Originalmente publicado em 7 de novembro de 2013
Essa história acontece em solo europeu, por motivos que os artistas brasileiros conhecem muito bem…
A formiga, todo mundo sabe, é o trabalhador competente e compenetrado, que vende (aluga, cede) sua mão-de-obra tanto no verão quanto no inverno para suprir suas necessidades (um pouquinho mais no verão, é verdade).
A cigarra, o pessoal conhece como a vilã da fábula (infantil?), aquela que tem repulsa ao modus operandi do proletário e que por isso paga a conta no final (todo vilão, no reino do maniqueísmo, se torna a derradeira vítima). Vamos apresentar um início, um meio e um fim alternativos para esta triste lição de moral!
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A cigarra canta no verão, e se dá ao luxo de deixar de cantar no inverno, a fim de preservar suas valiosas cordas vocais. Mas longe de recriminá-la pela postura, devo enaltecê-la; e nem preciso oferecer meu teto e meu cobertor quentinho a esta amante do ócio, quando o clima apertar, pois a cigarra tem tudo isso e muito mais: ela é uma celebridade das casas de ópera!
Por ser uma artista, a cigarra ganha numa só estação o suficiente para se sustentar por muitas estações. Ela tem um dom. Muitas formigas há que levem e tragam folhas e torrões de açúcar de lá para cá, de cá para lá, incessantemente, sob o sol forte, o vento inclemente, as mais variadas intempéries—mas cigarras são poucas, são raras, e como tal são mais prestigiadas.
A cigarra de nosso brevíssimo enredo passou o verão inteirinho cantando ao invés de “meter a mão na massa”, carregar peso, carpir um lote, plantar batata, sabe como é! No inverno, restava-lhe ler as cartas dos fãs, e estalar os dedos, em expectativa, preparando-se (psicologicamente, que fique bem claro) para os espetáculos da próxima (e cobiçada, pela platéia de insetos!) temporada.
Sim, amigos: nesta pequena fábula adulterada, a formiga é que tem inveja do excelente planejamento e previdência da amiga refinada!
Carpe diem, fazendo o que tu amas!
