Originalmente publicado de 10 a 17 de setembro de 2013
Tomo II
Vocês são vermes com nutrientes riquíssimos que eu, o especialista, sei como aproveitar.
XXV
Monstro gorduroso, repelente
superpança, longe de atraente
Arrota, peida, hemorróidas
Cara inchada, pouca articulação
Igual os primos, inclusive reles vagabundo, incriador
O prato não está onde deveria estar, ó baleia!
Terás dinheiro, terás roupas e bons amigos,
quem sabe até beleza! Mas de nada vale
se não couber numa quarenta
Trinta e oito era o que eu queria usar…
Tomo IIb
Não sei por que meus parentes mais próximos não parecem se preocupar nem um pouco com a morte. Engano meu: com a minha morte. Isso é só o que me ocupa e sinto-me menos saudável que qualquer um dentre nós quatro. Sinto que há algo podre no meu interior. Seja o enxofre que vivo exalando, minha sempre manchada derme ou meus tecidos musculares…
Algo não processa! Da capacidade respiratória e a vista à finura e instabilidade dos dedos, nada consigo desempenhar bem. Minha vida está cheia de rasuras. Até a barba é falha!
Mas quanto ao que está escondido e ninguém pode ver—nem eu, o míope, mas posso sentir—, não pode ser só intelectual minha diferença (proeminência?) em relação a eles. Quase todo mês que vivo parece ser o último. Me arrasto para cumprir meu cotidiano e ninguém percebe. Cada carteira, caminhada, fisio, aula, livro ou jogo me deixa mais debilitado. A voracidade com que devoro meus alimentos não pode ser bom sinal. A porta do meu quarto parece a tampa da minha urna—só precisava ser um pouco mais escura.
Me assombra dormir a poucos metros de alguém que namora a morte com uma inconsciência e uma constância tão explícitas. Só mesmo diante da mais dormente das sensibilidades tal espetáculo não seria aterrador—ignorar o show o qual você dirige, UAU!
Me espanta a não-consideração da alternativa, em pessoas “tão velhas”. Falam do futuro como se já houvessem encomendado mais 30 anos!
GASES GAZES HOSPITAL HOSPÍCIO
le cahier de demain
“A vida inteira pela frente”
“O destino em suas mãos”
“Vontade de viver”
“Suicidas são pecadores”
A isso eu digo que sou vaso bom, e quebrarei cedo, que não depende de mim e não sei em que altura do túnel estou. Em que anel da minhoca… mas já é debaixo da terra.
Olaria é o meu rabo!
Falta o pathos antigo nessas pessoas contaminadas… Quem menos quer é quem mais se dedica, que flutuação em outra dimensão é essa, (…)?
Sou o contrário de Remo, nasci homem de animais impávidos, lobos que não querem me deixar ir rumo à cidade antropomorfa já fundada!
O caçula entra no casulo
Quem se envenena por dentro e embriaga por fora se pensa imortal. É tal sua soberba, a desse neandertal nada sóbrio!
“Nunca morri, logo não vou morrer”
A Pedra de Sísifo é só uma alegoria, mas a minha vida não! O que dizer de gente que só quer ser útil em momentos úteis? De imbecis que se isolam? De tudo e todos?!
Alguns são tão tolos que se fosse fisicamente possível dissecariam o próprio cadáver com prazer e zombeteiramente, sem saber que estão cavoucando suas tripas!
Somos pré-salame, já etiquetados, na fila, rolando numa esteira dentro de um imenso freezer.
Mas enfim… não sei minha posição e se alguns querem se jogar antes do tempo não vou impedir. Talvez eu seja mesmo rejeitado pelo controle de qualidade…
PENSANDO NO DESTERRO DO BEZERRO
Tomo III
A raiva está me comendo por dentro. Força vital lá embaixo. O mais trivial é o mais sofrível. Tudo dói. Não tenho energia para meus principais projetos e qualquer afazer cíclico-obrigatório cansa como um banquete no Mangai.
* * *
CORTINAS E LUAS / OU: PELO SIMPLES FATO DE
Sinto-me desconfortável em todo esse luxo
A luz azul que pisca e não se apaga
os travesseiros que quão mais numerosos mais me deixam na mão, alquebrado, dorido, retesado
Extensões dos meus olhos com os quais não posso ver senão contornos dos entornos
essas poderosas lentes
vaso sanitário de 5 em 5 minutos
dor nas pernas, a culpa é minha
fumo um cigarro, o chão está gelado
come uma maçã
podre pode-se lavar, o bom ovo é bom selecionar
*
Sonhos de estudos perdidos, não posso esquecer, dada minha natureza exigente, o quanto eu poderia ter exigido menos de mim todo esse tempo
Digita, digita, digita o manuscrito, estende a roupa, fecha a porta, dobra a trouxa
Dorme sem remédio para fracos
tudo menos trabalhos
escravidão a céu aberto
*
que gosto de nada no fim do cigarro
sim, gosto de água
70% de nosso corpo não existe
Tomo IV
Se eu morresse agora, qual seria meu preâmbulo?
[Inspirado pelo último episódio da série Lost.]
Não numa igreja; sem caixões. Incluiria pessoas de todas as épocas. (…)
Pode ser um grande Marreco’s Fest com um telão monstruoso mostrando a Libertadores de 2005. Todo mundo comemorando! Minha aparência? 16 anos.
Medo de que tudo esteja mais vazio e triste do que imagino…
Muitos parentes mortos, bem corados. Reunião da galera para jogar Mortal Kombat e Mario Kart. Uma ou duas aulas com alguns dos meus favoritos. Ah, e é claro, as melhores comidas! Prazeres são terrenos, temporário, lei do desapego/desapreço.
Dragon Ball. Uma espinha na testa, “pelos velhos tempos”. Aliás, estarei impecável de terno, farda e sapatos engraça…xados. Não procure representatividade no que não tem… Já escrevi demais, deixe agora que me leiam—tarde de autógrafos? Rádio Gisno (…) E o maior desejo ao final: poeira cósmica, chega de reencarnações!
Chegamos de dia, céu cinzento, partimos de noite… Grande antessala!
Talvez a antessala sejam os sonhos entrementes de todos os dias. As duas vidas irão se fundir, ao cabo.
