Originalmente publicado em 22 de julho de 2013
Pode alguém se desvincular da música? De uma paisagem, não é preciso ser cego, basta fechar os olhos. De uma sensação, recolher o corpo. Do olfato, prender a respiração. Do paladar, retrair a língua. Mesmo com todos os estímulos aos sentidos trabalhando ao mesmo tempo, mesmo diante de um furacão de sensações, o homem tem como, no olho do torvelinho, se concentrar, se controlar, se desligar, raciocinar só de si para consigo mesmo, ignorando qualquer coisa lá fora—ainda que digam que o “consigo mesmo” só pode estar em relações com os sons, os cheiros, os tatos, os gostos, as imagens…
Assim seria com os outros quatro sentidos mais fracos e mais simples, mais rasos, mais epiteliais. Mas A MÚSICA não é driblada por nenhuma finta ou artimanha da consciência. Ela é suprema. Os surdos ainda escutam. E não podemos falar aqui dos mortos. Estar vivo e centrado em si o suficiente para não ser desestabilizado pela música—este é o ponto. Só com outra música? Silêncio pode ser música?
O resultado de uma vitória é só outro confronto? Em última instância, outros combates ou a derrota, a agonia sempiterna seguida do sepulcro?
