[ARQUIVO] A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS — João do Rio

 

Originalmente publicado em 12 de junho de 2012

« Je suis la rue, femme èternellement verte »

“Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam.”

“o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos”

“Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas.” “O flâneur é o bon-homme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.” “…acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio.”

Quem há de pensar que vi este menino a engatinhar!

E as ruas sem nome, ou de nome-nº? Ou ruas não-ruas?

“A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias.”

“eubá, o esperanto das hordas selvagens”

“Os malandros e os garotos de uma olham para os de outra como para inimigos.” São cães infantes marcando território!

“homem-sandwich é o infeliz “cartaz ambulante”, metido num panfleto, a divulgar alguma marca ou ideologia na rua.

“O Esgoto a Céu Aberto na Sua Rua” “É quase sempre na rua que se fala mal do próximo.”

“A palavra tatuagem é relativamente recente. Toda a gente sabe que foi o navegador Loocks que a introduziu no ocidente, e esse escrevia tattou, termo da Polinésia de tatou ou totahou, desenho. Muitos dizem mesmo que a palavra surgiu no ruído perceptível da agulha na pele: tac, tac. Mas como é ela antiga! O primeiro homem, decerto, ao perder o pêlo, descobriu a tatuagem.” Crianças de 10 anos que sabem “marcar”, i.e., agulhar. “Pelo número de coroas da Monarquia que eu vi, quase todo esse pessoal é monarquista.”

Eu detesto tanto meu sinal no queixo

que a barba bem grande aí eu deixo

“É como um poeta sem emprego diante de um oligarca estadual”

Algumas rezas pudicas mais parecem magia negra!


Nós somos animais

Para o bem ou para o mal

para o mal, creio que é mais


“Cada sujeito desses pode passar a vida bem. As livrarias vendem baratíssimo os livrecos procurados. Em cada um, os vendedores ganham, no mínimo, 600%.” Sem falar na qualité dos volumes! “Só esse Carlos Magno tem causado mais mortes que um batalhão em guerra.”

“O testamento da pulga, do mosquito ou da saracura, não seria para fazer rebentar de riso os mortais, nem mesmo agora, neste mortal período de desinfecções e higiene à outrance.”

“Se nas obras populares aparecer alguma coisa de novo, com certeza teremos tolices maiores que as anteriores…”

“Era domingo, dia em que o trabalho é castigar o corpo com as diversões menos divertidas.”

“os prodígios do gramofone—essa maravilha do séc. XIX, que não deixa de ser uma calamidade para o séc. XX”

Tocador de realejo—há profissão mais mecânica dentro da arte?

“Uma sanfona faria Harpagon generoso e Lady Macbeth boa.”

“Herófilo pretendia que as pulsações das veias se fazem de acordo com o ritmo musical.”

“Há talvez em outras terras, mais gastas e mais frias, a miséria dos músicos ambulantes, sem fogo, sem pão, caindo sob a neve, depois de uma dolorosa vida.”

Mais uma testemunha de fim dos tempos gloriosos, bem à Levi-Strauss.

Tantas expressões sui generis… Parece até um outro idioma! Ex: cordão—o trio elétrico da época; camisa de meia—regata.

No princípio pensei que seria uma apologia idiotizante, mas é um autor tão ranheta quanto eu!

Quem diria: o Carnaval do Rio já era, e sem o samba! Só três dias de folia? Nem pensar!

“Ora, este país é essencialmente poético. Não há cidadão, mesmo maluco, que não tenha feito versos.” “São uns animais! Este país está todo errado. Há mais poetas que homens. Eu, governo, mandava trancafiar metade, pelo menos.”

“canção e lei eram a mesma palavra entre os helenos.”

Cerne do livro: a modinha, versos/cancioneiro popular que não pode ser considerado arte (tanto que não se conservam seus autores). De certa forma, se assemelha aos dizeres de Schopenhauer sobre a Música. “a musa da urbs”

“e esse estranho Álvares de Azevedo, o único genial do bando romântico, o único predestinado como os grandes vates, o único que no choro de praxe desamargurado de estilo tinha o soluço presciente de uma tumba a abrir-se, o único que conservava no torvelinho das paixões uma alma de rosa cujo perfume desejava o céu, o único que hoje, amanhã, ninguém lerá sem sentir o soluço, o travo da morte, o ai! das agonias e a tristeza que nos causa o desaparecer de um astro, o murchar de uma flor, o tombar de um pássaro cujo breve cantar não passou de uma alegria em torno do próprio ninho…”

“Os grandes poetas não fazem mais versos para toda gente (…) e os vates são parnasianos, são simbolistas, procuram a forma sensível e a essência oculta.”

“Outrora ela bebia para cantar. Agora canta para beber.”

“Dudu das Neves canta apenas as suas obras.” O youtube o desmente, João!

“O sucesso e a popularidade de Santos Dumont são devidos menos aos seus trabalhos de aviação que ao ter causado a admiração de Paris.”

“Vós me pedis, suponde, que eu faça a poesia para certa música. Crede que eu, imediatamente, sem mais reflexão, empunhe a pluma e a vaze do papel? Não. Há algumas dessas músicas que me fazem levar horas inteiras a interpretar-lhes os sentimentos, os queixumes, as mágoas de que sofrem os seus autores.” Catulo, Poeta da Calçada.

109: a hilária modinha sobre a peste bubônica


GLOSSÁRIO:

flanar: vadiar “é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, levado pela primeira impressão”

nefelibata: avoado; homem das letras que está sempre no mundo da maionese; escritor sem-estilo que não sabe conectar idéias e só diz disparates.

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