– Todos têm uma morte preferida. Um desejo de morrer de tal ou qual forma. Ou pelo menos uma intuição, uma forte impressão de que vão morrer de determinada maneira, não importa o que fizerem.
– Eu sou assim.
– E qual é a morte que lhe aguarda?
– Inanição.
– Sob quais circunstâncias?
– Não sei ao certo. Não sei com que idade. Não sei depois de quê. Pode haver messias epilépticos, neste país ou neste mundo, que sabem até mesmo a hora e o dia da semana em que morrerão. Mas eu ignoro o contexto. Sou mais simples. Mas algo me diz que estarei atirado na ruína, ou por algum motivo estarei em algum tipo de floresta longe da civilização, onde não me restam mais alternativas. Para falar a verdade, pensei na morte de fome em várias circunstâncias diferentes. Temo que não aconteça como em nenhum de meus pensamentos, romanceados. Não será trancado com meu filho em uma torre, como em Dante. (É isso mesmo? Mas isso foi realidade, e não ficção!) E confesso que prefiro a inanição em decorrência da miséria que de algum desastre eventual, como por exemplo ser seqüestrado, depois fugir e se arrepender, porque o cativeiro estava em lugar ermo! Sim, creio mesmo que algo me tirará a profissão, e me arrancará todas as possibilidades de recorrer a alguma ajuda. Ou talvez eu não queira essa ajuda. Talvez seja no meio da cidade, na praça, para todos verem. Um espetáculo público! Quem sabe haja outros mendigos, uma árvore, e então eu peça encarecidamente: Amarrem-me a este tronco com grossas correntes. Talvez tenhamos que roubá-las em uma oficina ou qualquer coisa do gênero. E por nada nesse mundo me soltem, nem que eu implore com os olhos marejados: Não me dêem de comer, não me ofereçam água. Deixem-me prostrar, até perder os sentidos, pouco importa quantos dias leve.
– Isso me parece um tanto trágico! Crê mesmo que é possível?
– Se essa pergunta é bem ou mal-formulada, eu não sei, mas se me deparo com ela sempre ao falar sobre isso, é porque faz sentido. Já me disseram inúmeras vezes que é impossível se morrer de fome de propósito, que existem formas muito mais nobres e imediatas de suicídio. Eu digo que não é um suicídio, pois é apenas uma natureza sem travas ou impedimentos, que faz seu trabalho. Acontece que não tem propósito continuar vivendo apenas para comer regularmente. Talvez nem fazendo outras coisas além de comer, mas isso não vem ao caso! Pois me dizem que o homem se torna um animal e não mede esforços para conseguir a próxima refeição. Mataria e comeria o próximo, se preciso fosse. Mas eu renuncio a ser homem. É bem verdade que não posso prever, não tendo antes passado fome ou me perdido no deserto, que tipo de reação sobreviria, mas é por isso que tomaria tal precaução. Atar-me-iam e me deixariam só.
– Besteiras… O corpo de bombeiros apareceria.
– Aborrece minha especulação!
– Continue…
– Seja como for, por ser ignominioso, proscrito, infame… Teria que acreditar que ninguém na cidade gostaria que eu me restabelecesse… Então se eu mesmo quisesse que assim fosse, nada haveria para me impedir… E supondo que o desespero não me desse força bruta como nunca antes, as correntes cumpririam seu propósito. Alguns acham mesmo que ninguém ama tanto a vida quanto um mendigo com disenteria. Que meu impulso, ou minha “previsão”, não passa de uma enfermidade ou desvio temporário. De fato o é, mas ele, ou ela, é recorrente. Nos meus piores momentos, essa visão sempre regressa. Eu acho que sei como é passar fome, ou quem sabe só os cadáveres descarnados o saibam! É o mesmo de quando passamos do horário de nossa refeição e não podemos mais ficar de pé, de tão trêmulos. A diferença é que quem verdadeiramente passa fome sente com tal banalidade esse fenômeno que em verdade não o sente mais. Já consegue andar, conversar, até carregar uma pedra pesada sem se queixar. O estômago não dói mais. Talvez volte a comer por inércia, ou por medo de alguma superstição!
– Não estou de acordo em tudo; mas acho até que esses bons samaritanos da caridade não compreendem muito bem “a fome”. Pode bem ser algo indescritível, que cada um sinta a sua maneira, como os pesadelos… Uma última pergunta: acredita que a mesma pessoa, em tempos diferentes, possa ter passado aguda fome e enfim decidido comer, depois de sua resolução suicida ter falhado, e, na segunda ou terceira vez que passar pela mesma situação, ter fibra o suficiente para levar o luto até o fim? Isso de morrer de fome me parece mais um dom, ou se tem ou se não tem!
– Acredito em tudo, meu amigo. Acredito mesmo que se em tal dia chove, a pessoa pode cometer um crime, ao passo que se fizesse sol ficaria em casa fazendo a sesta! Eu acredito, acima de tudo, que sempre podemos mudar para melhor!
