[ARQUIVO] VONTADE E REPRESENTAÇÃO

Originalmente publicado em 31 de maio de 2012

Sonhos em que me suicido… Eu e “meus outros 6 eus” finalmente chegando a um consenso na tórrida sala do júri interno? Até a ocasião do suicídio teria antes de cair do céu. Ou antes para o suicida—ou somente um tipo de suicida?—se trata sempre de achar essa hora para finalmente ser-se? Oportunistas. Isto é: ou não sou, nem nunca serei, não tenho sangue de suicida; ou todos os suicidas são tão covardes e apegados à vida quanto eu, exceto por um curto lapso, que não acontece com todo mundo.

Não pode ser que em um ano, digamos, tenha havido uma reformulação drástica de juízo! Ou que eu esteja contemplando esse musgo da árvore descascar… Mas deixemos de superstições e falemos do que sabemos! Qual seria o sentido, hoje, de um tal ato (tentando não ser hipócrita)?

O medo da decadência é tão forte que eu escolha selar o anel desde já, sem atender à curiosidade?

Do ângulo da infância: irremediável—tudo é ressignificado—até jogar videogame é chato e enjoa…

Arrependimento—os 24 anos que não voltam mais… Os “apesares de tudo” vindo na contramão…

Para o morto não interessa tanto o desfecho em si—mas o opróbrio causado pelo ato, que não pode ser mais que intermediário… Mesmo sem céu nem inferno não é possível ser mesquinha/maquinalmente um existencialista! Não dá para subtrair as conseqüências—parece que esse era o objetivo do suicídio… Do que adianta suprimir a dor se ela não será suprimida? “E do que adianta não suprimir”? O que é dar 360º na vida? Alguém sabe quando está no grau 0 ou “princípio da viagem”? Cabe-lhe receber e passar um bastão…

Qual é o Destino do Destino? Vagar…

O gorila chamado vida ainda não me soltou. Me sinto a loira do King Kong. Algum avião à vista?

Tenho ainda muita vida para trás!

Lembrancinhas do amanhã

E qual dúvida não é cruel?

Nós não sabemos

Toda vez que sentir vontade de se matar, durma…

* * *

DOS SEIOS REDONDINHOS

Pode falar

se seus peitos já

estiverem a

poucos centímetros

dos meus

*

Arfando, cintilantes

galantes, saltando

comprimidos

com pressa

*

De virem

subirem

às alturas

frontes duras

*

Bicos feitos

de âmbar

se excitam

– nos lamba!

* * *

Se Sísifo fosse condenado a rolar sobre uma pedra, seu sofrimento seria o mesmo.

Que se dane fique

O real filosofar é ser um bocadinho charlatão, já que tudo aqui é provisório e inútil, sem solução, sem resposta, sem folha corrida de serviços e sem currículo—filósofo competente é uma contradição em termos! O equivocado num quadro é sempre o mais certo no curso dum rio…

BUDISTA, em poucas palavras: o ateu inteligente.

Dez por cento do cérebro acham que só 10% do cérebro são utilizados. Talvez por percebermos o quão somos burros é provável que utilizemos 100% dele.

Principalmente o inconsciente quer dar cambalhotas. Deu para se mutilar—chilique de criança. Sabendo, com toda a carga, que não pode fazer isso, só representar assustadoramente. Uma rebeldia tal a essa altura? Os pontos corridos do devir se aproximam do, ou já estão no, returno. A ânsia pelo impossível. Vontade de exagerar um evento banal/não-evento. E ainda assim nem sabe o que é fazer hemodiálise, o capeta!

Goma de (ma)daga(scar)

Quando eu era pequeno tendia a querer demonstrar meu apreço a deus (ou nem tanto o apreço ao divino, mas a rejeição a Satanás) por uma abstração de duas colunas de “força” ou “energia”, uma azul e outra vermelha, uma que subia incessantemente na maior das velocidades, a outra que descia e rebentava os subsolos, e perfurava os infernos, e atravessava a imensidão do cosmo no sentido negativo, denotando queda de poder e derrota, cada vez mais fraca em contraste com a outra coluna, pujante. Ambas as colunas não podiam jamais chegar a seu destino—o caminho era só um reforço infinito, havia a necessidade de ser percorrido, de aparecer, não podia ser absoluto, tinha de ser uma quantidade dada, expressa em números, mas dentro de um invólucro para o qual não havia limites—o quanto era difícil para uma criança e continuará difícil para um adulto imaginar isso!

* * *

Em quantos anos o senso progressistóide terá sido perpassado? Isto é, quando mais ou menos será flagrante que a técnica, a tecnologia, não só avançam? Quando cessará de haver “melhores computadores e veículos”? A Idade Média tem má reputação porque neste período da humanidade não houve uma modernização, quão óbvio e irônico! Ferramentas mais simples, desmantelamento burocrático… Uma visão menos carregada (positiva ou negativamente) do futuro.

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