Originalmente publicado em 25 de outubro de 2012
Estou enamorado
Toda vez que me debruço na janela para fumar, porque não tenho mais um cinzeiro, eu quebrei o cinzeiro, contemplo a mesma paisagem soturna. Tão próximo, mas tão distante, gesticula um objeto na penumbra. É como se estivesse nu. E quase está. Ela desempenha seu serão. Obviamente eu não sei seu nome. Obviamente, eu não sou um dos seus consumidores. E acho melhor conservar na utopia a brasa encendida chamada meu peito. Escura como está, e sem rosto, como manequim, ela é meu carvão. Ela pulsa. É a única viva esta noite. Como em todas as noites. São só sete minutos que a observo a cada dia.
Mas agora estou enlutado. Viro-me para baforar a fumaça pelas narinas e quando fixo de novo os olhos na reta—algumas árvores, uma pista, prédios nas laterais nos separam—ela desapareceu. Se foi minha putita.
Ouço pneus cantando no asfalto… Só a amo, só me enterneço, porque ela não é minha. Meia hora. Suja por dentro. Lubrificada. Que macho sou eu que não posso comprá-la? Comprar-lhe um pão com salsicha. Amanhã ela estará de pé ali de novo. Na vitrine de carne. Se bem que nunca está, para mim… Minha de uma forma secreta. Sei que é correspondido, porque ela ama o estranho que não a corrompe! Não a estiola. Quem mais pura do que a flor que sempre após ser estiolada outra vez desabrocha?
