçulmanos, depois os soviéticos, japoneses… Agora qualquer olhos-puxados. O mundo. A família acabou. O Eu a engoliu juntamente com tudo. Os co(o)rporativistas ainda carregam aqueles livros debaixo do braço, mas, tal qual qualquer imbecil adaptado ou jogado de lado, só aguardam uma brecha para aparecer. Cada um com sua colossal melancia, preocupados que estão todos em se mostrar. Saldo final: não há um singular juiz. Os tecnicistas criaram um monstro que pode reduzir toda a filosofia ao nada instantaneamente… É… venceram!

* * *

Esses boletins sonoros estão me agradando e podem “intervir” na programação futura (Filosofia – Chauí).¹ Terei cerca de cem possibilidades extras…

¹ Este foi um presente de um primo distante do meu pai pelo qual sou muito grato, especialmente dado meu momento desarticulado em terras estranhas e possuído pelas terríveis marcas da saudade (do quê é que não sei, mas tenho certeza que é a parte de maior desamparo no anthropological blues). Neste preciso momento o amigo atencioso está em seus últimos minutos de praia e já vai retornar a seu meio. Eu não. Acrescento que, para saldar honrosamente meu débito, devo reler esses fragmentos ao chegar em casa e cumprir com o combinado: enviar-lhe por e-mail as ementas solicitadas da área de sociologia da UnB. a Mesmo que seu presente – e o meu futuro – não lhe – me – tenha custado nada, considero a necessidade dessa troca para a continuidade sem turbulências do cotidiano; afinal, humanos, culturalmente, vivem se devendo favores.

a Aposto que me esqueci disso!

Uma de minhas maiores vontades momentâneas é tomar uma cerveja gelada, não obstante meu sistema digestório-excretor precisar de um tempo até se restabelecer. Consolar-me-ei em pensar – e só pensar – no dia em que serei auto-sustentável e terei um novo lar – ainda que eu esteja pensando no aluguel: enquanto se pagar em dia, é todo seu. A independência… Uma cerveja gelada é um pedaço disso, por isso a quero tanto. Porém, conforme venho tentando me ensinar ultimamente, em lembretes mentais esporádicos, vive-se um dia de cada vez e, exilado, é-se plenamente impotente, o inverso de plenipotente. Um exílio implica em um outro exílio ao fim do primeiro, pois a terra natal terá mudado, eu mesmo terei, e será necessária uma readaptação ao local e aos afazeres de origem. E em verdade desconheço se poderei fazê-los todos, esses afazeres. Depende muito das circunstâncias. Ainda assim, ainda se puder, teimosamente deles prorrogarei minha licença, em prol de um só: as leituras atrasadas, que só parecem se agigantar enquanto os prazos encolhem e se tornam onerosos. Pelo menos já me livrei da autofobia e, no horizonte, nem o amor eu vejo. Agora bastam as músicas e as renovações, transferências, trancamentos e reda(reden)ções…

[ MILÉSIMO POST DO SECLUSÃO ANAGÓGICA ] THE ILLUSION OF THE END – Jean Baudrillard, 1994 (altamente comentado) [ #1000 ]

14/10/16 a 06/11/16

English translation from French by Chris Turner. Tradução do inglês ao português por mim.

“history has become impossible because telling (recitatium) is, by definition, the possible recurrence of a sequence of meanings.”

“No event can withstand being beamed across the whole planet.” “to pursue the same train of thought: no sexuality can withstand being liberated, no culture can withstand bein hyped, no truth can withstand being verified, etc.”

“Matter shows the passing of time. To put it more precisely, time at the surface of a very dense body seems to be going in slow motion. Beyond a certain limit, time stops and the wavelenght becomes infinite.”

Qual seria o sentido de crianças nascendo mesmo após meu nascimento? I.e., do ponto de vista do combate ao niilismo. Porque se, para mim, mesmo os adultos são bebês gigantes com idéias de ter filhos e netos, trancados no ciclo da esterilidade, cuja trilha sonora é um grito estridente duma criança levada que ralou o joelho no parque… O tempo está estacionado na vaga dos deficientes.

“Deep down, one cannot even speak of the end of history here, since history will not have time to catch up with its own end. Its effects are accelerating, but its meaning is slowing inexorably.”

“Há uma terceira hipótese (…) o efeito estereofônico. Nós somos todos obcecados por alta fidelidade, pela qualidade da ‘reprodução’ musical. Nos consoles de nossos estéreos, abastecidos de tuners, amplificadores e microfones, misturamos, ajustamos, multiplicamos faixas em busca da batida perfeita. Isso ainda é música? Onde está o limite da alta fidelidade além do qual a música desaparece enquanto tal?” “ela desaparece em seu próprio efeito especial.” “É o êxtase e o fim da musicalidade.”

“that famous feedback effect, which is produced in acoustics by a source and a receiver being too close together”

“a short-circuit between cause and effect like that between the object and the experimenting subject in the microphysics” Re-re-re-re-re:RE:FWD:ENC-re-remaster of Reality

Cada bebê recria a sua Matrix. E só atinge o real em retrospecto. A revolução é mera nostalgia e arrependimento – e se?

“We shall never get back to pre-stereo music (except by an additional technical simulation effect)”

Quem se recusa a esperar, espera do mesmo jeito.

Quem espera ardorosamente, na verdade faz tudo menos esperar.

– Qual é a sua importante resolução?

– 800×600.

Baudrillard, o eterno canalha indiscordável. O autor da fascinação. Odiamo-lo, mas sempre concordamos com ele. Queremos profundamente que ele não esteja certo, mas pressentimos que está. A pobreza, recorrência e esterilidade – deliberada? Haha, qual a diferença? – de seu discurso nos resume, nos explica. Não podemos sequer simular que o superamos, ele é onipresente. Ele não foi o primeiro discurso branco (white noise, white text, white logos) intentado, mas é o primeiro consumado. Seria uma contradição dizer que é uma singularidade histórica? Ele desafia a máxima do “é possível ser filósofo a qualquer tempo”; estabelece-se como o último. Ou o primeiro de nós. Se ainda é possível não ser um Baudrillard, nascemos na época errada. É possível iniciar de forma diferente, mas ele é a conseqüência inelutável. Quando se tornar velho não será viável refutá-lo, porque então não terá o mesmo sentido a palavra “contradição”.

“on edge – that is, both overexcited and indifferent”

Keith Beaumont, Alfred Jarry: A Critical and Biographical Study

A ARTE DA DETERRÊNCIA: Empurrando as revoluções com a barriga. Temos ainda muita gordura petrolífera para queimar. “Deterrence is a very peculiar form of action: it is what causes something not to take place.”

Marvel apresenta: O Homem que Congelou a Roda da História

Teria Alexandre realmente feito história? Historicamente feito realidade? Ponha um grande homem na frente de uma criança de 3 anos e veja-o convertido subitamente num pateta universal.

Kant, O Pataphýsico do Meião

Teleologia das 4 Patafísicas

Fenomenologia Ubuana

Patafísica Concreta

Patafisicismo Histórico-Dialético Positivista

Catecismo Patafísico

Patafisiquismo Empírico

Tu não vales meia metafa – BQT Somewhere

½ ½ ½ 3 legs

3 lags of a

2nd Messiah

A patafísica de Cristo final lapada na rachada

Os Fundamentos da Patafísica Moderna – Novo A Mosca?

apenas subtítulo… A Mosca Filosófica & Outras Estórias…

FM & Outras Estações

Neminhanamoradamelevasério

A Música Patofúsica

A liquidação da Patafísica

a $1,99

Morrenvenenado

Jarry, Exploits and Opinions of Dr. Faustroll

Veículo Cerebral Só Visível no Invisível Mapa Mental do Gênio

A Patafísica Antológica – Recipiente Líq. II – The Fly…And Other Detritus

O EXPERIMENTO ANTICAPES

ASSINE A PESTIÇÃO POR UMA VIDA

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O universo é insetocêntrico.

A mariposa gira ao redor do Sol, desse Galileu Copo&Nico, o cientista com Asas – mas não seria o inverso, ó vôo relativo?

Os homens sobrevoam sua cabeça estacionária cheia de merda, tenho a certeza.

A cabana sobrevoa sua banana

A mucama voasub sua cruz

A Multiplicidade Concreta das Bolhas Atômicas

A Guerra Quente Nua que Há – Que Continua

A decência da Subida ao Vácuo

A Meridionauta Contra o Austronato

Eu não me recordo do título do meu livro;

Eu não me livro do título que recordo.

A força anormal que contrapõe a anti-gravidade.

D-Sire

Resided on The (D) Resistance

Past Tense

Nowadays Tranquility

Rope you find the hope

Todo Rousseau tem o seu Locke-fechadura.

Todo rousse tem o seu au mericano.

Pp. 18-9: “escape the heavy form, the gravity of ‘desire’, conceived as positive attraction, by the much more subtle eccentricity of seduction (…) the last gasp escape from the body of molecules that are much too light [not dark!]”

Pope’s eye beholding the espinafrican. SPIN NACH(E)

O africano giratório

seclusion of reality

SECLUSÃO ANAGÓGICA – ótimo título em termos de oferta e demanda se é que mentende. (22/10/16, momento em que escolhi o título do blog.)

“If, by some strange revolution, we set off in the opposite direction and turn inwards into this dimension of the past, then we can no longer represent that something to ourselves. The beam of memory bends, and makes every event a black hole.”

Depois da Ciência Histórica, na velocidade de alguns Hegels, a Probabilidade. Depois da Ciência Probabilística, no ridículo espaço de uns 15min, o link jornalístico sem maquiagem.

Como artistas, não nos sobra nem a energia para terminar nosso quadro.

“Celebration and commemoration are themselves merely the soft form of necrophagous cannibalism, [necromicrophysics] the homeopathic form of murder by easy stages. This is the work of the heirs whose ressentiment towards the deceased is boundless. (…) complete works, the publication of the tiniest of unpublished fragments (…) active age of ressentiment”

Um jogo quântico de RPG em que jogar o dado é banal.

A aristocracia celebra sua própria queda, porque só a aristocracia celebra. Mais, só a aristocracia cai.

“We eliminate St.-Just from the Dictionnaire de la Révolution. ‘Overrated rhetoric’, says François Furet, perfect historian of the repentance of the Terror and the glory.”

“the centenary of a death. With Rimbaud, Van Gogh and Nietzsche, 1991 will have been exceptional in terms of vile acts of desecration.”

“If the left were a species, and culture obeyed the laws of natural selection, it would have disappeared long ago.” Fortunately for us, we are zombies.

Ficarei cego e exorcizado após tudo ter lido. Até um Diogo, um Ueslei, sangue do meu sangue, reprovaria incêndios bibliotecários… Alexandria, o pecado do sapato de ponta fina.

HELLCICLAGEM O Incinerador de Sonhos, que levará junto alguns resíduos. Velocidade Alucinante do Sereno

Preguiça, o Primeiro Não-Pecado dos Meus-Filhos

P. 24: “The century is becoming intellectual today just as it became bourgeois a century ago.”

“the word ‘burgeois’ – which now exposes only the person who uses it to ridicule”

“The little trick of placing the nude from Manet’s Déjeuner sur l’herbe opposite Cézanne’s Card Players, as one might put an admiral’s hat on a monkey, is nothing more than the advertising-style irony currently engulfing the world of art.” The Facebookians

“É como se a história estivesse pilhando em meio ao seu próprio lixo em busca da redenção lixosa.”

“Onde jogaremos o Marxismo, que vem a ser aliás o pai dos lixos da história? (Ainda há alguma justiça aqui, já que as mesmas pessoas que geraram o lixo caíram dentro da lixeira.) Conclusão: se não há mais lixos históricos, é porque a história propriamente dita se tornou um lixo.”

“Quando o gelo congela, todo o excremento emerge à superfície. Então, quando a dialética congelou, todos os dejetos sagrados da dialética vieram à tona.”

O PROBLEMA DA ECONOMIA DOS RESTOS OU DO RESTO: “ideologias defuntas, utopias abandonadas, conceitos mortos e idéias possibilizadas, que continuam a poluir nosso espaço mental. A recusa histórico-intelectual cria um problema ainda mais sério que os restos industriais. Quem vai nos livrar da sedimentação de séculos de estupidez? (…) O imperativo ecológico é que todos os resíduos devem ser reciclados.”

O Corpo Que Bóia, Inanimado, na Lagoa Rodrigo de Freitas, hitchcockian classic.

Ionesco, Amédée, ou Comment s’en Débarrasser (peça)

Um velho nostálgico conta o quê? Vintage!

“Democracy itself (a proliferating form, the lowest common denominator of all our liberal west common societies); this planetary democracy of the Rights of Man, is to real freedom what Disneyland is to the imaginary.”

O que foi superplantado está sob a terra.

sóbrio elefante e a tartaruga de meia-idade

Onde estão os fragmentos póstumos resultantes da exumação do cadáver do Baudrillard?

“History has only wrenched itself from cyclical time to fall into the order of the recyclable.”

A China e sua burocracia de dragões fossilizada é logo ali!

“the problem of liberty quite simply cannot be posed here any longer. In the West, freedom – the Idea of Freedom – has died a natural death: In the East it was murdered, but there is no such thing as the perfect crime.”

Philippe Alfonsi, Au nom de la science (livro sobre a ‘memória d’água’!)

“glasnost? it is almost a post-modern remake of our original version of modernity (…) all the positive and negative signs combined: not just human rights, but crimes, catastrophes and accidents which are all joyously increasing in the ex-USSR since the liberalization of the regime.” “The irony of the situation is such that it will perhaps be us who are one day forced to rescue the historical memory of Stalinism, while the countries of Eastern Europe will no longer remember the phenomenon.”

“We are in the process of wiping out the entire 20th century, effacing all the signs of the Cold Wars one by one, perhaps even all trace of the Second World War and of all the political or ideological revolutions of the 20th century. The reunification of Germany is inevitable (…) a rewriting which is going to take up a large part of the last 10 years of the century. At the rate we are going we shall soon be back at the Holy Roman Empire.”

“Restoration, regression, rehabilitation, revival of the old frontiers, of the old differences, of particularities, of religions – and even resipiscence [re-sapiência] in the sphere of morals.”

“Ecstasy and beatification should not be confused.”

“the astonishing pre-eminence in the media of the figure of the Pope, who travels the whole world (even the Islamic Sahel!) blessing all forms of crossbreeding and repentance, while ensuing that durable forms of voluntary servitude are in place.”

“we are witnessing the striking illustration of what Hegel calls ‘the life moving within itself, of that which is dead’ [Das sich in sich selbst bewegende Leben des Totes.].”

“the strange ease with which all the communist regions collapsed: they had only to be touched for them to realize that they no longer existed. It was like a cartoon, where the tightropewalker, teetering over the abyss, suddenly sees his rope is gone and immediately falls, passing without transition from the imaginary to the real (this the basic mechanism of cartoons).”

“Freud saw very well those strange attractors that are condensation, displacement, ellipsis and reversibility. Forms, not values. And recent events have to be seen in terms of a theory of forms, rather than any kind of theory based on relations of force. The communist systems did not succumb to an external enemy, nor even to an internal one (had that been the case, they would have resisted), but to their own inertia; taking advantage of the opportunity, as it were, to disappear (perhaps they were weary of existing.)” “Now, this form of superconductivity of events is a marvellous one, like the form of the joke”

“The non-existence of governmental power is, admittedly, less visible in the West, on account of its great dilution and the transparency which enables it to survive. In the East, it was opaque and highly concentrated, to the point that, as with an unstable crystal, only an extra little dose was needed for it to liquefy.”

“Behind the apparent victory of the West, it is clear, on the contrary, that the strategic initiative came from the East, not by aggression this time, but by disintegration, by a kind of offensive self-liquidation, catching the whole of the West unaware. By force of circumstance, which may have equated with a perception of his own weakness, Gorbachev was able to take this strategic tack of disarmament, the real deconstruction of his own bloc, and thereby of the entire world order. This was, in a way, dying communism’s witty parting shot”

“Let us beware of the naïve vision of a frozen history suddenly awakening and automatically heading once again, like a turtle, for the sea (for democracy).” “The East gobbling up the West by blackmailing it with poverty and human rights.”

“Chernobyl whose radioactive cloud prefigured the collapse of the wall and the progressive contamination of the Western world. Bush may well disarm in the pretence of having won the Cold War, but it is the USSR and Gorbachev who invented the real bombe à depression, the surest one, the one which turns its own depression into a bomb.”

“German¹ would describe this kind of transcendent high spirits, of historical rejoicing in sudden change, as Übermut. [além-coragem; super-ânimo]” You have the Mut, you have the guts.

¹ Pode se referir a:

a) “Aleksei Yuryevich German (Russian: Алексей Юрьевич Герман, IPA: [ɐlʲɪkˈsʲej ˈjʉrʲjɪvʲɪdʑ ˈɡʲermən]; 20 July 1938 – 21 February 2013) was a Russian film director and screenwriter. In a career spanning five decades of filmmaking, German completed 6 feature films,(*) noted for his stark pessimism, long, serpentine sequence shots, black and white cinematography, overbearing sound design and acute observations of Stalinist Russia.

(*) 1967 – Sedmoy sputnik (The Seventh Companion)

1971 – Proverka na dorogakh (Trial on the Road)

1976 – Dvadtsat dney bez voyny (Twenty Days Without War)

1984 – Moy drug Ivan Lapshin (My Friend Ivan Lapshin)

1998 – Khrustalyov, mashinu! (Khrustalyov, My Car!)

2013 – Trudno byt’ bogom (Hard to Be a God) (original title History of the Arkanar Massacre)” “Trial on the Road (1971) is the film that made Alexei German famous. It was banned for 15 years and was shelved by the Ministry of Culture of the Soviet Union until its release (1986) during the Gorbachev era.”

b) Yuri Pavlovich German: “His best-known work, Ivan Lapshin (1937), was a police novel in a provincial setting whose main theme was the integration of criminals into society through order and labor. In this sense it resembles old bandit tales in which outlaws are reintegrated into society by colluding with the authorities. The novel incorporates a vision of collectivity (the policemen live in a commune), rationalism, culture, and social tranquility unperturbed by the black discord of crime. For good measure, Lapshin acts as mentor to his junior colleague. All of this is captured, with a twist, in the brilliant film version, My Friend, Ivan Lapshin made by the author’s son, Alexei German in the 1980s.”

c) “Lindsey Ann German (born 1951) is a British left-wing political activist. A founding member and convenor of the British anti-war organisation Stop the War Coalition, she was formerly a member of the Socialist Workers Party, sitting on its central committee and editor of its magazine, Socialist Review.” Obras que Baudrillard pudesse ter lido até escrever Illusion of The End: Sex, class, and socialism (1989); Why we need a revolutionary party (1989).

“Evil takes advantage of transparency (Glasnost).” eviral

“it shows through in all things when they lose their image, when they no longer offer any substance, when they become both immanent and elusive from an excess of fluidity and luminosity.”

“não será mais a violência da Idéia, mas o vírus da queda da imunidade.”

“A communism that dissolves itself is [in!] a successful communism.”

what’s after the God of the social?

O doente que não pára de enfraquecer; sem morrer. Adoecendo até as raias do absurdo. Já é um ser-doença, com um espectro de homem como parasita. Alergia assintomática. Inatestável. Imanente ao mundo dos desespecializados. Chiclete da alma. Mago do trouxa. Olhando-se no espelho? Rachaduras nos 4) encantos.

“Dissidents cannot bear a thaw. [o descongelamento] They have to die, or else become president (Walesa,¹ Havel²), in a sort of bitter revenge which, at any event, marks their death as dissidents” Lula, Mandela… Se o Lula não se tornou o establishment (não foi engolido pela Globo após um, dois, três mandatos, etc.), podemos nos considerar felizes por isso: morrerá para se eternizar como um dissidente do espectro progressista, sempiterno ícone desse projeto de país de meio-milênio!

¹ Presidente da Polônia nos anos 90.

² Caso curioso, porque foi presidente da República Tcheca, novo país, mas eleito tanto pelos cidadãos da Rep. Tcheca quanto pelos da Eslováquia, ex-território. Morreu em 2011.

“They whose strength was in silence (or censorship) are condemned to speak and be devoured by speech.” Andrei Sakharov;¹ Zinoviev.

¹ Físico nuclear que depois virou ativista pró-desarmamento – quantas camadas de ironia não há nessa sinopse? Obviamente o Ocidente vai laureá-lo com o Nobel da Paz em 1975, como não! E depois distribuir um outro prêmio anual com seu nome, como se faz sempre com heróis advindos da Cortina de Ferro (fabricados à la Tio Sam).

“Cioran: history is dying for want of paradoxes”

“Third–World War”

“For the human and ideological failure of communism by no means compromises its potency and virulence as an anthropological model. (…) stratégie du pire imposed on everyone as the last immune defense.”

“It would be the opposite of Orwell’s prediction (strangely, he has not been mentioned of late, though the collapse of Big Brother ought to have been celebrated for the record, if only for the irony of the date Orwell set for the onset of totalitarianism which turned out to be roughly that of its collapse). Even more ironic is that we are threatened by the democratic rewriting of history: the very images of Stalin and Lenin went away, streets and cities renamed, statues scattered, soon none of all that will have existed.”

“Eliminating the planet’s blackspots [ironia africana] as we might eliminate spots from a face: cosmetic surgery elevated to the level of the political, and to Olympic performance levels.”

A zona única chamada Infernéu, o Além-agora.

“Fusion always turns into confusion, contact into contamination.” “networks transmit viruses even faster than information”

“It is Dracula against Snow White (the Dracula myth is gathering strength all around as the Faustian and Promethean myths fade).” “The danger is to feed them too quickly, since this kills them.”

“We had never seen anything like this before – the strongest State and largest army in the world fainting right away.” “What should have been a source of universal rejoicing passed off almost without interest – a sign of the nullity of the age.” “The end of empires means the unrestricted reign of slave micro-systems.” “The energy of the corpse is recycled, just as Jarry had dead man pedalling”

“even the recognition of death, the intuition of that death (of the political) is impossible, since it would reintroduce a fatal virus into the virtual immortality of the transpolitical. [os mini-Estados condenados eternamente à imanência] There is the same problem with freedom: a non-violent, consensual, ecological micro-servitude, [a Gaia] which is everywhere the successor to the totalitarian oppression. [‘Seu porco estalinista, jogue esta casca de banana no lixo, seu genocida das futuras gerações!’]” Incrível que eu o tenha digitado em 25/10/16, insuspeito do genocídio (nada ecológico, é claro) que se aproximava… No momento em que digito este trecho para publicação no Seclusão, 0h15 de 6 de maio de 2023, uso máscara, uma KN95, porque sou terrivelmente alérgico a ácaros e estou remexendo em papéis velhos, onde anotei estas aspas de Baudrillard… É como reviver aqueles meses de agonia… um pouco. Comentando também sobre Stalin, quando ele definitivamente volta à baila significa: a História voltou a andar. Des-revisionismo em ação.

É preciso desistir de algo a fim de verdadeiramente alcançá-lo. (Só os grandes homens entenderão.)

“O fato de Marx ter errado o vencedor não depõe contra a exatidão da análise marxista de forma alguma, só acrescenta a ironia objetiva que faltava. O destino cuidou do assunto. Foi como se um gênio mau [evil genie] tivesse substituído um pelo outro – o comunismo pelo capitalismo – no último momento.” “Uma admirável divisão do trabalho: o Capital realizou a tarefa do Comunismo e este morreu no lugar do Capital. Mas isso pode facilmente revirar.” “Mas isso também é parte da ironia da história: a inversão do propósito final – a ilusão final.”

“O Capital canibalizou toda a energia negativa, a da história e a do trabalho, numa – literalmente – operação sarcástica (…) O que vemos diante de nós é o triunfo paródico da sociedade sem classes (…) o cozinheiro [chef] se torna chefe de Estado, ou quase (já vimos pior desde que Lenin proferiu este seu velho sonho). (…) de qualquer forma, quando o Estado deixa de ser Estado, o cozinheiro deixa de ser cozinheiro. Como Brecht disse, o fato da cerveja não ser mais cerveja é harmoniosamente compensado pelo fato do cigarro não ser mais cigarro também. Logo, a ordem irônica está salva.”

“Gorbachev is giving up Marxism! Fantastic! But what does <giving up> mean? Can you give up Marxism in the way you give up tobacco or alcohol? Can you give up your father and mother? Can you give up God? In its time, the Church has come close to giving up the Devil or the Immaculate Conception, but this has not occurred. Renunciation is the symmetrical and opposite movement to faith – as absurd and useless. If things exist, there is no use believing in them. If they do not exist, there is no use renouncing them.” “What if one day the West too were to renounce capitalism?” « Et si un jour l’Occident était forcé de ressusciter le marxisme, qui fait quand même partie du patrimoine, que diable (le Diable aussi d’ailleurs) ! »

« desimulation » pela primeira vez no autor (p. 54).

“virtual is what puts and end to all negativity”

“The highest pressure of news corresponds to the lowest pressure of events and reality [le réel].”

“only information has sovereign rights, since it controls the right to existence.”

Vingança pela quietude da alma.

“There is no worse mistake than taking the real for the real and, in that sense, the very excess of media illusion plays a vital disillusioning role. In this way news could be said to undo its own spell by its effects.” “Television and the media world render reality [le réel] dissuasive, were it not already so.”

soaking up the sulky sucking

“Saddam, who will in the end have been nothing but that fairground dummy you shot at from point-blank range, had to be saved.” Anedota: Baudrillard morreu 3 meses após Hussein.

“A TV é imunizadora.” E as redes sociais são ataques à imunidade. A predominância das redes sobre a televisão é irreversível e natural.

“the most odious Realpolitik: the Shi’ites, the Kurds, the calculated survival of Saddam…”

“The Stoics contest the very self-evidence of pain, when the body’s confusion is at its height. Here, we must contest the very self-evidence of war, when the confusion of the real is at its height.”

“In a little time it will be possible to read La guerre du Golfe n’a pas eu lieu [1991] as a science-fiction novel (…) Like Borges’ chronicling of cultures which never existed.” “Anyhow, the book has fallen – quite logically – into the same black hole as the war.” É este humor buraco negro que tanto admiro no meu ídolo Jean Baudrillard. Somos escritores-gêmeos. Não o digo para prodigalizar meu talento, mas nosso temperamento e falsa auto-depreciação são idênticos – talvez eu não saiba, mas modelei os meus nos dele, pois meu primeiro contato com sua obra foi ao redor de sua morte, quando eu chegava a meus 20.

“It was the simulacrum of Helen that was at the heart of the Trojan War. The Egyptian priests had held on to the original (we do not know what became of it) when she set out again with Paris for Troy.” “the universal form of beauty is as unreal as gold the universal form of all commodities.”

P. 66: “Dianismo” [conceito meu, Princess Diana]: o demagogismo do discurso de ajuda ao próximo, sobretudo às crianças sem pais (pais = dinheiro) do famélico Quarto Mundo. Carência alheia como atalho covarde para a fama. Espetacularização do indigentismo.

…AND REPENTANCE FOR ALL

Laras Crofts nos escombros de outras sociedades…

Lúcia Maria no Lixão com Grafites Residuais na Ilha dos Porcos-Subomens

Sebastiões Salgados, Uni-Vos!

Como é doce o som da fome e do caos!

Há CPFs e CNPJs que vivem só de “denúncia anônima”.

annihibalism

“The sacrifices we offer in return are laughable (a tornado or two, a few tiny holocausts on the roads, the odd financial sacrifice)”

“the demographic catastrophe, a veritable epidemic which we deplore each day in pictures.”

“One day it will be the Whites themselves that will give up their whiteness.”

“Because it is unable to escape it, humanity will pretend to be the author of its destiny.”

“Uma memória hipertélica que armazena todas as informações num estado constante de recuperabilidade instantânea, excluindo qualquer trabalho de luto, qualquer resolução do passado. O Inconsciente é já algo desse tipo. Ele não conhece passado nem esquecimento, não é arcaico nem arqueológico. Ele é, ao contrário, um perpétuo presente, uma instantaneidade de todos os eventos físicos, que aparecem em sua superfície em uma contínua, potencial passagem ao ato. Paradoxalmente, por conta desse zeloso esforço para trazer de volta à tona, de uma maneira forçada, o que nós mesmos nem lembramos mais, vivemos num mundo tanto sem memória como sem esquecimento. Isso é como o céu – ou o inferno – deve ser: o reconhecimento maciço, a cada momento, de todos os padrões de nossa vida. A imortalidade penitente e penitenciária, a imortalidade carcerária de uma memória implacável.”

75: ainda sobre as Lascaux “simulacra” caves.

“Quando confrontados com as pinturas nas cavernas, os povos do século XVIII não podiam acreditar nelas. Eles as viam como uma mistificação criada por libertinos para ridicularizar a Bíblia (dizia-se que as cavernas haviam sido pintadas para fazer com que os outros acreditassem numa humanidade ante-cristã).”

“Assim como com aqueles objetos de que Freud fala, que, por estarem o mais próximos dos órgãos sexuais femininos, fazem o seu papel durante as alucinações sexuais, fetichizamos fósseis e relíquias porque eles são o que há de mais parecido com nossa origem perdida e são-nos substitutos de uma possível origem.”

“Secretamente, preferimos não ser mais confrontados com o original. Tudo que queremos é o copyright.”

OS HUMANO-BACTÉRIAS: “Será que o total do futuro vai se exaurir nessa síntese artificial do passado? Quem sabe aonde este gigantesco movimento retrógrado poderá nos levar? Seria ele uma fase efêmera em nossa pós-história, e, conseqüentemente, um fenômeno cultural, ou será um desenvolvimento de significância ainda mais profunda, relacionando-se com o destino da espécie, ou até além, com oscilações de um tipo cósmico? (Com o girino, logo que o ápice da sexuação é atingido, há involução rumo a formas mais precoces de reprodução. Estaria o ser humano reinventando a clonagem biológica no ponto final de uma história sexuada?)”

Somos sou a última singularidade

logo serei inconfundível com o protótipo de último homem, que não poderá mais se reproduzir.

Que espécie de quadro irá se mover sozinho?

Estrelas continuarão estourando?

“Idealization always goes with abjection, just as charity always goes with destitution.”

A natureza vira coisa (modernidade) para depois virar sujeito (pós-modernidade) (mau sinal): não há outro; há apenas sujeitos – e, logo, logo, só sujeitos sem objetos.”

Biosphere 2, o primeiro “zoológico humano”, Arizona. Status: fracassado.

https://en.wikipedia.org/wiki/Biosphere_2

“Especially during the first year, the 8 inhabitants reported continual hunger. Calculations indicated that Biosphere 2’s farm was amongst the highest producing in the world <exceeding by more than 5x that of the most efficient agrarian communities of Indonesia, southern China, and Bangladesh’.” Ou é mentira ou realmente os americanos são obesos incuráveis…

“They consumed the same low-calorie, nutrient-dense diet that Roy Walford had studied in his research on extending lifespan through diet.” Mas faltou carne.

“The oxygen inside the facility, which began at 20.9%, fell at a steady pace and after 16 months was down to 14.5%. This is equivalent to the oxygen availability at an elevation of 4,080 metres (13,390 ft). Since some biospherians were starting to have symptoms like sleep apnea and fatigue, Walford and the medical team decided to boost oxygen with injections in January and August 1993.”

“After Biosphere 2’s first mission, extensive research and system improvements were undertaken, including sealing concrete to prevent the uptake of carbon dioxide. The second mission began on March 6, 1994, with an announced run of 10 months.”

“On April 1, 1994, a severe dispute within the management team led to the ousting of the on-site management by federal marshals serving a restraining order, and financier Ed Bass hired Steve Bannon, then-manager of the Bannon & Co. investment banking team from Beverly Hills, California, to run Space Biospheres Ventures.”

“At 3 a.m. on April 5, 1994, Abigail Alling and Mark Van Thillo, members of the first crew, allegedly vandalized the project from outside, opening one double-airlock door and 3 single door emergency exits, leaving them open for about 15 minutes. Five panes of glass were also broken. Alling later told the Chicago Tribune that she ‘considered the Biosphere to be in an emergency state … In no way was it sabotage. It was my responsibility.’ About 10% of the Biosphere’s air was exchanged with the outside during this time, according to systems analyst Donella Meadows, who received a communication from Alling saying that she and Van Thillo judged it their ethical duty to give those inside the choice of continuing with the drastically changed human experiment or leaving, as they didn’t know what the crew had been told of the new situation.”

“Mission 2 was ended prematurely on September 6, 1994. No further total system science has emerged from Biosphere 2 as the facility was changed by Columbia University from a closed ecological system to a ‘flow-through’ system where CO2 could be manipulated at desired levels. § Steve Bannon left Biosphere 2 after 2 years, but his departure was marked by an ‘abuse of process’ civil lawsuit filed against Space Biosphere Ventures by the former crew members who had broken in. Leading managers of Biosphere 2 from the original founding group stated both abusive behaviour by Bannon and others, and that the bankers’ actual goal was to destroy the experiment. During a 1996 trial, Bannon testified that he had called one of the plaintiffs, Abigail Alling, a ‘self-centered, deluded young woman’ and a ‘bimbo’. He also testified that when the woman submitted a 5-page complaint outlining safety problems at the site, he promised to shove the complaint ‘down her throat’. Bannon attributed this to ‘hard feelings and broken dreams’.”

Os fascistas estragam tudo que tocam. Descrição de Baudrillard agora: “Outside Tucson, in Arizona, right in the middle of the desert, a geodesic glass and metal structure accommodating all the planet’s climates in miniature, where 8 human beings (4 men & 4 women, of course) are to live self-sufficiently, in a closed circuit, for 2 years, in order – since we are not able to change our lives – to explore the conditions for our survival.”

“Man is also a scorpion, just as the Bororo are arara(*) and, left to himself in an expurgated universe, he becomes, himself, a scorpion.

(*) Arara is a name of Tupi origin for a bird of the genus Ara which includes the macaws (French: aras).”

Secretamos significados como o escorpião secreta seus venenos.

Segredamos significados como o escorpião secreta seus venenos.

Homem, o grande cretino.

“That is the terroristic dream of the transparency of good, which very quickly ends in its opposite, the transparency of evil. § We must not reconcile ourselves with nature.”

espaço siderreal – certamente não são Adão e Eva ressuscitando: “The elimination of all sexual reproduction: it is forbidden to reproduce in Biosphere 2; even contamination from life [le vivant] is dangerous; sexuality may spoil the experiment. Sexual difference functions only as a formal, statiscal variable [não podiam furunfar nem com camisinha?! condomnados ao celibato!] (…) if anyone drops out, a person of the same sex is substituted.” “glass coffin” coma cosmético

O GRAU 1 BILHÃO DA ESCRITURA – O SUPER-U****I – o maior filósofo se torna o mais inconseqüente dos títulos.

Como pode alguém ofender alguém de blasé a sério? Que se acredite que se ofenda alguém que nunca se ofende é um atestado de desespero.

Nada a temer em temer o nada.

“God, for his part, if he exists, does not believe in his existence, but he allows the subject to believe in it, and to believe he [god] believes in it, or [the subject] not to believe that – but not to believe he [god] does not believe in it (Stavrogin [personagem dostoievekiano, Os Demônios]).” Genial!

RESUMO LÓGICO DAS IMPLICAÇÕES DO EMPOLADO RACIOCÍNIO DE STAVROGIN E O SENTIDO DE “TUDO É PERMITIDO” NA OBRA DE DOSTOIEVSKY

1. Deus existe; Deus não acredita na própria existência; Deus permite que o homem acredite na existência de deus ou não, mas não na segunda verdade fundamental.

1.1 O homem acredita na existência de deus.

1.1.1 O homem acredita que deus acredita na própria existência.

1.1.2 O homem acredita que deus não acredita na própria existência.

1.2. O homem não acredita na existência de deus.

1.2.1 O homem acredita que deus, se existisse, acreditaria na própria existência.

1.2.2 O homem acredita que deus, se existisse, não acreditaria na própria existência.

2. Deus não existe.

2.1 O homem acredita na existência de deus.

2.1.1 O homem acredita que deus acredita na própria existência.

2.1.2 O homem acredita que deus não acredita na própria existência. Este homem na verdade é um grande ateu, pois um deus que não acredita na própria existência seria pior que a não-existência de um deus.

2.2. O homem não acredita na existência de deus.

2.2.1 O homem acredita que deus, se existisse, acreditaria na própria existência.

2.2.2 O homem acredita que deus, se existisse, não acreditaria na própria existência. Este homem é, finalmente, um grande ateu, o único ateu em sentido estrito, pois um deus que não acreditasse na própria existência, pensa ele, não deveria sequer ser pensável. Seria pior e mais absurdo que a não-existência de um deus, seria como uma confissão de não-onipotência por parte deste suposto deus.

2 conclusões:

a) As possibilidades éticas são maiores sem Deus (tudo é permitido).

b) Seria possível provar a inexistência de deus (jamais a existência)¹ ao se encontrar um só indivíduo que acredita que deus² não acredita em si próprio. É o caso do personagem da novela niilista de Dostoievsky. Seu niilismo absoluto, sua negação ultimada da realidade, não se escora no ingênuo fato de que não acredite num deus, mas que para ele, como um homem uma vez fanático e que pensou a idéia de Deus até as suas últimas conseqüências, esse deus se tornou impossível. Na percepção alcançada por Stavrogin, todos os casos são iguais, apenas ele e homens análogos a ele, um novo homem, são um outro: se Deus existe, quem acredita nele ou não são iguais; se Deus não existe, e Deus não existe, pois Stavrogin recebeu essa iluminação e nova sabedoria, ateus e crentes que acreditam que deus acredita em si próprio são iguais (inofensivos); mas ateus e crentes que acreditam que deus não acredita(ria) em si próprio, estes são niilistas radicais, os únicos ateus na verdadeira acepção da palavra. Igor Karamazov (outro romance) se questiona: Tudo é permitido?, mas Stavrogin responde, em Os Demônios.

¹ Pois todos os indivíduos precisariam respeitar as vedações em 1.1 e 1.2. Mas mesmo que todos na Terra em dado dia as respeitassem, não quereria dizer que jamais um indivíduo no passado as respeitou; e nem que nunca haverá de nascer um indivíduo que não as respeite.

² O deus existente, para o crente, ou inclusive apenas uma abstração, a hipótese de deus, de um deus que não acreditasse em si mesmo, para o não-crente.

Não exageremos a importância deste raciocínio lógico elaborado, no entanto: não podemos provar crenças (talvez apenas a nossa própria, e ainda assim podemos desconfiar de que às vezes mentimos para nós mesmos).

P. 94: “Todos esses corpos de pensamento [Stirner e seu individualismo soberano, Marx e a luta coletivista na História, Nietzsche, seu Übermensch e a transvaloração de todos os valores demasiado humanos] tiveram profundas conseqüências para o mundo – nenhum se converteu em realidade.”

“um <além> que não é aquele da religião, mas um <além> do humano que permanece dentro e com o humano (…) uma ilusão talvez, mas uma ilusão superior.” “Contrariamente à ilusão transcendental das religiões, o jogo das aparências é supra-humano”

Se a história tivesse um fim, esse fim já teria sido alcançado… Um dia me arrependerei dos meus atuais prognósticos e escreverei o livro HEIDEGGER ESTAVA CERTO? A tecnologia nos comeu sem volta. Quem dera Baudrillard estivesse errado…

“O que atualmente toma o lugar da transmutação é a transcrição da Idéia em uma operação técnica (…) O que mostra que Nietzsche, por um lado, estava certo: a raça humana, deixada a si mesma, com efeito só sabe se reduplicar e destruir.”

“fetichismo técnico (…), meramente a paródia da aceitação do seu destino, através de uma manipulação biológica que é meramente a caricatura da transvaloração dos valores.” “Desnecessário dizer, essa transvaloração de valores de que Nietzsche fala não teve lugar, exceto precisamente no sentido oposto – não para além, mas deste lado, aquém, do bem e do mal”

“Não mais uma fetichização de divindades, grandes idéias ou narrativas, mas de diferenças mínimas e de partículas. (…) As fronteiras entre o humano e o inumano estão desvanecendo, de fato, mas essa perda de nitidez se dá numa espiral rumo ao sub-humano (…) Verklärung des Untermenschen. Transfiguração do sub-homem.”

“Essa reabsorção da metáfora da vida na metástase da sobrevivência é efetuada por uma progressiva redução ao menor denominador comum.”

“Paradoxalmente, é a irrupção da biologia, i.e., da ciência da vida, que marca essa irrupção do não-vivo (…) Bem como a irrupção da psicologia marca o fim da transcendência da alma e sua suplantação por uma desconstrução analítica do mundo interior. Bem como a irrupção da ciência anatômica marca o fim do corpo e da morte como metáforas e suas entradas em cena como realidade e fatalidade biológicas.”

“Podemos ainda falar do inconsciente, dado o prospecto do homem vindo a ser definido geneticamente? Mesmo a imortalidade do inconsciente, tão cara a Freud, está sob séria ameaça.”

RELEMBRE DEDÊ (TESE, vide mais abaixo): “Não mais imortal em termos de alma, que já desapareceu, nem mesmo em termos de corpo, que está para desaparecer, mas em termos de fórmula, imortal em termos de código.”

“The trend in physics itself is towards the reduction of this interstitial void. It is the dream of that science to render matter totally concrete, to wrest all its energy from it by impelling it to limit-densities, densities artificial and monstrous.” Como congelar a luz, o novo absurdo alquímico.

“From within, a culture is immortal; it seems to approach its end in an asymptotic curve. It has, in fact, already disappeared. The elevation of a value to universality is a prelude to its becoming transparent, which itself is a prelude to its disappearance.”

“the single-handed ocean crossings, which are our modern equivalent of climbing Annapurna, [pico da cadeia de montanhas do Himalaya (circa 8000m); escalado pela primeira vez em 1950] are posthumous fantasies.”

“Peter Schlemihl had at least sold his shadow to the devil; ours we have simply lost.” “The atomic shadow, the only one left to us: not the sun’s shadow, nor even the shadows of Plato’s cave, but the shadow of the absent irradiated body, the delineation of the subject’s annihilation, of the disappearance of the original.”

Alain Ehrenberg, La fatrigue d’être soi

“the hero of subjectivity, of breaking with the old, of free will and Stirner’s radical singularity, is well and truly dead.” “This is the age of the daily invention of new particles. (…) freedom is merely the statistical end-product of impacts between singularities and no longer, therefore, in any sense a philosophical problem.”

“His [the individual of today] only aim is the technical appropriation of the self. He is a convert to the sacrificial religion of performance, efficiency, stress and time-pressure – a much fiercer liturgy than that of production – total mortification and unremitting sacrifice to the divinities of data [l’information], total exploitation of oneself by oneself, the ultimate in alienation. § No religion has ever demanded as much of the individual as such, and it might be said that radical individualism is the very form of religious fundamentalism.” “By comparison, with this voluntary holocaust, [do sujeito atomizado liberal] this escalation of sacrifice, the so-called return of religion which we pretend to fear – these occasional upsurges of religiosity or traditional fundamentalism – is negligible. It merely conceals the fundamental integrism of this consensual society (…) Religious effects are taken too seriously in their religious dimension and not seriously enough as effects, that is, as making the true process.” “each one reviving for itself, in its micro-universe, the now useless totalitarianism of the whole.”

LIVRES COMO PEIXES NÃO-CONSTRANGIDOS EM SEUS AQUÁRIOS: “Liberty operates in a field that is limited and transcendent, in the symbolic space of the subject, where he is conformed with his own finality, his own destiny, whereas liberation operates in a potentially unlimited space. It is a quasi-physical process (…) That is why liberty is a critical form, whereas liberation is a potentially catastrophic form. The former confronts the subject with his own alienation and its overcoming. The other leads to metastases, chain reactions, the disconnection of the subject. Liberation is the effective realization of the metaphor of liberty and, in this sense, it is also its end. (…) Not the free subject any longer, but the liberal individual. (…) From liberty to liberation, from liberation to liberalization. The extreme point of highest dilution, minimal intensity” “And, in the process, the concept of alienation disappears. This new, cloned, metastatic, interactive individual is not alienated any longer, but self-identical. He no longer differs from himself and is, therefore, indifferent to himself. This indifference to oneself is at the heart of the more general problem of the indifference of institutions or of the political, etc., to themselves § The indifference of time: the non-distance between points in time, the promiscuity of points in time, the instantaneousness of real time. Boredom. § The indifference of space: the televisual, remote-controlled contiguity and contamination of all points in space, which leaves you nowhere. § Political indifference: the superimposition, the proliferation of all opinions in a single media continuum. § Sexual indifference: indistinguishability and substitution of sexes as a necessary consequence of the modern theory of sex as difference.” “this identitary individual lives on the hymning and hallucinating of difference, employing to that end all the devices for simulating the other.” Certamente Baudrillard ganharia o rótulo de fascista e transfóbico pela parte “amorosa” (inofensiva, cripto-neoliberal) da esquerda de hoje. A parte <<<revolucionária>>> (com o perdão da sobreposição das aspas) da esquerda e do <<<progressismo>>>.

ESQUEÇA DEDÊ (ANTÍTESE, vide acima): “This identity syndrome has a particular form of madness specific to it. To the <free> individual, the divided subject, there corresponds the vertical madness of yesteryear: psychical madness, the transcendent madness of the schizophrenic (…) [but] horizontal madness (…) [is] autism.”

Trecho de BAUDRILLARD, Jean. The Illusion of The End (1994) e, a seguir, especulações e desdobramentos meus sobre a figura do autista que devora o seu duplo e absorve seu irmão gêmeo, seja na vida real ou na ficção, com ou sem êxito:

“[Not anymore] the delirium of the schizophrenic [personalidade cindida] but of the isophrenic, [idêntico tão-só a si mesmo] without shadow, other, transcendence or image (…) the autist who has devoured his double and absorbed his twin brother¹ (being a twin is, conversely, a form of autism à deux). (…) deprived of hereditary otherness, affected with hereditary sterility, they have no other destiny than desperately to seek out an otherness by eliminating all the Others one by one (whereas <vertical> madness [o tipo antigo da loucura, a família da esquizofrenia, formas arquetípicas do <desejo> de Gilles Deleuze & Guattari] suffered, by contrast, from a dizzying excess of otherness). The problem of Frankenstein, for example, is that he has no Other and craves otherness. This is the problem of racism.”

¹ The Black-Zamasu Syndrome! a Ou a Era Messi?b

O ANTES & DEPOIS DO “PERSONAGEM DUPLICADO” ZAMASU

a Black & Zamasu: dois lados de uma mesma moeda: Dois personagens de mangá/anime que são, no enredo, a mesma pessoa, porém provindos de universos alternativos (o que seria muito demorado explicar em suas minúcias), “um deles” mortal, um tanto impulsivo e dotado de um corpo “ágil e perfeito” (em que residiria essa agilidade e perfeição será deslindado a seguir – este mortal de que falo é chamado de “Goku Black” pelos demais personagens da trama), “outro deles” imortal, possuidor de extensos conhecimentos sobre o universo e não obstante dotado de um corpo um tanto menos versátil que o de sua contraparte espelhada (este é Zamasu, a identidade ‘original’ do ‘falso duo’). “Ambos” formam um par astuto e eficiente, pode-se dizer que “se completam” de forma platônica.

A solução final encontrada pelo(s) personagem(ns) desdobrado(s) Black-Zamasu na sua tentativa de cumprir o ambicioso propósito que persegue(m) com afinco na estória – o singelo plano da extinção da humanidade não só na Terra como em todo o universo (Ningen Zero Keikaku,(*) ‘Plano Zero Humanos’), e com humanos, nesta narrativa, não entender apenas criaturas antropomórficas, os terráqueos, mas todos os seres que a filosofia existencialista classificaria como conscientes de que um dia irão morrer dada “sua natureza meramente finita, recalcitrante e imperfeita, de pecadores natos, enfim”, como diria o vilão ou a dupla de vilões em questão –, envolve a precipitada decisão de “fundir-se consigo mesmo”, acarretando a transformação de duas entidades em uma.

(*) Acho divertida a inadvertida – cacofonia intencional – coincidência acústica que a transposição da obra para o português acaba gerando: ningen, sendo o japonês para ‘humano’, corresponde exatamente à idéia que Black-Zamasu tem/têm do homem: um zé(ro)-ninguém.

Este Narciso que conseguiu mergulhar no espelho d’água e não se afogar, este Fausto do universo ficcional de Dragon Ball, após vender a alma para chegar aonde quer, percebe tarde demais que o “diabo” (neste caso ele mesmo) o ludibriou na barganha, ao constatar que, uma vez fundido com sua cara-metade, sua principal vantagem tática na trama até aquele momento é, como num simples passe de mágica, desfeita: seu senso de cooperação com um Outro (ainda que esse outro fosse apenas ele desdobrado), sua sincronia e trabalho em equipe ideais na paciente execução de um projeto maquiavélico, acabam dando lugar a uma criatura “semi-imortal e auto-suficiente”. Ora, só que não existe a semi-imortalidade (algo intrinsecamente inútil, inferior à imortalidade) nem uma auto-suficiência genuína.

A sutil tragédia desta estória, nem sempre capturada pelo leitor/espectador, está em que a fim de chegar tão longe em seus planos diabólicos Zamasu teve de roubar o corpo do artista-marcial “perfeito”, Goku, o protagonista, que encarna o próprio sentido do humano arquetípico, cheio de defeitos, carências e tolas expectativas, dotado de uma fé cega e ingênua no futuro a despeito da certeza da morte e até de uma certa dose de despeito pelo conceito de divindade (justamente o que nos torna cônscios de nossa capacidade inerente de nos corrigirmos e nos superarmos diversas vezes ao longo de nossa curta vida), conjunto de características tão abominado pelo mesmo Zamasu. A parte “humana” de Zamasu, Goku Black, ao ser incorporada ao próprio Zamasu original, constituindo a partir daí um corpo só, desestabiliza seu Ser Eterno. Seu novo invólucro, em vez de onipotente, se revela uma falsificação, um embuste. Zamasu, o Uno, não dispõe mais da vida eterna.

E este nem é o pior de seus problemas após a fusão: logo se evidencia que, contra os humanos – raça que aprende com os erros e enquanto não perece ousa tentar outra vez, mesmo sem ter idéia do desfecho, de se seus esforços serão inúteis ou não, entregando, de qualquer maneira, tudo de si –, a própria habilidade de Zamasu, da parte do Goku Black em Zamasu, que ele tomou emprestada do corpo mortal de Goku quando uma de suas metades se transformara em Black no passado, a habilidade do contínuo e incessante auto-aperfeiçoamento pessoal, não passa de uma cópia barata da versão dos humanos autênticos dessa mesma habilidade. Zamasu, principalmente agora que contaminou sua antiga parte “humana” (parte que, reitera-se, era um mal necessário para que ele sobressaísse no combate) com traços divinos (e não o contrário: em Zamasu, é o humano que decai graças a sua metade deus, e não o inverso!), não possui a vontade e a determinação necessárias que lhe possibilitariam, em última instância, ultrapassar seus próprios limites.

Ao escolher se fundir consigo próprio, Zamasu apenas antecipou o fim do combate: se tornou um adversário facilmente vencível, incapaz de acompanhar o ritmo das proezas dos rivais e de compreender o ethos do inimigo. (Em sua cabeça, devia se perguntar: Por que eles lutam comigo, em intensa solidariedade uns com os outros o tempo todo, mesmo quando se acham em nítida desvantagem na correlação de forças? E por que eles não desistem nunca de realizar o impossível? O que faz criaturas tão frágeis e insignificantes se comportarem de maneira tão absurda e ao mesmo tempo exibirem uma invejável serenidade no olhar? Que impulso é esse que os move, que nem mesmo um deus como eu entende?!) O resultado final icônico do embate é que Black-Zamasu termina cortado em dois por um dos humanos que o antagonizam. Seu corpo imortal tinha o dom da auto-regeneração, mas sozinho não poderia vencer os humanos super-poderosos da trama fantástica. Quando se fundiu consigo mesmo, seu novo corpo semi-imortal foi aos poucos se deformando e perdendo aquela capacidade restauradora, embora ele calculasse que o ganho de poder resultante da fusão decidiria a guerra a seu favor.

Aquilo que fôra cortado pela espada de um humilde ser humano (a espada, apenas uma espada como qualquer outra, nada mais é do que o símbolo da inquebrantável perseverança dos mortais) não era bem a carne de Zamasu, a dizer verdade, mas seu espírito, sua própria essência, e este profundo ferimento metafísico se mostrou uma chaga incurável.

A evolução tremendamente satisfatória (em sua ascensão e queda) do multifacetado e secretamente atormentado Zamasu – esse Prometeu negativo, esse deus presunçoso e anti-socrático, que “não sabia que nada sabia” –, e seu estratagema cínico de forjar uma hipócrita aliança com seu duplo ou Doppelgänger, um duplo que ao mesmo tempo que imitava os seres humanos teria de ser seu principal instrumento para finalmente extingui-los, tornam este personagem, de longe, no melhor antagonista jamais apresentado por esta série shounen de lutinhas acéfalas, em que normalmente imperam a superficialidade mais boçal e os velhos clichês maniqueístas.

OBS: Deve haver uma mística ligação entre Jean Baudrillard e Dragon Ball, pois não é a primeira vez que eu associo a ambos – e ser mais distintos um do outro é impossível! – em posts do Seclusão (aqui vai a pista de uma possível explicação racional: novamente o assunto abordado se refere à ‘síndrome de deus’ de que padece o animal homem em todas as culturas conhecidas)!

Vide o contexto completo da primeira “analogia” entre aspas de Baudrillard e personagens de Dragon Ball em https://seclusao.art.blog/2021/12/20/ss-em-3-atos/.

b Lional “La Pulga” Messi: O conhecido jogador de futebol foi tachado por muitos “entendidos” de “autista” nos seus anos iniciais de carreira porque ‘se comunicava’ e ‘atuava’ de forma supostamente bizarra e muito diferente da habitual, tanto nos gramados quanto na vida privada. Diferente até de outros gênios do passado, principalmente do ícone-mor argentino, o extremamente sociável e integrado com o seu povo, extrovertido e burlesco Diego Maradona, que por muitos anos foi uma sombra na trajetória de Messi.

Vemos, num dégradé perfeito, como Lionel Messi foi se tornando, com a idade, cada vez mais e mais maradônico, seja porque assim quisemos passar a enxergar após começarmos a prestar mais atenção ou porque o meia-atacante foi se tornando, sem afetação, de modo orgânico e natural, grande e irreverente tal qual seu ídolo de infância, não só através de suas quebras rotineiras de recordes e a técnica cada vez mais precisa e apurada, como também pela maturidade com que aprendeu a chamar toda a responsabilidade e estrelato para si, aglutinando os companheiros pelo bem maior da equipe e confrontando com personalidade e malemolência os críticos e adversários, cada vez mais estupefatos e rendidos.

Messi soube se desdobrar, enquanto se movimentava como uma flecha durante os jogos, separou o Messi indivíduo comum do Messi lendário, o cidadão do mago protagonista de espetáculos, se situou num ângulo favorável, numa distância confortável, diante do espelho em que se punha a observar seu próprio Outro, que na verdade são duas coisas distintas, seus dois Outros – 1) o seu futuro como será contado pela História, que só pode ser decidido por ele mesmo; 2) e aquela antiga sombra ou reflexo pertencente ao passado, que mais parecia um destino inexorável a pesar como uma bigorna sobre as suas costas, ele, Diego Armando Maradona. Por muito tempo, no entanto, pensaram, e talvez Messi tenha pensado, que seus dois Outros eram um só: Messi é Maradona; mas se Messi não tem uma Copa, então Messi não é Maradona… então,a na realidade, Messi não é ninguém… Não!… Messi será Maradona!… contanto que… Entende-se onde quero chegar.

Os anos profissionais de um jogador de futebol passam muito mais depressa que nossa já efêmera vida. E, para Messi, sua trajetória como jogador, o capítulo mais importante de sua biografia, culminou com a decretação oficial de sua “santidade atlética”, a atribuição sem direito a controvérsia de seu status de craque atemporal, diante de toda a imprensa e da atual geração de torcedores do esporte mais popular do planeta, após a apoteótica exibição na final da Copa do Mundo de 2022, no momento em que erguia a Taça Fifa. Hoje, mesmo antes da aposentadoria, Messi já é apontado (e não apo-se-ntado, leia bem!) – e por não poucos, talvez pelos mesmos que antes tentavam explicar suas performances sobrenaturais apelando para diagnósticos clínicos! – como “melhor que Maradona” enquanto jogador e “tão influente e carismático quanto Dieguito” fora das quatro linhas, façanha notável, outrora até impensável, quando nos damos conta de que na Argentina Diego Maradona é venerado como um deus…

* * *

O MAL SOMÁTICO DA HUMANIDADE: “everything is already there, everything has already taken place. § We are thus immortal survivors, since the second existence is without end. It has no end because the end is already the beginnin.” “The process of de-humanization is complete and the clear effect of this phenomenon is that we no longer possess the psychical, ethical and spiritual resources which would enable us to realize this fact (Romain Gary).”¹

¹ wikia: “Romain Gary, 1914–1980, also known by the pen name Émile Ajar, was a French novelist, diplomat, film director, and World War II aviator. He is the only author to have won the Prix Goncourt under two names. He is considered a major writer of French literature of the second half of the 20th century.” “In a memoir published in 1981, Gary’s nephew Paul Pavlowitch claimed that Gary also produced several works under the pseudonym Émile Ajar. Gary recruited Pavlowitch to portray Ajar in public appearances, allowing Gary to remain unknown as the true producer of the Ajar works, and thus enabling him to win the 1975 Goncourt Prize, a second win in violation of the prize’s usual rules.” chad move here!

R.G., Les Racines du ciel

“Our systems are thus doubly chaotic: they operate both by exponential stability and instability.”

A DIALÉTICA DO REJUVENESCIMENTO: “Sensitivity to initial conditions should not be confused with fate or predestination.” “In predestination, the end is there before the beginning and every effort to move away from the end brings that end closer. [Édipo Rei, etc.]”

“Meteorology is chaotic; it is not a figure of destiny.”

“the destiny of simulation which one may, in effect, read as a form of catastrophe of reality, this dizzyng whirl of the model, the virtual and simulation carrying us further and further from the initial conditions of the real world”

“Chaos is a parody of any metaphysics of destiny. It is not even an avatar of such a metaphysics. The poetry of initial conditions fascinates us today, now that we no longer possess a vision of final conditions” O Ragnarok é sempre só um Big Bang.

“Destiny is the ecstatic figure of necessity. Chaos is merely the metastatic figure of Chance. [a contingência se espalhando como um câncer]”

“the hidden order of strange attractors” “Condemned to an intense metabolism” “They are condemned, precisely, to the epidemic, to the endless excrescences of the fractal [vertigo] and not to the reversibility and perfect resolution of the fateful [fatal]. We know only the signs of catastrophe now.” Não é como um eterno retorno com sentido, mas apenas um loop de arcade game de Atari…

“…definitive doom, which we could at least consume as spectacle. Just imagine the extraordinary good luck of the generation which would have the end of the world to itself.” “we came too late for the beginning.”

You live too fast, you live too soon. Apoteozzy

Ó TESOURA AMIGA!

CORTO EU A LINHA PELUDA?

April of the pigs

O universo é como um ano-novo.

“history itself has become interminable. when we speak of the <end of history>, the <end of the political>, the <end of the social>, the <end of ideologies>, none of this is true. The worse of it all is precisely that there will be no end to anything, and all these things will continue to unfold slowly, tediously, recurrently, in that hysteresis of everything which, like nails and hair, continues to grow after death.”

“homepathic end, an end distilled into all the various metastases of the refusal of death.”

“This revival of vanished forms, this attempt to escape the apocalypse of the virtual, is an utopian desire, the last of our utopian desires.” Nada será como antes.

the illusion of the end of that book

“can we not imagine that, in history itself, previous states never disappeared, but present themselves again in succession, as it were, taking advantage of the weakness or excessive complexity of the present structures?”

“The reabilitation of old frontiers, the old structures, the old elites will never have the same meaning. If, one day, the aristocracy or royalty recover their old position, they will, nonetheless, be <post-modern>.”

“Magic Country, Future World, Gothic, Hollywood itself reconstructed 50 years on in Florida, the whole of the past and the future revisited as living simulation. Walt Disney is the true hero of deep-freezing, with his utopian hope of awakening one day in the future, in a better world. But that is where the irony bites: he had not foreseen that reality and history would turn right around. And he, who expected to wake up in the year 2100, might well, following out his own fairytale scenario, awaken in 1730 or the world of the Pharaohs or any one of his primal scenes.”

“Communism will have had no historical end; it will have been sold off, knocked down like useless stock.”

“The sales used to come after the feast days but now they precede them. It’s the same with our century”

“This is like the parable of the Russian cosmonaut forgotten in space, with no one to welcome him, no one to bring him back – the sole particle of Soviet territory ironically overflying a deterritorialized Russia. Whereas on Earth everything has changed, he becomes pratically immortal and continues to circle like the gods, like the stars, like nuclear waste.”

“Nostalgia had beauty because it retained within it the presentiment of what has taken place and could take place again. It was as beautiful for never being satisfied, as was utopia for never being achieved.”

“the literal manifestness of the end”

“We are, then, unable to dream of a past or future state of things. Things are in a state which is literally definitive (…) deprived of its end. Now, the feeling which goes with a definitive state, even a paradisiac one – is melancholic.”

“there remains the completely improbable and, no doubt, unverifiable hypothesis of a poetic reversibility of events, more or less the only evidence for which is the existence of the same possibility in language.”

“Canetti diz que a vingança é supérflua; torna-se desnecessária devido à inexorável reversibilidade das coisas.”

“It isn’t just terrorists who repent. Intellectuals showed them the way, the Sartreans and others having been in the van of repentence from the 50s onwards.”

Arte total = arte mais fraca

“If nothing exists now but effects, we are in a state of total illusion (which is also that of poetic language). If the effect is in the cause or the beginning in the end, then the catastrophe is behind us. This reversing of the sign of catastrophe is the exceptional privilege of our age. It liberates us from any future catastrophe and any responsibility in that regard. The end of all anticipatory psychoses, all panic, all remorse! The lost object is behind us. We are free of the Last Judgement.” Lost Judgement

INVERSÃO CONTRA FIM: “Anastrophe versus catastrophe”

“Might we not transpose language games on to social and historical phenomena: anagrams, acrostics, spoonerisms, rhyme, strophe and cata-strophe [a estrofe que transtorna]?”

“In these times of a retroversion of history, the palindrome,¹ that poetic, rigorous form of palinode,² could serve as a grille de lecture (might it not perhaps be necessary to replace Paul Virilio’s dromology³ with a palindromology?). And the anagram, that detailed process of ravelling, that sort of poetic and non-linear convulsion of language”

¹ Frase idêntica num sentido ou noutro, como a famosa SOCORRAM-ME SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS.

² Re-citação de outro trecho do mesmo autor ou poema (quando muito grande), dentro do próprio poema.

³ A ciência da velocidade. Tão rápido que assa a virilha.

“pure materiality of time” “The illusion of our history opens on to the greatly more radical illusion of the world.” VdP, fim da exposição inicial sobre o niilismo.

“we no longer have the choice of advancing, of persevering in the present destruction, or of retreating – but only of facing up to [reconhecer, aceitar, lidar com] this radical illusion.”

Voltar é impossível. Déjà vu em extinção. E dar um passo dianteiro kantiano ainda mais difícil,

Irreverente realidade do irreal.

Presente terno,

Uma música que não sai do refrão.

That’s what life means, said a Brazilian singer and composer…

GLOSSÁRIO:

fallow: terra deixada em descanso no sistema de cultivo rotativo (também conhecida como “pousio”)

lorry: caminhão-de-lixo

“NUTRINDO RAIVA, CAUSANDO DOR”, OU COMO O ROCK NEOFASCISTA TEM CONSTRUÍDO ÓDIO PELA AMÉRICA DO SUL – Pedro Carvalho Oliveira (Temáticas, Campinas, 27, (54): 39-58, ago./dez. 2019) – com comentários.

Pedro Oliveira é doutorando em História na Universidade Estadual de Maringá. Bolsista CAPES/Fundação Araucária

“Foi com este espírito que os neofascismos, ou seja, a conjugação das novas formas de ação dos fascismos clássicos no presente, desembarcaram na América do Sul e ampliaram a forma de agir dos militantes neofascistas europeus. Igualmente, buscaram, assim como às suas bases políticas, readequar e reformular conceitos de nacionalismos. Estas formas de agir dos fascismos encontraram na região emblemáticas heranças da presença fascista no passado, como a Aliança Integralista Brasileira, o pioneirismo de Miguel Serrano no Chile e mesmo a Tercera Fuerza na Colômbia ou o Partido Nuevo Triunfo na Argentina. Ao mesmo tempo, adaptaram ao terreno sul-americano narrativas ideológicas que pareciam inadaptáveis, gerando, com isso, uma autenticidade bastante particular. Os neofascismos sul-americanos são tão próximos dos ideais fascistas de outrora quanto são diversos em suas peculiaridades, embrionando um caso único, distinto. Veremos isso em cada exemplo utilizado neste trabalho, analisando especialmente casos no Brasil, na Argentina e no Chile.” Ótima prosa.

“Com isso, os neofascistas que produzem este tipo de música por vezes transpõem inimigos dos fascismos clássicos (como os comunistas, os liberais ou os judeus) e criam novos tendo em vista suas próprias sociedades. No Brasil, o ódio pode recair sobre os nordestinos, por exemplo, inimigo particular de parte dos neofascistas do nosso país.” Mas recai sobre o ‘comunista’ mesmo! Recai sobre o liberal, quando levamos em conta que o fascista odeia a si mesmo.

“Entre os historiadores, podemos destacar os já consagrados olhares de Francisco C. Teixeira da Silva (2004) sobre a questão, além dos esforços de laboratórios como o Grupo de Estudos do Tempo Presente, da Universidade Federal de Sergipe, que há anos vem mapeando e investigando movimentos neofascistas, resultando em robustas inspeções sob a coordenação do pesquisador Dilton Maynard (2017).”

“Faremos isso examinando letras das bandas Ultra Sur e Nüremberg (Argentina), Comando Blindado e Defesa Armada (Brasil) e Odal Sieg e Orgullo Sur (Chile). Assim, poderemos apresentar uma amostra de como os neofascismos sul-americanos estruturam seus discursos de ódio visando uma penetração maior no espectro social.” Essa abordagem da academia sobre grupos musicais analisando letras é muito limitada. Isso só daria conta do fenômeno se fossem poetas em vez de bandas; música não é só letra, é impossível fazer uma análise apenas escrita, a não ser que seja extremamente técnica, adorniana mesmo.

Nada de black metal aqui, apenas oi!

“O rock neofascista surgiu na Inglaterra no início dos anos 1980, em meio ao boom do movimento punk e do retorno da subcultura skinhead. Devemos esclarecer que até o final dos anos 1970, a subcultura skinhead não era contaminada pelas ideias neofascistas com as quais muitos de seus integrantes passariam a se identificar. Desde os anos 1960 foi uma subcultura que incorporava elementos da cultura jamaicana e operária, não a segregação racial e nacionalista com a qual se envolveria mais tarde.” Uau. Isso é totalmente novo para mim.

“No bojo desses acontecimentos, alguns skinheads foram cooptados pelos partidos neofascistas para atuarem como linha de frente da juventude, angariando possíveis eleitores e pessoas engajadas em espalhar suas ideias mesmo que pela força. Ian Stuart Donaldson foi um deles. Líder da banda londrina Skrewdriver, mudou radicalmente sua forma de compor ao passo em que mergulhou de cabeça no National Front. Suas posturas neonazistas ficaram cada vez mais claras e os discursos de ódio, em sintonia com os de seu movimento, mais acentuados. Nascia assim o rock neofascista.” grifo meu

“A organização Blood & Honour, criada por Donaldson em 1987, foi fundamental para catapultar o rock neofascista pelo mundo: divulgava, produzia, organizava e distribuía material musical muito antes de a Internet se tornar um meio de comunicação comum. Quando isto ocorreu, o gênero se disseminou com maior vigor.

Organizações como a estadunidense Hammerskin e lojas virtuais como a NS88 Division organizam eventos e vendem produtos de rock neofascista desde os anos 2000 de forma simples, estando a poucos cliques de qualquer pessoa. Não estão em páginas obscuras da rede, pois podem ser facilmente encontradas em sites de busca. Redes de streaming como Spotify e Deezer abrigavam, sem saber, vastas discografias de bandas neofascistas há pouco tempo. Blogs e fóruns voltados à divulgação deste tipo de música são numerosos. Isto certamente possibilitou a amplitude do perímetro no qual [o] gênero é ouvido e produzido na América do Sul.”

“Alguns autores, a exemplo de Antonio Salas (2006), referem-se a este gênero como hate music. Outros, como nós, já utilizamos o termo hate rock para reduzir sua escala de alcance e circunscrevê-lo em sua especificidade sonora. Não se trata de um gênero que abarca diversos tipos de música, mas sim um tipo específico: o rock.”

“Na Argentina, a banda Comando Suicida, fundada em 1983, deixou de ser uma banda próxima à Oi! music para se converter em símbolo da penetração neofascista no país.”

“Foi nos anos 1990, contudo, que vimos um crescimento assombroso do rock neofascista sul-americano. No Brasil, bandas como Locomotiva e Grupo Separatista Branco se tornaram proeminentes. A Odal Sieg deu seus primeiros passos no Chile, enquanto a Nüremberg e Ultra Sur engatinhavam na Argentina para, mais tarde, tornarem-se grandes nomes em suas respectivas cenas musicais.” Herança maldita de FhC.

“Sincronicamente, nas últimas décadas do século XX, o Chile se convertia na capital sul-americana do neonazismo, sobretudo pela atuação de indivíduos como Miguel Serrano, Alex López, Ernesto Lutz e organizações como a Patria Nueva Sociedad, Frente Orden Nacional e Acción Nacional-Socialista de Chile (MOURA; MAYNARD, 2012).”

“Já no México, um mapeamento da confluência de forças políticas deste tipo ainda necessita ser realizado com maior zelo, visto que ainda conhecemos muito pouco sobre eles.”

“Uma das mais importantes vem do Rio Grande do Sul e se chamava Comando Blindado. Formada ainda no final dos anos 90, chegou a lançar um álbum pelo selo Zyklon-B Records, dos Estados Unidos, em 2006. Intitulado Marchando rumo à vitória, o disco tem sua capa ilustrada por soldados e bandeiras nazistas. Nele, encontramos a música ‘Nutrindo raiva, causando dor’, na qual ouvimos:

O inimigo está perto, está controlando você

Invade sua mente através do jornal e da TV

São os malditos judeus que têm o controle das massas

Que dominam a mídia e promovem tanta desgraça”

“Em ‘Cada vez te odeio mais’, a banda se manifesta sobre outros alvos de seu ódio:

Cresce a violência e meu ódio aumenta mais

E o podre comunismo se alastra como doença ruim

Nordestinos vem pro Sul, que infelicidade

Estamos perdendo nossa identidade”

Constrangedor.

OS CACHORRINHOS DOS DECADENTES: “Este reducionismo, que à época era deficiente de críticas a problemática relação entre moderno-arcaico, foi amplamente utilizados por teóricos como Oliveira Viana para difundir, à luz de pseudociências eugenistas, a ideia de que o Sul-Sudeste era naturalmente superior ao Norte-Nordeste. Havia nisso uma necessidade de estabelecer vínculo com uma cultura europeia, da qual as pessoas desta região seriam majoritariamente herdeiras.”

LEITURAS RECOMENDADAS:

MAYNARD, Dilton Cândido Santo (Org.). Extremismos no Tempo Presente. Rio de Janeiro: Autografia, 2017;

SALAS, Antonio. Diário de um skinhead: um infiltrado no movimento neonazista. São Paulo: Editora Planeta, 2006.