[ARQUIVO] O DIA EM QUE BRASÍLIA ASSUMIU SUA VERDADEIRA FORMA

Originalmente publicado em 10 de setembro de 2013

Uma megalópole. Pessoas escorrendo pelo ladrão, como ratos, afobados, de cá pra lá. Quem sabe de longe façam sentido e sejam uma turba coordenada. É assim que um tempo se resume.

Mas falo do seguinte. Em um ponto que não chegou a vivenciar a realidade da superpopulação. Um oásis perdido de máscaras e parcos zumbis. É ainda mais estranho, ouso dizer, quando uma casa de um ou dois membros fica de repente vazia do que a deserção pós-festa ou banquete! Uma cidade que já era meio-fantasma, com a outra metade do copo finalmente vazia? Onde a normalidade não seria obtusamente diferente, mas aí é que está a sutileza do espanto. Pensávamos que estávamos acostumados ou que nos podíamos acostumar aos dias de solidão absoluta, quando ela era apenas relativa. E a solidão relativa é bastante acolhedora.

Olhei pela janela assim que acordei. Não notei nada de diferente. Saí do apartamento e desci pelas escadas, como de hábito, já que o elevador não funciona faz tempo. Ninguém na guarita. Nenhum carro em movimento. Ninguém dentro dos carros parados. A não ser que se ocultassem por trás dos vidros escuros. Um carro ou outro se encontrava parado no meio da rua, uma porta ou portas abertas. Percorri a quadra. Subi à W3. Ainda não senti vida, nem pombas ou pássaros. É de tarde, suponho. O silêncio não é ensurdecedor, como diz o clichê: ele só é ele mesmo, inacreditável tanto quanto a calma mantida pelo pulsar de meu organismo. Imaginei, um dia, que eu podia ser O Escolhido e que isso aconteceria, e então meu primeiro pensamento era poder correr pelado impune, invadir um frigorífico e ter com o que me suster por muito tempo. Agora que chegou, será realmente assim? A moral não me massacrará sempre? Ou eu me descobrirei a pior companhia tão rápido quanto o tédio me invadir e eu implorar pela “reversão”?

Devo começar lendo livros, praticando assaltos ou atingindo 200 por hora num veículo aleatório? Esperar inerte ou provocar a morte? Decidi escrever memórias antes de ter do que lembrar-me.

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