[ARQUIVO] MOBY DICK OR THE WHALE

Originalmente publicado em 1º de março de 2013

Anotações ao ler Moby Dick, de Herman Melville. Algumas citações foram traduzidas para o português.

“Melhor dormir com um canibal sóbrio que um cristão bêbado.”

“nowhere in all America will you find more patrician-like houses; parks and gardens more opulent, than in New Bedford.” Esta cidade teria crescido graças ao comércio de carne de baleia.

“em assuntos espirituais, somos como ostras observando o sol pela água”

Jonas, o personagem bíblico marinho. Poderia ser Jó (Jonah)? O arrependimento de um pecador no estômago de uma baleia.

“That Himmalehan, salt-sea, Mastodon, cloth with such portentousness of unconscious power, that his very panics are more to be dreaded than his most fearless and malicious assaults!”

“Who is Captain Ahab, sir?”

O que são as brincadeiras entre soldadinhos de uma Guerra Mundial, que só envolvem suas consciências previsíveis e um maquinário estreito idem, perante as Cruzadas contra o Insondável, as criaturas de Deus, cujos propósitos—se há—permanecem tão obscuros quanto o fundo do alto-mar? O que é inclusive a Peste Negra perto de uma Baleia Branca?

Expedições de baleias: heróis antropológicos. Mergulhados no anonimato. Os precursores da democracia “eterna” em sítios remotos como Bolívia, Peru e Chile! Abaixo o jugo espanhol!

“Essa grande América do outro lado do hemisfério, Austrália”—e ainda tornaram/tornarão o Japão hospitaleiro!

Na caça às baleias os arpoeiros da linha de frente avançam em barcos precários. O navio não é a única, talvez nem a principal, fonte de ataque.

Enquanto o sentido da vida dos bebês é dormir, velhos capitães rabugentos tratam de fechar os olhos, se muito, 3 horas a cada 24.

A baleia é o único peixe com pulmões e sangue quente.

89: aula sobre baleias

a) grandes baleias

Sperm Whale / Physetur catodon—Cabeça-de-prego/martelo/bigorna / cachalote mares temperados e tropicais 20m. Maior animal dentado (34 a 58 dentes só na parte de baixo; gengiva superior possui dentes mas quase não podem ser vistos). “Sperm” vem do óleo que recobre sua cabeça, de cor branca. Descobrimento: somente em 1758 por Lineu. 1/3 do tamanho do animal é sua cabeça! Usualmente cinzas, mas podem ter albinismo. Cérebro de 7kg. As fêmeas são bem menores. Nasce-se com 4m e 1 tonelada. Graças ao espermacete e à armazenagem de oxigênio, pode efetuar caças submarinas a 2 mil metros de profundidade.

Right Whale—Baleia Preta, a Grande Baleia. A mais caçada e cobiçada por baleeiros. Inclusive na costa brasileira, e também na indiana.

Fin-Back—O jato d’água “mais conhecido” pelos viajantes. Fin = barbatana. Baleias misantropas.

Hump-Back—Corcova acentuada (apesar da cachalote também ter). Costa setentrional dos EUA. Óleo menos valioso. Mais barulhenta.

Razor-Back—A mais pacífica. Misteriosa. Só se conhece suas costas.

Sulphur Bottom—Baleias do Sul. Não são caçadas. Fugiriam depressa demais.

Grampus—Em bandos. Óleo bom para luz. Pouco caçada. Presença pode ser premonitória da chegada de um cachalote.

Black Fish / Hyena Whale—Curva para cima dos lábios e intensa voracidade. Suas barbatanas dorsais parecem um nariz romano à distância. Proporcionalmente, muito abundantes em óleo.

Narwhale / Nostril Whale—Baleia com Presa ou Unicórnio do Mar. Tem um chifre de utilidade desconhecida—mais provável que como gancho para revirar o fundo do mar atrás de comida que como arma. Habita regiões polares. Alvinegra.

Killer—Selvagem. Parasita até mesmo de baleias grandes. Não é caçada. “Todos somos assassinos, na terra e no mar; Bonaparte e tubarões inclusos.”

Thrasher—Rabo que chacoalha rapidamente para golpear. Capaz de se ater às costas das grandes baleias para prejudica-las.

b) pequenas baleias (incrivelmente menores que um ser humano adulto!)

Huzza Porpoise—“Boto”. Forma engraçada de nadar. Considerada um ótimo agouro. Carne deliciosa.

Algerine Porpoise—Uma pirata dos mares. Exclusiva do Pacífico. Conduta de tubarão.

Mealy-mouthed Porpoise—Não tem barbatanas, mas sim uma cauda. Olhos castanhos sentimentais. Sua boca farinhento-rugosa estraga seu aspecto.

c) espécimes difíceis de catalogar

Baleia do Nariz-Chato; Baleia-Lixo; Baleia Cabeça-de-Pudim; Baleia do Cabo; A Líder; Canhão; Baleia de Cobre; Elefante; Iceberg. Talvez fábulas.


“Ó, Tempo, Força, Dinheiro e Paciência!”

Injustiça, Desigualdade, Falta de Fraternidade

Hostilidade

Moby Dick, ubíqua e imortal. Lembrando que em inglês baleias são macho.

O urso polar é tão temido porque é branco. Sem falar no tubarão branco.

O albino, mais feio dos abortos humanos!

O cavalo branco do Deus Bonachão.

A palidez cadavérica, o osso, o leite.

Cegueira branca. “Pensamento de aniquilação” Via Láctea

“he never rests till blue water is under him again.”

“até tulipas e rosas”

Dados reais: 1820—navio Essex, Capitão Pollard, de Nantucket, naufragado por uma baleia branca. Em menos de 10 minutos.

Ei, man, Ei, Rebe!

“essas maravilhas (como todas as maravilhas) são meras repetições das eras; pela milionésima vez dizemos amém com Salomão”

“Tem certos momentos esquisitos nessa estranha mistura de negócios chamada vida em que um homem interpreta todo esse universo, na prática, como uma grande piada.” “Essa variante peculiar e teimosa de ânimo da qual estou falando só toma conta dum homem em dias de extrema atribulação; ela chega bem no cerne de sua seriedade”

Viajar no mar é mais cruel que no espaço sideral, pois um capitão experiente e condecorado nada tem a fazer se o vento for contrário. Só esperar e rezar. No cosmo infinito e negro, engenhosos propulsores bastam, tudo é meticulosamente controlado à distância. E qualquer imprevisto gera a melhor das mortes—indolor. No mar, se não quiser se afogar (e não ouvi de quem tenha querido), o marujo pode morrer desidratado e feio, depois de muitos dias. Uma morte bem salgada.

“mas aonde toda essa circunavegação conduz? Apenas por um sem-número de perigos até o mesmo ponto de onde começamos”

“GAM. NOUN—A social meeting of two (or more) Whaleships, generally on a cruising-ground; when, after exchanging hails, they exchange visits by boats’ crews, the two captains remaining, for the time, on board of one ship, and the two chief mates on the other.” Gamming, uma arte.

Uma revolta em alto-mar bem próxima do Taiti—bem melgibsoniano!

Perseu resgata Andrômeda de uma baleia (versão alternativa?).

Já consideraram golfinhos como subespécies de baleia. Desenhos de baleias foram completamente absurdos e incorretos até o próprio advento da fotografia, mesmo em obras de cunho científico. “In a word, Frederick Cuvier’s Sperm Whale is not a Sperm Whale, but a squash.” Tal infortúnio, longe de se resumir a negligência do homem, é bastante natural, já que ao contrário dos elefantes uma baleia nunca posou para um retrato! A cabeça da baleia lembra uma luva de boxe. “And the only mode in which you can derive even a tolerable idea of his living contour, is by going a whaling yourself; but by so doing, you run no small risk of being eternally stove and sunk by him.” “Os franceses são os caras para pintar a ação.”

“Essa parte do mar conhecida como ‘Brazil Bounks’, por causa de sua marcante aparência de pradaria, causada pela matéria amarelada que flutua em abundância nessas latitudes, onde a Grande Baleia é constantemente caçada e da qual ela se alimenta.”

“por mais que, num futuro lisonjeiro, a ciência e a técnica aumentem; ainda para sempre e eternamente, até o estalar da destruição final, o mar vai insultar e matar o homem, pulverizar a mais dura e grandiosa fragata que ele puder fazer.” Antes do Titanic!

“O Dilúvio de Noé ainda não cessou seus efeitos, tolos mortais; dois terços do mundo ele ainda cobre.”

A embarcação não terá caçado nenhuma outra baleia no meio do caminho? Resposta: página 181 e avante…

176: …eis que era “apenas” uma lula gigante!

“The whale-line in only 2/3 of an inch in thickness. At first sight, you would not think it so strong as it really is.” “the line attached to the harpoon” Jogam-se os dardos, mas se os resgata depois. A corda é bem comprida e NÃO é amarrada a nenhum barco: “This arrangement is indispensable for common safety’s sake; for were the lower end of the line in any way attached to the boat, and were the whale then to run the line out to end almost in a single, smoking minute as he sometimes does he [the whale] would not stop there, for the doomed boat would infallibly be dragged down after him into the profundity of the sea”

“o barco está balançando como um berço”

Ao contrário das aparências e dos julgamentos simplistas, “mesmo você sendo um filósofo, embora sentado num barco de caça à baleia, não sentirá um pingo de terror a mais no coração do que sentado diante de sua fogueira numa noitinha, de espanador ao invés de arpão à mão”, principalmente porque nos momentos mais calmos é que temos mais razões e condições de nos sentirmos apreensivos.

Parece incrível como uns poucos homens em barcos a remo conseguem perseguir um animal cujo ofício é o nado. Muitos arpões de reserva em cada barco. De 8 a 10 sendo arremessados ao mesmo tempo. “sharks will be seen longingly gazing up to the ship’s decks, like hungry dogs round a table where red meat is being carved”

Dizem que a carne de baleia malpassada é a melhor!

“Of Whales & Men”—“Seja refrescante no equador; mantenha seu sangue fluido no Polo.”

O navio tem de ser ancorado enquanto a gordura vai sendo despejada e liquefeita nos tonéis e a carne ainda é consumida. E ainda não decapitaram o animal, cuja cabeça será exibida como troféu. Ancorado no meio do oceano profundo. Imaginem o cheiro do cadáver!

202: a bela alegoria da corda que nos ata como siameses aos outros seres humanos, encarnada pela corda-de-macaco ligando Ishmael e Queequeg

O navio baleeiro que possuísse em sua carga uma cabeça de cachalote e outra de green whale estaria misticamente protegido de qualquer desastre. Fedallah: Dite ou Belzebu ou o Coisa-Ruim. “Look here, Beelzebub, you don’t do it; and if he makes any fuss, by the Lord I’ll make a grab into his pocket for his tail”

Na verdade, se o trabalho é profissional e a extração do líquido é célere, não há perigo de se conviver com nenhum fedor mortuário nem qualquer odor nauseabundo e ofensivo. “nem pode o baleeiro ser reconhecido, como a gente da idade média afeita a detectar um judeu na companhia, pelo nariz.” “no baleeiro, não é todo mundo que vai nos barcos ao caçar. Algumas mãos são reservadas como vigias, cuja tarefa é conduzir o navio enquanto perseguem a baleia.”

“a posição dos olhos da baleia corresponde àquela das orelhas humanas (…) Em uma palavra, você teria duas costas, por assim dizer; mas, ao mesmo tempo, ainda, duas frentes (frentes laterais): porque o que define a frente de um homem—o quê, de fato, senão seus olhos?” Um nêmese não-euclidiano! Além disso, o globo ocular é terrivelmente desproporcional, quase azeitonas perdidas, cravadas numa montanha! E as orelhas? Um leigo as caçaria na cabeça horas a fio… Curiosamente, os leviatãs do oceano mergulham com a cabeça quase perpendicular ao mar. A baleia branca aceitaria placidamente seu destino—a morte—até na expressão “facial”, se é que baleias têm face: “This Right Whale I take to have been a Stoic; the Sperm Whale, a Platonian, who might have taken up Spinoza in his latter years.” E se a regra da testa grande de Schopenhauer é válida, as baleias são gênios. Aliás, Melville também cita: a depressão no meio da testa, a marca da genialidade. “Mas como? Gênio na Baleia Branca? A Baleia Branca por um acaso já escreveu um livro, emitiu alguma fala? Não, seu grande gênio está declarado no não fazer nada em particular para prová-lo. Está sobretudo declarado no seu silêncio piramidal. E isso me lembra que, se a grande Baleia Branca fosse conhecida do jovem Mundo Oriental, teria sido deificada por seus pensamentos infanto-místicos. Eles deificaram o crocodilo do Nilo, porque o crocodilo não tem língua; e a Baleia Branca não tem língua, ou ao menos ela é tão pequena a ponto de ser incapaz da protusão [movimento para frente]. Se as altas culturas revisassem suas origens e seus deuses mais antigos com os dados de hoje, o tão exaltado trono de Zeus, no céu egotista, estaria subordinado à grande Baleia Branca. § Champollion decifrou os graníticos hieróglifos. Mas não há Champollion para decifrar o Egito de cada homem e a face de cada ser. A fisionomia, como qualquer outra ciência humana, não passa de uma fábula que passa. Se o próprio William Jones, que lê em 30 línguas, não pode ler o rosto do camponês mais simples em seus sentidos mais profundos e sutis, como este iletrado Ishmael esperaria poder ler a testa da Baleia Branca? Ponho a testa diante de ti. Leias se puderes.”

“Muito do caráter de um homem será encontrado em suas costas.”

O óleo sangrento que ilumina as igrejas que pregam a não-violência.

Às vezes a baleia afunda depois de morta, às vezes não. Mas após alguns dias carcaças podem emergir de novo. “Cadáver-balão”

“Tu és como um leão das águas, e como um dragão do mar” Ezequiel—Ishmael desconfia que São Jorge na verdade matou uma baleia! “Qualquer homem mata uma cobra mas só um Perseu, um São Jorge, tem o coração para marchar tenazmente rumo a uma baleia.” + Hércules e Vishnu.

A baleia só respira por 1/7 do seu tempo—seu domingo.

Como era de se esperar, uma baleia não tem olfato. Nem voz, ao contrário das Free Willies (orcas).

Receber uma rajada ou jato do orifício da baleia significa entrar em contato com ácido, pois descama a pele. Diz a lenda que o líquido também o cegará.

Nem as fadas podem sobrepor a beleza da cauda! Ela é praticamente reservada em especial para atacar o predador-homem. As ancestrais das coreografias de nado sincronizado! Só falta haver uma linguagem de libras para todos os executados pela santa cauda!

Há a hipótese de que o sentido do tato da baleia se concentra todo no rabo, como os elefantes têm uma tromba supersensível. Só falta mesmo o poder preênsil. Fosse assim, a baleia poderia retirar por conta própria pelo menos alguns dos arpões fincados em sua densa camada de gordura traseira. Alguma conexão com elefantes se reconhecerem no espelho? “o elefante está para a baleia como o cachorro está para o elefante.”

As duas tetas ou mamilos nos quais os cachalotes recém-nascidos mamam se localizam nas extremidades do ânus da mãe.

“Os touros”: bandos de baleias-macho “adolescentes”.

E os ciúmes são tão discretos quanto a massa corporal desses bichos! Mesmo que haja poligamia qualquer perda é sentida. E quantos pais não “saem de casa” para nunca mais voltar!

Holanda (1695): 1ª legislação concernente à caça de baleias. Há, no entanto, uma série de costumes e tradições não-escritos consolidados.

“Never heard of such a whale, Cachalot Blanche!”

“Pense você no ditado de São Paulo no Corinthians, sobre corrupção e incorrupção; como somos soterrados na desonra, mas elevados na glória.”

“in the pitchiest night the ship’s black hull still houses an illumination.”

Esses seres simples, mera bucha de canhão!

Que tipo de pessoa gasta seu tempo observando os detalhes do dinheiro?

273: os 12 signos

O objetivo de Moby Dick não poderia ser se alimentar do homem, já que nem digerir um membro ela consegue!

A cerveja deixa o baleeiro [dessa vez o homem] mais atento nos climas polares.

Tatuou medidas de um fóssil de cachalote no braço—porque estava numa tribo sem acesso a papel.

“Para produzir um grande livro, você deve escolher um grande tema.” “Nenhum volume duradouro pode ser escrito sobre a pulga”

Methuselah

Denderah

Na África está a Meca dos baleeiros.

Com o passar dos milhões de anos as baleias têm ficado maiores. De fato, tem sido assim com o homem também, não tem? No ritmo das caçadas atual, defende Melville, o Leviatã jamais seria extinto. Para ilustrar, ele cita a depredação dos búfalos, literalmente mil vezes mais notável. Segundo ele, as geleiras seriam sempre um refúgio. “for all these, we account the whale immortal in his species, however perishable in his individuality.” “In Noah’s flood he despised Noah’s Ark”

Por que não armas de fogo contra as baleias? Deterioração do gosto da carne e da qualidade do óleo?

“era do conceito de Queequeg que, se um homem se convenceu a viver, uma mera doença não poderia levá-lo”

“o Delta das veias de sua testa saltou como um riacho transbordante”

Oceano pacífico sangrento. Une a terra mais nova à mais velha.

“There is some unsuffusing thing beyond thee, thou clear spirit, to whom all thy eternity is but time, all thy creativeness mechanical.”

“qualquer homem com metade de um olho pode ser sensível”

“Trovões demais aqui em cima. Qual a utilidade do trovão? Não queremos trovão, queremos rum; dê-nos uma garrafa de rum” “São os céus assassinos quando seu raio fulmina um futuro assassino em sua cama, queimando folhas e pele juntas?”

“debaixo d’água, sob certas circunstâncias, focas foram com muita freqüência tomadas por homens.”

Um falcão roubou o chapéu de Ahab. Ahab tem 58 anos. No último momento, Ahab parece hesitar acerca de seu automatismo vingativo. Ishmael é quase, ou é, um figurante, um expectador da tribulação. Sequer teria interagido com Ahab durante toda a viagem!

“Ye two are the opposite poles of one thing; Starbuck is Stubb reversed, and Stubb is Starbuck; and ye two are all mankind; and Ahab stands alone among the millions of the peopled earth, nor gods nor men his neighbors!” “but Ahab’s soul’s a centipede, that moves upon a hundred legs.”

Pequod como Colombo do Oriente, atrás do continente branco! Trinta homens a bordo.

Três dias de caçada diurna. O caixão-bóia de Queequeg salva Ishmael, O Único.

Dinamarquês de baleia: HVALT. WHALE já na Islândia. Nós temos nossa palavra derivada do francês BALEINE.

“É Ahab, Ahab? Sou eu, Deus, ou quem, que ergue esse braço? Mas se o grande sol não se move por si mesmo; mas é um menino errante no céu; nem uma estrela sequer pode revolver/girar, a não ser por algum poder invisível; então como pode esse pequeno coração bater; esse pequeno cérebro pensar pensamentos; a menos que Deus faça esse bater, faça esse pensar, faça esse viver e não eu.”

* * *


A BOOK OF SEA LEGENDS—Michael Brown

Sereias têm cauda de peixe somente a partir dos romanos.

A proibição de empreender jornadas às sextas (dia da crucificação de Cristo).

MUITAS COMPLEMENTAÇÕES CERTEIRAS A MOBY DICK: “if the corposant [chama dos raios] shone round a seaman’s head like a halo he was doomed.” “When three seagulls are seen flying together overhead it is a bad omen” “In the old days sailors never learned to swim (…) the very word ‘drown’ was never to be spoken at sea, for fear of the consequences.” “the calling of the dead has frequently been heard, hailing their own names.” “Sailors believe that the ship’s bell is the soul of the ship and that it will always sing when a ship is wrecked.”

O mar é salgado porque um moedor mágico, antigamente posse do Diabo, que multiplica ao infinito qualquer matéria, foi parar no fundo do mar após seu último dono desejar grandes quantidades de sal.

243-3: Caribde e Cila


GLOSSÁRIO (português):

cetáceo: mamífero pisciforme

espiráculo: respiradouro das baleias


GLOSSÁRIO (inglês):

rosebud: lábios em flor; botão de rosa. O nome do navio francês que o Pequod encontrou.

waif: órfão

[ARQUIVO] TRÓPICO DE CÂNCER 1.0

Originalmente publicado em 24 de fevereiro de 2013

“O essencial é querer cantar.”

“O canguru tem um pênis duplo: um para os dias de semana e outro para as festas.”

“Deixei alargadas as extremidades… Amaciei bem. Depois do meu, caberão os de garanhões, touros, carneiros, patos, são bernardos. Podes embutir sapos, morcegos, lagartos no teu reto.”

“Como um ovo dançante sobre um jato d’água.”

“Há pessoas que não podem resistir ao desejo de se meter numa jaula com feras e se deixar despedaçar. (…) Nenhum leão ouviu falar de Spinoza. (…) Uma simples patada do leão e sua cosmogonia ficará destroçada.”

“Não se propõe nada que possa durar mais de 24h. Estamos vivendo um milhão de vidas no espaço de uma geração.”

“O telefone interrompe esta reflexão, que nunca havia podido levar a término.”

“E, nesses cem últimos anos aproximadamente, nenhum homem foi bastante louco como para meter uma bomba pelo olho do cu à criação e fazê-la saltar pelos ares.” “Vamos consignar a evolução deste mundo que morreu e que não percebeu sepultura.” “Será enorme, o Livro.”

O fetiche da máquina de escrever—nem tanto à folha, nem tanto ao computador.

“Até uma má novela requer um assento em que se sentar e um pouco de isolamento.” “as melhores idéias sempre se me ocorrem quando estou longe da máquina.”

“Não o nego. Tenho uma boa saúde, uma saúde sólida, de animal. A única coisa que se alça entre minha pessoa e o futuro é uma comida, outra comida.”

“Já superei minha juventude melancólica.”

“Pensar que um imbecil pobre e definhado, com vulgares obras da Broadway debaixo da manga, está urinando na mulher que amo. (…) Vai tomar no cu com seus dois modos de considerar as coisas!” Sylvester

“Não me dê seu vinho tinto… dê-me sua mulher…”

“Não sabe o apetitosa que é uma mulher manchada, até que ponto pode dar viço a uma mulher a troca de sêmen.”

“Eugène diz que tem 15 ou 16 canções em seu repertório, mas nunca ouvi mais de 3.”

“Não é difícil estar só, se é pobre e fracassado. Um artista sempre está só… se é um artista.”

“NY faz com que até um rico se sinta insignificante.”

“Uma forma fina de tortura autoimposta, o concerto.” “Nota que quanto mais bem-vestidos vão, mais profundamente dormem. Os ricos têm a consciência tranqüila.”

Os hindus não pedem (peidam) desculpa por terem sentido vontade de peidar justo na sua cara. Para eles, isso nada mais é que uma fata/futi-lidade inevitável, algo que não cheira mal fazer!

El hambre—y no el sexo—es su gran tema.

“Se está chovendo, diz: ‘Maldito seja este clima safado! Deixa qualquer um doente!’. E se brilha um sol esplêndido, diz: ‘Maldito seja este sol safado! Deixa qualquer um cego!’”

“Todo mundo é Joe porque assim é mais fácil” Joe Endri

“O livro tem de ser absolutamente original, absolutamente perfeito. Por isso é que, entre outras coisas, lhe resulta impossível começá-lo. Assim que se lhe ocorre uma idéia, se encarrega de impugná-la. Lembra-se de que Dostoievski a usou, ou Hamsun, ou algum outro autor.” “E, por isso, no lugar de escrever seu livro, lê um autor atrás do outro para se assegurar de que não vai pisar em sua propriedade particular.” “Esquecendo-se de que não escreveu um só capítulo, fala deles com ar de superioridade”

“É como uma máquina que vomita jornais, milhões e bilhões e trilhões deles a cada dia”

“Um bom revisor de diário não tem ambições, nem orgulho, nem mau humor.” “está no mundo mas não é dele. Só existe pros domingos.”

“Para o cavalariço, cujo dever é varrer o esterco, o terror supremo é a possibilidade de um mundo sem cavalos.”

“Como haveria podido prever, na América, com todos os rojões que te põem no cu pra te dar ânimo e valor, que a posição ideal pra um homem do meu temperamento era buscar erros de ortografia?” “A bandeira sempre ondula a meia altura.”

“Se não pode encontrar um hotel perto dum cinema, escolhe um perto do cemitério, vem a ser o mesmo. Sobretudo, não se desespere.”

Pré-II Guerra

“Requer mais concentração detectar a falta de uma vírgula que compreender a filosofia de Nietzsche”

“essa expressão de última hora com que se pretende comunicar tantas coisas, mas que é só uma máscara desfigurada por um sorriso vazio”

“a fisionomia humana das ruas”

“Não há nada como uma briga de bar”

Camisinhas da época feitas de pele de peixe.

“Así es como se conoce la gente en París: amistades genitourinarias.”

“Whitman. O primeiro poeta e o último.” “Goethe foi presunçoso em comparação.” “Goethe é o fim de algo, Whitman é um começo.”

“Mais obscena que nada é a inércia.”

“…é quando corro gozoso até os grandes e imperfeitos, sua confusão me alimenta, sua tartamudez é música divina para meus ouvidos.”

“Que haja mais oceanos, mais cataclismos, mais guerras, mais holocaustos. (…) um mundo que produza êxtase [Rafaéis] e não peidos secos. Creio que mais que nunca tem-se de procurar conseguir um livro ainda que só tenha uma grande página: temos de buscar fragmentos, lascas, unhas dos pés, qualquer coisa”

[ARQUIVO] TRISTES TRÓPICOS — Lévi-Strauss (versão espanhola—trechos traduzidos por mim)

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

Rousseau considerado como o pai da Antropologia.

“os compassos do estudo nº 3 do opus 10 de Chopin.”

“Nada nos pode consolar quando pensamos detidamente” Pascal

“Odeio a viagem e os exploradores.”

“Uma recordação tão insignificante, merece ser registrada no papel?”

George Dumas, o mestre de Lévi-Strauss. Fundou a USP.

Fez cruzeiros dos mais luxuosos e travessias marítimas das mais penosas! Imagine-se 3 meses sem higiene… “sonho hidroterápico”

Não sabia ou me esquecera de que era judeu.

Inferno na Martinica. Evadiu clandestinamente da França no começo dos 40 para escapar dos alemães.

Bahia, “uma igreja para cada dia do ano”.

Mendigos “preferiam uma foto que jamais veriam” a que se os desse dinheiro. Foi preso pelos brancos por isso.

Em Santos, mais inconvenientes burocráticos.

Achava a alma do funcionário brasileiro corrupto repleta de Voltaire e Anatole France!

“embarquei para Porto Rico num bananeiro sueco”

“Compreendo a paixão, a loucura, o engano dos relatos de viagem.” Sobre o fetiche dos fazedores-de-mala.

“De aquí a unos cientos de años, en este mismo lugar, otro viajero tán desesperado como yo llorará la desaparición de lo que yo hubiera podido ver y no he visto.”

“Penso no Brasil como no cheiro de algo queimando, por causa da homofonia entre os vocábulos ‘Brésil’ e ‘grésiller’.”

Amigo de pintores com influência diplomática.

“Dizem que escrevo sem estilo! Por acaso Balzac tinha estilo?”

“Cinco anos na Sorbonne se reduziam à aprendizagem dessa ginástica [retórica] cujos perigos, não obstante, são manifestos.”

Complicações parecidas com as minhas na hora de se tornar professor.

“Ao contrário [das carreiras de medicina e direito], em letras e ciências, as saídas habituais: magistério, investigação e certas carreiras imprecisas, são de outra natureza. O estudante que as elege não diz adeus ao universo infantil, mas bem se apega a ele.” “O magistério não é por acaso o único meio que se oferece aos adultos para permanecer na escola?” “Uma reação quase conventual o leva a dedicar-se temporária ou duradouramente ao estudo” “su compromiso es una manera más de permanecer desligados.” Para ele, a etnografia seria o elo perdido. “desapego crônico” “ficará psicologicamente mutilado” “Como a matemática ou a música, a etnografia constitui uma dessas raras vocações autênticas.”

“Quanto à corrente de pensamento que vem se expandindo com o existencialismo, me parecia o contrário de uma reflexão válida pela complacência que manifesta em relação às ilusões da subjetividade.” “modista” “Em lugar de encerrar com a metafísica, a fenomenologia e o existencialismo introduziam dois métodos para conceder-lhe um álibi.”

“no Brasil, onde os professores da Universidade esperavam que eu contribuísse com o ensino de uma sociologia durkheimianas, à que os havia levado a tradição positivista”

“50km de rota terrestre podem dar a impressão de uma mudança de planeta, mas 5000km de oceano apresentam uma face imutável.”

“Mas para a noite, mas mesclas não têm limite, pois ela inaugura um espetáculo fantasmagórico: o céu passa do rosado ao verde; é porque não vi que certas nuvens se tornaram vermelho vivo que, por contraste, fazem aparecer verde um céu que era completamente rosado.”

SOBRE O NOVO MUNDO: “La humanidad nunca conoció una prueba tán desgarrante y jamás conocerá otra igual, a menos que alguna vez se revele algún planeta, a millones de kilómetros de distancia, habitado por seres pensantes.”

“tiburrones (en portugués tubarão)”

“el sol era tán ardente que la tripulación [de Colón] creyó que iba a ser quemada viva.” Colombo relata ter visto três sereias no Caribe. Tempos em que chamavam algodoeiras de “árvore de ovelhas”!

“Los que declaran que Nueva York es fea son tán sólo víctimas de una ilusión de la percepción.”

71-2: detalhes da colônia francesa no Rio (o católico—depois convertido calvinista—Villegaignon)

Termos de origem francesa: tamanduá, mandioca, jaguar, sagouin (sagüim), caimã, acajou (acaju), etc.

A índia que trocou um lôro por um canhão.

“Quanto mais baixos [na altura das moradias] mais altos [ricos] são os habitantes, no Rio de Janeiro”

Sobre as chuvas de verão paulistas. “Ytu”, “Campiñas” “cobina verdegueante y más aristocrática de Pacaembú.”

“el criminólogo era un dentista que, como sistema de identificación para la policía judicial, había introducido el vaciado de las mandíbulas en lugar de las impresiones digitales.”

“Compartir con los demás una teoría conocida equivalía a llevar un vestido ya visto; se exponían al ridículo.”

93: o puxa-saquismo aluno-professor

Goyaz

“otras asociaciones maléficas: pescado y carne, mango con bebida alcohólica o banana con leche.”

“capitán del matorral”

113: o distrito federal. Confunde com Goiânia! “empresa en el desierto”

“Lo que me espanta de Asia es la imagen de nuestro futuro, que ella anticipa.”

A única guloseima do sertão, a rapadura.

165: Lewis Carroll e o semblante de naipes nas vestimentas indígenas

187: anúncio de “cruzeiro pantaneiro” em francês

“jacarés—cocodrilos inofensivos”

Guiaba = Cuiabá

O açougueiro que queria ir ao circo… “la carne de sol, menos deleitosa que la carne de vento”

Vê os caminhoneiros abnegados com admiração.

Capoeira também é um tipo de vegetação.

O Estado dentro do Estado do garimpo ilegal de diamantes.

197: poesia sertaneja

Jibóia é “boa”.

Bororo, presos entre as formas de peixe e arara.

Índios, como crianças, vêem-se fascinados por armações de óculos.

1000 réis = 1 franco

“Nesse momento, não é raro passar de um máximo diurno de 40º C a um mínimo noturno de 8 ou 10º.”

Abelhas são também conhecidas como “lambe-olhos”, porque o suor das têmporas as atrai. 13 diferentes espécies de mel: é uma matéria-prima tão forte que o ideal seria misturá-la com água para o consumo. “os índios—que tomam a vibração característica de uma linha telegráfica como um enxame de abelhas selvagens em atividade.”

“aún en el cine mudo, se lo tomaría por carioca.”

“Después de ver el esplendor de las mansiones bororo, apenas puede creerse la indigencia en que viven las nambiquara.” Homens de 1,60m, mulheres de 1,50m.

Um tom “arenoso” nas mulheres que é “extremamente sedutor”.

“Los nambiquara duermen en el suelo y desnudos.”

A índia de 3 anos que as crianças nambí queriam casar com Claude!

“los padres de un niño no detestado no pueden participar de la vida colectiva.” “el empleo de los nombres propios está prohibido entre ellos” Cavaignac, o raro indígena barbudo.

“se dois cachorros ou pássaros familiares copulam, todo mundo se detém e contempla a operação com uma atenção fascinada”

“no son raras las parejas sin hijos” E, na dita “sociedade natural”, o aborto é assíduo.

“los huevos de gallina no se consumen”

Habitantes danadinhos, sempre com zombarias sexuais. Porém, fazem controle de natalidade, o que aqui só pode querer dizer abstinência: há inclusive a proibição do sexo no casamento por até três anos depois de uma gestação.

“Así, resultaba difícil vivir indiferente frente al espectáculo que ofrecían una o dos lindas muchachas que se revolcaban en la arena, desnudas como gusanos, y se enroscaban a mis pies riendo.”

“durante 7 meses do ano falta mandioca”

“Los nambiquara sólo tienen una palabra para decir lindo y joven, y otra para decir feo y viejo.”

“Comer lagosta” é uma atitude efeminada.

Impressionante como toda sociedade tem um conhecimento musical, e de como produzir instrumentos. “Los aires que se tocan en los octavinos se destacaban por un cromatismo y variaciones de ritmo que me parecían de un parentesco asombroso con ciertos pasajes de la Consagración de la primavera, sobre todo las modulaciones de las maderas en la parte titulada ‘Acción ritual de los antepasados’.”

“Sua recusa em tomar banho não só faz com que se lhe forme uma capa de pó e de cinzas sobre a pele e a cabeleira, como também que fiquem cobertos de pedaços podres de carne e peixe, que agregam seu odor ao do suor acre, fazendo insuportável sua aproximação. (…) não cessam de ter gazes” outro etnógrafo—K. Oberg

“Um nambiquara testemunha sua antipatia tomando seu pênis com as duas mãos e apontando com ele para seu adversário.”

“Nunca se empregam as flechas envenenadas com curare, de uso corrente na caça: o ferido as retiraria antes que o veneno tivera tempo de se difundir.”

“El jefe debe ser buen cantor y buen bailarín, alegre y dicharachero, siempre dispuesto a distraer a la banda y a romper la monotonía de la vida cotidiana.” “Só o chefe pode ter várias mulheres.”

Relações homoeróticas: tamindige kihandige. “Os participantes não se retiram ao matagal como os adultos de sexos opostos.” “mirada divertida de los vecinos” Permissão exclusiva entre cunhados (primos cruzados).

lobisomem: duende-lobo

Claude Lévi-Strauss descobriu uma tribo inteira nos rincões do Pantanal.

“prefiro a montanha ao mar”—mas não tão alta—2000m.

Com Lucinda, uma macaquinha que se prendia a seu pé esquerdo e o fazia coxear.

“Temos que acrescentar que os nambiquara são fumantes inveterados”

Grilos roedores de tecidos na baixa Amazônia! Roem apenas a parte superficial do couro: deixam os cintos e sapatos brancos.

“Abaitara, apesar de seus 30 ou 35 anos, estava perdidamente cativado pela sua prometida de 2 anos, quem lhe parecia uma esposa de acordo com seus sentimentos.”

Os tupi-kawaíb são homofóbicos.

“Después de la Consagración evocada por las flautas nambiquara, parecía oír una versión exótica de Bodas”

“Em 1938 a borracha valia 50x menos que seu próprio preço do final do grande boom”

Os seringueiros são munidos com uma calibre 44’!

E nos últimos dias dos 5 anos embrenhado no Brasil tinha Chopin torturando-o a cabeça…

“Que sería hoy de Occidente si la tentativa de unión entre el mundo mediterráneo y la India hubiera tenido un éxito durable?” Crítico do Islã, que destruiria todos os monumentos históricos anteriores a si. “la escultura está prohibida, la música es clandestina, la pintura es enseñada como un arte de recreación.” Paquistão muçulmano. Mais um francês islamofóbico? “Napoleão, esse Maomé do Ocidente” “[O Islã] passa o ferrolho no seio materno” O Cristianismo, que é teoricamente a síntese do Islamismo e do Budismo, por ironia histórica veio antes do primeiro.

GLOSSÁRIO (espanhol):

corrosol: graviola

hormigón: concreto

poroto: feijão

seno: no -bojo- de

[ARQUIVO] VARGSMAL — Varg Vikernes [em espanhol-traduzido pelo autor]

Originalmente publicado em 29 de setembro de 2011

“Todos estamos de acordo que um judeu que seja nazista é um judeu com um defeito espiritual, e que da mesma maneira um alemão que seja cristão é alguém com um defeito espiritual.” “O racismo alemão não é medo do estrangeiro, nem ódio, ou um complexo de inferioridade. É um signo de saúde espiritual e amor por si mesmo e por sua própria raça!”

“Hoje é mais difícil morrer que viver.” “Viver superprotegido é igual a abandonar suas próprias habilidades e perder, assim, por falta de uso, a resistência quando o perigo aparecer.” “Somos uma gente agonizante.”

“crença pagã Asatru” “paganismo wotânico”

“são as sagas familiares aquilo de que as crianças precisam para se desenvolverem de forma construtiva.” “Porque se nosso pai e mãe nada significam para nós, por que nós que somos seus rebentos deveríamos ser algo melhor?” “Algumas tradições dizem que se uma mulher grávida sonha com um morto, é porque o morto deseja nascer de novo a partir dela.”

“Eu me desgosto quando o Valhalla é comparado ao ‘paraíso’, como se fosse ‘o paraíso do pagão’. Esta é uma coisa sem sentido. No salão do pai-de-todos, come-se, bebe-se e se luta todos os dias.”

“São os jovens adolescentes quem menos tem temor de entrar em uma briga. Os mais velhos são mais covardes.”

As igrejas cristãs da Noruega eram construídas em lugares considerados sagrados para a arcaica religião pagã. Profanam-se assim as tumbas dos mortos. Seus parentes mais próximos seriam cristãos. Sobre a felicidade de ter podido escolher o próprio corpo de valores.

“judeu é sinônimo de misantropia”

“Os indivíduos morrem, mas um povo pode viver para sempre”

Noruega: os hiperbóreos insulares. Nor-way; tão simples!


Tyr: deus da guerra

Fenris, lobo que causava muitos problemas aos deuses e deusas de Asgard, foi detido por Thor em uma ilha, até que começasse o Ragnarok. Fenris representa a irracionalidade da própria humanidade, e na Batalha Final ferirá mortalmente Odin, causando, portanto, sua auto-destruição.

Por incrível que pareça, o modo de vida viking é uma suavização da era “Tyrânica” de força bruta, em que passa a imperar um maior coleguismo e a inteligência. Ética viking: não se deve golpear um homem que está caído ou muito mal.

PERFEITO EXEMPLO DO ESTRUTURALISMO MITOLÓGICO: “Depois do próximo Ragnarok se esquecerão dos deuses de hoje, e haverá novos: Odin será substituído Por Vidarr e Vali, Thor por Modi e Magni, Freyja por Hnoss, etc. Este é um processo eterno, e é realmente só outra opção de nome para o mesmo deus, pois os mesmos deuses vivem em seus filhos, do mesmo modo que ocorre conosco as pessoas.”


“Eu estou vivo hoje porque reagi com ira no lugar de medo quando ouvi que o comunista-homossexual me mataria! Se eu tivesse reagido com temor, então com toda sinceridade teria sido um covarde, e um covarde deve morrer.”

“Nós vivemos muitas vidas antes que o mundo decaia novamente.”


O DIA DA GUERRA:

terça-feira martes Tuesday Tysdag


quarta-feira Odin-Wotan

quinta-feira Thor


Era costume banhar-se apenas aos sábados, e lavar sua casa junto.


“Nos tempos vikings nós éramos tão altos como nós somos agora, enquanto que estávamos na fase mais baixa para a estatura das pessoas durante 1700-1800.”

“A Dinamarca está separada da Noruega e da Suécia por um oceano, e é completamente diferente destes dois em sua natureza.” Os noruegueses sempre foram mais camponeses. Por outro lado, as outras duas etnias viraram piratas exploradores do mar. “Dinamarca era nosso escudo contra o poder do judeu” “[Suecos,] agora simples covardes.” Islândia, o quarto povo. “a bandeira da Dinamarca é a mais antiga do mundo” “Ter uma cruz (associada ao cristianismo) na bandeira se converte em um bloqueio (mental) para entrar no reino pagão.”

“Nós sabemos que foi Leif Erikson quem descobriu a América” Ano 1000 “Leif” quer dizer “provido de sorte” no dialeto local.

“Zaratustra, que estabeleceu o reino Persa, era branco-ário”

DETALHES INSOSSOS DE MARX: “Duas das filhas de Marx cometeram suicídio e morreram porque Marx não quis gastar o dinheiro para os remédios de que elas necessitavam.”

“simplesmente outro azulejo na parede judaica”

“Quando uma mãe dá a luz a um filho com um homem de outra raça, a possibilidade de dano cerebral aumenta a 20% devido à forma da pélvis.” HAHAHA

“nós cagamos castanho!”

Segundo os cálculos de Vikernes à p. 37, os números do Holocausto são supervalorizados. Não resta dúvida de que é um covarde sucessor do Mein Kampf de 1997.

41: a baboseira Illuminati de sempre

“Eu, um jovem inteligente, saudável (modesto?) sou etiquetado como um ‘Satânica’ e ‘adorador do diabo’, tentam me retratar, além disso, como débil mental e louco.”

48: nomenclaturas do black metal

“Há muitas pessoas que me detestam fortemente. Por quê? Porque eu sou orgulhoso e arrogante como meus antepassados! Hoje a pessoa deve ser modesta e humilde” “Todos nós pagãos temos razões para sentirmo-nos bem com nós mesmos e melhor que todos os outros, pois nós somos bons.”

“Eu sou um loiro natural, tenho olhos azul-claro, e sempre vejo as fotos no jornal em que os quadros me retratam tão sombrio que neles parecia que tinha cabelo preto ou castanho escuro e olhos escuros. Um canal de TV sempre mostra minha cara assim para me fazer parecer um ‘horrível satanista.” “eu só tingi meu cabelo de preto uma vez e nunca mais.” “Eu não apóio esses jovens magricelas que usam jaquetas de couro preto apertadas. Não posso suportar os ‘adoradores do diabo’, eles simplesmente são como os judeus-cristãos. Eu não apóio o chamado ‘black metal’, posto que o único metal que eu ouço é na verdade a música Arya norueguesa, como Darkthrone [basicamente crust punk!] ou minha própria música Burzum, e não suporto ser comparado com outros inferiores.”

“Já que é para fantasiar, poderia dizer que se alguma vez conseguir ir ao ‘céu’, estarei à frente de um exército que romperá o crânio de ‘deus’ e seus débeis anjos.”

Com 3 anos já pulava a cerca da escola. “A escola primária tomou minha vida e alegria de viver.” “O ginásio (secundário) é a mais intensa fase da Judificação dos escolares! A Universidade é um passo além dessa intensa Judificação, mas o ginásio o deixará louco, bastante louco para destruir o resto da saúde na alma de um estudante.” “Acusam os ‘nazis’ de terem colocado ciganos e judeus em campos de concentração, mas hoje o Sistema judeu põe todas as crianças neles!” Aos 6, seu pai o ensinou a empunhar armas brancas.

“As pessoas são como os livros, e o mundo é como uma biblioteca.” Ler livros inteiros, e saber que um bom livro o levará a uma cadeia de bons livros…

“Comunicação sexual um só deveria ter com um livro em especial.” “tentar ter só uma parceira estável.” Sodomia como doentia.

60: Os gêneros—boa dissertação. Bissexualidade como fenômeno estritamente feminino. O atrair-se pela beleza, e não pela inteligência: “Os homens mais inteligentes pensam que as mulheres mais bonitas são igualmente inteligentes, senão mais inteligentes, então aquelas que não o são tanto necessitam parecer muito inteligentes para atrair um companheiro.” A mulher superior—exatamente!—é aquela que deixa o homem brilhar mais, para, a despeito, reinar verdadeiramente. Não compita, criatura! Ou antes, não do jeito errado…

63: sobre as gangues e brigas de bairro

Para ele, “Europa”, como colcha de retalhos, não faz sentido. Só a Germânia e seus galhos… E a despeito disso reside na “judeizada” e “negrificada” França!

A favor da legalização de todas as drogas—atalho para varrer a escória. Mesmo Coca e café seriam “drogas”. “É uma rotina diária para as mulheres usar creme hidratante na pele, o que diminui a habilidade da mesma de reter e produzir umidade por si mesma; a pasta de dente debilita a resistência da boca contra as bactérias que produzem cáries, e a escova de dentes, pela abrasão, pode debilitar o esmalte e outras partes.” “Nós também emitimos um odor natural próprio que necessita ser apreciado para não desaparecer.”

“A paz converteu o homem em um ávido usuário da prostituta, com um marcado complexo de inferioridade!” “A nós que não somos clientes da puta, os psicanalistas nos vêem como se estivéssemos cheios de complexos de inferioridade, como psicopatas e loucos, ou pelo menos explicarão nossas idéias e condutas como de pessoas mentalmente enfermas, só porque nós temos o instinto de um homem saudável.”

69: caminho para o supra-homem: treinar. 20 minutos de alongamentos diários e serás um bailarino! “uma carreira rápido no bosque um par de vezes por semana” “Para estar de bom humor, abandonar o café e a comida pouco saudável”


GLOSSÁRIO (ESPANHOL):

diana: alvo

gira: cruzada

[ARQUIVO] A ESTRADA ASSASSINA (Tradução de The Killing Road do Megadeth)

De novo nos cercamos ao palco

Na velocidade do som nós vamos

Alimentando o ímpeto do povo

O gato grande deixou a sua jaula

De novo no ônibus

Pra pegar outro avião

Esse comportamento é doentio

Mas fazemos isso pela fama!

Eu perdi minha cabeça, eu perdi meu dinheiro (!?)

Eu perdi minha vida para a estrada assassina

A estrada nunca vai acabar

Sempre começa de novo

Outro show envolve a tensão

Outro grande amigo perdido

Sem expressão, como a neve

Não tem nada de mais na estrada

É só mais um esforço

É só que é muito comprida, isso é tudo

5 de fevereiro de 2011

AS AVENTURAS DE TOM SAWYER

PRIMEIRO CAPÍTULO

“old fools is the biggest fools there is. Can’t learn an old dog new tricks, as the saying is.”

“tolo velho é os mais tolos que tem. Não pode cachorro velho aprender truque novo, como diz o ditado.”

“Spare the rod and spile the child, as the Good Book says.”

“Deixa pra lá’ vara e’straga’ criança, como diz na Bíblia.”

“ele é o garoto da minha falecida irmã, tadinho, não tenho coragem de surrá-lo. Toda vez que deixo barato, minha consciência dói, e toda vez que o castigo meu coração só falta espedaçar. Seja como for, homem que nasceu de mulher vive pouco e cheio de problema e aflição, como diz o Livro Sagrado, e assim creio.”

“É mui difícil fazer ele trabalhar sábado, quando todo outro garoto dá de descanso.”

“Em 2 minutos, ou talvez menos, ele esqueceu todos os seus problemas. Não porque seus problemas fossem agora um iota a menos em carga e amargura, como são os problemas para os homens, mas porque outro interesse, forte e novo, obnubilou-os de sua mente por ora – como as desgraças dos homens são olvidadas na excitação de novas empreitadas.”

“Ele se sentiu como um astrônomo se sente quando descobre um planeta novo – sem dúvida, tanto quanto prazeres podem ser puros, profundos e poderosos, a vantagem estava com o garoto agora, não com o astrônomo!”

“Alguém novo de qualquer idade e qualquer sexo era a curiosidade mais incrível na pobre e arruinada cidadezinha de St. Petersburg.”

“– Posso te bater!

– Vamos ver se tem coragem!

– Posso fazer sim.

– Não, não tem coragem.

– Posso!

– Não pode!

– Posso.

– Não!

Uma pausa desconfortável. Então Tom abriu o bico:

– Qual seu nome?

– Não é da sua conta, talvez.

– Hmm… Tá bom, mas vou fazer ser.

– Então por que não faz?

– Se é o que você quer, tá feito.

– Ó, muito, muito, muito. Como despertou meu interesse.

– Ah, se acha muito esperto, né? Podia te derrubar com uma mão amarrada nas costas, se eu quiser.

– Então por que não derruba, você diz que pode.

– E eu vou, se você vacilar.

– Ah, não é o primeiro nem o último que canta de galo.

– Espertinho! Se acha, né, né não? Vai pa’ casa do chapéu, fi’.

– Chapéu. Tenta amassar esse ‘chapéu’ se você é o cara. Eu te desafio. Eu te desafio a amassar o meu chapéu. Nem é tocar em mim. O primeiro que tentar vai bancar o trouxa.

– Você é um mentiroso!

– E você outro.

– Você chama pra briga mas na hora amarela.

– Vai ver se tô na esquina.

– Vem cá – se você me dá mais uma dessas respostas vou tacar uma pedra na tua cabeça!

– Ah, sim, claro.

– Eu vou.

– Então… Taca, fazendo favor. Pra que você fica dizendo tudo que quer fazer? Por que não faz em vez? É porque é menino medroso.

– Não sou medroso.

– É.

– Não.

– Você é.”

“– Dá o fora!

– Vai você primeiro!

– Não.

– Eu também não.”

“– Você é um covarde e um pirralho. Vou dar o recado pro meu irmão mais velho. Ele pode te arrebentar com o mindinho. E eu vou falar pra ele fazer isso.

– E eu com teu irmão mais velho, cria? Meu irmão é maior que o teu. Ele pode atirar o teu por cima daquela cerca ali. (Ambos os irmãos eram imaginários.)

– Tá mentindo.

– Só porque você diz que tô mentindo não quer dizer que tô mentindo.

Tom riscou uma linha na poeira com seu dedão, e disse:

– Eu te desafio a pisar nessa linha. Se pisar vou te moer de pancada até ficar no chão. É a mesma coisa que tentar roubar uma ovelha dum rebanho. Vai pagar.

O novo menino logo pisou a linha, e retrucou:

– Agora que você disse que ia fazer, mas ver você fazer.

– Não chega perto, truta, tô avisando.

– Você já avisou mil vezes. Por que não pára de avisar?

– Desafiou! Faço até por 2 centavos, fi’.

O novo menino pegou dois moedões do bolso e os segurou em provocação. Tom deu um tapa e os derrubou no chão. Num instante os dois garotos rolavam agarrados na terra, impossíveis de desembolar, como dois gatos. E por bons 60 segundos cada um puxou e torceu o cabelo do outro, as roupas do outro, socou, arranhou o nariz, e cada um se sujou com glória o mais que pôde. A confusão estava armada, já não se via mais nada na poeira. Depois, a silhueta de Tom surgiu primeiro do bololô, triunfante, montado no novo garoto. Tom é quem socava.

– Grita ‘desisto’!

O menino se limitava a tentar se livrar de Tom. Já chorava – principalmente de raiva.

– Grita ‘desisto’! – e continuava com seus socos.

Finalmente o estranho cedeu e gritou seu DESISTO. Tom deixou ele se soltar e se erguer e disse:

– Aprendeu a lição. Melhor prestar atenção com quem vacila na próxima, fi’.

O novo menino saiu sacudindo e batendo a roupa tentando deixá-las o mais brancas, gemendo, convulsivo, seu fim de choro, fungando e olhando para trás de vez em quando e balançando a cabeça para ameaçar Tom: dá próxima, você tá ferrado! Tom respondeu com risadas, e se pavoneou todo. Assim que Tom virou as costas levou uma pedrada do garoto, acertando-o entre os ombros. O menino recuou num átimo e correu feito um antílope. Tom o perseguiu até em casa, e descobriu onde morava. Espreitou perto dos portões um tempo, como que desafiando o outro a sair, se ousasse. Mas o menino só estava interessado em fazer-lhe caretas pela janela. Já havia desistido. Por fim apareceu a mãe do rival, chamando Tom de mau, vicioso, criança vulgar, e ordenou que desse no pé. Assim Tom fez, mas dizendo que estava ansioso para agarrar de novo seu algoz.

Ele chegou em casa bem tarde aquela noite, e quando escalou com cuidado até a janela descobriu uma embocada, isto é, sua tia, esperando-o. E quando ela notou o estado de suas roupas se decidiu a tornar o sábado festivo do garoto em cativeiro e trabalho duro, sem falta.

SEGUNDO CAPÍTULO

“– Ela! Ela nunca trisca em ninguém – nem dar um cascudo na cabeça com aquele dedal – e quem é que liga, tô curioso pra saber. Ela fala feio, mas fala não ofende – pelo menos se ela não fala chorando. Jim, você vai ver uma maravilha. As melhores bolinhas de gude!

Jim começou a ceder.”

“Existem gentlemen ricos na Inglaterra que dirigem carros de 4 cavalos de 20 a 30 milhas diariamente, no verão, em estradas reservadas para a elite. Ricos, porque o privilégio lhes custa um bom dinheiro! Mas pense: se lhes fosse oferecido ordenado pelo serviço, isso se tornaria um trabalho, coisa de lacaio, e dele abdicariam.”

TERCEIRO CAPÍTULO

“ele se sentou num tronco à beira do rio e contemplou a monótona vastidão da corrente, desejando, quase inconscientemente, na verdade, se possível, se afogar e ali ficar, assim sem mais nem menos, para não necessitar passar pelas rotinas incessantes programadas pela natureza.”

QUARTO CAPÍTULO

“Tom gastou todas as suas energias para decorar 5 versos, e escolheu parte do Sermão da Montanha, porque não encontrou versos mais curtos. Depois de meia hora Tom tinha uma vaga idéia geral de sua lição, mas nada mais; sua mente atravessava todo o campo do pensamento humano, e suas mãos se encontravam ocupadas em distrações recreativas. Mary pegou seu livro para ouvir-lhe a recitação, e Tom tentou percorrer o caminho de volta em meio à neblina:

– Abençados são os-ã-ã—

– Pobres-

– Isso – pobres; abençoados são os pobres em espírito, pois eles-eles—

– É deles…

– Pois é deles. Abençoados são os pobres em espírito, pois é deles o reino dos céus. Abençados são aqueles que lamentam, porque eles-eles—

– De-

– Porque eles-ã-ã—

– D, E, V,…

– Porque eles D, E – Ai, eu não sei o que é!

– Devem!

– Ah, devem! Porque eles devem – porque eles devem-ã-ã-devem… lamentar-ãã-ãã-abençoados são aqueles que devem—aqueles que—ãã—aqueles que devem lamentar, porque eles devem—ãã—devem o quê?! Por que você não me diz, Mary? – pra que tanta crueldade?

– Ah, Tom, pobre Tom cabeça-de-vento… Não faço por mal. Não é do meu feitio. Você deve se concentrar e tentar aprender outra vez. Não se desencoraje, Tom, você vai conseguir! – e se conseguir, vou dar-lhe um presente. Um presente que você irá gostar. Tudo bem, Tom, Tom, bom menino.

– Tá bom, Mary, mas o que é então, me fala o que é.

– Nada de mais, Tom. Só que quando digo que você irá gostar, saiba que é a verdade.

– Aposto que sim, Mary, eu acredito. Eu vou tentar de novo!

E Tom “tentou de novo” – e sob a dupla pressão da curiosidade e da esperança do ganho ele tentou com tanto espírito que obteve um grande sucesso. Mary deu-lhe uma Barlow¹ novinha em folha, vendida a 12 centavos e meio. As convulsões de alegria de Tom sacudiram seu sistema até seus fundamentos. (…) É claro que essa faca não tinha fio nenhum, mas “com certeza era” uma Barlow, e havia uma grandeza inconcebível nisso – embora fosse um mistério essa noção dos meninos ocidentais de que esta faca pudesse ser falsificada só para seu descontentamento ao arranjar uma Barlow que não fosse uma Barlow… Foi e deverá continuar sendo eternamente um mistério.”

¹ Uma faca negra famosa à época, uma das primeiras de seu tipo: uma faca de bolso, que hoje chamaríamos de canivete, pois a lâmina era retrátil em relação ao cabo de madeira.

“ele achava que cachos eram algo afeminado, e seus próprios cachos enchiam-no de amargura”

“Ele se encontrava tão desconfortável quanto aparentava estar. Havia qualquer coisa que tornava rapazes rígidos em trajes completos e tão asseados. Ele desejava que Mary esquecesse seus sapatos, mas sabia que era um desejo destinado ao fracasso; pois ela os ensebou bem-ensebados, como era o costume, e os retirou do guarda-roupa. Ele perdeu as estribeiras e gritou que sempre era forçado a fazer o que não queria.”

“e as três crianças partiram para a missa de domingo – uma cerimônia que Tom odiava com todo o coração; já Sid e Mary adoravam a ocasião.

As horas do Sabá iam de 9 às 10:30. E depois o serviço da igreja. Duas das crianças sempre permaneciam para o sermão voluntariamente, e os outros também permaneciam – por razões de força maior.”

“Todas as classes de Tom tinham o mesmo padrão – agitadas, barulhentas, problemáticas. Quando a turma recitava as lições, nenhum aluno sabia seus versos direito, tinha que recebê-los soprados.”

“Quantos de meus leitores teriam a indústria e a aplicação para memorizar 2 mil versos, ainda que fosse por um exemplar da Bíblia de Doré?¹ E não obstante assim foi que Mary ganhou duas Bíblias de Doré – um paciente trabalho de 2 anos – sem falar no garoto de ascendência alemã que ganhou quatro ou cinco delas! Uma vez ele recitou 3 mil versos sem parar; mas o esforço custou a suas faculdades mentais, e ele era pouco mais que um rapaz idiota desse dia em diante – uma calamidade para a escola, uma vez que, em ocasiões especiais, diante de grandes públicos, o superintendente (como Tom mesmo falava) invariavelmente chamava o mesmo rapaz para ‘exercitar-se’.”

¹ Gustave Doré (1833-1883) não só ilustrou várias passagens da Bíblia como famosamente passagens da Divina Comédia de Dante.

“Quando um superintendente de missa de domingo faz sua costumeira pregação, um livro de salmos à mão é uma necessidade incontornável, igual escrituras musicais para um cantor que desempenhará um concerto-solo. Se bem que por que isto é assim é que não sabemos: nem o solista nem o superintendente fazem uso, realmente, dos papéis a sua frente.”

“O homem de meia-idade revelou-se um personagem prodigioso – nada menos que o juiz do condado – a mais augusta autoridade que essas crianças já haviam contemplado na vida – e as crianças se perguntavam de que ele era feito – simultaneamente queriam que ele esbravejasse e discursasse, mas temiam-no também ao máximo. Ele era de Constantinopla, a 12 milhas dali – é o quanto ele tinha viajado – uma enormidade, percorrendo o mundo – esses mesmos olhos já se tinham posto sobre a côrte do condado – que, diziam, tinha um telhado de metal.”

“O bibliotecário ‘se exibia a todos’ – correndo de lá pra cá com vários livros em punho, aproveitando-se de cada burburinho e algazarra, que autoridades-insetos sempre acolhiam como bom sinal. As jovens professorinhas ‘se exibiam a todos’, inclinando-se com meiguice sobre alunos atrasados para compor as filas, erguendo dedinhos deliciosamente advertidores aos menininhos mais malvadinhos e acarinhando os menininhos mais bonzinhos na mesma medida, afetuosamente. Os jovens professorzinhos ‘se exibiam a todos’, com pequenas broncas e outras exibições de autoridade, manifestações de atenção em disciplinar qualquer polegada em seu entorno. E, sobretudo, professorzinhos de ambos os sexos sempre achavam que fazer à biblioteca, ou então perto do púlpito. Eram sempre emergências e que necessitavam ser refeitas uma, duas vezes até. Havia muito apuro nessas providências candentes. As menininhas ‘se exibiam a todos’ de várias formas, e os menininhos ‘se exibiam a todos’ com tamanha diligência que o ar parecia mais carregado do que nunca de papéis e brochuras importantes e dos sons de disputas controladas, limitadas a murmúrios. E acima de tudo o mais o grande homem sentado e a emanar um majestoso e judicial sorriso para a contemplação dos presentes, aquecendo-se no sol de sua própria importância – porque sem dúvida ele também estava ‘se exibindo a todos’.”

“E agora, quando não havia mais esperanças, Tom Sawyer se pôs à frente com nove bilhetes amarelos, novo vermelhos e dez azuis, e requereu sua bíblia. Foi um trovão em pleno céu aberto. Walters jamais esperava uma aplicação dessa proveniência pelos próximos dez anos. Mas não havia nem como duvidar – ali estavam todos os bilhetes certificados, e Walters os inspecionou e não encontrou nada de errado. Tom foi elevado, perfilado com o juiz e os demais vencedores, e as grandes notícias logo tomaram a vila. Foi a maior surpresa da década, tão profunda sensação causou nos moradores o novo herói, investido agora da proteção até da autoridade judicial. A escola tinha não só uma maravilha, a autoridade, mas duas para contemplar aquele domingo. Todos os meninos se mordiam de inveja – mas quem mais se angustiou foram os que se aperceberam tarde demais que contribuíram diretamente para esse esplendor odioso, trocando seus próprios cartões pela riqueza que Tom acumulara vendendo sua cal. Esses agora menosprezavam a si mesmos, como os tolos do mais capcioso ardil, da cobra no jardim que seduziu-os todos.

O prêmio foi entregue a Tom com tanta efusão quanto o superintendente era capaz de demonstrar; só faltou talvez aquela reverência ou bajulação devida a um legítimo ganhador, porque os instintos do pobre senhor adivinhavam a existência de circunstâncias misteriosas rondando a ocasião, impossíveis de resolver em tão pouco tempo. Era ilógico imaginar que esse garoto tinha registrado na cabeça duas mil linhas da sabedoria das Escrituras – uma dúzia só já parecia exceder seus limites, disso o superintendente não tinha dúvida.

Amy Lawrence era só orgulho e contentamento, e ela tentou chamar a atenção de Tom como pôde para demonstrar-lhe – Tom, todavia, nem a olhava. Ela se pôs pensativa, espantada mas introspectiva. Com os minutos foi-se pondo desconfiada. A seguir, tentava se prender a alguma hipótese pouco nobre. Observava furtivamente como quem devia entender o inexplicável focando o olhar em qualquer coisa no salão. Foi então que seu coração partiu, sentiu ciúmes, revolta, lágrimas jorraram e passou a odiar todos em volta. Tom principalmente (ela assim pensava no momento).

Tom foi apresentado ao juiz. Sua língua se encontrava travada. Seu fôlego era escasso, o ar vinha com dificuldade. Seu coração chacoalhava – parte pela grandeza do homem, parte porque ele era o pai da menina. Ele teria adorado se prostrar e adorar este homem, se fosse no escuro e ninguém pudesse ver. O juiz colocou a mão na cabeça de Tom e disse que ele era um belo dum rapazinho, perguntando em seguida seu nome. O rapazinho balbuciou, engasgou, mas conseguiu emitir:

– Tom.

– Ah, Tom não, deve ser—

– Thomas.

– Isso! Foi o que pensei, que era um nome mais longo. Mas eu ouso dizer que ele é ainda mais longo, não? Não quer dizê-lo por completo?

– Diga ao senhor seu outro nome, Thomas – disse Walters, – e diga ‘senhor’. Não esqueça das maneiras!

– Thomas Sawyer – senhor!”

“– Creio que você não se importe em contar a mim e a esta dama algumas das coisas que aprendeu. Não, tenho certeza que não se importaria! Pois temos muito orgulho de jovens que aprendem bem. É evidente que você sabe o nome dos doze discípulos, não é assim? Por que não diz, por exemplo, o nome dos dois primeiros que foram nomeados pelo Senhor?

(…) As tripas do senhor Walters deram um nó. Ele disse a si mesmo: é impossível que o garoto responda a mais simples das questões! Por que o juiz foi perguntá-lo? Assim mesmo ele se sentiu na obrigação de falar algo, e interveio:

– Responda o juiz, Thomas – nada receie!

A garganta de Tom ainda parecia arder em chamas.

– Ah, eu sei que você sabe – atalhou a dama. Que os nomes dos dois primeiros discípulos eram…

– Davi e Golias!…

Baixemos as cortinas da cortesia e da caridade sobre a continuação desta cena.”

QUINTO CAPÍTULO

“Tom não tinha cachecol. E achava que os meninos que tinham era uns esnobes.”

“Havia, há certo tempo, um coro de igreja que não era nada mal, mas esqueci onde ele ficava. Isso foi há muito tempo. Lembro apenas de soslaio, mas devia ser num país estrangeiro.”

“Nas reuniões sociais da igreja ele sempre era chamado para declamar poesia; e assim que ele terminava as madames erguiam suas mãos só para deixá-las recair sobre seus colos, depois tapavam a vista, de repente úmida, vibravam as cabecinhas, como que querendo dizer que palavras não podiam expressar o que sentiam. Tão belo, belo DEMAIS para este mundo mortal.

Depois de cantado o hino, o Reverendo Senhor Sprague se dirigia a um quadro de avisos e lia lembretes de encontros e cerimônias da comunidade e mais este e aquele jantar beneficente, até que a lista parecia que iria até o juízo final e… um costume estranho, talvez ainda corrente na América, mesmo nas cidades, subsistente nessa idade dos jornais… Muitas vezes quanto menos razões há para preservar um costume, mais difícil é se livrar dele!

O ministro então passava a rezar. Uma oração boa e generosa. Muito específica: pedia o bem da própria igreja, o bem das criancinhas da igreja, o bem das outras igrejinhas do vilarejo, o bem do vilarejo em si, o bem da prefeitura, o bem do estado, o bem dos funcionários do estado, o bem Estados Unidos da América, o bem das igrejas de todos os Estados Unidos da América, o bem do Congresso, o bem do Presidente, o bem dos funcionários do governo norte-americano, o bem dos pobres marinheiros, à mercê de tempestades marítimas, o bem de milhões oprimidos e gemendo sob a tirania dos monarcas europeus, e também dos déspotas do Oriente, o bem a todos os que têm em si a luz da razão e uma boa alma, mas que ainda não têm olhos para ver nem ouvidos para ouvir, por assim dizer; o bem dos pagãos nas ilhas mais remotas; e fechava, esta oração bem-feitinha, com uma súplica para que as palavras que ele acabava e que ainda ia acabar de dizer fossem agraciadas com o favor divino, como sementes num solo fértil, fortalecendo, devagar e com o tempo, o bem, frutificando as coisas boas deste mundo maravilhoso. Amém.”

“ele considerava acréscimos injustos e torpes. No meio da pregação uma mosca pousou na parte de trás do banco justo diante de si. Uma mosca que parecia torturar seu próprio espírito como um crente em penitência. Esfregava calmamente as patas, depois esfregando-as na cabeça, tão vigorosamente que a cabeça parecia se descolar do corpo – o fio que era o pescoço da criatura se pôs à mostra. Raspando as asas com suas patas traseiras, aplainando-as com o resto de seu corpo, parecia agora que a mosca vestia um fraque. E seguia nessa espécie de higiene individual com a tranqüilidade de quem se sabe segura. De fato a mosca estava plenamente segura. Não importa quão intenso fosse o ímpeto das mãos de Tom, se coçando para esmagar ou espantar aquela mosca, Tom acreditava que sua alma seria sumariamente destruída no caso de cometer tal ato durante o sermão.”

“O ministro não só leu toda sua exortação costumeira como seguiu, no tom monocórdio possível, auto-resolvendo um argumento tão prosaico, na continuação da leitura, que não foram poucas as cabeças que começaram a pescar – e não deixava pela mundanidade de ser um argumento envolto em fogo imorredouro e enxofre e parecia reduzir a casta dos predestinados a uma companhia tão pequena que, no fim das contas, não valia o esforço da redenção. Tom contou as páginas do sermão. Depois da igreja ele sempre sabia quantas páginas haviam no discurso, porque ele se concentrava em contá-las; mas nada do conteúdo lhe era familiar.”

“Tom olhou, e esperou. Mas estava fora de alcance. É de confessar que outros fiéis desinteressados do sermão encontraram alívio no besouro, e passaram a fitá-lo também. De repente um cachorro de rua entrou, parecendo tristonho, lerdo devido à calidez do verão, muito comportado, cansado, talvez, do repouso e preguiça do estar parado o dia todo, arfando por uma mudança de ares. Ele mesmo observou o besouro. O rabo se ergueu começou a abanar. Ele começou a avaliar o prêmio. Circundou-o. Cheirou-o de distância segura, voltou a rodeá-lo com cautela. Avalentonou-se, cheirou de mais perto. Elevou seu focinho e tentou uma captura escrupulosa do inseto, mas errou de mira. Mais uma vez, e outra, e o besouro se desviava. O cão começava a gostar do esporte. Mera presa de seu estômago a roncar com o besouro já em suas patas, continuou seus experimentos. Uma hora fatigou-se e, indiferente, parecia não ligar para o alvo, nem para os objetos em torno. Dispersou-se. Balançou a cabeça, de pouco em pouco o queixo foi caindo e encostou mesmo no besouro, que não recusou a interação. O cão ganiu, chacoalhou a cabeça e o besouro caiu várias jardas para lá. E caiu mais uma vez de costas, inofensivo. Os vizinhos humanos, espectadores do espetáculo, deram risotas de uma alegria terna e interna, muitos dos rostos, consternados em ser assim flagrados, esconderam-se atrás de leques e lenços, e Tom, Tom também ficou contente! O cão parecia um tolo, e na verdade parecia ter alguma consciência disso. Não pensem que cães são incapazes de rancor, porque ele foi para se vingar. Aproximando-se do besouro iniciou um ataque mais desconfiado que todas as investidas anteriores, pululando em derredor cobrindo todos os pontos de um círculo imaginário, ameaçando com suas grandes patas a uma polegada da criatura, tentando a captura bucal com seus dentes rangidos, balouçando a cabeça até suas orelhas se porem eretas novamente. Mas esse cão não podia persistir por muito tempo, e se distraiu outra vez. Tentou se divertir com uma mosca próxima, mas isso era demasiado pouco. Seguiu os passos duma formiga, o nariz colado no chão da igreja, bocejou, suspirou, já havia esquecido do besouro inteiramente, a ponto de simplesmente sentar nele sem querer. Agora o uivo foi mais estridente que da outra vez, pareceu denotar muita dor. O cachorro foi em direção à nave da igreja, querendo distância dali. Ganiu ainda por um tempo. Ele cruzou a passagem entre os fiéis e o altar. Depois já estava na outra nave, saiu pelas portas. Já estava bom de se espreguiçar por hoje! Sua angústia aumentava a cada passo, era essa a impressão pelo menos, e no fim ele parecia um ponto de lã no horizonte em trajetória errática, cedendo talvez à força da gravidade, cometa que se aproximava em elipse a algum corpo celeste pesado. Mas o sofredor se recompôs e se dirigiu então… para aquele que era seu dono, então ele tinha uma casa um dono! Alguns latidos tristes ainda foram ouvidos, mas logo foram abafados pela janela recém-fechada…

Nesse ponto, a audiência da igreja já está sufocando, de cara vermelha, prendendo o riso, e o sermão chegou no fundo do poço, como se o tempo tivesse parado. O sermonista notou-o e interrompeu-se por um hiato, depois dos barulhos da aventura anterior; o retorno à lide foi célere, no entanto, e não pareceu a nenhum ouvinte, por isso, mais instigante nem ao menos ter sido afetado por qualquer traço emocional, o que era desabonador. Nada o alteraria até o fim. Mesmo risotas que escapassem eram recebidas com a mesma gravidade inalterável, tanto faz se sensível às risotas ou não. Só o que se ouvia além da voz e de alguns sons da platéia, para ser franco, era o ranger dos bancaços de madeira.

(…) Tom Sawyer caminhou aquele dia para casa um pouco alegre, pensando consigo que havia no fim de contas alguma satisfação a ser retirada dos serviços divinos quando as circunstâncias fossem favoráveis.”

SEXTO CAPÍTULO

“A segunda-feira de manhã encontrou Tom Sawyer no estado mais lamentável. Segundas de manhã sempre encontravam Tom deste jeito – porque eram o vagaroso reinício dos sofrimentos escolares semanais. Geralmente ele começava o dia desejando que o sabá nunca tivesse existido – ser liberado só fazia voltar à prisão algo mais dorido e odioso.”

“De repente ele se deu conta de algo. Um de seus dentes da frente e de cima estava frouxo. Isso significava sorte. Ele começava instintivamente a gemer, o <gatilho>, como ele mesmo costumava dizer, de, quando se lhe ocorresse propício, ganhar uma causa no tribunal – até que Tom lembrou de que talvez tudo terminasse com sua tia realmente arrancando seu dente – e decerto doeria.”

“Em pouco tempo Tom estava diante do pária juvenil do vilarejo, Huckleberry Finn,¹ filho do alcóolatra local.”

¹ Novela que é a seqüência direta desta.

“Huckleberry ia e vinha de acordo com sua própria vontade. Dormia no batente das portas no tempo bom e em barris vazios quando estava úmido. Ele não tinha de ir à escola ou à igreja, nem tinha qualquer adulto por mestre ou amo; não obedecia a ninguém. Ele podia ir pescar ou nadar quando e onde escolhesse, e demorar o quanto quisesse. Ninguém o proibia de brigar tampouco. E nem o mandava ir para a cama. (…) também não tinha de tomar banho, nem vestir roupas limpas. Podia xingar e praguejar que era uma beleza. Em resumo, tudo o que fazia a vida de um menino a mais preciosa, ‘Huck’ tinha.”

“Tom cumprimentou o romântico pária:

– Olá, Huckleberry!

– Olá você, sinta-se servido.

– O que é isso que você tem aí?

– Gato morto.

– Deixa eu ver, Huck. Ó, ele tá bem duro. Onde você achou?

– Comprei dum garoto.

– Com o quê?

– Dei um bilhete azul e uma bexiga que consegui no açougue.

– Onde você achou o bilhete azul?

– Comprei do Ben Rogers faz duas semanas por um bastão de arco de ginástica.

– Fala… o que dá pra fazer com gatos mortos, Huck?

– O que dá pra fazer? Espremer verruga.

– Não! Sério? Eu sei uma coisa melhor.

– Duvido. O que é?

– Ora, água de gambá!

– Água de gambá! Eu não dava um vintém por água de gambá.

– Tem certeza que não? Já tentou tirar verruga com água de gambá alguma vez?

– Não, nunca, mas o Bob Tanner já.

– Quem disse?!

– Ué, ele disse pro Jeff Thatcher, e o Jeff contou pro Johnny Baker, e o Johnny contou pro Jim Hollis, e o Jim contou pro Ben Rogers, e o Ben contou prum negro, e o negro me contou. Aí tem!

– Sim, mas e então? Todos eles mentem. Todos isto é, menos o negro. Eu não conheço ele. Mas eu nunca vi um negro que não mentiria. Porra! Agora me diz como o Bob Tanner fez, Huck.

– Ué, ele afundou a mão numa poça depois da chuva.

– Durante o dia?

– Acho que sim.

– Com a cara pra poça?

– Sim. Pelo menos eu diria.

– Ele falou alguma coisa?

– Eu não diria que falou. Eu não sei.

– Arrá! Curar verruga com água de gambá desse jeito não dá! Não, isso não ia dar em nada. Você tem que ir sozinho, até o meio do bosque, onde você sabe que tem uma poça velha lá, e assim que der meia-noite você fica de costas pra água podre, enfia sua mão nela e então diz: Grão de cevada, grão de cevada, comida de índio, água de gambá, água de gambá, engole essas verrugas;

e depois ir embora correndo, 11 passos, com seus olhos fechados, e depois se virar umas 3 vezes e ir direto pra casa sem falar com ninguém. Porque se você falar, o charme quebra.

– Ué, parece legal. Mas não foi o jeito que o Bob Tanner fez.

– Não senhor, com certeza absoluta não, porque ele é o moleque mais verruguento da cidade! Se ele tivesse feito ele não ia ter verruga! Eu tirei umas mil verrugas da minha mão desse jeito, Huck. Eu brinco tanto com sapo que sempre me dá verruga! Eu tiro com vagem.

– Feijão é muito bom, já fiz isso.

– Já? Como você faz?

– Você pega e divide a vagem, e corta a verruga até sair um pouco de sangue, aí você põe o sangue num pedaço do feijão e pega e cava um buraco e enterra o feijão mais ou menos meia-noite na encruzilhada na sombra da lua, e depois você queima o resto do feijão. O pedaço com sangue vai virar um ímã e vai puxar a outra metade que você cortou, aí é só você usar isso pra ressecar a verruga, e puxar ela da sua pele.

– É, é isso aí, Huck, é isso aí! Mas quando você tá enterrando o feijão, se você diz ‘Desce feijão, cai verruga, não vem mais me perturbar!’, é melhor! É assim que o Joe Harper faz, e ele já foi em Coonville, e um bando de lugar. Mas me diz – como é pra sarar com gato morto?

– Ué, você pega seu gato e vai e chega no cemitério perto de meia-noite, ou na hora do enterro de alguém mau. E meia-noite um diabo vai aparecer, ou talvez dois, três… Mas o negócio é que você não pode ver eles, você só ouve uma coisa que parece co’ vento, ou uns burburinhos. E quando eles tão levando o cadáver do homem mau, você lança o gato pra eles e grita: ‘Diabo segue corpo, gato segue diabo, verruga segue gato, sai de mim verruga!’. Isso vai curar qualquer verruga.

– É, faz sentido. Você já tentou, Huck?

– Não, mas a velha madre Hopkins que me disse.

– Hm, eu acho que é verdade então. Porque falam que ela é uma bruxa.

– Falam! Ué, Tom, eu sei que ela é. Ela enbruxou meu pai. Meu pai sabe. Ele vinha vindo um dia, aí ele viu que ela tava embruxando ele, então ele pegou uma pedra, e se ela não tivesse desviado tinha peg’em chei’! A mesma noite ele caiu rolando dum barracão em que ele tava bebendo, e quebrou o braço, cê ‘credita?!

– Cara, que horrível! Como ele sabia que ela tava embruxando ele?

– Deus, meu pai jura de mão junta. Ele diz que se elas tão olhando fixo pra você, tão embruxando você. Se elas tão murmurando é certeza, certeza! Quando elas tão murmurando elas tão falando o pai-nosso de trás pra frente!

– Hucky, me diz… Quando você vai fazer a parada com o gato?

– Essa noite. Eu acho que vão vir pro velho Hoss Williams.

– Mas o enterro foi sábado. Não pegaram o corpo dele sábado de noite?

– Ué, sabe-tudo! Com’é que o charme funciona até meia-noite então? E aí meia-noite de sábado já é domingo. Os demônios não vadiam domingo, eu diria.

– Nunca pensei nisso. Deve ser assim. Deixa eu ir contigo?

– Claro! Se você não tiver com medo…

– Com medo!! Duvido muito. Você vai miar?

– Sim. E você mia de volta, se escutar. A última vez, você me fez ficar miando um tempão até o velho Hays me tacar pedra! E ele falou: ‘Maldito seja esse gato!’. E pra me vingar eu atirei um tijolo na janela dele. Mas você não me ouviu.

– Não ouvi. Eu não pude miar aquela noite, porque minha tia tava me vigiando. Mas dessa vez eu vou miar. Ei, o que é aquilo?

– Só um carrapato.

– Onde conseguiu?

– Na floresta.

– Quer vender pelo quê?

– Não sei. Não quero vender, eu acho.

– Tá bom. É um carrapatinhozinho pequenininho mesmo.

– Qualquer um pode pegar um carrapato que não tem dono. Tô satisfeito com esse. É um carrapato bom pra mim.

– Lógico, tem carrapato pra caraca! Eu podia ter mil se eu quisesse.

– Por que você não arranja uns? Ah, você não consegue! É um carrapato recém-nascido. É o primeiro que espio esse ano!

– Ei, Huck… Eu te dou meu dente pelo carrapato.

– Hm, deixa ver.

Tom tirou um pedaço de papel do bolso e com cuidado desenrolou-o. Huckleberry estudou o dente com certa nostalgia. Era uma bagatela. Então ele disse:

– É genhuíno?

Tom levantou o beiço e mostrou a banguela.

– Ué, muito bom! – disse Huckleberry, satisfeito – Negócio fechado.

Tom encerrou o carrapato numa lata velha daquelas de armazenar balas de armas, a mesma caixa em que ultimamente Tom vinha confinando um besouro-veado. E então os garotos se separaram, cada um achando que saiu no lucro.

“– Thomas Sawyer!

Tom sabia que quando seu nome era pronunciado inteiro significa problema.

– Senhor!

– Venha aqui. Agora, senhor, por que está atrasado, como aliás quase sempre?

Tom estava para se refugiar em uma de suas mentiras cultivadas, quando viu duas longas tranças de cabelo amarelas repousando ao fundo, que ele imediatamente reconheceu pelo processo elétrico chamado simpatia do amor. E ao lado da portadora dessas tranças, eis o único lugar vago restante. Ele então preparou novo discurso direto das entranhas:

– Eu parei para conversar com Huckleberry Finn!

O pulso do professor até parou, dir-se-ia. Ficou sem reação. O barulho da sala também virou silêncio. Sem dúvida todos começaram a se perguntar mentalmente se aquele toleimas tinha virado o fio de vez.

– Você—você o quê?!

– Parei para conversar com Huckleberry Finn.

Não havia confusão na audição de qualquer palavra.

– Thomas Sawyer, essa é a mais espantosa confissão que jamais ouvi. Não é qualquer palmatória que limpará tamanha ofensa! Tire sua jaqueta.

O braço do mestre executou os golpes até se cansar, de modo que as estaladas foram aumentando de intervalo entre uma e outra até pararem por completo. Em seguida veio a ordem:

– Agora, senhor, vá, e se sente com as meninas! Que isso lhe sirva de máxima lição.

O tititi que percorreu a sala pareceu desconcertar o garoto. Mas o resultado externo, essa feição de abatimento, fôra em verdade causado por sua adoração infinita ao novo ídolo e aquele medo ou frio na barriga decorrente do ambíguo prazer de receber a honra de sentar-se ao seu lado. Ele sentou na extremidade do grande banco de pinheiro e a garota retraiu-se a sua passagem, jogando a cabeça para o lado. Cotoveladas e piscadinhas e sussurros atravessaram o cômodo, mas Tom sentou quieto, em postura tranqüila, de braços estendidos sobre a longa e baixa carteira diante de si, pelo menos afetando ler seu livro.”

“Então o garoto começou a olhar às furtadelas para a garota. Ela não deixou de notar, franziu os lábios em sentido de repulsa e virou o rosto em relação a ele por completo por um minuto inteiro. Quando ela cautelosamente volveu à posição antiga, viu um pêssego sobre sua carteira. Ela o jogou longe. Tom, com ternura, devolveu-o ao mesmo lugar. Ela o jogou longe de novo, mas com menos animosidade. Tom pacientemente retornou a fruta ao mesmo sítio. Então ela deixou o pêssego ficar lá. Tom garatujou em sua ardósia: ‘Por favor, fique com ele. – Eu tenho mais’. A garota mirou as palavras, mas pareceu não saber interpretá-las. Agora o garoto começou a desenhar alguma coisa, escondendo ao mesmo tempo o conteúdo com a mão esquerda. Por um tempo a garota simplesmente se negou a reparar; mas sua curiosidade humana começou a se manifestar por sinais orgânicos bastante finos e bem-disfarçados. O garoto continuava em seu trabalho, aparentemente inconsciente desses sinais. A garota entrou numa postura como que de uma tentativa passiva de enxergar algo do desenho, mas o garoto não demonstrou nenhuma perturbação diante dessa nova tática. Por fim ela cedeu e cochichou, hesitante:

– Deixa eu ver.

Tom descobriu parcialmente uma horrível caricatura duma casa de duas cumeeiras e uma chaminé com fumaça em espiral. Isso fez com que o interesse da garota pela parte ainda oculta da figura se intensificasse. Ela esqueceu de afetar qualquer discrição. Quando o desenho terminou, e Tom deixou-o a descoberto, ela olhou um instante, depois cochichou:

– É bonito. Desenha um homem.

O artista então compôs um homem no jardim frontal. O homem parecia um guindaste. Pelo seu tamanho ele podia pisar na casa e usá-la como degrau. Mas a garota não era hipercrítica. Satisfez-se com o monstro, e cochichou:

– É um homem bonito. Agora me põe do lado dele.

Tom desenhou uma ampulheta com uma lua cheia no topo, com riscos por membros, sem dizer que armou os dedos protuberantes com um portentoso leque. A garota disse:

– É muito, muito bonita. Eu gostaria de saber desenhar.

– É fácil – cochichou Tom. Eu vou te ensinar.

– Sério? Quando?

– Meio-dia. Você vai pra casa almoçar?

– Eu fico se você ficar.

– Bom – negócio fechado. Qual seu nome?

– Becky Thatcher. Qual o seu? Ah, eu já sei: é Thomas Sawyer.

– Esse é o nome por que me chamam aqui. Eu sou Tom para os íntimos. Você vai me chamar de Tom, não vai?

– Vou.

(…)

– Se eu mostrar, você vai contar.

– Não, eu não vou. Juro, juro, beijo, beijo, que não vou contar.

– Não vai contar pra ninguém? Nunca, enquanto viver?

– Não, nunca vou contar pra ninguém. Agora deixa eu ver.

– Ah, você não quer ver isso!

– Já que você me trata assim, eu vou ver. – E ela pôs sua mãozinha sobre a dele e uma ligeira luta decorreu, Tom fingindo que resistia sinceramente, mas deixando-se vencer aos milímetros até revelar as palavras EU TE AMO.

– Ai, seu malvado! – e deu uma palmada na mão trigueira de Tom, mas corou e pareceu feliz com a situação.

Exatamente nesta conjuntura o garoto sentiu um lento, fatídico agarrão que envolveu sua orelha, e um empuxo firme. Foi dessa maneira, agarrado pela aba, que ele foi conduzido através de toda a sala para seu assento de origem, debaixo de gargalhadas ardentes de toda a classe. Então o professor continuou de pé olhando para baixo, ao seu lado, por agoniantes segundos; até decidir deslocar-se a seu trono, sem mais palavras. Muito embora a orelha de Tom ardesse como o inferno, seu coração rejubilava.”

“na aula de leitura Tom estava de dar pena; na aula de geografia, trocou lagos por montanhas, montanhas por rios, e rios por continentes; na aula de pronúncia e ortografia as palavras mais básicas davam nós em sua língua e em sua pena. Era como esmigalhar com um pisão a medalha platinada que ganhara com tanto esforço no fim de semana.”

SÉTIMO CAPÍTULO

“Enquanto um menino importunasse o carrapato com interesse absorvente, o outro se interessaria na mesma medida. Ambos inclinavam a cabeça sobre a ardósia em sincronia, e ambos estavam tão entretidos que excluíam a existência do mundo exterior.”

“– Não vou deixar ele quieto!

– Você deve – ele tá do meu lado da linha.

– Ei, Joe Harper, de quem é esse carrapato?

– Eu não tô nem aí de quem é o carrapato – ele tá do meu lado da linha, e você não deve tocar nele.

– Então, só vou apostar que vou, e ponto. Ele é meu carrapato e eu vou fazer a merda que eu quiser com ele ou morrer!”

“– Não, não ligo muito pra ratos. Eu gosto é de chiclete.

– Bem lembrado – queria ter um agora.

– Mesmo? Eu tenho alguns. Eu vou deixar você mascar um bocado, mas você tem que me devolver depois!

Isso era vantajoso, então ambos passaram a mascar em turnos, e balançavam as pernas contra o banco, de tanta satisfação.

– Já ‘teve no circo? – perguntou Tom.

– Já, e meu pai vai me levar de novo já, já, se eu me comportar.”

“– Como é? Não tem comparação com nada. Você só fala pra um garoto que não vai ter nenhum outro garoto, a vida toda, só ele! Nenhum outro garoto, nunca, nunca, nunca, e depois vocês se beijam e isso é tudo. Todo mundo pode fazer isso!

– Beijar? Mas pra que beijar?

– Hm, beijar é, você sabe, é—ué, todo mundo beija.

– Todo mundo?!

– É, todo mundo que se ama! Você lembra o que eu escrevi na ardósia?

– Si-im.

– O que foi?

– Não posso te contar.

– Eu posso te contar?

– Si-im… Mas… não agora.

– Não, agora.

– Não, agora não. Ama-anhã…

– Nana nina! Agora. Por favor, Becky. – eu vou cochichar, eu vou cochichar bem baixinho.

Becky hesitava. Tom interpretou o silêncio como consentimento, passou o braço pela sua cintura e sussurrou a frase batida no tom mais brando que encontrou, com seus lábios o mais próximo possível da orelha de Becky. E ainda acrescentou:

– Agora você cochicha pra mim – igualzinho.

Ela resistiu, pelo menos por um hiato, então falou:

– Você olha pra lá pra não me ver, então eu cochicho. Mas você nunca vai contar pra ninguém, tá entendendo, Tom?! Você NÃO vai, Tom, tá bom?!

– Não, deixa. Pode deixar que eu não vou. Vamo’, Becky.

Ele virou o rosto. Ela se inclinou com timidez se aproximando até seu hálito fazer os cachinhos de Tom se moverem, e sussurrou:

– Eu… amo… você!

Então ela o repeliu e correu para longe, circulando as carteiras e bancos, Tom seguindo-a de perto. Becky se refugiou numa das quinas, com seu lencinho cobrindo o rosto. Tom amaciou seu pescoço e implorou:

– Vem, Becky, tá tudo bem. Quase acabando. Falta só o beijo! Não tem por que ter medo – é uma bobagem! Por favor, Becky! – E ele a puxou pelo lenço e as mãos.

Ela foi cedendo aos poucos, deixando as mãozinhas caírem. Seu rosto, fulgurante de tanta resistência, se aproximou do de Tom e se submeteu. Tom encostou sua boca na boca vermelha de Becky e disse:

– Agora terminou, Becky! Está feito! E depois disso, pra sempre, você nunca vai amar ninguém, só eu, e você vai poder casar com ninguém, só comigo, pra todo o sempre e a eternidade. Né?

– Não, nunca vou amar ninguém sem ser você, Tom, e eu nunca vou casar com ninguém, só com você, Tom… E você também não pode casar, só se for comigo, Tom.

– É claro! É óbvio! É parte do ritual. E sempre, indo pra escola, ou quando a gente ‘tiver indo pra casa, você tem que andar comigo… quando ninguém ‘tiver olhando… E você me escolhe e eu te escolho nas duplas, você é sempre meu par, eu sou sempre seu par, porque é assim que se faz quando um casal se compromete.

– É tão legal! Nunca tinha ouvido falar…

– É sempre tudo de bom! Sabe, eu e a Amy Lawrence—

Os olhos arregalados contaram a Tom que ele tinha pisado em ovos – e ele parou, aturdido.

– Ai, Tom! Então eu não sou a primeira que você jurou que ia…!!!

A criança desatou a chorar. Tom disse:

– Não chora, Becky, eu não ligo pra ela mais!!

– Sim, você liga, Tom – você sabe que liga.

Tom tentou circunvolver Becky pelo pescoço, mas ela o empurrou e virou a cara para a parede, sem que as lágrimas parassem de deslizar pelo seu rosto. Tom tentou de novo, cheio de consolações em suas palavras, mas foi repelido outra vez. Era o cume para seu orgulho. Ele escapuliu e se viu a céu aberto. Parou um tempo, em frenesi e aflito, fincando o olhar na porta pelo lado de fora, desejando mil vezes que ela se arrependeria e viria atrás dele. Mas ela não o fez.”

“Ela ouvia com atenção, mas não houve resposta. Ela não tinha como companheiros senão o silêncio e a solidão. Então ela se sentou novamente com o intuito de chorar e infligir um castigo a si mesma. Nesse meio-tempo os alunos começaram a se reagrupar, e ela teve de esconder toda sua tristeza, embora seu coração partido não fosse se emendar. Viver aquela tarde seria um longo calvário, sem ninguém dentre pessoas estranhas que lhe dirigisse um olhar terno ou com quem pudesse desabafar.”

OITAVO CAPÍTULO

“Dava-lhe a impressão que a vida não passava de uma grande peça pregada, na melhor das hipóteses, e ele muito invejava Jimmy Hodges, morto recentemente. Deve ser muito tranqüilo, ele pensava, parar e descansar e sonhar pra sempre, acompanhado do uivar do vento nas folhas e sentindo o contato com a relva e as flores, ali em cima do túmulo. Nada para encher nem lamentar, nunca, nunca mais! (…) Ele quis o melhor, e até ali fôra tratado como um cão – como o mais rueiro dos cães. Ela se arrependeria um dia – talvez quando fosse tarde demais. Se ele pudesse morrer, nem que temporariamente!

“E se ele virasse as costas agora e desaparecesse misteriosamente? E se ele fosse para longe – tão longe, para países desconhecidos além dos mares – e não voltasse jamais! Como ela se sentiria então? A idéia de se tornar um palhaço voltava recorrentemente, só para terminar enchendo-lhe de desgosto no presente. A frivolidade, as piadas e suspensórios de bolinhas soavam-lhe ofensivos, pelo menos quando bancavam os intrusos num espírito desassossegado nos augustos reinos do romance como o seu. Não, melhor seria se converter em soldado, e retornar após longos, longos anos, coroado de medalhas, famoso em todo o país. Não – melhor ainda: ele se aliaria aos índios e caçaria búfalos e seguiria as trilhas montanhosas e as planícies ainda não-documentadas do Extremo Oeste, e no futuro distante se sagraria o pajé de seu povo, todo adornado de penas, temível em pintura de guerra, pavoneando-se à entrada da igreja num domingo qualquer, como se nada, com um grito de desafio que anunciava a derramada de sangue – arrancaria os olhos de seus antigos companheiros de maneira implacável. Não, não, havia algo ainda mais satisfatório que isso! Ele seria um pirata! É isso! agora sim o futuro corria nítido diante de seus olhos, brilhando em esplendor inimaginável. Seu nome encheria as páginas dos jornais do mundo, todos estremeceriam ao ouvi-lo! Com que glória ele iria de porto em porto sacando riquezas, e como sey navio de casco negro dançaria sobre as ondas – ele já tinha um nome, o Espírito da Tempestade, com sua apavorante bandeira à frente!”

“Quem vem é Tom Saywer, o Pirata! – o Vingador Negro da Esquadra Espanhola!”

“A verdade é que uma superstição sua tinha falhado, aqui, uma que ele e tdos os seus camaradas tinham considerado como infalível. Se você enterrasse a bola de gude com certos encantamentos e deixasse-a intocada por 2 semanas, reabrindo o lugar com os mesmos encantamentos na hora indicada, com sílabas perfeitamente espelhadas, você constataria que todas as bolinhas de gude que perdera em toda sua vida estariam agora reunidas num só lugar, não importa quão longe estivessem antes de tudo. Mas agora tudo tinha ido água abaixo, sem lugar a dúvidas. Toda a fé de Tom chacoalhou até as fundações. Ele ouvira muitas vezes de sucessos semelhantes, mas nunca de fracassos. E ele nem sequer lembrava que já havia tentado muitas vezes antes… mas no fim ele esquecia onde havia enterrado a bola de gude, então deixava a questão de lado.”

“Ele sabia que era inútil discutir com bruxas, então deu de ombros. Mas de repente se lembrou da bola de gude que perdera, dando-se ao trabalho de procurá-la com a maior paciência. Nada feito. Voltando a sua casa dos tesouros, postou-se igual se havia postado quando jogou a bola de gude fora. Depois pegou outra bola do bolso e atirou-a de maneira análoga, dizendo:

– Irmão, vá procurar seu irmão!

Ele assistiu o trajeto da bola e depois correu para o lugar. Mas ou o impulso foi fraco ou forte demais. Ele ainda tentou seu plano mais duas vezes. A última repetição, quem diria, deu resultado. As duas bolas de gude estavam a cerca de 30 centímetros uma da outra.”

“– Quem és tu que ousas falar em tal linguagem?

– Eu, tu perguntas! Eu sou Robin Hood, como tua carcaça verminosa logo há de atestar!

– Ó, então és aquele famoso fora-da-lei? Com muita satisfação disputarei contigo quem manda nesses bosques! Em guarda!

Ambos sacaram suas espadas de ripa, largaram seus trapos no chão e começaram uma disputa de esgrima ferrenha, pé ante pé, com cautela e seriedade, em uma melhor de três. Tom disse:

  • Vamos ver do que és feito! Mais ímpeto!

Eles realmente injetaram mais ímpeto, pintando o sete e transpirando muito. De quando em vez Tom gritava coisas como:

  • Cai! Cai! Por que não cais?

  • Não devo, não posso! Por que não cais tu?! Irás te arrepender!

  • Ora, isso nada é! Não sou homem de cair. Não é o que está escrito no livro. O livro diz, ‘Então, com uma só estocada por trás, ele matou o infeliz Guy de Guisborne.’ Você agora tem que girar e me deixar acertar suas costas!

Não tinha como disputar a autoridade. Joe se virou, recebeu a pancada e simulou a queda.

  • Agora – disse Joe, se levantando – você tem que deixar eu matar você. Mais que justo!

  • Ué, não posso, não tá no livro!

  • Isso é muita sacanagem! Pra mim chega.”

“Os garotos se vestiram, esconderam seus equipamentos e foram embora, lamentando-se de não haver mais bandidos, se perguntando o que a civilização poderia oferecer em troca por tamanha perda. E cada um dizia que preferia mil vezes ser um fora-da-lei por um ano Na Floresta Sherwood que ser Presidente dos Estados Unidos para sempre.”

NONO CAPÍTULO

“Ele ficou feliz, porque o tempo cessou e a eternidade começou. Ele foi caindo no sono a despeito do esforço. O relógio bateu onze vezes, mas Tom não escutou.”

“Huckleberry Finn estava ali, acompanhado de seu gato morto. Os dois se moveram e desapareceram no imenso breu. Depois de meia hora já avançavam pela grama alta do cemitério.”

“– Eu não sabia o que fazia. Eu quero morrer nesse minuto se eu sabia. Era culpa do uísque e da empolgação, eu acho. Nunca usei uma arma na vida, Joe. Sempre briguei, é claro, mas nunca armado. Todos sabem disso. Joe, não abre o bico! Por favor, Joe – você é um bom sujeito! Sempre gostei de você joe, sempre ‘tive do seu lado, e você do meu, é claro. Não lembra? Você não vai contar, vai, Joe?

E a pobre criatura se pôs de joelhos diante do apático assassino, e juntou suas bonitas mãos.

– Não, você sempre foi honesto e direito comigo, Muff Potter, nunca vou dedurar você. É isso o mais justo que um homem pode ser, concorda?

– Joe, você é um anjo. Eu vou sempre lembrar até o fim da vida que você é o cara e me salvou.

E Potter começou a chorar.

– Vamos, vamos, não precisa disso. E nem é hora dessas coisas. Nada de abrir o berreiro aqui. Você sai por um lado, eu por outro – vai logo, e não deixa nenhuma pegada.

Potter foi num trote que logo se converteu numa corrida desabalada. O mestiço ficou olhando ele se distanciar.

DÉCIMO CAPÍTULO

“Huck Finn e Tom Sawyer juram que não vão contar nada pra mãe sobre

Isso e

Eles desejam que

Eles vão

Cair mortos

De cara no chão

Na hora

Se

Eles

Contarem

E vão apodrecer pra sempre.

Huckleberry estava repleto de admiração diante da facilidade de Tom para escrever, e da sublimidade de sua linguagem.”

“– Eu conheço essa voz, é Bull Harbison.(*)

(*) Nota do Autor: Se o Senhor Harbison tivesse um escravo chamado Bull, ele diria simplesmente dele como Bull do Harbison, mas um filho ou cachorro era um nome próprio e completo, nada mais, nada menos que Bull Harbison.

– Ué, isso é bom. Tom, eu estava morrendo de medo. Eu podia apostar que era um cachorro vadio!

O cachorro voltou a uivar. Os corações dos garotos pareciam querer parar novamente.

– Não, esse não é Bull Harbinson! – sussurrou Huckleberry. – …Tom?!

Tom, tremendo de pavor, sucumbium e fitou a rachadura. Seu sussuro ira quase inaudível:

– Ai, Huck, é um cachorro vadio!

– Rápido, Tom, rápido! Quem ele quer?

– Huck, acho que ele quer nós dois. A gente tá junto!

– Ué, Tom, acho que agora tamos fudidos. Eu acho que eu sei muito bem pr’onde tô indo! Eu fui muito malvado.

– Merda! Tudo isso é por ficar matando aula e fazer tudo que as pessoas boas falavam não faz isso, não faz!. Eu podia ser bom, como o Sid, se eu tivesse tentado. Mas não, eu não ia tentar ser, é óbvio. Mas se por um milagre eu escapar… Eu juro, eu juro que vou virar uma pedra na missa de domingo!”

Tom não chegou a chorar, mas fungou.

– Você mau!! – Huckleberry começou a fungar também. – Vamo’ entrar de acordo, Tom Sawyer, você é fichinha, um nabo do que eu sou! Não passa nem raspando! Seu pior lado é melhor que meu lado mais bom! Ai, Jesus, Jesus, Jesusinho… Se eu tivesse metade das suas chances…

Tom engasgou e disse:

– Olha, Hucky, olha! Ele ficou des costas pra gente!

Hucky de fato olhou, e não sem estar prenho de alegria!

– Pelo pajé! Ele tá des costas! Ele ‘tav’assim?

– ‘Tava, mas eu ‘tava tão tonto que não pensei. Isso é uma peça… o tinhoso faz enigma… Agora quem você acha que ele tá atrás?

O uivo parou. Tom tapou as orelhas.”

“– Fala, Tom… Dizem que um cachorro vadio veio uivando perto da casa do Johnny Miller, lá pra meia-noite, umas duas semanas atrás! E um noitibó pousou no corrimão e começou a cantar, nessa mesma noite! E ninguém morreu por lá até hoje!

– Ora, eu sabia dessa. E suponho que não morreu. Gracie Miller não caiu na cozinha e se queimou feio no fogo, logo no próximo sábado?

– Sim, sim, mas ela não morreu. E pior, ela tá melhorando da queimadura.

– ‘Tá tudo bem, mas você espera e verá. Ela tá marcada pra ir, tão finada quanto o Muff Potter! É o que os pretos dizem, e eles sabem mais dessas coisas, Huck!

Então eles se separaram, sem deixar, cada qual, de cogitar.”

“Ele chorou, pediu perdão, prometeu se endireitar de novo e de novo, depois disse que podia ir embora, sentindo que vencera na argumentação, mas não de modo perfeito: estava com um mínimo de confiança.

A verdade é que ele saiu de lá tão miserável que nem teve vontade de se vingar de Sid. Era debalde, portanto, que Sid tinha empreendido a fuga pelo portão traseiro. Ele se arrastou absolutamente arrasado até a escola, e recebeu o costumeiro açoite, com Joe Harper, por matar aula no dia anterior. Mas sua mente não estava no castigo em momento algum. Na verdade, seu coração: ele tinha coisas mais pesadas que suportar. Nenhuma dessas bagatelas lhe suscetibilizava as veias.”

DÉCIMO PRIMEIRO CAPÍTULO

“Não era nem meio-dia e a vila inteira já estava eletrizada com as péssimas notícias. Ninguém precisava de nenhum telegrama doutra parte. Não, não havia telegramas ainda na vila! Mas a estória foi de pé de ouvido em pé de ouvido, de bípede para bípede, como costumava ser. De grupo em grupo, de casa em casa, com pouco menos do que a velocidade miraculosa dos cabos e feixes elétricos. O diretor declarou que após as doze seria feriado. Seria muito estranho que o não fizesse.

Uma faca suja foi encontrada perto do cadáver, e testemunhas declararam reconhecê-la como pertencendo a Muff Potter (…) também foi espalhado por aí que a cidade foi saqueada por esse ‘assassino’ (o povo nunca é devagar quando o assunto é eleger evidências e chegar a vereditos definitivos), porém ele não pôde ser encontrado.”

“Toda a cidade estava em procissão ao cemitério. Tom não sentia mais seu coração pesado, e se juntou à procissão, e não porque ele preferiria mil vezes estar em qualquer outro lugar, mas porque uma fascinação indescritível e assustadora o puxava.”

“Sid disse:

– Tom, você se mexe e fala tanto no seu sono que não consigo dormir metade do tempo.

Tom ficou pálido e baixou os olhos.

– É um mau sinal – atalhou tia Polly, com severidade. – O que é que você tem na cabeça, Tom?

– Nada. Nada qu’eu saiba. – E no entanto a mão do garoto tremeu a ponto de derramar o café.

– E você fala cada coisa! – Sid continuou. – De madrugada você disse: É sangue, é sangue, é o que é!… Você não parou de repetir isso. E você disse também: Pára de me atormentar, eu vou contar! Contar o quê? O que é que você vai contar?

Tudo dançava diante de Tom. Não tinha como adivinhar o que iria acontecer mas, por sorte, tia Polly deixou de ligar muito para o estado de Tom e sem saber ela foi um tranqüilizante para ele. Indagou:

– Xi! É esse maldito assassinato… Eu mesma sonho com isso toda noite. Às vezes até sonho que sou eu a assassina.

Mary disse que ela se sentia do mesmo jeito, ficou muito afetada. Sid pareceu satisfeito. O fato é que Tom se afastou de todas as testemunhas de sua sofreguidão o mais rápido que pôde. Depois disso ele ainda reclamaria de dor de dente uma semana inteira. Toda noite ele amarraria um lenço em sua mandíbula. Vai saber se Sid não estava à espreita do corpo adormecido de Tom! E é o que ele fazia, e ele ainda removia a bandagem e ficava a escutar os murmúrios de Tom, captando cada sílaba discernível. Ele fazia de modo que quando Tom acordava não podia suspeitar de que a bandagem fôra desamarrada e amarrada de novo. Mas o pesar e a intranqüilidade notívaga de Tom foram reduzindo a cada dia e a estória da dor de dente já não convencia mais ninguém, nem fazia sentido para ele, e foi deixada de lado.”

DÉCIMO SEGUNDO CAPÍTULO

“Ele não queria mais saber de guerra, nem de ser pirata.”

“Ela acreditava em tudo que se publicava nesses jornais sobre “medicina”, e comprava qualquer teoria frenológica. A ignorância solene daquelas páginas era seu oxigênio. Toda esse besteirol sobre ventilação, e como dever-se-ia ir para a cama, e como acordar melhor, o que comer, o que beber, quanto se exercitar, qual postura mental conservar durante o dia, que roupa vestir, tudo era palavra sagrada para ela. Ainda assim, ela era incapaz de observar que todas as recomendações do número atual não faziam senão contradizer todas as indicações do número anterior. Ela era tão simples de coração e confiada como o dia era longo; a vítima perfeita. Ela reunia seus periódicos medicinais de charlatania e seus remédios-engodo e, armada para a guerra, cavalgava seu cavalo de batalha espectral, com ‘o inferno atrás’. Mas o que ela não podia suspeitar é que estava longe de ser um anjo que curava e o bálsamo de Gileade reencarnado, verdadeira bênção da vizinhança.”

“Tom, de forma anti-natural, foi ficando mais e mais melancólico, lívido, deprimido, enfim. Ela acrescentava banhos quentes, banhos sentado, banhos de ducha, e até imersões. O garoto continuava tão lúgubre quanto um ataúde. Ela começou a receitar, junto com tudo que continha água na higiene, farinha de aveia fina à dieta do garoto, sem falar em bandagens em pontos ‘vitais’ das articulações. Para ela, era como calcular quantos miligramas ou mililitros de algo iam para a panela – o garoto era sua cobaia de placebos que ninguém sabia placebos.”

“– Eu nunca vi nada igual. O que pode ter feito esse gato ficar assim?

– Eu sei lá, tia Polly. Gatos gostam de pregar peças em humanos.”

“– Pois então, senhor, por que raios você faria uma coisa dessas com uma pobre criatura incapaz de se defender, pode-se saber?

– Foi por pena – porque ele não tem nenhuma tia.

– Não tem nenhuma tia! – seu paspalho. O que é que tem a ver isso?

– Pra caramba! Porque se ele tivesse uma ela é que queimaria ele! Ela ia fritar as tripas dele com a mesma maldade dm homem!”

“Tom chegou à escola com tempo de sobra. Aliás, foi logo notado que esse acontecimento extraordinário vinha se repetindo todos os dias. E agora ele ficava ali perto do portão do parquinho em vez de jogando com seus camaradas. Ele estava doente, ele dizia, e parecia estar.”

DÉCIMO TERCEIRO CAPÍTULO

“Joe opinava que podia-se viver como ermitão, nos recessos profundos da caverna mais remota; e daí que se morresse em poucos anos de frio, fome, solidão? Depois de ouvir Tom, porém, ele percebeu que havia vantagens conspícuas numa vida dedicada ao crime, então consentiu em se tornar pirata.”

“Quem seriam as vítimas de suas piratarias ainda não era um problema na cabeça dos garotos. Foram atrás de Huckleberry Finn, que aderiu de pronto, porque para ele tudo era indiferente. Eles se separaram, combinando de se reencontrar na margem do rio duas milhas acima da vila, na melhor hora – meia-noite.”

“– Quem é?

– Tom Sawyer, o Sombrio Vingador da Marinha Espanhola. Digam seus nomes.

– Huck Finn, o Mão-Rubra, e Joe Harper, o Terror dos Mares.

Tom é que havia concebido esses títulos, das estórias de pirata que conhecia.

– Tá bom. Hey! Dêem a contrasenha.

Dois ásperos sussurros entregaram as mesmas sílabas malditas simultaneamente, ecoando na noite escura:

– San-gue!”

“O Sombrio Vingador seguia imóvel, de braços cruzados, “pensando pela última vez” nas cenas de sua felicidade pregressa, e também seus sofrimentos recentes, e desejando que “ela” pudesse vê-lo agora, longe, em alto-mar, encarando o perigo e a morte de coração aberto, dirigindo-se à destruição com um sorriso cruel nos lábios.”

“Aproximadamente às duas da madrugada a jangada ancorou na barreira 200 metros acima da cabeça da ilha, e ela ficou a balançar de um lado pro outro até a toda a carga fosse desembarcada.”

“– A verdade é que um pirata não faz nada, Joe, quando ele está em terra. Mas um ermitão fica rezando toda hora, e nunca se diverte, é um solitário.

– É, é assim mesmo – disse Joe. – mas eu nunca pensei a sério sobre isso, sabe? Eu preferia mesmo é ser pirata, agora que sei como é.

– A verdade é que as pessoas não falam dos ermitões, hoje, igual falavam. Mas um pirata… um pirata é sempre respeitado! E um ermitão tem que dormir nos lugares mais duros, e pôr andrajos e cinzas na cabeça, e ficar parado na chuva e—

– Mas pra que colocar andrajos e cinzas na cabeça? – perguntou de repente Huck.

– Eu sei-lá! Mas eles têm que fazer isso! Ermitões têm que fazer essas coisas. Não dá pra ser ermitão e não fazer essas coisas.

– A merda que eu ia fazer! – respondeu Huck.

– Ué, o que você ia fazer?

– Eu sei-lá! Mas eu não ia fazer essa porra!

– Mas Huck, você ia ter que fazer. Como você ia se safar?

– Uai, só não ia agüentar. Sairia pro mundo, fugiria.

– Fugir! Ora, você ia ser um bom dum ermitão de araque! Uma desgraça dos ermitões!”

“Mas os outros garotos lhe disseram que as roupas boas viriam logo, assim que começassem a saquear. Fizeram-no entender que sua roupa de maltrapilho já eram o bastante pra começar, se bem que piratas mais ricos já se lançavam aos mares com o vestuário adequado.”

“Eles começaram a pressentir que fizeram mal em fugir assim. Logo pensaram na carne roubada, e a tortura de verdade começou. Eles começaram a lembrar de quantas maçãs e guloseimas já não tinham roubado antes. Mas veja, a consciência e a memória não se alimentam sem a comida real.”

“Eles então concordaram que enquanto continuassem no ramo o negócio da pirataria não seria manchado pelo do roubo. Aí sim a consciência deu uma trégua, e esses curiosamente inconsistentes piratas conseguiram cair no sono dos justos.”

DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO

“‘Besourinha, besourinha, voe logo para casa, sua casa está em chamas, seus filhos sozinhos’, e então a besouro-fêmea estendeu as asas e saiu voando, o que em nada não surpreendeu o garoto”

“Eles não sabiam que quão mais rápido um peixe de água fresca é assado após a pesca melhor fica. E também não pensaram muito sobre como dormir ao relento, passar o dia em atividades silvícolas, banhos de rio e tudo o mais agiam como excelentes temperos para qualquer comida.”

“Mesmo Finn, o Mão-Rubra, já sonhava com o alpendre de sua casa e sua coleção de tambores vazios. Mas cada qual se envergonhava de sua fraqueza, e ninguém era valente o bastante para emitir o que pensava.”

“Subitamente uma aura de heroísmo os revestia. Um tremendo triunfo. Estavam perdidos. Estavam sendo lamentados no vilarejo. Corações se rompiam por causa deles, ou da ausência deles. Lágrimas jorravam, denunciando culpas reprimidas perante esses pobres garotos finalmente aparecendo à luz do dia, desvelando arrependimentos e remorso. E o melhor de tudo: não podia haver outro assunto na cidade inteira, e os outros garotos sentiriam inveja, tanto quanto uma notoriedade tão macabra pudesse ser invejada. Tudo isso estava ótimo. Valia a pena ser pirata, afinal.”

DÉCIMO QUINTO CAPÍTULO

“– Sid! – Tom sentiu o olhar da velha sobre si, mesmo que não pudesse vê-la. – Nenhuma palavra contra o meu Tom, agora que ele se foi! Deus vai tomar conta dele – jamais se preocupe com essas coisas, senhor! Ah, senhora Harper, eu não sei como fazer isso passar! Eu não consigo fazer passar! Ele era tão querido pra mim, mesmo atormentando meu coração e quase botando meus bofes pra fora!

– O Senhor dá e o Senhor tira – Abençoado seja o nome do Senhor! Mas é muito duro – Ah, como é duro! No último sábado meu Joe estourou uma bombinha bem debaixo do meu nariz e eu dei-lhe um bofetão que deixou ele no chão. Se eu soubesse que logo mais… Ah, se eu pudesse voltar no tempo eu teria dado um abraço no meu Joe e dado as bênçãos pelo que ele fez!”

DÉCIMO SEXTO CAPÍTULO

“Uma dificuldade se apresentava: índios hostis não podiam entrar em guerra sem primeiro fazer as pazes, e isso não era concebível sem fumar um cachimbo da paz. Não havia nenhum outro processo do qual eles tivessem ouvido falar. Dois dos selvagens quase desejaram em voz alta naquele momento não ter deixado de ser piratas. Mas, as coisas como eram, não havia outro jeito. Fingindo estar à vontade como melhor podiam, providenciaram o cachimbo e passaram de mão em mão, cada qual dando sua baforada, na forma estabelecida.

E finalmente os garotos estavam gratos de terem se tornado selvagens, porque tinham ganho algo: podiam dar umas baforadas sem ter de passar o tempo procurando uma faca perdida. Não estavam fora de si o bastante para se sentirem aporrinhados de verdade. Não queriam jogar essa oportunidade única fora por falta de esforço. Não, eles praticaram cautelosamente, depois da refeição, com êxito razoável, e passaram uma tarde esplêndida. Sentiam-se mais orgulhosos e contentes em suas novas posições do que se estivessem de fato no escalpo e na pele das Seis Nações.¹”

¹ As tribos nativas norte-americanas Mohawks, Oneidas, Onandagas, Cayugas, Senecas (todos somados eram os iroqueses) e os Tuscaroras, inimigos daqueles.

DÉCIMO SÉTIMO CAPÍTULO

“Houve então uma disputa para determinar quem vira os meninos mortos por último, e cada um puxava a lúgubre façanha para si, e fornecia até provas, mais ou menos adulterada pela testemunha. E quando finalmente ficou estabelecido quem afinal viu os meninos mortos por último, e quem foi o último a trocar palavras com eles, os partidos eleitos ganharam uma espécie de aura, e foram objeto da estupefação e inveja de todo o resto. Um pobre rapaz, sem muito de que se gabar, disse com orgulho se lembrar de que ‘Tom Sawyer me deu uma sova certa vez’.

Mas essa tentativa de ter uma recordação venerável foi por água abaixo. Maioria dos garotos da vila podia dizer o mesmo, o que nivelava a distinção.”

“Um hino enternecedor foi cantado, e assim dizia a letra: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’.

À medida que o serviço funerário prosseguiu, o pároco, pintando uma tal figura e uma tal imagem dos garotas perdidos, dessas promessas abortadas, da rareza de cada alma do bando, passou a acreditar na própria imagem que construía e foi abatido pelo remorso de, durante suas vidas, não ter-lhes dado o devido crédito, tendo olhos apenas para seus pecados e falhas. O ministro relatou ainda uma anedota para quase cada garoto da comitiva, que demonstrava suas naturezas doces e generosas, e para as pessoas se tornou mais fácil enxergar quão nobres e edificantes eram genuinamente tais episódios, mas a memória de que no passado tais momentos tivessem se assemelhado a velhacarias e torpezas das grandes só tornava o presente mais amargo e difícil de conciliar. A congregação se sensibilizava mais e mais pela vida das pobres criaturas, que antes só recebiam desconfiança e o jugo do chicote. As carpideiras não foram portanto as únicas a chorar no enterro. Mesmo o pastor não se conteve e se desmanchou sobre o púlpito.

Houve um farfalhar na galeria, não notado por ninguém. Um momento depois a porta da igreja rangeu, o ministro ergueu seus olhos úmidos para enxergar por sobre o lenço e pôs-se transfixo! Primeiro um par de olhos, depois dois, depois mais, seguiram o gesto do ministro. Como que fundida num só organismo, a congregação ergueu-se e fitou três garotos mortos caminhando pela nave, Tom na frente, Joe a seguir, Huck por último, todos em absolutos farrapos, mas Huck pior que os outros dois! Eles tinham se escondido na galeria abandonada durante todo o sermão!

Tia Polly, Mary e os Harpers se jogaram para abraçar seus restaurados ao reino dos vivos, cobriram-nos de beijos e deram as graças aos céus, enquanto o pobre Huck seguia cabisbaixo e pouco à vontade, sem saber o que fazer ou onde se esconder de tantos olhares perscrutantes.”

“– Tia Polly, não é justo. Alguém tem de estar feliz por ver o Huck.

– E tem mesmo. Eu estou feliz por ver ele, pobre coisa órfã!

E a atenção amorosa que a tia Polly prestou a Huck foi justamente a única coisa capaz de deixar o menino ainda mais embaraçado do que já estava.

De repente o ministro gritou com todo o ímpeto de sua voz:

– Louvai a Deus por todas as bênçãos que Ele derrama – cantai! – e ponde todos os vossos corações nisto!”

“Tom Sawyer o Pirata olhou ao redor entre todos os garotos cheios de inveja e confessou diante de seu coração que esse era o momento de sua vida que lhe dava mais orgulho.”

“Tom recebeu mais abraços e beijos aquele dia – baseado nos humores de tia Polly – do que em todo o ano anterior. E ele tinha dificuldade em saber se o que eles mais expressavam era agradecimento ao bom Deus ou afeição pelo pequeno.”

DÉCIMO OITAVO CAPÍTULO

“Esse era o grande segredo de Tom – o plano para regressar ao lar com seus irmãos-piratas e assistir seus próprios funerais.”

“Tia Polly e Mary foram muito amáveis com Tom, e muito atentas a suas necessidades. Havia uma quantidade infreqüente de conversa. No decurso de uma delas tia Polly disse:

– Sabe, não digo que não tenha sido uma ótima piada, Tom, deixar todo mundo sofrendo bas’camente uma semana pra vocês garotos ficarem no bem-bom. Mas é uma pena que você pudesse ter o coração tão duro a ponto de fazer essa piada justo comigo. Se você podia vir num tronco para ver seu funeral, creio que podia ter vindo me ver só para me dar uma pista de que não estava morto de verdade.

– É, você podia, Tom – disse Mary – e eu acho que você teria se tivesse pensado nisso.

– Teria, Tom? – perguntou tia Polly, sua face reluzindo melancolicamente – Teria, se tivesse pensado nisso?

– Eu… não sei. Teria estragado tudo.

– Tom, eu esperava que você me amasse desse tanto. – respondeu tia Polly num tom enlutado que desconcertou o garoto – Já seria algo se você se importasse o bastante para pensar a respeito, mesmo que não fizesse.”

– Sid teria pensado. E aliás Sid teria pensado e vindo fazer. Tom, você vai olhar pra trás um dia, quando for muito tarde, e vai querer ter se importado um pouquinho mais comigo, quando não custava absolutamente nada!

– Não é nada de mais. Um gato seria capaz de sonhar com alguém. Mas é melhor que nada, eu acho. Com o que você sonhou?

– Quarta-feira à noite sonhei que você estava sentada ali do lado da cama, e Sid sentado perto da caixa de lenha, e Mary perto dele.

– Aconteceu isso mesmo. Acontece sempre. Fico feliz que seu sonho tenha se preocupado em nos mostrar como somos de verdade.

– Sonhei também que a mãe do Joe Harper estava aqui.

– Ué, ela tava aqui! Você sonhou algo mais?

– Ah, muita coisa. Mas já esqueci quase tudo agora.

– Tente se lembrar; não consegue?

– De algum jeito acho que o vento – o vento soprou a – a

– Tente com mais ímpeto, Tom! O vento realmente soprou alguma coisa. Vamos!

Tom apertou os dedos em sua testa por um ansioso minuto e então pronunciou:

– Lembrei! Lembrei! O vento apagou a vela!

– Misericórdia de nós! Continue, Tom, continue!

– E se não me engano nesse momento você falou: “Ué, eu acho que aquela porta—”

– Prossiga, Tom!

– Deixa eu pensar um pouco. Só um momento. Ah sim, você disse que acreditava que a porta estava aberta.

– Assim como estava sentada aqui, eu fiz isso! Não fiz, Mary? Continue!

– E depois… e depois… Não tem como ter certeza, mas era como se você mandasse o Sid conferir e… e…

– E então, e então?!? O que eu fiz o Sid fazer, Tom? O quê, o quê?

– Você fez ele… você… Ah, você mandou ele fechar a porta!

– Pela nossa terra santa! Eu nunca ouvi uma coisa assim em toda a minha vida! Não me diga que não existe nada nos sonhos… Sereny Harper tem que saber disso antes que eu seja uma hora mais velha. Quero só ver ela desmerecer esse sonho com aquele papinho anti-superstição. Que mais, Tom?

– Ah, tudo tá mais claro como o dia agora. Depois você disse que eu não era ruim, só muito malcriado e bicho-do-mato, e de modo algum mais responsável que… que… eu acho que você disse que um potro ou coisa assim.

– E foi isso mesmo! Deus é o maior! Continue, Tom!

– E depois você começou a chorar.

– E foi isso mesmo. Foi isso mesmo que eu fiz. Não a primeira vez. E depois…

– Depois a senhora Harper também começou a chorar e disse que o Joe era igual, e desejou que ela não tivesse chicoteado ele por pegar o creme que ela mesma tinha vomitado…

– Tom! O períspirito estava sobre você! Você estava profetizando – é o que você estava fazendo! Ó terra bendita do Senhor, continue, continue, Tom!

– Então o Sid disse… disse…

– Eu acho que eu não falei nada, não – interpolou Sid.

– Sim, você disse, Sid – atalhou Mary.

– Aquietem suas cabeças e deixem o Tom falar. O que foi que ele disse, Tom?

– Ele disse – eu acho que ele disse que esperava que eu ‘tivesse melhor pr’onde eu tinha ido, mas que se eu tivesse sido melhor algumas vezes…

– É isso, você escutou isso?!? Foram essas mesmas as suas palavras!

– E você calou a boca dele de modo ríspido.

– Eu calei sim! Acho que foi um anjo que me auxiliou. Tinha um anjo lá, nalgum lugar!

– E a senhora Harper contou do Joe assustando ela com uma bombinha, e você falou de Pedro e do calmante…

– Tão genuíno quanto eu estar viva!

– E acho que depois falaram sobre drenar o rio pra procurar a gente, e sobre o funeral ser domingo, e depois você e irmã Harper mais velha se abraçaram e choraram, e elas foram embora.

– Aconteceu assim mesmo! Assim tintim por tintim, tão certo como eu estar sentada aqui com essas pernas! Tom, você não podia contar com mais precisura nem que ‘tivesse aqui na hora! E depois o quê? Desembucha, Tom!

– Acho que você rezou pra mim – e eu podia ver você e ouvir cada palavra que você disse. Você foi pra cama, e eu fiquei com tanta pena que escrevi num pedaço de casca de sicômoro “Não morremos… A gente só deu um tempo sendo piratas”. E deixei na mesa do lado da vela. E depois você parecia tão em paz dormindo… acho que eu fui e me inclinei e te dei um beijo nos lábios.

– Você fez isso, Tom? Fez isso? Eu te desculpo por tudo por esse gesto! E ela prendeu o garoto num abraço tão apertado que fê-lo se sentir o pior dos vilões.

– Muito bonito, Tom, mesmo sendo só um sonho – Sid, soliloquando, deixou-se ouvir.

“Que herói não tinha se tornado Tom! E ele não andava mais saltitando e empinando o nariz, como antes, mas numa postura digna, não sem molejo, como a de um pirata que sabe que é alvo das atenções. Ele tentava não transparecer que reparava nos olhares ou escutava os comentários que despertava ao passar, mas eles eram como manjares para Tom. Os garotos mais novos que ele se apinhavam em seus tornozelos, orgulhosos por estarem por perto e por serem tolerados por Tom tanto quanto alguém se junta à bateria à cabeça duma procissão ou sobe ao elefante que capitaneia a caravana à cidade. Garotos da sua idade tentavam fingir que ele nunca esteve ausente da vila, mas a verdade é que estavam corroídos de inveja. Dariam tudo pela mesma pele bronzeada de Tom, ou sua reluzente notoriedade súbita. E Tom agradecia o fato de ter tantos puxa-sacos, não desejando o fim do espetáculo, que ele achava inclusive mais divertido que a chegada de um circo.

“Nessas circunstâncias, seria estranho que o silêncio de Joe e Tom perdurasse por mais tempo. E então eles cederam e começaram a desabafar e aumentar suas histórias. Foi o acme da glória.

Tom decidiu que estava oficialmente em condições de declarar a independência em relação a Becky Thatcher agora. Bastava-lhe a glória não-amorosa. Agora tão distinguido por suas façanhas, quem sabe ela é que não se arrastasse atrás dele desejando ‘fazer as pazes’. Que ela tentasse, pois ele bancaria o perfeito indiferente. E chegou o dia em que ela apareceu em seu campo de visão. Tom fingiu que não a viu. Ele se moveu e se juntou a um grupo de garotas e garotos, puxando conversa. E ele percebeu que ela tentava capturar sua atenção, com o rosto vermelho e se movendo com graça e alegria para trás e para diante, o olhar nunca parado. Mas ela queria dar a impressão que na verdade estava atrás de outros garotos, ou sempre ocupada com alguém, para despertar-lhe ciúmes. E constantemente ela gargalhava alto para demonstrar que não estava carente de nada. Tom não era tolo e percebeu que ela sempre agia do modo mais eufórico bem perto dele, o que era suspeito. Toda a vaidade viciada de Tom se alimentava dessa atitude de Becky. Portanto, a tática da garota ia mal, e Tom só aumentava seu distanciamento e presunção. Becky se deu conta eventualmente e acabou desistindo. Ela notou que Tom se aproximara de Amy Lawrence mais que de qualquer outra pessoa em particular. Ela não conseguiu conter o desconforto. Mesmo tentando sair de cena, o fato era que seus pés tinham-na fincado no chão, e ela se sentia imobilizada. Ela disse a uma garota, praticamente às costas de Tom, com vivacidade simulada:

– Ora, Mary Austin! Marota, por que não apareceu no domingo?

– Mas eu vim; você não me viu?

– Ora, de modo algum. Você veio mesmo? Onde você sentou?

– Na sala da senhora Peters, como sempre. Inclusive, eu te vi.

– Você me viu? Ora, que engraçado, porque não te notei. Eu queria te falar do piquenique.

– Ah, que legal! Quem vai dar?

– Minha mãe vai dar um piquenique.”

– Ai, maravilha, espero que ela deixe eu participar!

– Vai sim! O piquenique é pra mim mesmo. Ela vai deixar qualquer um que eu queira, e quero que você apareça.

– Muito obrigada pela gentileza. E quando vai ser?

– Hm, acho que perto do período de férias.

– Vai ser muito divertido! Você vai chamar todos os garotos e garotas?

– Sim, todo mundo que é meu amigo – ou que queira ser. – Então ela olhou em direção de Tom, furtivamente, mas continuou falando com Amy Laurence sobre a terrível tempestade na ilha e como um relâmpago deixou o grande sicômoro em pedaços, caindo a um metro dele.

– Ei, posso ir? – disse Grace Miller.

– Sim.

– E eu? – essa foi Sally Rogers.

– Sim.

– Eu também? – Susy Harper dessa vez. – Com o Joe?

– Podem.

E essa cena continuou, cheio de bater de palmas, até que todo o grupo tinha, indivíduo após indivíduo pedido sua permissão, exceto Tom e Amy. Tom se virou e afastou com cálculo, ainda conversando, puxando Amy consigo. Os lábios de Becky tremeram e seus olhos umedeceram.”

“Os ciúmes borbulharam no sangue de Tom. Ele começou a se odiar por jogar fora a chance de reconciliação que Becky lhe oferecera.”

“ela sabia que estava ganhando a guerra, e estava contente por vê-lo sofrer enquanto ela mesma sofria.”

– Qualquer outro garoto! – Tom pensou, rangendo os dentes. – Qualquer outro da cidade, menos aquele espertinho de Saint Louis que acha que se veste como um dândi e que é aristocracia! Muito bem, eu te dei uma sova a primeira vez que você pisou nessa cidade, senhor, e vou te dar outra sova! Espere pelo seu! Só espere! Eu só vou—

E ele acompanhou a ameaça mental pelos gestos físicos de espancar um garoto invisível.

“Becky continuou seu teatro com Alfred, mas como os minutos fossem passando e um Tom amargurado e mordido pelos ciúmes não apareceu sua vitória parecia agora um céu feio e cinzento, e ela foi perdendo o interesse. Ela foi ficando sisuda e distraída, logo depois melancólica. Duas ou três vezes ela focou a audição ao ouvir passos, mas eram falsos alarmes. Tom não veio. Ela por fim se arrependeu de levar sua provocação tão longe.”

DÉCIMO NONO CAPÍTULO

“– Auntie, I know now it was mean, but I didn’t mean to be mean. I didn’t, honest. And besides, I didn’t come over here to laugh at you that night.

– What did you come for, then?

– It was to tell you not to be uneasy about us, because we hadn’t got drowned.”

VIGÉSIMO CAPÍTULO

“– What a curious kind of a fool a girl is! Never been licked in school! Shucks! What’s a licking! That’s just like a girl – they’re so thin-skinned and chicken-hearted. Well, of course I ain’t going to tell old Dobbins on this little fool, because there’s other ways of getting even on her, that ain’t so mean; but what of it? Old Dobbins will ask who it was tore his book. (…) Girls’ faces always tell on them. They ain’t got any backbone. She’ll get licked. Well, it’s a kind of a tight place for Becky Thatcher, because there ain’t any way out of it.”

VIGÉSIMO PRIMEIRO CAPÍTULO

“There is no school in all our land where the young ladies do not feel obliged to close their compositions with a sermon; and you will find that the sermon of the most frivolous and the least religious girl in the school is always the longest and the most relentlessly pious. But enough of this. Homely truth is unpalatable.”

VIGÉSIMO SEGUNDO CAPÍTULO

“to promise not to do a thing is the surest way in the world to make a body want to go and do that very thing. Tom soon found himself tormented with a desire to drink and swear”

“The dreadful secret of the murder was a chronic misery. It was a very cancer for permanency and pain.

Then came the measles. [catapora ou sarampo?]

During 2 long weeks Tom lay a prisoner, dead to the world and its happenings. He was very ill, he was interested in nothing. When he got upon his feet at last and moved feebly downtown, a melancholy change had come over everything and every creature. There had been a ‘revival’, and everybody had ‘got religion’, not only the adults, but even the boys and girls. Tom went about, hoping against hope for the sight of one blessed sinful face, but disappointment crossed him everywhere. He found Joe Harper studying a Testament, and turned sadly away from the depressing spectacle. He sought Ben Rogers, and found him visiting the poor with a basket of tracts. He hunted up Jim Hollis, who called his attention to the precious blessing of his late measles as a warning. Every boy he encountered added another ton to his depression; and when, in desperation, he flew for refuge at last to the bosom of Huckleberry Finn and was received with a Scriptural quotation, his heart broke and he crept home and to bed realizing that he alone of all the town was lost, forever and forever.

And that night there came on a terrific storm, with driving rain, awful claps of thunder and blinding sheets of lightning. He covered his head with the bedclothes and waited in a horror of suspense for his doom; for he had not the shadow of a doubt that all this hubbub was about him. He believed he had taxed the forbearance of the powers above to the extremity of endurance and that this was the result. It might have seemed to him a waste of pomp and ammunition to kill a bug with a battery of artillery, but there seemed nothing incongruous about the getting up such an expensive thunderstorm as this to knock the turf from under an insect like himself.

By and by the tempest spent itself and died without accomplishing its object. The boy’s first impulse was to be grateful, and reform. His second was to wait – for there might not be any more storms.”

“When he got abroad at last he was hardly grateful that he had been spared, remembering how lonely was his estate, how companionless and forlorn he was. He drifted listlessly down the street and found Jim Hollis acting as judge in a juvenile court that was trying a cat for murder, in the presence of her victim, a bird.”

VIGÉSIMO TERCEIRO CAPÍTULO

“he did not see how he could be suspected of knowing anything about the murder, but still he could not be comfortable in the midst of this gossip. It kept him in a cold shiver all the time. He took Huck to a lonely place to have a talk with him. It would be some relief to unseal his tongue for a little while; to divide his burden of distress with another sufferer.”

“– Why, Tom Sawyer, we wouldn’t be alive 2 days if that got found out. You know that.

(…) After a pause:

– Huck, they couldn’t anybody get you to tell, could they?

– Get me to tell? Why, if I wanted that halfbreed [mestiço] devil to drownd me they could get me to tell. They ain’t no different way.”

“– You’ve been mighty good to me, boys – better’n anybody else in this town. And I don’t forget it, I don’t. Often I says to myself, says I, ‘I used to mend all the boys’ kites and things, and show ‘em where the good fishin’ places was, and befriend ‘em what I could, and now they’ve all forgot old Muff when he’s in trouble; but Tom don’t, and Huck don’t – they don’t forget him, says I, ‘and I don’t forget them.’ Well, boys, I done an awful thing – drunk and crazy at the time – that’s the only way I account for it – and now I got to swing for it, and it’s right. Right, and best, too, I reckon – hope so, anyway. Well, we won’t talk about that. I don’t want to make you feel bad; you’ve befriended me. But what I want to say, is, don’t you ever get drunk – then you won’t ever get here. Stand a litter furder west – so – that’s it; it’s a prime comfort to see faces that’s friendly when a body’s in such a muck of trouble, and there don’t none come here but yourn.”

“Tom went home miserable, and his dreams that night were full of horrors. The next day and the day after, he hung about the courtroom, drawn by an almost irresistible impulse to go in, but forcing himself to stay out. Huck was having the same experience.”

“Counsel for Potter declined to question him. The faces of the audience began to betray annoyance. Did this attorney mean to throw away his client’s life without an effort?”

“The perplexity and dissatisfaction of the house expressed itself in murmurs and provoked a reproof from the bench. Counsel for the prosecution now said:

– By the oaths of citizens whose simple word is above suspicion, we have fastened this awful crime, beyond all possibility of question, upon the unhappy prisoner at the bar. We rest our case here.”

“-Your honor, in our remarks at the opening of this trial, we foreshadowed our purpose to prove that our client did this fearful deed while under the influence of a blind and irresponsible delirium produced by drink. We have changed our mind. We shall not offer that plea. [Then to the clerk:] Call Thomas Sawyer!

A puzzled amazement awoke in every face in the house, not even excepting Potter’s. Every eye fastened itself with wondering interest upon Tom as he rose and took his place upon the stand. The boy looked wild enough, for he was badly scared. The oath was administered.

– Thomas Sawyer, where were you on the 17th of June, about the hour of midnight?

– Tom glanced at Injun Joe’s [Joe o Mameluco] iron face and his tongue failed him. The audience listened breathless, but the words refused to come. After a few moments, however, the boy got a little of his strength back, and managed to put enough of it into his voice to make part of the house hear:

– In the graveyard!

– A little bit louder, please. Don’t be afraid. You were—

– In the graveyard.

A contemptuous smile flitted across Injun Joe’s face.

– Were you anywhere near Horse Williams’ grave?

– Yes, sir.

– Speak up – just a trifle louder. How near were you?

– Near as I am to you.

– Were you hidden, or not?

– I was hid.

– Where?

– Behind the elms that’s on the edge of the grave.

Injue Joe gave a barely perceptible start.

– Any one with you?

– Yes, sir. I went there with—

– Wait – wait a moment. Never mind mentioning your companion’s name. We will produce him at the proper time. Did you carry anything there with you?

Tom hesitated and looked confused.

– Speak out, my boy – don’t be diffident. The truth is always respectable. What did you take there?

– Only a—a—dead cat.

There was a ripple of mirth, which the court checked.

– We will produce the skeleton of that cat. Now, my boy, tell us everything that occurred – tell it in your own way – don’t skip anything, and don’t be afraid.

“The strain upon pent emotion reached its climax when the boy said:

– …and as the doctor fetched the board around and Muff Potter fell, Injun Joe jumped with the knife and—

Crash! Quick as lightning the halfbreed sprang for a window, tore his way through all opposers, and was gone!

VIGÉSIMO QUARTO CAPÍTULO

SIDESHOW BOB’S PRECEDENT!

“Tom was a glittering hero once more – the pet of the old, the envy of the young. His name even went into immortal print, for the village paper magnified him. There were some that believed he would be President, yet, if he escaped hanging.

As usual, the fickle, unreasoning world took Muff Potter to its bosom and fondled him as lavishly as it had abused him before. But that sort of conduct is to the world’s credit; therefore it is not well to find fault with it.

Tom’s days were days of splendor and exultation to him, but his nights were seasons of horror. Injun Joe infested all his dreams, and always with doom in his eye.”

“Huck’s confidence in the human race was wellnigh obliterated.”

“He felt sure he never could draw a safe breath again until that man was dead and he had seen the corpse.

Rewards had been offered, the country had been scoured, but no Injun Joe was found. One of those omniscient and awe-inspiring marvels, a detective, came up from St. Louis, moused around, shook his head, looked wise, and made that sort of astounding success which members of that craft usually achieve. That is to say, he ‘found a clew’. But you can’t hang a ‘clew’ for murder, and so after that detective had got through and gone home, Tom felt just as insecure as he was before.”

VIGÉSIMO QUINTO CAPÍTULO

“There comes a time in every rightly-constructed boy’s life when he has a raging desire to go somewhere and dig for hidden treasures.”

“Huck was always willing to take a hand in any enterprise that offered entertainment and required no capital, for he had a troublesome superabundance of that sort of time which is not money. ‘Where’ll we dig?” said Huck:

– Oh, most anywhere.

– Why, is it hid all around?

– No, indeed it ain’t. It’s hid in mighty particular places, Huck – sometimes on islands, sometimes in rotten chests under the end of a limb of an old dead tree, just where the shadow falls at midnight; but mostly under the floor in ha’nted houses.

– Who hides it?

– Why, robbers, of course – who’d you reckon? Sunday-school sup’rintendents?

– (…) I wouldn’t hide it; I’d spend it and have a good time.

– So would I. But robbers don’t do that way. They always hide it and leave it there.

– Don’t they come after it any more?

– No, they think they will, but they generally forget the marks, or else they die. Anyway, it lays there a long time and gets rusty; and by and by somebody finds an old yellow paper that tells how to find the marks – a paper that’s got to be ciphered over about a week because it’s mostly signs and hy’roglyphics.

– Hyro–which?

– Hy’rogryplhics – pictures and things, you know, that don’t seem to mean anything.

– Have you got one of them papers, Tom?

– No.

– Well then, how you going to find the marks?

– I don’t want any marks. They always bury it under a ha’nted house or on an island, or under a dead tree that’s got one limb sticking out. Well, we’ve tried Jackson’s Island a little, and we can try it again some time; and there’s the old ha’nted house up the Still-House branch, and there’s lots of dead-limb trees – dead loads of ‘em.

– Is it under all of them?

– How you talk! No!

– Then how you going to know which one to go for?

– Go for all of ‘em!

– Why, Tom, it’ll take all summer.

– Well, what of that? Suppose you find a brass pot with 100 dollars in it, all rusty and gray, or rotten chest full of di’monds. How’s that?

Huck’s eyes glowed.

– That’s bully. Plenty bully enough for me. Just you gimme the hundred dollars and I don’t want no di’monds.”

“– Richard? What’s his other name?

– He didn’t have any other name. Kings don’t have any but a given name.

– No?

– But they don’t.

– Well, if they like it, Tom, all right; but I don’t want to be a king and have only just a given name, like a nigger. But say—where you going to dig first?”

“– Well, I’ll have pie and a glass of soda every day, and I’ll go to every circus that comes along. I bet I’ll have a gay time.

– Well, ain’t you going to save any of it?

– Save it? What for?

– Why, so as to have something to live on, by and by.

– Oh, that ain’t any use. Pap would come back to thish-yer town some day and get his claws on it if I didn’t hurry up, and I tell you he’d clean it out pretty quick. What you going to do with yourn, Tom?

– I’m going to buy a new drum, and a sure’nough sword, and a red necktie and a bull pup, and get married.

– Married!

– That’s it.

– Tom, you – why, you ain’t in your right mind.

– Wait – you’ll see.

– Well, that’s the foolishest thing you could do. Look at pap and my mother. Fight! Why, they used to fight all the time. I remember, mighty well.

– That ain’t anything. The girl I’m going to marry won’t fight.

– Tom, I reckon they’re all alike. They’ll all comb a body. Now you better think ‘bout this awhile. I tell you you better. What’s the name of the gal?

– It ain’t a gal at all – it’s a girl. [Não é uma garota – é uma moça.]

– It’s all the same, I reckon; some says gal, some says girl – both’s right, like enough. Anyway, what’s her name, Tom?

– I’ll tell you some time – not now.

– All right – that’ll do. Only if you get married I’ll be more lonesomer than ever.

– No you won’t. You’ll come and live with me. Now stir out of this and we’ll go to digging.

They worked and sweated for half an hour. No result. They tolled another half-hour. Still no result. Huck said:

– Do they Always bury it as deep as this?

– Sometimes – not always. Not generally. I reckon we haven’t got the right place.”

“– It is mighty curious, Huck. I don’t understand it. Sometimes witches interfere. I reckon maybe that’s what’s the trouble now.

– Shucks! [Putz?] Witches ain’t got no power in the daytime.

– Well, that’s so. I didn’t think of that. Oh, I know what the matter is! What a blamed lot of fools we are! You got to find out where the shadow of the limb falls at midnight, and that’s where you dig!

– Then consound it, we’ve fooled away all this work for nothing. Now hang it all, we got to come back in the night. It’s an awful long way. Can you get out?

– I bet I will. We’ve got to do it tonight, too, because if somebody sees these holes they’ll know in a minute what’s here and they’ll go for it.

– Well, I’ll come around and maow tonight.

– All right. Let’s hide the tools in the bushes.

The boys were there that night, about the appointed time. They sat in the shadow waiting. It was a lonely place, and an hour made solemn by old traditions. Spirits whispered in the rustling leaves, ghosts lurked in the murky nooks, the deep baying of a hound floated up out of the distance, an owl answered with his sepulchral note. The boys were subdued by these solemnities, and talked little. By and by they judged that 12 had come (…) Their interest grew stronger, and their industry kept pace with it. The hole deepened and still deepened, but every time their hearts jumped to hear the pick strike upon something, they only suffered a new disappointment. It was only a stone or a chunk.”

“– (…) I feel as if something’s behind me all the time; and I’m afeard to turn around, becuz maybe there’s others in front a-waiting a chance. I been creeping all over, ever since I got here.

– Well, I’ve been pretty much so, too, Huck. They most always put in a dead man when they bury a treasure under a tree, to look out for it.

– Lordy!

– Yes, they do. I’ve always heard that.

– Tom, I don’t like to fool around much where there’s dead people. A body’s bound to get into trouble with ‘em, sure.

– (…) S’pose this one here was to stick his skull out and say something!

– Don’t Tom! It’s awful.;

– Well, it jus tis. Huck, I don’t feel comfortable a bit.

– Say, Tom, let’s give this place up, and try somewhere else.

– All right, I reckon we better.”

“– Well, all right. We’ll tackle the ha’nted house if you say so – but I reckon it’s talking chances.”

VIGÉSIMO SEXTO CAPÍTULO

“– Lookyhere, Tom, do you know what day it is?

Tom mentally ran over the days of the week, and then quickly lifted his eyes with a startled look in them—

– My! I never once thought of it, Huck!

– Well, I didn’t neither, but all at once it popped onto me that it was Friday.

– Blame it, a body can’t be too careful, Huck. We might ‘a’ got into an awful scrape, tackling such a thing on a Friday.

– Might! Better say we would! There’s some lucky days, maybe, but Friday ain’t.

– Any fool knows that. I don’t reckon you was the first that found it out, Huck.

– Well, I never said I was, did I? And Friday ain’t all, neither. I hada rotten bad dream last night – dreamt about rats.

– No! Sure sign of trouble. Did they fight?

– No.

– Well, that’s good, Huck. When they don’t fight it’s only a sign that there’s trouble around, you know. All we got to do is to look mighty sharp and keep out of it. We’ll drop this thing for today, and play. Do you know Robin Hood, Huck?

– No. Who’s Robin Hood?

– Why, he was one of the greatest men that was ever in England – and the best. He was a robber.

– Cracky, I wisht I was. Who did he rob?

– Only sheriffs and bishops and rich people and kings, and such like. But he never bothered the poor. He loved ‘em. He Always divided up with ‘em perfectly square.

– Well, he must ‘a’ been a brick.

– I bet you he was, Huck. Oh, he was the noblest man that ever was. They ain’t any such men now, I can tell you. He could lick any man in England, with one hand tied behind him”

“On Saturday, shortly after noon, the boys were at the dead tree again. They had a smoke and a chat in the shade, and then dug a little in their last hole, not with great hope, but merely because Tom said there were so many cases where people had given up a treasure after getting down within 6 inches of it, and then somebody else had come along and turned it up with a single thrust of a shovel. The thing failed this time, however, so the boys shouldered their tools and went away feeling that they had not trifled with fortune, but had fulfilled all the requirements that belong to the business of treasure-hunting.”

“– They’ve stopped… No – coming… Here they are. Don’t whisper another word, Huck. My goodness, I wish I was out of this!

Two men entered. Each boy said to himself: ‘There’s the old deaf and dumb Spaniard that’s been about town once or twice lately – never saw t’other man before.’”

“– Dangerous!, grunted the ‘deaf and dumb’ Spaniard – to the vast surprise of the boys. ‘Milksop!’

This voice made the boys gasp and quake. It was Injun Joe’s! There was silence for some time. Then Joe said:

– What’s any more dangerous than that job up yonder – but nothing’s come of it.”

“– Look here, lad – you go back up the river where you belong. Wait there till you hear from me. I’ll take the chances on dropping into this town just once more, for a look. We’ll do that ‘dangerous’ job after I’ve spied around a little and think things look well for it. Then for Texas! We’ll leg it together!

This was satisfactory. Both men presently fell to yawning, and Injun Joe said:

– I’m dead for sleep! It’s your turn to watch.”

“The boys drew a long, grateful breath. Tom whispered:

– Now’s our chance – come!

Huck said:

– I can’t – I’d die if they was to wake.

Tom urged – Huck held back. At last Tom rose slowly and softly, and started alone. But the first step he made wrung such a hideous creak from the crazy floor that he sank down almost dead with fright. He never made a second attempt. The boys lay there counting the dragging moments till it seemed to them that time must be done and eternity growing gray; and then they were grateful to note that at last the sun was setting.

Now one snore ceased. Injun Joe sat up, stared around – smiled grimly upon his comrade, whose head was drooping upon his knees – stirred him up with his foot and said:

– Here! You’re a watchman, ain’t you! All right, though – nothing’s happened.”

“– I don’t know – leave it here as we’ve always done, I reckon. No use to take it away till we start south. 650 silver’s something to carry.”

“accidents might happen; ‘tain’t in such a very good place; we’ll just regularly bury it deep.”

“The boys forgot all their fears, all their miseries in an instant. With gloating eyes they watched every movement. Luck! – the splendor of it was beyond all imagination! 600 dollars was Money enough to make half a dozen boys rich! Here was treasure-hunting under the happiest auspices – there would not be any bothersome uncertainty as to where to dig. They nudged each other every moment – eloquent nudges and easily understood, for they simply meant – ‘Oh, but ain’t you glad now we’re here!’

Joe’s knife struck upon something.

– Hello!, said he.

– What is it?, said his comrade.

– Half-rotten plank – no, it’s a box, I believe. Here – bear a hand and we’ll see what it’s here for. Never mind, I’ve broken a hole.

He reached his hand in and drew it out—

– Man, it’s money!

The two men examined the handful of coins. They were gold. The boys above were as excited as themselves, and as delighted.

Joe’s comrade said:

– We’ll make quick work of this. There’s an old rusty pick over amongst the weeds in the corner the other side of the fireplace – I saw it a minute ago.

He ran and brought the boys’ pick and shovel. Injun Joe took the pick, looked it over critically, shook his head, muttered something to himself, and then began to use it.”

“– Pard, there’s thousands of dollars here, said Injun Joe.”

“– Now you won’t need to do that job.”

“-You don’t know me. Least you don’t know all about that thing. ‘Tain’t robbery altogether – it’s revenge! – And a wicked light flamed in his eyes. – I’ll need your help in it. When it’s finished, then Texas. Go home to your Nance and your kids, and stand by till you hear from me.

– Well – if you say so; what’ll we do with this – bury it again?

– Yes. [Ravishing delight overhead.] No! by the great Sachem, no! [Profound distress overhead.] I’d nearly forgot. That pick had fresh earth on it! [The boys were sick with terror in a moment.] What business has a pick and a shovel here? What business with fresh earth on them? Who brought them here – and where are they gone? Have you heard anybody? – seen anybody? What! bury it again and leave them to come and see the ground disturbed? Not exactly – not exactly. We’ll take it to my den.

– Why, of course! Might have thought of that before. You mean Number One?

– No – Number Two – under the cross. The other place is bad – too common.

– All right. It’s nearly dark enough to start.

Injue Joe got up and went about from window to window cautiously peeping out. Presently he said:

– Who could have brought those tools here? Do you reckon they can be upstairs?

The boys’ breath forsook them. Injue Joe put his hand on his knife, halted a moment, undecided, and then turned toward the stairway. The boys thought of the closet, but their strength was gone. The steps came creaking up the stairs – the intolerable distress of the situation woke the stricken resolution of the lads – they were about to spring for the closet, when there was a crash of rotten timbers and Injun Joe landed on the ground amid the debris of the ruined stairway. He gathered himself up cursing, and his comrade said:

– Now what’s the use of all that? If it’s anybody, and they’re up there, let them stay there – who cares? If they want to jump down, now, and get into trouble, who objects? It will be dark in 15 minutes – and then let them follow us if they want to. I’m willing. In my opinion, whoever hove those things in here caught a sight of us and took us for ghosts or devils or something. I’ll bet they’re running yet.

Joe grumbled awhile, then he agreed with his friend that what daylight was left ought to be economized in getting things ready for leaving. Shortly afterward they slipped out of the house in the deepening twilight, and moved toward the river with their precious box.”

“Follow? Not they. They were contente to reach ground again without broken necks (…) They did not talk much. They were too much absorbed in hating themselves – hating the ill luck that made them take the spade and the pick there. But for that, Injun Joe never would have suspected. He would have hidden the silver with the gold to wait there till his ‘revenge’ was satisfied, and then he would have had the misfortune to find that money turn up missing. Bitter, bitter luck that the tools were ever brought there!”

“Very, very small comfort it was to Tom to be alone in danger! Company would be a palpable improvement, he thought.”

VIGÉSIMO SÉTIMO CAPÍTULO

“the quantity of coin he had seen was too vast to be real.” “he was like all boys of his age and station in life, in that he imagined that all references to ‘hundreds’ and ‘thousands’ were mere fanciful forms of speech, and that no such sums really existed in the world.”

VIGÉSIMO OITAVO CAPÍTULO

“– Yes! He was lying there, sound asleep on the floor, with his old patch on his eye and his arms spread out.

– Lordy, what did you do? Did he wake up?

– No, never budged. Drunk, I reckon. I just grabbed that towel and started!

– I’d never ‘a’ thought of the towel, I bet!

– Well, I would. My aunt would make me mighty sick if I lost it.

– Say, Tom, did you see that box?

– … U didn’t see the cross. I didn’t see anything but a bottle and a tin cup on the floor by Injun Joe (…) Don’t you see, now, what’s the matter with that ha’nted room?

– How?

– Why, it’s ha’nted with whiskey! Maybe all the Temperance Taverns have got a ha’nted room, hey, Huck?”

“– I said I would, Tom, and I will. I’ll ha’ntt that tavern every night for a year! I’ll sleep all day and I’ll stand watch all night.”

“That’s a mighty good nigger, Tom. He

TOM SAWYER .76

—

GLOSSÁRIO INGLÊS

andiron: cão-de-lareira (móvel antigo onde se deixavam as toras de madeira ainda não usadas)

brass: latão

clodding: tolo (arc.)

knob: maçaneta

marble: bola de gude (de vidro), por extensão white marble, já que o mármore é branco.

—

LEWIS CARROLL #SérieOsÚltimosPolímatas

“polímata

(po·lí·ma·ta)

adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros

Que ou quem estudou e sabe muitas coisas ou muitas ciências (ex.: Santa Hildegarda era uma freira polímata; os polímatas são peritos em muitas áreas do conhecimento). = POLÍMATE, POLÍMATO

<polímata>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/pol%C3%ADmata.”

Traduzido do wikipedia English com algumas (muitas!) liberdades autorais…

Lewis Carroll

From Wikipedia, the free encyclopedia

 

Carroll em junho de 1857

Nascimento

Charles Lutwidge Dodgson
27 de janeiro de 1832
Daresbury, Cheshire, Inglaterra

Morte

14 de Janeiro de 1898 (aos 65 anos)
Guildford, Surrey, Inglaterra

Restos mortais

Mount Cemetery, Guildford, Surrey, Inglaterra

Ocupações

  • Escritor (atingiu a excelência)

  • Ilustrador

  • Poeta (atingiu a excelência)

  • Matemático (atingiu a excelência)

  • Fotógrafo (atingiu a excelência)

  • Professor

  • Inventor

Educação formal

Gêneros literários

  • Literatura fantástica

  • Literatura infantil

  • Matemática > Álgebra linear

  • Matemática > Lógica

  • Poesia

  • Política > Teoria do voto

  • Nonsense

Pais

Charles Dodgson (pai)

Família

 
 

O inglês Charles Lutwidge Dodgson (1832–1898), mais conhecido por seu nome de autor Lewis Carroll, foi escritor de prosa e poesia, matemático e fotógrafo, principalmente. Seus maiores trabalhos são Alice no País das Maravilhas (1865) e sua continuação (…) Através do espelho (1871). Se o considerava talentoso para os jogos de palavra, raciocínio lógico e criações fabulosas e imaginativas. Seus poemas em Jabberwocky (1871) e The Hunting of the Snark [ver tradução melhor] (1876) são considerados precursores da literatura do não-senso.

Carroll vem de uma família tradicional de anglicanos, tanto que toda sua educação formal se deu na Christ Church, onde também morou e lecionou a maior parte de sua vida.

Alice Liddell (1852-1934) – filha de Henry Liddell, o reitor de Christ Church – é quase tão famosa quanto Carroll e quase unanimemente identificada como a principal inspiração para seu personagem mais celebrado. Em vida, entretanto, Carroll negava veementemente que a Alice dos livros fosse inspirada por ou apenas pela menina dos Liddell.

Um ávido montador e propositor de quebra-cabeças, Carroll criou o jogo de word ladder (que ele chamava “doublets”, uma espécie de jogo de adivinhação de palavras, ou melhor, associação lógica de palavras),¹ publicados semanalmente em sua coluna da revista Vanity Fair (revista vitoriana que durou quase meio século) entre 1879 e 1881.

¹ Já podemos dizer que esse aparato é mais sofisticado que qualquer “metodologia” pseudanalítica de um século mais tarde.

(…)

Infância

(…) Maioria de seus antepassados masculinos eram oficiais do exército ou pastores da igreja. Seu bisavô chegou a bispo de Elphin no interior da Irlanda. Seu avô paterno, outro Charles, foi capitão do exército, morto em combate em 1803, quando o pai e os tios de Carroll não passavam de bebês. (…) Talento nato para a matemática, igual se mostraria o filho, o professor Dodgson poderia ter escolhido o caminho exclusivo do bacharelado. Em vez disso, ele preferia uma vida mais seclusa. Casou com a prima Frances Jane Lutwidge em 1830 e se tornou um modesto pároco de província.

Dodgson (Lewis) era a terceira de onze crianças do casal, sendo o primeiro menino. Aos 11 anos, mudou-se para Yorkshire devido a uma promoção de seu pai. Esta foi sua casa pelos próximos 25 anos de sua vida. Seu pai era um religioso extremamente ortodoxo e chegaria ainda ao cargo de Arqui-deão/Arqui-decano de Richmond. Era um polemista em questões de moral e cismas religiosos. O maior ídolo do homem era John Henry Newman (polímata e santificado pela igreja católica em 2019!), líder do Tractarian movement (a redação de um número de panfletos que queria dogmatizar a igreja anglicana especificamente inglesa à parte de outras conformações, como a da Irlanda).

Seu filho homem mais velho, nem precisamos dizer, não herdou todas as concepções ortodoxas e aristocráticas de seu progenitor, tendo preferido ser autor e professor de matemática antes de deão. Aos 7, Carroll, segundo anotações da família, lia livros para adultos – posto que montados sobre complicadas alegorias – como The Pilgrim’s Progress (…) de Bunyan. Ele e vários de seus irmãos e irmãs eram gagos, o que limitava suas perspectivas sociais. (…)

Auto-retrato circa 1856, aos 24.

Alegadamente, segundo seu diário, no período de 3 anos em que estudou na Rugby School Dodgson (e todos os mais jovens ou novatos), sofreu bullying. (…) Seu sobrinho Stuart Collingwood escreveria mais tarde: “Muito embora seja difícil de figurar meu tio como alguém diferente dessa persona meiga e retraída que todos conhecem, é também verdade que, mesmo anos depois de deixar de ser um estudante, seu nome era ainda recordado como o de alguém que sabia usar os punhos em auto-defesa dos mais fracos quando necessário”, referindo-se principalmente a lutas em que Lewis defendia não a si mesmo mas as outras vítimas de assédio da escola.

“Em matemática, nunca vi alguém tão dotado em todos os meus anos na Rugby School quanto Dodgson”, escreveu o professor da instituição R.B. Mayor. (…) Seus estudos nesta instituição duraram de 1846 a 1849, no que poderíamos equivalê-los ao nosso ensino médio. Em maio de 1850 Dodgson já estava matriculado em Oxford na disciplina que tanto notabilizou não só a ele, mas a sua família como um todo, como se corresse no sangue. Apenas dois dias após o início das aulas, Lewis foi convocado para voltar ao lar: sua mãe havia morrido de uma “inflamação no cérebro”, talvez decorrente de um surto de meningite, ou um derrame, provocado ou não por alguma forte pancada. Ela tinha apenas 47 anos.

Seus anos na academia transitaram, segundo ele mesmo em seus diários, entre corresponder ao status de gênio que lhe era imputado pelos mais velhos e uma incrível capacidade de distração e “desleixo” para com a seriedade excessiva do ambiente. Em 1852 ele obteve uma menção honrosa como um dos mais destacados alunos da Universidade. Isso valeu-lhe uma bolsa oferecida pelo amigo de seu pai, o cânone da igreja Edward Pusey. Em 1854, imediatamente antes de se formar, adquiriria outra menção honrosa.

(…) Quando não atuava, de forma contínua ou intermitente, como professor da instituição na qual se formou, Lewis desempenhava uma miríade de cargos honoríficos, como o de sub-bibliotecário da própria Christ Church, algo parecido com a reitoria ou pró-reitoria da instituição.¹ (…)

¹ Assim como a denominação secretário, bibliotecário sofreu, no mundo profissional e na língua portuguesa, grande “baque” ou “recessão”…

Personalidade e aparência

Problemas de saúde

Fotografia de 1863 por Oscar G. Rejlander

Charles Dodgson, uma vez adulto, tinha cerca de 1.83m e era muito magro. Tinha cabelo encaracolado castanho e olhos entre azul e cinza (difíceis de definir conforme cada testemunho diferia). Foi descrito em seus anos finais como um “senhor excêntrico”, assimétrico, um tanto falto de harmonia e bizarro. Suspeita-se que esse quadro não seria veraz, dadas indicações de que também já havia possuído porte atlético, não fosse por uma lesão crônica no joelho que adquiriu à meia-idade.

Quando era criança sofreu de uma febre que o deixou surdo de um ouvido. Aos 17, teve um ataque severo de coqueluche, o que talvez explique a fraqueza de seus pulmões durante toda a vida madura. Sua gagueira permaneceu oscilante e relativamente controlada, mas de modo geral incurada, hoje um de seus traços mais conhecidos. A principal instância desse fato está auto-parodiada pelo Dodo (animal extinto no mundo real e que repetia sílabas, já no nome) de Alice no País das Maravilhas.

(…)

Lewis viveu em tempos em que a “alta sociedade” exigia certa fluência oratória, quando não talento lírico para as músicas e serões em grupos e bailes. Mas parece que Lewis não era mau cantor, nem se intimidava diante do público, assim como recitar poemas ou predicar a fé não lhe eram situações problemáticas. Outras de suas renomadas especialidades são a mímica e o conto improvisado de estórias (assim começou Alice no País das Maravilhas, inclusive). Melhor ainda, era um grande charadista.

Conexões

Entre seus primeiros escritos e o mega-sucesso da dobradinha Alice, Dodgson participava ativamente de um círculo de intelectuais “pré-rafaelitas” (eruditos e rebuscados, desejosos de disseminar uma cultura que antecedia mesmo o neo-classicismo, ainda que não fosse gótica como a da idade média). Assim foi que ele conheceu John Ruskin¹ em 1857. Em 1863 entabulou relações com Dante Gabriel Rossetti e sua família. Rossetti era outro polímata: poeta, pintor, tradutor. Outras celebridades do círculo eram William Holman Hunt, Arthur Hughes e John Everett Millais. Mas aquele autor com características mais similares as suas talvez fosse George MacDonald, nem que somente por haver se notabilizado pela autoria de obras “para crianças”. Na verdade parece que a entusiástica recepção dos esboços de Alice pelos filhos deste último encorajaram Carroll de forma decisiva para empreender sua reescrita e publicação finais. Carroll, notório fotógrafo, tiraria muitas fotos da família MacDonald e também da família Rossetti em seus jardins em Chelsea.

¹ Mais um polímata britânico do XIX retroativamente acusado pelos acadêmicos de pedófilo.

Política, religião e filosofia

Dodgson seguiu minimamente a tradição de seu pai: era um conservador purista em todos os tópicos sociais, mesmo os do pensamento humano, quando não acabava atingindo verdades póstumas via insights em suas novelas. Martin Gardner descreve Dodgson como um Tory preconceituoso e esnobe com as classes trabalhistas, o que nos causa estranheza. William Tuckwell, em Reminiscências de Oxford (1900), entendia-o como “austero, tímido, preciso, absorvido por demais em esquemas matemáticos, muito autoconsciente de seu senso de dignidade, algo conservador além do que parecia confortável a sua própria natureza, como que por inércia ou razões de família, e, enfim, prisioneiro de preconceitos vitorianos”.

(…)

Dodgson também foi um membro-fundador da Sociedade para a Pesquisa Psíquica, e ele era um claro defensor da teoria da telepatia (em Sílvia e Bruno dedica todo o poder e fé a essas crenças ao seu eu-lírico).

(…)

Na arte

Uma das ilustrações de Carroll

Literatura

Desde a adolescência se dedicou aos poemas e pequenos contos. Havia uma revista da família, Mischmasch, em que contribuía. Quando esses escritos foram revividos por publicações profissionais, obtiveram sucesso moderado. Nos anos 1850 ele se tornaria um autor nacionalmente conhecido (antes de Alice, quando se tornou mundialmente consagrado). Destacava-se mais nas publicações que fossem bem-humoradas, satíricas, etc.

Uma de suas peças de teatro para serem encenadas por marionetes por suas irmãs, nunca publicada em seus tempos, sobreviveu para nosso escrutínio: La Guida di Bragia. Seu primeiro poema realmente famoso foi Solitude (Solidão), num exemplar de The Train, em que Dodgson já usava o alter ego ou pseudônimo Lewis Carroll, a partir dali indissociável de sua carreira literária não-acadêmica. (…) Participou da escolha de seu nome artístico um dos editores de suas obras, Edmund Yates. Ele vetou outros nomes sugeridos por Dodgson: Edgar Cuthwellis, Edgar U.C. Westhill e Louis Carroll!

Os livros de Alice

The Jabberwock, ilustrado por John Tenniel, mais famoso pelas caricaturas dos dois volumes de Alice. Uma parte deste poema, autocontido, está em Através do Espelho.

Em 1856 o autor conheceu Henry Liddell e sua família. Não só o pai da família se tornou seu confidente (e basicamente patrão, pois era figura importante de Oxford) como a esposa Liddell, Lorina, e suas crianças também lhe amigaram muito rápido. Eram três irmãs mulheres, Lorina a Filha, Edith e Alice, a caçula. Em geral a Alice da pena de Lewis não lembra Liddell, realmente, em seus atributos físicos e em grande parte de sua personalidade infantil. É curioso, ainda mais em vista do que diremos a seguir sobre o “escândalo Carroll-Liddell”, que Lorina conste como figura proeminente no epílogo de País das Maravilhas…

Outra “pequena musa” de suas obras foi Gertrude Chataway (já de uma época em que Alice Liddell era uma mulher adulta), a quem dedica um poema com acrósticos no prelúdio de The Hunting of the Snark. Isso não sugere, ao contrário das lendas urbanas muito ou pouco exageradas no caso dos livros de mais fama, que Gertrude tenha sido tal e qual transposta para a narrativa ou tenha sido uma inspiração essencial da obra. Encara-se como uma simples dedicatória, como todo autor tem o direito de fazer, e costumeiramente o faz.

O que não nos permite tecer conclusões cabais de nenhum tipo sobre a força ou intensidade das relações com suas “musas” é que os diários do autor de 1858-62 estão irremediavelmente perdidos para nós. Isso não nos veda o conhecimento de que Lewis era realmente amigo íntimo da família Liddell e passeava de barco/gôndola com as crianças do casal em fins de semana e feriados, por exemplo, nas águas que circundam a Universidade de Oxford. Parece que a amizade com filhos de conhecidos não se mantinha após crescerem, no caso de Dodgson, mas com Alice Liddell a fofoca e as lendas urbanas atingiram o nível máximo na imprensa e nos estudos acadêmicosb.

(…)

Graças ao sucesso do primeiro livro de Alice, Dodgson se viu, pela primeira vez na vida, essencialmente um homem rico e independente. Anedoticamente se conta que a própria Rainha Vitória se enamorou tanto do livro que teria instado o autor a dedicar seu próximo livro a ela, mas este não foi um livro infanto-juvenil, e sim um maciço volume acadêmico chamado An Elementary Treatise on Determinants (Tratado Elementar sobre Determinantes Matemáticas). Mas, como com a frase “os boatos de minha morte foram um tanto exagerados”, podemos suspeitar da veracidade desta lenda: a dedicatória existe, porém não há registro fiável de que a rainha Vitória tenha feito esta súplica de homenagem.

Mesmo com o ganho satisfatório advindo de suas publicações, contudo, Lewis seguiu em Christ Church, como um professor comum. A continuação da primeira parte de Alice (não que a estória tenha terminado inconclusa) demoraria quase uma década, Através do Espelho. É um livro mais sinistro e sério, como aliás seria a tendência para Sílvia e Bruno, dificilmente catalogável, em sua metade “menos élfica” como “livro de crianças”!

Como sempre, os críticos querem encontrar em circunstâncias pessoais os motivos para o tom mais melancólico de uma obra, neste caso uma duologia que, dizem, começa muito mais alegre do que termina: o pai de Lewis morrera em 1868, entre as duas publicações. Fato muito fraco para ser causa de uma mudança de estilística ou de sentimento e humor num autor de grande envergadura.

The Hunting of the Snark¹

¹ Snark é uma criatura mitológica inventada por Carroll, portanto não me cabe traduzir o nome. O restante do livro sim: A Caça ou Caçada ao Snark.

Trata-se de um poema épico eivado de nonsense. Henry Holiday substitui Tenniel como seu ilustrador desta vez. Talvez seja uma releitura do mito de Ahab-Moby Dick. Entre 1876 e 1908 o livro teve 17 reimpressões, outro sucesso incontestável, desta vez noutro gênero. Hoje é comum vê-lo transposto para musicais, óperas, peças e músicae, embora muito menos lido que Alice, o que não é difícil, uma vez que Alice é um dos livros mais lidos de todos os tempos. Ainda falta o filme, bem como um maior reconhecimento para o legado de Sílvia e Bruno. Voltando a Snark, Dante Gabriel Rossetti costumava dizer que o poema era inteiro sobre ele.

Sylvie and Bruno

Como três/duas décadas atrás, eis Carroll produzindo um livro para o público infanto-juvenil em dois volumes mais uma vez, Sílvia e Bruno, um casal de irmãos-fada, numa trama um tanto mais elaborada que as anteriores, embora cheias dos mesmos jogos de palavras e absurdos temáticos encantadores sob a pena de Carroll. Na verdade há duas main plots que se desenvolvem de forma ora paralela, ora complementar, num enredo espiralado e interdependente. Um é o mundo real da Inglaterra interiorana cujo protagonista é um senhor idoso suscetível à crença nas tais fadas (muito parecido com o próprio Carroll em seu temperamento e humor) – este senhor não é chamado por um nome próprio no decorrer de todo o livro. (O Seclusão postará seus principais trechos em poucos dias.) A outra metade é dedicada às desventuras dos pequenos irmãos exilados de Exotilândia, peregrinos de Elfolândia e outros países ou mundos de faz-de-conta que vivem nos interstícios do nosso, neste enredo. A obra tem bastantes mensagens crít(p)icas e conteúdos inapreensíveis para pessoas demasiadamente jovens sem muita semelhança com a precocidade intelectual do próprio Dodgson, o que me permite situá-la na literatura universal do mais alto nível sem constrangimento algum. Mesmo não fazendo tanto sucesso comercial (comparativamente), o livro nunca esgotou seus exemplares ou saiu de circulação, recebendo reimpressões constantes, em mais de um século.

Hobby (em alto nível) da fotografia (1856–1880)

Foto de Alice Liddell tirada pelo próprio Lewis Carroll (1858)

Em 1856 Dodgson descobriu a nova arte da fotrografia e a abraçou por completo, sob influência de um primo, Skeffington Lutwidge, e do colega oxfordiano Reginald Southey. Em pouco tempo ver-se-ia que Carroll não era só um entusiasta da nova tecnologia e meio de expressão artística imagético, tendo muito tato e senso estético para suas imagens, como um fotógrafo vocacionado atual.

Um estudo exaustivo de Roger Taylor e Edward Wakeling conseguiu reunir todos os retratos sobreviventes do autor (https://www.abebooks.com/9780691074436/Lewis-Carroll-Photographer-Taylor-Roger-0691074437/plp). O objeto favorito de Carroll eram garotas pré-púberes (cerca de 50% de suas modelos fotográficas). Estima-se que mais da metade das fotos tiradas por Dodgson foram destruídas pelo autor antes de sua morte ou por seus parentes, talvez mediante pedido do autor em testamento. Ele também fez estudos de paisagens, garotos e homens adultos. Mesmo objetos inanimados: esqueletos, bonecas, estátuas, pinturas (primeiras instâncias de um mélange ou intersemiótica de fotografia e outras artes?); ou então animais, principalmente cães, e a vida vegetal. Sempre que fotografava crianças ele mantinha um dos pais como testemunha em toda a sessão. A famosa foto acima, uma das que nos permite conhecer a fisionomia da Alice “verdadeira”, foi tirada nos jardins da propriedade dos Liddell: era comum àquele tempo ser melhor tirar fotos aproveitando-se da luz solar, pois não havia ainda bons estúdios de fotografia nem lugares fechados com iluminação hoje dita profissional.

The Rossetti Family, Lewis Carroll (1863). L-R: Dante Gabriel Rossetti, Christina Rossetti, Frances Polidori e William Michael Rossetti

A fotografia de pessoas célebres também valeu-lhe contatos importantes e dinheiro: John Everett Millais, Ellen Terry, Julia Margaret Cameron, Michael Faraday (um dos nossos polímatas da série!), Lord Salisbury e Alfred Tennyson.

Em 1880 Dodgson se aposentou da fotografia (foram 24 anos de carreira). Ele tinha um lugar para armazenar seus retratos no sótão de Tom Quad. O aposento constituía um acervo de 3 mil imagens. Como dito, conhecemos hoje menos de mil, então é uma estimativa, no melhor dos mundos. Algumas fotos foram perdidas unicamente pelo desgaste do tempo e não-atendimento dos requisitos de preservação do suporte, não por negligência, mas pela precocidade técnica do trabalho de Carroll.

Como fotógrafo da velha guarda, seu método de revelação estava se tornando obsoleto e ele tinha de perder muito tempo com fotografias, o que o privava das delícias da literatura e da matemática, daí sua “aposentadoria” anunciada, bem antes do fim de seus anos ativos.

Matemática

Pintura-retrato póstuma de Lewis Carroll por Hubert von Herkomer.

Suas sub-especialidades eram os campos da geometria, álgebra linear, álgebra de matrizes, lógica e matemática recreativa (podendo ser considerado o pai da ‘disciplina’), tendo escrito quase uma dúzia de livros no assunto, com seu nome de batismo, não Lewis Carroll.

Dodgson produziu a primeira prova impressa do Teorema de Rouché-Capelli; contribuiu com novas idéias e conceitos em probabilidade e estudos de eleições (“método Dodgson”).

Lógica

Esse é um legado redescoberto somente na segunda metade do século XX. Martin Gardner e William Warren Bartley III parecem ter voltado a situar Carroll no âmbito dos lógicos de relevo. Seu volume II dedicado à lógica é especialmente recomendado.

Álgebra

A condensação de Dodgson é uma maneira de avaliar determinantes. Esses foram os passos iniciais para o desenvolvimento de um novo teorema algébrico.

Matemática como passatempo

Fosse vivo durante a Segunda Guerra, é de supor que Carroll pudesse ajudar os Aliados contra os alemães, pois algumas de suas proposições sobre criptografia seguem bastante atuais. Para um homem que viveu antes dos computadores, essa é uma faceta marcante.

Correspondências

Estima-se que Dodgson tenha escrito e recebido espantosas 98.721 cartas. Poderíamos chamá-lo de Pelé das cartas.

Anos finais¹

¹ Odiaria ter uma página no wikipedia com essa seção contando minha vida.

 

 

Lewis Carroll retratado na terceira idade

Dodgson pouco mudou sua rotina após a fama e a riqueza, como dito. Uma de suas poucas aparições públicas, por exemplo, se deu na estréia de Alice no País das Maravilhas no teatro, no País de Gales, 30 de dezembro de 1886. Parece que a única ocasião em que viajou para fora do Reino Unido foi quando conheceu a Rússia em 1867, numa missão eclesiástica com o reverendo Henry Liddon. Na volta, parece ter feito escalas em cidades da Bélgica, Alemanha, Polônia e França, conforme seus diários. A partir dos 60 anos sua mobilidade foi severamente comprometida pela artrite e a gota. Sua causa mortis foi pneumonia seguida de influenza.

Controvérsias

Sexualidade de Carroll & Algumas considerações sobre o surgimento da arte da fotografia

Biógrafos do fim do século XX, com a pauta finalmente em moda, começaram a se questionar sobre a homossexualidade e a possível classificação de Dodgson como pedófilo, mas é importante ressaltar que para que esse diagnóstico seja válido ao se referir a pessoas de séculos anteriores a documentação comprobatória precisa dar respaldo, mais ainda do que para biografias contemporâneas, com testemunhos, testes, dentre outras evidências muito mais acessíveis. Mais do que trabalho historiográfico, a grande parte do que se publicou sobre o tema até hoje parece jornalismo marrom ou tentativa de vender mais exemplares, alimentando polêmicas anacrônicas. Para exemplos da conduta, vd. Morton Cohen, Lewis Carroll: A Biography, 1995; Donald Thomas, Lewis Carroll: A Portrait with Background, 1995; Michael Bakewell, Lewis Carroll: A Biography, 1996. Veja que todas as biografias são produtos de um tempo (uma década histérica com a Aids, talvez, e de retrocesso nas conquistas de liberação pós-guerra?)

 

 

Fotografia carrolliana de Beatrice Hatch, parente em grau distante de Aldous Huxley.

Circulam fake news de que Dodgson teria pedido a mão de Alice Liddell em casamento, mas essa informação não é encontrada em nenhuma de suas quase 100 mil correspondências, o que deveria servir de alerta ao baixo nível das biografias acadêmicas do autor.

(…)

Do lado dos historiógrafos mais honestos e menos sensacionalistas podemos encontrar Hugues Lebailly (Through a Distorting Looking-Glass: Charles Lutwidge Dodgson’s artistic interests as mirrored in his nieces’ edited version of his diaries; Charles Lutwidge Dodgson’s relationship with the weaker and more aesthetic sex re-examined). A era vitoriana promovia uma espécie de culto divino da infância e da criança, mesmo do corpo a-erótico das crianças. É natural que um homem do período desenvolvesse uma carreira vicária de fotógrafo com estes gostos em mente, e que fotos com roupas de luxo, simulando certa pobreza ou espontaneidade (a criança coberta de farrapos, ou como que em roupa de cama, surpreendida ao acordar) e até mesmo nus completos não produzissem o menor choque social – pelo contrário, era como retratar anjos visíveis. Palavras como pornografia e abuso infantil estavam longe sequer de ser cunhadas ou debatidas.

Longe de ser uma exclusividade de Carroll, muitos profissionais do período e do local são notáveis no campo da Estética por tratar exclusivamente do assunto e contribuir em Estética e Moda das perspectivas infanto-juvenis, como Oscar Gustave Reilander¹ (quem trabalhou com Darwin) e Julia Margaret Cameron (a mãe do close-up, até hoje uma das maiores influenciadoras de nosso imaginário plástico dos maiores gênios que estudamos desde a escola via livros-textos, pois dela são algumas das fotos mais difundidas de ingleses de renome; ataques misóginos no período – que surpresa! – classificavam seus “cliques” atemporais como “borrados e fora de foco” – nem Bernard Shaw² deixou de dizer as maiores asneiras sobre Julia Cameron, ainda que obrigado a reconhecer seu talento… para fotografar homens velhos!). “Nus” de crianças apareciam vulgarmente em cartões postais britânicos a cada comércio de esquina, então não é como se fossem uma commodity para “aficionados” ou “doentes”, como seriam considerados hoje. Não há como condenar Dodgson sem condenar um período histórico inteiro (e ainda assim estar-se-ia correndo o risco de cometer grave injustiça) – disso os biógrafos incautos deveriam ser avisados, se ousam tecer conclusões de longo alcance a fim de vender livros mais facilmente.

¹ A propósito, através dessa página encontrei essa outra e estou aqui gargalhando há 5min: https://en.wikipedia.org/wiki/Victorian_headless_portrait. Etimologia da lenda do cavaleiro sem cabeça (ou um dos epifenômenos dessa obsessão inglesa)?

² Um dos últimos reacionários com cérebro do planeta Terra.

Karoline Leach vai mais longe e entende o retrato (no pun intended) que se faz de Lewis como “desinteressado de mulheres adultas” como uma grande mitologização e falsificação da vida do autor, o que ganhou até nome próprio para larga utilização: O Mito de Carroll. Os primeiros biógrafos erraram sutilmente a esse respeito; os de uma segunda geração, utilizando os primeiros como referência, ampliaram o erro ao entender “eco” como “informação” inquestionável, até que o mercado de biografias de Carroll se tornasse indistinguível do mau jornalismo de superfície, com lupas que magnificavam os erros dos biógrafos precedentes.

Algumas das famosas “amiguinhas” de Carroll, como chamam suas modelos pejorativamente, porque assim ele as tratava nas cartas, sem por isso significar algo jocoso, que os biógrafos que o acusam de pedofilia gostam de citar como “prova”, com as quais ele se correspondia, tinham mais de 18 anos de idade, por exemplo. Imoralidade não deve ser confundida com ilegalidade nesse aspecto idiossincrático – se verdadeiramente idiossincrático – do eminente pastor-matemático-poeta-fotógrafo! Langford Reed, por fim, para citarmos novamente alguém do campo anti[t]ético, propôs em 1932 uma tese um tanto “leonardodicapriana” para os interesses interpessoais de Carroll: ele, alega o autor da biografia dos anos 30 do século passado, descartava suas amizades femininas quando elas chegavam aproximadamente ao aniversário de 14 anos. Como vimos no caso da família Liddell, a razão do “rompimento” pode ser de ordem completamente não-relacionada com o envelhecimento da criança-modelo (inclusive pode ter relação com ciúmes e paranóia dos pais da agora púbere rebenta, num tempo em que se fazia legitimamente a côrte a mulheres assim que elas já haviam visivelmente menstruado – e não falo de jovens de barba espessa, mas de sessentões ou setentões, muitas vezes). Outros defendem que Carroll era homossexual e usava essas correspondências para tentar camuflar o fato, que era contravenção conforme a Inglaterra do período ou pelo menos pecado na consciência de alguém tão religioso, sabendo-se que dificilmente um aristocrata britânico teria de cumprir pena pelo crime do “amor proibido”.

O claustro e não-ordenação

Dodgson deveria ter sido ordenado para viver em claustro cerca de 4 anos após ter completado seus estudos como matemático na Christ Church. Mas essa circunstância foi inúmeras vezes adiada e Carroll acabou sendo sempre um “leigo”, isto é, um pastor comum de sua congregação, e não alguém mais retirado da vida, um “monástico” (a igreja anglicana possui tantos pontos em comum com o catolicismo – vedação do sexo fora ou mesmo dentro do casamento sem fins reprodutivos, quando não do casamento em si – quanto com o protestantismo, dependendo da seita em questão).

Algo dos possíveis tormentos um tanto herméticos e apenas psicológicos de Carroll no que diz respeito a sua condição de pecador pode ser distinguido nas entrelinhas da narração em primeira pessoa da ficção Sílvia e Bruno, que comparado com Alice no País das Maravilhas, livro sem referencial religioso algum (dir-se-ia, bastante pagão), é uma verdadeira gospel novel.

Os diários perdidos

Pelo menos 4 volumes completos e 7 páginas de texto de outros diários estão faltando, num total de 13 volumes dos diários de Lewis Carroll. Não se sabe explicar o desaparecimento. A remoção das páginas aleatórias dentre os volumes preservados, por exemplo: especula-se que seja obra dos herdeiros, a fim de preservar a imagem do autor em pontos sensíveis de sua biografia. Os períodos mais afetados por essas omissões são 1853 a 1863 (dos 21 aos 31 anos de Lewis). Há especulações, no mesmo montante, de que fossem poemas abertos sobre interesses homossexuais, numa análise contextual de em que períodos Carroll mais produziu poeticamente (justamente esse intervalo). Novamente, especulações com algo de razão, porém sem qualquer evidência.

 

Descoberta documental (não-conclusiva) de 1996 (Karoline Leach): mais um indício apoiando que ambas as famílias jamais trataram de propostas matrimoniais entre “Carroll” Lutdwidge e Alice Liddell.

Parece que a principal causa do rompimento havido entre Carroll e a família Liddell (que não foi definitivo, mas que esfriou a relação entre as partes de modo irreversível) tinha razões bem menos nobres, se se confirma a veracidade do conteúdo da imagem exposta acima –– outros diriam: bem menos escandalosas ––, que uma negativa de Alice (na verdade o pai de Alice) em se casar (que sua filha se casasse) com Dodgson. Havia boatos, na casa paterna, de relações entre o escritor e uma certa governanta, ou mesmo com Lorina Liddell, a irmã mais velha de Alice (em idade legal para contrair o matrimônio, a propósito). Na verdade, pior ainda, Lorina podia ser a própria mãe de Alice, já que o nome da primeira filha e da mulher do Sr. Liddell era o mesmo! Affair socialmente escandaloso, sem dúvida, mas absolutório de Carroll no quesito “pedófilo que gostaria de casar com sua principal musa inspiradora” (o que nos importa neste séc. XXI, assumo), para a decepção de muitos tablóides acadêmicos extemporâneos! Caso isso pudesse ser provado efetivamente, e não apenas apontado com um pouco mais de probabilidade (só o que há são “fofocas” provenientes de uma página muito tardia redescoberta, realmente suprimida do diário, mas não-escrita pelo próprio Carroll, mostrando que ele foi alterado entre sua morte e sua divulgação, que bate com a data do rompimento nas relações familiares, em que constam essas explicações mais fundamentadas no senso comum – testes caligráficos apontam para as anotações serem das sobrinhas de Carroll, que alegavam não querer manchar a reputação da governanta para terem suprimido a página depois, enquanto que há outra vertente que acredita na declaração do sobrinho-neto de Carroll de que foi ele o autor da entrada no diário, baseando-se, de qualquer maneira, em ouvir-dizer corrente na família), realmente seria o maior marco ou revolução epistemológica desde que biografias de Carroll começaram a ser escritas, digno de um grande mea culpa dos especuladores em relação a Lewis Carroll! A página acima segue, entretanto, como curiosidade pitoresca sobre esta inútil polêmica.

Enxaqueca e epilepsia¹

¹Esta seção deveria obviamente estar em Problemas de saúde, não como tópico separado.

Na década de 1880 Dodgson descreveu em detalhes suas crises de enxaqueca com aura. Curiosamente, uma vertente de enxaqueca foi batizada de Síndrome de Alice no País das Maravilhas por médicos posteriores, graças aos efeitos visuais lisérgicos decorrentes da crise (há a sensação corpórea, concomitante, de aumento e diminuição do tamanho dos corpos em volta).¹

¹ Eu mesmo padeci de uma dessas crises (embora minhas enxaquecas, sempre com aura, sejam bastante raras) num momento fundamental de minha adolescência em que fui falsamente acusado pelos meus pais de empreender ações horríveis (namorar uma suposta prostituta-cafetã – acusação que na verdade partiu – e foi facilmente crida – de um trote da cunhada má, irmã da difamada, nas quais meus pais caíram como patos sem solicitar qualquer evidência além de uma convicta voz na ligação de telefone, como caem em qualquer conversa para boi dormir, de golpes de cartão a Bolsonaros…).a Com o tempo, o sistema de mentiras que eles (meus pais) erigiram para me difamar voltou-se contra eles, e as doenças auto-imunes também deixaram de me afetar para afetar Nadir Gomes e José de Jesus Ferreira ao invés. Enantiodromia psicossomática hereditária? Somatização enantiodrômica intergeracional? Destino trágico-irônico? Chamem do que quiser! Eu chamo de BBB: burlesco, belo e moral.

a Anos depois, ironicamente, a mesma pessoa (a cunhada caluniosa), com o mesmo expediente (telefonar para os meus pais) conseguiu realizar o efeito contrário na mente deteriorada de meus lamentáveis progenitores: num contexto diferente, em que as duas tinham se reconciliado e eu era “o ex tóxico da estória”, a irmã de minha ex-namorada (quero deixar claro que esta ex-namorada nunca foi prostituta, nem cafetina, nem agia como qualquer dessas coisas, como nas ilações feitas pela própria irmã meses antes!! parece que não só a minha família é um poço de lodo covarde e deletério…) comunicou aos meus pais que me processaria por tê-la eu ofendido no scrapbook do finado Orkut! Meu pai, machão como sempre, disse que se algo assim se repetisse eu não poderia concluir minha faculdade privada de jornalismo, que ele a duras penas (falso!) custeava, pois pararia de me financiar no ato.aa

aa Mais curiosamente ainda, numa dessas reviravoltas típicas na vida de pessoas sem-cérebro (falo do meu pai, que infelizmente tinha dinheiro e o monopólio sobre minha existência, quando eu era um jovem desempregado de 20 anos), ele revoltou-se anos mais tarde quando eu desisti voluntariamente da faculdade de jornalismo, pois não desejava mais seguir aquela profissão, e ser-me-ia fácil largá-la de imediato, uma vez que já inclusive cursava em simultâneo sociologia na Universidade de Brasília e comunicação social nessa pós-graduação de direito privado… Agora, porém, o “machão” não podia dizer que sem seu dinheiro eu não poderia me formar (numa instituição pública), e que ele era o deus-mecenas de minha existência presente-futura… Havia perdido um grande poder, ou sensação de poder, que os idosos usam no lugar das ereções! Ele não deixou, contudo, e hipocritamente, de estrebuchar-se por meia hora sobre os recursos que havia jogado fora em minha educação, só para que eu desistisse dum curso em que eu era excelente aluno (e do qual ele ameaçou me desmatricular se eu xingasse uma verdadeira RAMEIRA REPRODUTORA DE MENTIRAS EM SÉRIE num perfil de rede social, recapitulemos). Assim caminha a família tradicional brasileira: vários andares abaixo da família tradicional vitoriana, que já claudicava e não ia nada bem… Intermezzo talvez desnecessário neste post sobre Carroll, mas delicioso mesmo assim, uma vez que a página do wikipedia achou tão importante citar as enxaquecas com aura de Dodgson e tudo isso me veio à baila sub-repticiamente!

Três médicos teriam diagnosticado Carroll ao longo da vida, graças a alguns desmaios sem piores conseqüências, como epilético em algum grau, diagnósticos não-conclusivos (exatamente como muitos capítulos biográficos contendo opiniões fortes em forma de afirmações absolutas, mas nada mais). De qualquer maneira, foram tonturas ou mal-estares “epileptiformes” ou “epileptóides”, embora não epilepsia propriamente dita.

(…)

(Um último conselho aos editores do Wikipédia: parem de incluir informações irrelevantes ou não-confirmadas em seus artigos biográficos!)

Trabalhos completos

Literários

  • La Guida di Bragia, Ópera-Balada para Teatro de Marionetes (c. 1850)

  • “Miss Jones”, música cômica (1862)

  • Alice’s Adventures in Wonderland (1865)

  • Fantasmagoria e Outros Poemas (1869)

  • Through the Looking-Glass,…and What Alice Found There [Através do Espelho…e o que Ela Encontrou Por Lá] (inclui a 1ª aparição de “Jabberwocky” e “A Morsa e o Carpinteiro”) (1871)

  • The Hunting of the Snark (1876)

  • Rhyme? And Reason? [Rima? Com ou Sem Sentido?, seria minha opção de tradução favorita] (1883) – tem vários poemas em comum com o livro de 1869 “Phantasmagoria”

  • Um Conto Emaranhado (1885) [Este título também seria ótimo como alternativa para Sílvia e Bruno.]

  • Sylvie and Bruno (1889)

  • A Pequena “Alice” (1890) [Ou “Alice para a Creche”, versão abreviada para crianças de 0 a 5 anos, segundo o próprio Carroll.]

  • Sylvie and Bruno Concluded (1893) [primeira aparição do 2º volume da obra, hoje vendida em vol. único]

  • Problemas de Travesseiro (1893)

  • O que a tartaruga falou para Aquiles (1895)

  • Três Crepúsculos e Outros Poemas (1898)

  • The Manlet (1903)

Matemáticos

  • Uma Sílaba de Geometria Algébrica Plana (1860)

  • O Quinto Livro de Euclides Tratado Algebricamente (1858; 1868)

  • Tratado Elementar sobre Determinantes, Com sua aplicação a equações lineares simultâneas e equações algébricas

  • Euclides e seus rivais modernos (1879), uma espécie de livro-híbrido entre literatura de não-ficção e pedagogia em matemática.

  • Lógica Simbólica Parte I

  • Lógica Simbólica Parte II (póstumo)

  • A Cifra do Alfabeto (1868) [sobre decriptação]

  • O jogo da Lógica (1887)

  • Curiosa Mathematica I (1888)

  • Curiosa Mathematica II (1892)

  • Uma discussão sobre os vários métodos para se conduzir eleições (1873), Sugestões para o melhor método de escrutínio popular, em que mais de dois assuntos devem ser votados (1874), Método de contagem de votos em mais de dois temas simultâneos (1876), todos compilados como Teoria dos Comitês e Eleições, editado, analisado e publicado em 1958 por Duncan Black.

Outros/miscelânea

  • Algumas Conhecidas Falácias sobre Vivissecção

  • Oito ou Nove Sábias Palavras sobre Escrever Cartas (1890)

  • Notes by an Oxford Chiel [Observações de um ‘Cara’ de Oxford, como nos referiríamos à gíria chiel, caída em desuso] (1865-74)

  • Princípios da Representação Parlamentar (1884) [não entendo por que não recairia em ciência política ou, ao menos, matemática, conforme os outros trabalhos de Carroll sobre votação]

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    113. ^ Podoll, K; Robinson, D (1999). “Lewis Carroll’s migraine experiences”. The Lancet. 353 (9161): 1366. doi:10.1016/S0140-6736(05)74368-3. PMID 10218566. S2CID 5082284.

    114. ^ Woolf, Jenny (4 February 2010). The Mystery of Lewis Carroll. St. Martin’s Press. pp. 298–9. ISBN 978-0-312-67371-0.

    115. ^ “Lewis Carroll Societies”. Lewiscarrollsociety.org.uk. Archived from the original on 29 March 2016. Retrieved 12 September 2013.

    116. ^ “‘A most curious thing’ / Lewis Carroll Library”. designbybeam.com. Archived from the original on 3 April 2015. Retrieved 15 March 2013.

    117. ^ “LEWIS CARROLL IS HONORED ON 150TH BIRTHDAY”. The New York Times. 18 December 1982. Archived from the original on 5 May 2015. Retrieved 30 January 2015.

    118. ^ “Lewis Carroll Centenary Wood near Daresbury Runcorn”. woodlandtrust.org.uk. Archived from the original on 5 August 2020. Retrieved 27 November 2019.

    119. ^ About Us, Lewis Carroll Centre & All Saints Daresbury PCC, archived from the original on 14 April 2012, retrieved 11 April 2012

    120. ^ The Carrollian. Lewis Carroll Society. Issue 7–8. p. 7. 2001: “In 1862 when Lewis Carroll sent to Yates the manuscript of the words of a ‘melancholy song’, entitled ‘Miss Jones’, he hoped that it would be published and performed by a comedian on a London music-hall stage.” Archived 4 August 2020 at the Wayback Machine

    121. ^ The Hunting of the Snark and Other Poems and Verses, New York: Harper & Brothers, 1903

Bibliografia

  • Clark, Anne (1979). Lewis Carroll: A Biography. London: J. M. Dent. ISBN 0-460-04302-1.

Uma das primeiras biografias a revelar detalhes da infância de Carroll.

Talvez a biografia mais indicada até o presente.

  • Pizzati, Giovanni: “An Endless Procession of People in Masquerade”. Figure piane in Alice in Wonderland. 1993, Cagliari.

  • Reed, Langford: The Life of Lewis Carroll (1932. London: W. and G. Foyle)

  • Taylor, Alexander L., Knight: The White Knight (1952. Edinburgh: Oliver and Boyd)

  • Taylor, Roger & Wakeling, Edward: Lewis Carroll, Photographer. 2002. Princeton University Press. ISBN 0-691-07443-7.

Para um livro de fotografia, não achei tão caro!

Aprofundamento

  • Black, Duncan (1958). The Circumstances in which Rev. C. L. Dodgson (Lewis Carroll) wrote his Three Pamphlets and Appendix: Text of Dodgson’s Three Pamphlets and of ‘The Cyclostyled Sheet’ in The Theory of Committees and Elections, Cambridge: Cambridge University Press

  • Bowman, Isa (1899). The Story of Lewis Carroll: Told for Young People by the Real Alice in Wonderland, Miss Isa Bowman. London: J.M. Dent & Co.

  • Carroll, Lewis: The Annotated Alice: 150th Anniversary Deluxe Edition. Illustrated by John Tenniel. Edited by Martin Gardner & Mark Burstein. W. W. Norton. 2015. ISBN 978-0-393-24543-1

  • Dodgson, Charles L.: Euclid and His Modern Rivals. Macmillan. 1879.

  • Dodgson, Charles L.: The Pamphlets of Lewis Carroll

  • Douglas-Fairhurst, Robert (2016). The Story of Alice: Lewis Carroll and the Secret History of Wonderland. Harvard University Press. ISBN 9780674970762.

  • Goodacre, Selwyn (2006). All the Snarks: The Illustrated Editions of the Hunting of the Snark. Oxford: Inky Parrot Press.

  • Graham-Smith, Darien (2005). Contextualising Carroll, University of Wales, Bangor. PhD thesis.

  • Edward Guiliano (1982). Lewis Carroll, a Celebration: Essays on the Occasion of the 150th Anniversary of the Birth of Charles Lutwidge Dodgson, C. N. Potter, London.

  • Huxley, Francis: The Raven and the Writing Desk. 1976. ISBN 0-06-012113-0. (Francis Huxley é sobrinho de Aldous Huxley)

  • Kelly, Richard: Lewis Carroll. 1990. Boston: Twayne Publishers.

  • Kelly, Richard (ed.): Alice’s Adventures in Wonderland. 2000. Peterborough, Ontario: Broadviewpress.

  • Lakoff, Robin T.: Lewis Carroll: Subversive Pragmaticist. 2022. Pragmatics: Quarterly Publication of the International Pragmatics Association, pp. 367–85

  • Lovett, Charlie: Lewis Carroll Among His Books: A Descriptive Catalogue of the Private Library of Charles L. Dodgson. 2005. ISBN 0-7864-2105-3

  • Richardson, Joanna: The Young Lewis Carroll. London: Max Parrish, 1963.

  • Waggoner, Diane (2020). Lewis Carroll’s Photography and Modern Childhood. Princeton: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-19318-2.

  • Wakeling, Edward (2015). The Photographs of Lewis Carroll: A Catalogue Raisonné. Austin: University of Texas Press. ISBN 978-0-292-76743-0.

  • Wullschläger, Jackie: Inventing Wonderland. ISBN 0-7432-2892-8. – Also looks at Edward Lear (of the “nonsense” verses), J. M. Barrie (Peter Pan), Kenneth Grahame (The Wind in the Willows), and A. A. Milne (Winnie-the-Pooh).

  • N.N.: Dreaming in Pictures: The Photography of Lewis Carroll. Yale University Press & SFMOMA, 2004.

  • Gena Showalter, Alice in Zombieland. Um belo exemplo das incontáveis paródias que Alice no País das Maravilhas gerou; mas eu ainda preferiria jogar a franquia McGee’s Alice! 😉

  • Schütze, Franziska: Disney in Wonderland: A Comparative Analysis of Disney’s Alice in Wonderland Film Adaptations from 1951 and 2010

[ARQUIVO] A vida de Federico Nietzsche, o maior dos filósofos modernos, & de sua irmã nazista, sua antípoda.

Trechos selecionados de antigas postagens do primeiro blog do autor, de 18 de setembro de 2009 e 6 de novembro de 2009. Duas obras serviram de bibliografia para as citações e comentários: Vida de Federico, biografia de Daniel Halevy traduzida ao espanhol e My Sister and I, obra anônima, falsamente atribuída a Nietzsche, ambas, se e quando vertidas ao português, citadas em traduções minhas. Exemplares consultados na biblioteca da Universidade de Brasília à época.

* * *

Carl Ludwig. Pai luterano e também enfermiço. Gosto pela música e pela solidão! Tinha os reis em alta conta, daí provindo o nome do filho, Frederico Guilherme.

Desde sempre muito introspectivo: só foi falar aos 2 anos e meio!

Famoso registro de um sonho que teve aos 14 anos: prenúncio da morte de seu irmão caçula.

“el Señor de los cielos fue nuestro único consuelo”

“el pastorcito”, assim N. era chamado no círculo familiar.

Intensa produtividade literária já aos dez anos. Eu também tive esses impulsos – que pena que tratavam de jogar tudo o que eu fazia no lixo!

Pp. 19-30: ausentes do exemplar que li.

“Embriagado de si mesmo, escreveu a história de sua infância” em 14 dias!

P. 37: será que seu ódio pela cerveja tem origens em um embebedamento que o fez se machucar a cavalo?

Na escola, gostava de brigar e chamar para o duelo.

“Esta alegría infantil dura poco”

Hiato poético. Aluno de Ritschl.

SOBRE OS POSITIVISTAS: “N. os leu… mas não os releu”

Hegel, Fichte e Schelling viviam o seu auge no ambiente acadêmico.

Iniciou estudos em Bonn, mas transferiu-se para Leipzig. Na festa local, a do centenário da entrada de Goethe na instituição, o reitor desaconselha ser como ele (Goethe): um mau aluno! Um paradoxo: reconhece-se o fermento do grande homem, mas o homem erudito se recusa a replicá-lo.

“este brônzeo monstro de força”, em referência a Schopenhauer. O pai que N. arranjou para si mesmo na idade em que é preciso ter um, biológico ou não (20).

CRISE FILOLÓGICA (PP. 53-4): “Que uma multidão de cabeças medíocres se ocupe de coisas cuja importância e conseqüência sejam graves e reais é um pensamento aterrador.”

Míope e aquartelado durante a guerra. Cai do cavalo e quebra uma costela.

“A sutileza e a doçura platônica mostram já os signos da decadência.” Hipérbole!

“Os gregos criam, então, como hoje os europeus, na fatalidade das forças naturais. E criam também que o homem deve se criar a si mesmo, e a suas virtudes e seus deuses. Um sentimento trágico, um valente pessimismo, que não os apartava da vida, pelo contrário, animava-os.”

Quando Nietzsche começa a ler Montaigne, ele mesmo o declara, sua desde sempre frágil amizade com Wagner, homem de outra geração, começa espiritualmente a derrocar…

“Ciência, arte e filosofia crescem tão bem-ligadas em mim que creio que darei a luz a um centauro.”

“no leía nunca los periódicos”

1870: A reunificação alemã em seu ápice imperialista, engolindo o sul ainda rupestre e provincial.

Aqui recomenda-se a leitura de “De Dioniso a Bismarck. Tragédia e Política em Nietzsche”, tradução de um artigo de Baeumler, 1931.

“as guerras modernas são supérfluas”

Burckhardt

Na época de Nascimento da Tragédia Nietzsche soa como um discípulo hegeliano envergonhado. Seu objetivo é buscar uma finalidade na História a fim de lutar por ela – um longo caminho até Vontade de Potência…

“E se é certo que os gregos foram destruídos pela escravidão, ainda é mais certa esta outra afirmação: a falta de escravidão é causa de que essa nossa época pereça” Como negar? Criticar a democracia só pode significar apologia de um novo sistema hierárquico (não-burguês). Os direitos humanos nunca funcionaram na prática, não há senhores, apenas escravos. O artista é o protótipo do homem superior: não pensa no trabalho como trabalho, não pensa na riqueza como dinheiro. Tem fins maiores em vista.

Será que nos distanciamos tanto assim da ética da guerra antiga, em que os vencidos se tornavam escravos dos vencedores? O que se tornarão os ucranianos para os europeus desde este instante? Os ucranianos que não preferirem se tornar o que são, i.e., russos?

P. 116: Os sanguessugas inevitáveis do Estado-nação moderno: o general, o empresário obscuro (o oficial que nunca foi soldado, burocrata, homem de gabinete, anti-herói). Efeito colateral da “onda pacifista” européia. Homens da paz: homens do dinheiro. Assim como a humanidade não é mais digna de reis, não é mais digna de comandantes militares à antiga, apenas chefes nominais, farsas. O que se viu nos avanços bélicos da Prússia imperialista foram gritos de desespero de uma Alemanha nostálgica dos tempos nobres e épicos das guerras. Hoje continuariam havendo mais e mais gritos nostálgicos (mais do que os que já ocorrem por todo o planeta) não fosse a constatação de que quase todo conflito militar que se tem a intenção de iniciar não seria estrategicamente interessante, i.e., NÃO GERARIA LUCRO. “Lucro” é o único ser vivo do planeta habitado pelos economistas de Estado. Como dança uma nação atrofiada: tudo o que ela faz acaba por matar – dos miseráveis aos burgueses.

Polêmica contra o sufrágio universal: historicamente, é justificado como uma recompensa pela bravura da sociedade, dos nossos ancestrais. Efeito colateral: esteriliza as populações.

“Quando um Estado não pode alcançar seu mais alto fim, cresce desmesuradamente. O império mundial dos romanos não tem nada de sublime frente a Atenas”: denúncia do perigo expansionista. Ademais, exemplar pulverização da teoria do espaço vital, a Lebensraum alemã.

N. se torna pensionista da Universidade da Basiléia aos 27 anos de idade devido à precarização de sua saúde.

P. 123: pérola do autor da biografia: “Nascimento da Tragédia, único verdadeiro livro que N. levara a cabo.”

“Será o filósofo sempre um ser inútil para os homens?” “um lírico que não chega a ser artista”

De 3 mil em 3 mil anos as palavras se invertem? Há também um esgotamento do homem artístico, um niilismo às avessas? Morre-se de sede e afogado sucessivamente na História?!

“Talvez se possa falar dos fins inconscientes de um formigueiro; mas de todos os formigueiros da Terra?…” Alusão à abstração do conceito de humanidade.

“TALES – tudo deriva de um único elemento.

ANAXIMANDRO – a fuga das coisas é seu castigo.

HERÁCLITO – uma lei rege a fuga e a permanência das coisas.

PARMÊNIDES – a fuga e a permanência são mera ilusão. Apenas o Um existe.

ANAXÁGORAS – todas as qualidades são eternas: nelas não há devir.

PITAGÓRICOS – todas as qualidades são quantidades.

EMPÉDOCLES – todas as causas são mágicas.

DEMÓCRITO – todas as causas são mecânicas.

SÓCRATES – só o pensamento é imperturbável.”

Todos estão certos. Os germes mais antigos. Contra e por Homero.

“De vez em quando me sobrevém uma repugnância infantil pelo papel impresso; parece-me não ver nele senão papel manchado.”

DAVID STRAUSS, A PRIMEIRA VÍTIMA: “Federico ha encontrado al hombre que desea destruir”

As idades do homem de Flaubert: paganismo, cristianismo e porquismo.

NIETZSCHE & ENGELS: O Anti-Dühring poderia ser uma obra conjunta, pois ambos gostavam de detratar o mesmo intelectual!

P. 206: “Me alimento quase exclusivamente de leite.”

IMPRESSÕES GERAIS DA FIGURA DE NIETZSCHE: “voz musical (…) falar lento (…) vista fixa (…) cabelos curtos escovados para trás (…) maçã do rosto eslava”

O método peripatético não diz respeito só a “filosofar em movimento”, como muito se veicula. Maneira de aprendizagem horizontal de dois ou mais sábios – significaria que Aristóteles não se considerava um mestre de escola nem que possuía “discípulos” no rigor da palavra. Uma conversa enquanto se passeia pelo bosque, por exemplo.

“Não deves amar nem odiar o povo¹

Não te deves ocupar da política²

Não deves ser rico nem indigente³

Deves evitar o caminho dos ilustres e poderosos

Deves desposar uma mulher estrangeira4

Deves deixar a teus amigos o cuidado de educar teus filhos

Não deves aceitar nenhuma das cerimônias da Igreja”

¹ Anti-Dostoievski!

² Não deves ser ativista político se queres ser filósofo, que se ocupa, entretanto, totalmente da política.

³ Está muito além da própria escolha individual, mas sem dúvida seria um filtro para o exercício da vocação do filosofar.

4 Indecifrável em relação a tudo que deixou por escrito.

A influência da estilística de Pascal e La Rochefoucauld sobre a escrita de N.

Pseudônimos e iniciais: a salvação dos imorais! Que pena que a Constituição veda o anonimato. Não é mais possível fazer boa literatura de polêmica sem ser processado.

“envelheci dez anos em uns poucos meses.”

“um enfermo não tem o direito de ser pessimista.”

“…e a saúde recomeça seu jogo mágico.” – Muitas das convalescenças de N. foram no clima prazenteiro do sul da Itália.

“O espírito voltado para a oposição da dor vê as coisas debaixo de uma nova luz; e o indizível encanto que acompanha toda luz nova basta às vezes para vencer a tentação do suicídio, e para fazer a vida desejável. Aquele que sofre pensa com desprezo no mundo vago, tíbio e cômodo em que se compraz o homem são; pensa com desprezo nas ilusões mais nobres e mais queridas em que se deixa absorver; este desprezo é seu gozo, o contrapeso que o ajuda a se defrontar com o sofrimento físico, contrapeso cuja necessidade sente então… Seu orgulho se rebela como jamais se havia rebelado: defende com deleite a vida contra um tirano como o sofrimento, contra todas as insinuações desse tirano que nos quis obrigar a blasfemar contra a vida. Representar a vida frente a esse tirano é uma tarefa de incomparável sedução.”

Aurora

Este aforismo sempre representou minha vida. Atualmente dedico-o a W.O.

“Uma independência que não moleste a ninguém; um orgulho doce, velado, um orgulho que, não invejando as honras e satisfações dos demais e se abstendo de burlas, não incomode a gente… Um sono ligeiro, uns modos livres e pacíficos; ausência de álcool, de amizades ilustres ou principescas, de mulheres e de jornais, de honras e de sociedade – que não seja a de espíritos superiores e, à falta destes, de gente humilde (da que é tão impossível prescindir quanto da contemplação de uma vegetação poderosa e sã) –; os pratos mais fáceis de preparar, se possível preparados por mim mesmo, ou que mal tenham necessidade de preparação.” Curiosidades insólitas e sem valor.

“Por fim encontra N. aquela idéia cujo pressentimento o agita com tanta violência. Um dia em que caminhava pelos bosques de Sils-Maria, em direção a Silvaplana, sentou-se, não longe de Surlee, ao pé de uma rocha piramidal; naquele momento e naquele local concebeu o eterno retorno.” Romantização de biógrafo precoce.

“a música e a nostalgia de um passado melhor”

Observações pessoais minhas: Cabal, Senhorita, 2005 – sensação de potência desperdiçada – por quê? À época eu apenas queria ser o que sou hoje, a própria vontade niet. Porém iludo-me dalguma forma, querendo retroagir para reaver estas possibilidades perdidas. E contudo, como minha cabeça era ali, só podia me levar até aqui – o INESPERADO, apenas agora verificável. Se eu voltasse no tempo com ESTA consciência, amadurecida, todas as cores imaginadas desbotariam em desprezo – não foi o mundo que piorou em 3 (18!) anos. Eu me tornei mais sensível em relação à essência deste mundo. Atenuante invencível: 2005 e sua sensação de estar no topo de um monte sagrado, isso se repetirá INDEFINIDAMENTE…

Pp. 265-6: “O tempo, cuja duração é infinita, deve repetir, de período em período, uma disposição idêntica das coisas. Isto é inadiável, uma necessidade; logo é necessário que todas as coisas voltem a ser. Dentro de tal número de dias, número imprevisível, imenso, apesar de limitado, um homem, semelhante em tudo a mim, eu mesmo, em suma, sentado à sombra deste rochedo, encontrarei de novo esta mesma idéia. E esta mesma idéia voltará a se encontrar com este homem, não somente uma vez, mas um número infinito de vezes, pois o movimento que repete as coisas é infinito. Logo devemos abandonar toda esperança e pensar firmemente: nenhum mundo celestial receberá os homens, nem os consolará nenhum destino melhor. Somos as sombras de uma natureza cega e monótona, os prisioneiros de cada instante. Mas não esqueçamos que esta tremenda idéia que nos proíbe toda esperança enobrece e exalta cada minuto de nossas vidas; se o instante se repete eternamente em um monumento eterno, dotado de valor infinito e – se a palavra divino tem algum sentido – divino. (…) Ápice da meditação.” (1881)

“Aurora não teve o menor êxito [comercial]”

“Eis aqui a pedra em formato de pirâmide, no lugar da qual, em 600, 1000 anos, se erigirá uma estátua ao autor de Aurora.” Carta a Paul Rée. Demorou muito menos do que isso.

“ninguém se interessa por esse Zaratustra”

N. supostamente interdito de lecionar em Leipzig por seu “ateísmo” – como se tivera saúde restante para tal!

Inicialmente, por ter passado um hiato sem editor, Assim Falou Zaratustra foi entregue apenas para 7 chegados: a irmã Elizabeth, Erwin Rohde, Overbeck, Paul Lanzky (jovem admirador niet., desconhecido hoje), Peter Gast (futuro co-editor), Mme. von Maysenbug e Burckhardt. Outro contato de N., Gersdorff, aparentemente já falecera. Rohde como que já havia rompido com o antigo amigo.

P. 380: páginas devotadas a Dostoievski e o “cristianismo revolucionário russo”.

P. 399: “As tendências humanitárias não são anti-vitais, pois convêm às massas, que vivem com lentidão; e, convindo a elas, convêm à humanidade, que necessita da satisfação das massas. As tendências cristãs são igualmente bonacheironas, e nada é tão desejável como a sua permanência, pois convém a todos os que sofrem, todos os débeis, e é necessário para a saúde das sociedades humanas que o sofrimento e as debilidades inevitáveis sejam recebidos sem rebelião, de modo submisso e, se possível, amorosamente. § Diga o que diga o cristianismo, não posso esquecer que lhe devo as melhores experiências da minha vida espiritual, e espero não ser nunca ingrato com ele no fundo do coração…” Já se imaginou tamanha isenção intelectual? Um homem que entende que o melhor para o futuro e para outros homens não é ou não será aquilo que é ou foi melhor para si mesmo? Houve filósofo mais probo?

P. 411: “Quando se estudam os últimos meses dessa vida, parece como se se assistisse ao trabalho de uma máquina de guerra que a mão humana já não governa mais”

O Código ou as Leis de Manu teriam sido uma das últimas leituras de N. Livro extenso e cansativo. Estou lendo-o há meses (agora em hiato).

* * *

O primeiro ou principal a refutar a obra Minha Irmã e Eu (Ich und meine Schwester) como de autoria nietzschiana foi Walter Kaufmann (1952, 1955). WIKI: “If legitimate, My Sister and I would be Nietzsche’s second autobiographical and final overall work, chronologically following his Wahnbriefe (Madness Letters), written during his extended time of mental collapse. (…) The book was tied quickly to controversial publisher Samuel Roth, the putative owner of Seven Sirens, who had spent jail time for the unlawful distribution of a version of James Joyce’s Ulysses (1922). In the book’s introduction, an anonymous publisher claimed to have received the manuscript from a fellow inmate of Nietzsche’s in Jena and to have hired Oscar Levy to translate the work only to have both German and English manuscripts confiscated, with only the latter surviving. (…) Kaufmann claimed in a footnote in his Nietzsche: Philosopher, Psychologist, Antichrist (first published 1950) to have received a ghostwriting confession from minor author David George Plotkin in 1965.” Creio que não preciso opinar que segundo o cânone da arquivologia ou filologia é impossível ceder e duvidar de que seja uma fraude. A ausência do manuscrito original e o lapso de tempo até o misterioso aparecimento das cópias são dois detrimentos inexcusáveis para o sucesso da teoria da autenticidade, por mais que seja um livro bem-escrito e prazeroso, e o estilo de N. seja até replicado com sucesso em suas páginas! Ainda assim: “Nietzsche scholar Walter K. Stewart, in his 185 page monograph Nietzsche: My Sister and I — A Critical Study published in 2007, argues for the original’s potential legitimacy by conducting a point-by-point analysis of Kaufmann’s book review.”

As informações mais sensacionalistas nessa pseudo-segunda autobiografia de N. são que teve envolvimento amoroso-incestuoso (assexual) com “Lama” Förster (como N. chamava sua irmã Elizabeth), que podemos dizer com segurança que ele odiava, e profundamente, e com Cosima Wagner, viúva de Richard Wagner – é até engraçado!! À época (2009), eu cria na possibilidade da autenticidade desta fabulosa história, tecendo o comentário de que os ciúmes muito intensos por Elizabeth demonstrados nas cartas de N. não eram “normais”. Porém, não levava em conta então costumes de família na Alemanha do séc. XIX, uma sociedade muito mais androcêntrica.

Eis a desculpa médica para tornar a história da escrita desse livro plausível: “Sua deterioração cerebral prejudicou seriamente a capacidade de N. responder as pessoas, mas seu fluxo de pensamentos não tinha sofrido alterações significativas, e ele não verificava, ao despejar suas idéias no papel, a mesma hesitação do contato falado.”

O primeiro capítulo já abre com uma “paródia” do relato niet. do sonho com a morte do irmão menor: no asilo, sonhava com a morte da mãe. A mãe de N. morreu poucos meses antes do próprio.

“Para o odiador, a Alemanha é o lugar. Em primeiro lugar, há o kaiser, que se pode detestar a vida inteira.”

“Tenho mãos e pés pequenos como os de uma mulher. Teria sido eu destinado a ser mulher? Sou acaso um descuido de Deus?”

“meu cérebro vai se tornando pedra” “Como uma múmia egípcia que esqueceu de morrer por inteiro, eu sou o expectador da minha própria morte, sentindo meus olhos se tornarem poeira”

“Esse é o paradoxo da minha existência? eu amei a vida ao máximo, mas não pude direcionar essa paixão do modo clássico” “Essa grande mente, a maior desde Aristóteles, está sendo dissolvida na imbecilidade da massa”

“Eu cortei a história do mundo em duas ao escrever o Ecce Homo”

“Antes de mim os filósofos guerreavam em trincheiras contra o cristianismo. Eu promovi uma guerra total, e isso me deixou sem amigos.” Veja o anacronismo das expressões guerra de trincheiras e guerra total, compreensíveis apenas a partir dos anos 30 do séc. XX!

“Sócrates e Schopenhauer são eunucos que perderam a capacidade de amar”

“Na Grécia Antiga a riqueza de um homem era avaliada por seu número de filhos – em correlação positiva”

“Voltaire foi a França que respirava aquele ar de liberdade ideológica inglês”

“Todo pensador socialista falha ao não entender que a distribuição desigual de sabedoria, poder e talento é essencial em uma comunidade, para o contínuo exercício, ali, de sentimentos como piedade, compaixão, generosidade e proteção, que são os ingredientes das únicas civilizações que tiveram qualquer tipo de duração” O autor se esquece de que a ditadura do proletariado leva tudo isso em conta – como não levaria?

“Talvez a autêntica tragédia na história do homem tenha se dado, não quando o homem se viu pela 1ª vez nu diante de sua comparsa, mas quando percebeu que era necessário sair de si para mostrar tributo à divindade. Ele não sabia que tinha sido expulso do Paraíso até se ver do lado de fora do portão.”

“É difícil crer que aqueles pés das estátuas gregas precisavam mesmo da mediação de sandálias. Se tivéssemos pés tão fortes provavelmente arruiná-los-íamos com pedicures!”

“Uma nação que tenha abdicado do sonho da conquista já abdicou há muito do sonho de viver” E no entanto isso colide com a crítica das nações expansionistas, vista mais acima.

“Estamos excedendo as contas em tudo. O universo não é, para começar, tão grande quanto se relata. O mundo como um organismo é tremendamente importante para si mesmo, mas da mais banal significância para o sujeito. E, com todas as suas perfeições creditadas, o homem é uma criatura extremamente imperfeita! Sendo assim, poderíamos deixar de lado o sentimento de extravagância sobre o que não temos, ou de angústia pelo que possivelmente deixamos de fazer ou experimentar. Tudo humano que valha a pena está contido em alguns prédios em Roma, Paris e Londres, e eu não trocaria o resto do universo pelo conteúdo de um deles. Ainda assim, no momento em que escrevo pode ser que as forças armadas da humanidade estejam se preparando para devastar esses prédios para começar uma briguinha de homens, cuja real potencialidade é tal que se fossem estes os últimos e únicos homens sobre o globo toda a raça teria de morrer sem deixar herdeiros.”

CRISES ECONÔMICAS COMO CRISES PERMANENTES DE QUALQUER ESTADO E MORAL QUE NÃO SÃO INSTITUÍDAS POR UM POETA-LEGISLADOR

“Como resultado da mistura dos economistas com leis científicas puras, sem legislação, certos princípios de economia aparentemente adquiriram um caráter duplo – o da generalização científica e o das regras que serão impunemente desobedecidas.”

“Você por acaso já viu uma única jovem com a metade da beleza do mais abandonado dos gatos de rua?”

“Se eu puder voltar a minha casa de novo, lerei o Livro dos Mortos egípcio” Mais sobre esta obra a seguir.

“O europeu aspira a uma sinceridade cristã no viver, mas treina sua consciência de modo que solte uma risada sempre que cruza uma igreja”

“Decidir o destino da comunidade via voto igualitário é tão razoável quanto escolher a mulher via loteria”

“Quatro mulheres em minha vida: duas, prostitutas, me fizeram feliz. Felicidade de momento.” Mais um aforismo nada característico da pudicícia nietzschiana em revelar detalhes íntimos que encerra o debate sério sobre a inautenticidade deste livro.

“Já fui tão maior que Schopenhauer que duvido que terei um sucessor” Alguém tendo-o escrito nos anos 50 tinha já cem por cento de segurança na afirmação…

“A vitória militar, se por algum engano do destino for nossa, não vai nem ao menos por isso curar nosso jeito azedo e turrão”

“Eu preferia ser um psicólogo do que o Deus do Gênesis”

“Como a Alemanha é a negação da França, a Rússia é a negação da Alemanha. A Rússia tem 2 vantagens em relação a nós: tem mais salas onde se lutar e mais judeus com quem lutar.”

“Uma querela entre 2 filósofos deve ser levada tão a sério quanto uma discussão filosófica entre 2 pedreiros.”

“Toda mulher é uma prostituta no coração e até compreender isso um homem não pode conhecer a pureza virgem de seu ser”

“Não só eu, mas os sofistas modernos estão em seu pôr-do-sol: por sofistas da modernidade quero dizer os humanistas, os empiristas, os relativistas, os utilitaristas e os individualistas.”

“Um Aristófanes [comediante, sátiro] do séc. XX vai me tachar como um Demócrito, pilhando-me como este foi pilhado: Longa vida ao Deus Furacão que destronou Zeus!”

“quando em Turim eu vi um cavalo ser açoitado pelo cocheiro eu corri da minha casa e abracei o animal, preocupando-me com seu devir. [esse detalhe biográfico de N. é autêntico] § Essa foi a causa de minha ruína: a divisória entre minha pregação e minha prática, e isto foi parte também da grande linha entre o antes e o depois do pensamento ocidental, que como eu ficará louco.”

“Se Deus tem pena de nós, ele está jogando com um dado interminável.”

“Aquilo sobre o que outros filósofos escrevem livros eu me contento em escrever parágrafos.”

“Só desenvolvemos 3 sistemas numéricos – contra mil línguas e 10 mil sistemas de raciocínio”

“Kant teria sido um filósofo melhor se tivesse dado ao menos 10 anos de aula de Filologia, o que ter-lhe-ia aclarado a importância de se fazer entender antes de ter certeza de que é entendido”

“A democracia é de números e é sustentada diretamente pelos matemáticos anônimos cujas obras foram destruídas no incêndio da biblioteca de Alexandria. Que pena que a natureza humana não é delineada pelas simples linhas, vamos dizer, das proposições euclidianas!”

“Se você é incapaz de ler Platão pelo simples prazer de lê-lo, leia-o visando ao ensinamento que ‘grita’ nas entrelinhas de cada diálogo: há somente um mundo, o mundo da experiência dos homens.”

CITAÇÃO DE MARX: “Os egípcios nos legaram uma verdadeira história de seu caráter nacional no Livro dos Mortos. Para caracterizar nosso tempo alguém deveria escrever um Livro dos Alemães Renegados – para incluir alguns que quiseram escapar mas não conseguiram – como eu. Se – os céus me proíbam – eu me tornasse o autor de tal obra, abriria com uma dedicatória a Heinrich Heine e encerraria com um comentário sobre Karl Marx, diante de quem os fins da criação teriam servido muito melhor se ele tivesse permanecido na Prússia, onde ele seria finalmente germanizado ou levaria um tiro. Como se sabe, Marx encontrou resguardo do germanismo na Inglaterra, de onde ainda nos dispara suas teorias pelo Canal da Mancha. [O humor do anacronismo do falsificador, o ‘Pseudo-Nietzsche’ que compôs a obra, é que isto devera ter sido escrito, se pela mão nietzschiana, em 1989, porém Marx morrera já em 1983 – tudo indica que jamais tendo ouvido falar de Nietzsche, e vice-versa.] Nesse cenário eu me desejaria qualquer lugar no centro, onde, aproximadamente, estou. [referência ao manicômio de Naumburg – wiki: “Naumburg is a town in the district Burgenlandkreis, in the state of Saxony-Anhalt, Central Germany.”]”

“Quanto a Marx, ele escreve num alemão tão ruim, o qual ele adorna com copiosas citações do latim e do francês [ironicamente a mesma crítica de estilo, pelo menos na parte das citações, poderia ser facilmente atribuída ao próprio N.] – línguas que ele parece não conhecer muito bem – a fim de impressionar a massa e confundir aqueles que esperavam poder entender.” Exagero evidente. Comparar Kant e Marx em questão estilística, p.ex., seria uma heresia – o segundo leva ampla vantagem!

“Em Heine os judeus nos deram muito; em Marx, muito pouco”

“Marx está para a lei da oferta e da demanda como Darwin está para a lei de sobrevivência do mais forte. Ambas as leis são o resultado de uma nova paixão produzida pelo séc. XVIII – pesquisa com ponto de vista.” Divertido especular sobre este comentário, sabendo que foi produzido no séc XX. Darwin não formulou a lei de sobrevivência do mais apto fora do reino animal, mas influenciou decisivamente seu emprego nas gerações posteriores. O que acontece com Marx sobre a lei de oferta-procura/demanda é um pouco diferente: ela é anterior a ele (efetivamente do próprio séc. XVIII); porém ele deve ser estudado mesmo pelos economistas liberais para que outros fundamentos da economia sejam compreendidos em relação com ela. Não há nada de correto em Adam Smith que não esteja em Marx, mas a lei da oferta e da demanda não é nada diante do escopo d’O Capital. Como Darwin deve ter muito mais informações preciosas em seus diários de viagem do que essa infame conseqüência política involuntária que gerou!

“A verdade ainda ludibria; mas não é mais aquela moça formosa, e sim uma velha rabugenta e desdentada.”

“Não quero ser mal-entendido: eu evito ler Marx tão apaixonadamente quanto enveredo por cada nova estrofe de Heine.”

“O Capital descobriu duas coisas que são os temas básicos dos congressos socialistas: 1) a mais-valia, pois o operário trabalha para gerar mais do que é vitalmente necessário para si, e até para si e para o capitalista juntos; 2) esse novo poder de exploração da classe trabalhadora é levado a um extremo tal que o burguês se torna, no mundo do dinheiro, tão poderoso e superior aos homens quanto uma vez fôra o divino senhor feudal.”

“O que não conseguirmos pela fé conseguiremos através dos métodos mágicos”

“Hegel é um Spinoza guiado pela velocidade de nossa idade industrial”

“É melhor que o mundo não saiba – ao menos enquanto ela viver – que Elizabeth cumpriu o mesmo papel em minha vida reservado a Augusta frente a seu [meio-]irmão caçula Byron.” WIKI: “Augusta Maria Leigh was the only daughter of John ‘Mad Jack’ Byron, the poet Lord Byron’s father, by his first wife, Amelia, née Darcy.” Aparentemente, todo o significado do dito é que N. usava as cartas para E. a fim de caluniar sua mãe: “Augusta’s half-brother, George Lord Byron, did not meet her until he went to Harrow School, and even then only very rarely. From 1804 onward, however, she wrote to him regularly and became his confidante, especially in his quarrels with his mother. Their correspondence ceased for 2 years after Byron had gone abroad, and was not resumed until she sent him a letter expressing her sympathy on the death of his mother, Catherine in 1811.” Não gostaria de crer que o autor-falsificador de Minha Irmã & Eu quisesse pôr em evidência o ‘lado negro’ da relação entre Byron e sua irmã: “Not having been brought up together, they were almost like strangers to each other. But they got on well together and appear to have fallen in love with each other. When Byron’s marriage collapsed and he sailed away from England never to return, rumours of incest were rife.” Seja como for, a quem interessar possa: “Augusta is also the subject of Byron’s Epistle to Augusta (1816) and Stanzas to Augusta.”

“Cinquenta anos depois de minha morte, quando eu tiver me tornado um mito, minha estrela brilhará no firmamento enquanto o Ocidente será eclipsado na escuridão, e pela própria luz que eu emito. Minha filosofia do poder será reexaminada, então, não como poder [político] mas como Providência.”

“Mulheres são a única propriedade privada que tem total controle sobre seu proprietário.”

“A idéia da transmigração das almas não é tão tola quanto parece, e meu conceito do eterno retorno é meramente a reencarnação moderna do credo pitagórico. Uma vez fomos cães e ainda regressaremos ao domínio primata dos caninos.”


IRA-ATA: AINDA VAMOS REGRESSAR AO DOMÍNIO PRIMATA DOS CANINOS

Torturando, espremendo cães. Qual foi o último que eu vi? Hoje sonhei de novo. Meus sonhos agora se relacionam a estar preso com os pais em algum lugar que não é a minha casa, e algo sem forma me tortura, algo de que eu não podia me esquecer. Foi o cão da Connie o último que toquei. Eu beijava a R. e de alguma forma me ocultava dos anfitriões indesejados. E por que tantos banheiros? Supra-homem Bill Lunch. “I spread disease like a dog…” Ter vivenciado caninamente a idade média não é absurdo, mas nada seria sem a CONDIÇÃO HUMANA, esse pathos que olha para baixo e para cima das cadeias com seus próprios olhos. Também já fui pedra e fui estrela. O pequeno príncipe me revive um tipo de consciência cósmica longamente entalada. A National Acrobat. Raul Seixas. Engraçado… o que eu estava fazendo dia 19 de janeiro de 2008? Tianguá e o demente. Surpreendente autocontrole. E interesse pelo tio-avô tão camponês. Moscas malditas e R. Eu sou a bomba atômica e sou a flor.

(06/11/2009)


“Hegel incorreu num sexto sentido – o senso histórico”

“O Homem do Subsolo de Dostoievski e o meu supra-homem são a mesma pessoa”

“Talvez os pregadores de Alá me inscrevam em suas memórias como o único cristão honesto da Europa – um cristão honesto demais para aceitar a escravidão moral paulina e que preferiu, como Jesus ele mesmo, cremar-se no relâmpago do Velho Testamento.”

“Salomão, o único judeu com ganas de imperador, promotor da Pax Judaica no mundo bárbaro. Seu império poderia se esticar até o fim do mundo, paraíso e terra sob a propaganda de Jeová.”

“A suprema doutrina das mulheres seria a obtenção do infinito orgasmo.”


DEMOCRACIA                    X                          EUCLIDES, O “TRIGONOMÉTRICO”

estatísticas                                                                              forma

redução ao ideal                                                                não-números

paradigma do hospício                                                         potências

controle da maioria                                                  (eu sou um círculo maior)

razão                                                                           desprezo das minorias¹

¹ Provável alusão ao fato de que os gregos não se preocupavam com quantidades irracionais ou desprezíveis nas exressões matemáticas.


“Há dois tipos de bárbaros; aquele que precede séculos de iluminismo e aquele que os sucede” Na mesma página cita Condillac, polímata da época iluminista.

“O idealismo moral não pode suplantar a compulsão econômica de nossa era: Ruskin, Carlyle e outros britânicos obsoletos, especialmente o cabeça-de-vento John Stuart Mill, não aprenderam o básico sobre a modernidade. Se eu não fosse César seria Cristo, o Socialista, montaria num jumento e cavalgaria até Jerusalém com Marx. A ambição de poder dos marxistas complementa a ambição de poder dos nietzschianos, mas eu prefiro chegar a Jerusalém num cavalo de batalha árabe, ao invés de no lombo dum burro proletário.”

“Brandes me chama de um anarquista aristocrático – e é exatamente o que eu sou. Quem, senão um judeu, para me desmascarar e contemplar esta face de Disraeli, o tory radical? O radical extremado e o reacionário extremado são irmãos debaixo da pele: ambos têm inclinação para demagogias liberais e humanitárias, e só conhecem um caminho rumo ao triunfo – a vontade de potência.” Moderados, demasiado moderados, assim nós da esquerda teríamos de nos classificar hoje.

“As pessoas precisam ser governados com mãos de ferro, e eu profetizo uma época de Césares proletários [Lenin e Stalin?] que agirão como Rousseaus, enquanto Marx acaba construindo e sendo a vanguarda ideológica de ditaduras democráticas onde as iniciativas da companhia de água e esgoto e do fabricante de calças [!] são identificadas como a vontade de Deus e codificadas em leis draconianas escritas em letras de sangue.”

“Dizem que por tomar o lugar do Senhor no meu sistema filosófico eu provei minha egomania. Mas na verdade eu sou extremamente modesto. Para mim, ocupar o lugar de Deus é um rebaixamento e humilhação, não uma rara promoção aos picos do Monte Sinai! § Ao invés disso, eu sequer deveria ter falado em deus na minha obra, deixando esse problema para os ingleses – Carlyles com mania de grandeza – resolverem.”

“Não há lugar que não fique tedioso a longo prazo”

“Me pergunto o que seria de Kant se tivesse sido induzido a viajar de navio”

“Só num país como a Alemanha eu, o autor de Zaratustra, teria a necessidade de pagar do próprio bolso sua quarta e última parte!” Esse fato é verdadeiro.

“O supra-homem não é uma fantasia privada: é nossa realidade biológica e transcendental”

“Se Deus não tivesse morrido seguramente o século XX não ocorreria”

“há mais segurança na caverna de Platão”

“eu sou o fulcro da História (…) ainda que também o encontrem no Príncipe de Maquiavel”

“o veneno anti-semita que cada alemão bebe do leite da mãe”

“espero não viver o suficiente para ultrapassar este século”

“Eu nunca imaginei o fim da raça humana porque eu tenho uma visão trágica da vida”

Berlioz, “o supra-homem da música”.

“Em menos de 50 anos ser chamada de ‘wagnerete’ provocará processo por calúnia e difamação contra o ofensor, e quando uma ópera wagneriana for mencionada em nobre companhia haverá mal-estar na sala.”

Me ssa lina

“Impregnemos nossas vidas com a impressão da eternidade! Vamos viver de modo que desejássemos sempre viver de novo: esse é meu credo, ontem, hoje, amanhã, e nos ontens que sucederão o amanhã.”

HISTORIOGRAFIA MARXISTA: Um intróito

Dando continuidade ao post de 17 de abril último, “SINOPSES DE (ALGUNS) LIVROS INDISPENSÁVEIS PARA A FORMAÇÃO DO HISTORIADOR – Episódio I”,¹ com 11 sinopses de importantes obras de introdução ao estudo da História, e conforme combinado àquela altura, dedicaremos outro post somente a sinopses de obras ligadas à historiografia da esquerda marxiana num segundo episódio das SINOPSES DE CLÁSSICOS DA HISTORIOGRAFIA. Antes, porém, uma ligeira tradução do início do verbete Marxist Historiography (https://en.wikipedia.org/wiki/Marxist_historiography) do wikipedia, para situar o leitor e aprendiz.

¹ https://seclusao.art.blog/2023/04/17/sinopses-de-alguns-livros-indispensaveis-para-a-formacao-do-historiador-episodio-i/

“A historiografia marxista, ou historiografia materialista histórica, é uma escola muito influente da historiografia. Os pontos-chaves da historiografia marxista incluem a centralidade do conceito de classe social, as relações sociais de produção em sociedades divididas em classes em incessante conflito entre si e o estudo das limitações econômicas na determinação de resultados históricos (materialismo histórico). Os historiadores marxistas estudam o desenvolvimento da divisão de classes, especialmente nas sociedades moderno-capitalistas.

A historiografia marxista se expandiu de uma tal forma que deu lugar a ramificações regionais e políticas as mais díspares. É diferente falar de uma historiografia marxista ocidental e de uma historiografia marxista soviética, ou indiana, ou pan-africanista ou ainda de tradição afro-americana,¹ havendo sempre a adaptação a circunstâncias geográficas e políticas dos objetos de estudo.

¹ Chama a atenção o artigo wikia não citar sequer a China!

Com as lentes da historiografia marxista estabeleceram-se histórias do proletariado e uma metodologia para a história social ou popular.[1][2][3]

A historiografia marxista é criticada por seus adversários como sendo de veio determinista,[4][5][6] supostamente apontando uma direção futura e inevitável da História, incluindo, nessa premissa, o fim do Estado e uma sociedade sem-classes. A historiografia marxista nos círculos marxistas mais fiéis ao ideário original do autor é vista, honestamente, o que nega essa crítica acerba acima, mais como ferramenta de estudo histórico que como ideologia ou ambição política (o que o marxismo, sem o prefixo historiografia, sem dúvida é). É notável que há classes oprimidas pelos que até hoje criaram a História e até hoje não foram agentes de sua própria narrativa, entre outros fatores graças à ausência da consciência de classe, liberdade no sentido estrito. A História que precede a descoberta da luta de classes não deixa de ser uma história mecanicista ou “natural”, pseudo-história, destino ou fado, em que as reais questões ainda não foram colocadas e se encontravam inconscientes. De qualquer modo, para o marxista e, em geral, para o historiador marxista, a historiografia marxista conduzirá naturalmente a movimentos de liberação mundo afora.

Nem toda historiografia marxista é socialista ou comunista no senso acima apresentado. Métodos de historiografia marxista, como análise das classes, podem estar divorciados de interesses do espectro da esquerda. Historiadores podem usar sua metodologia ainda que discordem pessoalmente dos resultados ou do projeto político como um todo. Criou-se, devido a essa complexidade e ambigüidade, a nomenclatura “marxiano” para se diferenciar de “marxista”. A historiografia marxiana usa os métodos historiográficos inaugurados por Karl Marx e Friedrich Engels para analisar a sociedade, sem aderirem conscientemente a ideais revolucionários.[7]¹

¹ Acho essa tese da dicotomia –ista –iana bem fraca! Coisa de americano…

Enfim, essa tradução nos serve mais para nos pormos desconfiados e prevenidos quanto a “discursos neutros” nos círculos conservadores da História enquanto disciplina acadêmica do que como fonte informativa, e este foi meu intuito momentâneo! Não estaremos escavando material bem-vindo ou amigável aos senhores deste planeta no próximo post…

Referências

[1] BEN FINE; ALFREDO SAAD-FILHO; MARCO BOFFO (jan/2012). The Elgar Companion to Marxist Economics. Edward Elgar Publishing. p. 212. ISBN 9781781001226.

[2] O’ROURKE, J.J. (06/12/12). The Problem of Freedom in Marxist Thought. Springer Science & Business Media. p. 5. ISBN 9789401021203.

[3] STUNKEL, Kenneth (23/05/12). Fifty Key Works of History and Historiography. Routledge. p. 247. ISBN 9781136723667.

[4] = 1

[5] = 2

[6] = 3 [Curioso! Utilizavam-se 3 adversários do marxismo para conceituá-lo na “enciclopédia livre”! Interessante…]

[7] “Encyclopædia Britannica: Historiography – Marxist historiography”

TRILOGIA DIMMUBORGUIANA

O TORTURADOR DE ALMAS CRISTÃS

Poder-te-ia arrastar até meus aposentos,

desnudar-te ali mesmo longe da luz.

Poder-te-ia arrancar as unhas uma a uma,

deflorar-te até o fim de tuas esperanças,

sem luz no fim dos túneis.

.

.

Poder-te-ia estripar,

remover tuas entranhas,

pensamento meu calmante!

Ou deixar-te só, enquanto apenas observas,

ó gestante!, impotente a morte de teu feto.

.

.

Poder-te-ia deixar à míngua, apodrecer de fome.

Fazer baixar sobre ti um inextricável silêncio.

Mas isso é nobre demais para mim!

.

.

Não há prazer

na simples tortura física.

Quero fragmentar tua alma de cristã,

por dentro esfacelá-la em migalhas.

.

.

Su’alma’maldiçoada… de cristã!

.

.

Só depois… que testemunhar tua igreja em chamas,

e apanhar-te em prantos, começarei então a rir.

Só depois… que acompanhar cada segundo

de teu luto por teus entes queridos,

Contentar-me-ei– sobre as ruínas!

.

.

Gargalharei nas trevas,

Meu desejo alucinante!

Sou o torturador de almas

almas amaldiçoadas…

de critãs!

.

.

.

.

ORGIÁSTICO ARREBATAMENTO DA SÚCUBO

Pestes e ‘nfermidades mil,

misturadas com miséria e aniquilação

são o prato de regalo desta cozinheira,

troçadora das leis celestiais

e dos cânones morais.

Todos os machos no cio são

carne de carniça

para seus experimentos!

.

.

Dotada de poder,

abençoada com a mágica,

Ela contempla o mundo

com esguios olhos de corvo,

acima de todos.

.

.

Mulher da encruzilhada,

prostituta sedutora na estrada…

Princesa heresiarca:

do trono do demônio,

a próxima monarca!

.

.

Sua elegância sem par de meretriz,

é o bastante para perder todos os homens,

meros cornos extravagantes!

Beleza que não é deste mundo,

encanta menos tua mente

que teu irrefletido membro fecundo!

.

.

Maldita mulher,

prostituta enganadora.

Princesa heresiarca:

do trono do demônio

a iminente ocupadora!

.

.

Escuta agora a serenata,

homem de fé, a serenata negra

e desencantada!

.

.

Escuta enquanto abrasa tu’alma!

Estás perdido, marinheiro imundo,

Ela agora governa tua nau!

No ritmo das puras ondas do mal.

.

.

Sua elegância sem par de meretriz,

é o bastante para baixar-te ao inferno, ó homem!

.

.

.

IMPULSO VITAL PRIMITIVO E OMINOSO

Em demência irreversível,

contaminado de mundana vaidade,

com dignidade

carrego a Marca do Diabo.

.

.

Bestas triunfantes divinamente entronizadas.

Escondidas nas trevas…

Até que nos convoquem,

nós os da Marca do Diabo!

.

.

Cavalgo a besta mais odienta

acima das nuvens,

é um assalto e desafio ao céu!

Víboras que tornarão o mundo mais leve,

Ao despojar do homem toda a culpa,

das costas de Ájax toda a labuta!

.

.

Deixar-nos-ão entrar?

A luta não é alada!

Minha mente envenena,

de maus presságios

inoculada!

.

.

Ó, infiéis e espantalhos!!!

Decaí já!

Estais no lugar errado!

A Marca da besta é a vossa marca!

.

.

Hipnotizados, irrecuperáveis.

Jogados na tormenta da existência,

no turbilhão do egoísmo

dos marcados pelo Diabo!

.

.

Varridos sem resistência

pelo IMPULSO VITAL PRIMITIVO E OMINOSO.

Estuprados pela pureza da maldade,

revelem-se agora, portadores da Marca,

moradores do inferno insonhável!

.

.

Espantado, paralisado,

diante do IMPULSO VITAL PRIMITIVO E OMINOSO…

eu mesmo descamo. Não fui chamado?!

.

.

Varridos sem resistência

pelo IMPULSO VITAL PRIMITIVO E OMINOSO.

Perdidos no labirinto do Fauno

ou do Fausto, no trato apunhalado.

.

.

Em demência irreversível,

contaminado de mundana vaidade,

com dignidade

carrego a Marca do Diabo.

.

.

Mas o que é isso?

A Marca sumiu…

Olho-me no espelho–

eu sou o Diabo!

TRADUÇÃO DA PÁGINA “MANUSMRITI” (LEIS DE MANU) DA WIKIPEDIA ENGLISH CONFORME VERSÃO ENCONTRADA EM 16 DE JULHO DE 2023 (COM OMISSÕES E CONDENSAÇÕES, DADO O CARÁTER REDUNDANTE DO VERBETE)

O Manusmṛiti (Sânscrito: मनुस्मृति), também conhecido como Mānava-Dharmaśāstra ou Leis de Manu ou Código de Manu, é um dos vários textos legais e constitucionais no repertório dos Dharmaśāstras, pertencente ao Hinduísmo. Na Índia Antiga os sábios costumavam anotar em manuscritos suas concepções sobre como deveria se organizar a sociedade. Reputa-se que a forma original do Manusmriti foi alterada e interpolada com comentários e opiniões de escritores póstumos, uma vez que muitas informações contradizem umas às outras.

Mais de 50 manuscritos do Manusmriti são conhecidos, mas a primeira versão descoberta, a mais traduzida, difundida e reputada como autêntica desde o século XVIII seria o “manuscrito Kolkata (antigamente referido como Calcutta) com comentários de Kulluka Bhatta”. A academia moderna considera esta alegação de legitimidade uma farsa, e os múltiplos manuscritos do Manusmriti descobertos na Índia são inconsistentes entre si, mesmo internamente, o que leva a crer que haja problemas de legitimidade do texto ligados a inserções e interpolações feitas sobre uma hipotética fonte original.

O texto, em versos, está em sânscrito, e é geralmente datado como sendo do primeiro ao terceiro século d.C., apresentando-se como um discurso dado por Manu (Svayambhuva) e Bhrigu sobre assuntos do dharma como obrigações, direitos, leis, conduta, virtudes, entre outros. A influência do texto foi detectada fora do próprio território indiano pela historiografia. A lei búdica medieval de Myanmar e da Tailândia também são atribuídas a Manu, e o texto influenciou reinos hinduístas passados no Camboja e na Indonésia.

As Leis de Manu foram uns dos primeiros escritos sânscritos a ser traduzidos para a língua inglesa em 1776, pelo filólogo britânico William Jones; foram usadas como refência para a criação do código hinduísta da Colônia (o enclave da Companhia das Índias Orientais administrado pela Inglaterra).

Nomenclatura

O título Manusmriti é relativamente recente, cunhado provavelmente devido à natureza versificada do documento. Os mais de 50 manuscritos descobertos nunca usam esse título, e sim Manava Dharmasastra (sânscrito: मानवधर्मशास्त्र) em seus colofões no fim de cada capítulo. Na academia, ambos os títulos, portanto, se referem ao mesmo texto.

Cronologia

William Jones e Karl Wilhelm Friedrich Schlegel dataram o Manusmriti como tendo sido escrito por volta de 1250 a.C. e 1000 a.C., respectivamente, o que, do ponto de vista da lingüística atual, é insustentável, uma vez que a linguagem do texto, que tem de ser atribuída a um período posterior ao texto védico mais tardio, não é anterior, de perspectiva alguma, a pelo menos 500 a.C. Ultimamente, porém, os escoliastas atualizaram a provável data do texto como provindo de período ainda mais recente: do primeiro ou segundo século da era cristã. Patrick Olivelle, filólogo e indologista, acrescenta que evidências numismáticas e a menção de moedas de ouro sugerem uma datação ainda mais avançada, séculos II ou III.

Maioria dos orientalistas considera o texto um compósito produzido por múltiplos autores durante um vasto período de tempo. Olivelle acredita que os textos indianos antigos e medievais passaram sem exceção por exaustivas revisões e reedições, e neste caso suas pesquisas indicariam um protótipo do Manusmriti contendo 100 mil versos e 1080 capítulos. Não obstante, a versão moderna, de acordo com o próprio Olivelle, seria uma supercondensação de autoria de um autor único, ou de um guru com uma equipe de assistentes.

O Manusmriti, segundo Olivelle, nunca foi um documento original – ele bebe de outros textos e reflete “uma cristalização do conhecimento acumulado” na Índia Antiga. A raiz dos modelos teóricos inscritos no Manusmriti pode ser dita como consistindo, no mínimo, de 2 shastras (“disciplinas”, em forma de um livro contendo um código moral) que o precedem: artha (política e direito) e dharma (conceito hindu muito antigo que engloba o que chamamos de obrigações, direitos, leis, condutas, virtudes e outras prescrições discutidas nos vários Dharmasastras, todos mais antigos que o Manusmriti). Seus conteúdos podem ser traçados como originados nos Kalpasutras da era védica, que levaram ao desenvolvimento dos Smartasutras, compostos dos Grihyasutras e Dharmasastras. Os textos fundadores do Manusmriti incluem vários desses sutras ou sastras, todos eles da era pré-cristã. Muitos deles inclusive conhecemos apenas de nome, sendo 4 os remanescentes: os códigos legais de Apastamba, Gautama, Baudhayana e Vasishtha.

Estrutura

A versão antiga do texto foi dividida pelos modernos em 12 Adhyayas (capítulos); aquela não possuía nenhuma divisão. O texto cobre vários temas, sendo único entre textos hindus antigos no uso de “versos de transição” que demarcam o fim de um assunto e o começo de outro. O texto pode ser, a rigor, dividido tematicamente em 4, com proporções bem diferentes entre as seções, e com algumas subseções:

  1. Criação do mundo

  2. A fonte do dharma

  3. O dharma das 4 classes sociais

  4. A lei do karma, do renascimento e da liberação final

O texto foi composto na métrica Shlokas (versos), na forma de um diálogo entre um mestre exortativo e discípulos ansiosos para aprender os vários aspectos da doutrina do dharma. Os primeiros 58 versos são atribuídos ao próprio Manu, enquanto os mais de 2 mil versos restantes são atribuídos ao seu discípulo Bhrigu. Olivelle lista as subseções como segue:

Fontes da lei

O Dharmasya Yonih (Fontes da Lei) tem 24 versos e 1 verso de transição. Eles contêm o que o texto considera a justa e adequada fonte da lei:

वेदोऽखिलो धर्ममूलं स्मृतिशीले च तद्विदाम् । आचारश्चैव साधूनामात्मनस्तुष्टिरेव च ॥

Tradução 1: O Veda inteiro é a (primeira) fonte da lei sagrada, em seguida vêm a tradição e a conduta virtuosa daqueles que conhecem o Veda, além dos costumes de homens pios e, por fim, a auto-satisfação ou auto-contentamento (Atmana santushti).

Tradução 2: A raiz do dharma são, além do Veda, a tradição e os costumes daqueles que conhecem o Veda, além da conduta de pessoas virtuosas, considerando o que é útil e interessante para si mesmo.

— Manusmriti 2.6

वेदः स्मृतिः सदाचारः स्वस्य च प्रियमात्मनः । एतच्चतुर्विधं प्राहुः साक्षाद् धर्मस्य लक्षणम् ॥

Tradução 1: O Veda, a tradição sagrada, os costumes dos homens virtuosos e o próprio prazer individual, declaradas como as fontes quádruplas da definição da sacralidade da lei.

Tradução 2: O Veda, a tradição, a conduta das pessoas boas e o que é prazeiteiro ao indivíduo – dizem que estes são os 4 caminhos do dharma.

— Manusmriti 2.12

Esta seção do Manusmriti, como outros textos de direito hindus, incluem 4 fontes do dharma, como enfatiza Levinson, o que inclui o Atmana santushti, Sadachara (normas locais de indivíduos que se sobressaíram em vida), Smriti (a rememoração intergeracional da sabedoria) e Sruti (sermões ouvidos).

Dharma das 4 Varnas (castas)

Mais informações: Varna (Hinduism)

  • 3.1 Regras relativas à Lei (2.25 – 10.131) (notação: capítulo ponto verso)

    • 3.1.1 Regras da ação em tempos de paz (2.26 – 9.336)

      • 3.1.1.1 O Dharma quádruplo de um brâmane (2.26 – 6.96) (contém a seção mais longa do Manusmriti subseção 3.1, chamada dharmavidhi)

      • 3.1.1.2 Regras de ação para um rei secular (7.1 – 9.324) (Contém 960 versos, inclui a descrição de instituições e funcionários do Estado, como os funcionários devem ser escolhidos, leis de impostos, regras da guerra, o papel e os limites do poder do rei (o governante civil), e longas seções cobrindo 18 razões para litigância, incluindo aquelas relativas ao descumprimento de um contrato, quebras de contrato, o não-pagamento de salários, disputas de propriedade, disputas de herança, humilhação e difamação, agressão física, roubo, violência sob qualquer forma, lesões, crimes sexuais contra as mulheres, a segurança pública e outras. A seção inclui ainda regras sobre a formação de provas, regras sobre interrogatórios de testemunhas e a organização dos tribunais.)

      • 3.1.1.3 Regras de ação para Vaiśyas e Śūdras (9.326 – 9.335) (a menor seção, 8 regras para os vaishyas, 2 para os shudras, mas algumas dessas leis aplicáveis a estas duas classes são discutidas de maneira muito geral ainda nos versos 2.26 a 9.324)

    • 3.1.2 Regras de ação em tempos de adversidade (10.1 – 11.129) (contém regras estipuladas pelo aparato estatal às 4 varnas para tempos de guerra, fome ou outras emergências ou calamidades)

  • 3.2 Regras relativas à penitência (11.1 – 11.265) (inclui regras de punição proporcional ao delito; em vez de multas, encarceramento ou morte, discute sobre a auto-penitência ou isolamento social como forma de punir certos crimes brandos.)

Os versos 6.97, 9.325, 9.336 e 10.131 são também de transição. Olivelle observa instâncias de interpolação e inserção nos textos das seções, tanto na versão vulgar quanto na edição crítica, que nesse aspecto não diferem.

Determinação do Karmayoga

Os versos 12.1, 12.2 e 12.82 são transicionais. Esta seção está em um estilo diferente do restante do texto, suscitando a dúvida de se todo o capítulo não teria sido interpolado. Enquanto que há evidências para julgar que este capítulo foi redigido ao longo de vários séculos, não pode ser descartada a hipótese de que o capítulo inteiro seja uma interpolação única, anexada mais tardiamente a uma versão mais antiga do Manusmriti.

  • 4.1 Frutos da ação (12.3–81) (seção sobre ações e conseqüências, responsabilidade pessoal, ação como meio de alcance do moksha – a maior felicidade terrenal)

  • 4.2 Regras da ação para o supremo bem (12.83–115) (pequena seção sobre karma, obrigações e responsabilidades como meio para atingir o supremo bem)

O último verso do Manusmriti declara

एवं यः सर्वभूतेषु पश्यत्यात्मानमात्मना । स सर्वसमतामेत्य ब्रह्माभ्येति परं पदम् ॥
Aquele que reconhece em sua alma individual (
Self, Atman) a alma universal que existe em todos os seres se torna Uno em consciência com todos os demais e ingressa no estado supremo, Brahman.

— Manusmriti 12.125, manuscrito de Calcutta com comentários de Kulluka Bhatta.

Conteúdo

A estrutura e o conteúdo do Manusmriti sugere ser este um documento predominantemente destinado aos brâmanes (a classe sacerdotal) e aos Kshatriyas (reis políticos, administração e classe guerreira). O texto dedica 1034 de seus versos, ou seja, mais da metade, a leis que concernem às virtudes bramânicas, e 971 à segunda classe. A declinação de regulamentos para os Vaishyas (classe mercante) e os Shudras (artesãos e trabalhadores braçais) é sempre mais breve e econômica. Olivelle sugere que tal característica pode ser explicada pela necessidade dos autores ou do autor de estabelecer, em prol do equilíbrio intercastas, “a mediação do poder político (temporal) e os interesses sacerdotais (espirituais)”. Teria sido, a da confecção do documento, uma época de aumento de invasões de povos estrangeiros à Índia.

Sobre as virtudes e a condição de pária

O Manusmriti enumera e prescreve virtudes em muitos de seus versos. Um exemplo seria o verso 6.75: a não-violência é a palavra de ordem, e a temperança um comportamento fundamental. No verso 10.63 consta que as 4 varnas devem se abster de machucar qualquer criatura, de mentir e de roubar bens e propriedades.

Analogamente, no verso 4.204, Olivelle ressalta, alguns manuscritos do Manusmriti descrevem as virtudes desejadas como sendo “compaixão, tolerância, veracidade, pacifismo, auto-controle, desapego dos desejos, meditação, serenidade, candura e honestidade” em primeiro lugar; logo depois viriam “purificação, sacrifício, trabalho ascético, caridade, recitação dos Veda, restrição dos órgãos sexuais, observâncias (dos preceitos védicos), jejuns, cultivo do silêncio e asseio”. Alguns manuscritos do texto contêm um verso 4.204 diferente, listando “não machucar ninguém, falar sempre a verdade, ser casto, sincero e nunca um ladrão” como virtudes centrais; enquanto “não ceder à ira, obedecer ao mestre, purificar-se, comer com moderação e vigilância” como as virtudes secundárias exigidas.

Em uma terceira variante de manuscritos do Manusmriti descoberta, incluindo o mais prolificamente traduzido (de Calcutá), o texto declara, no verso referido, que todos os preceitos dos Yamas, como a ahimsa, são essenciais; e que preceitos dos Niyamas, tais quais Ishvarapranidhana (veneração de um deus pessoal) são menores, e que os brâmanes que pratiquem apenas Niyamas e não Yamas se tornarão párias ou proscritos, excluídos das 4 varnas, destituídos de direitos.

Relevância do Manusmriti

Escolhas, comportamentos e ética

O Manusmriti possui muitos versos descrevendo obrigações de uma pessoa para consigo mesma e seus próximos, incluindo códigos morais e legais. Trata-se de um contraste similar à divisão moderna entre regras informais que imperam nas relações de matrimônio ocidentais (que não são objeto do código penal, mas tabus) e que rebaixam a condição de crianças nascidas fora de casamentos formais; mas que ao mesmo tempo buscam, na letra da lei, uma proteção do estatuto da infância, que deve ser digna independentemente do contexto do nascimento da criança. [Trecho muito mal escrito e inoportuno para uma página de enciclopédia, na minha opinião. Traduzi torcendo o nariz.]

Condutas individuais são extensamente previstas. Os versos 2.51–2.56 recomendam que um monge (asceta, sábio ou guru em treinamento) viva da mendicância, mas que sempre dê a comida e o dinheiro adquiridos primeiro a seu mestre antes de poder comer e usufruir ele mesmo da quantia. Deve-se reverenciar a comida obtida e comer tudo sem desdém, mas nunca recair na gula e intemperança, o que é prejudicial à saúde. No verso 5.47 o texto cita que o trabalho se torna menos árduo quando o homem medita durante sua execução e só executa aquilo que tem prazer em executar, e quando este ofício não prejudica outras criaturas.

Uma miríade de versos se concentra sobre as interdições e recomendações no tocante ao consumo de carne; normalmente ele implica o sofrimento animal e seu consumo é mau. Há uma apologia do vegetarianismo avant la lettre. E no entanto não parecem prescrições absolutas, pois o tom é temperado para que o praticante sempre escolha sua conduta e sua dieta com diligência conforme seu contexto (se não for possível evitar a carne, que se a coma). O verso 5.56 diz: “não é pecado comer carne ou ingerir licores, ou praticar o sexo; essas são atividades naturais das criaturas. Abster-se de tais atividades, entretanto, é gratificante para o sujeito”.

Sobre os direitos da mulher

O Manusmriti é mais inconsistente e contraditório consigo mesmo quando trata das funções da mulher na sociedade. Diz-se que o casamento não pode ser dissolvido por uma mulher ou por um homem (vv. 8.101–8.102); em outras seções o divórcio é autorizado para ambas as partes. Conforme os vv. 9.72–9.81 um casamento fraudulento pode ser anulado, bem como a relação abusiva, assim como os divorciados podem contrair cada qual um segundo matrimônio. Há também previsão legal para mulheres contraírem novo casamento mediante desaparecimento ou abandono comprovado do marido.

Prega-se, alhures, a castidade das viúvas (vv. 5.158–5.160), e interdita-se o casamento fora da própria casta (vv. 3.13–3.14). Nos vv. 2.67–2.69 e 5.148–5.155 o Manusmriti declara que toda garota deve obedecer e buscar a proteção do pai, a jovem a do marido, e a viúva a do filho. E que uma mulher deve sempre venerar seu marido, e seu filho, vicariamente, após a morte do marido. Essa veneração deve ser análoga à veneração de um deus; e o homem não deve considerar sua esposa menos do que a encarnação de uma deusa. Nos vv. 3.55–3.56 o Manusmriti cita: “as mulheres devem ser honradas e estar sempre adornadas”, e “onde as mulheres são reverenciadas, os deuses se regozijam; onde elas não o são, nenhum ritual sagrado gera qualquer benefício”. Nos vv. 5.147–5.148 temos: “uma mulher nunca deve buscar viver sozinha”.

E, concomitantemente, o texto enumera numerosas práticas de casamentos intercastas (anuloma, pratiloma, etc.), mesmo o de um brâmane com uma Sudra (primeira com quarta casta) (vv. 9.149–9.157), uma viúva que engravida de um outro homem (vv. 9.57–9.62), ou ainda o de casais fugitivos [!] – que depois de haverem fugido para contrair relações que não seriam autorizadas pelas famílias podem ser legalmente reconhecidos no direito de família caso regressem, conforme os vv. 9.143–9.157 –, sem ignorar ainda [como antecipado mais acima] os direitos que não deixam os menores em situações excepcionais desassistidos socialmente.

O texto tampouco se cala diante da situação da gravidez da mulher casada de um homem que não seja o marido, dedicando-lhe os vv. 8.31–8.56: a custódia deve ser da mãe e do marido legalmente constituído, e não do pai biológico.

O Manusmriti prevê que a mulher tem direito a possuir 6 diferentes tipos de propriedade (vv. 9.192–9.200), quais sejam: dote, doação após fuga com o amado, resgate após seqüestro, presente facultativo do noivo ou de sua família sangüínea; e a última hipótese, a da herança.

Flavia Agnes, feminista indiana contemporânea, comenta que o Manusmriti não é de fácil interpretação da perspectiva feminina. A lei imposta pela colonização inglesa fundiu algumas das noções hindus com certos preceitos disseminados pelo islamismo, mas ignorou vários conteúdos de ambas as religiões, presentes na região da Colônia, enfatizando outros, criando um direito inédito. Toda essa intervenção inglesa (para pior, no caso do reconhecimento de direitos mais amplos às mulheres) criou mitos a respeito de um papel histórico precursor do Manusmriti no sul da Ásia. Embora possua pontos considerados avançados na isonomia dos sexos, a legislação de Manu não pode ser considerada “progressista” do ponto de vista atual.

Do Estado e da arte militar

O capítulo 7 se concentra no rei (líder da segunda casta): quais as suas obrigações, que virtudes deve cultivar e que vícios deve evitar. Os vv. 54 a 76 explicam como deve ser a nomeação de ministros, embaixadores e servidores. Descreve-se como deve ser estruturada a capital dum império. O Manusmriti segue explicando o direito de guerra, discriminando que a negociação pacífica e as tentativas de reconciliação devem ter sempre prioridade. Caso a guerra seja inevitável, o soldado não está autorizado a ferir civis, não-combatentes ou mesmo inimigos rendidos. Deve-se empregar força apenas proporcional, dentre outras noções éticas muito familiares ao direito moderno ocidental. Indiretamente relacionada ao assunto está a cobrança de tributos a povos submetidos, de 7.127 a 7.137.

Autenticidade e inconsistências nos vários manuscritos

Olivelle, creditado como tradutor de uma edição dos Manusmriti publicada em 2005 pela Oxford Press, prefacia que na academia pós-moderna (contemporânea) não há como falar em autenticidade ou inautenticidade do texto per se:

“O MDh foi o primeiro texto jurídico hindu a ser conhecido pelo Ocidente, em 1794. … Todas as suas edições, exceto a de Jolly, reproduzem o texto do manuscrito de Calcutta com os comentários de Kulluka. Eu denomino essa versão de vulgar ou popular (a vulgata do Código de Manu). Esta versão é a mais conhecida por ter ganhado traduções de W. Jones (1794), Burnell (1884), Bühler (1886) e Doniger (1991). … A crença na autenticidade do texto de Kulluka foi debatida por Burnell (1884, xxix): ‘Restam poucas dúvidas de que o texto recebido de Kulluka Bhatta, adotado por estudiosos europeus e indianos, seja muito próximo ao texto do manuscrito original.’ Essa é uma afirmação leviana. Quem já investigou a maioria da mais de meia centena de manuscritos existentes sabe que há mais divergências que coincidências em relação ao conteúdo.”

— Patrick Olivelle, Manu’s Code of Law (2005)

Sinha acredita que no máximo 1214 dos 2685 versos poderiam ser considerados genuínos. Apontam-se contradições internas em versos como 3.55–3.62 (glorificação da mulher) e 9.3 e 9.17 (extrema objetificação da mulher). Algumas passagens, direcionadas a Ganesha, seriam absolutamente forjadas. Robert E. Van Voorst hipotetiza que os vv. 3.55–60 podem se referir ao tratamento destinado à mulher no lar, e os trechos que a objetificam refletiriam apenas o aspecto público de uma sociedade estritamente patriarcal, o que seria segundo o autor perfeitamente conciliável.

Mahatma Gandhi disse o seguinte a respeito das contradições do Manusmriti:

“Considero o Manusmriti uma parte dos shastras. Isso não significa que me comprometa com todos os versos impressos neste livro. É mesmo humanamente impossível fazê-lo.”

— Mahatma Gandhi, On Adi-Dravida’s Difficulties

Comentários

Há uma verdadeira escola de comentaristas (escoliastas) do texto já no período medieval da Índia. Bhāruci é o mais antigo dos comentadores. Kane data sua vida entre os séculos X e XI, Olivelle no VIII e J. Duncan M. Derrett entre o VII e o VIII. Significa que com base nesses três escoliastas modernos podemos inserir Bhāruci em qualquer ano do 600 a 1200 d.C. O comentário de Bhāruci é denominado Manu-sastra-vivarana e tem muito menos versos que a versão vulgar (Kullūka-Calcutta) em circulação desde a época da colonização britânica. Há algumas referências a textos mais antigos, reputados como para sempre perdidos. O comentário mais antigo é alternativamente chamado Raja-Vimala. Derrett aponta que Bhāruci é “no geral mais fidedigno ao propósito histórico do Manusmriti” do que qualquer outro exegeta.

O comentário de Medhātithi foi bastante estudado. Buhler, Kane e Lingat crêem que ele fôra um autor da Índia setentrional, provavelmente da Caxemira. A estimativa é que sua resenha tenha sido escrita entre os séculos IX e XI.

O comentário de Govindarāja, Manutika, é estabelecido com precisão como pertencente ao século XI. Isso porque foi referenciado por outros 2 comentários, Jimutavahana e Laksmidhara, tendo sido, segundo Olivelle, plagiado por Kullūka.

Kullūka ele mesmo, que escreveu o Manvarthamuktavali, além da propria versão mais consagrada do Manusmriti, criou basicamente toda a reputação não-erudita e grande parte da reputação erudita do Código de Manu, e seu manuscrito foi descoberto na Calcutá da época em que estava sob controle britânico. Não há “mérito” em sua maior reputabilidade, de fato: foi por sorte a versão achada primeiro. Sua datação é o séc. XIII, como período mais precoce possível, ou XV, previsão mais tardia.

O comentário de Nārāyana, intitulado Manvarthavivrtti, é mais provavelmente do século XIV. A vida de seu autor é um tanto obscura, embora o nome seja freqüentemente citado na literatura hindu. Tanto Nārāyana é considerado fonte indispensável que foi este comentador a principal base para a edição crítica do Manusmriti de 2005.

Nandana, do sul da Índia, em seu comentário Nandini, oferece pistas sobre todas as interpolações no manuscrito que derivem de gurus do hemisfério meridional do país.

Outros escoliastas medievos de somenos importância são Sarvajnanarayana, Raghavananda e Ramacandra.

Relevância e papel histórico

Para as Índias antiga e medieval

Há grande ceticismo sobre se o Código de Manu foi jamais uma fonte real do Direito na Índia antiga ou medieval (do nosso calendário). David Buxbaum: “Na opinião dos mais proeminentes comentaristas contemporâneos, a quantidade de prescrições inscrita neste único documento jamais foi um documento oficial do (proto-)Estado do Hindustão. É mais uma obra defendendo uma concepção ideal a ser implementada, como A República de Platão.”

Donald Davis: “não há evidência histórica de uma ativa propagação ou implementação do Dharmasastra (entender como sinônimo do Manusmriti) por iniciativa de qualquer governador ou instituição – o texto foi sempre uma matéria sacerdotal passada adiante. Categorizar o texto como peça de direito, portanto, seria compreendê-lo mal.”

Outros estudiosos corroboram a visão de Davis, seja via fontes epigráficas, arqueológicas ou textuais da época medieval do hinduísmo e os reinos então constituídos, no Gujarat, em Kerala e em Tamil Nadu, reconhecendo, muito embora, certa influência dos mandamentos éticos sobre as legislações do sul da Ásia, nem que apenas como fonte teórica de códigos ali instalados a posteriori, sem tanta verossimilhança prática.

Fora da Índia

Os Dharmasastras, particularmente o Manusmriti, diz Anthony Reid, foram muito venerados na Birmânia (a já citada atual Myanmar). Wareru Dhammathat cita outras regiões: Sião (Tailândia), Camboja e Java-Bali (Indonésia). Os reis destes lugares seguiam o Manusmriti literalmente, diferente da própria Índia pré-moderna, que afinal é a mãe do documento. Em Java havia maior flexibilidade e tolerância quanto aos mandamentos de Manu. Deve-se esclarecer, entretanto, que os manuscritos que circulavam pelo Sudeste Asiático diferem consideravelmente da versão vulgar mais célebre. Há interpolações no manuscrito Calcutta feitas em séculos mais recentes, próximos à invasão anglo-saxã da Índia.

Para a Índia britânica

Artigo principal: Lei hindu (em inglês)

Antes da lei britânica, a Sharia (lei do Islã) fôra codificada pelos muçulmanos espalhados no sul da Ásia e rebatizada como Fatawa-e-Alamgiri. A Sharia é posterior ao Alcorão em si, mas foi aceita pelos maometanos como a “parte legal” derivada do Corão. No entanto, a lei para não-muçulmanos (hindus, budistas, sikhs, jainistas, parsis) – não fôra instituída. Com a chegada da marinha britânica o Manusmriti desempenhou um papel histórico de construção de um sistema não-muçulmano legal onde previamente havia um vácuo de normas oficiais e escritas. A percepção européia da Índia foi muito condicionada pelo conteúdo do texto. Como antes do século XVIII não havia virtualmente quase nada de empírico e sério veiculado no Ocidente sobre os hindus, estas foram as “primeiras impressões sérias” da nação, o que decerto distorceu ainda por muitas décadas a compreensão do Oriente pelo Ocidente (processo cuja mitigação ainda está em curso).

Os britânicos apoiaram o imperador de Mughal. Nasceram ali o legislativo e o judiciário indianos, por assim dizer. A Companhia das Índias Orientais, posteriormente apenas a Coroa Britânica, buscava o lucro nas suas relações com os lugar-tenentes ingleses ali estabelecidos e a manutenção da ordem política via controle militar, mais ou menos relaxado ou autoritário, conforme o contexto. A administração recém-modernizada do país nunca praticou tantas arbitrariedades quanto, p.ex., os lusos e espanhóis na América, pelo menos em teoria – buscava-se uma via racional do “menor esforço”, associando-se as autoridades inglesas a intermediários locais, “convertidos” aos valores do Ocidente, a fim de governar de maneira indireta e menos truculenta, mas igualmente eficiente e monopolista.

É claro que houve transigência no processo: os ingleses também recuavam e se adaptavam a costumes hindus que a população não aceitasse modificar ou reformar em absoluto. Sendo assim, com a lei muçulmana e o Código de Manu, a Inglaterra manteve sua grande Colônia sob controle e estabilidade, respeitando minimamente a cultura e as religiões locais. Até mesmo conflitos entre etnias hindus não sofriam pesada interferência do exército inglês. Essa política de mínima intervenção não mudaria até o final do século XIX.

“No que concerne a heranças, casamento, castas e instituições de outras religiões [em relação à Igreja Anglicana], o Alcorão, para os de fé islâmica, e o Shaster (shastras) para os gentoos (hindus) são os dois únicos sistemas legais vigentes.”

— Warren Hastings, Governador-Geral das Índias, 15 de agosto de 1772

Chama a atenção, contudo, como os oficiais britânicos interpretavam o Manusmriti como um código de leis, penal, civil, etc., nos moldes ocidentais, não compreendendo que se tratava de um comentário sobre costumes, ética e leis sacerdotais (transcendentais), o que muito difere das Constituições positivistas modernas. Ademais, muitas autoridades do Império não sabiam que o Código de Manu era apenas uma pequena parte de toda uma tradição milenar de dezenas de milhares de páginas. Ou seja, que o Código de Manu não era uma autoridade absoluta para o brâmane, mas sua própria fiabilidade derivava do reconhecimento do Veda e dos Upanishads como instâncias supremas da normatização da vida da casta superior e, em decorrência, das demais três e dos párias.

“A codificação das duas leis pelos britânicos começou em 1772 e continuou séc. XIX adentro, com ênfase em apenas alguns textos, e em algumas passagens dos textos que julgavam mais importantes, ignorando quão dinâmica era a estrutura da sociedade hindu. O status da mulher se viu, por exemplo, estagnado por completo, graças à transigência inglesa quanto às tradições indianas que eles próprios só compreendiam pela metade. A economia e sua evolução pareciam a preocupação prioritária do Império e único elemento que admitia avanços e reformas. No processo de codificação legal, os ingleses deram ouvido principalmente aos prosélitos muçulmanos e hindus, nem sempre os mais recomendáveis pregadores da própria religião. Muitas leis de costumes que não consideraríamos hindus em povoados relativamente isolados ou autônomos sofreram uma “islamização” ou “bramanização” indiscriminada, tanto quanto os ingleses conseguiam penetrar o território. Em suma, séculos de desenvolvimentos plurais foram achatados numa lei de formato unívoco e linear que não refletia de forma alguma o cotidiano da população local.”

— Abdullahi Ahmed An-Na’im, Islam and the Secular State: Negotiating the Future of Sharia [O Islã e o Estado Secular: Negociando o Futuro da Sharia]

Comparações com outros dharmasastras

Mais informações: Dharma e Dharmashastra

Além do Código de Manu a Índia contava com de 18 a 36 dharmasastras ou shastras “concorrentes entre si”, nas palavras de John Bowker. Muitos destes, todavia, foram irremediavelmente perdidos. Alguns sobreviveram em fragmentos. Poucos em sua completude, e mesmo assim nas mesmas condições do presente objeto de estudo (interpolados, modificados, com fragmentos irreconciliáveis entre si, etc.). No entanto há sempre notícias desses shastras nos inúmeros textos da religião hindu, e uns influenciam ou influenciaram os outros numa grande rede. Quanto aos comentários de natureza jurídica, depois do smriti, foi o dharma sutra mais arcaico, o Yajnavalkya Smriti, o que mais atraiu a atenção dos estudiosos. Em seguida poderíamos citar o Narada Smriti e o Parashara Smriti. De acordo com Ghose et al., o Yajnavalkya Smriti era mais citado que o Código de Manu na temática da governança (prática política). Este texto não tem datação definida e sua composição é nitidamente uma junção de outros escritos. Possivelmente ele é vários séculos mais recente que o próprio Manusmriti, mais “conciso, metódico, bem-dividido em seções e algo mais liberal quanto aos costumes muito rígidos prescritos à casta sacerdotal”.

“Pelos 18 títulos de suas leis, o Yajnavalkya segue o mesmo padrão do Código de Manu, com ligeiras modificações. No tópico dos direitos das mulheres, incluindo a herança, no status dos Sudras, nas penas criminais, o Yajnavalkya é muito mais liberal. … Ele lida exaustivamente com a criação de documentos válidos, a lei das hipotecas e negócios em associação (o direito de corporações e empresas).”

— M. Rama Jois, Legal and Constitutional History of India

Jois sugere que a verve mais liberal do Yajnavalkya Smriti possa decorrer da influência do budismo. As diferenças também incluem a adição, por Manu, de versos concernentes à organização de monastérios, arrendamento de terras, execuções de obrigações, etc. O Yajnavalkya era mais referenciado por reinos hindus na era medieval, como exposto no comentário do Vijñāneśvara chamado Mitakshara, do séc. XII.

Recepção moderna

Figuras indianas proeminentes divergem bastante na interpretação do Manusmriti. B.R. Ambedkar (à esq.) queimou o manuscrito em 1927. Gandhi (à dir.) prefere considerá-lo uma mistura de exposições elevadas com ensinamentos contraditórios. Gandhi sugere, portanto, uma leitura crítica, desconsiderando as partes contrários à ahimsa.

Entre os principais críticos nativos do texto no século XX podemos citar, que Ambedkar culpa o texto pela consolidação do sistema de castas. Como referenciado, em protesto, ele queimou um exemplar do Código de Manu numa fogueira em ato público em 25 de dezembro de 1927. Gandhi era contra a queima de livros, não importando seu teor. Mahatma considerava que as discriminações de casta, muito nocivas para o desenvolvimento nacional e espiritual do povo hindu, não estão inerentemente ligadas aos indianos como Estado nem muito menos ao sistema hindu de crenças. O texto reconhece diferentes vocações e profissões, define mais obrigações que direitos e se parece muito mais com um manifesto da importância equivalente do guru e do “zelador” (o que nós devemos entender muito mais como o verdadeiro papel do Kshatriya no lugar da enganosa palavra “rei”), ou do não-aristocrata, pois entende-se nas entrelinhas que sem os segundos não há sentido de ser da classe sacerdotal – visto que um povo não pode viver apenas de seus sacerdotes. Assevera ainda que o original podia ter um sentido diferente da versão que conhecemos, depois de séculos de emendas. O mérito maior do Manusmriti seria pregar a não-agressão e a resistência pacífica, tão úteis na independência da Índia no século XX.

A versão lida por Friedrich Nietzsche é a tradução de Louis Jacolliot. O filósofo tanto elogia quanto critica o Manusmriti:

  • O Código de Manu seria “um trabalho incomparavelmente superior, em espiritualidade”, aos escritos sagrados do cristianismo. “O livro brilha em todos os seus versos” e sua deontologia “é a de uma classe de nobres, composta de filósofos ou guerreiros, [quem] está em posição hierárquica mais alta que a da população comum”. Nietzsche não defende o sistema de castas, enfatiza David Conway, mas endossa o princípio da possibilidade da exclusão política conforme exposto pelo Código de Manu. Nietzsche considerava a ordem social de Manu muito distante da perfeição, mas entendia que a idéia da separação em castas não é incomum entre as culturas, sendo uma imposição social de uma minoria sobre uma população, sendo um fato sociológico ou antropológico, independentemente de ser desejável ou não. Nietzsche considera que qualquer hierarquia grupal, de classe ou de casta, apenas reflete a inerente necessidade humana de elaborar um ranqueamento dos próprios valores, ainda que se tratasse de uma lista individual, por exemplo, hierarquizando nomes próprios da História, ou de virtudes de uma mesma pessoa em ordem de relevância, o que parece ser um comportamento universal do homem. No fim, a formação social hindu poderia ser resumida como uma tentativa de obtenção da, uma busca pela, excelência.  Julian Young, intérprete de Nietzsche: “A natureza, e não Manu, estabelece separações: pessoas predominantemente espirituais, pessoas consideradas fortes de temperamento e também fisicamente, e um terceiro grupo de medíocres.”

  • Abaixo vem a parte criticada por Nietzsche. Segundo Walter Kaufmann, em contradição com Conway, N. “denuncia a forma como o Código de Manu lida com os proscritos, alegando que nada ofende nem indigna o sentimento do ocidental mais do que o ali estabelecido para os menos privilegiados…” Nietzsche de fato escreveu o seguinte: “esses regulamentos, produtos de uma etnia ariana bastante remota, ‘pura’, nos ensinam que o conceito de pureza de sangue é o exato oposto de uma ‘idéia inofensiva’”.

A historiadora Romila Thapar descarta por completo a opinião de Ambedkar, dita como estereotipada até o ridículo. Para Thapar, evidências arqueológicas nunca confirmaram uma pretensa perseguição aos budistas por Pushyamitra, conforme Ambedkar alegava. Ao contrário, existe uma epígrafe no portão de Bharhut, do tempo dos Shungas, que parece exalter o budismo.

Pollard et al. pensam que o Código de Manu se refere à reconstrução de uma nação devastada por uma grande série de enchentes. Swami Dayananda Saraswati, o fundador da Arya Samaj (espécie de cisma extremista em relação ao hinduísmo, pregando, paradoxalmente, o monoteísmo), considera o manuscrito de Calcutta autêntico e digno de ser seguido literalmente. Entre os maiores admiradores do escrito se encontra Annie Besant, feminista, franco-maçon e socialista.

Como epílogo, as exortativas aspas de Friedrich Nietzsche em Vontade de Potência: “Feche a Bíblia e abra o Código de Manu. Ele é afirmador da vida, transmite uma sensação agradável emanando dos elementos vitais; erigir um livro da lei como o de Manu significa dar ao homem a primeira palavra, almejar à perfeição, ter ânsia de realizar a mais alta arte do viver possível”.

Edições e traduções

Versão lida pelo Seclusão Anagógica, com publicação de trechos prevista para breve: sacred-texts.com/ ­

Veja ainda

Notas [não-assinaladas acima para não truncar a leitura]

    1. ^ Manusmriti, The Oxford International Encyclopedia of Legal History (2009), Oxford University Press, ISBN 978-0195134056, See entry for Manusmriti

    2. ^ Jump up to:a b c Patrick Olivelle (2005), Manu’s Code of Law, Oxford University Press, ISBN 978-0195171464, pp. 18–19, 41

    3. ^ “Flood (1996)”. p. 56.

    4. ^ Jump up to:a b c d Patrick Olivelle (2005), Manu’s Code of Law, Oxford University Press, ISBN 978-0195171464, pp. 353–354, 356–382

    5. ^ Jump up to:a b G. Srikantan (2014), Thomas Duve (ed.), Entanglements in Legal History, Max Planck Institute: Germany, ISBN 978-3944773001, p. 123

    6. ^ Steven Collins (1993), The discourse of what is primary, Journal of Indian philosophy, Volume 21, pp. 301–393

    7. ^ Patrick Olivelle (2005), Manu’s Code of Law, Oxford University Press, ISBN 978-0195171464, pp. 3–4

    8. ^ Robert Lingat (1973), The Classical Law of India, University of California Press, ISBN 978-0520018983, p. 77

    9. ^ “Flood (1996)”. p. 56.

    10. ^ P Bilimoria (2011), “The Idea of Hindu Law”, Journal of the Oriental Society of Australia, Volume 43, pp. 103–130

    11. ^ Jump up to:a b c d Donald Davis (2010), The Spirit of Hindu Law, Cambridge University Press, ISBN 978-0521877046, pp. 13–16, 166–179

    12. ^ William Wilson Hunter. The Indian Empire: Its People, History and Products. Routledge. p. 114.

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Referências

SINOPSES DE (ALGUNS) LIVROS INDISPENSÁVEIS PARA A FORMAÇÃO DO HISTORIADOR – Episódio I

HERÓDOTO, Histórias

Histórias, ou simplesmente História ou A História, de Heródoto de Halicarnasso, é considerado o primeiro trabalho no campo do que hoje entendemos pela disciplina história ou historiografia no Ocidente, fundador por excelência, portanto, de uma ampla e milenar tradição. Escrita por volta de 430 a.C. no dialeto jônico, aquele mais rico em produções culturais no mundo helênico durante a vida do “pai da História”, esta é uma obra de valor e repercussões inestimáveis a fim de compreender as sociedades grega, médio-oriental e africana setentrional, raio geográfico do berço das civilizações. Heródoto viajou extensamente para colher boa parte de seus relatos, inaugurando, portanto, ademais da historiografia, a etnografia e o estudo de campo, fundamentos da disciplina antropológica.

Através da pena de Heródoto as gerações futuras obtiveram, por exemplo, seus primeiros esclarecimentos acerca do surgimento do império persa e das causas e do desenrolar das guerras pérsicas (travadas contra os próprios gregos no mesmo século de Heródoto). Para o autor, tratava-se da luta decisiva entre os bárbaros, a representar a escravidão, e a liberdade, bandeira levantada pela confederação das cidades-Estados helenas capitaneadas pela democracia ateniense. Post mortem os escritos de Heródoto, indivisos, passaram a ser transmitidos em 9 livros ou partes, compartimentação que persiste na atualidade, cada qual tendo como subtítulo uma das nove Musas do Olimpo.

Controvérsias

Hecateu, estudioso que precedeu Heródoto, é segundo algumas fontes o verdadeiro pai da História, sendo, portanto, retrospectivamente, rival de Heródoto em fama. Os críticos dessa visão asseveram que Hecateu, a despeito de dotado de respeitável espírito crítico, comparável ao moderno, pré-requisito para a boa historiografia, pecava por não ter logrado se libertar das correntes representadas pelo discurso mitológico. Onde Heródoto utilizava a mitografia como elemento entre outros de seu método histórico inovador, cujas regras estritas levavam a primazia sobre narrações fantásticas, Hecateu seria seu antípoda ideal: contaminado pelos mitos, subordinava o relato da História a essas fontes mais tradicionais e impossíveis de delimitar no tempo. O próprio Heródoto critica em Hecateu suas genealogias ingênuas e a falsa imagem que teria pintado dos atenienses. O que deve ser cedo aprendido pelo historiador neófito, entretanto, é que “atacar” um predecessor nem sempre significa rejeitá-lo por completo ou deixar de admirá-lo, pois é patente que Hecateu tem sua parcela de contribuição como influenciador de Heródoto, por sinal um assunto ainda muito espinhoso e de árdua deglutição entre nossos acadêmicos. Porfírio e Eusébio, autores da Antiguidade, acusam Heródoto de haver tomado as descrições naturalistas de Hecateu do crocodilo, do hipopótamo e da fênix sem citar a Circunavegação do Mundo Conhecido/Periegesis como sua verdadeira fonte (Histórias 2:78).

Outra distinção marcante entre Hecateu e Heródoto, que compartilham a primeira sílaba do nome e o ofício, é que Hecateu não contava com o presente como fonte de informações para sua história, ao contrário de Heródoto, que ensina que sem verificações no tempo atual o passado estará perdido e o historiador se confinará ao mero reino das conjeturas. Heródoto antecipou em muitos séculos uma tendência em voga: a revalorização da história oral, método praticamente olvidado pelo cânone da historiografia européia clássica.

Com efeito, o caráter sui generis de Heródoto é seu maior trunfo e, igualmente, a razão de ser vilipendiado e incompreendido por certa parcela de seus pósteros. Sendo o “Hipócrates da História”, posto não pouco invejado, a dificuldade em determinar qualquer fonte principal para a forja de seu método, em termos de nomes célebres, torna-o alvo fácil do menosprezo e exageros retóricos dos historiadores mais oportunistas e pedantes. Pois nenhum outro autor partícipe da formação intelectual do grego precursor teve importância hegemônica em sua obra, como acabamos de ver por Hecateu, que o influenciou marginalmente ou, pelo menos, acabou por ser completamente ofuscado pelas realizações mais impressionantes do discípulo indireto. Como não há, em várias instâncias, como atribuir identidade às inspirações empíricas de Heródoto, historiadores de um espectro extremado contestam o valor de seus achados históricos e põem em dúvida sua boa-fé em seguir o próprio método investigativo que consolidou. De fato, não é possível verificar uma por uma as referências de Heródoto colhidas em entrevistas e testemunhos em suas viagens. Seria fácil desqualificar qualquer autor antigo usando o mesmo argumento, incluindo filósofos e tragediógrafos. E não obstante os séculos XX e XXI estão repletos de fraudes em trabalhos de história, o que não significa que o historiador médio seja um ficcionista sem ética.

Dentre alguns raciocínios atemporais de Heródoto hoje ratificados encontramos sua afirmação de que os continentes então conhecidos não possuíam aproximadamente a mesma extensão, como costumava-se pensar a respeito da Europa, da Ásia e da África, noção hoje sem qualquer sustentação.

E, gostando-se ou não, Heródoto ainda é a única fonte para um sem-número de episódios históricos dos mundos grego e persa, do século VII ao V a.C. Não só: a arqueologia dos sécs. XIX e XX elevou o status do sábio de Halicarnasso em mais de um episódio desconectado da Grécia e da Pérsia. Um deles foi a descoberta, um tanto recente, aliás, de vestígios de Gelonus, cidade da Cítia, em 1975. Heródoto descreveu Gelonus como milhares de vezes maior que Tróia, juízo por muito tempo ridicularizado. O mesmo se sucedeu com Heracleion, cidade egípcia, que Heródoto afirmou ter sido fundada durante o novo reino do Egito, informação posta em dúvida até que achados empíricos (a estela de Naucratis) lhe prestassem renovada credibilidade.

Como dito, Heródoto nunca desprezou as fontes mitológicas, embora tenha lidado com elas de forma inédita. Em que pese os deuses nunca apareçam nos relatos de Heródoto (se pensarmos na freqüência desse expediente em Homero e Ésquilo, alguns de seus espíritos formadores), ele teve a sensibilidade dificilmente pueril de afirmar: “Muitas coisas me provam que os deuses participam dos negócios do homem” (9:10). Tal sentença deve ser encarada no contexto da interpretação filosófica da História por Heródoto, que não prescindia do importante, por mais que sujeito a intermináveis debates, conceito de destino.

A última grande polêmica em torno de Heródoto – se é que de fato vale a pena um tal questionamento “comezinho” – seria determinar quem foi um historiador mais completo: se ele ou se Tucídides, que lhe foi parcialmente contemporâneo, apesar de mais jovem, e afigura-se como rival muito mais competitivo para a obtenção do título de progenitor da disciplina histórica que Hecateu. Hoje o valor epistemológico daqueles dois autores, os maiores historiadores da Antiguidade, está fora de dúvida entre os mais reputados dos especialistas; mas qual levaria a palma num fabricado concurso, já que falamos de personalidades helênicas, regidas pelo agon?

Tucídides sem dúvida pertence a uma outra escola historiográfica em relação a Heródoto, que poderíamos chamar, grosso modo, de história bélica ou militar, e muito mais ligada à retórica e à psicologia interior das personalidades que movem a História. Sendo assim, é muito mais difícil comparar a ambos, dado que todo historiador terá a princípio uma predileção por uma das duas abordagens, e acabará tomando cada autor pela disciplina ou ramificação da disciplina que ajudou a fundar e desenvolver. Felizmente, não precisamos responder à pergunta que encerra o último parágrafo, e não deixaremos de falar mais detidamente de Tucídides em seu próprio espaço, mais abaixo, o que muito ajudará quem estiver interessado neste tira-teima – haja vista que no mínimo uma das obras tucidídicas também vem a ser um clássico indispensável da historiografia.

Legado e Legado, Inspiração e Inspiração

Heródoto utilizou Os Persas de Ésquilo como fonte bibliográfica. A derrota da frota da Pérsia em Salamina teria sido necessária para determinar a derrota que se deu também em terra firme diante de Atenas, conforme seu livro oitavo, e ele absorveu este ensinamento da peça do escritor trágico. Em contrapartida, o sucessor de Ésquilo no teatro grego, Sófocles, utilizou os conhecimentos de Heródoto em seus escritos. Caso exemplar seria a cena da morte de Intafernes na Antígona, replicada de História volume III.

TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso

HGP é obviamente um relato do conflito homônimo, transcorrido entre 431 e 404 antes de Cristo, envolvendo a liga de cidades-Estados espartanas contra a liga de cidades-Estados lideradas por Atenas, com vitória desta última. Tucídides foi ele mesmo ator daquilo que narra, uma vez que foi general do exército vencedor. Sua História é dividida em 8 tomos. A questão central, se podemos extrair alguma, está na ambígua sobreposição entre poder bruto e justiça em nível nacional.

Em geral, os historiadores contemporâneos julgam Tucídides um escritor mais “objetivo” e rigoroso que Heródoto, com um estilo conciso e preciso (“mais pesado e menos prazeroso” que o herodótico, dirão outros). Dialeticamente, entretanto, Tucídides sofrerá das mesmas críticas de falta de critério e invenção de fatos direcionadas a seu colega imediato, o Pai da História, como seria inevitável. Destaque-se, porém, que Tucídides procura transmitir o conhecimento do período assinalado acima muitas vezes através de diálogos “ficcionalizados”, que ele não presenciou e não se deram literalmente, que carregam grande dose de verossimilitude e probabilidade, i.e., bem podiam ter mesmo acontecido assim, baseados que estão na bem-constituída personalidade dos interlocutores. A boa-fé de Tucídides está em que ele nunca esconde o quanto seus diálogos “imaginados” não passam de artifício para ensinar o leitor acerca da realidade grega. Talvez o fragmento mais famoso do autor a seguir este método para nós um tanto inusual seja não um diálogo, mas o monólogo ou discurso de Péricles, governante de Atenas, sua oração fúnebre, no segundo tomo.

Também em oposição a Heródoto Tucídides prima pela transcrição cronológica dos fatos, preferindo dividir os acontecimentos da guerra ano a ano (ou mais precisamente estação a estação, já que durante o inverno havia tréguas entre os soldados devido ao clima), em vez de proceder a um relato que chamaríamos hoje de holístico ou global.

SIMA QIAN & al., Registros do grande historiador

O Shiji (chinês para o título acima) só está disponível em inglês entre as línguas mais faladas e lidas pelos brasileiros, por isso é a leitura mais inacessível dentre estas três primeiras apresentadas; mas ao menos não precisamos aprender mandarim para apreciâ-la. Foi publicado pela primeira vez aproximadamente em 91 antes de Cristo, mas provavelmente não há qualquer chance de intercâmbio de conhecimentos entre a tradição grega da fundação da História e esta magnum opus do Império Chinês, o que nos leva a enveredar por uma segunda proposição da disciplina, uma vertente ou etimologia alternativa para o conhecimento do passado dos povos, ou, particularmente, de um povo ou nação, neste caso. Trabalho monumental por si só, os Registros do Grande Historiador (RGH) são apenas a história da primeira das 24 dinastias de imperadores. Sima Qian na verdade empreendeu a continuação do trabalho de seu pai, também historiador (à época, ‘escriba’), Sima Tan (Qian SIMA e Tan SIMA na notação ocidental).

A abrangência do tratado também é espantosa, se considerarmos os empreendimentos mais modestos dos gregos Heródoto e Tucídides: 2500 anos, desde o lendário Imperador Amarelo até o reinado de Wu Han, contemporâneo de Qian (há uma gradual transição entre lendas e história de facto). O foco do trabalho é a dinastia Han, que controlava a China. Na verdade poderíamos dizer que, dada a complexa e rica história chinesa, aqui entra-se em pormenores somente sobre a dinastia Han do Ocidente (da China). Não quer dizer que houve em simultaneidade uma dinastia Han do Oriente. Esta, com efeito, viria a surgir apenas séculos mais tarde, e alegadamente seus imperadores descendiam dos Han do oeste. Atrás apenas de Confúcio, que está mais para um teólogo ou filósofo em nossa classificação, e do primeiro imperador de Qin, Qian pode ser considerada a figura mais importante para a formação da China como hoje a entendemos, isto é, uma nação unificada. Poderíamos ser mais ousados, todavia, e dizer que sem Qian não haveria primeiro imperador Qin nem Confúcio: o próprio autor do livro que aqui nos interessa narrou a biografia destas duas personalidades no monumental tratado de História, ajudando a consolidar suas reputações. Desnecessário afirmar que RGH é o modelo para todas as subseqüentes histórias de dinastias chinesas e redações de biografias, gênero nascente. Será possível diagnosticar que a própria noção de tempo histórico no Oriente diverge muito da nossa própria tradição.

Uma obra de várias mãos

É sábido que não recebemos a obra na sua forma original, pois já no primeiro século depois de Cristo outro historiador, Chu Shaosun, adicionou interpolações ao texto mais antigo. É reportado que, pela escassez de exemplares da obra e as condições de degradação física do material, em algum ponto entre os sécs. II e III d.C., já durante a dinastia Han Oriental, historiadores da côrte tiveram de reescrever porções irremediavelmente perdidas de alguns capítulos (10 dos 130 legados por Qian). Como se vê, diferentemente da Grécia Antiga, a própria vida intelectual era basicamente restrita a funcionários do governo; portanto, quando se fala em escribas ou historiadores desta época e lugar, são sempre funcionários públicos trabalhando para o monarca absoluto – são histórias oficiais.

Do séc. V ao X (atravessando 500 anos de História), muitos escribas de novas dinastias trabalharam em Comentários do Shiji ou RGH, não mais modificando a obra já então clássica, mas aumentando seu cânone e, de certo modo, facilitando sua compreensão. Um dos volumes de comentários mais famosos é o Sanjiazhu (Comentários dos Três Sábios).

Somente nos anos 1930 os Registros foram preparados para disseminação moderna e passaram a estar ao alcance dos historiadores profissionais e amadores estrangeiros interessados, bem como se tornaram legíveis para grande fatia da população da própria China. Nesta nova edição, os Comentários dos Três Sábios estão em apêndice. Subsistem, ainda, blocos de madeira antigos com trechos do manuscrito original, guardados em museus.

As circunstâncias especiais da produção de livros na China Antiga

Em volume, trata-se de uma obra quatro vezes maior que a História da Guerra do Peloponeso que, recordemos, é hoje dividida em 8 livros separados, para comodidade do leitor! O próprio Antigo Testamento é menor que os Registros. Com os materiais de madeira usados por Qian (antes que ele finalizasse a obra e a disponibilizasse para copistas que utilizaram suporte papel), estima-se que ela, do início ao fim, contida em centenas de toras de bambu (estima-se que entre 600 e 700), pesaria de 40 a 60kg, dificultando bastante seu transporte para outros escribas ou interessados em consultá-la. Lembre-se que, ademais, essa “economicidade” em bambus (pois deviam ser necessárias bem mais toras) só foi possível graças ao caráter bastante sintético dos caracteres chineses, que contém muito mais informações que nossas letras do alfabeto. A conta acima, entretanto, que coloca os Registros acima da Bíblia em espessura, considera palavras utilizadas, não espaço ocupado, considerando quantas caberiam numa página normal, e mesmo com uma notação diferente na escrita o trabalho da vida de Qian permanece mais comprido e capaz de ocupar mais páginas que o Velho Testamento, sobretudo nas traduções ocidentais.

Conteúdo

Em muitos aspectos, sobretudo nos primeiros capítulos, RGH se assemelha a relatórios públicos da Administração, pois diversos acontecimentos e decisões do governo centralizado constam de crônicas, no sentido oriental desta palavra (semelhante a relatórios, notas técnicas, dossiês). Para períodos anteriores a registros escritos e antes da vida de Qian, ele obviamente se fiou nas tradições para remontar a dois milênios atrás. O curioso é que, como com Heródoto, excavações recentes têm confirmado muitas das informações contidas nos Registros, embora tantos elementos permaneçam obscuros ou em suspenso, dada a limitação de materiais à disposição para fazer inferências e atestar a veracidade dos discursos. Mesmo inscrições funerárias, quando descobertas, representam um fantástico achado para a ciência, mas seu alcance interpretativo em termos de refutar ou confirmar um tratado histórico de envergadura colossal permanece irrisório.

Outra parte do livro se devota aos Tratados, narrativas de grande fôlego, mais congruentes com o método ocidental de registrar a história, e narram a evolução dos rituais, da música, dos artefatos tecnológicos, do calendário da astronomia, da geografia e hidrografia (principalmente rios e canais) e administração das finanças ou economia ao longo do maciço tempo enfocado por Qian.

A quarta parte estabelece as árvores genealógicas de diferentes casas ou dinastias. Para os Han foram também escritas biografias, de menor porte, inscritas no próprio estudo da dinastia como um todo.

É a quinta parte a mais relevante e também a responsável por quase metade do tamanho da obra, e ela é voltada exclusivamente para amplas biografias de figuras destacadas da História chinesa. O peso dessa seção do livro é o que faz com que até mesmo exegetas ocidentais mais rigorosos ou preconceituosos avaliem este Shiji como um livro de História propriamente dita, sem deixar a dever, em rigor, às nossas próprias obras fundacionais. Essas biografias não são elitizadas, do ponto de vista de que só contemplassem indivíduos da família real ou altos funcionários (como nas poucas biografias da parte precedente), consistindo numa verdadeira radiografia da sociedade chinesa, dos grupos ou trabalhadores mais humildes, que tiveram o privilégio de preservarem suas famas, a todo tipo de intelectual ou governante, incluindo desde figuras de proa da escola dos confucionistas (os primeiros grandes reformadores culturais da China de que se tem notícia) até artistas, assassinos e oficiais do exército. O impacto dessas biografias da quinta parte ainda pode ser sentido na China contemporânea, através da adoção de provérbios retirados dos Registros usados persistentemente nas conversas cotidianas.

E a despeito da inscrição dessa obra na “história oficial” da dinastia reinante, a verdade é que Qian foi mais imparcial que os historiadores do período pós-confuciano que endeusaram os imperadores e tentaram apagar das crônicas todos os postulantes ao trono que fracassaram. Podemos chamar Qian de um escritor liberal avant la lettre, muito mais dissociado de dogmas ancestrais e inscrito numa modalidade de historiografia social. Sua charmosa prosa influenciou novelistas e poetas do país. O relato da tentativa de Jing Ke de assassinar o rei de Qin foi escorado em declarações de uma testemunha ocular do evento, Xia Wuju, médico do rei, que estava presente na cerimônia diplomática em que sucedeu o ataque. Xia contou a história a conhecidos, esses entrevistados por Sima Qian. Mesmo hoje há muitos trabalhos históricos considerados isentos e científicos que só utilizam fontes muito mais indiretas.

IBN KHALDUN, Os Prolegômenos ou Filosofia Social

Os Prolegômenos – palavra erudita para Introdução – ou Muqaddimah em árabe são a grande obra de Ibn Kaldhun, raro filósofo, jurista e historiador medieval que segue relevante, publicada em 1377. Com efeito, muitos epistemólogos a vêem como a primeira obra de filosofia da história e das ciências sociais, séculos antes de Comte e Durkheim fundaram tal ciência. Será enriquecedor para o discípulo de História que ainda não teve qualquer contato com autores muçulmanos. Outros ainda enxergam Khaldun, não sem alguma controvérsia, como precursor de Malthus, por já incluir uma análise ecológica e demográfica em seus escritos, e da corrente do darwinismo social, que não tem relação com Darwin, mas é a aplicação de sua lei natural às ciências sociais a partir do fim do século XIX (além de que, numa famosa passagem do primeiro capítulo da Muqaddimah, Khaldun tece a conjetura de que os grupamentos humanos devieram do macaco, embora reconheça a insuficiência de dados empíricos à disposição para referendar sua tese). É verdade que, como entrega o nome, Khaldun desejava que este livro já extenso (dividido atualmente em 3) fosse uma mera introdução a sua grande obra sobre a História, mas morreu antes de realizar esta outra meta mais ambiciosa. Podemos dizer que os Prolegômenos são, sim, auto-suficientes e sua leitura não deve ser evitada pelo seu caráter de intróito (inclusive, se fôssemos aplicar este critério Tucídides não poderia ser recomendado, já que deixou de fora 6 anos da Guerra do Peloponeso de sua obra-mor).

Durkheim formularia muitos conceitos que se tornariam instrumentos obrigatórios da análise da sociedade. A asabiyyah pode ser lida, neste contexto, como uma primeira versão do termo mais famoso coesão social. Como Khaldun expunha a asabiyyah de uma determinada civilização ao longo do tempo, prescrevendo que ela funciona como um organismo, nascendo, se desenvolvendo, entrando em ocaso e eventualmente se dissipando, ao lado de outras, há certos ecos de sua teoria na obra de Oswald Spengler. Desde Ibn Khaldun já não seria possível dizer, no mundo moderno, que a história segue leis do progresso, sem com isso se defrontar com uma escola inteira da historiografia. Por estas linhas, torna-se óbvio que Khaldun, mesmo podendo ter sido uma influência para a biologia do século XIX, já reconhecia o papel da decadência em contraposição ao da evolução, sobretudo quando se passava da história natural para o estudo das culturas. Numa famosa citação, demonstra seu anti-maquiavelismo, pré-Maquiavel: se o governante tiver de optar entre ser temido ou amado, sempre deverá eleger a segunda alternativa, pois é contra a lei de Deus (Alá) subjugar o povo de forma violenta e não-consensual, ainda que pudesse ser materialmente lógico perseguir determinados fins por meio da força.

Outro aspecto antevisto por Khaldun em relação à sociologia durkheimiana ou mesmo o marxismo é a divisão do trabalho: quão mais complexa é a sociedade, mais as formações econômicas exigem a divisão e especialização do trabalho. Ele também relaciona esse raciocínio com o crescimento populacional e o supérfluo criado numa economia em expansão, que explica os bens de consumo inessenciais e a necessidade de mais mão-de-obra para expandir o ciclo de produção. Também em antecipação ao otimismo dos liberais do iluminismo europeu, Khaldun dirá que o preço é regulado pela lei de oferta e demanda, raciocínio, pelo visto, já velho antes do aparecimento de figuras celebradas do pensamento econômico hegemônico. Pode parecer incrível que até mesmo um estudo do avanço tecnológico tenha sido possível na época de Ibn Khaldun, mas é necessário lembrar que o autor vivia numa civilização até então próspera, antes do recuo e entrincheiramento moral e civilizatório experimentado pelo Islã, o que realçava o contraste com as forças paralisadas da Europa do século XIV, que dificilmente se poderia dizer depender essencialmente das urbes, sendo ainda uma conformação campesina. Outros ainda vêem certos comentários de Khaldun como keynesianos, antes de Keynes, principalmente quando ele culpa Estados que não investem em aspectos vitais a longo prazo pela decadência econômica da sociedade. Não só isso, mas Khaldun já advogava por reformas tributárias que não sufocassem as classes médias, embora elas sequer tivessem esse nome. Para não dizer que a análise econômica do autor seria perfeita, um dos vários pontos cegos de Khaldun foi não perceber que bens como o ouro e a prata apresentam valor relativo, o que já era óbvio no tempo de Montesquieu, por exemplo.

Embora de profissão de fé islâmica, e não um autor secular ou ateu, como seria mais comum encontrar na França a partir da Revolução, Khaldun defendia desde sua época a separação formal dos estudos em teologia e em filosofia. Sua posição enquanto jurista num país que aplicava o Alcorão era que mudanças culturais e relativizações ético-morais eram inevitáveis no decorrer das gerações, de forma que mesmo a letra sagrada se obsolescia na agonia de uma asabiyyah. Em um dos capítulos dos Prolegômenos, Khaldun também se preocupou em refutar a então ‘ciência’ da alquimia, tanto do ponto de vista moral quanto utilizando seu método científico. Aqui cabe a observação: acusando os alquimistas de charlatães, Khaldun diz que se todos fossem capazes de transformar metais não-nobres em ouro da noite para o dia, isso geraria uma súbita desvalorização da substância, o que colapsaria a economia (em outros termos, embora na sociedade vigente Khaldun não reconhecesse a flutuação do padrão-ouro, ele era engenhoso o suficiente para vislumbrar essa possibilidade num cenário hiperbólico, de superabundância do material – decerto ele teria captado outras leis do Capital se pudesse testemunhar a rapina européia nas minas americanas).

Em síntese, o grau de maturidade do modelo de historiografia proposto por Ibn Khaldun pode ser chamado de sem paralelos até o surgimento do Idealismo Alemão, tornando a consulta a seus escritos visionários algo mandatório.

DAVID HUME, História da Inglaterra

Já transportados para a Europa moderna deparamo-nos com Hume. Apesar de sua notável contribuição filosófico-epistemológica, o trabalho do escocês que permanece mais atual é no ramo da História, em que formula a primeira história da Inglaterra (mais propriamente falando, da Grã-Bretanha, por incluir ainda o País de Gales, a Escócia e a Irlanda, ainda não-dividida pelos cismas da Igreja) de leitura considerada obrigatória. A obra antecede a Revolução Francesa em cerca de três décadas. Coincide, portanto, com os primórdios da Revolução Industrial. Como as outras obras que aqui listamos, talvez para infelicidade dos leitores e historiadores incipientes com disposição de mergulhar de cabeça nos clássicos da disciplina, porém temerosos de calhamaços, está dividida em alguns volumes (seis). Como antecipa a capa acima, da editora Unesp, o período retratado vai das campanhas bretãs de César, com a colonização do território mais ao norte de Roma sendo levada a efeito, ao período da irreversível perda do poder absoluto pela família real e a conseqüente constitucionalização do regime político da Ilha (eventos anteriores ao nascimento do próprio David Hume).

Obviamente o renome desta história da Inglaterra em detrimento de outras que poderiam ser igualmente recomendadas em listas que-tais, além da excelência da escrita de Hume, se deve ao período privilegiado de sua produção, especialmente conturbado para os Estados europeus. Os intelectuais conservadores desejavam sedimentar o regime constitucionalista em meio a um ambiente propenso a revoluções e derrubadas de dinastias, de forma que a política do século XVII inglês, conforme estudamos hoje, é sobretudo uma antecipação local das reflexões mais amplas do Século das Luzes francês, i.e., uma série de eventos que os próprios britânicos foram capazes de dimensionar com propriedade apenas retrospectivamente. Não é estranho que um escocês tenha captado o momento, mais de meio século depois, melhor que qualquer inglês propriamente dito – a rigor mais distanciado, embora sem deixar de estar implicado na narrativa, sua História nacional tornou-se um parâmetro de objetividade atingível.

A primeira controvérsia que Hume tenta resolver (ou gera, para seus comentadores) é se a adoção de uma Bill of Rights teria sido uma reforma ou evolução previsível da organização política ou uma ruptura ou revolução em relação ao passado monárquico. E ao longo dos volumes que tratam deste período mais recente seu posicionamento será em favor da segunda hipótese. O principal defensor da carta de direitos inglesa como mera evolução legal dada sem sobressaltos e, portanto, rival ideológico de Hume, seria Edmund Burke, outro autor importante para entender os 1600 ingleses. Incrível como toda essa discussão essencialmente política e jurídica está totalmente fundada nos surtos de guerra civil transcorridos no território por conta da Reforma Protestante, que, na Inglaterra, tomou um rumo diferente de toda a Europa continental. Talvez ainda surpreenda alguns leitores que execuções de reis fossem “lugar-comum” nestes tempos na (hoje batizada como) Terra da Rainha (Elizabeth II, morta em 2022), e que a tendência regicida não tenha sido inaugurada pelos franceses. Talvez a historiografia – não a de Hume, mas outras fontes mais próximas de nós – tenha também muito a dizer sobre como foi que o mito do jacobino radical (a extrema esquerda francesa) como sendo a primeira e maior “peste” daqueles tempos adquiriu tanta dominância.

Hume sustenta que o absolutismo foi inaugurado na Inglaterra com Henry VII, o primeiro rei da dinastia Tudor. Antes disso o monarca era eleito pela aristocracia, prática semelhante à, e talvez importada da, Polônia. Também nessa região o tipo de governo, mais próximo de uma aristocracia ou oligarquia que de uma monarquia, cairia em desuso, sendo substituído pelas autocracias dos Hohenzollern, Habsburgo e Romanov. A dinastia Bourbon na França também foi importante para a centralização e consolidação de várias monarquias pela Europa. No período anterior ao que estudamos como monarquias clássicas das nações européias dificilmente havia a sucessão do trono por critérios hereditários. A aristocracia, vale lembrar, foi definida pelos gregos como sendo “o governo dos melhores”. Como tais, eles escolhiam entre si seu representante máximo. A Escócia, nos períodos em que se conservou independente da Inglaterra, jamais aderiu ao absolutismo. No tocante à lenta porém segura transição entre o direito consuetudinário ligado ainda ao que podemos chamar de evoluções de clãs bárbaros, i.e., gentios originários do território, e o direito moderno dos reis, associado com a influência do Império Romano, as conclusões de Hume muito se assemelham às de Montesquieu, jurista e historiador igualmente bastante estudado, senão mais, graças a sua doutrina dos pesos e contrapesos. Outra figura associada à Hume, inclusive na vida pessoal, foi Adam Smith, desta vez no campo do liberalismo econômico.

Desde os primórdios, porém, os autocratas ingleses tiverem menos prerrogativas que em outras partes, vide a necessidade de consultar o parlamento a fim de aprovar aumentos de impostos, o que ajuda a explicar a tendência natural de evolução do absolutismo bretão a um regime constitucionalista ou de monarquia decorativa.

Num posicionamento que entendemos salutar e engrandecedor do legado humeano, David afirmou que Thomas Hobbes, outro dos historiadores bretões mais reputados por seu povo, enquanto pensador político não passa de um promotor da tirania e da licenciosidade ético-moral. E ainda que inimigo da religião – como não foi Hume –, Hobbes nada tinha de cético (enquanto Hume é com mais justiça do que injustiça conhecido hoje sobretudo pelo epíteto de “O Cético”. Ainda comentando Hobbes, Hume dirá que este filósofo é sobretudo repulsivo por ser um dogmático e fanático secular, levando o racionalismo aos últimos limites, quase inumanos. E que só um homem de temperamento muito cruel poderia mostrar-se tão seguro de si em suas afirmações. Em termos biográficos, curiosamente Thomas Hobbes parece ter sido celebrado como homem virtuoso; seu sistema parecia uma projeção de todo um conteúdo reprimido em seus assuntos pessoais. Por outro lado, outro autor fundador da ciência política nesta nação é muito elogiado por David Hume: trata-se de Harrington, que só não incluo nesta série de livros introdutórios recomendados por, confesso, ainda não ter lido sua magnum opus Oceana, ligada às tendências democráticas, uma espécie de Thomas More evoluído. Contudo, o homem de letras que Hume mais admirou talvez tenha sido Francis Bacon, mais até que o próprio Shakespeare. Talvez tão moralista quanto Hobbes, embora num outro sentido, Hume é célebre por ter advogado a pena de morte a John Milton por haver exprimido idéias regicidas. E no entanto, ironicamente, Hume faleceu entusiasta da Independência Americana, então em curso.

GIBBON, História do Declínio e Queda do Império Romano

Continuando na tradição inglesa, Edward Gibbon escreveu uma história do Império Romano em 6 volumes, desde o auge de Roma (quando em seus territórios incluíam-se civilizações islâmicas e mongólicas) até seu definhamento e derrocada final (da parte ocidental do Império Romano, de quem somos “herdeiros culturais”), à queda de Bizâncio, Mégara (para os gregos antigos) ou simplesmente Constantinopla, como somos ensinados na escola como o marco para o fim da Antiguidade Clássica. O projeto iniciou sua publicação em 1776 (quatro séculos após os eventos narrados) e o último tomo apareceu em 1789, data simbólica, outrossim, para a instituição da modernidade européia.

O Império Romano é o alvo completo da historiografia, com os tempos da República Romana sendo deixados de fora. Isso representa uma abrangência cronológica de 98 depois de Cristo a 1590, ainda com as lentas repercussões da tomada de Constantinopla pelos turcos. Obviamente, dentro deste escopo, não poderia faltar a história do Cristianismo dentro do período. Com efeito, podemos considerar esta obra como a primeira historiografia de grande porte em que a religião ocupa o papel central, a despeito de ser uma narrativa civil e secular de um poder político de sua apoteose à extinção.

Ao invés de apenas anotar ou registrar a seqüência linear dos fatos, Gibbon é um dos primeiros¹ que se arrisca a determinar a causa da decadência romana como formação geopolítica. Sua tese primordial é a perda da virtude política dos romanos, pari passu as invasões bárbaras, cada vez mais significativas diante do enfraquecimento interno do regime imperial. Diferentemente de outros autores, Gibbon não atribui essa perda da virtude cívica do cidadão romano ao advento e propagação do Cristianismo, fosse por autocensura ou convicção própria, embora ele situe o governo de Constantino (o primeiro imperador declaradamente cristão) como um ponto-chave para a irreversível recessão do Império Romano, sobretudo do ponto de vista militar. Ainda segundo Gibbon, a História “foi sustada” entre a Queda de Constantinopla e os ideais iluministas da Europa, significando que nada de proveitoso adveio desta corrosão e destruição imperial.

¹ Bibliografia para esse período não era tão profusa como hoje (e hoje ela ainda existe aquém do desejável), então muitos dos dados apresentados por Gibbon foram extraídos de duas fontes, Montesquieu e Bossuet, predecessores seus nas especulações sobre como o maior poder político da Terra sucumbiu ao longo dos séculos.

O estilo desapaixonado de Gibbon foi confundido por muitos com um pessimismo invencível. É possível, tirando suas afirmações de contexto, argumentar que o autor britânico chamava a História Universal de “nada além do registro dos crimes, loucuras, tolices e tragédias dos mortais”. Com efeito, Gibbon destaca que descobertas para o mal agem de forma muito mais ágil sobre o espírito humano – como a descoberta da pólvora – que descobertas construtivas – o espírito pacificador, o método científico, o cultivo das artes e da filosofia.

Gibbon também denuncia o genocídio dos judeus em inúmeras oportunidades: no Egito, no Chipre, em Cirene (atual Líbia). Razões da diáspora judia e da associação da etnia com o espírito de rebelião, mero reflexo do instinto de sobrevivência, podem ser apuradas em suas pesquisas, o que ajuda os historiógrafos sucedâneos a determinar fontes e raízes do antissemitismo do Velho Continente.

Uma das maiores críticas à abordagem gibboniana é como deixou de lado a continuidade do Império Romano Oriental, desprezando toda a cultura bizantina, como que de propósito. De modo a corroborar uma maior neutralidade de Gibbon em relação à expansão do Cristianismo, sobretudo na forma do Catolicismo (afinal, conta da era pré-Reforma), ele que foi acusado de herege por autoridades eclesiásticas de seu tempo, cabe a ressalva de que Gibbon se opunha de modo geral às grandes crenças monoteístas, e chega a acusar o Islamismo e Maomé de atrasarem a condição da mulher por onde quer que promovessem revoluções.

Gibbon também foi um refutador de hagiografias (biografias de santos promovidas pela Igreja), questionando a validade de milagres ou de detalhes das vidas de vários dos mais famosos pregadores da fé cristã. Se havia algo que Gibbon mais reprovava no Cristianismo era seu dogma monástico, tentativas hipócritas ou infrutíferas de “se distanciar dos problemas temporais”, enclausurando-se em instituições exclusivamente religiosas, como se fôra possível tal abandono da história. Esse espírito ascético, migrando para a mentalidade dos plebeus e mesmo oligarcas do Império, era o que sem dúvida mais prejudicava a clássica visão de domínio e de Grande Política cultivada pelos romanos de gerações anteriores.

Como com Hume, a publicação de seu trabalho, necessariamente em fragmentos devido a suas dimensões, suscitou a cada tempo reações divergentes do clero ou dos historiadores contemporâneos. Sempre que suas conclusões iam contra um grupo social, o autor era rechaçado por esta parcela da sociedade com a mesma segurança com que era enaltecido caso as conclusões viessem a corroborar suas visões de mundo. Uma das qualidades que Gibbon viu no Cristianismo foi o “amolecimento” do espírito bélico e desregrado das diversas populações setentrionais européias, os então considerados “bárbaros”, o que teria favorecido uma assimilação intercultural. Obviamente, o que à primeira vista poderia parecer um indicativo de fortalecimento do Império a longo prazo acabou significando que a identidade latina do Império Romano foi-se perdendo mais e mais, conforme ia-se instalando uma maioria de “bárbaros convertidos ao cristianismo”.

Algumas edições modernas possuem o título Ascensão e Queda no lugar de Declínio e Queda, já que o período estudado por Gibbon começa no apogeu do Império e não retrata apenas os anos de derrocada. Autores como Piers Brendon (1940-) vêem no trabalho de Gibbon uma alegoria do Império Britânico, ou uma tentativa de ensinar aos governantes do “novo império mundial” lições para não repetir os erros dos poderosos do passado.

CARLYLE, História da Revolução Francesa

Thomas Carlyle é o terceiro inglês (escocês, em verdade) consecutivo desta lista. Não há dúvida que devemos muito à historiografia inglesa deste período pós-Revolução Constitucional da “Terra da Rainha”. Nesta ocasião, em vez de uma avaliação da própria história recente ou de um povo extinto e remoto, trata-se de investigar um grande evento transcorrido ao sul do Canal da Mancha, entre os vizinhos franceses. Em conformidade com todas as obras anteriores, esta está dividida em fascículos, mas talvez seja a mais curta de todas: são 3 exemplares para lê-la na íntegra. A pesquisa, desenvolvida à segunda metade do séc. XIX, debruça-se sobre os poucos anos que vão de 1789 a 1795, principalmente em Paris, com repercussões para toda a Europa (quase o “mundo” de então, para a historiografia de nossa cultura etnocêntrica no seu ápice). É a análise de um acontecimento revolucionário, adianta-se, de uma ótica conservadora.

Uma anedota interessante que se conta é que uma faxineira de John Stuart Mill, amigo pessoal de Carlyle que receberá a primeira versão integral do primeiro volume, cópia única, teria destruído o trabalho usando-o para alimentar a lareira, confundindo-o com lixo comum. Carlyle procederá então a uma apaixonada reescritura de todo este tomo em poucas semanas.

Carlyle não é um historiador por vocação, sendo mais um filósofo, poeta e moralista, então seu trabalho é visto como distanciando-se da narrativa historiográfica metodológica mais aceita. Enquanto alguns vêem nisso um mérito, evidentemente a maioria cita-o como crítica. Carlyle toma posição evidente nos episódios narrados. Acontece que um estilo de escrita “perfeitamente impessoal” poderia ser muito mais tendencioso, embora mascarasse sua opinião com ajuda da técnica de maneira superior. Podemos acusar Carlyle de imprecisão muito mais do que de má-fé ou desonestidade intelectual. O relato da execução de Robespierre é um exemplo máximo do estilo carlyleano e mediante sua leitura o estudioso poderá instantaneamente simpatizar com o autor ou compreender que seria melhor deixá-lo de lado, tamanha a ambivalência suscitada pelas escolhas de Thomas Carlyle no registro dos acontecimentos revolucionários.

Outras anedotas, bem-vindas neste caso, tratando-se de um autor tão emocional e controverso, incluem, por exemplo, a observação de que Charles Dickens andava para cima e para baixo com este livro (ou um dos exemplares) nos braços. Oscar Wilde chama Carlyle de “Tácito britânico”. Se uma terceira figura greco-latina tivesse de ser selecionada para estas sinopses, creio que Tácito seria o escolhido. Um terceiro escritor, Mark Twain, teria lido por último este livro antes de falecer. O filósofo americano Waldo Emerson disse que escritor mais imaginativo só apareceu antes nas peças e poemas de Shakespeare. Jules Michelet pode ser considerado o antípoda de Carlyle em termos de escrita da Revolução Francesa. Some-se a isso o fato de que este posicionou-se explicitamente contra aquele e que Michelet é um ícone da historiografia francesa; temos, neste par, além de uma rivalidade acadêmica, uma verdadeira rixa nacional. Taine, outra figura de igual ou senão maior peso que Michelet, também destroça o trabalho de Carlyle, segundo ele mero puritanismo especulativo, que desprezou o movimento iluminista e a importantíssima figura de Voltaire. É de fato um livro polêmico, que merece ser lido acima de tudo para se entender como a produção de uma História nunca poderá ser hegemônica nem consensual, mas apenas uma versão dos fatos dentre outras, aprendendo-se a filtrar desde cedo o joio do trigo da pena de um escritor clássico.

BURKE, Reflexões Sobre a Revolução na França

Diferentemente do trabalho do quase-compatriota Carlyle, Reflexões é assumidamente panfletário e escrito por um homem de Estado, um político, publicado pouquíssimo tempo após a própria Declaração dos Direitos do Homem, ainda durante o furacão da Revolução no país vizinho (a família real francesa sequer tinha sido submetida a julgamento popular àquela altura). Pode ser interpretado, portanto, como um relato ainda mais crítico e ferrenho que o de Carlyle, mas talvez um que tenha envelhecido menos. O irlandês Edmund Burke é um escritor que deve ser lido por todo estudioso da aristocracia, da monarquia e, portanto, do conservadorismo modernos. Mais do que ícone da historiografia, este tratado é onipresente nas ementas de ciência política e sociologia do século XX. Muito desse renome, entretanto, podemos atribuir ao mccharthismo e anticomunismo imperantes no mundo acadêmico ocidental, fomentado antes, durante e ainda posteriormente a todo o período da Guerra Fria (um ilustre apoiador das teses burkianas, que não hesitava em distorcê-las, ou simplesmente não era capaz de compreendê-las, é o infame Friedrich Hayek, que provavelmente se alterava mais ao ver a cor vermelha que um touro no cio). O que torna o “revanchismo contra-revolucionário” de Burke complexo de analisar é que ele foi um entusiasta, do início ao fim, da própria Revolução Americana, evento quase simultâneo e primo-irmão deste primeiro, tendo isso em comum com Hume. O crítico Alfred Cobban declara, sobre Burke e suas Reflexões: ‘Burke estava muito bem-informado sobre os Estados Unidos, a Irlanda e a Índia, [de quem também desejava a independência] mas suas fontes de informação sobre a situação na França eram escassas e contestáveis; como resultado, suas teses não são pertinentes em relação ao que sucedia realmente no alvorecer da Revolução, quando e onde estava claro para os nativos que as instituições francesas que lhes eram contemporâneas tinham se tornado insustentáveis e não havia a possibilidade de uma reforma de cunho gradual. Como literatura, teoria política e qualquer outra coisa que não seja História, as Reflexões são magníficas.’’”

BURCKHARDT, A Cultura do Renascimento Italiano

Abandonando a exaustiva polêmica franco-inglesa em tempos revolucionários, dirigimo-nos agora à renomada historiografia alemã, mais especificamente ao grande estudioso da cultura e arte Jacob Burckhardt e sua exemplar A Civilização da Renascença Italiana (CRI) (ambos os títulos citados até aqui já foram escolhidos em diferentes traduções), de 1860. Primeiro, um merecido excurso pela biografia do autor. Burckhardt foi um suíço que viveu durante nove das dez décadas do século XIX. Hoje é considerado o pai da historiografia cultural e o primeiro grande redescobridor moderno do período do Renascimento Italiano, analisando a estética do período através de inéditas lentes sociais. Dois de seus grandes mestres foram os historiadores von Ranke e Franz Kugler. Na Universidade de Basel, onde lecionou, conheceu Friedrich Nietzsche, então professor de Filologia. Ambos se tornaram amigos e trocaram cartas pelo resto de suas vidas, as quais podemos hoje ler. Tendo sido o livro que aqui nos interessa escrito na meia-idade do autor – e Burckhardt pertencendo a uma geração anterior à de Nietzsche –, CRI mais influenciou este último (até pela especificidade do campo daquele) do que qualquer obra relevante de Nietzsche chegaria a influenciar Burckhardt, uma vez que a produção acadêmica de Nietzsche na filosofia continental enceta apenas na década posterior (os anos 1870). Ambos são figuras históricas que já superaram, por exemplo, as pretensões positivistas – ou de qualquer outra “escola” ou “sistema” fechado e dogmático, incluindo o Hegelianismo, com que ainda conviveram – no campo do conhecimento e representam uma nova hermenêutica ou cosmovisão da ciência, da arte e da história. Outra coincidência entre ambos é que encerraram suas contribuições intelectuais ao mundo em anos próximos e nunca deram aula em universidades alemãs propriamente ditas, embora o Alemão fosse a primeira língua dos dois; ambos são equivocadamente tratados como “pessimistas sobre o papel do Ocidente no futuro”, muito pelo fato de serem complicados e nuançados; não é de se estranhar que acabem defendendo posições políticas semelhantes. O pai de ambos, para finalizar, foi pastor protestante.

A Cultura do Renascimento Italiano ainda é a obra de referência da perspectiva artístico-cultural da história para esta época e inclusive há indícios de que J.B. foi o inaugurador do termo “modernidade” em seu sentido atual e influenciou nosso conceito de “homem moderno” como talvez nenhum outro escritor. A Renascença era uma totalidade fechada em si mesma (isto o que ele quereria dizer com Kultur), sem que sua arte, filosofia, religião e política possam estar subordinadas a outras disciplinas ou outros períodos (não são mero efeito ou emulação ou reação à Europa Medieval ou à Antiguidade Clássica, de onde, decerto, os grandes artistas italianos se nutriram a fim de gerar obras novas e ‘universais’). Os principais discípulos ou continuadores diretos de Burckhardt foram Kenneth Clark e Desmond Seward. No século XX, podemos associar as contribuições de Werner Kaegi e Johan Huizinga ao legado de Burckhardt.

É importante esclarecer que A Cultura do Renascimento Italiano é em verdade uma metade de um todo maior, que engloba a “obra-gêmea” História do Renascimento Italiano. Para mergulhar ao máximo na historiografia burckhardtiana seria necessário estudar os dois volumes. Dado que os títulos se parecem e que o primeiro deles tem duas traduções em Português, vários estudantes são induzidos a erro, pensando se tratar o par de um só livro.

TOYNBEE, Um Estudo da História

Voltamos aos tomos enciclopédicos, i.e., livros que na verdade são uma série de exemplares, de tão extensos: o Estudo da História de Arnold Toynbee consiste em 12 volumes separados. Já falamos aqui de um autor que publicou do Entre-Guerras ao Pós-II Guerra, bem mais próximo de nós. Incrivelmente popular nos anos 60 e 70, é também surpreendente que hoje seja necessário citar a obra em introduções sinópticas como esta para muitos leitores que, embora algo versados em Humanidades, a ignoram por completo. A História toynbeeana é uma de decadências e tem um quê de Ibn Khaldun: destina-se a explicar como várias civilizações pereceram no globo ao longo de milênios. Segundo Toynbee, toda civilização perpassa pelos seguintes estágios: gênese, expansão, tempos de crise, Estado universal (congelamento artificial) e desintegração. Em outras palavras, ele sugeriu um modelo estrutural explicativo do ciclo das civilizações. Seu modelo não é tão rígido a ponto de não aceitar exceções, o que chamará de desenvolvimentos civilizatórios abortados, citando como exemplo a civilização Escandinava, Otamana, Judaica e Polinésia, entre outras.

As 7 mil páginas escritas tratam cada etapa do ciclo na ordem cronológica necessária; em seguida ele se dedica às interações entre diferentes civilizações nos volumes oitavo e nono; e os últimos volumes vão dedicados à metodologia do historiador. Existe uma famosa edição abreviada, a de Oxford, que possui 3 volumes (25% do tamanho original).

Os sintomas de Toynbee para uma sociedade em sua desintegração final podem ser todos diagnosticados no Ocidente: arcaísmo (idealização do passado), futurismo (idealização do futuro), dessensibilização ou busca da impessoalidade (fuga da realidade imediata da decadência), o que inclui uma forte onda de individualismo, e por fim transcendência, a mais criativa das soluções adotadas (contrapondo os desafios aparentemente insolúveis do esgotamento de um modo de vida e de uma cultura com criações de novos valores, sejam espirituais, sejam materiais). Com restrições, podemos chamar Samuel Huntington um continuador ou ampliador das idéias de Toynbee.

MCNEILL, A Ascensão do Ocidente: Uma História da Comunidade Humana

O último livro que selecionamos por ora neste princípio de série (posts relacionados por vir). Numa perspectiva ora antitética, ora suplementar à de Toynbee, o norte-americano William McNeill dá ênfase às interações entre as civilizações para contar a História do mundo, principalmente as interações promovidas pela hegemonia da civilização ocidental nos últimos 500 anos. Grosso modo, na dinâmica historiografia proposta por McNeill, em cada era “unipolar” ou com dominância de uma civilização ou império podemos dividir o mundo ou as culturas em “a central ou dominante” e “as periferias”, isto é, a nação ou conjunto de nações que lideram o mundo vs. todo o resto – a história representaria a disseminação gradual dos valores do centro, que iriam modificando os ‘influenciados’. Obviamente, as revoluções políticas e industrial e a prevalência de valores da Europa branca nos últimos 250 anos merecem uma análise especial, diferente dos ciclos pregressos, dado seu caráter expansionista e tecnológico inauditos, potencialmente sem limite, tendo contaminado, por exemplo, a virtual totalidade da superfície do planeta, pelo menos do ponto de vista estritamente geográfico. O que nos deixa reticentes quanto ao livro, que – confessamos – ainda precisamos ler na íntegra é que ele foi incensado pelo liberal epistemologicamente descompromissado Trevor-Roper. Seja como for, as conclusões de McNeill fundamentam hoje as pesquisas nas escolas das teorias dos sistemas-mundo, não necessariamente confinadas a um só espectro (liberal ou marxista, por exemplo), e da teoria da dependência, situada algo entre o reconhecimento da culpa dos países ex-colonizadores e a crítica, a partir das zonas subdesenvolvidas, dos preceitos da globalização unipolar, sem uma proposição clara para o problema, no entanto (como fará a escola marxista). De certa forma, ao contrário de clássicos antigos ainda legíveis, um forte contra-argumento que já podemos tecer a McNeill é que ele pensa os Estados Unidos da América e a Europa Ocidental ainda em seu auge, premissa que envelheceu terrivelmente nos últimos 30 anos (e, não estranhamente, a última edição de Uma História da Comunidade Humana data de 1991, época do Consenso de Washington).

Devido ao espaço já ocupado pelas demais resenhas (e me esforcei para incluir apenas 11!), e sendo indesculpável a falta de múltiplas obras inscritas na historiografia marxista, dedicaremos outro post somente a sinopses de obras ligadas à historiografia da esquerda marxiana logo no segundo episódio de SINOPSES DE CLÁSSICOS DA HISTORIOGRAFIA.

ALICES‘ ABENTEUER IM WUNDERLAND – trad. Antoine Zimmermann

Alice no País das Maravilhas revertido ao Português a partir da tradução alemã e (levemente) modificado a gosto. – Apenas as melhores passagens. Com as atualizações para este século espero não ofender a memória de Carroll!

“E de que valem os livros”, concluiu Alice, “sem figuras e diálogos?”

Em meio à queda ela pegou, de um dos quadros, um potinho com os dizeres: “LARANJAS EM CONSERVA”, porém, para imenso pesar seu, ele estava vazio.

„Ah!“ disse Alice de si para si, “depois de tamanha queda nunca vou conseguir subir de volta ainda que me depare com uma escada! Quão longe de casa ela já não estaria! Já falei tanto em voz alta desde que comecei a cair que acho que falei mais do que em toda a minha vida anterior!” (O que muito provavelmente era verdade.) “Gostaria de falar menos, pois significa que cairia menos!”

Pra baixo, pra baixo, pra baixo! Esse precipício não quer acabar nunca? „Quantos kilômetros será que eu ainda vou cair?“ Continuou a menina em voz alta. „Eu devo estar lá pela metade do trajeto! Deixa ver… isso deve dar uns 1350 kilômetros, segundo os meus cal–“(é bom que se saiba: Alice só tinha aprendido uma ou outra coisa na escola, e embora essa não fosse uma ocasião tão oportuna para exibir seus conhecimentos, até porque ninguém a ouvia, talvez ela não estivesse tão longe de acertar, chutando como o Messi) – “É, mais ou menos por aí; mas em que latitude e longitude seria isso?” (Alice não ligava o mínimo para o conceito de latitude e longitude; ela só queria mesmo era usar substantivos bonitos.)

Logo ela estaria batendo na mesma tecla. “Ah, como eu queria cair de uma vez no chão! Que engraçadas não devem ser, lá embaixo, as pessoas andando de ponta-cabeça! Como eles se chamam mesmo? Os Antipáticos, eu acho.” (Dessa vez ela no fundo agradecia de todo coração ninguém poder ouvir, pois a palavra estava muito mal-empregada.) “Claro que assim que chegar eu devo perguntar como é que se chama o país. Por gentileza, senhora, essa é a Nova Zelândia ou a Austrália? (E ela tentou se ajoelhar – para fazer a mímica de quem agradece a informação, mas é meio difícil fazer isso em queda livre! Poderia ela conseguir com muito esforço?) „Mas ela me tomaria por uma menininha muito tola, ao ouvir essa pergunta! Não, não é pergunta que se faça! Quem sabe eu consiga ler em alguma placa.”

“DINÁ com certeza vai sentir minha falta à noite!” (Dinah era a gata.) “Tomara que não esqueçam de colocar leite no pires dela na hora do chá. Diná! Bichinha! eu queria que você estivesse aqui embaixo comigo. Só o que me preocupa é que não tem nenhum rato no espaço; mas tenho certeza que ela acharia um papagaio. Aposto que ela ia adorar esse salto infinito! E gatos caçam papagaios?” . . . “Será que gatos gostam de caçar papagaios? Gostam gostam gostam? Gostam papagaios de caçar gatos?“

A primeira idéia de Alice foi que essa chave deveria ser a de uma das portas do corredor. Porém, todas as chaves ou eram demasiado grandes, ou demasiado pequenas; logo, ela estava de volta ao início. Quando ela repassava pelos mesmos lugares, deparou-se com cortinas baixinhas que não havia percebido na primeira volta. Afastou-as e viu que detrás havia uma portinhola, de coisa de uns 40 centímetros, no máximo. Ela testou a chavinha dourada no trinco na fechadura, e, para euforia sua, a tranca deu um click.

Ao abrir a porta Alice se achou no meio de um corredor pequenito, não muito maior que uma casa de rato.

Dessa vez ela encontrou uma garrafinha. “Isso com certeza não estava aqui antes”, disse Alice; e do gargalo do objeto pendia uma etiqueta, escrito “BEBA-ME!” em belas e garrafais (sem trocadilhos!) letras, digo, fontes, nada úmidas. Na verdade, minto: estava escrito “Beba-me”, em caixa baixa. É que a sede e o desespero nos fazem ver tudo maior, e com pontos de exclamação! Mas a precoce Alice, parecendo uma adulta, não queria se resolver tão rápido a cumprir ordens alheias, pois quem é adulta não adula. “Não nos precipitemos! Vai que é um veneno – melhor prevenir!”

e aquilo cheirava muito bem (era uma mistura de torta de cereja com chantilly, abacaxi, peru assado e rabanada), então ela não resistiu e bebeu tudo, glut-glut!

agora Alice tinha 25 centímetros de altura, e seu rosto demonstrava satisfação com a própria genialidade, posto que ela passava a ter o tamanho certo para atravessar a porta e ir ao belo jardim!

„COMA-ME!“, estava escrito numa bela letrinha. “Ótimo, vou comê-lo com gosto”, disse Alice, “e quando eu ficar maior vou alcançar o molho de chaves; depois que encolher uma segunda vez vou poder rastejar pelo buraco da porta. No fim das contas vou chegar ao jardim – então dá tudo na mesma!

Ela mastigou um pedacinho, e falou intrigada para si mesma: “Pra cima ou pra baixo?” Ela encostou a mão na cabeça e ficou estupefata: como estava grande! Claro que ela já contava com isso; é que tudo estava dando tão certo que ela não podia deixar de se maravilhar com cada coisa!

Ela não hesitou e comeu o bolo todinho.

„Ai, meus pobres pezinhos! quando vou poder calçar umas meias e sapatos em vocês, meus queridinhos? … vou presenteá-los todo Natal com um par de botas novo!”

Pobre Alice! de súbito, antes de que se pudesse aperceber, ela já estava na ponta dos sapatos, com um olho espionando o jardim; mas logo o que se passaria lhe daria muito o que pensar. Ela se sentou e se segurou para não recomeçar a chorar.

Era o coelho branco, que vinha exuberantemente bem-vestido e com brilhantina no penteado, com um par de luvas numa mão e um leque na outra. Ele aloprava em grandes passadas enquanto deixava escapar: “Ó! a duquesa, a duquesa! logo ela vai sair, e eu deixando-a esperar!” … O coelho a seguia, deixando o par de luvas brancas e o leque cair, arranjando-se noite adentro, como podia.

“Eu certamente não sou Ida“, dizia ela, “pois ela possui longos cachos, ao passo que meu cabelo não é nada cacheado; e na melhor das hipóteses Clara eu também não sou, pois que eu sou tão clarinha, e ela, ah, ela de clara não tem nada! Além do mais, ela é ela mesma, e eu sou eu, e, ah, como tudo é tão confuso! … Deixe-me ver: 4 vezes 5 é 12, e 4 vezes 6 é 13, e 4 vezes 7 é – ai ai! nessa arte do cálculo não sei passar do 20! Ah, mas a tabuada também não vai a tanto… Agora vamos de Geografia. Rondônia é a capital de Porto Velho, e Roráima é a capital de Cegueira, e Romaria––não, eu acho que tudo isso está errado! Eu preciso ser como a Clara!…”

“…quando Clara eu for, gostaria de aqui embaixo ficar!…”

„mas tão pequenina eu sou como nunca se viu, não, nunquinha! E devo dizer que isso é deveras horrível, ah se é!”

* * *

“Ô rato, sabe o que é? desde que pulamos nesse lodo todo estou cansadíssima de nadar, ô rato!” (Alice meditou com que idioma devia dirigir-se a um rato falante; Alice não tinha certeza de todo, mas sua memória tão prodigiosa recordava que na gramática teutônica de seu irmão lia-se “Eine Maus – einer Maus – einer Maus – eine Maus – Maus!”)

“Talvez ele não seja civilizado”, pensou Alice, “quem sabe é um selvático, aquele que acompanhava Guilherme o King Kongquistador” (apesar do conhecimento anedótico de Alice em História, ela não tinha muita noção de quanto tempo havia passado desde cada evento que podia evocar, e andava misturando as lições com videogames e filmes do Tarzan). Ela conseguiu se lembrar de uma coisa das suas aulas de Espanhol: “donde queda mi gatita?”. Na verdade era a primeira frase do seu livro-texto de conversação. O rato aumentou o ímpeto de suas patinhadas n’água, revelando pavor no tremor.

“Não gosto de gatos!”, gritou o rato, todo eriçado, com uma voz fora de si.

“Você ia gostar de gatos, se estivesse no meu lugar?”

“Não, nunquinha”, Alice respondeu num tom displicente: “não seja mais mau! Se você se comportar não te vou mostrar nossa gata Diná…”

“…e ela é uma caçadora de ratos tão famosa –– ó, eu peço perdão!” repetiu Alice, se contendo para não amedrontar ainda mais o pobre rato; ela realmente não podia evitar, mas não fazia por mal. “Prometo que não volto a tocar no assunto enquanto você não quiser!”

Então o rato nadou rápido como nunca, superando em muito a agilidade de Alice, evadindo o grande lodaçal num átimo.

lá estavam um pato e um dodô, um papagaio de penas vermelhas e uma jovem águia, e ainda uma variedade de criaturas exóticas. Alice meteu-se de penetra nesta distinguida sociedade assim que chegou à margem do grande lago-poça.

* * *

A primeira questão foi, para tentar resumir: … Uma grande diatribe com o papagaio, tipo ranzinza, que gostava de ficar repetindo: “eu sou mais velho que você e portanto devo ser mais sábio”; Alice não deixava por menos e questionava a idade da ave teimosa, mas isso o papagaio não sabia ou não queria esclarecer. No fim nada ficou decidido, ninguém levou a melhor na discussão desarrazoada. Esse papagaio gostava de repetir o argumento!

„…Guilherme o Kongquistador do Chic-eiro, que exigiu privilégios da Peppa, foi muito querido pelos selvagens, e logo se tornou o líder que eles tanto procuravam; não custaria muito para Guilherme usurpar e conquistar o Cacho de Bananas. Edviges e Hog-Verrugartz, Grafeno de Mércia e Niobitumba“

„AAAH!“, bocejou o papagaio.

„Foi o que me pareceu“, disse o rato – “Vou mais longe: Edviges e Hog-Verrugartz, Grafeno de de Mércia e Niobitumba, esclareceu em adição; o próprio Stigândhi, o patriota arcebispo de Canterbury achou melhor—„

„Achou O QUÊ?“ perguntou a formiga.

„ACHOU“, redarguiu o rato já um tanto fora de si: “você quer saber mais do o narrador o que cada palavra significa…”

“Eu sei muito bem o que PALAVRAS significam, quando EU as acho”, continuou a formiga: “De praxe o que se acha é um sapo ou um verme. A pergunta é: o que achou o arcebispo?”

O rato fingiu que não ouviu a pergunta, e deu prosseguimento: “…achou melhor, acompanhado de Edu Moscóvis, recusar a coroa a Guilherme. Guilherme apesar de muito ponderado, cedeu ao seu temperamento primata insolente, não é mesmo, minha querida?”, foi se voltando para Alice conforme discorria.

“Nem tanto ao mar nem tanto à terra”, foi cortando Alice: “não ponha palavras na minha boca.”

“Nesse caso”, disse o dodô, todo solene: “eu proponho que a assembléia entre em recesso até que possamos efetivamente esmiuçar os novos fatos e…”

“Fale direito!”, respondeu a águia. “Eu não distingo o sentido de suas longas palavras, e nem pretendo!”, terminou de dizer contraindo o pescoço, e se esforçando para ocultar um risinho de canto. Todas as outras aves começaram a piar em visível aprovação.

“O que se queria dizer”, falou o dodô, em tom exaltado, “era que o melhor meio para nos decidirmos seria organizar uma corrida eleitoral.”

“O que é uma corrida eleitoral?” perguntou Alice, sem muita vontade de saber, na verdade; mas o dodô seguia seu raciocínio, como se não ouvira a pergunta; e nenhum outro animal se dispôs a respondê-la.

“Então”, emendou o dodô, “a melhor arte, aquela que esclarece, é o jogo.”

Antes do “um, dois, três, já!” ela já partiu em disparada, queimando a largada, vendo-se logo que isso não era algo fácil de organizar, pois nem mesmo se havia decidido ainda qual seria a linha de chegada (e haveria quantos turnos?). Decorria cerca de meia hora desde que o corre-corre tinha começado quando o dodô aclamou de súbito: “A corrida terminou!”, e ninguém queria mesmo continuar a correr (votar!), com dor nos dedos. E todos se perguntaram ao mesmo tempo: “E quem diabos ganhou?”

Essa dúvida o dodô não respondeu sem muita prévia reflexão, de modo que ele se sentou com um dedo apoiando a testa (a mesma postura de Shakespeare em um de seus retratos), enquanto a multidão conservava o silêncio, na expectativa. Finalmente disse o dodô: “Cada um ganhou, e todos devem receber o prêmio, pois isto é uma democracia!”

“Mas quem deve DAR o prêmio?” perguntou todo um coro uníssono de vozes.

“Obviamente que ela!”, disse o dodô, com a pata a apontar Alice. E assim todos daquele círculo se dirigiram a Alice, gritando: “Prêmio, prêmio!”

Alice não fazia a menor idéia do que fazer; em seu desespero, meteu a mão no bolso e achou um pacotinho de doces (afortunadamente fechado, não estragado pela água salgada); o que ela ofereceu como recompensa. Ela distribuiu um quitute para cada.

“Contudo, saibam vocês que a menina também deve receber um prêmio”, interveio o rato.

“É justo”, respondeu com equanimidade o dodô. “O que tem você ainda no bolso?”

“Só um dedal”, respondeu Alice, desolada.

“Para mim, é bom o bastante”, continuou o dodô, embora o presente não fôra para ele. Todos estavam em círculo ao redor de Alice, no momento em que o dodô se apossava cerimoniosamente do dedal para examiná-lo com mais cuidado, e também para fazer o papel de presenteador, e logo encetava outro discurso com ar grandiloqüente: “Solicitamos que a menina aceite gentilmente esse elegante dedal, o qual eu do-dou, comparável a deliciosas ba-bagas de nossa pra-praça!”; e ao encerrar dis-discurso um tanto efêmero e pouco espetaculoso para tanta cerimônia, receberam, tanto o orador como a presenteada pelo seu próprio dedal, o aplauso geral. Tudo bem quando termina bem.

Alice achou tudo aquilo muitíssimo tolo; mas essa assembléia dos animais parecia se levar tão a sério e ser tão compenetrada no que fazia que ela não se permitiu rir em voz alta, preferindo, em vez disso, e na falta do que falar, inclinar-se em agradecimento em gesto simples, estendendo as mãos depois a fim de receber seu dedal de volta por graça dos animais. Foi uma performance bastante respeitável.

„Você me prometeu contar sua história“, disse Alice – „e donde vem isso de você desdenhar os kás e agás?“

„Ah“, suspirou o ratinho, „você decreto não ia querer conhecer minha história; pois é uma história muito longa e muito hemorrágica.“

Com isso, foi o ratinho que fez perguntas a Alice.

„O seu rabo não te deixa mentir? Será possível? Deve ser verdade!“

Alice via com admiração como a rabicha do ratinho se encolhia toda por entre suas patas traseiras; „mas como, hemorrágica? Que mágica faz você então?

„…Vamos, coragem, não se esquive tanto! eu tenho de te fazer perguntas, senão não terei com o que passar os próximos dois dias.“

„…caro Senhor, sem juiz, sem testemunhas, nada disso é necessário!“

„Eu sou testemunha, eu sou juiz“, falou, com uma careta astuta e cortante, „A pergunta me convém e condena-o à morte!“

„Não passe da medida!“, pronunciou o rato, se sentindo enforcado pelas palavras de Alice. „O que é que você está pensando?!“

„Peço perdão“, respondeu Alice, muito contristada: „mas é que você mudou de assunto umas 50 vezes, eu acho, mudou mais que de mão o bilhete premiado…“

„Pré…miado!!“, exclamou o rato, resoluto e já fora de si.

„Premiado!“, exclamou Alice, que gostava tanto de fazer novos amigos, e via no rato mais um. „Ó, mas e agora, quer mudar de assunto quando o papo eu engato??“

„En…gato!!“, contestou o rato por reflexo, começando, incomodado, a se mexer do lugar. „Já não posso mais escutar uma palavra quando você brinca com essas coisas!“

„Eu não fiz por mal!“, se desculpou outra vez a pobre Alice. „Ah, mas você é tão, tão sensível!”

O rato só resmungou em resposta.

„Por favor, volte, e conte-me sua história direito!“, insistiu Alice num berro; e os demais, todos em coro: „Isso, por favor, vai, conta!“ – mas o ratinho se tremeu todo, de medo ou de raiva, balançou a cabeça e seguiu adiante a passos rápidos.

e uma velha sapa aproveitou o ensejo para confidenciar a sua filha: „Sim, sim, minha criança! aproveite essa lição, nunca deixe o mau humor prevalecer! „Ó, cale esta língua grande, mamãe!“, respondeu a jovem sapa malcriada.

„Eu queria muito que Diná estivesse aqui, ah, como eu queria!“, exclamou Alice em voz alta, mas sem se dirigir a ninguém em específico. „Diná iria atrás dele com toda certeza!“

„E quem é Diná, se posso lhe perguntar?“, ousou o papagaio.

Alice respondeu com firmeza e comoção, com aquela firmeza e comoção de quem fala do coração: „Diná é nossa gata, e o passatempo dela é caçar ratos, caça tão bem que vocês nem imaginam! E, ah!, ela já persegue pássaros também! Uma vez ela comeu uma avezinha que foi uma beleza! Ela fica com uma careta tão assustadora nessas horas!“

Essa confidência deu azo a uma bagunça muito maior que a da corrida eleitoral de agora há pouco. Num piscar de olhos os bichos que voavam haveriam de dar o fora: uma pega-rabuda velhinha, coitada, se encolheu toda; antes de pronunciar: „Eu tenho mesmo de ir para casa! Esse sereno não é nada bom para minha garganta!“ e um canário pipilou para seus filhotes: „Vamos, vamos, criançada! Já está na hora de dormir, vamos para a cama, vamos!“ Com essas convincentes desculpas e fórmulas protocolares foram-se afastando todos, deixando Alice completamente sozinha no meio da sede daquela grande assembléia, agora deserta.

* * *

„a duquesa! a duquesa! Ah, minhas patas tão molengas! ah, minha pelugem e minha barba! Ela vai me tosar e enforcar, tão certo como furões são furões! Ah, onde elas podem ter caído no caminho? Eu não entendo!“

„Que é que você faz aqui, Mariana? Vá neste instante a sua casa e me arranje um par de luvas e um leque! Depressa!

Entrementes, chegou Alice a um quartinho bem arrumadinho, com mesa que dava para uma janela e, lá fora (como Alice já esperava) um leque e dois ou três parzinhos de luvas de tafetá … Dessa vez, nada de bilhetes nem recados como „BEBA-ME“. Mesmo assim, embebida em confiança, se me permitem a expressão, Alice puxou a tampa e botou a garrafa entre os lábios.

„Mas“, disse Alice, „quer dizer que não fiquei mais alta? Bem, isso é um alívio! – não ser uma mulher altona… – se bem que… meninas altas não têm de fazer dever de casa nem ir pra escola! Ah, ISSO eu não queria ter de fazer!“

„Ah, simplória Alice!“, disparou ela para si mesma. „Como poderia você estudar por aqui? Olhe ao redor, por um acaso você está vendo algo parecido com uma escola? Nem muito menos um livro-texto eu vi, desde que cheguei!“

„…Aqui, Abelagarto! o senhor exclamou: você tem de trepar pela chaminé!“

Primeiro ouviu um coro geral: „Lá está o Abel a voar!“, depois a voz do coelho, solo: „Na queda, entalou o seu traseiro!“, e em seguida um grande silêncio. Por último, de novo uma confusão de vozes:

– Não, prendeu foi a cabeça!

– Mais aguardente!

– Não o sufoquem!

– Como vai, meu velho? que foi que lhe aconteceu? conte-nos a todos!

„Eu mesmo não sei – Mas estou bem, obrigado! Estou muito melhor – mas ainda estou muito irritado para contar“

Chovia muitíssimo, mas Alice conseguiu correr logo para debaixo duma mata bem espessa.

„O principal a fazer agora“, disse Alice consigo, enquanto aguardava debaixo do arvoredo, „é esperar juntinho do maior tronco dessa floresta; e, em segundo lugar, achar a estrada para aquele jardim tão lindo. É, não tem plano melhor!”

Soou mesmo como um plano primoroso, bem-feito, como se de há muito pensado e repensado. O único problema era que ela podia até ser boa para planejar, mas era péssima para executar!

* * *

O bom conselho da lagartixa.

A lagartixa e Alice se entreolharam longamente. Finalmente, a lagartixa agarrou seu hookah e o levou à boca, aproveitando, enlanguescida, cada parcela da fumaça. Sua voz saiu toda lerda e anestesiada: „Quem é você?“

Não foi um começo de conversa promissor. Alice respondeu: „Eu – eu não sei bem, agora – talvez eu soubesse quem eu era hoje quando acordei; mas tanta coisa aconteceu e me transformei tantas vezes que agora estou confusa!“

„Que quer dizer?“, respondeu a lagarta, insolente. „Me esclareça!“

„Receio que eu não possa esclarecer nada, lagartixa, porque eu não sou eu, a senhora vê agora?“

„Eu não vejo, não.“

„Eu não consigo mesmo explicar…“, emendou Alice, muito polida: „…o que eu não consigo entender. Quando alguém encolhe e aumenta tantas vezes num só dia, fica todo atrapalhado!“

„Não, não fica, não!“

„Talvez você não tenha percebido, mas é que quando você está no casulo se metamorfoseia, fica mais curta ou mais longa, quer dizer, os dois, porque umas partes suas encolhem e até somem, outras encompridam, até nascem! E aí vira uma borboleta, não é engraçado isso?“

„De modo algum.“

„Você muda muito, muito mesmo, parece outra! até onde EU sei isso é uma coisa muito curiosa de ver!“

„VOCÊ!“, a lagarta respondeu com desprezo. „Quem é você então?“

E aqui estávamos de volta ao começo do diálogo outra vez! Alice já estava irritada com a situação, porque falava muito, com cortesia e afeto, e recebia respostas curtas e grossas. Parecia que não ia dar liga! Ela atirou a cabeça pra trás e falou, muito convencida, mudando de estratégia: „Eu ACHO que VOCÊ devia me falar PRIMEIRO QUEM É VOCÊ?!“

„POR QUÊ?“

Ai, outra pergunta difícil. E Alice estava quase sem chão ou meios de se desembaraçar. Alice decidiu que não ia conseguir nada ficando ali e tentando seu melhor, então já estava prestes a seguir o seu caminho.

„Venha cá!“, disse inesperadamente a lagartixa, „eu tenho algo importante a dizer!“

Alice, por mais brava que estivesse, achava difícil de resistir à curiosidade. Deu meia-volta e, fingindo relutância, aproximou-se.

„Não seja desconfiada!“, observou a esperta lagartixa.

„Isso é tudo?“, perguntou Alice, incrédula e decepcionada demais para tentar se comportar diante da estranha interlocutora.

„Não…“

Alice pensou: quer saber? Vou esperar e ter paciência, não tenho mesmo nada melhor que fazer! Talvez, quem sabe, essa daí desembucha e fala alguma coisa de útil. Vale o esforço, já que já estou aqui! Alguns minutos depois, exalou fumaça a lagartixa, sem a menor pressa; até que, por fim, tirou o hookah da boca e pronunciou: Você está dizendo, mocinha,… que t a m b é m se t r a n s f o r m a ?!“

„Eu não consigo, lagartixa, passar dez minutos simplesmente vendo as coisas gigantescas ou minúsculas… Estou sempre tendo que trocar tudo!“

„Não consegue ver as coisas só dum jeito?“

„É isso que eu estava tentando dizer esse tempo todo! Como se eu fosse uma estranha pro meu próprio corpo, entende? Mas não posso evitar!“, finalmente pôs tudo para fora a borocoxô Alice.

„E dizia: Você é velho, Pai Martinho“, disse a lagartixa.

Alice cruzou as mãos sobre o peito e começou a recitar:

„Você é velho, Pai Martinho“, assim dizia Juca Troll,

“E suas cãs tão compridas;

Mesmo assim você fica o tempo todo de ponta-cabeça;

Como é que você nem transpira?”

„Quando eu era jovem,“ o Pai Martinho respondia,

„Exclamava: Ai, para o cérebro esse frio não é bom!

Foi aí que descobri que eu não tinha nada a perder

Então encarei com coragem a questão,

Aquecendo meu cérebro no chão!“

„Você é velho“, dizia o rapaz, „e é tão gordo!

Não tinha como dar cambalhotas para trás na sua idade sem tombar!

Cruzes vezes mil! Como é que você dá conta?“

„Quando eu era jovem“, respondia o velho ao jovem tão confuso,

„Eu me machuquei e caí no chão, que estorvo!

Aí passei essa pomada, que me deixou tão elástico

Como dois de você, sua anta!“

„Você é velho“, dizia o rapaz, „e todo desdentado,

Como é que pode conseguir a carne dura mastigar?

Seu segredo você me contará!“

„Ah, eu muito discuti na vida porque era magistrado,

Sobretudo com minha querida mulher, dona do lar;

Nessa arte fiquei tão refinado,

Que minha boca até aço tritura se deixar!“

„Você é velho“, dizia o rapaz, „e nem era assim tão graçola;

Agora fica aí todo-prosa

Igual artista de circo! Até uma enguia

Equilibra – na ponta do nariz!

Me explica todo esse dom!“

„Três respostas tiveste tu, ó besta, e já basta!

Ou vou te ensinar uma lição (das boas),

No quadro-negro e de giz

Para ver se esta tua cabeça quente esfria!“

„Tem algo errado“, disse a lagartixa.

„É, tem uns errinhos na canção, eu acho“, disse Alice, acanhada; „Eu sou boa em trocar umas palavras pelas outras sem querer…“

„Não é isso: está errado do começo ao fim“, disse a lagartixa toda empertigada. Seguiu-se um silêncio comprido de um minuto.

A lagartixa foi quem voltou a falar primeiro: „Quão grande você QUER ficar?“.

„Ah, não é ficar desse ou daquele tamanho que eu acho ruim, é só ficar toda hora trocando de tamanho que não é lá muito agradável, concorda?”, respondeu Alice com vivacidade.

„Não, não concordo, não!“

Alice nem respondeu. Nunca na vida ela se sentiu tão contrariada por alguém! Ou essa lagartixa não prestava ou, ela pensou, estava ficando muito suscetível à opinião alheia!

„Você está satisfeita agora?“, deu corda de novo à conversa a lagartixa.

„Eu queria ficar, na verdade, um pouquinho mais alta, senhora lagartixa, se me fosse permitido escolher… três polegadas e meia não é um tamanho muito bom!“

„Pelo contrário, isso é ser bastante alto, a altura ideal, eu acho“, rebateu a exasperada lagartixa, que não admitia contrariedades. Para acompanhar a fala, se estirou toda como estava em cima da folha, para parecer mais impávida, o que a deixava com 3 polegadas de altura.

„Mas é que eu não estou habituada!“, lançou a modo de escusa a pobre menina, não sem muita manha na voz. E neste momento ela pensava: „Eu queria poder pegar numa mão todas essas criaturas atrevidas cheias de más-línguas!“

„Pois com o tempo todo mundo se acostuma“, disse a lagartixa sonolenta antes de voltar a fumar seu hookah, toda apascentada.

Dessa vez Alice aguardou pacientemente, pois queria muito pedir um favor à senhora lagartixa. Depois de dois ou três minutos com o hookah na boca, e depois de dois arrastados bocejos, a conversa podia reiniciar.

A lagartixa voltou com muitos cogumelos, rastejando sob o peso de tantos. Ao fim da trilha dividiu os cogumelos em dois montes, na grama: „Os deste lado a aumentam; os do outro lado a encolhem“.

„Deste, do outro? Qual é qual?“

„Dos cogumelos!“, e de repente tinha sumido do campo de visão de Alice.

Finalmente, para saber quais cogumelos faziam o quê, os do bolso esquerdo e os do bolso direito, que ela tomou o cuidado de manter separados, ela colocou na palma das mãos uma pequena amostra de cada bolsinho e se dispôs a experimentá-los, mordicando-os.

„Agora vejamos, qual é o efeito dos pedaços de cogumelo da mão direita?“ Hora de provar o efeito: num piscar de olhos ela sentiu imensa dor no queixo, pois ele se chocou com os seus pés!

Ela se assustou com sua rápida transformação, mas não havia tempo a perder agora que ela sabia que comer do bolso direito fá-la-ia cada vez mais anã. Logo ela se pôs a mordiscar da mão esquerda. Foi trabalhoso, já que seu queixo estava tão perto dos pés que quase não havia como abrir a boca e fazer passar um pedacinho de cogumelo.

„Ah, por fim minha cabeça está livre!“, exclamou Alice, com bastante entusasimo, o que não a impediu de, num piscar de olhos, se encontrar novamente angustiada, ao perceber que seus ombros não podiam ser vistos em lugar algum: tudo o que ela podia enxergar, olhando para baixo, era seu monstruoso pescoço, que começava num pontinho lá embaixo e chegava até sua cabeça agora elevada aos céus. Era como uma vareta ou um mastro muito fino estendido por sobre um mar verde.

„O que será que é toda essa coisa verde?“, pensou Alice. „E cadê meus ombrinhos, pra onde eles foram? Mesmo minhas pobres mãozinhas, não consigo nelas reparar! Só sei que ainda tenho olhos porque vejo – não os olhos, é claro…“ Mas evidente que ela ainda sentia seus membros, então experimentou tocar as coisas. Nada ela alcançava, mas ainda sentia seus pezinhos sobre a grama. No entanto nada se produziu em sua visão: tudo era menos do que um ponto escuro lá no chão.

Pelo visto e pelo não visto, ela era incapaz de alcançar seu rosto com suas mãozinhas. Ela teve então a idéia de baixar sua cabeça, comprimindo seu enorme pescoço. Para arroubo seu, ao flexionar este membro, ele obedecia seus comandos como se fôra o corpo de um animal invertebrado, uma serpente mesmo. Alice então serpenteou pelo ar, de forma um tanto circense e risível, um zigue-zague após o outro. Naturalmente que foi-se dirigindo cada vez para mais perto do mar verde, curiosa. Agora que podia ver de mais perto, notou que os tons mais escuros nada mais eram que as folhas das copas das árvores mais elevadas do grande jardim! Assim que ela se embrenhou por ali todos os galhos começaram a farfalhar, que confusão! Uma pomba, incomodada com a intrusão, apareceu diante dos olhos da serpente-Alice, e cutucou sua carita com acintosas chicotadas das asas.

„Olha a cobra!!“, guinchou a valente pomba.

„Eu não sou uma cobra!“, defendeu-se imediatamente Alice, indignada pela ofensa, aliás. „Me deixe em paz!“

„É cobra sim, senhora!“, repetiu a pomba, mas com um pouco mais de receio, chiando em vez de guinchando. „E o pior é que nenhuma cobra deixa de ser má e traiçoeira!“, completou a pomba, já soluçando, a muito custo, tanto era seu medo instintivo da criatura superior.”

„Eu não sei do que você está falando!“, foi a resposta de Alice.

„Nas raízes das árvores eu procurei, no riacho eu procurei, na sebe eu procurei…”, sem reparar na aflição de Alice; “…mas essas cobras! Nenhuma que conheci era boa!“

Alice quase não entendia a situação em que se metera; cogitou, contudo, que era inútil continuar arrazoando com a pomba e que o melhor era dar no pé (no pescoço, propriamente) dali.

„Você não sabe o trabalho que é até chocarem esses ovos“, arremeteu a pomba. „vigiar dia e noite para que bichos como cobras não se banqueteiem com meus próprios filhotes ainda nem nascidos! Não prego o olho há três semanas, imagine!“

„Ó, lamento muitíssimo, parece que você teve muitos dissabores na vida“, disse Alice, que não via outro jeito de entabular conversa que não expressando sua sincera opinião.

„…e então foi que eu procurei outra árvore dessa floresta, um galho bem alto, onde não pudesse chegar nenhuma cobra“, continuou a pomba, ainda cheia de desconfiança. „Eu realmente não esperava que uma cobra me caísse do céu perto do meu ninho!! Xôôô, cobrona!“

„Mas eu já disse que não sou nenhuma cobra! Eu sou uma – eu sou uma–“

„…É uma o quê, então? Já vi tudo: você quer é me passar a perna, sua cobra-raposa! A mim você não engana!“

„Eu – eu sou uma menininha“, prosseguiu Alice, quase gaga, com cara de coitada. Depois de tantas transformações no mesmo dia, e de comer as migalhas que o cão amassou, a jovem se sentia em verdadeira crise de identidade, não muito diferente das adolescentes com o dobro de sua idade.

„Um papinho muito bonito, realmente!“, atalhou a pomba, com profundo desdém. „Eu passei penas e penúrias toda a minha vida, muito mais que uma menininha com certeza já passou, e vi muita coisa, viu, mas nunca uma pessoa com um pescoço de coooobra…! Não, não! Você é uma cobra safada e mentirosa! Você não pode esconder os fatos! Nem vem que não tem, hoje você não come UM ovinho no que depender de mim!“ Um discurso digno de uma fábula de La Fontaine!

„Eu comi ovos hoje, mais cedo“, não resistiu a confessar Alice, com a melhor das intenções. „Mas é que menininhas comem ovos igualzinho as cobras!“

„Eu acho que não!“, retrucou a pomba, alerta: „Porque quem faz uma atrocidade dessas só pode ser uma serpente muito da esperta, mas não mais esperta do que eu!“

Toda essa linha de raciocínio era tão nova para Alice que ela parou um par de minutos a refletir, em silêncio. A pomba interrompeu sua meditação com a seguinte estocada: „O que você quer são ovos, isso eu sei bem demais, mais do que gostaria de saber, na verdade; só que pouco me importa se você é uma menininha comedora de ovos ou uma serpente, o que me importa é que não vai parar ovo nenhum na sua barriga, está me entendendo?!?“

„Pra você pouco importa, mas pra mim importa muito! E além do mais eu não estou querendo ovo nenhum e, quando eu quiser comer, não vou comer dos seus. Eu não como ovo cru!“

„Então vá embora de uma vez, ora ovas!“, disse a pomba, no auge da irritação, enquanto sentou empertigada em seus ovos. Alice foi baixando a cabeça o melhor que podia pelo emaranhado de galhos e troncos. Mas, como se pode imaginar, como uma criança faz um nó cego no seu cadarço que mal aprendera a amarrar, não duraria até Alice se enroscar no próprio pescoço e entre as árvores! „Ai, ai, quantos ramos, socorro!“ Como uma aprendiz de costureira, ela teve de retroceder várias vezes e desfazer o que tinha feito. Nisso um bocado de tempo já havia passado. Finalmente ela alcançou com a cabeça as mãozinhas, com pedacinhos de cogumelo à espera. Dessa vez ela tomou muito mais cuidado, mordiscando porções bem pequenininhas, ora duma mão, ora da outra, para não ter mais surpresas desagradáveis. Depois de mil transformações para mais e para menos, ela finalmente ficou grandinha do jeitinho que queria.

E o que ela queria era voltar ao seu „tamanho original“, se é que é possível uma criança de 7 anos assim pensar e fazer sentido. Mas o fato é que Alice voltava a ter o tamanho de uma menininha de sua idade, poucos centímetros a mais ou a menos, que importa! No começo ela se sentiu muito engraçada, desacostumada que estava com o mais prosaico dos normais. Mas logo voltou a seu costume de falar alto consigo mesma, da forma mais lúcida que as circunstâncias permitiam: „Ótimo, meu plano deu certo! Nunca pensei que fosse tão confuso crescer e diminuir! Depois de mudar tanto, não sei o que pode me acontecer no momento seguinte! Agora sou da altura correta: mas quem me garante que daqui a uns minutos não vou estar do tamanho deste capim, ou gigante como aquela árvore? Bom, estou do tamanho certo para passear no jardim!“ Enquanto falava, ela caminhava, e veio a deparar com uma clareira com uma edícula ao centro. Ela tinha a altura de algumas polegadas. „Quem eu sou agora não me permite entrar aí, pois sou enorme para quem quer que habite nesta casa! Fora que eu ia deixar quem quer que esteja aí muito assustado, se me olhasse pela janela!“ E lá foi a esperta Alice mordiscar de leve do cogumelo que a diminuía… Isto é, ela mordiscou uma porçãozita da mão direita. E diminuindo ora demais até para a portinha, outrora aumentando demais para caber ali dentro, finalmente ela chegou às dimensões certas para bater e entrar. Alguém abriria?

* * *

„Por que seu gato ri assim?“

„É um gato amarelo, porque o sorriso do gato é amarelo!“

„Eu não sabia que os gatos riam tanto, muito menos amarelo; aliás eu não sabia que esses animais PODIAM rir!“

„Vê-se que você não sabe muito…“, disse a duquesa, „…pois é assim como lhe digo.“

„Eu só queria varrer a entrada da minha casa“, deu um rouco rosnar a dequesa. „o mundo vai continuar girando como sempre – e ninguém devia falar da vida alheia!“

„24 horas, penso eu; ou seriam 12? Eu–“

„Repreenda teus jovens pra lá,

E dê-lhes uma sova se alguém espirrar;

Ah, tudo são cachos e cores

Quem é que se irrita com esses dissabores?“

CORO

(a cozinheira e o bebê completaram.)

„Au! au! au!“

„Eu dou uma bronca no meu moleque,

E dou-lhe uma sova quando espirra;

Ora, eu sei que pimenta irrita

Quando cai nas suas narinas!

CORO

„Au! au! au!“

* * *

„Não tem assento! Não tem assento!“, gritaram, assim que Alice se aproximou. „Pra mim tem lugar o bastante, sim, vejo cadeiras vazias!“, disse Alice, relutante diante da má vontade geral, sentando-se na grande cadeira com braços ao final da mesa.

„Cai-lhe bem um vinho?“, ouviu-se da lebre-de-março, como que coagindo ao perguntar.

„Eu não gostaria, esta é SUA mesa; não é para mais de três pessoas.“

„Seu cabelo deve ocupar o resto“, disse o Chapeleiro.

“Como vê, você não pode afirmar que ‘eu vejo porque eu como’ no lugar de ‘eu como porque eu vejo’.”

“Sim, você também não pode afirmar…”, contemporizou a lebre, “…‘eu quero porque eu posso‘ no lugar de ‘eu posso porque eu quero‘!“

“’Eu respiro quando eu durmo‘ nunca vai querer dizer ‚eu durmo quando eu respiro‘!“

„O que mais temos pra hoje?“ … ele tinha seu relógio colocado sobre a mesa, e ficava muito nervoso e angustiado, sempre consultando-o, e quando não observava os ponteiros se punha intrigado, chacoalhava o dispositivo e punha-o na orelha para ver se não teria parado. Alice caiu em si e então respondeu: „É o quarto.“

„Dois! Dia errado!“, pareceu se rejubilar o Chapeleiro. „Eu lhe disse que a manteiga estragaria!“, pronunciou, sentando-se e olhando com repulsa para a lebre.

„Era a melhor manteiga“, respondeu ela, cabisbaixa.

„Sim, mas agora temos que comer torrada sem acompanhamento“, resmungou o Chapeleiro. „Aqui essa faca não serve para nada, pois não temos no que passar!“

A lebre pegou o relógio e o observou, taciturna; em seguida molhou-o em sua xícara de chá e olhou-o de novo, mas em vão! “Era mesmo a melhor manteiga…“

“Esse relógio é muito engraçado!“, observou – com a boca – Alice. „Ele mostra o dia, não as horas!“

“E não deveria?“, resmungou a lebre; „Que mostrasse as horas, ainda vai… mas onde mostraria o ano?“

“Em lugar nenhum, é lógico…“, respondeu a esperta Alice, „…porque não é preciso relógio para indicar algo tão longo!“

“Pois é este o propósito do MEU relógio“, respondeu o Chapeleiro.

“Mas qual é a resposta?“, perguntou a menina.

“Ora, não faço a menor idéia“, respondeu o Chapeleiro.

“Nem eu!“, respondeu a lebre.

Alice suspirou, irritada. “Eu acho que vocês não sabem usar o tempo, se propõem charadas das quais não sabem a resposta!”

“Se você soubesse usar o tempo tão bem quanto eu…“, arremeteu o Chapeleiro, “…você não diria isso, porque nós sim é que sabemos usar o tempo!“

“Eu não sei o que você quis dizer.“

“É claro que você não pode saber, nem sabe poder!“, respondeu o Chapeleiro, meneando a cabeça depreciativamente, e depois olhando a menina do alto. “Você não faz a mínima idéia da noção de tempo!“

“Eu acho que não“, respondeu Alice com cautela. “Mas ontem mamãe me disse que eu devia passar o tempo com minha irmã mais velha.“

“É? Ela devia estar de muito mau humor para lhe dizer algo assim; pois o tempo não é alguém com quem outr’alguém consiga fazer alguma coisa, muito menos passar! Quando alguém quer ser firme com o tempo, usa um relógio. Por exemplo, uma certa vez eram 9 da manhã. Não adianta fazer nada, por mais rápido que seja, sequer dar bom dia, que depois já não são mais 9 da manhã! Porque o tempo a usou, não foi você que usou o tempo! Faça a experiência, e quando você acabar, vai ter de escrever outra coisa no relógio! Bobeou e… Uma e meia da tarde–é assim que é o tempo!”

“Ah, isso seria esplêndido!“, disse Alice, pensativa, “mas então eu não estaria faminta quando desse a hora, não é verdade?“

“De início talvez não…“, respondeu o Chapeleiro, “…mas até uma e meia com certeza estaria!”

“Mas então, o que é que todos vocês fazem aqui, estão comemorando alguma coisa, ou tomam chá aqui todos os dias?“

O Chapeleiro não pôde evitar baixar a cabeça. “Eu não venho aqui todos os dias! Nós tínhamos nos reunido a última vez na última Páscoa…”

“Ah, papagaio, ah, papagaio!

Quão verde é sua pena!,

Será que você conhece essa música?”

“Eu acho que já ouvi algo parecido!“

“E continua assim“, foi puxando o Chapeleiro, mais empolgado:

“Você não verdeja só na calmaria,

mas até quando chove e quando neva!

Ah, papagaio, ah, papagaio!“

Aqui se juntou a capivara para cantar, sonolento: “Ah, papagaio, ah, mamagaia, ah, papagaio, ah, mamagaia!“

“Obrigado, eu tinha me esquecido de que a rainha declamara: ‘Abominável aquele que mata o tempo com algazarras. Este deve ser decapitado!’“

“Ó, que horror! que desalmada!“, exclamou Alice.

“E pra mim, depois disso, é como se não existisse o tempo! Agora são sempre seis horas!”

Isso fez Alice ter de concluir, de forma inteligente: “Por isso é que tem tantas xícaras de chá na mesa?”

“Exato. Sempre é hora de servir o chá, e não temos tempo nem de lavar as xícaras.”

“Então vocês estão sempre sentados aqui? O tempo todo?”

“Assim o é. Enquanto as xícaras servirem.”

“Mas e quando vocês precisarem começar do início uma nova rodada de chá?”

“Ora, quando o assunto acabar nós iniciamos outro. A pequena dama pode por exemplo contar uma estória.”, bocejou verbalmente a capivara.

“Ah, no momento não consigo pensar em nada!”, disse Alice, preocupada em acabar cometendo algum desaforo.

“Então deixe a capivara falar!”, pronunciaram os outros dois. “Vamos, capizzzzara, acorda!” E deram-lhe, de cada lado, um beliscão caprichado.

A capivara foi despertando e abrindo seus olhos vermelhos lentamente. “Eu nem dormi”, falando com voz de sono: “Eu ouvi cada palavra dessa última conversa.”

“Conte-nos uma estória!”, pediu a lebre.

„Era uma vez três irmãzinhas…”, começou a capivara. “Chamavam-se Maria, Lúcia e Aparecida, e viviam juntas num poço–”

“Como viviam assim?”, perguntou Alice, parecendo excessivamente interessada. Queria saber como faziam para beber e comer, na verdade.

“Elas viviam de xarope”, explicou a capivara, depois de pensar um minuto inteiro.

“Mas isso seria impossível; elas iam ficar doentes rapidinho!”

“Elas eram isso mesmo, as três eram muito, muito doentinhas.”

“Mas POR QUE elas viviam logo no fundo do poço?”

“Não quer mais um pouco de chá?”, perguntou a lebre a Alice com muita pompa.

“Um pouco mais? Eu não cheguei a beber nem uma gota! Se não bebi nada, não posso beber mais.”

“Você quis dizer que não pode beber menos”, interveio o Chapeleiro. “É muito fácil beber mais do que nada.”

“Ninguém pediu a sua opinião!“

“Por que elas viviam num poço?, anda!”

A capivara piscou lentamente e em seguida respondeu, repetindo o que já havia dito: “Era um poço de xarope.”

„Era nada!“, disse Alice, furiosa. Mas o Chapeleiro e a lebre responderam juntos: “Xxxxxhhh!”. E a capivara resmungou:

„Quem é mal-educado não pode ouvir estórias!”

“Não ligue! Continue sua estória!”, disse Alice, apaziguadora. “Não vou mais interrompê-la. Vou ser toda ouvidos!”

„As três irmãzinhas também – aprendem a criar coisas, saiba você!”

“O que elas criaram?”, perguntou Alice, interrompendo, antes que se esquecesse do que queria perguntar.

“Xarope”, disse a capivara sem pensar, mas com as pálpebras a pesar.

“Eu preciso de xícara limpa”, atalhou o Chapeleiro, “nós precisamos de mais espaço aqui!”

O Chapeleiro foi o único que tirou vantagem da troca, e Alice continuou com tanto chá quanto antes (zero mililitros), como a lebre teve de se contentar em lamber o prato raso, pois a leiteira estava quase vazia. Na tentativa de beber o pouquinho de leite ainda disponível, derrubou tudo.

„Mas não entendo. Como elas conseguiram fazer o xarope?”

„Ora, não é necessária nenhuma técnica em especial para fazer qualquer xarope”, contemporizou o Chapeleiro. “Você nunca viu como é fácil fazer um xarope de qualidade, de muita qualidade, da melhor qualidade? Ai ai, sua cabeça de vento!…”

“…então elas fizeram uma mistura – de tudo que começasse com X.”

“Por que com X?” perguntou Alice, cheia de inocência.

“E por que não?”, contestou a lebre.

Alice permaneceu calada.

„…tudo o que começa com X, como xícara de chá, xampu do Xenofonte, xixi de rato, xarrua do Xá, xérox de uma foto da lua, xô!, xeiro e até algumas vezes o ‘x’ do tesouro!”

„Ora, não me xame de Xuxa“, disse o Chapeleiro.

Isso foi o estopim, indelicado demais para a menina Alice: ela ficou muito, muito magoada, se levantou e se afastou. A capivara continuava piscando como se fôra cair dormindo a qualquer instante, e os outros dois nem repararam em sua saída, muito embora ela tenha olhado para trás ainda umas duas vezes, na esperança infantil de que eles pudessem se desculpar e de que ela voltaria a se sentar com eles. Da útima vez que ela olhou para trás viu a capivara desmaiada com a cara metida no bule de chá.

„Essa foi a companhia para tomar chá mais XATA que XÁ encontrei, na minha vidinha toda inteira!”

Ela passou um bom tempo caminhando e contemplando aquele jardim maravilhoso, passando por debaixo das flores do canteiro e das tão cheirosas e frescas filhas primaveris da mãe-natureza.

* * *

„Atenção, Cinco! Vê se não respinga tinta em mim!”

“Sete resvalou no meu cotovelo!”

“Isso não TE ajuda em nada, Dois”, falou o Sete.

“Suas cabeças! Suas cabeças—”

„Disparate!”, respondeu Alice, bem alto e segura de si, e a rainha se conservou em silêncio, mas por bem pouco.

O rei levou a mão ao seu braço e disse brandamente: “Espere, querida, não passa de uma criança!”

A rainha olhou para o rei com cara de poucos amigos um só instante, depois fingiu que se esqueceu do marido e da garota e falou aos valetes de copas deitados de bruço: “Levantem daí!”

“Vocês não precisam morrer!“, disse Alice, metendo as cartas num vaso de flores das proximidades. Os três soldados foram daqui para ali, atrás dela, e depois os trancaram com placidez.

“Suas cabeças caíram?”, berrou a rainha.

“Suas cabeças já eram, conforme as ordens de vossa majestade!”, bradaram os soldados em resposta.

“Isso é bom!”, berrou a rainha. “Você sabe jogar croquet?”

Os soldados seguiram quietos, observando a reação que a pergunta produziria em Alice.

“Sim!”, berrou Alice.

„Então junte-se a nós!“, bramiu a rainha, e Alice se juntou aos jogadores, com cara de enxerida.

“Est… está um dia lindo!”, pronunciou uma voz acanhada perto de si. Ela se aproximou do coelho branco, que ao contrário das palavras que dizia manifestava intensa preocupação no olhar.

“Demais! Cadê a duquesa?”

„Sh, shhh!“, chiou o coelho, bem baixinho, com o dedo indicador encostando na boca. Seu nervosismo aumentou. Avhegou-se ao pé do ouvido de Alice e confidenciou: “Ela foi condenada à morte.”

“Por quê?”

“Você quis dizer: que tragédia?”, perguntou o coelho.

“Não, não, não foi isso que eu quis dizer. Eu não acho nada, não acho que é uma tragédia! Eu perguntei: POR QUÊ?”

„Ela deu uma bofetada na rainha”, esclareceu o coelho. Alice riu alto. “Shhh, quieta!”, sussurrou o coelho cada vez mais baixo. “A rainha vai ouvi-la!” Com efeito, nesse mesmo instante a rainha se aproximava, gritando: “Vamos, todos em seus lugares!”

O terreno era todo sulcado, cheio de subidas e descidas, montículos e buracos. A bola era na verdade um ouriço, e cada taco um flamingo, que os soldados eram obrigados a carregar no colo e manipular.

„Como vai você?“, disse o gato, que na verdade era só um sorriso de gato.

Alice esperou os olhos aparecerem para assentir com a cabeça. “Mas não adianta nada conversar com você”, disse a menina, “até suas orelhas aparecerem, pelo menos”. Enfim surgiu a grande cabeça, em sua totalidade. Ali estava Alice com seu flamingo-taco; contou-lhe tudo que transcorrera até agora no jogo, finalmente certa de que o gato, com suas orelhas, podia ouvir cada palavrinha.

„Como lhe pareceu a rainha?” perguntou o gato, num sussurro prudente.

“À vezes acho muitas coisas, às vezes nada. Tenho muito o que falar sobre isso…”

Vendo que a rainha se aproximava, não continuou sua fala, à espera de que ela se aproximasse mais. A rainha ia exortando todos que encontrava pelo caminho a não ficarem à toa no campo, ordenando que cada atleta se esforçasse por demonstrar seu valor, e relembrando que o ócio era contra a lei.

Quando chegou perto o bastante de Alice, esboçou um sorriso e perguntou com quem ela conversava. Fitou aquela cabeça aérea do gato com muita curiosidade sem esperar resposta.

“É um amigo meu – um gato-sorridente. Permiti Vossa Majestade que que vo-lo apresente.”

„Sua aparência não me agrada“, disse a rainha. “Ele deve beijar minha mão agora, em sinal de devoção.”

“Ó, preferiria não!”

„Ora, não seja impertinente! E pare de me olhar assim!” A cabeça do gato se deslocou para trás de Alice enquanto ouvia essas queixas da rainha.

“O gato olha para a rainha, a rainha olha para o gato”, disse Alice. “Li isso em algum lugar, só não lembro onde!”

O carrasco afirmou que não era possível decapitar uma cabeça que não tinha nenhum corpo. Que nunca vira coisa semelhante. E que mesmo quando se é avançado em idade é ainda possível aprender algo de novo.

A rainha objetou, por seu lado, que todos que tivessem uma cabeça deviam poder ser decapitados, e que isso sequer merecia virar tema de discussão.

* * *

Alice não estava gostando de várias coisas em seu aspecto: em primeiro lugar, que a duquesa fosse tão feia; em segundo, que fosse tão gorda; e terceiro, que seu queixo pontudo chegasse quase a espetar o ombro da menina. Com um queixo tão afiado, era como estar refém de uma espada!

“Você por um acaso chegou a ver o FALSO CÁGADO?”

“Não”, respondeu Alice. “Eu nem sei o que é um FALSO CÁGADO!”

“É um cágado que vira uma falsa sopa de cágado”, explicou a rainha.

“Eu nunca vi até hoje, nem nunca ouvi falar de uma coisa assim.”

“Venha já; ela deve contar-lhe a história.”

Logo ela chegou perto de um grifo, que dormitava ao sol. [Se não sabe o que é um grifo, olhe o desenho, fazendo o favor – não, não olhe, pensando bem, porque aqui não tem (o desenho)!]

“Venha aqui, vá acolá, faça isso, façaquilo… Nunca em toda a minha vida fui tão mandada pelos outros!”

“Por que chamam-na Mamãe Broncaqui?”, perguntou Alice.

“Ela RALHA AQUI ou ralha ali o dia todo”, disse o falso cágado, emburrado. “Você é realmente estúpida.”

“Ah, então você nunca freqüentou boas escolas…”, condescendeu o falso cágado, achando-se, aliás, muito generoso por isso. “Em nossa escola as contas sempre vêm ao final – depois de Francês, aula de Piano, aula de costura. Essas são mais importantes.”

“Muito importante, tanto a nova como a velha, Marografia. A aula de Fonte – o professor de Fonte e Esguicho era um velho bacalhau, que costumava ensinar sua disciplina semanalmente. Ele ensinava a Fricção de Nadadeira e Manias, Fonte Oceânica, Cintilação Oceânica e Impressão Oceânica!”

“E quantas horas durava a classe?”, quis saber Alice, ou na verdade pronunciou essas palavras, querendo muito mesmo era mudar de assunto.

“Dez no primeiro dia”, respondeu o falso cágado, “nove no seguinte, e assim por diante.”

“Que escola mais gozada essa!”

“Esta é a razão de ser de um professor.”

„Então no décimo primeiro dia todos estão livres?”

“Naturalmente!”

„E o que acontece no décimo segundo dia então?”, perguntou Alice, excepcionalmente entusiasmada em termos de assuntos escolares.

“É o suficiente por ora”, interrompeu o grifo, no melhor dos intentos: “Conte agora você sobre o jogo.”

* * *

O balé das lagostas.

“Reparem se ela não tem ossos no pescoço!”

“Talvez você nunca tenha vivido debaixo d‘água”—(“Não”, respondeu Alice)— “e talvez você não tenha familiaridade com as lagostas”—(Alice queria ter dito “eu já provei uma vez”, mas se apercebeu a tempo da gafe e, no lugar, disse, simplesmente: “Não, nunquinha!”—“você não faz idéia de quão emocionante o balé das lagostas é.”

“Não, realmente não, que tipo de dança é?”

“Antes”, respondeu o grifo, “façam uma fila na praia—”

„Deve ser uma dança muito bonita”, disse Alice, ansiosa.

Então você não vem

você não vem

você não vem dançar comigo?

…

Não, eu não quero, não posso,

não irei dançar contigo!

„Você sabe por que esse peixe se chama lixa?”

“Não tenho a menor idéia. Por quê?”

„É porque”, respondeu o grifo, com uma voz solene e profunda, “o homem SE LIXA para conhecê-lo bem. Dessa forma você já tem uma coisa interessante para contar sobre suas aventuras!”

“…Veja minha terra e minhas marés verdes…”

“Essa é a coisa mais abstrusa que já ouvi!“.

“É, também acho, mmas é melhor ouvir até o fim”, aconselhou o grifo. E Alice continuou na escuta.

“Ma – ravilhosa so – pa!

Ma – ravilhosa so – pa!

Ra – inha das so – pas,

Mara-maravilhosa Sô! Pá!

* * *

No centro do tribunal havia uma mesa com uma torta tamanho família. Parecia tão apetitosa que uma mera espreitada na sobremesa deixava Alice morta de fome.

O juiz era na verdade o rei, que trazia a coroa em cima da peruca, e toda hora ele rodava a coroa, de modo que o frontispício ora estava na testa, ora na nuca; decerto que ele se sentia muito incomodado e pouco à vontade na posição.

„E aqueles 12 animaizinhos lá na frente, aposto que são os jurados”, pensou Alice.

Ela se repetiu essa palavra duas ou três vezes, porque parecia muito briosa aprendendo coisas assim difíceis. Depois ela pensou, com razão, que muitas menininhas de sua idade se sentiriam assaz invejosas por não saberem tudo isso que ela agora sabia.

“Mas que coisa mais tola!”, pensou alto Alice. De todo modo o coelho foi o próximo a falar: “Silêncio no salão!”. O rei sentou com seu monóculo e começou a espiar os arredores, para ver quem tinha aberto a boca.

Alice pôde ver com exatidão como todos os jurados anotavam “Mas que coisa mais tola!” em seus quadros, e reparou também que um deles não sabia como a frase se escrevia, de modo que teve de consultar o seu vizinho. “Ai, ai! o quadro dele vai estar uma maravilha quando o interrogatório terminar!”, pensou Alice.

“Todos os jurados têm uma pena de escrever, então por que não eu?”, guinchou aquele que não sabia escrever direito. Isso foi demais para nossa menina Alice; ela levantou e foi ao outro lado da sala, conseguiu se enfiar entre toda aquela aglomeração do tribunal e logo achou um ensejo de furtar a pena. E ela foi tão serelepe que o pobrezinho do jurado ia demorar trezentos anos para se dar conta de quem fôra o responsável pelo sumiço da pena.

“Arauto, anuncie a promotoria!“

“Rainha Amada, ela assa o bolo,

…

Valete de Copas, meu caro, vem com o bolo na mão.

Onde está ele agora? Ai!”

“Que entrem as últimas testemunhas!“

“Sou um pobre homem, Vossa Majestade”, começou o timorato Chapeleiro, com a voz trêmula, “e preciso primeiro tomar o meu chá – não demora mais que uma palavrinha –, afora a rala fatia de pão com manteiga – e veja, basta uma xicrinha, um pratinho, um bulinho.”

“E que é que tem um prato e um bule?”, perguntou despeitada a rainha.

“Precisam estar quando tomo o chá”, emendou o Chapeleiro.

“Naturalmente que um serviço de chá requer prato e bule. Tem-me por uma besta por um acaso? Quero lhe ouvir!”

“Eu sou um pobre homem“, seguiu sem avançar o Chapeleiro, “e desde então não tenho mais como tomar meu chá – a lebre é testemunha!”

“Mas O QUÊ disse a capivara?”, perguntou um dos jurados.

“E-eu esqueci!”

“Mas é preciso que lembre”, disse a rainha, “…senão corto-lhe a cabeça!”

O infeliz Chapeleiro deixou a xícara e o pão mirrado caírem e deixou-se, também, cair, parando de joelhos diante da autoridade. “Eu sou um homem miserável, muito, muito reles, Vossa Majestade!”, era só o que ele sabia dizer.

“Você é um orador miserável!”, não perdeu a brecha a rainha.

“Eu gostaria muito de voltar ao meu chá”, respondeu o Chapeleiro com um olhar perplexo e desesperado dirigido em súplica à rainha, como desde o início do interrogatório, como um velho cantor pobre de repertório que só sabe repetir o mesmo estribilho.

“Você pode ir“, disse a rainha, ao que o Chapeleiro se dirigiu apressado para fora do tribunal, só que tão apressado que um de seus sapatos ficou pelo caminho.

“Pimenta, principalmente“, disse a cozinheira.

“Xarope“, respondeu uma vozinha sonolenta detrás de si.

“Prendam essa capivara!“, exclamou a rainha, voz esganiçada. “DeCAPIvarem essa CAPIta! Expulsem essa capivara do tribunal! Suprimam-na! Belisquem-na! Arramquem-lhe o bigode!”

O coelho branco retirou os óculos. “Como ordena Vossa Majestade; por onde devo começar?”

“Comece do começo”, disse o rei, como quem explica um problema matemático. “E chegue ao final, passando pelo meio.”

Esses eram os versos, igual o coelho branco os cantou:

“O que escutei de você,

me deixou com inveja;

Ela dizia que comigo se embevecia

quando eu só nadar podia!

Eles escreveram que eu não ia

(Era só o que sabíamos):

Quando eles nada fazem,

O que será de nós?

Eu lhe dava um, ela lhe dava dois,

Eles me davam três vezes quatro;

Mas ela está aqui, ela está ao meu lado;

Todos estão comigo!

Talvez eu e ela

Um dia nos desencontremos,

Mas ela sempre vai

Esperar eu voltar!

Eu pensava muito nos meus erros,

E ela dava muitos faniquitos,

Eu esperava o fim de tudo aquilo,

Enquanto isso ofendido.

Não tem preço, eles dirão,

O amor de alguém;

Não há alma nesse mundo

Que a conheça tão bem!”

“Essa é a maior revelação que ouvimos até agora!”, disse o rei, esfregando as mãos. “Deixem os jurados trabalharem.”

„Se é que alguém consegue entender alguma coisa que eles fazem”, disse Alice (ela estava tão por fora do que acontecia nestes últimos minutos que já não tinha coragem sequer de perguntar o significado de nada a ninguém, e essa foi a vez que ela passou mais tempo calada). “Dessa missa não acredito na metade! E digo mais, não enxergo nisso nenhum sentido!”

Os jurados escreveram tudo em suas pranchetas: “Ela acha que não há nenhum sentido nisso”, mas nenhum deles pensava no sentido daquelas palavras.

“Quando não faz sentido,” disse o rei, esclarecedor, “isso nos poupa um grande volume de trabalho! Quer dizer que não temos que nos preocupar com nada! Só sei que nada sei.”

“Mas aí vem alguém e diz: ‘E elas ainda estão aqui’”, disse Alice.

“De fato, eles ainda estão! ela segue aqui!”, disse o rei, triunfante, ao tempo em que colocava uma fatia de torta em cima da mesa, perto do valete de copas. “Nada pode ser mais claro! De novo: ‘Ah, lá vem o chilique!’”.

(Os pobres jurados, perdidos, ouviram e começaram a escrever a mesma coisa em suas lousas: não faz nenhum sentido. E eles copiavam tudo como ouviam nos menores pingos, a ponto de terem de mergulhar a pena no tinteiro diversas vezes sem parar.)

“Então não foi culpa sua!”, disse o rei, e dei um risinho, olhando de par em par para todo o júri. Todos pareciam ter levado uma pi(c)ada letal de escorpião. Ficaram paralisados, e com semblante pesado.

“Ora, foi uma pi(c)ada!”, saiu-se com essa o rei, demonstrando nervosismo – foi então que após segundos muito tensos sem se ouvir um farfalhar de papel nem mesmo ruído de cadeiras atritando contra o solo, todos soltaram o ar de seus pulmões e gargalharam sonoramente.

“Ai, que idiotice!”, falou Alice, em voz alta, sem conseguir se conter. “Se a decisão é só a opinião dela!”

“Cale a boca!”, disse a rainha, enquanto sua cara se tornava violeta.

“Eu não quero!”

“Cortem-lhe a cabeça!“, bradou a rainha o mais alto que podia. Mas as cartas não saíram de seus postos.

“Quem perguntou algo a vocês?”, ousou Alice, no cúmulo de seu justificado despeito. “Vocês não são nada além de um baralhinho inofensivo!”

Com essas palavras, ergueu-se todo o carteado no ar, circundando a menina. Ela soltou um grito, meio de susto, meio de ira, instintivamente soergueu os braços, sentindo-se cercada, dos pés à cabeça, isto é, dos cabelos aos sapatos. Cada uma daquelas cartas parecia se mover conforme flutuam as folhas secas de uma árvore ao capricho dos ventos numa refrescada tarde outonal! Significa que elas podem até demorar, mas vão, então, finalmente cair no chão, indefesas?! Ela ouvia agora, de repente, a tranqüilizadora voz de sua irmã mais velha, que a segurava em seu regaço:

“Calma, Alicinha! Foi só um pesadelo!”

Mas sua irmã ali continuava, perfeitamente sentada e tranqüila, com a cabeça apoiada numa das mãos, enquanto a outra folheava o grande livro, ambas debaixo da sombra da copa da árvore, naquela linda tarde nublada. E a pequena Alice sonhava, a sua distinta maneira, com maravilhosas aventuras, e só agora percebia: foi tudo um longo, longo sonho inocente!

“Espera, não é possível! Ela estava no País das Maravilhas, e talvez eu também conheça este lugar!” E tentou fechar os olhos e abri-los de novo, para ver se mudava de lugar. Mas ao reabri-los olhava em volta e via a realidade, o pomar de sua casa, na Inglaterra, não em outra terra, se maravilhosa era! Aquela graminha verde não deixava ninguém mentir, ela bem a conhecia. E aquele velho e familiar farfalhar calmo da brisa gentil… Sim, tudo aquilo era muito conhecido da irmã de Alice. Até o mesmo laguinho, à margem do qual, ouvindo aquelas ondinhas diminutas, ela estava acostumada a perder os sentidos e embalar no sono, outrora…

GLOSSÁRIO

Adler: águia

angenehm: agradável

Apfelsine: laranja = ORANGE

Atem: fôlego

bescheiden: contrito, modesto

Brett: quadro

Dachspitze: sótão, abóbada

durchkriechen: rastejar

eilig(e): com pressa, apessado(a)

einmachen: conservar

Ende: pato

entweder: equivalente ao either inglês

Entzücken: arroubo

Faselhase: ??? “[Brasil] Zoologia. Tipo de esquilo (Sciurus aestuans) que, sendo encontrado na Amazônia e em certas partes do litoral brasileiro, possui aproximadamente 20 centímetros de comprimento, de pelagem marrom-oliácea e possuidor de uma longa cauda.” A tradução mais difícil foi a desse personagem. Vemos que em cada tradução o autor escolhe um novo animal, apesar de o esquilo ser o protótipo ideal (ainda que a ilustração nada tenha de esquilo, a ser franco!), então eu fiz o mesmo e parti para a inovação, optando por uma brasileiríssima capivara!

gewiss: decerto

Gipfel: copa, topo (como duma árvore)

Herzogin: duquesa

indem: enquanto

Kaninchenbau: toca do coelho

knabbern: mordiscar

Mäuseloch: casa de rato (hoje sem o trema)

mutig: corajoso, valente, brioso

nützen: ajudar

Rätsel: charada

rieseln: escorrer

schnur: fio

stolpern: deparar-se com

Tat: delito (jurídico)

Todtenkopf: veneno

Töpf: pote

Trost: alívio

übel: mau

Übrigen: restante

Ufer: margem

Verdruss: descontentamento, desprazer, irritação, decepção

vertreiben: expulsar; sentido de ‘passar’ quando usado com o tempo como objeto.

Verzweiflung: desespero

Vorbeifallen: ??? (vorbei: prévio, passado; Fallen: queda)

vorsichtig: cautelosamente

Zuckerplätzschen: docinhos

TROCADILHOS INTERESSANTES OU NEM TANTO

Mausoleum: Mouse ao léu. Um rato vivíssimo, mas tão folgado e preguiçoso que parecia estar morto!

PADRÕES DE REPETIÇÃO APLICADOS ÀS HISTÓRIAS CHINESA, MUÇULMANA & OUTRAS

Um conceito oriental que exibe verossimilhanças com conceitos ocidentais da recorrência histórica é aquele chinês do Mandato do Firmamento, segundo o qual um governante injusto perderá o apoio do Firmamento e o governo será derrubado. No mundo islâmico, Ibn Khaldun (1332-1406) escreveu que Asabiyyah (coesão social ou unidade de grupo) tem um papel fundamental no ciclo de um reinado ou dinastia, sua ascensão e queda.

G.W. Trompf descreve vários paradigmas históricos de recorrência, incluindo alguns que compreendem fenômenos históricos de grande escala como “cíclicos”, “flutuantes”, “recíprocos”, “repetidos” ou “revividos”. Ele ainda observa: “a perspectiva provinda de uma crença na uniformidade da natureza humana – porque a natureza humana não muda, a mesma cadeia de eventos pode recorrer ao longo do tempo.” “Outros casos menores de pensamentos recorrentes incluem o isolamento de dois eventos específicos que guardam entre si uma similaridade espantosa, e a preocupação com o paralelismo, isto é, com as semelhanças, sejam gerais ou meticulosas, advindas de fenômenos históricos a priori separados.”

Maquiavel cita essa oscilação argumentando que a virtu (valor e efetividade política) produz paz, a paz produz ócio (ozio), o ócio, a desordem, e a desordem a ruína (rovina). Em contrapartida, da rovina adviria a ordem, da ordem a virtu, e a partir dela a bem-aventurança. Maquiavel, assim como o historiador grego antigo Tucídides, via a natureza humana como notavelmente estável – firme o bastante para a formulação de regras de conduta política. Maquiavel anotou em seus Discorsi:

Quem queira que considere o passado e o presente chegará à conclusão de que todas as cidades e todos os povos … sempre foram animados pelos mesmos desejos e paixões; sendo assim, mediante um diligente estudo do passado, é fácil prever o futuro de qualquer república, e aplicar os mesmos remédios usados pelos antigos ou, verificando a ausência de soluções aplicadas por eles, conceber novas decorrentes de eventos similares.

Em 1377, o erudito muçulmano Ibn Khaldun, em seu Muqaddima (ou Prolegômenos), escreveu que quando tribos nômades se unem em Asabiyya – clanismo ou a solidariedade de grupo já citada – sua organização superior bem como melhor exército subjugam as intrigas nas urbes. Inspirados o mais das vezes pela religião, conquistam cidades e criam novos regimes. Porém, com o passar de algumas gerações, as tribos vitoriosas confederadas perdem o espírito de solidariedade, corrompidos pela luxúria, extravagância e ociosidade. O governante, desconfiado da qualidade dos novos guerreiros, tem de aumentar os tributos sobre seus territórios a fim de contratar forças mercenários, o que leva a uma série de outros problemas que resultam eventualmente no fim de uma dinastia ou do Estado como um todo.

CORRENTES DA HISTORIOGRAFIA HINDU

A “Escola de Cambridge”, liderada por Anil Seal, Gordon Johnson, Richard Gordon e David A. Washbrook, menospreza o fator ideológico. Esta corrente é criticada devido a seu viés ocidentalista e eurocêntrico.

A escola nacionalista focou no congresso, Gandhi, Nehru e outros políticos de alto escalão. Há grande ênfase no motim de 1857 enquanto guerra de libertação, e no “Saia da Índia” gandhiano de 1942 em diante, como dois grandes eventos históricos. Esta corrente recebe críticas por seu elitismo.

Os marxistas focaram em estudos de desenvolvimento econômico, posse das terras e conflitos de classe na Índia pré-colonial e na desindustrialização do período colonial. Os marxistas consideram o movimento de Gandhi, no fundo, como uma tática desviacionista da burguesia local para prejudicar as forças potencialmente revolucionárias e populares, objetivando controlar seus passos. Os marxistas são acusados de ser ideologicamente influenciados “em demasia”.

A “escola subalterna” foi fundada nos anos 80 por Ranajit Guha e Gyan Prakash. Remove o foco das elites e políticos em prol de uma “história desde a base”, abordando os camponeses e seu folclore, poesia, piadas, provérbios, canções, história oral e métodos inspirados pela antropologia. Sua época de abrangência é da era colonial pré-1947 e enfatiza tipicamente o sistema de castas, desprezando as classes, para a irritação da escola marxista.

Mais recentemente, nacionalistas hindus criaram uma versão da história para apoiar suas demandas por uma Hindutva (que poderíamos traduzir como “hinduinidade”, como “americanidade”, “brasilidade”, “europeidade”…) como esteio da sociedade indiana. Essa escola de pensamento ainda está em suas origens. Em março de 2012, Diana L. Eck, professora de Religião Comparada e Estudos Hindus em Harvard, publicou em seu livro India: A Sacred Geography [Índia: Uma Geografia Sagrada] que a idéia de Índia remonta a um período muito mais antigo que o da invasão britânica ou dos mughals. Sua tese é que a Índia atual nunca foi, antes da configuração como Estado-nação unificado, mero amontoado de regiões autônomas com escassas identificações culturais entre territórios vizinhos, muito menos pequenos países ou povos étnica ou racialmente segregados. A noção de um todo coerente, a Índia, preexiste às colonizações ao longo de vários séculos que teriam unificado os territórios do ponto de vista ocidental.

CODICOLOGIA

A demarcação da codicologia é imprecisa. Alguns vêem-na como uma disciplina completa em si mesma, outros como disciplina auxiliar da análise textual crítica e sua transmissão, que são aspectos estudados na filologia. Codicologistas também podem estudar a história das bibliotecas, coleções de manuscritos, catalogação de livros e os escribas, campos pertencentes, por outro lado, ao ramo da história do livro. Alguns codicologistas alegam que seu campo do conhecimento engloba a paleografia, o estudo da escrita manual ou caligrafia, ao passo que certos paleógrafos insistem que seu campo abrange justamente a codicologia. O estudo de porções da escrita como a marginália (anotações nas margens), glosas, autoria de inscrições, etc., acaba sendo compartilhado por ambos os campos, como o estudo de aspectos físicos de decorações, que, não fosse a abordagem codicológica, seria uma subespecialidade exclusiva da história da arte. Ao contrário da paleografia tradicional, a codicologia presta mais ênfase ao aspecto cultural dos livros. O foco na parte material é referido como codicologia stricto sensu, enquanto uma abordagem mais holística, incorporando ferramentas e métodos paleográficos, filológicos e das histórias da arte e dos livros, é referida como codicologia lato sensu, e na verdade as fronteiras são continuamente definidas pelo próprio codicologista individual.

Técnicas paleográficas são utilizadas em concerto com técnicas codicológicas. A análise do trabalho dos escribas, estilos de escrita e variações pode vir a revelar o caráter, o valor, o propósito, a data e a importância atribuída às diferentes partes de um livro.

Muitos incunabula (uma espécie de elo perdido entre a era dos manuscritos puros e simples e a invenção da imprensa de Gutenberg), livros impressos até o ano de 1500, foram finalizados inteira ou parcialmente à mão, fato que liga seu estudo eminentemente ao domínio da codicologia.

TRADUÇÕES ISOLADAS II: ROUSSEAU, Do amor próprio

“O amor de si (amour de soi), que se importa apenas conosco mesmos, está satisfeito quando nossas necessidades básicas estão atendidas; mas o amor-próprio (amour-propre), que faz comparações, nunca está satisfeito, e nunca o poderia, porque esse sentimento, ao preferir a nós próprios que a outros, também requer que outros prefiram a nós que a eles mesmos – uma coisa simplesmente impossível. (…) É assim que o que faz do homem essencialmente bom é ter poucas necessidades e comparar-se pouco com os outros; e o que faz do homem essencialmente mal é ter muitas necessidades e dar grande importância às opiniões.”

TRADUÇÕES ISOLADAS I: ROUSSEAU, Da herança

“<Mas>, diz você, <meu pai serviu à sociedade ao acumular sua propriedade>. Que seja; ele já pagou a própria dívida, mas não a sua. Você deve mais, não menos, aos outros por isso, como se nascesse exatamente sem propriedade; você foi favorecido ao nascer. Não é justo que o que um homem legou à sociedade devesse isentar outro de cumprir a mesma obrigação; cada qual, sendo dono de si mesmo, pode pagar apenas por si mesmo, e nenhum pai pode transmitir a seu filho o direito de ser inútil a seus convivas; mas é isso o que ele faz, de acordo consigo, ao deixar-lhe suas riquezas, que são a prova e a recompensa do trabalho. (…) Fora da sociedade, um homem isolado, não devendo nada a quem quer que seja, tem o direito de viver como bem entende; mas, em sociedade, em que ele vive necessariamente às expensas de outros, ele lhes deve em trabalho o preço de seu sustento; não existem exceções. Trabalhar é, pois, uma obrigação indispensável ao homem social, vulgo homem. Rico ou pobre, poderoso ou fraco, todo ocioso não passa de um patife.”

HISTÓRIA DAS IDÉIAS 2: HEGELIANISMO(S): O PENSAMENTO ÚNICO QUE FALHOU

LEGENDA:

Em vermelho: trechos importantes, possivelmente contendo uma idéia completa.

Em negrito, sublinhado, itálico: trechos importantes, normalmente contendo alguma idéia incompleta ou detalhe secundário que não deve ser perdido de vista (parte da teoria que não deve ser ignorada para o entendimento completo desta).

Em vermelho e grifado: trechos mais importantes.

Em verde: pérolas do filósofo ou idéias abstrusas. Quando grifado, muito abstrusas!

Em azul: comentários meus (exegese e julgamento do filósofo).

ÍNDICE (Use control+F para pular para a seção desejada)

s/nº INTRODUÇÃO

1. PRELIMINARES

2. COMEÇA O CURSO – AS RELAÇÕES DA FILOSOFIA COM A HISTÓRIA, COM PRIMAZIA DA SEGUNDA

2.1 INDIVÍDUOS X IDÉIAS: UM FALSO DEBATE

2.2 SOBRE A BUSCA PELA VERDADE AO LONGO DO TEMPO: A ELABORAÇÃO DE SISTEMAS FILOSÓFICOS MUTUAMENTE CONTRADITÓRIOS.

2.3 PRIMEIROS ELEMENTOS DO HEGELIANISMO

2.4 DELIMITAÇÃO DO MÉTODO DO ESTUDO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA; A PAIXÃO HEGELIANA PELA RELIGIÃO E PELA ESCATOLOGIA.

2.5 DELIMITAÇÃO DO QUE É FILOSOFIA

3. PANORAMA GERAL DA FILOSOFIA GREGA

4. ANAXÁGORAS

5. PARMÊNIDES

6. PITÁGORAS

7. HERÁCLITO

8. OS ATOMISTAS

9. PROTÁGORAS

10. SÓCRATES

10.1 O PROBLEMA DA ÉTICA DIVINA: NEGANDO E AFIRMANDO SÓCRATES

10.2 O INDIVÍDUO SÓCRATES & O OCASO ATENIENSE: O LADO NEGATIVO DA FILOSOFIA

11. PLATÃO

11.1 O PLATONISMO

11.2 O PLATONISMO COMO ÁPICE PRECOCE DO FILOSOFAR & O LIMBOBOL COMO TÊNIS METAFÍSICO (onde o Pensamento Único é o estilo característico de cada atleta-pensador)

11.3 A MAIÊUTICA OU TEORIA DAS REMINISCÊNCIAS

11.4 TEORIA DAS IDÉIAS

11.5 O HERMETISMO PITAGÓRICO EM PLATÃO

11.6 A REPÚBLICA

11.6.1 DAS QUATRO VIRTUDES DA POPULAÇÃO DA REPÚBLICA

11.6.2. CONTINUIDADE DA REPÚBLICA NO TEMPO

11.7 ESTÉTICA

11.8 CONCLUSÃO

12. ARISTÓTELES

12.1 O VERDADEIRO TAMANHO DO LEGADO DE ARISTÓTELES; DISTORÇÕES HISTÓRICAS DE HEGEL

12.2 METAFÍSICA ARISTOTÉLICA

12.3 FÍSICA ARISTOTÉLICA

12.4 ÉTICA ARISTOTÉLICA

12.5 LÓGICA ARISTOTÉLICA

13. A RESSACA: FILOSOFIA PÓS-PLATÔNICA E PÓS-ARISTOTÉLICA

13.1 ESTOICISMO, EPICURISMO, CETICISMO & OUTRAS ESCOLAS PERIFÉRICAS DO PENSAMENTO: UMA VISÃO COMPARATIVA.

13.2 IDADE DAS TREVAS: DO NEOPLATONISMO À ESCOLÁSTICA OU O MILÊNIO PERDIDO

14. REALISMO X IDEALISMO: POR TRÁS DAS CORTINAS, NACIONALISMO.

15. BACON

16. DESCARTES

17. SPINOZA

18. O CÉTICO EMPIRISMO OU EMPÍRICO CETICISMO DOS BRITÂNICOS

19. LEIBNIZ

20. JUÍZO HEGELIANO ACERCA DA DEFICIENTE METAFÍSICA MODERNA

21. O MATERIALISMO FRANCÊS SUI GENERIS

22. KANT: A NÊMESE DO ESPÍRITO DE HEGEL

s/nº QUIXOTADAS, DITIRAMBOS & AFORISMOS SÁBIOS

s/nº MAIS HEGEL (& ASSOCIADOS)? OUTROS POSTS DO SECLUSÃO.

INTRODUÇÃO

O ensaio a seguir possui um caráter fragmentário, aforismático. Na realidade batizo-o de ensaio por falta de palavra melhor. Na sua maior extensão, são apenas citações do próprio Hegel. Mas condensam e apanham todas as observações que teci a seu respeito em outras postagens do blog, referenciadas ao final. É, primeiro, um modo de encontrar todos os meus juízos mais importantes proferidos sobre a filosofia hegeliana num único post; e uma maneira mais resumida e direta ao ponto de conhecer as próprias afirmações de Hegel. Para se ter idéia, todo o material aqui colhido se concentra em obra póstuma sua considerada periférica, e no entanto bem abrangente e reveladora: a História da Filosofia são cursos universitários ministrados por Hegel. Através deles podemos conhecer a idéia central (ou ‘a idéia que Hegel fazia da idéia central’) de praticamente todos os filósofos relevantes até sua própria época (e também a filosofia de muitas figuras irrelevantes!) – talvez exceto por Blaise Pascal, que, embora não tivesse sua existência completamente ignorada pelo “Idealista Alemão” ou “Pai da Dialética Moderna”, é citado apenas de passagem. Mas o mais importante é: através dos erros e acertos fulcrais de Hegel, podemos entender o que é o Historicismo ou Teleologia do sistema do pensamento hegeliano. Mesmo prejudicados por não adentrarmos em obras como a Filosofia do Direito, a Fenomenologia do Espírito, o Curso de Estética, a Filosofia da História (cuja proposta é simetricamente oposta à deste curso – entender o devir dos acontecimentos humanos COM BASE na filosofia hegeliana, e não explicar a sucessão dos pensamentos cronologicamente) e a Enciclopédia, espero trazer resultados conclusivos ou, pelo menos, nada desprezíveis sobre o valor do Hegelianismo, ou dos Hegelianismos, sem sobrecarregar e estafar o leitor. Uma das principais razões para isso é que o linguajar de um curso oral depois transcrito em papel é muito mais leve e didático do que o tipo de exposição bem característico de Hegel nas suas obras publicadas em vida. O homem é um só: não importa quantos livros tenha escrito, se o assunto é geral o suficiente, poderemos perscrutar seu interior e suas intenções – seu mérito, enfim.

Muito se fala de Georg Wilhelm Friedrich Hegel; mas o que podemos jogar no lixo da História e o que ainda devemos levar em conta? Em que pese haver 50 mil iniciativas do gênero, faço minha própria tentativa neste espaço. Devo dizer que não gosto de carranca: recorro ao humor para quebrar o gelo e satirizar os absurdos com que eventualmente depararemos. Ou à poesia. Porém, aquele que disser que não encontra aqui filosofia, estará distorcendo descaradamente o conteúdo do “ensaio”. Depois de explorar o cerne do pensamento de Hume e Kant de forma relativamente breve, nada mais justo que continuar a série HISTÓRIA DAS IDÉIAS, que agora sim se tornou série, com “O Homem da História”, o homem para quem a História representa ou representou pela primeira vez um papel todo especial. Não deixará de ser uma História das Idéias sobre a História em si, mas com uma limitação evidente: pára no início do século XIX. É por isso que meus comentários em azul são tão necessários, mesmo que o leitor pudesse compreender cada palavra de Hegel: dou uma perspectiva adicional, contraposta o mais das vezes, elimino certos pontos cegos que uma alma medíocre de hoje em dia pode enxergar muito bem no gênio hegeliano, existência que passou há quase 200 anos. Hegel é o continuador natural de Kant, e como todo continuador resenha seus antecessores: como Kant parte de Hume, Hegel parte de Kant e tem muito a dizer a respeito destas duas figuras, por exemplo. Hume, no entanto, que já ficava ofuscado diante de Kant, é apenas uma estrelinha num amplo firmamento iluminado nas “anotações do sistema fonador hegeliano”. Não deixa de ser, portanto, um complemento do primeiro capítulo da HISTÓRIA DAS IDÉIAS, embora o objetivo inicial seja descolado da Crítica kantiana. Desta vez a massa informacional será muito maior – páginas, páginas e páginas no seu ecrã! –, por isso prepare o corpo e a mente!

Para facilitar, minha exposição obedeceu, também, como o próprio livro que aqui usamos como base, o critério cronológico. Dividi os tópicos pelos filósofos ou fases ou escolas que Hegel comenta. Observações gerais sobre como Hegel pensava poderão, portanto, estar espalhadas por qualquer dos 22 ‘capítulos’. Achando necessário, separei algum tema que se tornava muito recorrente e insistente num tópico dedicado (os melhores exemplos são quando entramos em Platão e Aristóteles, os filósofos mais importantes da História até a época de Hegel – seus capítulos possuem várias subseções). Por fim, minhas tiradas mais sarcásticas e/ou impossíveis de contextualizar estão posicionadas num epílogo ou anexo próprios.

É importante ainda que saibam que a obra que li está em espanhol, mas para aumentar a acessibilidade desse material traduzi todos os trechos de Hegel que usei. Junto, poderão ser despejadas, na bacia, além do bebê, outras águas: citações dos filósofos que Hegel comenta. Claro que a cada novo filósofo, todos os filósofos precedentes reaparecem, de alguma forma, corroborando Hegel (embora ele exagere demais a esse respeito), e tornando tudo mais labiríntico e nuançado. Saibam de uma vez: Sócrates, Platão e Aristóteles são presença obrigatória em qualquer novo pensador que apresente seu legado ao mundo. No fim, creio que nunca me arrependerei de ter começado a HISTÓRIA DAS IDÉIAS “pelo meio”, isto é, com autores modernos, porque sem os antigos eles, por assim dizer, não existem: assim, introduzo desde o 1º capítulo da série o pensamento antigo, mesmo sem dedicar, por enquanto, um post específico a ele.

1. PRELIMINARES

CRÍTICA DOS FILOSOFASTROS¹ CONTEMPORÂNEOS DE HEGEL: “[Hegel corrigiu o erro dos historiadores de filosofia até sua época, que cometiam] o absurdo intento de destacar Anaximandro de tal forma que chegou-se mesmo a colocá-lo depois de Heráclito no história do pensamento, como se se tratasse de autor mais maduro.” É muito comum que pensemos na história como progresso. E é mais comum ainda que se escreva uma história levando-se em conta, às vezes inconscientemente, apenas uma linha reta temporal, tendente a valorizar mais só aquilo que vem a seguir em detrimento do que já é passado. Ora, Heráclito aparece primeiro; mas Hegel ajudou nossa historiografia a revisar a importância que concedíamos a ele: hoje ele é tido como um dos pré-socráticos (início da filosofia ocidental) mais importantes, superando as contribuições de Anaximandro. Os alunos de Hegel (os responsáveis por editar o livro da História da Filosofia) destacam essa faceta pioneira do mestre: ignorou a linha temporal em alguns casos em que isso melhorava o didatismo e a qualidade de seu curso. “Assim, quando Hegel não considera Heráclito entre os primeiros jônios, senão que o coloca depois dos pitagóricos e eleatas, não se encontra na cúspide da erudição de nossos dias, [ironia para se referir aos filisteus daquele tempo, filosofastros, filósofos apenas no nome] que decidiu sozinha que lugar corresponde a Heráclito baseando-se tão-somente em superficialidades.” Estas aspas são de Michelet, um dos editores da obra.

¹ “substantivo masculino Indivíduo, que se supõe filósofo, e que discorre sem acerto.”

Porém, também é verdade que, apesar de reconhecer a primazia de Heráclito na “hierarquia atemporal dos filósofos”, Hegel comete o erro de superestimar além do que seria aceitável outro filósofo pré-socrático, nomeadamente Anaxágoras, considerado o primeiro que filosofou séria e abstratamente (por conceitos determinados). Ver capítulo 4.

HEGEL, O PROLIXO: “Entre outras causas, esta História da Filosofia de Hegel conservou o caráter de conferência pela falta de tempo que tinha o autor [enquanto professor para ministrar seu curso ao longo de um semestre (na realidade entre 3 e 4 meses)]. Hegel teve de ser muito mais lacônico ao final do curso que em seu princípio. [Engraçado, eu não tive essa impressão: minhas anotações são maiores sobretudo para o terceiro volume da História, que começa, é verdade, no neoplatonismo, o que é quase um contra-senso, já que significa que ao iniciar o capítulo final da trilogia ele ainda está no próprio mundo antigo, e percorre a Idade Média e a Idade Moderna ‘na velocidade do relâmpago’ – só que o que permite que sua obra não seja tão assimétrica é que a filosofia antiga é muito mais rica que a posterior, e ainda sentimos que Hegel ‘enrola’ muito ao se arrastar sobre pensamentos nefandos, banais, irrelevantes, de joões-ninguém europeus; além disso, é muito mais raro que conheçamos a vida e a obra de Fichte¹ ou Böhme¹ do que os ensinamentos de Platão e Aristóteles, por isso a tendência é registrarmos mais informações dos sistemas mais novos, em efeito. Quem sou eu para contradizer Michelet, que estava no curso ministrado por Hegel! Mas para o leitor contemporâneo quase que só os 2 primeiros volumes têm significância; e, no 3º, pontos focais: Descartes, Spinoza, Leibniz, os intelectuais franceses e Kant.] Seja como for, a partir de Aristóteles, cuja exposição já se dava na 2ª metade do curso, as aulas já não duravam tanto tempo.” No livro, a filosofia aristotélica está no 2º volume – a verdade é, também, que Hegel não iniciava diretamente com Tales (o “primeiro filósofo”), mas dava uma Introdução Geral enorme, falando da História e da Filosofia em todos os tempos, antes de iniciar a jornada mais ou menos cronológica que se exige de uma abordagem histórica. Só esse expediente já significa que uns bons 20% ou 25% do curso já teriam se passado após sua introdução. Se ainda posso opinar mais, Fichte e Schelling, como veremos ao final, são, para mim, completamente inócuos e não faz sentido arrematar o curso com eles, desperdiçando 10 minutos sequer, considerando que antes veio o próprio Immanuel Kant, e que toda a filosofia hegeliana é – veremos – um ensaio de resposta (ou anseio de resposta, seria melhor) ou pura e simples contraposição a Kant!

¹ Porém, Fichte e Böhme não possuem relevância a ponto de estarem neste ensaio-resumo. Na continuidade do parágrafo faço o mesmo juízo de Schelling.

2. COMEÇA O CURSO – AS RELAÇÕES DA FILOSOFIA COM A HISTÓRIA, COM PRIMAZIA DA SEGUNDA

2.1 INDIVÍDUOS X IDÉIAS: UM FALSO DEBATE

“longe disso, aqui as criações são tanto melhores quanto menos imputáveis forem, por seus méritos ou sua responsabilidade, ao indivíduo, [Hegel está falando da proeminência do estudo de vidas isoladas na História e, portanto, na História da Filosofia, método que ele considera equivocado] quanto mais corresponderem ao pensamento livre, ao caráter geral do homem como tal homem, quanto mais se vê através das individualidades e contingências biográficas, por trás do sujeito criador, o próprio pensamento, que não é patrimônio exclusivo de ninguém.” Toda esta lição de Hegel, não obstante, é supérflua: pouco importa. O método socrático, por exemplo, é universal, mas foi um homem chamado Sócrates que o pariu. É claro que falar de Sócrates é atingir todos os tempos, e só descrevendo Sócrates é que entendemos o método socrático. Alexandre, o Grande, para citar um não-filósofo, tem tanto de pessoal quanto tinha Sócrates: era um homem, um tipo de homem, uma síntese especial de vários indivíduos, historicamente marcada – e por isso atemporal.

2.2 SOBRE A BUSCA PELA VERDADE AO LONGO DO TEMPO: A ELABORAÇÃO DE SISTEMAS FILOSÓFICOS MUTUAMENTE CONTRADITÓRIOS.

“Com efeito, ante o espetáculo de tão variegadas opiniões, de tão numerosos e diversos sistemas filosóficos, alguém sente-se arrastado pela confusão, sem encontrar um ponto de apoio firme em que se fixar. Vemos como, em torno dos grandes temas que o homem se vê solicitado a explorar filosoficamente, mesmo os maiores espíritos [homens!] erram e se equivocam,¹ invariavelmente refutados e contraditos por outros. ‘E se isso ocorre a tão insignes espíritos, como posso, ego homuncio [eu, homenzinho], ter a pretensão de decidir tais problemas?’

[¹ Hegel diz “yerran”; errar em português também tem duplo sentido: cometer um erro e andar por todo canto, explorar muitos lugares, às vezes por desorientação, às vezes por não guardar um propósito claro.]

Esta conclusão, que se extrai da grande diversidade dos sistemas filosóficos, é considerada como daninha, mas representa, ao mesmo tempo, uma vantagem subjetiva.” “…Todas as filosofias asseguram que são verdadeiras, todas indicam signos e critérios distintos por meio dos quais se há de reconhecer a verdade; por isso, o pensamento sóbrio e sereno tem que sentir, forçosamente, grandes escrúpulos antes de se decidir por uma [filosofia].

Este é o interesse maior a que deve servir a história da filosofia.”

Uma premissa correta, porém impossível de ser praticada – sem severos danos – durante a era sistemática. Heidegger teria algo a dizer sobre isso… Mas a elaboração desse meu comentário fica para um outro HISTÓRIA DAS IDÉIAS… Reparem, por ora, uma coisa que será vista com freqüência: Hegel expõe todo um argumento impecável para, a partir dele, emitir um juízo completamente deformado pela sua forma tão “presa ao século em que vivia” de enxergar todas as coisas… Isso é o que eu chamo de passar a prova toda prestes a tirar um 10 e no momento decisivo pôr tudo a perder e zerar a nota!

2.3 PRIMEIROS ELEMENTOS DO HEGELIANISMO

Seu erro consistiu em imaginar-se mais qualificado que Platão. Hierarquia entre IDÉIA-CONCEITO: “O produto do pensamento é o pensado em geral; mas o pensamento é ainda algo formal, o conceito é já o pensamento mais determinado e a idéia, finalmente, o pensamento em sua totalidade e determinado como o ser em-e-para-si.¹ Por conseguinte, a idéia é o verdadeiro e somente o verdadeiro; a natureza da idéia consiste, essencialmente, em desenvolver-se e em chegar a compreender-se somente por obra da evolução, em chegar a ser o que é.”

¹ Não se assuste com as nomenclaturas. Não é preciso desvendá-las AGORA. Continue lendo com confiança. Vamos fazer uma imersão aos poucos neste caldeirão, menos dolorosa, acostumando cada célula de nossa pele à temperatura…

A IDÉIA (de PLATÃO, que é de onde Hegel tira sua “idéia de Idéia”) NÃO EXISTE – ERA UMA METÁFORA! CONSELHO SÉRIO: Eis porque não se deve levar a filosofia tão a sério! O alemão: sujeito sem senso de humor. Destarte: incompleto. O grego é mais rico e sinuoso do que se pode pensar por meros vocábulos: quando você menos imagina, Platão deu-lhe um laço.

Por enquanto, concentre-se em mentalizar esta hierarquia básica, para Hegel, do menor para o maior:

1. pensamento

2. conceito (já é filosofia, propriamente)

3. Idéia (em maiúscula), a Verdade obtenível através da filosofia levada a cabo corretamente: primeiro por pensamentos, depois por conceitos, e finalmente pela forma correta de elaborar os conceitos num sistema coerente. Para Hegel só há uma filosofia correta, uma verdade. E é sobre esse dilema que ele – e nós, em conseqüência – irá se debater por todo o livro.

4. a Idéia consciente de si mesma – para Hegel, Platão chegou apenas à terceira etapa, não realizando todo o potencial da Filosofia. A Idéia, o pensamento supremo, que se entende enquanto ser e essência (um homem no mundo, que filosofa sobre coisas eternas) é o “fim da filosofia”, em todos os sentidos. A chave de Hegel para explicar a ocorrência da Idéia consciente de si mesma no mundo é a própria História.

PONTO NEVRÁLGICO DO HEGELIANISMO (salve este trecho como você salva seu editor de texto enquanto redige sua monografia; salve este trecho como você salva seu progresso no seu RPG favorito, porque você fatalmente terá de voltar a estas linhas varias vezes):

“a possibilidade [ou] (…) ser-em-si”: o latim ESSENTIA

“a realidade (entelequia)¹ [ou] ser-para-si”: o latim IN CONCRETO

¹ Só poderemos exaurir nossa explicação de enteléquia (em português) quando estivermos estudando Aristóteles via Hegel (12.2).

Todo ser-para-si é ser-em-si (toda aparência e ato está contido na essência e nas condições de possibilidade),

porém nem todo ser-em-si é ser-para-si (nem toda possibilidade torna-se realidade).

Repetindo com um pouco de economia de palavras:

Toda aparência¹ ou enteléquia (ato concreto) é essência (realização de potência).

Mas a essência não está em todas as fases (faces) da aparência.

¹ O termo aparência é pego de empréstimo das filosofias sucedâneas de Schopenhauer, Nietzsche e do existencialismo e fenomenologia do século XX.

O real (Real) de Hegel não é real.

A razão (Razão) de Hegel é onipresente (o deus operando a máquina).

Todo acontecer é deus, mas deus é algo mais que a soma dos aconteceres.

Hegel é um teleólogo.

Teleologia: “substantivo feminino Ciência que se pauta no conceito de finalidade (causas finais) como essencial na sistematização das alterações da realidade, existindo uma causa fundamental que rege, através de metas, propósitos e objetivos, a humanidade, a natureza, seus seres e fenômenos.”

O mundo se revela com uma epifania. A própria realidade (fenômeno)¹ é epifenômeno.² O mundo é mero sintoma do Espírito.

¹ O mesmo que aparência.

² Trocadilho de epifenômeno com fenômeno, citado anteriormente na frase. Epifenômeno é aquilo que pode ser causado por algo, mas nunca interfere nesse algo, ou seja, um efeito secundário que não produz nova causa. Sinônimo de sintoma usado na próxima frase. Em Hegel, é Deus, ou o Espírito realizando-se na História (no tempo), através do próprio homem, o responsável pela união do ser-em-si e do ser-para-si, o objetivo final de toda Filosofia.

Desdobrar-se, realizar o que já é em essência não são processos estranhos ao homem mesmo atingindo-se algo de diferente ou pioneiro em sua vida: o filósofo tem de ser homem; nem todo homem é filósofo; todo filósofo nasce homem e devém filósofo eventualmente. Agora ele é filósofo e homem. Ele se desdobrou, duplicou, tornou-se dois, mesmo sendo um. Sem essa pseudo-duplicação (ou duplicação abstrata), não há a reunião do ser-em-si e do ser-para-si.

“Tudo o que acontece no céu e na terra – o que acontece eternamente –, a vida de Deus e tudo o que sucede no tempo, tende somente a um fim: que o espírito se conheça a si mesmo, que se faça objeto para si mesmo, que se encontre, devenha para si mesmo, que conflua consigo mesmo; começa sendo duplicação, alienação, mas só para se encontrar a si mesmo, para poder retornar a si.” Muito bonito, porém sem fundamento. Ou melhor dizendo, irreal. Por isso, ao mesmo tempo que o estudo de Hegel é epistemologia e Primeira filosofia (metafísica), é também, e sem contradição, teleologia (ciência dos fins) e teologia (ciência do conhecimento humano de deus). Ele representa uma continuidade da filosofia cristã (escolástica), e não uma ruptura completa com ela, como ele mesmo pensava. Porém, sua dialética influencia a filosofia póstuma e ainda pensamos usando suas categorias lógicas.

“Es un prejuicio corriente creer que la ciencia filosófica sólo maneja abstracciones, vacuas generalidades; que, por el contrario, la intuición, la conciencia empírica de nosotros mismos, el sentimiento de nosotros mismos y el sentimiento de la vida, es lo concreto de suyo, el reino determinado de suyo.”

O ÚLTIMO CONTRA-ATAQUE DO OBJETIVISMO: “É um preconceito corrente crer que a ciência filosófica só maneja abstrações, vácuas generalidades; (ou então,) pelo contrário, que a intuição, a consciência empírica de nós mesmos, o sentimento de nós mesmos e o sentimento da vida, são seu (terreno) concreto, seu reino determinado.”

Eis um exemplo da péssima escrita de Hegel (aqui podemos responsabilizar, também, seus alunos, na transcrição de sua oratória, que eram hegelianos, afinal). Para evidenciá-lo, mantive o original (ou melhor, a tradução alemão-espanhol) em cinza, expondo minha tradução logo abaixo. Havia a possibilidade de traduzir “concreto por si só”, “reino determinado por si só”, mas isso aumenta o nonsense do parágrafo e não é fundamental neste caso. Preferi manter a sintaxe mais óbvia ao leitor: remetendo o objeto ao sujeito inicial da frase. Se se quer que o pronome da 3ª pessoa do singular “seu” se refira a algo, tem de ser, pelo contexto, a “a ciência filosófica”. A 2ª metade da frase, após o sinal de ponto-e-vírgula, consiste naturalmente na enumeração de elementos do método hume-kantiano (empirismo, ceticismo, criticismo subjetivistas), tudo aquilo a que Hegel faz ferrenha oposição. O conhecimento mais elevado, para ele, só pode ser mediado pelo Espírito. Como Kant era o maior nome da filosofia na juventude de Hegel, era sobre ele que se deveria centrar o ataque. Expressões como “abstrações, vácuas generalidades” já resumem numa carapuça todo o objetivismo incompetente anterior a Hegel (e Kant). Quanto ao postulado da apercepção imediata de Kant,¹ o “real adversário”, nas linhas seguintes Hegel proporá sua síntese, “sua versão” (antípoda) do a priori sintético daquele filósofo.

¹ Para entender o sentido de apercepção, temos que chegar a Leibniz, tópico 19. A priori ficará claro em vários trechos referentes ainda à filosofia antiga. Mas podemos adiantar: o a priori de Kant era a consciência e aquilo de que ela era formada (tempo, espaço e noção de causalidade); o a priori de Hegel é o Espírito do Mundo, também chamado de Absoluto.

“‘A matéria tem de ser 1 de 2 coisas: ou um todo contínuo ou formada por pontos’, diz-se; e, sem embargo, vemos como obedece aos 2 critérios.” O inteligente expresso de forma que hoje nos soa burra: o ponto é uma convenção abstrata; porém se se dissera ‘a matéria enquanto onda (contínua) ou a matéria enquanto partícula (reduzida a elementos distinguíveis)’, como na física do séc. XX, aí Hegel teria acertado em cheio. Visionário, portanto.

Aqui Hegel faz o Kantismo (quando diz “o entendimento”, inferior ao “saber”, ao ‘verdadeiro’ pensar) consistir num jogo de eleição estereotipado entre sim/não, ‘isto ou aquilo’, generaliza a Crítica da razão pura como uma mera retórica ou erudição binária, escrava do PRINCÍPIO DA NÃO-CONTRADIÇÃO (Aristóteles), enquanto arroga ao seu sistema ‘Espiritual’ a supremacia por comportar dentro de si o sim e o não em simultâneo (a síntese totalizante).

“Necessariamente tem que se produzir o destino destas determinações, o qual consiste, precisamente, em que se enlacem e somem todas elas, descendendo assim ao nível de simples momentos. A modalidade em que cada momento se estabelecia como algo próprio e independente se vê, por sua vez, suspensa (no sentido físico e topográfico e no sentido legal do adjetivo); após a expansão vem a contração – a unidade de que todos aqueles momentos partiram. E este terceiro termo só pode ser, por sua vez, o começo de uma nova evolução. Poder-se-ia pensar que este processo se desenvolve ao infinito; mas não é assim; pois também ele tem uma meta absoluta, que mais tarde saberemos qual é; têm que se produzir, contudo, muitas viragens antes de que o espírito cobre sua liberdade, ao adquirir a consciência de si mesmo.” Mero messianismo travestido.

“A grande premissa, a de que também no mundo seguiram as coisas um curso racional, o que dá verdadeiro interesse à história da filosofia, não é outra coisa senão a fé na Providência, só que numa outra forma.” Ao menos o reconhece (que não passa de um messias imanente!).

Um dos maiores contra-argumentos a Hegel é por que o Espírito demorou tanto para “se revelar” (em sua filosofia, é óbvio), ou então ‘por que não demorou mais’, e por que houve tantos solavancos e retrocessos nessa ‘jornada’. Isso poderia ser dito por qualquer contemporâneo de Hegel. Mas o que mais nos autoriza a dizer que ele errou é que vivemos séculos depois dele, e vimos que a História não persegue um fim objetivo.

“hoje já não pode haver platônicos, aristotélicos, estóicos ou epicuristas; querer ressuscitar estas filosofias equivaleria a fazer regredir a uma etapa anterior o espírito mais desenvolvido, mais imerso em si.” Não devia haver. Mas não poder é um pouco de autoritarismo, você não acha?!

2.4 DELIMITAÇÃO DO MÉTODO DO ESTUDO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA; A PAIXÃO HEGELIANA PELA RELIGIÃO E PELA ESCATOLOGIA.¹

¹ O mesmo que teleologia, porém num contexto religioso. No Cristianismo, é um estudo delimitado ao livro do Apocalipse ou de João (não confundir com o outro apóstolo João). Aquele que tiver familiaridade com esta literatura notará muitas convergências na parte dos símbolos e números com a doutrina pitagórica, que iremos investigar junto com Hegel (6.).

“Esta conexão, [filosofia e história] essencial, apresenta 2 lados. O 1º é o propriamente histórico; o 2º, o que se refere (…) às relações entre a filosofia e a religião, etc.; [improcedente: num estudo de história da filosofia, investigar relações da filosofia com a religião do seu tempo não tem primazia, e estas relações poderiam ser apuradas residualmente no 1º lado, o puramente histórico] o que nos ajudará, ao mesmo tempo, a determinar com maior precisão o que é a filosofia.”

A velha teoria civilização-cultura: sempre que a primeira se funda, a segunda ainda mal começou a se consolidar. Quando a última está em seu auge, a civilização já está em decadência. E é só em períodos de efervescência cultural e, portanto, ruína civilizacional, que um povo filosofa. Sócrates-Platão-Aristóteles e o mundo heleno em desagregação; São Tomás e o mundo pós-Império Romano do Ocidente sem esteio, ao mesmo tempo em que o Estado-moderno está na pré-História; Schopenhauer, Nietzsche e a desagregação da civilização ocidental, ou pelo menos da Europa como protagonista; a Escola Crítica e a falência do Socialismo Real; os franceses dos loucos anos 1960 e avante em plena inércia pós-modernista… Curiosamente, Hegel não parece participar de um desses momentos, mas está integrado na Prússia fortalecendo-se nacionalmente. Não há cultura, há apenas filisteus (Hegel admite-o). Sempre que é necessário, nessa época, citar a cosmovisão de um grande homem, recorriam os alemães a Goethe, que foi da geração anterior.

Curiosamente, já antecipa a principal crítica anti-hegeliana de Feuerbach: “Ainda que na verdadeira religião se tenha revelado e se revele o pensamento infinito, o espírito absoluto, ela é também a taça que verte no coração, na consciência representativa e na inteligência do finito. A religião não só se dirige a toda modalidade de cultura —‘o Evangelho se predica aos pobres’— como também deve estar dirigida expressamente ao coração e ao ânimo, penetrar na esfera da subjetividade e, com isso, no campo das representações finitas.”

FILOPÊNDULO: Na época de Hegel o ateísmo estava “datado”. Dataria de novo logo depois o teísmo. Essas condições espirituais vão e voltam nos povos como modas.

“sabemos que as últimas palavras de Sócrates foram para suplicar a seus amigos que sacrificassem um galo a Esculápio,¹ desejo que combinava mal, decerto, com os pensamentos sustentados por Sócrates sobre a essência de Deus e, principalmente, sobre a ética. Platão predica apaixonadamente contra os poetas e seus deuses.

¹ Divindade da medicina.

Hegel foi extremamente ingênuo nessa colocação, pois este Sócrates que conhecemos pela pena de Platão, o Sócrates “do galo de Esculápio”, é o próprio Platão, isto é, não é o Sócrates histórico, mas um personagem que serve ao Platonismo, e portanto sai de sua boca mais o que convém ao pensamento desenvolvido pelo próprio discípulo que ao ‘biografado’ em si. Sabemos, ademais, e Hegel não o nega, que Sócrates não foi condenado à morte por impiedade aos deuses, ou não exatamente por questões religiosas; se sua acusação não envolvesse corromper a juventude, não haveria como a democracia de Atenas condenar este cidadão.

“Não atua de mediador entre Ormuz e Ahriman, à maneira de um pacificador, deixando subsistentes ambas as forças; não participa do bem e do mal, como um lamentável híbrido, senão que se coloca resolutamente do lado de Ormuz, e peleja com ele contra o mal. Ahriman é chamado, às vezes o filho primogênito da luz, mas só Ormuz nela permaneceu. Ao ser criado o mundo visível, Ormuz se encarregou de estender sobre a terra, em seu incompreensível reino luminoso, a firme abóbada celeste, circundada, ainda, na parte de cima, pela primeira luz primigênia. No centro da terra está a montanha Albordi, tão alta que alcança a luz primigênia. O reino luminoso de Ormuz campeia sem que nada o empane sobre a firme abóbada celeste e no alto da montanha Albordi; campeou também sobre a terra até chegar a sua terceira época. Uma vez chegada, Ahriman, cujo reino da noite se achava até agora escondido debaixo da terra, estende seus domínios ao mundo de Ormuz e reina conjuntamente com ele. O espaço que separa o céu da terra se divide ao meio entre a luz e a noite. Como Ormuz, até agora, só governava sobre um reino de espíritos da luz, Ahriman governava somente sobre um reino de espíritos tenebrosos; mas, então, ao estender seu reino, Ahriman opõe à criação luminosa da terra uma criação da terra tenebrosa. Contrapõem-se, desse modo, a partir deste instante, 2 mundos, um mundo puro e bom e outro impuro e mau, e esta contraposição se estende através de toda a natureza.

No alto do Albordi, Ormuz cria Mitra como mediador para a terra; a finalidade da criação do mundo físico não é outra senão a de voltar a seu ponto de partida, à essência, desviada de seu criador, fazê-la de novo boa e desterrar, no processo, para sempre, o mal.” Toda a sua filosofia jaz no Zend-Avesta, ó Hegel! Trata-se do livro sagrado da religião dos maniqueus.

“É certo que Platão é louvado com freqüência em virtude de seus mitos, e diz-se que ele dá provas, neles, de um gênio superior ao da generalidade dos filósofos. Entende-se, ao dizer-se isso, que os mitos de Platão estão por sobre a maneira abstrata de se expressar; e não resta dúvida de que este pensador se expressa com grande beleza.” No geral, entretanto, Hegel não compreende bem Platão.

“Assim, por exemplo, pode-se dizer que a eternidade é um círculo, uma serpente que morde a própria cauda; isto não passa de uma imagem, e o espírito não necessita se valer de semelhantes símbolos.” Pelo contrário: é muito diferente afirmar que o universo é infinito e eterno, simplesmente, a compará-lo à cobra que se digere a si mesma, a Ouroboros: significa que há um fim e uma genealogia determinados, que podem, no entanto, ser qualquer ponto do círculo, e que o caminho do círculo não deixa por isso de ser infinito. Isso traz conseqüências extremamente importantes para a consideração do conceito de causa e efeito na filosofia. Atende ao requisito fundamental de todo filosofar numa só imagem, também: o Um no múltiplo e o múltiplo no Um. Ao contrário do Espírito, a Vontade¹ se alimenta de si mesma, ferindo-se mortalmente, condição sine qua non de sua própria perpetuidade canibal. O Espírito não tem carne, nada sofre ao se desenrolar, entrar em sínteses e voltar a si mesmo; é morto, não é a ‘vida viva’ (a expressão é do próprio Hegel) –, ao contrário de Ouroboros, que sente na carne cada etapa da eterna criação/destruição. Quem mata, morre, quem morre mata, e participam ambos da dança e do jogo inelutável. Todo lixo é luxo e todo luxo é lixo a seu devido tempo…

¹ Expressão para se referir a um “em-si” em Schopenhauer e Nietzsche. Porém, observar: aqui o em-si foi caracterizado de forma tão dinâmica que não passa de uma simplificação grosseira falar nesses termos; falo assim apenas para que se vislumbre imediatamente a amplitude deste conceito, que merece ser estudado à parte. Além do mais, a Vontade schopenhaueriana e a Vontade nietzschiana não são concordes.

“Da mesma forma que os franco-maçons manejam símbolos considerados como uma profunda sabedoria – profunda à guisa de um poço do qual não se enxerga o fundo –, o homem se inclina facilmente a considerar profundo o oculto, como se por debaixo dele houvesse algo verdadeiramente profundo.” Ao chato, o abismo não parece profundo. Não gosto dessa estreiteza hegeliana em desconsiderar o ocultismo a priori, i.e., recusando-se a investigar qualquer coisa que extrapole seus próprios critérios racionais. Não estou defendendo a maçonaria, mas há muito mais no irracionalismo do que apenas seitas “para-cristãs”, por assim dizer.

2.5 DELIMITAÇÃO DO QUE É FILOSOFIA

“O verdadeiro ponto de arranque da filosofia deve ser buscado ali onde o absoluto já não existe como representação e onde o pensamento livre não pensa simplesmente o absoluto, mas capta sua idéia; isto é, ali onde o pensamento capta como pensamento o ser (que pode ser também o pensamento mesmo), conhecido por ele como a essência das coisas, como a totalidade absoluta e a essência imanente de tudo, por mais que não seja, no fim das contas, mais que um ser exterior.” “Este critério geral, o do pensamento que se pensa a si mesmo, é uma determinabilidade abstrata; é o começo da filosofia, o qual é, por sua vez, um algo histórico, a forma concreta de um povo, cujo princípio [axioma, i.e., não no sentido de ‘começo’] cifra-se no que acabamos de dizer.”

Se não fôramos capazes de dizer por nós próprios que só os gregos foram filósofos, esta afirmação (que só os gregos foram filósofos!) seria verdadeira. Como podemos enunciá-lo sem problemas, também deve ser possível a nós o filosofar. Ou seja, é uma afirmação falsa. E quando Hegel diz que a filosofia começou na Grécia Antiga, essa sua afirmação é correta de um ponto de vista evolucionista como é aquele que usaremos para investigar a história da Filosofia aqui, mas não passa de arbitrariedade, pois o fundamento para afirmá-lo é místico. Somos e não somos herdeiros dos gregos, ao mesmo tempo, pois toda cultura tem autonomia de pensamento.

“O homem que vive sob o medo e o que domina pelo medo os outros homens ocupam, ambos, a mesma fase; a diferença não é outra senão a maior energia da vontade, a qual pode tender a sacrificar todo o finito a um fim especial.” “da passividade da vontade, como escravidão, se passa na prática à energia da vontade, mas sem que, tampouco, esta seja outra coisa a não ser arbitrariedade. Também na religião nos encontramos com o império absoluto dos sentidos em forma de culto religioso e, como reação contra isto, dá-se, ademais, entre os orientais, a evasão à mais vácua das abstrações como infinito, a sublimidade da renúncia a tudo, principalmente entre os hindus, que por meio do tormento remontam à abstração mais íntima; há hindus que passam 10 anos seguidos olhando fixamente a ponta do próprio nariz, alimentados pelos circunstantes, sem nenhum outro conteúdo espiritual que o da abstração consciente; indivíduos cujo conteúdo é, portanto totalmente finito. Não é este, destarte, o terreno em que pode brotar a liberdade.” Curioso como o abaixo-de-zero de Hegel (o puro arbítrio, uma espécie de estado sub-humano) é o fim-final (o mais glorioso, a meta suprema) para Schopenhauer, a liberdade fenomênica pura perante uma agora-tida-como-tirânica Vontade! Sem me estender muito, me explico: Schopenhauer crê que a vida é dor e sofrimento incessantes. Não há fuga do fenômeno, e quem rege o fenômeno é a Vontade, um substrato sem aparência que excede o controle ou a vontade humana (ironicamente, dada a nomenclatura). Mas a parte positiva de sua filosofia é uma espécie de budismo adaptado em que a meditação, o misticismo, até o êxtase do auto-suplício, são benéficos ao homem – apesar de não alterarem o único fixo e indelével da condição humana (a dor, o sofrimento e o despropósito), são a fuga em seu estado máximo, uma fuga imanente à pura aparência, uma espécie de sonífero para a Vontade, que faz parte do inconsciente humano, do impulso vital, dos instintos. Ao negar, com a ajuda da consciência, a si mesmos, ao se auto-negar, o homem atinge o único estado digno, para Schopenhauer. Não é em vão que me estendo um pouco a respeito de Arthur Schopenhauer, que viveu na geração seguinte a Hegel: ele será provavelmente o tema do HISTÓRIA DAS IDÉIAS 3.

“É certo que o espírito nasce no Oriente, mas de tal modo que o sujeito, aqui, não existe ainda como pessoa, senão no substancial objetivo, que em parte se representa de um modo supra-sensível e em parte também de um modo mais ligado ao material, como algo negativo e que tende a desaparecer.” A típica arrogância ocidental. Porém, se o Espírito deverá retornar a si mesmo…

“Antes, se exagerava a importância da sabedoria indiana, muito embora se ignorasse o que havia por detrás disso; agora sim a compreendemos, e temos razões para afirmar que esta sabedoria não é, se nos atemos ao caráter geral, uma sabedoria filosófica.” A força do pêndulo não perdoa ninguém: como moda, o hinduísmo vai e volta na Europa…

“Na Grécia vemos florescer a liberdade real,¹ por mais que simultaneamente ainda prisioneira de uma determinada forma e com uma clara limitação, posto que na Grécia existiam escravos e os Estados gregos se achavam condicionados pela instituição da escravidão.” No superexigente molde hegeliano, a dialética do senhor-escravo nunca tem fim.

¹ Lembrete de que, em Hegel, o ideal (ou essencial) é maior do que o real, que não passa do momento concreto.

3. PANORAMA GERAL DA FILOSOFIA GREGA

“No que se refere ao estado histórico externo da Grécia nesta época, diremos que os começos da filosofia grega recaem no século VI antes do nascimento de Cristo, no tempo de Ciro, na época do ocaso dos estados jônios livres da Ásia Menor. No momento em que desaparece esse formoso mundo, que havia logrado conquistar por si mesmo um elevado nível de cultura, surge a filosofia. Creso¹ e os lídios foram os primeiros que puseram em perigo a liberdade dos jônios; mas foi mais tarde a dominação persa aquela que a destruiu totalmente, obrigando a maioria dos habitantes a abandonar aquelas terras e a fundar colônias, sobretudo na parte ocidental.

[¹ Wikipédia: “Creso foi o último rei da Lídia, da dinastia Mermnada, (560 a.C.–546 a.C.), filho e sucessor de Alíates que morreu em 560 a.C. Submeteu as principais cidades da Anatólia (salvo a cidade de Mileto)”.]

E, ao mesmo tempo em que se fundiam as cidades jônicas, a outra Grécia deixava de ser governada pelas dinastias dos antigos príncipes; haviam desaparecido os Pelópidas e as outras linhagens régias, estrangeiras em sua maioria. A Grécia havia estabelecido, em parte, múltiplos contatos com o exterior e, em parte, esforçava-se por encontrar um vínculo social dentro de si mesma; a vida patriarcal havia passado à história, e em muitos Estados sentia-se a necessidade de constituir-se livremente, subordinando-se a normas e instituições legais.” Aqui é-se forçado a perguntar: que conceito de patriarcado era esse dos alemães, para julgar que justamente quando o homem se distancia mais e mais do matriarcado e sedimenta o patriarcado ele estaria fugindo do que era patriarcal?!

“Uma das mais famosas sentenças dos Sete Sábios é a que se atribui a Sólon em uma conversa com Creso, que Heródoto (I, 30-33) relata, segundo seu estilo próprio, muito prolixamente e que podemos resumir assim: ‘Que ninguém pode se considerar feliz antes de morrer.’” Nem Deus escapa!

“Comparado com a filosofia hindu, o eudemonismo¹ é, cabalmente, o contrário daquela. No hinduísmo, o destino do homem é a liberação da alma em relação ao corporal, a abstração perfeita, a alma como algo que vive exclusivamente para si.” Cabe ainda o questionamento: no Ocidente pós-moderno, o que devemos buscar prioritariamente, sendo na prática impossível qualquer um dos dois de forma autêntica? A fuga ascética ou esse contentamento no sereno fenomênico?

¹ Eudemonismo é uma terminologia aristotélica. Para simplificação didática, podemos equiparar as correntes epicurista e estóica, na somatória, à busca de um eudemonismo, isto é, felicidade terrenal ou serenidade. Ver 12.4 e 13.1.

Mérito de Atenas para H.: ciência e belas-artes; a filosofia.

Mérito de Esparta para H.: subsumir¹ as individualidades na idéia de Estado.

¹ “[Filosofia] Conceber como compreendido dentro de um conjunto: subsumir um indivíduo numa espécie, uma espécie num gênero.”

“Assim como a individualidade que se separa do geral cai na impotência e perece, tampouco pode se manter de pé o unilateralmente geral, o costume da individualidade.” Obviamente, para H., “o filósofo do Estado”, a Prússia era a síntese de Esparta-Atenas.

OS SECRETOS DESÍGNIOS DO NADA: “Assim, p.ex., na idéia de que Deus, por sua sabedoria, governa o universo no que tange aos fins, o fim se estabelece para si numa essência representativa, [contradição em termos] sábia. [?] Mas o geral do fim consiste em que, sendo uma determinação fixa para si, que domina a existência, o fim seja o verdadeiro, a alma de uma coisa. O bom encontra seu conteúdo no fim mesmo, de tal modo que, atuando com este conteúdo e depois de se manifestar ao exterior, não brote nenhum outro conteúdo além do que já existia com anterioridade.” Primeiro, devo dar os parabéns ao autor pela péssima escrita. Nem minha exímia tradução pôde salvar este trecho! Segundo, o fim de Hegel era procurar seu conceito de fim perfeito, a Idéia – mas antecipo-lhes que isso ele não logrou… Hegel é um autor que ora ou outra manda essas pérolas monumentais que estão nos anais da filosofia… Não é sua incapacidade, leitor, que o impede de ver o que há no parágrafo, mas simplesmente o fato de que não há mesmo nada a não ser uma pura tempestade de palavras pomposas (defeito que H. se jacta em colocar nos outros, aliás!).

“O exemplo mais importante disto no-lo oferece a vida mesma. A vida é movida por impulsos, e estes impulsos são seus fins; mas, enquanto algo vivo simplesmente, não tem a menor noção destes fins, os quais são, simplesmente, determinações primárias e imediatas, fixas. O animal labora para satisfazer estes impulsos, isto é, para cumprir o fim; comporta-se ante as coisas exteriores mecanicamente, umas vezes, e outras vezes quimicamente. Mas a relação de sua atividade não é algo puramente mecânico ou químico; o produto é mais como o animal mesmo, o qual só se produz a si mesmo como fim de si mesmo em sua atividade enquanto que destrói e inverte aquelas relações mecânicas e químicas.” “A própria conservação é um produzir constante, na qual não nasce nada novo, mas apenas renasce, continuamente, o velho; é um constante retorno da atividade a si mesma, encaminhada a sua própria produção.” Trecho com saborzinho de Lavoisier. Marx saberia retirar de tudo isso conseqüências melhores… Por enquanto ainda não está planejado um capítulo da HISTÓRIA DAS IDÉIAS com Karl Marx como protagonista, mas diria que, a longo prazo, sua presença é mais do que certa na série…

* * *

A partir de agora segmentaremos a exposição por filósofos ou escolas de pensamento. Se parecer que passamos muito de soslaio sobre um autor ou um grupo de autores neste primeiro momento da Grécia, não tema: em Platão e Aristóteles muitos deles serão revisitados, e seu estudo adensado.

4. ANAXÁGORAS

Aristóteles (e, quase, por isso Hegel) considera o finalista Anaxágoras o primeiro filósofo “profissional”, comparado ao amadorismo anterior.

“Com ele vemos a filosofia instalada na verdadeira Grécia, que até então não havia tido filosofia alguma, e, concretamente, em Atenas” Perfeito para o seu sistema de “razão da História”… E o engraçado é que isto anula tudo o que Hegel diz sobre Parmênides ser o REAL iniciador da filosofia, , no tópico seguinte!… (Não entender este REAL como o real de Hegel, i.e., mera coisa secundária!!)

5. PARMÊNIDES

“a verdadeira filosofia começa, a rigor, com Parmênides.” Pouco cito Parmênides aqui, em que pese ser O MAIS IMPORTANTE DOS PRÉ-SOCRÁTICOS, por já ter publicado no blog posts dedicados ao autor.

“Um dos dados mais importantes que de sua vida conhecemos é a viagem que fez com Zenão a Atenas, onde Platão os apresenta, num de seus diálogos, conversando com Sócrates.” E tomas tal poema como a verdade absoluta? Pois acertaste em cheio: nada mais sensato do que atribuir imenso valor à prosa de Platão!

6. PITÁGORAS

“O fundamental para nós é a filosofia pitagórica, não tanto a do próprio Pitágoras como a dos pitagóricos, tal como se expressam Aristóteles e Sexto Empírico; [comentadores posteriores] claro está que há que se distinguir entre ambas as coisas, e o cotejo do que passa por ser a doutrina pitagórica revela imediatamente uma série de diferenças e discrepâncias.” Me parece mais difícil até determinar um Pitágoras histórico do que um Sócrates histórico… Há casos em que menor número de fontes é salutar, na contramão do senso comum; ainda mais quando dentre os poucos indivíduos encarregados de perfilar Sócrates temos Platão e Xenofonte; ainda que tenham distorcido ou caricaturado alguns pontos, estão longe de ser fanáticos. Platão, ao menos, tem uma agenda própria, o que permite certo nível de isenção e distanciamento em relação ao seu outrora mestre.

7. HERÁCLITO

“É um modo formoso, espontâneo, infantil de expressar a verdade em termos verdadeiros. Apresenta-se aqui pela 1ª vez o geral e a unidade da essência da consciência e do objeto, e a necessidade da objetividade.” “O verdadeiro ser não é este ser imediato, mas a mediação absoluta, o ser concebido, o pensamento.” Aqui se diluem as fronteiras do que é Heráclito e do que é superinterpretação à la Hegel.

8. OS ATOMISTAS

“Assim concebido, o principio atomístico não fôra superado, nem pode sê-lo; permanece para sempre; o ser para-si tem de apresentar-se necessariamente em toda filosofia lógica como um momento essencial, ainda que não como momento último.” Para quem ainda tinha dúvidas, essa é uma História da Filosofia Hegeliana (“todos os autores que me influenciaram”) e não uma história da filosofia…

9. PROTÁGORAS

“Vemos em Protágoras uma grande reflexão; concretamente, é a reflexão sobre a consciência aquilo que cobra consciência em Protágoras. [seu pensamento único, o que realmente há de “progresso” em sua filosofia] Mas isto não é senão a forma do fenômeno, retomada e desenvolvida pelos céticos posteriores. O fenômeno, a aparência, não é o ser sensível, senão que, ao estabelecer isto como aquilo que aparece, estabeleço, ao mesmo tempo, seu não-ser. A tese de que ‘o que é, é somente para a consciência’, ou esta outra: ‘a verdade de todas as coisas é a manifestação destas coisas na-e-para-a consciência’, parece contradizer-se por completo a si mesma. Parece, de fato, que nela vai implícita, simultaneamente, a afirmação exatamente oposta: por um lado, nada é em-si como aparece e, por outro, tudo é verdadeiramente assim como aparece.”

Refutação de Hegel: A aparência é o ser sensível, o ser mesmo. O que é não é de forma alguma o mesmo para o outro. Essência e aparência coincidem no sujeito. Porém, cada sujeito é um mundo fenomênico à parte. Portanto, como Protágoras não considera o absoluto, seu raciocínio é impecável.

10. SÓCRATES

10.1 O PROBLEMA DA ÉTICA DIVINA: NEGANDO E AFIRMANDO SÓCRATES

Partamos de duas premissas: 1) o homem é burro, isto é, vil demais para criar-se uma ética. 2) o homem é sábio, isto é, virtuoso o bastante para criar-se uma ética. Ponto de vista da religião monoteísta: o homem só pode ser burro demais, do contrário não haveria religiões nem necessidade de religiões. Deus precisa ensinar a ética ao homem, eis o fundamento e o fim último da crença. Porém, se o homem é burro demais para criar-se uma ética, ele também é vil demais para aprender uma ética, incapaz que é de entender os desígnios de deus. Não está à altura de uma ética divina para os homens.

Posto que sabemos o que é ética, ela deve ser atingível. Posto que há religiões, é seguro dizer que via de regra prescinde-se de ética. Posto que há religiões há muito tempo, porém, e sua presença milenar não demonstra a aquisição da virtude pela humanidade como um todo, conclui-se que: poucos notáveis são virtuosos, a maioria é tola. Alguns notáveis assumiram papéis de pregadores, profetas, sacerdotes religiosos. Alguns notáveis seguiram o caminho da autoformação. A grande massa se subdivide igualmente entre os dois caminhos. Muitos crêem-se éticos (sábios) sem sê-lo. Sábios autointitulados, intitulados pela comunidade laica ou sancionados por aqueles que controlam os dogmas espirituais. Se a virtude fosse passível de se ensinar, não só Deus como os sábios ensiná-la-iam.

As gerações da humanidade repetem a proporção entre sábios e tolos. Desde sempre, para sempre. De qualquer modo, apenas uma pimenta para a discussão: não é possível conhecer-se a si mesmo. O sábio não se conhece; vive sempre na berlinda entre uma pretensa sabedoria e a estultícia. O muito burro vive na vaidade, crendo-se sábio. Ao notar esse comportamento dos muito estultos, o sábio aprende que ter certeza sobre sua própria sabedoria é um indício pouco auspicioso. Ele sempre oscila entre considerar-se um hipócrita ou um tolo, não importa como conduza sua vida, e a reputação que obtém entre “os outros homens”. Sua vida é uma comédia, pois só é possível agir com ética inconscientemente. Os autointitulados tolos podem ser considerados uma multitude de coisas: sábios (e portanto suscetíveis de ser tolos debaixo do véu), hipócritas que desejariam o status da sabedoria empregando uma falsa modéstia para enganar os homens, um espírito que conhece suas limitações; mas não muda o fato de que todas essas possibilidades não são dignas de crédito. Não se confia no tolo só porque ele assume sua tolice. E o parâmetro para o sábio, por mais que sábios existam, não é deste mundo. Permanece como mistério insondável da existência. Como num jogo de pega-pega entre a cabeça e a cauda, aporia, contradição insolúvel.

IRONIAS DO NÚMERO 3 (O PREFERIDO DE HEGEL): A ironia socrática não é o método socrático, mas o destino inelutável e externo do filósofo: jovem soldado, serviu três vezes. Três vezes regressou triunfante do Peloponeso, e ao cumprir regiamente seu dever para com sua pátria, ajudou a consumar o desfecho da cultura grega. Da própria cultura, da cultura socrático-platônica, modelo dos modelos de homem. O que tem de ‘cabalístico’ nisso? Pedro negou Cristo por 3 vezes!

10.2 O INDIVÍDUO SÓCRATES & O OCASO ATENIENSE: O LADO NEGATIVO DA FILOSOFIA.

“nós propendemos a ver nas virtudes, como realmente são hoje, antes aspectos dos dotes ou do temperamento do homem, ou a revesti-las sob a forma do genérico e necessário; em Sócrates, no entanto, não apresentam a forma dos bons costumes, do temperamento do homem ou de uma necessidade qualquer, senão a forma de uma determinação independente. É sabido que a fisionomia de Sócrates indicava um temperamento dominado pelas paixões feias e baixas, que seu espírito soube refrear e governar, como ele mesmo nos diz em algum lugar.” Além de tudo que aqui afirma, tece depois que o belo é o santo e o sábio — mas que doutrina esta do Romantismo europeu!! Hegel, horroroso, não podia dominar nada e seria, de acordo consigo mesmo, um grande mandrião! Porém, Sócrates nunca afirmou que conseguira voluntariamente contrariar sua má natureza; o fato de ele ser feio e de Alcebíades ser belo nada tem que ver com ambos os temperamentos. Lição primária, na qual sou obrigado a reprovar o aluno extravagante Hegel.

“Isto é somente um dos lados, em que Sócrates faz caso omisso de tudo o que seja contradição e apresenta como conteúdo afirmativo as leis, i.e., o direito, tal como cada qual se o representa. Porém, se perguntamos quais são estas leis, veremos que são precisamente aqueles que regem, tais como se acham presentes no Estado e na representação das gentes e que, chegado o momento, são levantadas (suspensas) como algo determinado, o que quer dizer que não são absolutas.” O que ainda é melhor que afirmar numa Filosofia do Direito que o Estado da monarquia constitucional é o non plus ultra do Espírito!

11. PLATÃO

11.1 O PLATONISMO

“esta filosofia fôra concebida, em cada época, de modo distinto e sofrera, principalmente, as ingerências e tergiversações de mãos muito torpes nos tempos modernos, mãos que não acharam inconveniente introduzir nestes escritos suas próprias concepções, incapazes de captar espiritualmente o espiritual, ou considerando como o mais essencial e mais notável da filosofia platônica o que, em realidade, não pertence ao campo da filosofia, mas ao modo de pensar e de representar as coisas; todavia, a rigor, é o desconhecimento da filosofia o que entorpece a compreensão da filosofia platônica.” Que ironia, já que Hegel põe Platão abaixo de Aristóteles e não reconhece sua verdadeira grandeza!

“[Por outro lado,] fazer de Platão insuperável, como o ponto de vista em que nós mesmos deveríamos nos situar, [a Alemanha do XIX!] é uma das debilidades próprias do nosso tempo.” Basta substituir debilidades por forças ou qualidades e vemos o quanto H. acertaria em cheio! A roda do tempo não perdoa, e hoje gostaríamos de poder ter ao menos a força de suportar esse pensamento: usar Platão como uma estrela-guia. O pós-modernismo é fraco demais, mas tem, melhor que a época de Hegel, esse arrependimento vivo no lugar da hipocrisia etnocêntrica.

“E se se o retirasse da caverna, ficaria cego dada a luz do sol e, deslumbrado com tanta claridade, não poderia ver as coisas que chamamos reais e odiaria quem lhe houvesse arrastado à luz, como se odeia quem nos arrebatou a verdade, legando-nos, em troca, só dor e lástima.” Ao invés de mero joguete de uma má consciência (como é levado a crer freqüentes vezes em seus primeiros encontros com o absurdo e o tragicômico, principalmente na infância, adolescência e juventude), o filósofo é o único que vive verdadeiramente. Quantos milhares de seres humanos eu já não conheço, com alguma certidão, que vivem apenas nas aparências mais foscas?

“A obra iniciada por Sócrates foi levada a cabo por Platão, que só reconhece como essencial o geral, a idéia, o bom. Mediante a exposição de suas idéias, Platão pôs a descoberto o mundo intelectual, sem no entanto nele ver um mundo situado mais além da realidade, no firmamento, num lugar distinto, senão no mundo real, do mesmo modo que Leucipo [atomista] havia aproximado o ideal da realidade, sem colocá-lo – metafisicamente – por trás da natureza. A essência da teoria das idéias se há de buscar, portanto, na concepção de que o verdadeiro não é o que existe para nossos sentidos, mas que o verdadeiro e único ser do mundo está no determinado por si, no geral em-e-para-si: o mundo intelectual é, assim, o verdadeiro, o digno de ser conhecido, o eterno, o divino em-e-para-si. As diferenças não são essenciais, apenas transitórias; sem embargo, o que Platão chama absoluto é, ao mesmo tempo, como algo único e idêntico consigo mesmo, algo concreto por si, enquanto que é um movimento que retorna a si mesmo e que permanece eternamente em si. E o amor pelas idéias é o que Platão chama entusiasmo.” Um lugar aqui mesmo, no mundo das aparências, em que os sábios podem conferenciar entre si, sem medo de estarem falando com espectros (solipsistas em alucinação): o termo médio em que os privilegiados realmente se entendem, porque a natureza do saber é una. Curioso que aqui H. resuma o próprio programa, sem tirar nem pôr: posteriormente, no entanto, exaltando os méritos de Aristóteles e dos filósofos modernos, ele desmentirá reiteradas vezes que Platão atinge o absoluto em-e-para-si (note que ele o citou duas vezes aqui), alegando que sua filosofia, perfeita no tocante ao geral, é carente no que respeita ao determinado, e que, portanto, desconsiderando a individualidade, não chegou a efetuar o movimento dialético completo do Espírito – coisa que H. apontou como inequivocamente realizada por Platão neste trecho!!

11.2 O PLATONISMO COMO ÁPICE PRECOCE DO FILOSOFAR & O LIMBOBOL COMO TÊNIS METAFÍSICO (onde o Pensamento Único é o estilo característico de cada atleta-pensador)

“O segundo erro com que nos encontramos, no tocante às idéias, consiste não em situá-las fora de nossa consciência, mas em considerá-las como ideais necessários para nossa razão, porém de modo que os produtos desta razão não terão realidade agora nem a adquirirão jamais.”

Aí já depende, meu caro Hegel: do que estamos falando? De simples ‘discussões triviais entre filósofos’ (sobre um mundo-verdade e um mundo das aparências)a – o que é relativamente simples de imaginar que se possa ter cotidianamente, pois muitos são os filósofos, embora sejam minoria, e qualquer filósofo concebe bem esta distinção, ou não seria, por definição, filósofo –; ou do Bem e da Justiça? Porque estes seriam sóis, realmente meras figuras de linguagem, inobteníveis a não ser que estejamos falando de seres muito crédulos e supersticiosos, pasme, maioria deles filósofos! O absoluto por definição não se toca.

a Quem está acostumado com a refutação nietzschiana de um mundo-verdade pode ter ficado confuso com este parágrafo – mas alto lá! Um mundo-verdade cristalizado e eterno na acepção chinfrim de frades, é a isto que Nie. objetava! (‘Chega deste Bem, unilateral, estilizado! Para esta concepção ultrapassada, ofereço uma nova discussão, que vá além deste bem e deste mal, mal condicionado por esta visão de bem tão limitada, mal que está prestes a se tornar universal no meio acadêmico ocidental! Só assim é que poderemos recomeçar com coisas sérias! Os idiotas saturaram o nosso meio, o nosso mundo-verdade vivo, precisamos recolher o lixo – são 23:59, mas amanhã é um novo dia!’ – Esta é uma paráfrase bem realista de um Nie. mais direto ainda do que estamos acostumados a ler, explicando-se para quem tiver olhos e ouvidos. Sua presença pormenorizada na HISTÓRIA DAS IDÉIAS virá no tempo certo.) Mas o mundo-verdade exclusivo da mentalidade dos filósofos (dos filósofos verdadeiros, palavra tão desvalorizada com o tempo!) nada tem de ossificado e estável – simplesmente porque é orgânico e cambiante enquanto o filósofo vive individualmente e enquanto a raça dos filósofos vive coletivamente, jamais sendo igual a si mesmo – isso! –, um mundo-verdade riacho heraclítico! Uma verdadeira imagem do inferno para o ante-filósofo, um quadro expressionista, tolices e nada mais (estou falando novamente daquele que não tem acesso ao privilégio, o prisioneiro da caverna de Platão – para ser anti-filósofo ele ainda teria de merecê-lo; como aquele que está ‘antes do’ filosófico na gradação espiritual, ainda não merece esse título de antípoda, pois está aquém desta discussão).

Exemplo do que significa perseguir o absoluto, porém jamais tocá-lo: Posso discutir com o Pablo (outro esclarecido) sobre o ser-do-ente e o ser-aí, mas nunca poderemos propor uma síntese da condição humana ou um propósito para a existência – essa faculdade está além de qualquer evento da existência, de qualquer conciliábulo entre os grandes filósofos da História mesmo que se pudessem reunir num auditório além do tempo. De tal encontro nada sairia além do que sói acontecer nas noitadas de bar das gentes mais simples. Mas Hegel imaginou que continha esta sementinha em suas mãos, quanta candura! O girassol escolhido pelo Espírito do Mundo – perfume dos perfumes, essência das essências! ‘Não pedi para nascer no lugar e no tempo certos, ainda assim nasci…’, seria mais ou menos o que ele teria a dizer a respeito de tão imensa (e grata, para ele mesmo) coincidência… O primeiro falastrão europeu a poder dizê-lo, bem como o último!

Parafraseando Górgias, ainda que fosse possível combinar entre alguns entes um propósito para a existência, este acordo simplesmente não seria fechado nem posto em prática! Mas a verdade é que faltam inclusive as condições de possibilidade dessa suposta negociação – mesmo que houvesse um ente em algum ponto capaz de levantar um propósito universal (o que já seria absurdo), ele sequer saberia como formulá-lo em sua mente; e se, mais incrível ainda, houvesse dois desses seres, separados por várias gerações e milhares de quilômetros, e mesmo se eles pudessem conferenciar fluentemente num mesmo idioma numa representação miraculosa em que coabitassem o mesmo universo, digo, o mesmo cômodo, e pudessem até mesmo se tocar, conversar francamente tanto quanto estimassem necessário –– mesmo assim, ainda assim, esses dois seres acabariam apenas gastando saliva, quem sabe brigando feio, indo às vias de fato! Supondo que se concedesse ainda o fato de ambos estarem munidos da idéia perfeita e que entrassem em harmonia absoluta entre si, ainda assim eles se esfumariam de sua sala metafísica logo após este evento único da ‘pós-História universal hegeliana’ e não poderiam repassar as novas à humanidade – QUE PENA! Não estava na lista das coisas que as Parcas coseriam, definitivamente… Não, o jogo do filosofar é infinito, e Platão o sabia, antes do século XX, época em que encontramos seus primeiros comparsas e intérpretes à altura.

A forma ansiosa do filósofo é como ele se apresenta externamente, no mundo das aparências. O “ser” do filósofo é o anti-ansioso por excelência: ele não quer se apressar a um fim, a conclusões, ele aproveita as raquetadas do jogo! Legislador ou não (de toda forma no capitalismo é impossível), o filósofo sempre foi e sempre será pelo menos o que hoje se convenciona chamar de artista em sua arte do filosofar… É sem dúvida um jogo que se joga a sua maneira, mas essa maneira, essas regras, são idênticas para todo filósofo sério, que joga. E ainda há espaço de sobra para idiossincrasias nesses torneios e nessas justas: Roger Federer, Nadal, Sampras, Rod Laver, Borg, John McEnroe, todos eles tinham suas técnicas e estilos bem diferentes, embora compartilhassem um mesmo fim enquanto dentro da quadra… Como tenista metafísico, Hegel é um menino mimado que perde para o paredão, seu único adversário. Como poderia ele superar Platão só de boca, sem experimentar jogar contra ele? O engraçado é que os piores filósofos foram os únicos que tiveram match points. Todos perderam, entretanto…

É preciso imaginar um jogo de reflexão exaustivo, mas em que a massagem poderia nos restituir à partida, sem que jamais abandonássemos o confronto… Seria este o Sísifo contente que Albert Camus figurou?! E mesmo ele passou o jogo inteiro pensando que o principal era definir se desistia ou não…

Falando em existencialistas, esse podia muito bem ser o parágrafo que inspirou Sartre a intitular sua magnum opus: “A opinião [quando, na história da metafísica, a metafísica essencial começa a ficar chata, e o tenista prefere se desconectar do jogo, dar uma viajada, i.e., dar maior peso às aparências que ao desgastado mundo-verdade – chamemos esse momento de ‘entressafra de talentos’] é, portanto, o intermediário entre a ignorância e a ciência [o impossível] e seu conteúdo uma mescla do ser e o nada.” Chamemos esse tênis espiritual de LIMBOBOL! Quando a opinião passa a prevalecer em termos filosóficos, seria, para continuar nesta alegoria que acabo de inventar, como se alguém da arquibancada se levantasse e desafiasse um tenista profissional – e para calamidade de todos conseguisse fazer frente a ele, por um set inteiro! Filosofar com opiniões… Uma tarde (Zeitgeist) bem atípica, daquelas de que se poderá dizer: há tempo e lugar para tudo nesse mundo ao menos uma vez…

Pensamento único como lobby único do jogador! Você pode até ter e tentar outros, mas é aquele que o levará mais longe, e entrará para a história como sua marca registrada…

11.3 A MAIÊUTICA OU TEORIA DAS REMINISCÊNCIAS

“Claro está que a palavra ‘rememoração’(*) é, num sentido, uma expressão desafortunada:¹ concretamente, no sentido em que alude à reprodução de uma representação que se tivera já noutro tempo.²

(*) “Hegel analisa aqui o termo Erinnerung, que possui também o sentido que ele lhe atribui, [O 2º sentido, após o 1º sentido evidenciado nesta passagem, o de mergulhar em si mesmo – escolhi esta palavra em português porque ‘recordo’, do castelhano, apesar de remeter a recordação não seria o mais adequado, haja vista que –cordação não nos evoca nada; já ‘memoração’ é uma palavra dicionarizada. Por outro lado, anamnese seria ainda mais pertinente que rememoração, em termos de filosofia platônica. Obviamente, reminiscência é um sinônimo virtualmente perfeito de anamnese, exceto que esta última também seria mais empregada no sentido medicinal hoje. Ambos os termos possuem, de qualquer maneira, um sentido mitológico ou sobrenatural em Platão, que faz uma analogia com a reencarnação da alma.] implícito também no prefixo ‘re’ do termo castelhano [Editor espanhol].”

¹ Pelo contrário: é uma expressão muito afortunada, H.!

² Há mais implicações aqui do que se poderia pensar levianamente. Por exemplo, há alguma relação de continuidade entre a teoria da reminiscência e o princípio nietzschiano do eterno retorno, uma vez que se entenda que ambos os filósofos usam o termo apenas em sentido metafórico. Não existe um Espírito que começou ex nihilo e ainda não se desenvolveu completamente, nem em Platão nem em Nietzsche, e por isso Hegel é um estranho no ninho aqui e não pode ser levado muito em conta. O que Platão quer assinalar? Que o mundo já é perfeito e tudo é ‘sabido’ no fenômeno, não importa se no ‘passado’ ou no ‘futuro’, já que o tempo em si (essencialmente) não existe (apenas para o indivíduo em questão – o que também aproxima esta percepção plantonista do a priori kantiano). Só que o indivíduo não é o filósofo, i.e., é só o recipiente carnal do conhecimento filosófico, objetivo, uno. Então, por mais que para nós no cotidiano o tempo seja algo fora de nós com uma existência própria e independente, do ponto de vista filosófico consciência, conhecimento (e especificamente aquisição de conhecimento) e tempo estão como que fundidos numa unidade.

“Quando Platão chama de ‘rememoração’ a este fato de que a ciência brote da consciência, vai implícito nisto o critério de que este saber tem que haver existido realmente, alguma vez, nesta consciência, ou seja, de que a consciência concreta tem por conteúdo este saber não somente em si, por sua essência, mas também enquanto consciência concreta, e não como consciência geral. Mas este momento do concreto forma simplesmente parte da representação, e a rememoração não é pensamento, pois a lembrança se refere ao homem como a um este sensível, não de um modo geral.” Hegel se atém a detalhes técnicos de zero importância. E é surpreendente que leve tão a sério o signo lingüístico nesta ocasião, quando constatamos o que escreveu na Enciclopédia (ver post anterior estrelando Derrida, “SPEECH AND WRITING ACCORDING TO HEGEL” (Fala e escrita de acordo com Hegel): https://seclusao.art.blog/2021/08/10/speech-and-writing-according-to-hegel-derrida-1971-in-w-f-hegel-critical-assessments-ed-robert-stern-1993/). Repito a indicação ao final do post.

“No que se refere agora à educação e à formação da alma, é este um ponto que guarda relação com o anterior. É necessário, no entanto, não conceber o idealismo de Platão como um idealismo subjetivo, como aquele idealismo ruim que, sem dúvida, se apresenta nos tempos modernos, como se o homem não fôra capaz de aprender nada nem fôra determinado exteriormente, senão que todas as representações emanassem do sujeito.” No trecho em verde H. está dirigindo uma crítica, visivelmente, a Kant – acontece que essa crítica não procede (ele estereotipa Kant, numa retórica para atender aos seus próprios interesses).

Sobre o conteúdo do parágrafo acima, em referência, unicamente, à formação do filósofo em Platão: há um Estado em que essa formação é facilitada, mas esse Estado nunca aconteceu historicamente (e não estamos aqui apenas repetindo Platão, afirmando que até sua Atenas isso não ocorrera – estamos dizendo que nenhum Estado-nação moderno o logrou!). A República de Platão é este Estado. Mais sobre isso no tópico específico sobre a República, 11.6.

“Esta noção, segundo a qual o saber vem, ìntegramente, de fora aparece sustentada nos tempos modernos por certos filósofos empíricos completamente abstratos e toscos, que afirmaram que tudo o que o homem sabe do divino sabe-o por obra da educação e do hábito e que o espírito não é, por conseguinte, uma possibilidade totalmente indeterminada. O ponto extremo disto é a doutrina da revelação, segundo a qual tudo é infundido a partir do exterior.” Já aqui H. fala de forma tão áspera que só posso imaginar que se refira aos ingleses e escoceses, e não a Kant, sem sequer dar-se ao trabalho de citar nomes! Com efeito, Kant voltar-se-á contra o empirismo extremo de Locke, Berkeley e Hume, portanto nele a experiência fica desvalorizada. São estes autores que tornaram a expressão tábula rasa consagrada (mas ela vem desde o latim, bastando suprimir o acento agudo). Chama-se de tábula rasa a mente do indivíduo para John Locke, p.ex., que nasce vazia, rudimentar.

11.4 TEORIA DAS IDÉIAS

“O equívoco está em que um conteúdo não é o verdadeiro pelo mero fato de que se incorpore a nosso sentimento. Por isso, a grande lição de Platão consiste em sustentar que o conteúdo só se torna pleno mediante o pensamento, posto que é o geral, que só se pode captar por meio da atividade do pensamento. Este conteúdo geral é precisamente o que Platão determina como a idéia.” Feuerbach se sentiria devastado caso H. fosse vivo e o rebatesse com este parágrafo. Para contextualizar, Feuerbach foi o primeiro filósofo do pós-hegelianismo que, em vez de ser seu discípulo, voltou-se contra ele numa crítica ao Sistema hegeliano. Porém, seu empreendimento fracassou, era incompleto, não passava de um esboço – calcava-se numa crítica da razão e numa exortação pueril dos sentimentos e do amor, sem contudo conseguir definir nada em termos nem concretos, nem abstratos. Essa primeira crítica seria finalmente retomada com método pelo jovem Marx, no agitado século XIX alemão, desembocando no materialismo histórico-dialético, a famosa inversão do idealismo hegeliano em prol do estudo da História e das condições materiais do ponto de vista fenomenológico e da agência humana no mundo, em detrimento de um Espírito ou Idéia que regeria a História universal (que agora não existe, pois toda História tem um ponto de vista) de forma autônoma, manifestando-se na humanidade a fim de se corporificar e se auto-realizar. Foi antes, diria Marx, o próprio homem quem criou esta noção de um Espírito impessoal – a verdadeira liberdade ou maturidade filosófica seria o aprendizado de que o homem, ser social, deve carregar a responsabilidade pelo seu próprio destino (auto-determinação). Quanto a Feuerbach, novamente, sua crítica ao hegelianismo não vai além de um ateísmo exacerbado, sem o mesmo refino dialético de Hegel, recuperado e dirigido agora a outros fins por Karl Marx.

ACIMA DA CIÊNCIA BACONIANA, O AXIOMA; ACIMA DO AXIOMA, A ONTOLOGIA SÁBIA: Conhecimento que necessite e possa ser provado é um degrau muito inferior quando o assunto é Primeira Filosofia. Quando notamos a importância que os geômetras gregos tinham para Platão, notamos por que a matemática não pode ser considerada uma ciência moderna, embora seja o protótipo para todos os campos empíricos da atualidade. Além das formas e figuras abstratas, entretanto, jaz o que só aqueles capacitados para explorar o mundo-verdade podem acessar. É por isto que a comunicação do filósofo, do saber, não existe, a rigor, com os mortais (aprendizes); [fora do LIMBOBOL] eles só podem se comunicar entre si, e quem queira se comunicar com eles deve se elevar. O legado deles é meramente para almas gêmeas, nunca para ‘o populacho’. Eles não enriquecem o mundo, quer dizer, pelo menos não diretamente.

ESCADA DO MUNDO-VERDADE À PURA REPRESENTAÇÃO: “— Compreendo algo, mas não o bastante. Me parece que queres afirmar que o conhecimento que dos seres inteligíveis se adquire pela via da dialética é mais claro que o que se adquire pela via daquelas ciências para as quais as hipóteses são princípios e estão obrigadas a se valer da inteligência e não dos sentidos; mas como aquelas ciências especulam a partir de pressupostos e não se elevam até o princípio absoluto, parece que não se dá, nelas, o pensamento que se daria caso se tratasse de entes pensados segundo um princípio. Me parece, ainda, que chamas de intelectivo o modo de proceder da geometria e das ciências afins, e de tal modo que ocupam um lugar intermediário entre a razão e a representação.

— Compreendeste perfeitamente bem meu pensamento. Quanto a estas 4 distinções, indicarei agora quais são as 4 maneiras da alma de se comportar: o pensamento compreensivo tende ao supremo; a inteligência ao segundo; o terceiro se chama fé, a última é o saber figurado. [a opinião] Ordena-as segundo sua maior ou menor evidência, segundo seus objetos participem mais ou menos da verdade.”

MAIS TRECHOS (também em português traduzido) do diálogo FILEBO em https://seclusao.art.blog/2020/01/07/filebo-ou-dos-prazeres-da-inteligencia-e-do-bem/.

CONSTRUÇÃO DO MUNDO-VERDADE NO SEIO DO MUNDO DAS APARÊNCIAS: “[Platão,] em geral, concebe o absoluto como a unidade do ser e do não-ser no devir, conforme as próprias palavras de Heráclito, como a unidade do uno e do múltiplo. Ademais, Platão incorpora à dialética objetiva de Heráclito a dialética eleática,¹ que consiste na ação exterior do sujeito encaminhada a pôr de manifesto a contradição, de tal modo que a mutabilidade externa das coisas é substituída agora por seus câmbios interiores em si mesmas, quer dizer, em suas idéias, que são, aqui, suas categorias.” “Os sofistas se limitam a considerar o fenomênico, cuja sede é a opinião: também eles tomam, pois, como base, evidentemente, pensamentos, mas não os pensamentos puros ou o que é em-e-para-si. § É este um dos motivos que fazem com que alguns saiam insatisfeitos do estudo das obras platônicas. Quando se começa a ler um destes diálogos, depara-se com esta maneira livre de se expressar de Platão, belas cenas naturais, uma maravilhosa introdução que promete guiar-nos à filosofia —à mais alta de todas, à filosofia platônica— através de pradarias cobertas de flores. Descobrimos aqui coisas sublimes, de que a juventude sempre gosta bastante; mas esta 1ª impressão não tarda a desaparecer. (…) Ao aterrissar no campo do verdadeiramente dialético e especulativo, o leitor tem de marchar por ásperas e empinadas veredas, deixando-se espetar pelos espinhos da metafísica.”

¹ H. desgina “dialética objetiva” o método da filosofia heraclitiana, considerada a criadora da forma lógica da dialética (raciocínio dinâmico). Aqui, ele defende que Platão funde as concepções de Heráclito e de Parmênides, dois dos pré-socráticos mais importantes, a fim de forjar sua filosofia – embora não o cite nominalmente, Parmênides era um dos “eleatas”. Acontece que, a não ser por amplos comentários aristotélicos que ficaram muito famosos, Zenão, por exemplo, outro eleata, não mereceria ser citado ao lado de Parmênides. Outros dois filósofos eleatas têm menor expressividade: Xenófanes (não confundir com Xenofonte nem Xenócrates) e Melisso.

11.5 O HERMETISMO PITAGÓRICO EM PLATÃO

“Deus, mesclando o idêntico e o outro com a essência e fazendo dos três um, divide de novo este todo em partes, em tantas como julga conveniente.”

“Ora, o modo de classificação desta subjetividade contém os famosos números platônicos, cujas origens se há de buscar, sem dúvida alguma, nos pitagóricos, em torno dos quais os pensadores antigos e modernos empregaram grandes esforços interpretativos, inclusive o próprio Kepler¹ em seu Harmonice Mundi, embora sem sucesso de nenhum deles em chegar a compreender exatamente o sentido [dos números].” Convenhamos: nem os pitagóricos entendiam a si mesmos, trabalho inútil aqui!

¹ O astrofísico Johannes Kepler.

“Quis-se fazer de Platão o santo patrono dos estados de entusiasmo e arroubamento; mas isto é, como vemos, completamente falso.” Platão atribui as adivinhações e as profecias apenas à parte ‘má’ do organismo, a jocosa, a excretória, particularmente o fígado, na anatomia de seu tempo; daí decorreria a fascinação da consulta às vísceras de animais, ritual comum entre os antigos, e, em todos os tempos, a fascinação pelos padrões aleatórios e gesltálticos (mais propriamente falta de qualquer padrão!) das borras do café, etc.

11.6 A REPÚBLICA

(RE)VOLTANDO A/À REPÚBLICA: “e reconhecia e proclamava que a natureza moral (a livre vontade em seu caráter racional) só podia chegar a impor seus direitos e cobrar realidade¹ dentro de um verdadeiro povo.” O qual ainda não presenciamos na Terra.

¹ Expressão contumaz de Hegel. Em seu sistema, algo só pode intervir na realidade (o ato, o para-si, que emana da potência, da essência ou em-si quando as condições são logicamente satisfeitas) com o ‘aval’ do Espírito, daí o real em Hegel ser algo ‘menor’ do que a ‘existência’ em si. Quando Hegel diz que “todo real é racional” e vice-versa (famosa passagem da Fenomenologia do Espírito), significa que tudo aquilo que é parte do processo da Razão aparecerá sob alguma forma em algum momento na História – o irracional é aquilo que não pode ser formulado num determinado estágio, necessitando ser esclarecido ou iluminado, i.e., aparecer racionalmente, modificado dialeticamente como fenômeno. O irracional é aquilo que não pode cobrar realidade. Embora ‘exista’, considerando que o Espírito faz essa mediação, o irracional enquanto irracional não é ainda real. Isso nos leva ao paradoxo em que Hegel e Platão finalmente concordam: embora existente enquanto Idéia e representável mediante conceitos filosóficos, a República de Platão – que não é uma fantasia ou utopia, já que o autor captou seus fundamentos da sua realidade imediata (a Atenas antiga) – ainda não se realizara no mundo real-racional. Poderíamos, de nossa posição no século XXI, demonstrar mais ceticismo quanto a essa possibilidade – mas jamais negar o caráter sério e empírico (no bom sentido) da obra platônica, que versa sobre a formação do homem bom e quais são os limites dessa formação, i.e., da própria humanidade e em seu estrato mais superior ou excelente. Quanto a Hegel, ele imaginava que as condições do Estado ou sociedade perfeito(a), regido(a) por homens que compreendessem a Idéia absoluta, seriam satisfeitas na Alemanha dentro em breve. Hoje rimos dessa puerilidade, batizando-a de etnocêntrica. É que, para Hegel, só um povo liderava a História em cada período. Os gregos lideraram a humanidade e a cultura, criando a Filosofia, nos últimos séculos pré-cristãos; atualmente (quero dizer, no tempo de Hegel) a ‘tocha olímpica’ estaria com os teutos e o Idealismo alemão, povo eleito pelo Espírito para realizar, cobrando realidade, essa apoteose da História universal. Obviamente a partir de Marx o foco muda por completo. Não mais há um verdadeiro povo nacional ou étnico, mas uma classe internacional e cosmopolita que, impelida pelo desenvolvimento do modo produtivo vigente, haveria de suceder a burguesia na História, superando as contradições internas do capitalismo financeiro. Pior ainda, a partir do século XX não temos mais qualquer fé em nenhuma dessas teses. Podemos ser socialistas, sem dúvida, mas não vemos mais a iminência da vitória de uma classe proletária, e aliás uma análise das condições materiais nos aponta que as noções de classe, e portanto da luta entre classes, foram completamente pulverizadas (no pós-modernismo). Essencialmente, o otimismo de Marx e Engels ainda era uma espécie de avatar da fé no progresso, que com certeza já sublimamos – o problema é que estamos em estágio de carência, sem haver colocado nada no lugar. Um impasse histórico que se arrasta.

Obviamente, aqui começa a exposição a dos erros de H. a olho nu, confundindo eternamente cultura e natureza, principalmente o estado de natureza ou direito natural, concepções arbitrárias e no entanto universais no tempo de H.. Naturalizando (fetichizando, apud Marx) o Estado jurídico-moderno, imaginando a natureza enquanto o oposto da cultura letrada e filistéia exatamente como esse puro arbitrário e negativo pertencente aos primórdios do homem (sempre uma inferência nesses autores, sem qualquer base), que em realidade já vemos hoje como o próprio jogo de forças inútil e paralisante dos Estados-nações. H. serve no máximo como cura de um ultra-romantismo desenvolvido após a leitura descuidada de Rousseau (21.), mas sua Teoria do Estado chega a ser tão fabulosa quanto qualquer outra meta-narrativa antitética do período.

“Estamos acostumados a partir da ficção de um estado natural, o qual não é, em realidade, um estado do espírito, da vontade racional, senão dos animais entre si. Por isso Hobbes observava, com razão, que o verdadeiro estado de natureza é a guerra de todos contra todos.” Como H. pode demonstrar tamanha lucidez ao mesmo tempo em que diz que o que vê (um número 4 gigantesco!) é tudo menos aquilo que vê (um 5 indesmentível)?!? Pois é isso que Hegel faz nessa passagem: reconhece que o estado natural é mero folclore, mas dá razão ao folclorista Hobbes (isto é, quase só falta afirmar que 2 + 2 = 5)! Nem os animais (quanto mais os humanos) vivem em guerra; a cadeia alimentar não pode ser comparada ao instituto-cultura humano(a) do conflito organizado. Essa analogia é desastrosa. Nada há de qualitativamente diferente entre o homem pré-histórico e nós. A estrondosa ingenuidade hegeliana se torna mais palpável quando se percebe seus 2 componentes principais: um biologismo rústico aplicado a um humanismo muito mal-concebido e distorcido (excessivamente confiante no Direito, no direito burguês, que é o mesmo que cria a ilusão do indivíduo livre, que ele tanto ataca como concepção desviante da legitimidade coletiva do Estado!), posto que estruturado à imagem e semelhança daquele primeiro, ainda que, nas piruetas sucessivamente negadoras do ‘Espírito’, pareça sua brilhante correção, i.e., o contrário do que é. Caminhando desde uma espécie de darwinismo social avant la lettre à apologia pura e simples da moral burguesa, nada se ganha nessa estreita jornada rumo à verdade do Espírito, num sentido hegeliano ou noutro qualquer.

“Por isso se formulou acerca da República de Platão o juízo de que seu autor nela traça o chamado ideal de uma constituição política, que se cola logo à obra como um epíteto proverbial, no sentido de que esta concepção não passa de ser uma quimera, que pode, sem dúvida, se pensar e que seria também, tal como Platão a descreve, excelente e verdadeira, e mesmo realizável, mas só sob a condição de que os homens fossem excelentes, como talvez possam sê-lo na lua, mas não como é o homem na terra, com referência ao qual é simplesmente irrealizável.” Esse juízo de H. é correto: realmente é assim que a República é vista genericamente (como uma espécie de introdução à Ciência Política, como engenharia constitucional da Idade Antiga); e claro está que não pode ser chamado de um tratado político (empírico no sentido da empiria da ciência política, uma ciência de matizes ingleses – 18.), muito menos ainda de uma projeção de um ESTADO IDEAL (à guisa de um Thomas More)! Esse é, porém, um preconceito entranhado demais para se desfazer a essa altura. Enxergá-lo como um tratado ético do e para o filósofo, sem para isso tocar em nada que seja do Estado, é o mais raro entre nós. Hegel não pode enxergar a filosofia sem a questão do Estado embutida, mas nós podemos.

“Eis a filosofia platônica da natureza: o mundo eterno, como o Deus bem-aventurado em si, é a realidade, não no mais-além, não na outra vida, senão que no mundo presente considerado em sua verdade, e jamais do modo que se oferece aos sentidos de quem apenas vê, escuta, etc., este mundo. Se consideramos assim o conteúdo da idéia platônica, veremos que Platão expõe, na realidade, a moralidade dos gregos em seu modo substancial, pois é a vida do Estado grego¹ e não outra o que forma o verdadeiro conteúdo da República de Platão. Platão não é homem que se perca em teorias e princípios abstratos; seu espírito verdadeiro sabe reconhecer e expor o verdadeiro.”

¹ Só um ligeiro corretivo: a vida dos espartanos, no máximo. O que os espartanos – modelo de constituição já realizada na História até o tempo de Platão que o filósofo mais admira, vivenciando já a decadência da democracia ateniense, iniciada no tempo de Sócrates, e não podendo concordar com o princípio da democracia que recai ou para o populismo ou para a tirania (um fenômeno nada estranho a nós!) – realizam em sua aristocracia bélica é o ponto de partida para Platão ir ainda além, mas não no sentido de além deste parágrafo de H., evidentemente (o outro mundo): ir além filosoficamente, ir além no raciocínio político-social imanente. Um homem dotado de arete poderá beber desse ensinamento em qualquer época da humanidade. O que mais separa Platão de Aristóteles, veremos, é que para Aristóteles e para a ciência política moderna, sua herdeira direta, Esparta seria uma espécie de ponto de chegada. A Platão não interessa estudar as boas práticas e os defeitos da constituição espartana historicamente falando, como um guia político para a posteridade. O que lhe interessa são os princípios gerais de um bom governo e de uma boa educação do povo que, enxergados indiretamente, via as instituições existentes num dado tempo (a Esparta do séc. IV a.C.), podem servir de norte atemporal do homem. Aristóteles diria “posto que temos isso, aquilo e aquiloutro, e nada mais, ‘isso’ é o máximo que se pode fazer em políticas; então façamos isso”. Esse é um curso de pensamento tão pobre comparado à Teoria das Idéias platônica de realização do potencial humano muito acima da simples pedagogia pragmática dos governantes que às vezes duvidamos que ambos tenham mesmo sido professor e aluno.

11.6.1 DAS QUATRO VIRTUDES DA POPULAÇÃO DA REPÚBLICA

A primeira virtude da República, obviamente, entre as 4 descritas por Platão, na ordem de maior para menor, é: a sabedoria, monopólio da minoria no píncaro da formação estratificada.

A segunda, a dos guerreiros, é a valentia.

A terceira, a dos comerciantes e demais profissionais liberais, é a temperança ou moderação.

A quarta, que deve ser praticada dos mais humildes aos mais sábios, é a justiça, a base incondicional da boa sociedade.

Sabedoria não é nada sem valentia. Valentia não é nada sem temperança. E temperança não é nada sem justiça. Conforme aumenta a posição hierárquica da casta, aumentam também a carga, a responsabilidade e o número de virtudes que se deve acumular.

CONTRASTE COM CÓDIGOS RELIGIOSOS OU PENAIS CIVIS: No momento em que é preciso começar a ensinar que não se devem cometer homicídios, já não há nobreza e justiça no coração dos homens. No momento em que se codificam as horas de lazer e as vestimentas, já nada há. Nem mesmo merece-se o qualificativo de escravo nessa situação. A República nada traz sobre isso.

11.6.2. CONTINUIDADE DA REPÚBLICA NO TEMPO

“Os costumes não devem ser independentes das instituições; i.e., as instituições não devem se dirigir simplesmente aos costumes mediante estabelecimentos educativos, [formais], religiosos, etc. As instituições devem se considerar como o primordial, como aquilo que faz nascer os costumes, já que estes não são nada além do modo como cobram as instituições uma existência subjetiva. O próprio Platão dá a entender até que ponto espera encontrar contraditores. E entretanto hoje sói encontrar-se, como defeito seu, o de ser demasiado idealista: se é que cabe assinalar um defeito em Platão, este é cabalmente o de não ser idealista o bastante.” O que Hegel quer dizer é: Platão tem consciência de que nenhum Estado subsiste historicamente desta forma pela eternidade; há um apogeu, e há uma decadência, por mais que se tente preservar os costumes mediante as instituições, e as instituições espelhadas nos costumes. É esta queda que Platão exprime do modo mais incontroverso possível na República.

11.7 ESTÉTICA

“Mas este algo geral não conserva, tampouco, a forma da generalidade, mas o geral é o conteúdo que tem como forma o modo sensível; nisso precisamente estriba a determinação do belo. Na ciência, o geral assume de novo a forma do geral ou do conceito; o belo, ao contrário, se apresenta como uma coisa real ou como uma representação em forma de linguagem, que é o modo pelo qual o real vive no espírito. A natureza, a essência e o conteúdo do belo só podem ser conhecidos e julgados pela razão, pois trata-se do mesmo conteúdo que tem a filosofia. Mas como a razão no belo [o a priori] se manifesta também de um modo real, [no fenômeno] temos que também o belo cai sob o prisma do conhecimento. [sensibilidade]” Uma vez que a Crítica da Faculdade do Juízo, de Kant, é apenas uma variação do tema da Estética platônica, economizaremos em nosso curso citando apenas os pensamentos de Kant fora da ciência estética no capítulo 22.

11.8 CONCLUSÃO

“Com o dito, fica exposto o conteúdo fundamental da filosofia platônica. O ponto de vista de Platão é este: em primeiro lugar, aparece a forma fortuita do diálogo, em que aparecem conversando uns tantos homens nobres e livres, sem outro interesse que não o da vida espiritual da teoria; em segundo lugar, à medida que vão mergulhando no conteúdo, descobrem os mais profundos conceitos e os mais belos pensamentos, como pedras preciosas com que se tropeçasse, não num deserto, mas propriamente num caminho seco e pedregoso; [não num meio estéril, mas numa trilha em que é possível avançar, apesar da esterilidade das opiniões] em terceiro lugar, não encontraremos aqui nenhuma conexão sistemática, ainda que tudo emane e flua de um só interesse” Hegel ainda nos dá mais duas etapas, mas elas não nos interessam.

12. ARISTÓTELES

12.1 O VERDADEIRO TAMANHO DO LEGADO DE ARISTÓTELES; DISTORÇÕES HISTÓRICAS DE HEGEL.

“Embora o sistema de Aristóteles não apareça desenvolvido em suas partes partindo do conceito mesmo, mas como uma série de partes que caminham lado a lado, não resta dúvida de que [as partes] formam uma totalidade de filosofia essencialmente especulativa.” Para H. isso é um grande mérito, devido às ‘semelhanças’ que encontramos entre o próprio H. e Aristóteles. Para nós, não obstante, este consiste no maior defeito destes dois filósofos.

“Uma razão para ser prolixo, tratando-se de Aristóteles, temo-la em que nenhum outro filósofo fôra objeto de tanta injustiça por parte das tradições totalmente órfãs de pensamento que se mantiveram à margem de sua filosofia e que ainda se acham na ordem do dia hoje, apesar de ter sido este pensador, durante longos séculos, o mestre de todos os filósofos.” “E, enquanto que lê-se muito Platão, o tesouro da obra aristotélica permaneceu pouco menos que ignorado séculos e séculos, até vermos reinando, até os tempos mais recentes, os mais falsos prejuízos em torno de Aristóteles.” Totalmente ao revés! A Escolástica só bebeu de Aristóteles; Platão era um anexo turvo para todo um milênio, e por isso a filosofia afundou tanto na Idade Média!

“É, por exemplo, uma opinião muito generalizada a de que a filosofia aristotélica e a platônica se enfrentam e opõem uma à outra, concebendo-se esta como baseada no idealismo e aquela como baseada sobre o realismo, o realismo mais trilhado e trivial.” Opinião generalizada corretíssima!

“Alexandre o Grande, quando em meio a suas conquistas e achando-se já muito dentro da Ásia inteirou-se de que Aristóteles havia dado a conhecer em obras especulativas (metafísicas) a parte acromática¹ de sua filosofia, enviou-lhe uma carta reconvidando-o a dar a conhecer ao povo vulgar os frutos dos trabalhos e investigações de ambos;² a isso Aristóteles retrucou que, apesar de lhe haver dado a conhecer esta filosofia (ao povo chão), os resultados seguiriam tão desconhecidos como antes. (Aulo Gélio, Noites Áticas)”

¹ Refere-se ao mito comum de que haja uma vertente esotérica (de elite, filosófica, propriamente dita) e outra popular ou vulgar em certos autores como Platão e Aristóteles, em que a gente comum pudesse lê-lo e entendê-lo. A acromática seria esta “filosofia” vulgar (exotérica) para iniciantes. Talvez a origem do termo seja a constatação pejorativa de que esses trechos são sem cor e sem vida, inertes, desbotados? Hahaha! (acromatia: aquilo que não tem cor) Fato é que este trecho comprova que: 1) não havia esta divisão binária e didática na filosofia aristotélica, nem provavelmente em qualquer outra; 2) mesmo uma filosofia exotérica não é absorvida ou compreendida pelo povo, se é séria; ou seja, por mais elitista que soe o discurso, toda boa filosofia é esotérica, para poucos espíritos ilustrados. Há, é claro, pseudo-filósofos, mas esses realmente só escrevem para o povo, e não têm conteúdo esotérico apreciável.

² É sabido que Aristóteles foi o mestre de Alexandre, mas daí a conceber que Alexandre filosofou ao lado de Aristóteles, sendo co-responsável de seus escritos, é um exagero!

“O que na educação deste personagem pode ser atribuído ao ensino filosófico de Aristóteles é o haver sabido libertar interiormente seus talentos naturais, a peculiar grandeza de seus dotes de espírito, elevando-os a um plano de completa independência consciente de si mesma, como o vemos comprovado melhor que nunca nos próprios fins buscados por Alexandre e em seus feitos. Alexandre alcançou, com efeito, essa absoluta certeza de si mesmo que só a intrepidez infinita de pensamento e a independência do espírito diante dos planos especiais, pequenos e limitados permitem. Essa intrepidez o elevava à finalidade perfeitamente geral que o animava: a ambição de organizar o mundo numa vida e num intercâmbio comuns e coletivos, mediante a fundação de Estados subtraídos à individualidade contingente e fortuita.

Alexandre pôs em prática, dessa forma, o plano que já concebera seu pai sem haver podido chegar a realizá-lo: o de se colocar à cabeça dos gregos para vingar a Europa na Ásia e submeter a Ásia à Grécia; de tal modo que, assim como no começo da história da Grécia os gregos haviam marchado unidos na guerra contra Tróia, esta união servira agora de final e de remate ao verdadeiro mundo helênico.” Tem certeza que os motivos de Filipe e Alexandre eram tão coletivos e étnicos e, o que é pior, alheios à própria dinastia? Seria único na História do Mundo, efetivamente. Não creio que Alexandre tenha submetido a Ásia para “se vingar pela Grécia”, isto me parece um daqueles absurdos possíveis apenas no Hegelianismo…

SUPERESTIMA ARISTÓTELES A PONTO DE CONCEBÊ-LO COMO MASTERMIND POR TRÁS DAS AÇÕES DE ALEXANDRE: “primeiro visitou e consultou o oráculo dos amonitas (hoje, Siwa), procedendo logo a destruir o reino persa e incendiar Persépolis, a velha inimiga da teologia hindu, para se vingar, assim, de todas as vexações causadas por Dario contra os hindus e seus irmãos de religião.”

Pularei o relato de que Aristóteles foi o dono da primeira biblioteca do mundo, pois toda essa história já está muito detalhada em meu post HIPÓCRATES OBRAS COMPLETAS VOL. I, nos prefácios especiais de Littré a essas obras, acessível em https://seclusao.art.blog/2021/04/07/les-oeuvres-completes-dhippocrate-tome-premier-trad-classica-de-littre/.

“Tem diante de si a intuição em sua integridade e plenitude, e nada passa por alto, por muito vulgar que isto ou aquilo sejam.” Deveríamos criar o termo endução para explicar os casos de indução e dedução (ou endo-ção, de fora) indistintos (raciocínios perfeitos que são ambos e nenhum, não são de dentro nem de fora, apenas são).

ORA, ORA, SE NÃO É DEUS! “Ao enfocar todos os momentos contidos na representação, como se formassem uma unidade, não prescinde de nenhuma determinabilidade, não se atém primeiro a uma determinação e logo depois a outra, senão que afronta-as todas a um só tempo, enquanto que a reflexão intelectiva, [Platão] que tem como regra a identidade, só pode sair adiante com ela pela simples razão de que, ao afirmar uma determinação, olvida [ignora] a outra e dela prescinde.” Infelizmente, ainda que fosse verdade, precisamos de novos deuses e novas verdades… Claramente Aristóteles é venerado com toda a parcialidade por H. e não podemos levar sua resenha deste filósofo muito a sério!

“O empirismo de Ar. é um empirismo total, posto que ele o leva, de novo, constantemente, à especulação; podemos, então, dizer que, como empirista consumado, é, ao mesmo tempo, um espírito pensante.” Já vimos esse movimento se consumar umas 300x na História; estou nauseado…

12.2 METAFÍSICA ARISTOTÉLICA

“Aristóteles distingue, mais detalhadamente, 2 formas fundamentais: a da potência e a do ato.” GROSSO MODO, podemos dizer que a fonte de toda a concepção da síntese hegeliana está aqui (voltar aos trechos em negrito do 2.3): essência e aparência, racional e real, em-si e para-si. Importante frisar que o segundo, embora o fenômeno não seja o principal de Hegel, posto que seu “deus”, por assim dizer, é a Razão, é importantíssimo como esteio da essência compreendida no mundo antigo como enteléquia e hoje como teleologia ou ciência dos fins. Devemos entender o fenômeno nesse mais nobre sentido, em que participa da dialética da enteléquia, para não gerar mais dúvidas, como o nível de realidade consumada ou efetiva, ou seja, em que o Espírito exerce toda sua potência, no que Hegel chama de O CONCRETO (APARÊNCIA) ELEVADO A CONCEITO (aparência que Aristóteles chama de substantia – em oposição à Idéia platônica, que ele entendeu unilateralmente –, mas ambos são o mesmo); e no que eu chamaria de ‘fenômeno sagrado’, se posso ‘blasfemar’ o vocabulário hegeliano e neologizar à minha maneira e à minha conveniência para facilitar meu trabalho e a compreensão que o leitor deve ter de Hegel ao fim desta excursão. Muito se dirá em autores modernos pré-hegelianos que a substância é a matéria viva, em movimento ou, propriamente, contempladas por nós, i.e., não de uma maneira estritamente mecanicista (como na Física).

Curiosamente, Hegel é o acme do Idealismo e seu centro nevrálgico é o concreto ou empírico. Na filosofia subsecutiva, que teve de reparar seus pontos de vista, temos o império da Fenomenologia, em que o centro tem de ser a própria potência ou vontade (configurando a ‘substância pós-moderna’), que havia sido menosprezada até ali como provocadora última da realidade. Fazendo uma última simplificação, podemos assinalar a filosofia pós-platônica e pré-Marx-nietzscheana como excessivamente preocupada com o começo e o fim; e as filosofias DE PLATÃO SOMENTE, NA ANTIGUIDADE INTEIRA, e de Marx, Schopenhauer e Nietzsche EM DIANTE como aquelas atentas ao devir. Não preciso, espero, ter de ressalvar que a genealogia e a teleologia continuam sendo tratadas dentro da fenomenologia do séc. XX em diante e que o devir já era “conhecido” e tratado até mesmo pelos insofisticados pré-socráticos. O que eu quis dizer é que o eixo de preocupação de primeira plana sofreu uma inversão quase simétrica em termos do que é o objeto da filosofia. Numa sentença, regressamos a Platão e reiniciamos de onde ele havia parado, com alguns conselhos muito úteis achados no caminho do calvário que antecedeu nossa chegada ao deserto chamado fim do milênio. (!!!)

INFINITO É O FENÔMENO (A AÇÃO): “quando dizemos a essência, não estabelecemos com isso, ainda, a atividade, pois a essência é somente o em-si, a potência, sem forma infinita.”

“Portanto, enquanto que o predominante, em Platão, é o princípio afirmativo, a idéia, como algo somente idêntico consigo mesmo no abstrato, em Aristóteles predomina o momento da negatividade, mas não como mudança, nem tampouco como o nada, senão como distinção, como determinação, destacado por ele enquanto tal. Este princípio da individuação, não no sentido de uma subjetividade contingente, particular, senão no sentido da subjetividade pura, é característico de Aristóteles.” O principium individuationis como o erro do milênio ou, antes, dos últimos três milênios!

“O devir de Heráclito é uma determinação certeira e essencial; mas, em compensação, carece ainda da determinação da identidade consiga mesma, da firmeza da generalidade. O rio se modifica constantemente, mas se mantém também perene e tem, ainda mais, uma existência geral.¹ De onde se deduz imediatamente que Ar. (Metafísica IV, 3-6) polemiza principalmente contra Heráclito e outros quando diz que o ser e o não-ser não são um e o mesmo, fundamentando assim aquela famosa tese da contradição de que um homem não é ao mesmo tempo um barco.” Hahaha?!

¹ Quando Nietzsche diz que Heráclito poderia ter enunciado o eterno retorno, o que quer dizer é: faltava-lhe a condição subjetiva para afirmar a figura de linguagem do rio (o eterno, a essência) como aquilo que também se desdobra sobre si mesmo em fenômeno, repetindo-se como aparência e transitoriedade finita e fugidia (além das águas deste rio, o próprio rio, que no fim de contas é apenas um subterfúgio para se referir ao universo).

PRESENTE ETERNO (Conceito escolástico influenciado por Ar.): “Deus é a substância [ponto de encontro] em cuja potência vai também implícito, como algo inseparável, o ato; nela, a potência não se distingue da forma, já que produz a partir de si mesma suas determinações de conteúdo.” Aristóteles cria que a Idéia de Platão estava situada fora do tempo, portanto do presente, do movimento e da realidade (existência); por isso achava ter reparado Platão. Tão ingênuo quanto parece! Nível de argumentação: “Meu absoluto é melhor que o seu! Crê em Deus-Pai!”.

“Deve-se considerar como a verdadeira essência, prossegue Ar. (Metaf. XII, 7) o que se move em si mesmo, o que ‘se move em círculo; e isto não se deve buscar somente na razão pensante [principium cognoscendi], senão também no fato’. (…) Como o igual a si mesmo e como algo visível, esta essência absoluta é ‘o céu eterno’; 2 modos de representação do absoluto são, portanto, a razão pensante e o céu eterno.” Formulação superingênua do eterno retorno.

CURIOSA NOTA DE RODAPÉ, DEMONSTRANDO QUE AS AULAS DE HEGEL ERAM PESADAS, INSOSSAS E CONFUSAS, E QUE O FORMATO FINAL DO LIVRO É MAIS LEVE DEVIDO À INTERFERÊNCIA DOS DISCÍPULOS: “Como esta explicação hegeliana da famosa passagem de Aristóteles tem em seu favor o testemunho de tantas autoridades, o editor não pode seguir aqui, como tantas vezes no transcurso dessas Lições, a norma estabelecida pela sociedade de amigos de Hegel a cujo encargo corre a edição de suas obras, que é a de corrigir tacitamente os erros e inexatidões que tenham podido deslizar pela exposição do autor. É evidente, de todo modo, que Ar. fala de 3 substâncias de um mundo sublunar, que move o firmamento; do firmamento mesmo, como o centro, que é ao mesmo tempo o motor e o movido, e de Deus, como o motor imóvel.” Frase original de H., para contrastar: “O céu é algo movido e é também, ao mesmo tempo, algo que move. E sendo, assim, o esférico algo tanto movente como movido, tem que haver necessariamente um centro que mova, mas seja por si mesmo imóvel e, simultaneamente, eterno e uma substância e a energia” Suas sentenças não são pontuadas, e vai elencando sinônimos após as conjunções de ligação como se enriquecesse a exposição (por si inócua) acrescentar mais nomes e sinônimos ao que já tinha nome (Deus), e aumentando a barafunda do que é, pois que estas coisas são também outras coisas: enfim, que o primum mobile ou deus aristotélico é também ETERNO (Qual a definição de eternidade? Há algum deus que seja mortal ou limitado?), é também SUBSTÂNCIA (Qual a definição de substância? Por que não é redundante ser Deus e substância ao mesmo tempo?), é também ENERGIA (Qual é a definição de energia? Por que não é redundante ser Deus, substância e energia tudo ao mesmo tempo? No que deus ficaria pior se fosse retirado algum desses sinônimos arbitrários?)!… Uma absoluta perda de tempo – e energia!

Me parece incrível, fabuloso até, que nem Ar. nem H. tenham percebido que só estão reescrevendo Platão sem o mesmo talento literário (ou percebem-no, mas fazem disso, dessa redação tecnicista, seu cínico ganha-pão): “Este sistema dura eternamente. ‘Mas a nós [como indivíduos] só por um breve tempo nele nos está reservada uma residência, que é a mais excelente que poderíamos desejar.’” E ainda mais: o “filósofo da ação” (Ar., segundo a introdução de H.) é o mais contemplativo de todos! “o pensamento é fim último e absoluto para si mesmo.”

“O momento fundamental da filosofia aristotélica consiste, portanto, em que a energia do pensamento e o pensado objetivo sejam uma e a mesma coisa” Ironia: Aristóteles cobra o porquê do Bem, p.ex., de Platão e Leucipo, mas tampouco dá o seu porquê energético. Não que seja um defeito seu; a energia é a mera referência de uma força física, e portanto um não-conceito, filosoficamente falando; o simples infundamentado e inessencial sobre o qual não se deve falar. O que pega mal é a hipocrisia do Estagirita (epíteto aristotélico): o parco entendimento dos outros (hipercrítica que exerce sobre o próprio mestre) e a excessiva indulgência em relação a si mesmo (a própria filosofia não é depurada e desenvolvida como seu lado crítico da tradição nos faz pensar que fosse capaz). Nesse sentido ele é o pai ancestral de filósofos como Deleuze!

BLÁ, BLÁ, BLÁ… “Em nossa linguagem, designamos o absoluto, o verdadeiro, como a unidade do subjetivo e do objetivo que, portanto, não é um nem outro, ainda que seja ambos de uma vez; pois bem, Ar. se debatera com estas formas especulativas, que ainda hoje seguem sendo as mais profundas, e as expressou com a maior clareza. (…) A unidade é, portanto, uma expressão ruim, antifilosófica, e a verdadeira filosofia não é o sistema da identidade, [referência a Platão] mas seu princípio há de se buscar numa unidade que é atividade, movimento, repulsão e, na distinção, algo idêntico a si mesmo.” Tudo isso continua a nos mostrar que, se queremos derrubar Hegel de vez, devemos levar também tudo de aristotélico a pique!

12.3 FÍSICA ARISTOTÉLICA

“No que se refere ao outro caso, ou seja, a diferença entre o pesado e o leve, que se aprecia nos corpos mesmos, temos que aquele se move mais ligeiramente que este através do mesmo espaço; ‘mas esta diferença se dá somente no espaço cheio, pois o corpo pesado separa mais rapidamente o cheio, graças a sua força’. Esta concepção é absolutamente exata e vai dirigida principalmente contra uma série de representações que fazem estragos em nossa física. Estas representações [fenômeno observável] acerca do movimento igual do pesado e do leve, como as que se referem à gravidade pura, [una] ao peso puro, à matéria pura, etc., são uma abstração, como se se tratara de coisas iguais em si e diferentes somente pela resistência casual do ar. [múltipla]¹” Aristóteles não tem ‘culpa’ alguma de não conhecer a aceleração da gravidade em uma mesma pressão atmosférica, mas Hegel não deveria ignorar Newton! Lembrando que nesta parte não se procede exatamente à história da filosofia, mas da própria física…

¹ Hegel confunde os reinos da aparência e da essência, como se a essência fosse figurada na própria representação! Mas, apesar do modo oblíquo que elegeu para se expressar, Hegel não colide aqui com o modelo da física experimental (contra o que ele mesmo pensa): o que ele quis dizer é simplesmente que não existe o vácuo perfeito, então, na prática, se um bloco compacto de uma liga metálica muito pesada, digamos, de 1 tonelada, cai retilineamente por um abismo ao lado de uma pessoa de 80kg, por mais que essa pessoa seja maior que o bloco e possua ‘mais superfície’ (sofrendo a resistência do vento oposto em uma área maior que a do bloco), não significa que ambos chegariam ao fim do abismo – que deveria ser profundo o suficiente – simultaneamente (após o fim da aceleração da gravidade e o começo da trajetória em que ambos cairiam a 10m/s, uniformemente), pois a resistência do ar ainda seria maior contra o bloco de metal, mais ‘pesada’, anulando sua massa gravitacional. Um tubo de ensaio em que o vácuo perfeito fosse possível seria contraditório com o célebre modelo das ‘quedas idênticas’ porque aí já nem haveria possibilidade de queda dos corpos, apenas repouso. Isso serve para nos darmos conta da futilidade da física como ensinada nos livros-textos escolares em enunciados de exercícios matemáticos: “desprezando-se a resistência do ar, etc.”…

“Quando a água se converte em ar, ganha em extensão; mas a matéria segue sendo a mesma, sem que a ela se some nenhuma outra coisa distinta: o que ocorre é que o que antes era em potência é-o agora em ato.” Também é incrível como o mundo moderno levou tantos séculos para chegar ao mesmo entendimento formal. Dito isto, Ar. continua péssimo metafísico; mas exímio cientista natural!

“Dão uma de espertos aqueles que nos reprovam o fato de incluirmos entre os elementos a água, o ar, etc. Mas nem sequer sob o nome de ‘neutralidade’ os físicos modernos chegaram a uma generalidade concebida como unidade, como a que Ar. atribui aos elementos; em realidade, o hidrogênio, quando combinado com uma base, não segue existindo como tal, segundo às vezes se afirma, dentro da nova combinação.” É verdade que o modo descritivo moderno é pobre, mas H. se esforça além do aceitável para encimar Ar. sobre a Física moderna, vendo na física do Estagirita algo mais do que é.

12.4 ÉTICA ARISTOTÉLICA

RESERVATÓRIO: “O pensamento se converte em entendimento passivo, isto é, em algo objetivo; e assim se aclara agora até que ponto é o nihil est in intellectu, quod non fuerit sensu [nada está no intelecto que já não tenha sido sentido/passado pelos sentidos] o sentido [pun not intended] da filosofia de Ar..” Não pode ser pensado aquilo que não foi sentido Não pode ser pensado aquilo que não foi pensado, pois intelecção e sensação estão imbricados. Tudo que foi pensado foi sentido, etc., etc.. E implicações com os trechos destacados por Derrida na Enciclopédia. (ver link, já citado em outro capítulo, novamente referenciado nas referências bibliográficas ao final)

“Quando o conhecimento é mau ou inclusive inexistente, mas o coração, apesar disso, se comporta bem, poderá, segundo Ar., existir bondade, mas não virtude, já que falta o fundamento, ou seja, a razão, sem a qual a virtude não pode existir.” Sempre traduzir conhecimento na Ética de Aristóteles como sabedoria no sentido schopenhaueriano, para facilitar. E coração como o verdadeiro ethos contemporâneo. Ar. repercute aqui o mito do burro bom. Na verdade eu entendo que ele pode ser no máximo inofensivo (já que a maioria dos burros é realmente má). Falo em Schopenhauer, porque ambos são concordes neste aspecto (diferença entre sabedoria e caráter). Já eu descartaria a existência de um burro bom, ou dum inteligente mau: sabedoria e caráter estão acoplados no caráter do indivíduo, muitas vezes com sua índole ou inteligência camuflada (no caso dos pseudosábios, que são maus mas ocultam sua falta de inteligência socialmente; e dos pseudobons, que são burros mas só não aparecem como maus por falta de oportunidades para exercer a maldade publicamente).

“Daí que Ar., segundo víamos, censure Sócrates por condicionar a virtude exclusivamente ao conhecimento.” Naturalmente que Ar. censura Sócrates, pois que não o entendeu. Aristóteles endeusou (literalmente!) a Razão, mas não entendeu tampouco a razão socrático-platônica: não significa usar o pensamento ou acumular informações. Significa ser sábio. Logicamente, o sábio socrático é virtuoso. Não existe inteligência, para Sócrates, dissociada de caráter – logo se vê que minha concepção descrita acima não é original, mas que sou partidário de Sócrates e Platão neste tema! Ar. entende que aquele que possui a ciência filosófica alcançaria como que por milagre noções éticas em Sócrates e Platão, o que é distorcer seus pensamentos! É muito fácil estereotipar esse entendimento, dizendo que para Sócrates a virtude era uma iluminação individual. Mas esta não é a correta leitura da doutrina platônica (e afinal não sabemos exatamente o quanto da concepção socrática da virtude é apenas uma criação platônica ou não). A ocorrência moderna que chamamos de “erudito que na verdade não passa de velhaco” não refuta ‘a ingenuidade socrática’: ele é um erudito, pois que seja, porquanto querem chamá-lo de erudito, ou permitem que se chame a si de erudito; isto não importa para nós! Ele é um hipócrita que nada tem que ver com a figura do sábio. Tampouco pode-se chegar a essa condição por esforço. Daí a força atual que conserva a metáfora da reminiscência em Platão: ou se nasce bom (sábio) ou mau (ignorante). O fato de uma criança ainda ser ignorante tampouco refuta a tese: através da reminiscência, aquele nascido sábio reencontrará a sabedoria que já está dentro de si. Outro exemplo: um político maquiavélico é tolo, pois não compreende que tudo é vaidade.

“Por conseguinte, na virtude, enquanto esta tende à realização e é atributo do indivíduo, não se pode dizer que seja a razão o princípio único, senão que é a inclinação o elemento propulsor, concreto, o que precisamente na prática e no sujeito tende à realização.” Hegel descreve apropriadamente Ar.. O grifo verde se destina a criticar a compreensão aristotélica da moral: ele decompõe a conduta ética em teórica e prática. Sua delimitação ética é sem dúvida a que norteia a disciplina Ética moderna. Porém, isso é um mal, um retrocesso em relação a Platão. Nietzsche foi o primeiro filósofo a apontar tal erro. A virtude é um atributo inato do indivíduo. Não se pode realizar a virtude quando é-se dela carente, daí a ilusão de que alguém dotado da capacidade teórica (todo homem) de ser virtuoso falha na execução (só executa a virtude aquele que nasceu virtuoso e sábio). Ter conhecimento teórico da virtude e não aplicá-lo na prática é o mesmo que dizer que é-se meio-virtuoso, virtuoso incompleto. Ora, ou é-se virtuoso ou não se o é. É redundante falar em virtude não-realizada, por isso Aristóteles discorda de Platão – pois crê que vale a pena falar desse tipo de meia-virtude. A razão é o princípio único, porém não a razão aristotélica. Isso faz com que Aristóteles tenha de recorrer à ‘inclinação’ como elemento propulsor, uma nomenclatura vazia. Essa inclinação é inata à razão corretamente compreendida no platonismo, e não existe tal decomposição em 2 palavras ou conceitos, em que um se subordina aleatoriamente ao outro. Assim, não é que a Ética seja uma disciplina voltada à prática; ela é teórico-prática, uma unidade, desde o início. Mas o homem moderno não enxerga a validade do teórico, preferindo expulsá-lo do campo ético.

“ainda que se tenha censurado como algo muito insuficiente e indeterminado o fato de que Ar. determine a virtude mais como uma diferença de grau, há que se reconhecer que isto é algo que está implícito na natureza mesma da coisa. A virtude, e mais que nenhuma outra a virtude determinada, entra numa órbita em que ocupa um lugar o quantitativo; o pensamento aqui não permanece em-si, sendo indeterminado o limite quantitativo.” Essa definição é satisfatória no mundo dos moralistas e autores de auto-ajuda, no mundo dos comuns e plebeus. Para um filósofo, é um achado muito aquém do desejável.

“Aristóteles se dava conta, mais ou menos claramente, [?] de que a substância positiva, a necessária organização e realização do espírito prático no Estado, é realizada por meio da atividade subjetiva de tal modo que esta encontra naquele sua determinação. Por isso também é que Ar. vê na filosofia política toda a filosofia prática e o fim do Estado como a felicidade geral. [eudemonismo]” De novo, o mesmo erro. Não existe política apenas prática. A ciência política moderna é Aristóteles desenvolvido: é o que temos, mas não é ciência nem um conhecimento sobre política, ainda. Uma verdadeira ciência política seria A República desenvolvida sobre a Terra, na educação dos povos.

“o princípio moderno, segundo o qual a vontade particular do indivíduo se erige, como o absoluto, no ponto de partida; [a revolução francesa] e assim todos contribuem, mediante a emissão de seus sufrágios, para decidir o que há de reger como lei, estabelecendo a comunidade sobre estas bases. Em Ar., ao contrário, como em Platão, o Estado¹ é o prius, [fundamento originário, pressuposto, dado a priori] o substancial, o fundamental, pois seu fim é o mais alto de todos, desde o ponto de vista da prática.”²

¹ Essa generalização de H. pode custar muito caro em mal-entendidos: “Estado” significa coisas diferentes para Platão, Aristóteles e para o próprio Hegel.

² O leitor fica tentado a se perguntar: se o princípio moderno é o individual e o princípio antigo é o coletivo, qual deve prevalecer, qual é o melhor? A resposta curta e grossa é: nenhum. Não podemos mais defender uma Teoria do Estado, nem tampouco continuar com os pressupostos do Liberalismo, que institui o Homo oeconomicus atomizado, um inútil político.

“Nenhum país como a Grécia abundava tanto em múltiplas constituições quanto em variações dentro de cada uma delas num só Estado, apesar do quê os gregos não chegaram a conhecer em nenhum momento esse direito abstrato dos Estados modernos que isola o indivíduo, deixa-o viver como quer e, não obstante, mantém-no em coesão com todos os outros como num espírito invisível, de tal modo que em nenhum se dê nem a consciência nem a atividade com vistas ao conjunto, mas que cada qual atue para o todo, sem saber-se bem como, tão-só na medida em que se o reconhece essencialmente como pessoa e em que só se preocupa com a proteção de sua individualidade.¹ É uma atividade dividida, de que cada um só tem em suas mãos um fragmento: analogamente como, numa fábrica, ninguém forma um todo, senão só uma parte, e não possui as demais habilidades necessárias, já que somente alguns determinam a coesão do conjunto.” Trecho fundamental para a funda(menta)ção do Marxismo.

¹ H. exagera – e muito – a “perfeição” desse tipo de sociedade…

“A liberdade burguesa, nesse sentido, consiste precisamente na carência do geral, no princípio do isolamento; mas esta liberdade constitui um momento necessário que os antigos Estados não conheciam” É como dizer que Diógenes, o Cínico era uma existência necessária – quase uma confissão de messianismo!

“só agora torna-se possível a consistência interior e a indestrutível generalidade, real e consolidada em suas partes.” O Estado moderno é realmente muito consistente – como exemplifica muito bem a arbitrariedade racional-legal chamada Israel –; só esperamos que não seja exatamente indestrutível! Felizmente, entretanto, Hegel não perde muitas páginas comentando a Política de Ar., um livro ao meu ver extremamente defasado, talvez o mais obsoleto do próprio autor. Como H. deixa claro, a política, em Ar., como atividade prática, está contida na sua Ética (sobre ética, Aristóteles escreveu 3 livros, dos quais temos 2 inteiros e fragmentos de um 3º).

12.5 LÓGICA ARISTOTÉLICA

“Os conceitos determinados se predicam com união ou sem união: assim, p.ex., cabe dizer: o homem vence, o boi anda, ou então: o homem, o boi, vencer, andar.”

As determinações da lógica aristotélicas já foram há muito tempo absorvidas por todos os que filosofam. Quatro noções básicas (abaixo resumo 3 delas) são: o gênero, o geral, o particular e o individual. Hoje achamos tudo isso muito “bobinho” e autoevidente.

EXPLICAÇÃO CONTIDA NA DEFINIÇÃO DE GÊNERO: “O conceito é uma realidade lógica e, portanto, algo em si puramente pensado, i.e., possível. No juízo, postula-se o conceito A como um sujeito real e se o combina com outro algo real, como conceito B; trata-se de que B seja o conceito e de que A se ache dotado de ser com respeito àquele, mas B é somente o conceito mais geral. No silogismo, trata-se de imitar a necessidade: ao passo que no juízo contém-se a síntese de um conceito e um dever-ser, no silogismo dá-se a tal síntese a forma da necessidade, equiparando ambos os termos contrapostos dentre de um terceiro como através do termo-médio da razão, p.ex. no justo meio da virtude. A premissa maior expressa um ser lógico, a menor uma possibilidade lógica, uma vez que Caio [nome próprio] é, para a lógica, um algo simplesmente possível; a conclusão serve de laço de união entre ambos os termos.” Pela explicação, parece muito mais difícil do que é!

Há um problema com a Lógica aristotélica quando avaliada por Hegel, pois falta-lhe a noção do Absoluto, presente na lógica hegeliana. Por isso, o “geral” em Ar. é uma determinação “pobre”, aquém do “geral moderno”, ou geral em H. Veja abaixo:

O GERAL: Aquilo que não é nem ser-em-si (essência, potência, o abstrato) nem ser-para-si (aparência, ato, o concreto). Porém é algo determinável, via diferenciação (pelo princípio da individuação de Aristóteles).

O PARTICULAR: O concreto, partícipe do geral, a aparência que o sujeito pode nomear como momento seu. O predicado determinado-com-referência-a. Poderíamos dizer que se houvesse a reflexão sobre a reflexão nesse processo, seria o Absoluto hegeliano (o ser-em-e-para si); mas aqui não há este desdobrar e retornar a si mesmo da consciência individual, então o processo é incompleto.

O INDIVIDUAL: A aparência pura (fenômeno, representação). O predicado indeterminado. Chamado, em outro tópico do livro, de categoria da substância. Como é mera ação cega, um nível abaixo da concretude, mal é conceituável.

Enfim, ‘memorizar’ essas sutilezas a nada leva, senão que o raciocínio filosófico e o pensamento lógico se formam naturalmente no filósofo. O acrescer o tempo todo homônimos só confunde a cabeça dos neófitos.

“A segunda obra [a Lógica é dividida em vários livros desde a Antiguidade, mas hoje todas essas partes compõem um só livro] é a que versa sobre a interpretação” Provavelmente o que hoje ensina-se como RACIOCÍNIO LÓGICO propriamente dito. Proposições, verdade ou falsidade (inferência e juízo do conteúdo que se contradiz).

13. A RESSACA: FILOSOFIA PÓS-PLATÔNICA E PÓS-ARISTOTÉLICA

13.1 ESTOICISMO, EPICURISMO, CETICISMO & OUTRAS ESCOLAS PERIFÉRICAS DO PENSAMENTO: UMA VISÃO COMPARATIVA.

“Com efeito, se os estóicos remontassem sobre o simples conceito de agir ao serviço do fim que é em-si e penetrassem no conhecimento do conteúdo, não necessitariam expressar isto como um sujeito. A própria conservação racional do homem é, para eles, a virtude.” A filosofia estóica é uma primeira desagregação, ou segunda, após Aristóteles, da ética teórico-prática platônica: é quem dita uma ética apenas prática, como o Ocidente já a entende, mas unilateral de acordo conosco, pois que necessita da “escola gêmea”, o epicurismo, para ser total, ser uma ética completa da virtude prática (que já é em si inferior ao platonismo).

“A realidade moral consiste precisamente nisto, em ser; pois do mesmo modo que a natureza é um sistema permanente e ente, [ser, contido em si mesmo, ‘independente’ do homem] também o espiritual tem que ser isso: um mundo objetivo. Mas a esta realidade não chegaram os estóicos. E este pensamento poderia se expressar também assim: sua realidade moral é só o modo, [a forma] um ideal e não uma realidade” A.k.a. Platão, principalmente n’O Banquete e no Fédon. Afinal, quem nunca foi queimado dentro dum cavalo de madeira nem cortou a própria jugular a mando do imperador nem tomou de livre e espontânea vontade a cicuta após ser condenado na assembléia ateniense nada pode discorrer sobre essas 3 consumações (a morte ‘dolorosa’): não pode dizer que morrer queimado vivo é em si pior ou melhor do que infligir-se um corte ou tomar veneno, ou mesmo que ser banido de sua polis. O sábio resigna-se ao seu fado, e é só.

H. começa a especular, p.ex., se estaria vivendo estoicamente um estóico que declarasse que é irracional, em que pese de certa forma natural, respeitar a propriedade privada, para polemizar com os apologistas do ideal estóico (já que isso não parece ter importância alguma no estoicismo concreto ou histórico): “Tratar de justificar por meio de um fundamento semelhante conteúdo é, por conseguinte, confundir o conhecimento das coisas em detalhe com o conhecimento de toda a realidade; é a superficialidade do conhecimento que se nega a reconhecer algo por não reconhecê-lo desde tal ou qual ponto de vista ou em tal ou qual aspecto, e única e exclusivamente porque só indaga e conhece as razões imediatas, sem que possa saber se existem também outros aspectos e outras razões.”

“sou eu, então, quem faz surgir estas razões sábias e boas. Não são as razões mesmas a coisa, o objetivo, senão que são obra de minha livre vontade, do meu capricho, algo de que me valho eu para justificar ante mim mesmo minhas nobres intenções” Para o sábio, isto faz sentido e é seu mundo – para a maioria massacrante da população, não.

“A firmeza formal do espírito que se abstrai de tudo não nos sugere nenhuma evolução de princípios objetivos, mas apenas um sujeito que se mantém em pé nesta imutabilidade e nesta indiferença, não cega, porém querida; e nisto consiste a infinitude da consciência de si mesmo.” “A força da repulsa à existência é grande e a energia desta atitude negativa, sublime.” “Ao desaparecer a existência política e a realidade moral da Grécia, e quando mais tarde tampouco o império romano pôde encontrar satisfação no presente, este mundo se recolheu sobre si mesmo, buscando dentro de si o justo e moral que havia desaparecido já da vida geral exterior. § Platão proclamou o ideal de uma república, ou seja, de uma vida racional dos homens dentro do Estado, pois esta vigência do direito, moralidade e costume era, para ele, o fundamental, o que forma o lado da realidade do racional; e só mediante este estado racional do mundo podia, segundo ele, existir a harmonia do exterior com o interior, neste sentido concreto.” H. superestima a esperança platônica de que teríamos o Estado do sábio, que fosse um programa para seguir, ainda que não fosse uma utopia no sentido de Thomas More. Como o próprio H. determinou no lugar certo, tratava-se de uma “Esparta melhorada”, concebível, ao menos, no mundo grego, antes do ocaso completo de Atenas. Ainda assim, não há nada de histórico na República. É realmente muito mais um subterfúgio para imaginar onde e quando um autoeducado sábio poderia viver para sua máxima plenitude, ao lado de outros raros como ele. A não ser que projetemos para um futuro indefinido essa realização social. De toda forma, Hegel apenas repisa a grandeza de Platão com sua escrita estrambótica (é estrambótico dizer estrambótico), i.e., empregando seus jargões “lado da realidade racional”, “estado racional do mundo”, “sentido concreto”, etc., hegelianizando o platonismo (enfeiando o belo).

“É aquela anuência com que nos encontrávamos nos estóicos como o assentimento que o pensamento dava a um conteúdo; contudo, o pensamento que reconhece a coisa como algo seu e o incorpora a si não passa, nos estóicos, de algo puramente formal. Em Epicuro, ao contrário, também a unidade da representação do objeto consigo mesma se acha presente na consciência como uma recordação, mas esta recordação tem como ponto de partida o sensível; a imagem, a representação, é o assentimento prestado a uma sensação.” “O nome é certamente algo geral, pertence ao pensamento, faz do múltiplo uma coisa simples, é inclusive o mais ideal que cabe conceber: porém de tal modo que sua significação e seu conteúdo são o sensível e não devem valer como este algo simples, mas como o sensível. Esta coisa simples nos conduz não ao saber, mas à opinião.” “A opinião é, com efeito, uma representação como aplicação da opinião-como-algo-pressuposto, isto é, uma aplicação do tipo a um objeto presente, que se investiga a fim de ver se a representação do objeto coincide ou não com o objeto.” Opinião como representação fundamentada. Isto é: representação pura é apresentação. Opinião é que é re-presentação. Que são as estrelas, o firmamento? Uma apresentação à qual damos fé em virtude de nossas representações terrenas. Uma quase-opinião.

“Tais são os pontos fundamentais da canônica de Epicuro, a pauta geral para a verdade; é tão simples que não pode haver nada mais simples, mas é também muito abstrata. São representações psicológicas correntes, justas em seu conjunto, embora completamente superficiais; é simplesmente a mecânica da representação do ponto de vista das primeiras manifestações da percepção.” Acontece que a filosofia voltará a essa ‘simplicidade’ depois da derrocada do Idealismo universalista.

“Hoje até os céticos falam dos fatos da consciência; está claro que o que eles nos dizem não vai, tampouco, além da canônica epicurista que acabamos de expor.” Céticos: menos céticos que os cínicos; cínicos: mais cínicos que os céticos. O cinicismo (para diferenciar de cinismo, adjetivo corrente no nosso idioma e que quer dizer agora outra coisa) foi historicamente bastante anterior, em parte contemporâneo ao sofismo e a Sócrates, em parte apenas herdeiro de ambos. Não tem relevância para o percurso da Primeira filosofia, mas apenas certa repercussão biográfico-historiográfica, com relatos pitorescos de algumas personalidades como Diógenes, o pensador sarcástico ateniense que vivia, de uso, num tonel, e apenas de posse do sumamente necessário. Por essa razão (não é de absorção obrigatória para o entendimento da mais alta Filosofia), a escola cínica não consta deste Curso (até consta, mas não no meu resumo das aulas de H.).

“Enquanto que Epicuro considera as coisas, segundo acabamos de ver, como repletas da multiplicidade dos átomos, temos que o pensamento é o outro momento além dos átomos, o vazio, os poros, o que permite erguer um dique diante desta enxurrada de átomos.” “apartamos a vista de algo, ou seja, interrompemos precisamente este fluxo.” Princípio da individuação e coerência – ou viver tornar-se-ia impossível. Um filósofo do momento presente.

“Os átomos, enquanto átomos, devem permanecer indeterminados; mas os atomistas se viram arrastados à inconseqüência de lhes atribuir qualidades” Surpreendentemente contemporâneo, considerando os desenvolvimentos posteriores da Química. Mas o que interessa para nós é: o epicurismo é uma espécie de ‘correção de rota’ dos filósofos pré-socráticos da escola atomista.

A birra-mor de H. com o epicurismo é que seu sistema não pode ser teleologizado! “conseqüente com seus atos, Epicuro se declara imediatamente contrário à existência de um fim último geral do universo e de toda relação de fim em geral, como, p.ex., da finalidade do orgânico em si mesmo, assim como também é contra as representações teleológicas da sabedoria de um criador do universo, de seu governo do mundo, etc.;¹ e nisto sua atitude não pode ser mais lógica consigo mesma, já que em sua concepção resta eliminada toda unidade, qualquer que seja o modo como esta se represente, seja como fim da natureza nela mesma, seja como um fim que, ainda que residindo noutra coisa, faz-se valer na natureza; nos estóicos, em compensação, encontramos este ponto de vista teleológico e, ademais, bem-desenvolvido.”

¹ Agora entendo melhor a acusação de ateísmo e heresia contra Epicuro! (Não lançada por H., mas pelos próprios antigos.)

“a partir do conhecido podemos deduzir o desconhecido.” Que é o homem?, teria perguntado Drácula. E ele mesmo respondeu, sem aguardar seu estupefato interlocutor, mero humano que não filosofava: É alguém incapaz de seguir Hegel! É alguém que prefere seguir pelas sendas de Epicuro e Kant para conhecer a natureza e aquilo que excede à natureza! E Drácula estava correto em seu juízo sobrenatural, i.e., de semideus que refletia sobre essas coisas…

Grosso modo, podemos ainda dizer: Hegel é aquele para quem o desconhecido é aquilo que podemos deduzir do conhecido – nenhum descalabro maior!

“é, em realidade, o mesmo princípio que segue regendo hoje em dia na ciência natural comum e corrente.” Só bastaria, aliás, mais tato aos físicos quânticos: se não imaginassem demais, deduziriam coisas mais fidedignas e modestas, longe de buracos de minhoca e que-tais…

“Chega-se à noção de representações, leis e forças gerais, tais como a eletricidade e o magnetismo, as quais se aplicam depois aos objetos e atividades não-suscetíveis de ser diretamente percebidas por nós. Assim, p.ex., sabemos da existência dos nervos e de sua interdependência em relação ao cérebro; e dizemos que as sensações, etc., se transmitem desde a ponta do dedo, suponhamos, até o cérebro mesmo. (…) A anatomia pode nos revelar os nervos, mas não seu modo de atuar; pois bem, não há nada senão se representar tal modo por analogia com outros fenômenos, p.ex. com as vibrações de uma corda tensa, equiparando às cordas vibráteis as vibrações dos nervos até chegar aos centros cerebrais. Ou como no conhecido fenômeno que se observa, sobretudo, numa série de bolas de bilhar colocadas muito juntas umas das outras, em que a última da fila avança quando empurra-se a primeira, enquanto que as intermediárias, cada uma das quais impulsa aquela que segue, não se movem, na aparência; nada resta, pois, senão imaginar-se os nervos como formados por bolinhas pequeníssimas, invisíveis ainda que através das mais poderosas lentes de aumento, a última destas bolas aquela que salta ao contato das anteriores e toca (movimenta) a alma. Analogamente, a luz concebe-se como uma série de fios ou raios, como vibrações do éter ou como bolinhas etéreas que se chocam entre si. [!]” Espantosamente, H. sabia muito bem no que o epicurismo repercutia em nossa epistemologia atual – mas decidia jogar tudo no lixo, enquanto se trata de hegelianismo decantado de ‘impurezas indesejáveis’. Se soubeste descrever a luz antes do séc. XX, este é um sinal de que acertaste!

“Advirta-se que, nesta classe de explicações, Epicuro é expressamente bem liberal, eqüitativo e tolerante, posto que diz que as diversas representações que se formem em nós com relação aos objetos sensíveis – todas elas, por demasiadas que sejam – podem ser aplicadas ao que não podemos observar diretamente por nós mesmos; que não se pode afirmar um só modo como o acertado, mas que se pode chegar ao resultado que se busca por diversos caminhos.”

“O raio pode ser explicado por meio de toda uma série de possíveis representações, p.ex. a da fricção e colisão das nuvens, que produzem a figuração do fogo e provocam o raio.” “É exatamente o mesmo método a que recorrem nossos físicos, ainda hoje, a fim de explicar como se produz a chispa elétrica nas nuvens, ao se chocarem. Com efeito, como tanto no raio como eletricidade se observa uma fagulha, toma-se este elemento comum como base para chegar a conclusões acerca da analogia entre ambos os fenômenos, afirmando-se que também o raio é um fenômeno elétrico. Ora, as nuvens não são corpos duros, e a umidade, longe de produzir eletricidade, na verdade dispersa-a; por isso estas conversas fiadas dos físicos de hoje são em realidade tão vazias como a representação de Epicuro.” Tá bom, Hegel, doutor em física fenomenológica (física do mundo experimental)!

“A filosofia epicurista jogou pela janela todas aquelas crenças supersticiosas em torno do vôo das aves num sentido ou outro, da significação que podia ter a lebre cruzar o caminho, da inspeção das entranhas dos animais, da alegria ou tristeza das galinhas, [!] etc.” De novo apenas reprise de Platão.

“Sendo assim, não existe qualquer diferença essencial entre o tipo de vida do estóico e do verdadeiro epicurista que se ajuste às normas e aos preceitos de seu mestre. § Todavia, ainda que à 1ª vista pareça que já os cirenaicos [escola periférica de filosofia] proclamavam o mesmo princípio moral que mais tarde haviam de preconizar os epicúreos, Diógenes Laércio (X, 139, 136-137) se encarrega de assinalar a diferença nos seguintes termos:¹ os cirenaicos se propunham como fim antes o prazer como algo concreto, ao passo que Epicuro predica-o como um meio, afirmando como prazer a ausência da dor, sem admitir nenhum estado intermediário.” Reflexões pessoais (recomendo a leitura apenas para quem já se familiarizou com Nietzsche): Talvez Nietzsche tenha compreendido mal o epicurismo e o estoicismo. Bom, não é impossível: julgo que compreendeu mal Parmênides, ao não alçá-lo à altura de um Heráclito… Ausência de dor não é um critério nobre, supra-hominídeo. Nietzsche ataca os estóicos e é claramente favorável ao epicurismo. No entanto, como enaltece o valor da dor como escape da polêmica hedonismo vs. ascetismo, procurando pensar além do binômio estéril e superficial dor-prazer, cabe aqui assinalar, se H. está correto neste ponto (e creio que esteja, que estoicismo e epicurismo são os dois lados de uma mesma moeda), que os epicuristas não haviam conseguido, ainda, escapar desse dilema, sobrevalorizando a dor em sua ética.

¹ Finalmente uma contribuição conceitual de Laércio! Diógenes Laércio, que é um historiador da filosofia, e não filósofo, é infelizmente um mau historiador. Às vezes, em termos de filosofia antiga, torna-se inevitável consultá-lo dada a falta de fontes – mas eu não recomendo sua leitura completa, muito menos de maneira inocente; é preciso sempre estar desconfiado da veracidade de suas afirmações. Ele se enquadra mais no que o próprio Hegel chamaria de “fofoca filosófica”, contando anedotas e curiosidades sobre a vida dos grandes pensadores. É difícil vê-lo falando algo relevante sobre os conceitos filosóficos desses mesmos personagens.

“Além disso, os cirenaicos consideravam as dores do corpo como piores do que as da alma, ao passo que o ponto de vista de Epicuro era o oposto.” Dor física é bom demais – vocês já experimentaram correr até a exaustão?!

“Epicuro quer que o homem se forme uma noção exata da morte, para que esta não turve sua tranqüilidade. (…) ‘Em seguida, acostuma-te a pensar que a morte não deve nos preocupar o mínimo que seja, pois todo o bom e o mau reside nas sensações, e a morte é o despojo de toda sensação. Daí que o pensamento certeiro de que a morte não nos afeta faça do caráter mortal da vida uma fonte de gozo, já que este pensamento nos aparta da infinitude e da ânsia da imortalidade. Pois nada há de temível na vida para quem chegou verdadeiramente a conhecer que o não-viver não tem nada de temível.’” Famoso trecho de Epicuro que, creio, Sartre citou n’O Ser e o Nada e eu cheguei a anotar num papelito que guardava na carteira, coisa de 10 anos atrás – até as chuvas brasilienses esfarelarem o pobre material!

TODOS FILHOS DE GÓRGIAS: “Há que se distinguir entre o ceticismo antigo e o novo ceticismo; a nós só nos interessa o primeiro: só ele apresenta uma natureza verdadeira e profunda, uma vez que o novo está mais próximo de ser um epicurismo. [?] Deste modo, nos últimos tempos, Schulze vem predicando em Göttingen seu ceticismo e escreveu um livro intitulado Enesidemo, com o intuito de comparar-se com este cético [este obscuro Enesidemo!], interpretando, em outras obras, o ceticismo em contraste com as doutrinas de Leibniz e Kant.” “Este e outros autores tomam como base de sua concepção a crença de que se deve ter por verdade o ser sensível, o que a consciência sensível nos entrega, duvidando, em troca, de tudo o mais. O que opinaríamos seria o último, o único importante, os fatos da consciência.” Algo me diz que estamos todos em Schulze neste momento da humanidade… Não conheço Schulze nem Enesidemo, detesto desapontá-los!

“O ceticismo moderno é a subjetividade e a vaidade da consciência, evidentemente insuperável, claro que não nos terrenos da ciência e da verdade, mas somente no terreno da própria consciência, ou seja, no da subjetividade.” Não sejais cético; sede ético!

CONSUMISMO E CETICISMO ABSOLUTO: Falta de ética

O consumismo é o ceticismo individual elevado a modo de produção. Mero deixar-passar hesitante robótico. Hiato indefinido de cultura e humanidade. Recesso da História. Se o momento pode ser procrastinado por meio de simulações, há de haver uma pane da engrenagem de simulação, da matriz simulacional. Do motor que emite todos os simulacros, a simulação das simulações. Há de vir, advirá, porém são séculos de filme mudo enquanto isso…

“Sexto Empírico viveu e ensinou aproximadamente em meados do século II d.C.. Suas obras se dividem em 2 partes: 1) Suas Pyrrhoniae Hypotyposes, em 3 livros, oferecem-nos, de certo modo, uma exposição geral do ceticismo em seu conjunto; 2) De seus livros Adversus Mathematicos —isto é, contra a ciência em geral e especialmente contra os geômetras, aritméticos, gramáticos, músicos, lógicos, físicos e éticos—, que constituem 11 livros no total, somente 6 são dirigidos de fato contra os matemáticos, já que os 5 restantes se dedicam a polemizar contra os filósofos.” [!]

“Quem busca um objeto tem: ou que encontrá-lo; ou que negar que ele possa ser encontrado; ou seguir buscando-o. Outro tanto acontece com as investigações filosóficas: uns afirmam haver encontrado o verdadeiro, outros negam que seja possível chegar a captá-lo; os terceiros, por fim, perseveram em sua busca. Os primeiros, tais como Aristóteles, Epicuro, os estóicos e outros, são chamados dogmáticos; quem afirma a impossibilidade de chegar a captar a verdade são os acadêmicos [platônicos]; os céticos seguem na busca. Existem, pois, 3 filosofias: a dogmática, a acadêmica e a cética.” Neste conceito Platão é o rei dos céticos, e com Razão! Mas falando sério: é genialmente estúpido, ou estupidamente genial, já que Sexto Empírico inverte exatamente sua própria escola (o ceticismo não deixa de ser um dogma) com o Platonismo: a Idéia entendida corretamente (anti-hegelianamente) é a busca eterna pela sabedoria. Não estou inventando, a menos que queiram me dizer que o dito no Banquete é mera figura de retórica e que fui ludibriado: levo essa passagem ao pé da letra. Quanto ao cético, é aquele que já desistiu de encontrar a coisa, mesmo quando finge para si mesmo que se empenha em procurá-la!

“O princípio eficiente do ceticismo é a esperança da imperturbabilidade.” É como dar-se por vencedor hoje de todas as tribulações do amanhã. O amanhã já foi, mas quê importa, que é que tem de mais, ser um perdedor?!? Confessar-se nada mais que um fodido é o princípio (pun intended) da vitória (Sócrates, alguém?). Tens que ter um prato de comida preferido, uma banda favorita e, claro, hobbies, ou serás só um vento mau!

OS 5 TROPOS DOS CÉTICOS (DOGMAS QUE, UMA VEZ REFUTADOS NA PRÁTICA, E NÃO NA RETÓRICA, CURAM O FILÓSOFO DO MAL DO CÉTICO, DIGO, DO MAL DO SÉCULO!)

1. As opiniões divergem. Não as ‘opiniões’ (sensações) animais nem as opiniões do simples ‘homem’. Mas as opiniões dos sábios! (rever 2.2) O argumento poderia ser resumido da forma seguinte: Se fosse possível um consenso filosófico e uma filosofia universal, este consenso e esta universalidade já teriam sido alcançados. Implicações, se não se refuta o ponto: Hegel tenta a Síntese Suprema – falha; Nietzsche, a Escola Crítica & os pós-modernos insistem em acusar o erro. Ainda estamos recolhendo os cacos e estilhaços em que a Filosofia Continental se partiu então. De fato só o ceticismo chega a sua meta em cada geração. Se muito se diz por aí que “o século XX ainda não terminou”, eu poderia levar ao extremo essa noção dizendo que, se Sexto Empírico segue atual, “o século II ainda não terminou”! O verdadeiro filósofo deve viver esta verdade (este tropo), mas seguir buscando a sua verdade, que, se for verdadeira, será universal… Deve aprender a lidar com esta contradição interna.

2. O axioma da queda no progresso (ou recesso) infinito. Cada afirmação necessita um princípio ou axioma; cada princípio ou axioma necessita de uma nova fundação; que necessita de um novo dogma assentador, etc. Um sério inimigo do Idealismo Romântico; mas Kant, p.ex., parece nada sofrer com este tipo de refutação! A cura é o a priori. E o a priori kantiano leva de volta à teoria das reminiscências ou metempsicose, que muitos atribuem, originalmente, ao hinduísmo. Podemos fazer 2 analogias a respeito do axioma da progressão/regressão infinita: a criança que sempre perguntará “por quê?” após qualquer resposta a um outro por quê; na própria mitologia hindu, quando se diz que o mundo é um disco sustentado por um elefante que jaz sobre o dorso de uma tartaruga, que faz as vezes de Átlas… Já se vê onde (não) quero chegar. Interessantíssimo: descobri que há pelo menos 3 versões independentes do mesmo mito com pequenas variações (o da tartaruga-suporte): a indiana, a chinesa e a de aborígenes americanos.

3. O tropo que eu chamo de “Zagallo” (o patriota fake): Nenhum juiz é isento para julgar o que quer que seja, pois só ocupa um lugar relativo, e portanto errado de acordo com todo outro juiz. Com efeito, é um argumento muito sagaz contra patriotas de última ocasião e/ou numerólogos maníacos (Olavos)! Falando mais sério, significa que nem mesmo se se admitisse em geral que Platão é ‘o filósofo’ e encontrara a Verdade, por exemplo, nem mesmo isto é aceito pelos céticos.

4. Este argumento é engenhoso porque parece uma refutação cética contra os próprios argumentos 1-2-3: Existe sim este Absoluto do qual derivam todas as causas. Ex: a matemática de Euclides. Ou seja, é possível aceitar um princípio sem prova. Mas o hic salta (o momento da verdade ou, neste caso, da falta de verdade) é: o cético se beneficiaria da mesma regra. Significa parar de remar e aceitar que tudo é água (mais uma vez atestando que são os céticos que “param de procurar”, não os platônicos!). A suprema resignação. A opinião do sábio aplanada, nivelada à opinião vulgar. (Argumento engenhoso, que já denota, porém, o desespero do filósofo cético.)

5. Prova circular. Variante do 2º tropo, mas em que em vez de derivar-se de axioma em axioma em linha reta ao infinito, deriva-se em um círculo vicioso. Situação do viajante no tempo e do destino inalterável: tudo é a causa de tudo, nada é a causa de nada. A e B se sobredeterminam. Aporia. É um infinito-no-finito. A solução parece ser a mais fácil de todas: a correta compreensão da imanência (compreensão do mundo como aparências auto-suficientes, contidas em si mesmas, consigo mesmas como fundamento primeiro e fim último) leva à consideração desta derivação axiomática não como um círculo vicioso, mas como um círculo virtuoso. Autoevidência da verdade.

Esses 5 pontos seriam os Elementos ou a Bíblia dos Céticos. Atemporais e independentes de demonstrações no mundo fenomênico.

De modo que os adversários de Sexto Empírico se vêem forçosamente na situação do ladrão que perdeu e foi pego já antes de empreender sua fuga, pois não conseguem abstrair até que ponto vai a malícia e a antecipação do daimon (gênio) de seu rival, o captor:

Supondo que o ladrão antecipasse que, na única via que pode usar para fazer a travessia, o amontoado de moitas estranhamente situado sobre a grama ou a estrada na verdade ocultam um insidioso alçapão, e pule para a esquerda ou para a direita, rente ao muro, para tentar atravessar pelo estreito umbral que lhe resta, eis que descobre que o umbral era a verdadeira armadilha, pois aciona uma corrente que o prende ou então uma bigorna que cai do céu em sua cabeça; não que a moita realmente não cobrisse um buraco, mas ela servia apenas para dar confiança ao suposto astuto ladrão e forçá-lo ao xeque-mate (distração antecipada). Uma amarelinha maldosa em que o jogador já perdeu antes de começar.

Como falei de Kant como panacéia ao 2º tropo, H. também o considera na continuidade do texto (aula): “Para o criticismo, que não conhece em-si algum, nada absoluto, todo saber sobre o que é em-si como tal é dogmatismo, quando em realidade é o mais furioso dos dogmatismos, enquanto assegura que o Eu, a unidade da consciência de si mesmo, oposta ao ser, é em-e-para-si e que à margem dela está o em-si, como 2 fatores que não podem, em absoluto, coincidir.” O engraçado é que Hegel vê em Kant tudo o que nós não vemos: uma repulsão extrema ao Absoluto. Quando o que mais se critica na epistemologia kantiana é seguir se referindo ao que não existe como se existisse (este em-si divorciado da realidade fenomênica)! Ou seja: Hegel tacha Kant de radical; nós de carola! Ainda era possível ir além, e a filosofia pós-hegeliana mostrou que a solução era voltar a Kant para enfim superá-lo. De certo modo a Filosofia Continental sempre pode ser caracterizada como a oposição polar de 2 figuras, desde Platão-Aristóteles a várias duplas mais recentes, Marx-Nietzsche, por exemplo: dois sucessores-negadores. Marx continua o historicismo hegeliano subvertendo-o; Nietzsche, acerbo crítico da moral (cristã, ocidental), na verdade é um salvador da moral (no sentido mais universal) e da noção de valor, destarte tributário do Kantismo…

* * *

“Honra ao ceticismo o haver chegado a adquirir esta consciência acerca do negativo, concebendo as formas do negativo deste modo determinado.”

“Se, não obstante, o ceticismo se atreve a se enfrentar com este algo propriamente especulativo, não poderá atentar contra ele em nada; seu procedimento contra o racional consiste, pois, em geral, em fazer dele algo determinado, nele introduzindo uma determinação finita do pensamento ou um conceito de relação ao qual se atém, mas que não reside, muito menos, no infinito, argumentando logo contra ele; quer dizer, consiste em concebê-lo de um modo falso, assim o refutando. Ou antes diríamos que arma ele mesmo ao infinito com as unhas com que há de arranhá-lo.” The dog that bites the hand that feeds. O cachorro que morde a mão que alimenta.

“Hoje até o especulativo se converte em algo tosco; pode alguém ater-se à palavra e, no entanto, aparece invertida a coisa, ao despojar-se o especulativo da identidade do determinado.” Convenhamos que não teria graça refutar Max Stirner pela lógica.

“Ora, o saber do especulativo requer, além da disjuntiva, um terceiro termo; é um tanto este como o outro e um nem este nem o outro.”

Um todo, ou o Um, não é só Um, embora não seja dois. É que o Um é a negação de si. Neste sentido é que H. prefacia sua história com a estranha terminologia “o Um (se des)dobra”, a consciência, o filosofar, se duplica sobre si mesmo(a). O todo é sempre o todo em relação consigo. A consciência é sempre a consciência de si mesma (consciência x consciência, onde ‘x’ é o terceiro termo ou a ‘relação’ – relação-com-a-consciência é uma contradição ou insuficiência, pois só pode haver relação-com-a-consciência-e-a-consciência, desdobramento ensimesmado). Toda consciência necessariamente se nega, porém necessariamente apenas para se reafirmar ao fim do processo. “O compreender-se a si mesma da razão é precisamente o modo como o todo compreende todas as suas partes, quando se o enfoca em seu verdadeiro sentido especulativo, e só neste sentido pode-se falar aqui desta relação.” “O ceticismo pertence, portanto, ao período de decadência da filosofia e do mundo.”

13.2 IDADE DAS TREVAS: DO NEOPLATONISMO À ESCOLÁSTICA OU O MILÊNIO PERDIDO

FOSSILIZAÇÃO DO MUNDO-VERDADE CUJO AUGE SE DEU EM PLATÃO: “O ponto de vista geral da filosofia neoplatônica ou alexandrina consiste, portanto, em se criar sobre a base da perda do universo que seja, dentro de sua exterioridade, um mundo interior e, portanto, um mundo reconciliado; e este mundo é o da espiritualidade, que aqui começa.”

“A mesma liberdade, bem-aventurança, imperturbabilidade que perseguiam como fim o epicurismo, o estoicismo e o ceticismo segue sendo agora, é verdade, uma aspiração para o sujeito; mas facilitadas essencialmente pela orientação em direção a Deus, do interesse pelo verdadeiro em-e-para-si, e não da evasão do objetivo” Eis o maior erro: pressupor que as massas podem cumprir esse desígnio sábio imanente!

“É falso o que sói dizer-se, que não é necessário conhecer Deus para conceber esta relação. Porquanto Deus é o primeiro, é Ele quem determina a reação; destarte, a fim de chegar a saber o quê é o verdadeiro da relação é necessário conhecer Deus.” Supondo que isso estivesse correto, também estaria correto que matar Deus é igualmente necessário ao final do processo…

“A palavra tem sido considerada sempre como uma manifestação de Deus, porque não é corporal; enquanto som, desaparece imediatamente; sua existência é, pois, imaterial.” A música e a palavra como símiles eternos de Hegel para a transitoriedade e o efêmero, como a chave para entender, ao menos, sua Estética.

“em realidade, quando estabelecemos o ser, o nada do ser é o pensamento, algo muito positivo.” Por mais boba, pedestre e trivial que soe, esta frase é fundamental para compreender H.!

“Proclo marca a culminação da filosofia neoplatônica; ora, esta filosofia segue se manifestando até uma época muito tardia, inclusive através de toda a Idade Média.” Período nulo em termos de filosofia. Não perder nenhum segundo com estes autores!

Um paradoxo: Hegel chama os gregos de incompletos e ingênuos, mas a primeira parte de suas aulas, módulo 1 de 3, dedicado ao mundo antigo, ocupa 75% de sua obra… Agora a marcha do Espírito mal tem o que fazer…

“Dessa forma, a Igreja se acha governada pelo Espírito para poder se ater às determinações da idéia, mas sempre de um modo histórico. Tal é a filosofia dos Padres da Igreja” Em outras palavras: os Padres da Igreja estavam certos até serem abandonados pelo Espírito, que se alojou em Luteros e Calvinos! Pra onde Ele foi? Onde estará agora?!

A maior obra do período escolástico (que alguns subdividem em patrística-escolástica, sendo esta pertencente à 1ª parte), Cidade de Deus, de Sto. Agostinho, não consta das palestras hegelianas…

14. REALISMO X IDEALISMO: POR TRÁS DAS CORTINAS, NACIONALISMO.

H. deixa claro – realismo e idealismo não são 2 rios ou 2 vias de mão única. Não há simetria. O realismo certamente só pode confluir num sentido – do particular (dados imediatos, que não deixam por isso de ser mentais), pois são fenômenos, para AS IDÉIAS; e ainda assim não A IDÉIA, isto é, a mais elevada de todas, o ABSOLUTO. Para H., a investigação empírica só funciona para descobrir leis da física ou uma ou outra lei política ou princípio ou axioma do Direito. Mas o idealismo conflui nos 2 sentidos, é muito mais perfeito. Pelo pensamento (o Único) se acessam as coisas; pelas coisas – o particular – se chega ao geral, ao pensamento do absoluto (A IDÉIA). Em síntese, a experiência é limitada, embora seja humana e, de qualquer forma, melhor do que a abstração vácua (escolástica). Veja que há “geral” e “geral” em H.: gerais e gerais; uns são apenas conceitos (o limite do realismo), outros são apenas uma fase intermediária do idealismo. O geral está sempre em contraposição ao determinado, que é o fenômeno puro, poder-se-ia dizer, carente da generalização sistemática – mas tem-se de perguntar: em qual contexto? De qual geral se está falando? Sempre que se ler H. isto tem sua importância.

I – As coisas são sempre meio, nunca fins.

II – Os fins, se determinados pela experiência, são apenas meios para os fins absolutos ideais.

“E contudo ambas as direções vêm convergir num ponto comum, já que também a experiência, por sua vez, se esforça por derivar das observações princípios e leis gerais; já o pensamento, partindo do geral abstrato, necessita se dar um conteúdo determinado, por onde o apriorístico e o aposteriorístico não formem 2 campos absolutamente deslindados. Na França, impôs-se preferencialmente o geral abstrato; na Inglaterra prevaleceu, na contramão, o geral, o critério da experiência, que ainda hoje goza de grande recomendação naquele país; a Alemanha, em compensação, tomou como ponto de partida a idéia concreta, o interior do homem, pleno de ânimo e espírito.” Nonsense. Hegel quer dizer que em seu país se está no melhor dos mundos; que em sua filosofia se está no verdadeiro. No mais verdadeiro que os outros verdadeiros! O difícil para Hegel é ir além do a priori kantiano, que é um tipo muito especial de a priori, mais elevado que o a priori francês, se podemos assim dizer. Aqui não é o lugar para tratar do criticismo kantiano, que é, efetivamente, a síntese correta, e antes mesmo de Hegel aparecer. Seja como for, Hegel tem de recorrer a um suposto Espírito do Mundo para pretender estar um grau acima de Kant em objetividade. Uma objetividade divina (em-si!)! Alega que não só a representação mental, mas o mundo como matéria viva, o em-si kantiano, não-partícipe da experiência, é sinônimo com sua representação mental, mas se, e somente se, se souber “rastreá-lo”, “sentir seu cheiro”, que é o que ele faz em seu Historicismo. Isso, no entanto, é o vulgar e depreciativo de sua filosofia. O em-si só pode ser em-si enquanto for inessencial no sentido hegeliano, i.e., o que se chama a partir de Schopenhauer de vontade, e que a terminologia existencialista abandonará, mas continuará usando implicitamente. O que é inessencial não tem “agenda própria”, não tem fim em vista, teleologia, apenas é, com-o-homem.

15. BACON

“Ainda que não o soubesse nem se desse conta, a filosofia de Bacon empurrava a essa confusão quanto ao conteúdo. Pois ainda que em rigor rechaçasse a dedução de um modo geral e só admitisse as conclusões indutivas, não resta dúvida de que ele mesmo incorre, inconscientemente, em deduções. Em parte, todos aqueles heróis da experiência que, seguindo Bacon, puseram em prática seus postulados e que crêem chegar ao conhecimento puro da coisa pela via da observação, o experimento e a experiência, o que fazem é proceder sem nenhuma classe de conclusões nem conceitos, compreendendo e concluindo tanto pior quanto mais crêem não ter nada a ver com os conceitos e, ademais, não remontam nunca o plano da indução até o conhecimento imanente e verdadeiro. Portanto, quando Bacon contrapõe a indução ao silogismo, formula uma contraposição puramente formal; toda indução é, ao mesmo tempo, uma dedução, coisa que já sabia também Aristóteles.” Toda observação é ideológica. Mas é possível construir novas ideologias mediante observações. Isso se conforma ao que eu havia afirmado parodicamente sobre criarmos o neologismo endução (12.1).

16. DESCARTES

“A 2ª fase é a da conciliação metafísica; e é realmente aqui onde, com Descartes, começa a filosofia da época moderna enquanto pensamento abstrato.” Descartes resumido como SUSPENSÃO ACEITAÇÃO. Pseudo-suspensão, já que depois todo o fenomênico é automaticamente aceito, pois provém de Deus em última instância, i.e., provém imediatamente de mim, da consciência pensante, e Deus não pode dotar meu intelecto de um erro ou de uma fraude metafísica. E no entanto isto já é suficiente, conforme H., para se adentrar a modernidade: “E assim se apresenta o problema de como é ou pode ser o pensamento idêntico ao objetivo. Com isso, destaca-se por si mesmo e se converte em objeto o interior, o que serve de base a esta metafísica; estamos já plenamente dentro da filosofia moderna.” “agora os pensadores vivem em condições completamente distintas daquelas em que viveram os filósofos dos tempos antigos.”

“Para que haja um silogismo tem de haver 3 termos; aqui, concretamente, teria que haver um 3º que servisse de mediador, de elo entre o pensar e o ser; mas este 3º termo não existe. [13.1] O «logo» ou «portanto» que enlaça ambos os lados não é o «logo» ou o «portanto» de um silogismo; a conexão entre o ser e o pensar se estabelece somente de um modo imediato. Esta certeza é, desta forma, o prius; todas as demais proposições vêm depois.” penso existo – um pleonasmo, redundância, tautologia, auto-referência e nada mais. Não no sentido de deboche do que é. A auto-referência por excelência, além do mais. O “ponto zero” do plano cartesiano, de onde parte todo o pensamento metafísico moderno.

“no ser não há de representar-se, muito menos, um conteúdo concreto; daí que é a mesma identidade imediata a que constitui também o pensamento. (…) a imediatidade é uma determinação unilateral; o pensamento não contém esta determinação somente, senão também a de servir de mediador consigo mesmo: a imediatidade existe precisamente pelo fato de que o mediar é, simultaneamente, suspender [erguer e sustar] a mediação.” eu penso eu existo; (eu) (eu); je = je, eu = eu; a rigor, não existe sequer o “”, elemento relacional, que designa ou conota MEDIAÇÃO, já que é uma Imediação. O (je)² é a própria mediação. pensexisto. pensamentosser. É o principio de individuação de Aristóteles em seu grau máximo formulado da forma mais sintética. Esta imediação não contempla, ainda, o inconsciente enquanto tal (é o ser no aqui e agora, mas não o Ser total).

“como com freqüência sucede em sonhos, posso crer que vejo ou que me desloco, apesar de que sequer abra meus olhos nem me mova do lugar” A rigor, pensa-se no sonho, o que enfraquece o discurso cartesiano. Ainda que em simulacro, há uma certeza na representação onírica de que se pensa, pois apesar de não ser em vigília o ato é efetivamente levado a cabo, idêntico ao pensar.

“O 3º é, assim, o trânsito desta certeza rumo à verdade, ao determinado; também este trânsito apresenta em Descartes um caráter simplista, e com isso se oferece a nossa consideração, pela 1ª vez, a metafísica cartesiana.” “Ora, a verdade de todo saber descansa sobre a prova da existência de Deus” Podemos resumir as meditações cartesianas como uma tentativa mal-sucedida (mas corajosa) de resgatar a alegoria da caverna de Platão; obviamente, o que este magnânimo pensador consegue de modo completo numa fábula autocontida, Descarte mal e mal consegue em uma frase, ou seja, não consegue sustentar por mais do que 3 palavras, com o mesmo poder, o tipo de raciocínio-em-direção-à-essência. Não é culpa do francês: o fato de haver um Deus monoteísta a que se deve remeter todos os achados atrapalha bastante…

A suprema ironia é que o que prova ontologicamente o eu e a outridade neste caso é o princípio <NIHIL EX NIHILO> (nada deriva do nada), quando na era cristã, justamente, tudo depende desse motto. Ter-se-ia que imaginar uma sociedade (a Atenas clássica?) que não crê em genealogia ou escatologia (o contrário dos modernos) e que fundamentasse sua filosofia no Nada (o contrário dos modernos) para se dar conta de tamanho paradoxo!

17. SPINOZA

Muito encontrado em outras grafias, como Espinosa.

«Deus é causa imanente, mas não transitiva (transiens) de todas as coisas», quer dizer, externa. Sua essência e sua existência são o mesmo, a saber: a verdade. Uma coisa que fôra determinada a fazer algo, fôra necessariamente determinada por Deus, já que Deus é a causa: e sendo esse seu destino, não pode carecer de determinação. Na natureza não há nada contingente. A vontade não é uma causa livre, senão exclusivamente necessária, exclusivamente um modo; isto quer dizer que se acha determinado por outro. Deus não atua com vistas a causas finais (sub ratione boni). Quem o afirma parece estatuir, ao lado de Deus, algo que não depende de Deus e sem relação com os desígnios de Deus, como se fôra um fim. Concebido assim o problema, Deus não seria uma causa livre, mas achar-se-ia submetido ao fatal. E igualmente insustentável é querer submeter tudo à arbitrariedade, isto é, a uma vontade indiferente de Deus.” Sp., Ética – os trechos em vermelho são muito importantes, pois mostram que Spinoza não está submetido a nenhuma teleologia, i.e., historicismo, hegelianismo… Obviamente ele é muito criticado por H. devido a essa escolha filosófica.

“O desenvolvimento de seu pensamento é extraordinariamente simples ou, melhor dizendo, não é desenvolvimento algum; arranca diretamente do espírito.” Algo mais específico eu deixarei para evidenciar quando ler a Ética em si, por isso não sublinhei de verde, embora desse vontade! Quem sabe Spinoza não figurará num novo capítulo da HISTÓRIA DAS IDÉIAS?

“Spinoza afirma que o que se chama universo não existe de modo algum, pois é só uma forma de Deus e não algo em-e-para-si. O universo não possui uma realidade verdadeira; o todo se lança ao abismo de uma identidade única. Nada é, portanto, na realidade finita: esta não possui verdade alguma; para Spinoza, somente Deus é.” H. chama isso de acosmismo (meu deus, quanta expressão feia nesse trabalho!).

“Quem pinta nosso filósofo com cores tão negras esquece de manter Deus de pé, valorizando em troca o finito, o temporal; e esfrega na cara de Spinoza sua própria anulação e a do mundo.” Porque ele disse que tudo era vaidade, em termos filosóficos, aí está! Todo filósofo é odiado por isso pelos filosofastros…

“O sistema spinozista é o do panteísmo e o do monoteísmo absolutos, elevados ao plano do pensamento. O spninozismo dista muito, então, de ser um ateísmo no sentido corrente da palavra; mas efetivamente o é no sentido de que nele não se concebe Deus como espírito. Nesse mesmo sentido poderíamos, todavia, acusar de ateísmo muitos teólogos que só denominam Deus o Ser supremo, onipotente, etc., e que não querem, na realidade, reconhecer Deus, só atribuindo verdade ao finito; e as doutrinas destes são bastante mais perigosas que as de Spinoza.” Um livro interessante para quem está no seminário DE PADRES (me refiro a este de H., mas não nego que a Ética de Spinoza, pelas citações já lidas, também deva sê-lo bastante!).

“E, assim como Spinoza se limitava a considerar estas representações, já que o mais alto, para ele, era sua desaparição na Substância una, Locke se detém a investigar como nascem estas representações [filósofo especializado no para-si] e Leibniz, por sua parte, contrapõe a Spinoza a pluralidade infinita dos indivíduos, se bem que todas as suas mônadas têm como essência fundamental a mônada una. [filósofo especializado no em-si] Ambas as filosofias surgem, pois, como reação contra as unilateralidades spinozistas, aqui postas de manifesto.” Podemos dizer que Spinoza foi o maior filósofo do ser-em-si-e-para-si até seu tempo (obviamente estou excluindo Platão), na nomenclatura de Hegel. Até mesmo H. – que é nosso antípoda tantas vezes – teria de concordar!

18. O CÉTICO EMPIRISMO OU EMPÍRICO CETICISMO DOS BRITÂNICOS

“A idéia de substância (que Locke toma em pior sentido que Spinoza), idéia complexa, procede do fato de que percebemos, com freqüência, idéias simples tais como a idéia de azul, a idéia de algo pensado, etc. Nos representamos esta justaposição como algo que sustenta por igual aquelas idéias simples, no que estas idéias existem, etc. Assim deduz Locke também o conceito geral de potência. E pela mesma via deriva, à continuação, as determinações de liberdade e necessidade, de causa e de efeito.” Tudo o que Kant resolve em um enunciado este senhor tem de debulhar mal e mal em páginas e páginas…

“Bem podemos afirmar que não cabe conceber nada mais superficial que esta derivação das idéias.” “Ao falar do espaço, p.ex., confessa Locke que não sabe o que é em-si. Esta chamada análise lockeana das representações complexas e sua chamada explicação das mesmas lograram encontrar uma acolhida geral em razão de sua clareza e nitidez pouco comuns. Afinal, existe algo mais claro que dizer que o conceito de tempo provém de que percebamos o tempo, e o conceito de espaço de que vejamos o espaço? Os franceses, sobretudo, aceitaram-no de contínuo e o desenvolveram; sua Ideologia não contém, na verdade, mais do que isso.”

“ali onde o pensamento é algo concreto por natureza, onde o pensamento e o geral aparecem identificados com o extenso, carece de todo interesse e inclusive de sentido o perguntar-se qual é a relação entre ambos, que o pensamento desdobrara. Como supera o pensamento das dificuldades que ele mesmo [o pensamento] criara? Ocorre que em Locke não se cria nem se desperta nenhuma dificuldade. [muito menos solução] E para que possa se satisfazer a necessidade de reconciliação é necessário que se comece por sentir a dor do desdobramento.” Na filosofia continental, filosofa-se com a dor (digo, ela é sintoma, ou pode ser sintoma, de que se está filosofando, efetivamente); na filosofia britânica, filosofa-se com o tédio, l’ennui.

“A sociabilidade, p.ex., é um momento que encontramos na experiência, já que o homem obtém da sociedade múltiplos benefícios. Ora, em que se baseia a necessidade do Estado, da sociedade? Em uma inclinação social. Esta é a causa. Exatamente o mesmo que na Física: o físico efetua sempre este tipo de tradução formal. [vazia] A necessidade de uma existência, p.ex. a dos fenômenos da eletricidade, encontra sua fundamentação em uma causa que os produz; é simplesmente a forma da redução do exterior ao interior, do ente ao pensado, o qual se representa, não obstante, por sua vez, como um ente.” A conta quem paga somos nós, dos séculos XX e XXI, herdeiros da Colônia inglesa nas Américas. Do mais vil imperialismo que já grassou neste so-called planet. Se Hegel soubesse que o Espírito do Mundo reuniria a Terra numa Aldeia Global com estes ‘capitães’, teria reformulado seu sistema ainda em vida.

“Newton foi indubitavelmente quem mais contribuiu para a difusão da filosofia de Locke ou da maneira inglesa de filosofar, em geral, e em particular para sua aplicação a todas as ciências físicas. Seu lema era «Física, guarda-te de metafísica!», o que vem a querer-dizer, mais ou menos: ciência, guarda-te de pensar!” HAHAHAHAHA!

“A natureza mesma se encarrega de refutar essa deplorável maneira de experimentar, pois a natureza é algo muito mais excelente que o que esses míseros experimentos dela nos dizem: ela mesma e o contínuo experimentar dão o melhor desmentido desses falsos métodos. E, assim, vemos que dos esplêndidos descobrimentos newtonianos em matéria de ótica só um fica de pé: a divisão da luz em 7 cores: em parte porque o que se ventila aqui é o conceito do todo e das partes, e também graças a uma determinação insensível perante o contraposto.” Já dediquei até um post sobre isso. Mas uma última palavra: creio que um dia diremos, esquecendo Cristo, e nos lembrando de Isaac Newton somente para esquecê-lo (lembrarmo-nos constantemente de conservá-lo esquecido): ANO XXX DEPOIS DE NÃO-NEWTON (ex: 272 d.¬N., para assinalar que não vivemos mais no mundo ocidental ou na modernidade que conhecemos). Obviamente meus tetranetos já serão caveiras até lá. Mas já vivemos em algum ano a.¬N., se serve de consolo!

O HOMEM-ESCADA: “Devemos expor, na seqüência, o ceticismo de Hume, que adquiriu maior notoriedade histórica do que em si merece; o importante nele, do ponto de vista histórico, consiste em que Kant arranca, em realidade, desta doutrina a fim de construir sua própria filosofia.”

19. LEIBNIZ

Muito encontrado em outras grafias, como Leibnitz.

“Gottfried Wilhelm (barão de) Leibniz nasceu em 1646, em Leipzig, onde seu pai era professor de filosofia.” Deve ser o único filósofo da história filho de outro filósofo!

“Todas estas ocupações, tão díspares, não foram obstáculo para que descobrisse, em 1677, o cálculo diferencial, a propósito do qual se viu arrastado a uma disputa com Newton, na qual, por certo, mantiveram uma atitude pouco nobre tanto este como a Sociedade de Ciências de Londres. Os ingleses, que propendiam a atribuir todo este método matemático a Newton e eram bastante injustos com os demais, não levavam em conta que os Principia newtonianos viram a luz com posterioridade ao descobrimento de Leibniz, e em uma nota à 1ª edição, que mais tarde desapareceu, faz-se o elogio do filósofo alemão.” ‘Obscenidades’ que não deveriam estar num livro hegeliano de história da filosofia, digo, do Espírito do Mundo. A verdade é que este assunto, além disso, mesmo para uma historiografia da matemática, seria controverso e haveria necessidade de abordá-lo em mais parágrafos: ao que tudo indica, Newton já possuía o conhecimento do cálculo diferencial (não se descobre algo assim, o termo correto seria inventar), porém tinha o hábito de publicar apenas muito vagarosamente, após reunir mais material e ‘sentir a recepção’ das idéias na comunidade matemática, ao passo que outros autores como René Descartes e o próprio Leibniz publicavam imediatamente após concluírem artigos e teses, sem constrangimento em se autocontradizerem ou desmentirem de seguida. Aqui o patriotismo de H. foi provavelmente em vão, apesar de estar certo quanto ao caráter protecionista dos ingleses! Ler https://seclusao.art.blog/2021/05/26/historia-da-matematica-uma-visao-critica-desfazendo-mitos-e-lendas-tatiana-roque-2012/.

“às percepções da consciência Leibniz chama apercepções.” O vocabulário da filosofia vai enriquecendo, mas com isso não se garante que enriqueça a filosofia mesma. Apercepção, que em Kant é um termo incognoscível (o que não compromete compreendê-lo), significa, pois, originalmente: a representação conceituável (pensável). O que é mais que pura aparência (a dor, as cores, o mais primitivo de cada sentido), embora decorra evidentemente do fenômeno.

+ 2 VOCABULÁRIOS KANTIANOS: «Estas verdades eternas descansam sobre 2 princípios: um é o da contradição, outro o da razão suficiente.»

20. JUÍZO HEGELIANO ACERCA DA DEFICIENTE METAFÍSICA MODERNA

“À filosofia antiga podemos retornar constantemente, compreendendo-a e reconhecendo-a; é uma filosofia satisfatória, situada em sua própria fase de evolução, um ponto central concreto que dá satisfação à missão do pensamento, tal e como se a enfoca. Em troca, esta metafísica moderna a que nos estamos referindo não faz outra coisa senão desenvolver os antagonismos até convertê-los em contradições absolutas. Tudo bem que se indica a solução absoluta delas, Deus, mas somente como uma solução abstrata, situada no além; no aquém, ficam de pé todas as contradições, sem resolução quanto a seu conteúdo.”

21. O MATERIALISMO FRANCÊS SUI GENERIS

“Esta essência vazia é para nós, em geral, o pensamento puro, o que os franceses chamam o être suprème (ser supremo), ou se representa objetivamente como algo que é, como algo que aparece diante da consciência, como a matéria.” “É o conceito que se apresenta numa atitude puramente destrutiva, que não se desenvolve de novo com base nesta matéria ou neste pensamento puro, nesta pura substancialidade. Aqui vemos manifestar-se livremente, então, o chamado materialismo e ateísmo, como resultado necessário da pura consciência-de-si compreensiva. “Só permanece a essência presente e real, pois a consciência-de-si só reconhece o em-si como algo que existe para ela como consciência-de-si, na qual se sabe, portanto, real: a matéria, como aquilo em que pode estender-se e realizar-se na pluralidade, a natureza. No presente, tenho a consciência de minha realidade; e, em conseqüência, a consciência-de-si se encontra a si mesma como matéria, a alma como algo material, as representações como movimentos e câmbios no órgão interior do cérebro, que seguem as impressões externas dos sentidos.” Ultrapassado? Talvez. Mas sempre que relembramos esta etapa do pensamento, nos excitamos, como por exemplo diante das ingênuas questiúnculas de Descartes. Ah, França!

“O estado religioso, com seu poder e sua magnificência, com a corrupção dos costumes, com a cobiça, a sede de honras, a canalhice, para as quais se pede, entretanto, reverência e acatamento: toda esta contradição que existia na realidade se deve ter bem presente se se quiser compreender o sentimento de rebelião que se apoderou destes escritores.” Atualíssimo!

H. diz: apesar de Hume muito ter contribuído, a verdadeira transição da filosofia carente-moderna ao Kantismo (a filosofia moderna verdadeira que começa, não isso de cartesianismo!) se dá mesmo é com Rousseau. Ele é a ponte entre a Grã-Bretanha e a Alemanha, (!) nada de Canal da Mancha!

22. KANT: A NÊMESE DO ESPÍRITO DE HEGEL

“O próprio espírito deve dar testemunho ao espírito de que Deus é o espírito; o conteúdo deve ser o verdadeiro. Mas isto não se comprova porque se me revele a mim, porque a mim se me assegure.” E com esse delírio que é um recuo escolástico, mas que H. pensa que é seu passo a mais, chegamos à conclusão de que ele e Kant são como água e óleo, pois K. é opaco a H.!

“Claro está que agora tudo se chama intuição, inclusive o pensamento, a consciência; Deus, apesar de pertencer só ao pensamento, pode ser captado também mediante a intuição, por meio da chamada consciência imediata.” O que há que resetar do kantismo é a parte em verde.

“Trata-se de uma faculdade de caráter especial; e somente quando se sucedem ambas as coisas, i.e., quando os sentidos prescrevem a matéria, e o entendimento tenha com ela combinado seus pensamentos, brota o conhecimento. Os pensamentos do entendimento como tal são, destarte, pensamentos limitados, pensamentos do finito.

Pois bem, a lógica, enquanto lógica transcendental, estabelece os conceitos que o entendimento encontra a priori nele mesmo e mediante os quais pensa os objetos completamente a priori. Os pensamentos têm esta forma: são a função sintetizadora através da qual o múltiplo se reduz à unidade. Esta unidade sou eu, é a apercepção transcendental, o aperceber puro da consciência de si, eu = eu; o eu deve «acompanhar» todas as nossas representações.” Recordando: Percepção: sensação pura e simples. Apercepção: sensação que é mais geral que a anterior, embora siga sendo imediata, e que não é conceitual por assim dizer, dado nosso próprio nível de exigência do que deva ser um conceito. Isto é: não só as rachaduras da parede do meu quarto, cujo padrão é mais ou menos indescritível, mas os próprios tempo e espaço: estas são apercepções. Diferente da qualidade da mesa na qual apóio agora meus cotovelos, a umidade de meus cachos agora que acabei de sair de um banho, o ruído ambiente… Espaço e tempo são de onde emanam todos esses fenômenos, e eu apenas acabo de abstrair o que é a extensão territorial e a dinâmica da sucessão em duas palavras específicas; porém não posso manusear tempo e espaço como um relógio e dizer mais do que isso sem incorrer em besteirol; esse é meu limite. Posso fazer poesia sobre espaço e tempo, sobre as rachaduras na minha parede (sobre estas últimas, posso até escrever de forma técnica), mas continuará sendo uma determinação fundamental que determina meu próprio ânimo (visão, tato, no máximo, no caso das rachaduras) e o limite do que posso expressar nesta poesia.

“Existem, portanto, segundo Kant, 12 categorias fundamentais, divididas em 4 classes; e não deixa de ser curioso, e ademais meritório, que cada gênero esteja formado, por sua vez, por uma tríade.” Poderemos seguir fazendo uma pseudometafísica só reformulando essas categorias ad infinitum… Pouco importa seu número, seus nomes… Pelo menos pouco importa segundo o que o indivíduo quer com o mundo e com a vida – que esteja claro! E essa obsessão hegeliano-pitagórica pelo número 3 é algo que não cabe em filosofia séria.

“4) A 4ª classe são as categorias da modalidade, da relação do objetivo sobre nosso pensamento; possibilidade, existência (realidade) e necessidade. A possibilidade deveria ser o 2º; mas, com relação ao pensamento abstrato, a representação vazia é o 1º.” Incluí esse trecho para ilustrar um dos vários momentos em que não sabemos se é H. que está superinterpretando e julgando ou se está apenas expondo ipsis litteris a filosofia kantiana. Como é um detalhe sem relevância da Crítica da Razão Pura, eu não me recordo dessa passagem – não sei se quem o diz é Kant ou Hegel, querendo corrigi-lo! Eu até chutaria que é o 2º, pois julgo que Kant não concordaria com o termo “representação vazia”.

“O enlace deste algo duplo é, a propósito, uma das páginas mais belas da filosofia kantiana, em que se unem a sensibilidade pura e o entendimento puro, predicados anteriormente como termos absolutamente antagônicos. Contém-se aqui um entendimento intuitivo ou uma intuição intelectiva; mas não é assim como o entende Kant, que não junta estes pensamentos: não compreende que unifica, deste modo, ambas as partes integrantes do conhecimento, expressando com isso o em-si do mesmo.” O mais engraçado dos grandes filósofos é que avançam precursoramente dizendo aquilo que nem eles mesmos entendem, para que em seguida alguém os interprete corretamente (e por sua vez cometa mais erros parecidos lá na frente)! Se isso não é intuição transcendental da mais enraizada e incontestável eu não sei o que é!

“A razão é, portanto, segundo Kant, a faculdade para conhecer a partir de princípios, i.e., para conhecer o particular no geral, por meio de conceitos; o entendimento, pelo contrário, chega ao particular pela via da intuição. Mas as próprias categorias são algo particular. O princípio da razão em geral é, segundo Kant, o geral, enquanto que encontra o incondicionado para o conhecimento condicionado do entendimento. Sendo assim, o entendimento é, para ele, o pensamento em condições finitas; a razão, na outra mão, o pensamento que faz do incondicionado seu objeto. Desde então, a terminologia filosófica se acostuma a distinguir entre o (simples) entendimento e a (elaborada) razão, distinção com que não nos encontramos nos filósofos antigos. O produto da razão é, segundo Kant, a idéia—expressão platônica—; por idéia entende Kant o incondicionado, o infinito. É uma grande frase esta de que a razão produz idéias; mas em Kant a idéia é somente o geral abstrato, o indeterminado.” E se Platão concorda com Kant, como ficamos, H.?

“é o Eu, o pensante, uma substância, uma alma, uma coisa anímica? Mais adiante se pergunta se é algo permanente, imaterial, incorruptível, pessoal, imortal, e algo que mantenha uma comunidade real com os corpos. A falsidade do raciocínio consiste em que a idéia racional necessária da unidade do sujeito transcendental predique-se como uma coisa, pois só assim se converte em substância o que há nela de permanente. De outro modo, encontrar-me-ia a mim mesmo evidentemente como algo permanente em meu pensamento; mas somente na consciência perceptiva e não fora dela. O Eu é, assim, o sujeito vazio, transcendental, de nossos pensamentos, que só por meio de seus pensamentos é conhecido; mas sem que, partindo daí, possamos chegar a formar-nos nem o mais leve conceito do que é em-si. (É esta uma distinção demasiado repelente, pois o pensamento não é outra coisa que o em-si!) Não podemos predicar dele nenhum ser, pois o pensamento é uma mera forma, e não obtemos a representação da essência pensante por uma experiência externa, mas simplesmente pela consciência-de-si, ou seja, porque não podemos tomar o Eu nas mãos, não podemos vê-lo, cheirá-lo, etc. Sabemos perfeitamente bem, sem dúvida, que o Eu é o sujeito; mas, se remontamos sobre a consciência-de-si e dizemos que é substância, vamos além do que temos o direito de ir. O Eu não pode, pois, dar ao sujeito nenhuma realidade.

Aqui vemos Kant cair na contradição entre a barbárie das idéias que refuta e a barbárie de suas próprias idéias, que não saem do marco daquelas refutadas. Tem, em 1º lugar, toda a razão quando afirma que o Eu não é uma coisa anímica, um algo permanente e morto, dotado de existência sensível; e, em realidade, se houvesse de ser uma coisa comum e corrente, teria que cair também, necessariamente, dentro do campo da experiência; em 2º lugar, Kant não sustenta o contrário disso, a saber, que o Eu, como este pensar-o-geral e pensar-se-a-si, tenha em si mesmo a verdadeira realidade que exige como modo objetivo, senão que não sai da representação da realidade segundo a qual esta consiste em ser uma existência sensível, em vista do quê, como o Eu não se dá em nenhuma experiência externa, não é real. (…) dito de outro modo: Kant só concebe a consciência-de-si, pura e simplesmente, como algo sensível.” Ao exportar o em-si, K. recai para trás até de Descartes com sua certeza!

“A necessidade destas contradições é justamente o lado interessante que Kant (Crítica da razão pura, p. 324) traz a nossa consciência, já que segundo a metafísica comum e corrente se o um rege há que dar-se o outro lado por refutado. E, no entanto, o que há de importante nesta afirmação de Kant vai dirigido contra sua intenção. Pois ainda que seja certo que Kant (Crítica da razão pura, pp. 385 e seguinte) dissolva estas antinomias, dissolve-as somente no peculiar sentido do idealismo transcendental, que não nega ou põe em dúvida a existência das coisas exteriores, apenas «permite que as coisas sejam intuídas no espaço e no tempo» (para o qual não se necessita contar com nenhuma autorização); porém, para ele «o espaço e o tempo não são, em si mesmos, tais <coisas>; eles não existem fora de nosso ânimo»; quer dizer, todas estas determinações de princípio no tempo, etc., não correspondem às coisas, ao em-si do mundo mesmo dos fenômenos, que existe para-si fora de nosso pensamento subjetivo.” Sim, são mera retórica kantiana, que ‘inventa’ uma antinomia, i.e., uma possibilidade de refutação de seu sistema, que apenas jogará aos leões, porque seu sistema já nasce irrefutável. A lógica usada em cada uma é a antiga (pré-criticismo), e a síntese é a lógica a partir de Kant. É um artifício que infla muito a espessura da Crítica da Razão Pura.

“Isto é, Kant não chega a estabelecer justo aquela síntese do conceito e do ser, ou seja, a compreender a existência, a estabelecê-la como um conceito; a existência segue sendo para ele simplesmente algo diferente do conceito.” Não chegou aos existencialistas.

“Deste ponto de vista, a consciência-de-si-mesmo é sua própria essência, enquanto que a razão teórica tinha outra, distinta: concretamente, no primeiro caso o Eu é, em seu caráter individual, essência imediata, generalidade, objetividade; a subjetividade tende, em segundo lugar, à realidade, mas não à realidade sensível, a que antes encontrávamos, senão que, aqui, [na Crítica da Razão Prática] a razão faz-se passar pelo real. Aqui, é o conceito aquele que tem a consciência de sua defeituosidade, coisa que não devia ter a razão teórica, já que o conceito tem de seguir sendo tal conceito. Impõe-se, então, aqui, o ponto de vista do absoluto, já que o homem encerra em seu peito algo infinito. Tal é o que há de satisfatório na filosofia kantiana: ela cifra o verdadeiro ao menos no ânimo do homem, só mediante o qual reconheço aquilo que se acha em harmonia com minha própria determinação.” Obviamente que a Crítica da Razão Prática seria o livro mais adorado pelo protestante Hegel! Matou o Sol Absoluto de Platão no peito e saiu jogando – fintando dialeticamente – no time da Metafísica (talvez contra o Entendimento Pensante Futebol Clube) para marcar um GOOOLAÇO… Infelizmente para Hegel, não aposentaram a camisa 10 após sua morte, porque a despeito de toda sua autopresunção ele não era Pelé e as próximas gerações ofuscaram-no…

“Uma das determinações extraordinariamente importantes da filosofia kantiana é a de que deve se reduzir a si mesma aquilo que a consciência-de-si considera como a essência, a lei e o em-si. Conforme o homem persiga este ou aquele fim, conforme julgue desta ou doutra maneira o mundo ou a história, o quê deve reputar como seu fim último? Para a vontade, não existe outro fim senão aquele retirado dela própria, o fim de sua liberdade.” A brecha perfeita para o Historicismo hegeliano: uma mal-formulada ética laico-cristã!

QUIXOTADAS, DITIRAMBOS & AFORISMOS SÁBIOS

Todos queriam ser Hegel.

Todos queriam estar depois de Hegel.

Não, todos queriam estar depois deste sujeito pós-hegeliano!

Eis o pau que não matará nenhuma cobra

Nem mostrará o instrumento homicida a ninguém!

Quem chegar por último…

Morre nauseado e solteiro.

Dom Quixote tem uma história. Não existe um Dom Quixote que se olvide.

O filósofo não tem o direito de censurar seus amigos por esquecerem que ele existe! Esse é um problema muito pessoal…

O FILÓSOFO COMO UM ELETRICISTA: Fases de curto-circuito da verdade.

TWIN PEAKS & DAVID LYNCH: Tudo tem um propósito, o resto é garmonbozia.

QUANDO O IDEAL É MAIS REAL DO QUE O REAL: O real é uma parte pequena do meu feudo. O contrato ideal.

Como se poderia pensar que se poderia pensar exatamente o que Tales pensou?! Tendo uma auto-estima de mil Budas, talvez, ou nem assim!

Eu escrevo que Hegel escreveu que Aristóteles escreveu que Tales disse (escreveu, por suposto, mas este escrito não sobreviveu) que o princípio (não no sentido de começo mas de importância) de todas as coisas era a água. Ironicamente qualquer manuscrito único, por mais importante que fosse, não poderia dar notícias ao futuro se fosse umedecido.

Um elo entre um nada e outro nada ainda menor.

A avant-garde do Nada. A retaguarda do império.

Não só mataram Deus como transaram com seu cadáver.

Nem todo humanismo é uma filosofia, mas toda filosofia é um humanismo.

Quando você desenvolve uma dialética só para poder ser autocontraditório à vontade (e se masturbar para o número 3)!

Na missa a missiva: às premissas, mas sem pressa!

Um filósofo que subestima Platão NÃO é um filósofo.

Diógenes Laércio e Plutarco só servem para confundir as gerações futuras. São ilegíveis hoje!

Nunca se conseguiu comprovar se Pitágoras realmente existiu. Às vezes era só uma pegadinha de estudantes, e deram o nome de Pitágoras a um burro que era o mascote oficial da seita!

O MONÓLOGO-DIÁLOGO ILUSTRADO

Kant: O conceito é pensável porque é antes de tudo sensível…

Hegel: O conceito é sensível porque é antes de tudo pensável!!!

Kant & Hegel: O conceito só pode ser pensado porque é essência-e-aparência!

Kant: Sim, finalmente estamos de acordo em alguma coisa!…

Hegel: No que mais poderíamos concordar?

Kant: Hm, deixe-me ver… Se eu fosse você, acho que me aprazeria exprimir assim: o não-conceito não pode ser pensado, pois ou é só essência ou é só aparência.

Hegel: Com efeito! E você, Kant, escreve frases tais quais: o não-conceito pode ser sentido quando é só aparência; o não-conceito não pode ser sentido quando é só essência (sua coisa-em-si!). Ou seja, o conceito é sentido como não-conceito (apenas como aparência)…

Kant: Ficamos bons na arte de invertermos os papéis! E assim você concluiria, Hegel: a essência pura é inacessível enquanto não integrar um conceito.

Esculpir bebês para parir estátuas.

Sócrates foi condenado à morte porque descobriu o inconsciente. 2200 anos depois um austríaco fraudulento vai criar uma associação internacional para enganar a civilização dizendo que ele descobriu o inconsciente!

mundo verdade, mundo-vedado.

Hegel se embaralha metendo Deus no bagulho do Um!

O único espelho do mundo é o mundo mesmo.

Portanto, desça do púlpito e volte ao mundo-verdade verdadeiro!

Percebe o que deixaste para trás na primeira olhada abstrato-panorâmica do cenário!

Conceptos como cáscaras vacías del Ser.

Deus como uma rodinha de skate.

O ponto euclidiano como patas de uma aranha em eterno debate descoordenado.

Seria o niilismo apenas um subconjunto do hegelianismo? A exportação lenta e gradualíssima de um mal da intelligentsia ao “povão”? A história desse espraiamento?

Talvez o maior livro de meta-dados que se pudesse escrever fosse uma biografia de Diógenes Laércio! Fonte: Diog. Laér.

Os maiores rivais dos escépticos eram os assépticos, pois gostavam de ter uma discussão muito limpa!…

6º “Empírico” era cético, grande tirada!

É essencial que saibas que a essência não existe!

Em si o ceticismo está correto – era uma piada!! Cof, cof… A evolução final do sofista, o SUPERSOFISTA.

A Roma nossa de todos os dias. O Protestantismo da Filosofia procrastina a morte da Filosofia, para o mal de todos… Rola-se a dívida especulativa (duplo sentido desdobrado, arrotado e peidado em si mesmo saindo como suor pelos poros respirados em seqüência)…

Jesus, o primeiro teleólogo da Terra.

A solução mundial deveria consistir em vedar qualquer trânsito e comunicação entre ocidente e oriente. Cultural ou de ogivas nucleares. Tudo que for cultura ocidental e bomba atômica fica do lado do Tio Sam. A nós, orientalistas, nossos nirvanas sutis, mil odores de rosas que aprendemos a distinguir… E então chega-se à Unidade do Mundo verdadeira, já que o Ocidente – para lá – é só um além, nem é mais mundo…

Aporia… Ah, poria… algo mais?! Limite fenomênico. Limite-se, fenomênico! KNOW HOW TO LIE – LIE & REST. Já deuS.

MAIS HEGEL (& ASSOCIADOS)? OUTROS POSTS DO SECLUSÃO, referenciados durante o artigo.

HISTÓRIA DAS IDÉIAS 1: Introdução à Epistemologia Hume-kantiana

https://seclusao.art.blog/2021/05/13/historia-das-ideias-introducao-a-epistemologia-hume-kantiana/

SPEECH AND WRITING ACCORDING TO HEGEL – Derrida, 1971 (in: W.F. Hegel, Critical Assessments, ed. Robert Stern, 1993). https://seclusao.art.blog/2021/08/10/speech-and-writing-according-to-hegel-derrida-1971-in-w-f-hegel-critical-assessments-ed-robert-stern-1993/

FILEBO, Ou: Dos prazeres, da inteligência e do Bem – tradução comentada de trechos [Platão]

https://seclusao.art.blog/2020/01/07/filebo-ou-dos-prazeres-da-inteligencia-e-do-bem/

LES OEUVRES COMPLÈTES D’HIPPOCRATE – Tome Premier (trad. clássica de Littré) [Hipócrates, ‘Pai da Medicina’]

https://seclusao.art.blog/2021/04/07/les-oeuvres-completes-dhippocrate-tome-premier-trad-classica-de-littre/

O QUE ARISTÓTELES E STEPHEN HAWKING TÊM EM COMUM? Um pouco sobre a contenda edipiana Física x Metafísica: Mal-entendidos comuns entre uma e outra, do ponto de vista filosófico, passando por figuras ilustríssimas como Von Humboldt, Freud e Alfred Jarry!

https://seclusao.art.blog/2021/08/05/o-que-aristoteles-e-stephen-hawking-tem-em-comum-um-pouco-sobre-a-contenda-edipiana-fisica-x-metafisica-mal-entendidos-comuns-entre-uma-e-outra-do-ponto-de-vista-filosofico-passando-por-figuras-il/

HISTÓRIA DA MATEMÁTICA: Uma visão crítica, desfazendo mitos e lendas – Tatiana Roque, 2012.

https://seclusao.art.blog/2021/05/26/historia-da-matematica-uma-visao-critica-desfazendo-mitos-e-lendas-tatiana-roque-2012/

RÁDIO-CABEÇA

RÁDIO 1

Primeiro Solilóquio

Eu acho tudo igual,

porque dessemelhante permanece, e só um fraco feixe de luz cai. Sabes tu, o raio alumia meu tempo minha vida, aponta o caminho ao Mundo de Alexandre. Esse mundo me promete a volta do mal, assim como a penumbra dos tumultuados tijolos é um louvor à existência.

Cômico. O papel de parede não volta a seu lugar…

Sabes tu, o mundo vem sempre com esse deslocamento do papel de parede no jogo. O raio de luz evanescente acompanha todo o jogo. E então os Arcanjos Gabriel e Micael me apontam coisas, com mórbida fascinação. Embora abstrato, absurdo até, é, digo-te, a mais clara e completa claridade.

A claridade se consuma em cada homem, sobretudo na morte! Eu sei, creia-me! É toda uma canção humana e patética. Mas aqui não se trata de humanidade, mas do papel de parede jamais voltar a seu lugar! Do umbral eu antevejo,

talvez me espere alguém. Gabriel, quem sabe? Logo saberei. Estranho. Tudo que era ruidoso e barulhento está agora em calmaria. Ah, naturalmente… – ela dirá! Mas não, isso não extingue nosso angustiante tormento. Ah, diga, diga… não há nada como uma extravagante canção! Deixe estar…

Eu me pergunto se a estática do rádio e essa sensação de chiado silêncio e solidão tem algum significado, isto é, pode ser um diálogo. Por favor, guardem para si vossos comentários, pois eu só busco minha própria atenção.

Muito obrigado.

Segundo Solilóquio

Merda! Devo eu retornar à monótona noite e quem sabe com cicatrizes palpitantes me render à própria realidade de Mammon?

Onde é nu esta bosta de rádio? Ontem eu contemplei outra vez o espetáculo deplorável do louco, aquela dança horrenda de sapatilhas que deslizavam como trenós. Seja como for, senti aquela sensação banal, como se ele procurasse algo no rádio. Vou pensar naquele estranho quartinho de menina na casa. Finalmente eu encontrei os diários em capa dura das três garotinhas.

Intitulados “Sombras do Mundo de Alexandre”. Eis o homem… Estranho!

RádiŒpílogo 1

Eu cavalgo a cobra e acho o chacal.

E Jesus Cristo come, ávido, sua barra de Milka.

Deus gosta dessa música, é o que eu acho.

Deus, vai pro inferno! vão todos vocês juntos!

Preciso pensar na lagosta e não em isso-cantar.