[ARQUIVO] ALICE—EDIÇÃO COMENTADA—ZAHAR—Reverendo Dodgson, a.k.a. L.C.

Originalmente publicado em 4 de janeiro de 2011

“Tua ingenuidade é uma fonte perene.”

“Alice no País”, um conto muito hermético. Talvez tão hermético quanto o Pequeno Príncipe.

“As crianças de hoje sentem-se aturdidas e às vezes apavoradas pela atmosfera de pesadelo dos sonhos de Alice. É apenas porque adultos—cientistas e matemáticos em particular—continuam a apreciá-los que os livros de Alice têm sua imortalidade assegurada. É apenas para esses adultos que as notas deste volume são dirigidas.” “os elementos sádicos em Alice, que são bastante brandos comparados aos dos desenhos animados dos últimos 20 anos.”

“Não há dúvida sobre a profundidade e a sinceridade de suas idéias anglicanas [Carroll]. Era ortodoxo sob todos os aspectos, salvo por sua incapacidade de acreditar na danação eterna.” “levou uma vida sem sexo, sem grandes acontecimentos, e feliz.”

“Gosto de crianças (exceto meninos)” “Os corpos nus das meninas (em contraste com os dos meninos) lhe pareciam extremamente belos. Quando a oportunidade se apresentava, desenhava-as ou fotografava-as nuas, com a permissão da mãe, é claro. ‘Se eu tivesse a criança mais linda do mundo para desenhar ou fotografar’, escreveu, ‘e descobrisse nela um ligeiro acanhamento (por mais ligeiro e facilmente superável que fosse) de ser retratada nua, eu sentia ser um dever solene para com Deus abandonar por completo a solicitação.’ Por temor de que essas imagens desnudas criassem embaraços para as meninas mais tarde, pediu que após a sua morte fossem destruídas ou devolvidas às crianças ou a seus pais. Nenhuma parece ter sobrevivido.” “Tornou-se especialista em encontrar menininhas em vagões de trem e praias públicas. Um saco preto que sempre levava consigo nessas viagens ao litoral continha quebra-cabeças de arame e outros regalos inusitados para estimular o interesse delas. Chegava a carregar um suprimento de alfinetes de segurança para prender as saias de menininhas quando desejavam chapinhar na arrebentação. As manobras iniciais de aproximação podiam ser divertidas. Certa vez, quando estava desenhando perto do mar, uma menina que havia caído na água passou por ele com as roupas encharcadas. Carroll rasgou a ponta de um mata-borrão e disse: ‘Posso lhe oferecer isto para se enxugar?’”

“O que distingue Carroll de outros escritores que viveram vidas desprovidas de sexo (Thoreau, Henry James…) e de escritores que eram fortemente atraídos por meninas (Poe, Ernest Dowson…) era sua curiosa combinação, quase única na história da literatura, de completa inocência sexual com uma paixão que só pode ser qualificada de inteiramente heterossexual.”

“Mais de um crítico comentou as semelhanças entre O Processo de Kafka e o julgamento de Valete de Copas”

“O riso, declara Reinhold Niebuhr, é um dos mais excelentes sermões, uma espécie de terra de ninguém entre a fé e o desespero. Preservamos nossa sanidade rindo dos absurdos superficiais da vida, mas o riso se transforma em amargura e escárnio se dirigido para as irracionalidades mais profundas do mal e da morte.”

Alice foi sua mais apaixonante amiguinha. Ele teria por volta de 30 anos quando ela era pequena (10 ou 11 anos seria uma idade provável? Vide mais além nestas anotações!), e parece que a cortejava, irritando a mãe. Lewis Carroll e termos como perversão e pedofilia dão bom número de resultados no Google. Isso não quer dizer unanimidade. Terreno espinhoso.

“aquelas fotografias ambíguas que fazia em quartos sombrios.” Nabokov, escritor e tradutor russo do legado de Carroll

“Críticos notaram também a similaridade entre os desfechos de Aventuras de Alice (…) e Invitation to a Beheading, de Nabokov.”


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“de que serve um livro (…) sem figuras nem diálogos?”

“imagine fazer mesura quando se está despencando no ar! Você acha que conseguiria?”

“como é a chama de uma vela depois que a vela se apaga”

“Em geral dava conselhos muito bons para si mesma”

“Deveria haver um livro escrito sobre mim, ah isso deveria!”

“Um gole de conhaque.”

50: o cogumelo que altera o tamanho

Uma escolar em crise de identidade. Sempre perdida em meio às algazarras e grosserias dos adultos. Bem dialético…

O Reino de Terror da Rainha de Copas. É uma matriarquia.

“Uma sopa pode muito bem ficar boa sem pimenta…”

Parece com a moral do Visconde de Sabugosa.

“Só assim você se prepara para uma carreira: aulas mais rápidas a cada dia”

“Se a Inglaterra some de vista… é que a França apareceu!”


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Gatos dão banho em seus próprios filhotes?

O mito da realidade paralela por trás do reflexo do vidro.

150: a preocupação com a saúde das rosas ao ar livre (//Pequeno Príncipe)

177: aquela vontade infantil de varrer toda a poeira da rua

191: a força do destino

“Ora, algumas vezes cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã.”

“Como posso trabalhar se eu ainda cago nas calças?”, pensa o homem que atropela as etapas.

Um sorriso tão falso e amplo que degolou sua cabeça.

Talvez os poderes das peças no xadrez sejam um resquício do matriarcado?

“Não gosto de pertencer ao sonho de outra pessoa”

230: os tombos em sonhos

“como se pode conversar com uma pessoa se ela diz sempre a mesma coisa?”

Diz-se que em “Através do Espelho” Alice teria 7 anos e ½, tendo-se passado meio ano após as aventuras do primeiro maravilhoso sonho.

“Marimbondos-macho, como o de Carroll, embora pareçam temíveis, assemelham-se aos reis do xadrez. São criaturas amáveis, inofensivas.”

“na França e na Inglaterra nos sécs. XVII e XVIII (…) era possível saber instantaneamente qual era a profissão de um homem pelo tipo de peruca que exibia.” Martin Gardner—o intérprete dos livros.

“A face de um marimbondo de fato parece uma face humana envolta por um lenço”

286: a dor de perder os cachos

“Temo que seja verdade que não há crianças na América.” Carroll—Apesar do seu livro mais famoso ter sido publicado pela primeira vez num 4 de julho!

“Mais de uma centena de artistas ilustraram os livros de Alice.”


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NOTAS

“As imagens de Alice feitas por Tenniel não retratam Alice Liddell, que tinha cabelo escuro cortado curto e franja caindo lisa sobre a testa. [LiDDeLL CaRRoLL CARROSSEL] L.C. enviou a Tenniel uma fotografia de Mary Hilton Bacock, outra amiga criança, recomendando-lhe que a usasse como modelo”

“O sr. Tenniel é o único artista que desenhou para mim que se recusou a usar um modelo, declarando que tinha tão pouca necessidade de um quanto eu de uma tabuada de multiplicar para resolver um problema matemático! Arrisco-me a pensar que estava errado e que, por falta de modelo, desenhou várias imagens de ‘Alice’ completamente desproporcionais—cabeça evidentemente grande demais e pés evidentemente pequenos demais.” Ora, isso se chama estilo, senhor Carroll!

“gozo ávido da Vida que só ocorre nas horas felizes da infância, quando tudo é novo e justo, e quando Pecado e Dor são apenas nomes—palavras vazias que nada significam!”

“Para as centenas de referências a Dodgson e aos livros de Alice em Finnegans Wake, ver o excelente artigo de Ann McGarrity Buki, ‘Lewis Carroll in Finnegans Wake’, em Lewis Carroll: A Celebration (Clarkson N. Potter, 1982), organizado por Edward Guiliano.”

Adoro “fofoca de Época”.

“O Dodô incapaz de voar foi extinto por volta de 1681. (…) O Dodô era nativo das Ilhas Maurício, no Oceano Índico. Marinheiros holandeses e colonizadores [dinamarqueses] matavam as ‘aves nojentas’, como as chamavam, para comê-las (…) O Dodô é um dos primeiros exemplos de espécie animal totalmente extinta pela espécie humana. Ver ‘The Dodo in The Caucus Race’ por Stephen Jay Gould, em Natural History (nov. 1996).” Porém o que se diz em outras fontes é que a carne deste animal aparentado com a família do pombo (só que bem maior) não era muito apetitosa, e ele se findou muito mais por motivos indiretos da colonização que pela predação em si.

“Tennyson teve o poema em alta conta enquanto sonhava, mas esqueceu-o completamente quando despertou.” Isso não é muito incomum, eu acho!

UTILIDADE PÚBLICA (p. 50): Ao que parece, as chances de envenenamento são menores se eu, perdido na floresta, decidir comer um cogumelo de forma chata. Diz-se que cogumelos volumosos como o do Mario quase sempre carregam algum tipo de veneno.

57: a história da mulher mais feia do mundo, que teria inspirado a aparência da Duquesa que nana o bebê-porco

“O Gato de Cheshire não está no manuscrito original, Alice’s Adventures Under Ground.” “Whoopi Goldberg foi o Gato de Cheshire na versão enfadonha e medíocre de Alice(…) que a NBC levou ao ar em 28 de fevereiro de 1999.”

“Vez por outra Carroll fazia um esforço para ser cordial com um menino, mas em geral só quando ele tinha irmãs que desejava conhecer.”

62: Alice e Kerouac! Até mesmo o Talmude diz o que o Gato diz!

A VENDETA NIETZSCHEANA POR INTERMÉDIO DE UM NOIADO E SEU CHARGISTA: “‘É impossível descrever Bertrand Russell’, escreve Norbert Wiener no cap. 14 de sua autobiografia Ex-Prodigy, ‘exceto dizendo que ele parece o Chapeleiro Louco… A caricatura de Tenniel quase revela uma antecipação por parte do artista.’”

“Pelo que sei, não se fizeram estudos empíricos sobre o modo como crianças reagem a tais cenas [decapitações] e o dano que é ou não causado às suas psiques. Minha impressão é que a criança normal acha tudo isso muito divertido e não é prejudicada em absoluto, mas que não se deveria permitir que livros como Alice(…) e O Mágico de Oz circulassem livremente entre adultos que não estão se submetendo a análise.”

88: menção de Dante (saga do Paraíso)

89: teoria dos jogos—pôquer

Sobre a frase das “aulas cada vez mais rápidas”: “No décimo segundo dia e nos dias subseqüentes, começariam os alunos a dar aula para o professor?”

“Cary Grant soluçou ao longo da canção [Estrela da Tarde] em seu papel de Tartaruga Falsa na medíocre versão de Alice para o cinema produzida pela Paramount em 1933.”

104: refuta-se a teoria de que as tartarugas choram quando desovam à noite na areia da praia. Na verdade elas possuem glândulas de remoção do sal perto dos olhos.

“Na Idade Média e no Renascimento, jogava-se xadrez por vezes com peças humanas em campos enormes (veja Gargantua e Pantagruel, de Rabelais, livro 5, caps. 24 e 25)”

142: viagem atômica! Fala da criação de uma anti-matéria que serviria a propósitos nucleares mais poderosos que a fusão e a fissão.

Carroll teria “se esquecido” dos bispos por respeitar a ortodoxia cristã.

“Nenhum carrolliano pode deixar de ler Night of the Jabberwock. É uma obra de ficção excepcional, que tem vínculos estreitos com os livros de Alice.”

Carroll e Edward Lear teriam sido pioneiros, pais dos dadaístas e tantos outros—porém o segredo de seu sucesso está menos na técnica hipertrofiada e fervorosa e mais no descompromisso de sua poesia relaxada e oportuna, vindo de quem sabe, coisa que o séc. XX, engajado, não capta muito bem. Isso reforça a minha tese de não fundar uma escola nova.

C. escreveu o primeiro livro aos 13.

181-2: o controverso tema dos sonhos simultâneos/coincidentes/em interseção

CARROLL IRIA ADORAR UMA VITROLA COM UM LP DA XUXA DENTRO! “Desde que C. a utilizou, a ‘vida às avessas’ foi a base de muitas fantasias e histórias de ficção científica. A mais conhecida é o conto de F. Scott Fitzgerald, The Strange Case of Benjamin Button.”

“C. era um grande admirador dos Pensamentos, de Pascal.”

204: citação da troça hobbesiano-tomista sobre o riso

“Os estudiosos de Finnegans Wake não precisam ser lembrados de que Humpty Dumpty é um dos símbolos básicos do livro: o grande ovo cósmico cuja queda, como a queda causada pela bebedeira de Finnegan, sugere a queda de Lúcifer e do homem.”

211: Ulisses e o truque lingüístico do Ninguém contra o ciclope Polifemo (Pensamento Verde!)

“C. gostava especialmente das terças-feiras.”


Eu sou teimoso e sei chifrar

por que você haveria de me evitar?

troco as rimas por outras

igual deixo minha fúria à solta!

GLOSSÁRIO

chapinhar: resvalar com alguma parte do corpo na água. Ou mesmo afundar, ir e vir na superfície.

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