[ARQUIVO] MEMÓRIAS DO SUBSOLO

Originalmente publicado em 13 de outubro de 2010


Prefácio de Schnaiderman, Boris: “Gorki deixou uma anotação: ‘Para mim, todo Nietzsche está em Memórias do Subsolo. Neste livro—e até hoje não o sabem ler—se dá para toda a Europa a fundamentação do niiliwsmo e do anarquismo. Nietzsche é mais grosseiro que Dostoiévski’.”


“Existem cidades meditativas e não-medidativas.”

20: determinismo; responsabilidade.

23: o agir; a imoralidade última dos atos; nossa carga pesada; o acúmulo de maldizeres, rugas e expressões e contrações involuntárias da face quando um nome é evocado. O grande prazer incontrolável e tirânico da auto-tortura… Último homem do meu tronco eu sou. Homo ironicus, enfim. Maneiras de se gastar o tempo aprendendo o que já sabemos, processo testado e aprovado elevado até a décima potência.

“Mas que fazer, se a destinação única e direta de todo homem inteligente é apenas a tagarelice”


Estúpido e perfeito como uma barata.

Você é do tipo que para acender um cigarro tem de parar de pensar.

Eu não tenho uma opinião formada sobre nada.

Todas essas bolhas de sabão não são remorsos—é só um jeito; o seu jeito.

O fundamento é o absurdo.

Não, nada disso te machuca. O que é longo prazo para você?


“Cleópatra (…) gostava de cravar alfinetes de ouro nos seios das escravas, deleitando-se com seus gritos e convulsões.”

61: o romantismo russo, que é o negativo do romantismo europeu


A cidade nunca é a mesma quando o conto é diferente.


66: o status de mosca. Mosca humana, mosca filosófica.


Dias comuns, em que fazemos coisas gratuitas, inesperadas, e isso vem a mudar nossas vidas.


85: chegar antes que todos na mesa e entabular conversa com o garçom

“Até na aflição a vida é boa”

“Se eu fosse pai e tivesse uma filha, creio que amaria mais a filha do que os filhos; estou certo disso” “Teria ciúme, juro por Deus. Ora, poderia ela beijar um estranho?”

“Sabe que, por amor, pode-se atormentar uma pessoa?”

“Você fala como se estivesse lendo um livro”

“Deixai-nos sozinhos, sem um livro, e irremediavelmente ficaremos confusos, vamos perder-nos; não saberemos a quem aderir, a quem nos ater, o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós é pecado, até, ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios”

[ARQUIVO] NOITES BRANCAS

 

Originalmente publicado em 12 de outubro de 2010


A familiaridade da sua cidade.


“Caminhava cantando (…) como qualquer homem feliz que não tenha amigos, nem conhecidos, e que nos seus momentos de felicidade não tem com quem compartilhar a sua alegria.”


Será que é isso? Quando a paixão passa do estágio 1, eu como um todo passo a me comportar como minhas mãos quando tenho o que escrever, ou seja, de modo soberano e automático? Porventura nunca eu tinha pisado nesta estranha lua? Inventei-me uma nova casca, tornou-se possível um jeito todo diferente de gostar de alguém? Meio desdenhoso, frio, retardado nas reações? Inveja de alguns casais menos apegados… Inveja, e não ciúme.

Um jeito de sempre ter algo pra falar com alguém é eleger um terceiro funesto, i.e., escolher alguém pra Cristo. Não são poucos os casos da minha vida, em retrospectiva, em que a primeira ou única via para o meu flerte era o mexerico, falar mal de fulano. Risadas e entendimento.

Não há nenhum personagem que não possamos interpretar, independentemente da nossa idade. Ou sexo.


“Dir-se-ia que vivo num sonho, mas mesmo em sonhos nunca acreditei que poderia um dia falar com uma mulher, fosse ela quem fosse…”

“Quando o meu coração fala, a minha boca não se sabe calar.”

“Criei, nos meus sonhos, romances completos!”

“sei que o senhor é inflamável como a pólvora.”

“não é na rua que se deve procurar conselheiro”—atenção às exceções!


Aparentemente, um pré-Homem do Esgoto.


“e ele procede de tão modo que, a pouco e pouco, os seus amigos acabam todos por desaparecer.”

“neste momento, abriram-se no meu cérebro milhares de válvulas e tenho de deixar as palavras afluírem em torrente, pois, caso contrário, sufocaria.”

“o livro em que distraidamente pegara cai das mãos do meu sonhador, que nem sequer leu até à terceira página.”


O supérfluo que é vital!


Tá comigo,

Tá com Deus,

Deus Morreu,

Deus agora é seu Umbigo


“enquanto não chega essa temível hora, não deseja nada”

“Mas como pode falar de algo que não te aconteceu?” Do mesmo modo que posso silenciar sobre tantas coisas que com efeito me sucederam!

“após as minhas noites fantásticas passei por pavorosos momentos de abatimento!”

“Sabe que me vejo obrigado a celebrar o aniversário dos meus sentimentos”

“gosto de edificar o meu presente de harmonia com o irreversível passado” o antanho mais antanho que volta à baila… “…e, muitas vezes, vagueio como uma sombra, sem objetivo, sombrio e triste, por sítios afastados.”


Agora pense: o mais cruel é ser o segundo eu! Porque decidi vir depois de mim…


“sentia, apesar de tudo [da sensação de déjà vu e de eterna reprise], que a vida era mais fácil e tranqüila, não existindo nela esta idéia negra que agora a mim se apegou; nada desses problemas de consciência, sombrios e severos remorsos, que nem de dia nem de noite me deixam descansado.”


Dias perfeitos são estragados. São ilhas afundadas sem deixar vestígios. E para os martírios, moldura e verniz serão sempre recordados. Feriado desgraçado.

Se o “pai médio” na Rússia guarda(va) qualquer semelhança com o meu pai, não há a menor dúvida de que, desse ângulo, o alcoolismo é uma bênção purificadora.


“Mas, Deus meu, como posso ter acreditado em tal coisa? [que ela—ou que alguém—me amasse]”

“porque (sic) não somos todos uns para os outros como irmãos e irmãs?”

O doce da mulher: essa é uma reflexão infinita.

RESUMO LÓGICO DAS IMPLICAÇÕES DO EMPOLADO RACIOCÍNIO DE STAVROGIN E O SENTIDO DE “TUDO É PERMITIDO” NA OBRA DE DOSTOIEVSKY

“God, for his part, if he exists, does not believe in his existence, but he allows the subject to believe in it, and to believe he [god] believes in it, or [the subject] not to believe that – but not to believe he [god] does not believe in it”

Stavrogin, de Os Demônios, o psicólogo de Deus

  1. Deus existe; Deus não acredita na própria existência; Deus permite que o homem acredite na existência de deus ou não, mas não na segunda verdade fundamental.

1.1 O homem acredita na existência de deus.

1.1.1 O homem acredita que deus acredita na própria existência.

1.1.2 O homem acredita que deus não acredita na própria existência.

1.2. O homem não acredita na existência de deus.

1.2.1  O homem acredita que deus, se existisse, acreditaria na própria existência.

1.2.2 O homem acredita que deus, se existisse, não acreditaria na própria existência.

  1. Deus não existe.

2.1 O homem acredita na existência de deus.

2.1.1 O homem acredita que deus acredita na própria existência.

2.1.2 O homem acredita que deus não acredita na própria existência. Este homem na verdade é um grande ateu, pois um deus que não acredita na própria existência seria pior que a não-existência de um deus.

2.2. O homem não acredita na existência de deus.

2.2.1  O homem acredita que deus, se existisse, acreditaria na própria existência.

2.2.2 O homem acredita que deus, se existisse, não acreditaria na própria existência. Este homem é, finalmente, um grande ateu, o único ateu em sentido estrito, pois um deus que não acreditasse na própria existência, pensa ele, não deveria sequer ser pensável. Seria pior e mais absurdo que a não-existência de um deus, seria como uma confissão de não-onipotência por parte deste suposto deus.

2 conclusões:

  1. a) As possibilidades éticas são maiores sem Deus (tudo é permitido).
  2. b) Seria possível provar a inexistência de deus (jamais a existência)¹ ao se encontrar um só indivíduo que acredita que deus² não acredita em si próprio. É o caso do personagem da novela niilista de Dostoievsky. Seu niilismo absoluto, sua negação ultimada da realidade, não se escora no ingênuo fato de que não acredite num deus, mas que para ele, como um homem uma vez fanático e que pensou a idéia de Deus até as suas últimas conseqüências, esse deus se tornou impossível. Na percepção alcançada por Stavrogin, todos os casos são iguais, apenas ele e homens análogos a ele, um novo homem, são um outro: se Deus existe, quem acredita nele ou não são iguais; se Deus não existe, e Deus não existe, pois Stavrogin recebeu essa iluminação e nova sabedoria, ateus e crentes que acreditam que deus acredita em si próprio são iguais (inofensivos); mas ateus e crentes que acreditam que deus não acredita(ria) em si próprio, estes são niilistas radicais, os únicos ateus na verdadeira acepção da palavra. Igor Karamazov (outro romance) se questiona: Tudo é permitido?, mas Stavrogin responde, em Os Demônios.

¹ Pois todos os indivíduos precisariam respeitar as vedações em 1.1 e 1.2. Mas mesmo que todos na Terra em dado dia as respeitassem, não quereria dizer que jamais um indivíduo no passado as respeitou; e nem que nunca haverá de nascer um indivíduo que não as respeite.

² O deus existente, para o crente, ou inclusive apenas uma abstração, a hipótese de deus, de um deus que não acreditasse em si mesmo, para o não-crente.

Não exageremos a importância deste raciocínio lógico elaborado, no entanto: não podemos provar crenças (talvez apenas a nossa própria, e ainda assim podemos desconfiar de que às vezes mentimos para nós mesmos).