[ARQUIVO] O CULPADO DE SÍSIFO

Um homem está ao relento, do lado de fora da entrada de uma extensa gruta, tudo isso no altiplano de um morro de encosta bastante íngreme que dá para uma estrada de terra. O homem não passa de um jovem.

Lá embaixo alguns passantes fazem uso da estrada. Parece uma procissão que sai de uma vila em direção a algum sítio mais afastado e menos profano. Há uma grande pedra no mesmo cimo em que o jovem se encontra. Embora não seja perfeitamente regular, ela é redonda e rolaria pelo declive com facilidade.

O jovem se estirou sobre o topo chato da montanha e contemplou o céu pensativo. Não sabe por que está ali, não sabe que multidão é aquela lá embaixo. Por puro tédio, seria capaz de fazer aquela pedra rolar. Por tédio e ócio, brincaria de deus, se tornaria um homicida. Por capricho, rebaixar-se-ia como valor humano. Agora que essa fagulha de malignidade reluziu despretensiosamente em seu campo de ação consciente, agarrou-se a ela como se trepadeira fosse, e não podia mais se livrar dela.

Atos gratuitos não geram despesas. Tudo de que precisava era ir até lá, movimentar os músculos, animar-se a tirar do lugar todo aquele peso. No fim, em movimento ou estático, tanto faz, tudo é monstruosidade da natureza.

Nem bem ele havia se perguntado se deixaria seu corpo ser guiado pela nova vontade, a pedra já tinha percorrido toda a ladeira, e como a fila de sujeitos caminhando era ininterrupta, alguém foi atingido letalmente. Em que pese o forte ruído da descida e a visibilidade considerável que se tinha da pedra, a rampa tinha sua bruxaria de fazer com que o objeto ganhasse mais e mais velocidade ao final da trajetória e surpreendesse os cálculos dos homens. Os companheiros do homem que morreu na mesma hora do impacto com a pedra tentaram alertá-lo, mas este infeliz integrante do comboio pensou que ainda era possível desviar quando já não era. A pedra passou-lhe por cima como um trator. Adicionalmente, a distância muito grande e enganosa entre o ponto inicial de escorregamento da pedra e a estrada não deixava que nenhum homem, na base ou no topo do monte, percebesse as feições de quem estava na extremidade oposta. Foi um crime anônimo.

O rapaz, da boca da gruta, apenas pressentiu algo trágico, sem entender direito. Ouviu lamentos femininos e uns três varões bradando impropérios. Mas eram vultos indistinguíveis. Se é que havia um cadáver, ele já fôra há muito escondido pela multidão que se avolumava em torno quando o jovem tentou espreitar correndo alguns metros e forçando a vista. Só a pedra era perceptível daquela distância, colosso agora imóvel e inofensivo.

Como se inquietasse porque os minúsculos homens lá embaixo não se moviam, e após um instante de alvoroço tudo soasse calmo, resolveu que iria descer, por mais imprudente que fosse sua jogada. É possível que essa reação já estivesse embutida na vontade de arremessar a pedra, fazendo de homens estranhos meros pinos de boliche.

Após a resfolegante descida cheia de vento, interpelou os homens. Ofereceu auxílio. Deu a entender que esperava se deparar com machucados ou feridos, mas não com um moribundo. Alguns o receberam de modo irritado, por saberem de onde aquele rapaz chegara: “Foi você que nos jogou essa pedra maldita?”. O jovem ficou realmente embaraçado. Não poderia ter simulado a cor corada da pele do rosto. Mas mentiu convincentemente. Disse que havia outros homens lá, que ele não concordara com a idéia macabra de um deles e tentou demovê-lo da ação bárbara e despropositada, obviamente sem sucesso. Explicou que, como tentativa de expiação, desceu para entender direito o que a pedra havia provocado. Esperava que perguntassem o que estavam fazendo ali naquela gruta assustadora e que tipo de ligação o aproximava de homens tão abjetos. Mas foi outro o questionamento: “E, pois, por que demorou tanto para descer do morro?” É verdade. Ele não sabia por que hesitara antes da descida. “Esperava que alguém fosse ter conosco”, respondeu sua máscara instintiva. Alguns dos ouvintes emitiram um misto de guincho de dor pelo amigo atingido pela pedra, resmungo bonachão e gargalhada galhofante. E então lhe viraram as costas e foram olhar para o morto uma última vez. Uma das mulheres do bando foi a única que não o desprezou e ressaltou o evidente: a pedra vitimou uma pessoa, portanto o jovem havia chegado tarde demais se queria ajudar, e a menos que fosse um médico ou feiticeiro, nada poderia ter feito, de qualquer maneira.

O descaso em relação a um possível perigo ou algoz deixou o assassino e mentiroso tomado de um furor incontrolável. Quando as atenções se deslocavam para o material em decomposição, o rapaz insistiu: “Escutem… Não querem subir até a caverna para verificar o que eu disse?”

– Isso não é preciso, confiamos em você.

O rapaz engoliu em seco. Ficou minutos gelado por dentro, estirado, ali, de pé, em meio a desconhecidos, enquanto um pequeno grupo dentre os homens da caravana se encarregava de levar o corpo na direção do poente, ou seja, da vila. Não se sabe se ouvia os balbucios dos homens restantes. Estalava os dedos da mão e as juntas pelo corpo inteiro, tentando se livrar do choque provocado pelo último revide do diálogo: “Não desconfiavam de mim, não iam subir pela trilha careca do morro atrás do responsável? Com que tipo de lassidão me deparo neste lugarzinho? Uns frouxos!”

Com um sobressalto, o jovem se removia a si mesmo das reflexões um tanto inúteis e fazia o possível para interromper o caminho dos homens que, àquela altura, também caíam em si e se dividiam: uns seguiam em romaria para o leste, aonde já deviam ter ido não fosse o incidente; outros, todos os que estavam acompanhados da esposa, principiavam a caminhada em sentido contrário, o sentido do cadáver. Não contavam com aquele homem mais novo que todos eles gesticulando e balançando mais catatônica que euforicamente, tropeçando nas palavras… Vomitando uma confissão! “Fui eu que matei! Não há mais ninguém lá! Eu fiz rolar esse pesado pedregulho… Esperem, vocês não podem voltar para suas casas desse jeito—se dirigiu em especial aos que já iam longe, n’oeste—, ignorando quem fez isso com seu amigo morto.”

Fez-se um círculo em torno do confessor, olhares e barbas ameaçadores se tornavam mais nítidos. Ele esperava que o “líder” entre eles o sacudisse pela roupa e exigisse o porquê daquele ato, pior, daquele teatro. O porquê de ter descido, o porquê de ter se condoído a princípio, de ter, em outras palavras, se oferecido para ser a janta caso fosse desmascarado, mas em seguida se revelando a si próprio, como se fosse um cativo resignado que se atira vulnerável caldeirão fervente adentro, sem nenhum trunfo, num automatismo de brutamontes. Mas ninguém se mexia e ele se viu compelido a fazer sua versão retrospectiva completa, como que constrangido por uma mão invisível a chacoalhar sua gola, mas na verdade atendendo o pedido do próprio júri de sua cabeça.

Depois do discurso detalhado, esbaforido, o Sísifo de ocasião se deixou desmilingüir e pousou no solo, de cócoras, lentamente. A sua volta, para além de várias ondas de murmúrios se propagando aos oito cantos, um misterioso consenso mudo tinha brotado como efeito. Muito longe de demonstrarem qualquer feição amigável e sem mesmo olhar nos olhos do infrator, do perturbador daquele fim de tarde quente na aldeia, os ouvintes se escoraram nas palavras austeras de um porta-voz, centralizado na multidão: “Eu não sei qual poderia ser a direção tomada pelo mundo caso os mais novos e impetuosos fossem os únicos guias das coisas e dos destinos dos entes. Nós não entendemos que deva haver qualquer tipo de reparação diante de uma perda, de uma pedra, de um mal. Perdoamos você por ser o que é, se é isso que busca, essa idéia de redenção, de renascer e regenerar-se. Perdoamos você por ser o que é e por ter chegado aqui e cruzado nosso caminho. Mas temos o direito de exagerarmos nas suspeitas da próxima vez. Qualquer palavra sua soará como uma pedra. Seu destempero deve tornar qualquer um que faça parte do seu passado um desconfiado por natureza, você mesmo se comportou como se esperasse que reprisássemos aquilo que foi sua vida até este ponto, não é mesmo? Sua alma afundaria se fosse separada do seu corpo e jogada num lago, ela é mais pesada que a rocha que rolou por essa encosta, mas se isso fosse tudo… Seu lago não tem fundo. Não há o nirvana que procura.”

O jovem, abandonado finalmente a si, só pensou que malignidade nenhuma parecia fazer sentido quando não era combatida, quando era até permitida. A postura desses homens desencorajava, ridicularizava, o tipo do valentão vil, ou simplesmente essa espécie que hoje abunda, a dos adolescentes de alma, rosto calejado ou não, cansada do mundo, indiferentes a qualquer destruição e qualquer milagre. Aqueles homens logo se afastariam de sua vida, mesmo simbolicamente, e ele continuaria sua jornada? Como poderiam, se ele em primeiro lugar é que deveria rolar como uma pedra para longe dali? E vislumbrava, o rapaz, uma grande e espessa parede, uma muralha intransponível e cinzenta, de centenas de rochas iguais à que agora podia ser chamada de sua. Deveria amadurecer para buscar transpô-la. Destruir as lembranças. Os homens o perdoariam, mas ele continuou culpando-se diante do reflexo das águas.

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