[ARQUIVO] O SENHOR ROBÔ

Abandonado no deserto. O garoto nem sabe direito como foi parar ali. Seu pai está morto. Ele chora. Tem uma espada que mais parece um facão e se alimenta de pequenos animais. Isso é tudo com que conta. Não pode se lembrar de sua idade, de seu nome, nem de seu propósito, a não ser… Sua mãe! Ele tem uma mãe e precisa chegar até ela. Fugir desse lugar como puder. O solo arenoso dá lugar a um outro tipo de piso. Calcário rachado, desgastado pelo sol perene da região.

Após alguns passos na pouco convidativa e árida superfície, o chão começa a ceder debaixo dos pés do garoto. Ele está em uma galeria subterrânea! Uma câmara enorme se estende diante de seus olhos. A luminosidade é escassa. Ele analisa as pinturas rupestres que encontra gravadas nas paredes. Tem certeza de já tê-las visto antes! Algumas delas não são imagens, são letras: querem descrever qualquer coisa ou dão um aviso importante. O garoto desafortunado procura uma saída, mas o único jeito seria escapar por onde entrou, o buraco no teto, a mais de quatro metros de altura. A temperatura não é como lá fora. Faz frio. O garoto, vestido apenas em um kimono esfarrapado, cabelo desgrenhado, se encolhe e encosta em uma das quinas irregulares, sem nenhuma idéia.

Mas, ciente de que, de alguma forma, está sendo observado, ergue o olhar de súbito, desconfiado. Em frente, na extremidade oposta do salão, há um objeto, ou talvez um amontoado de detritos cintilantes. A cor prata do montículo reflete a pálida luz que consegue penetrar na gruta, produzindo um belo efeito à vista. O garoto se reergue sobre trêmulos membros inferiores e se aproxima, devagar. A cada passo as coisas ficam mais claras: trata-se de um robô! Mas deve estar “morto”. À guisa de comprovar sua condição de solitário nesse sítio tão inóspito, o garoto cutuca o esqueleto platinado, cadáver tecnológico, com sua pequena espada infantil, ainda embainhada, bem na parte do tronco, que continha uma grande cabeça inanimada, à maneira de uma moldura que envolve um relógio, vermelha, ao contrário da cor de metal enferrujado do envoltório. E se fosse o coração da máquina, sua bateria, um botão, o botão de ligar/desligar? O garoto intruso premedita alguns passos para trás. O que ele quer com o ferro-velho dos outros? Não há tempo para brincadeiras. Seu estômago clama por outras providências… Cadê a mamãe?

Antes de executar o plano—sair de perto dessa parede e desse boneco estranho—, o garoto é surpreendido por movimentos. O robô, cerca de três vezes mais alto e duas vezes mais largo que o menino, se aproxima perigosamente articulando duas hastes enormes e bambas que o cientista que o criou deveria chamar de pernas. Um brilho qualquer partiu de dentro da cabeça do bicho, uma centelha inquisidora, acompanhada de voz bruxuleante, de walkie-talkie. O garoto acaba de lembrar que na antiga vida que levava ele já brincara de guerra-por-rádio com seus amigos, e a voz dos companheiros, distante, saía mais ou menos assim:

– Quem é você? Como ousa me incomodar?

O menino espadachim solta um berro. Pó cai em sua cabeça. Talvez não tenha sido uma boa idéia! Como não obteve uma resposta inteligível, o robô voltou à entrevista:

– Quem está aí?

– Eu sou um garoto do deserto… Tentando sair do deserto… Eu não tenho um nome, Senhor!

– Você não tem um nome? Eu preciso do seu nome, eu não posso reconhecer um ser vivo sem um nome!

– Eu… eu…

Um relâmpago atravessa a mente hesitante do garoto e tudo parece mais coerente do que há poucos segundos:

– Meu nome é… Gohan!

– Ah, então se lembrou!

– Desculpe, Senhor, mas o que o Senhor faz num esconderijo tão afastado?

– Gohan, isso não interessa. Desligue o interruptor e saia o quanto antes.

– Mas não tem saída!

– Atrás de mim!

– Mas… mas… Só o que tem é a rocha!

– Tenho no meu computador os dados. Não sei quanto tempo passei desativado. Mas você precisa sair daqui, Gohan.

– Deve ter tido um desabamento. Nós estamos presos, Senhor!

– Gohan, isso não é minha responsabilidade. Desligue-me, humano! Desligue-me! Já não tenho mais a quem servir ou qualquer propósito. O ideal seria que eu jamais fosse despertado uma terceira vez…

– Sr. Robô, eu vou morrer aqui… Me faça companhia até o final!

– Isso é absurdo. Isso é absurdo, Gohan!

– Você, quer dizer, o Sr., o Senhor só sabe repetir? O Senhor tem vontade própria também, não tem?

– O que é isso?

– Senhor robô, o Senhor sabe como a gente faz para subir até aquele orificiozinho lá no teto?

– Gohan, meu visor foi muito prejudicado pela desativação. Sou quase cego. Por favor, você não pode me pedir nada. Eu não sou um robô atlético. Eu era um robô da ciência. Agora minha vontade é dormir o sono dos sábios.

Desesperado, Gohan emprega todas as artimanhas que conhece para convencer o robô astuto e obstinado a achar uma solução, querer sair do lugar e ir com ele pelo deserto… Mas era inútil. A máquina, obsoleta, teimava em ser um zero:

– Gohan, vou parar de responder as suas perguntas. Este lugar está condenado. Meu computador calcula que em 12 horas, sem interferência de seres vivos, todas as pedras vão desabar e soterrar essa caverna. Esse espaço oco dentro do chão vai deixar de existir. Todos os que se negarem a sair morrerão. Você tem de saltar por sua própria conta. Adeus.

Alguns minutos de silêncio…

– Ainda está aí, Gohan?

– Sr. Robô, eu vou consertar os seus olhos. Eu conheço tecnologia!

Gohan remexeu nuns fios que se ligavam às órbitas redondas daquela criatura artificial e, voilà, como que convertidas em lanternas elas adquiriram uma chama dourada, e passaram a enxergar Gohan nitidamente.

– Gohan, o que você fez foi inútil! Eu só quero dormir. O que garotinhos tão precoces fazem longe de seus pais? Desligue-me! Desligue-me!

Gohan obedeceu e dormiu de cansaço. Quando voltou a si, sobressaltou-se com algo rastejante a poucos metros e seu instinto o fez religar o Senhor Robô, bem no botão vermelho encefálico.

– Gohan!!

– Calma, Sr. Robô! Aqui tem cobras, o Senhor pode matá-las para mim?

– Gohan, você é um garoto intrometido e carente! Eu não devia, mas porque detesto choro de criança, vou assá-las para você…

– Muito obrigado, Sr. Robô!

E assim Gohan, de um golpe só, saciou o estômago e se livrou da companhia dos répteis asquerosos. O amigo robô disparou raios laser de cavidades estranhas em suas laterais. Sua eficácia para preparar churrascos é prodigiosa!

– Está satisfeito com o banquete, Gohan? Agora me desligue. Minha bateria vai acabar, mas eu gostaria de me despedir sem delongas…

– Eu acho que queimei a língua, Senhor Robô, mas estava uma delícia! Embora eu prefira o tempero da minha mamãe…

– Gohan…

– O que é, Senhor?

– DES…

– Tá bom, tá bom, já sei! O Sr. não teria uma mola para me ajudar a sair daqui?

– Gohan, lamento mas não consigo pensar em nada! Você pode, por consideração, apertar o meu botão?

– É que… Olha, só vou fazer umas perguntas antes, pode ser?

– Não, Gohan!

– Vou fazer sim, o Senhor não tem escolha!… Por que o Sr. está aqui?

– É uma longa história, Goha…

A voz do robô fica mais trêmula do que o normal.

– Senhor, Sr., o que foi?

– Eu não tenho mais energia para continuar es.. …ver..

– Robô, robô, Sr. Robô! Essa areia toda infiltrando nos circuitos do Senhor, é por isso que perdeu a mobilidade, não é?

– …

– Não precisa responder, eu vou tirar nós dois daqui, dou algum jeito! ALGUÉM ME AJUDE!!!

Tendo elevado a voz para pedir ajuda, Gohan se esqueceu de que poderia precipitar um deslizamento. Muito pó cede do teto e algumas porções do salão de calcário trincam. Gohan sabe que não terá muito tempo e que seu amigo não poderá mais ouvi-lo. Mas ele sabe—agora—que é uma criança diferente, senão não estaria no deserto passando por provações, nem teria uma espada ou… tanta sorte de arranjar um amigo até num calabouço tão escuro, no fim do mundo. Algo formiga dentro dele e ele se sente o rei do universo. Como quem pula por sobre um girassol ou um pé-de-milho, ele solta incríveis quatro metros e se agarra à beirada do buraco por onde havia caído. A borda é frágil, vai ceder se Gohan não puxar seu corpo para cima rápido. É o que ele faria, se não se lembrasse, na última hora, que esquecera de desligar o botão!

– SENHOR ROBÔ, O SENHOR NÃO PODE SOFRER POR MINHA CAUSA!!

A criança deixa-se cair de volta ao breu em dissolução. Seu último grito de solidariedade faz outras tantas rochas se desprenderem do teto. Mas ele precisa alcançar o botão luminoso… Ele deve isso ao anfitrião da caverna…

Ao tentar acioná-lo, o robô emite uma grande descarga, Gohan leva um choque e desmaia.

* * *

– Gohan, Gohan, acorde! A caverna está por um fio! Você ficou inconsciente depois de tocar em mim enquanto eu estava em curto! Mas graças a você ativei minha bateria reserva!

– Senhor… Senhor Robô, o Senhor está bem?!? Que bom!… Me desculpe… Eu me esqueci de desligar o botão quando estava prestes a sair e…

– Isso não importa mais. Não temos muito tempo.

Uma pedra de grandes dimensões cai perto dos dois, fazendo Gohan sobressaltar.

– Eu vou arremessar você, Gohan. Suba em mim e sente sobre a minha cabeça!

– Não, Senhor Robô! Eu não quero! E se eu sentar no botão o Senhor vai desligar para sempre! Preciso salvar o Senhor do desabamento!

– Não seja tola, criança! Estamos condenados se você não fizer o que eu lhe digo. O botão não vai me desligar. Eu posso mudar minhas configurações. Viu?

O robô passou a emitir uma aura azul, diferente da dourada de antes.

– Isso, assim mesmo. Agora comprima meu botão vermelho até o fundo! Prepare-se para EJETAR!

Um grande estrondo indicava que não só Gohan evadira em grande velocidade do reino subterrâneo como o próprio reino subterrâneo já não existia…

– Senhor Robô, onde o Senhor está? SENHOR ROBÔ!!

As lágrimas de Gohan são o único indício de umidade no vasto deserto, mas são logo arrancadas de seu rosto pela ventania. Breve anoitecerá e a temperatura diminuirá sensivelmente. Gohan não tem forças para erguer os escombros formados após o impacto para procurar seu heróico e mais novo amigo. Ele desembainha sua espada, engole em seco, ergue a cabeça e obedece a uma voz interior que o incita a seguir em frente…

28 de novembro de 2013

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