[ARQUIVO] NIETZSCHE COMO PENSADOR POLÍTICO — Ansell-Pearson

Originalmente publicado em 22 de abril de 2012

“Há grandes perigos na leitura de Nietzsche. O leitor pode prejudicar seriamente sua própria saúde no decorrer do processo.” “Erich Heller escreveu que o exemplo de Nietzsche é tão único e aterrorizante que não pode ser imitado; e, todavia, é de tal importância que tampouco pode ser ignorado.”

“Apesar dos excessos retóricos dessa obra”

“os soldados alemães [da I Guerra] iam para o front, ao que se diz, com a Bíblia em um bolso da capa e Assim Falou Zaratustra no outro”

32-3: explicação de aforismo que tanto me intrigara

67: o destrambelhado Deleuze

A posteriori, excelente discussão sobre o Übermensch.

O cerne do livro (p. 88 e em muitas outras): “Seu pensamento político não reconhece que seu princípio aristocrático de governo é afetado pela estrutura moderna da questão da legitimidade.”

“O poeta é uma inspiração, mas freqüentemente infantil, enquanto o homem moral é amadurecido, mas muitas vezes enfadonho.”

“Nietzsche detecta uma ‘estupidez masculina’ no movimento das mulheres” “a garra de tigre sob a luva” “Ela é oca como um útero.”—nota 16—autor desconhecido (Nietzsche, Derrida ou uma mulher).

“Nietzsche quer atingir o impossível e desejar para trás a fim de dar a luz a si mesmo.”

“Sloterdijk levanta a questão crucial quando pergunta: ‘não é esse autonascimento (…) apenas o exercício da evasão original de uma origem intolerável?’”

“A senhora européia é uma criatura que absolutamente não deve existir.” Schopenhauer

“o primeiro niilista perfeito (…) não para ser imitado, o que seria loucura”

[ARQUIVO] CATECISMO POSITIVISTA — Comte (da coleção Os Pensadores)

Originalmente publicado em 21 de abril de 2012

“Os demolidores incompletos, Voltaire e Rousseau”

“meu precursor essencial, o eminente Condorcet.”

O POSITIVISMO COMO EXECUÇÃO OU EXTENSÃO DO QUE ENCETARAM HUME E KANT: “verdadeira filosofia moderna, Bacon, Descartes e Leibniz.”

“príncipe eterno dos verdadeiros pensadores, o incomparável Aristóteles.”

“Há mais de 5 séculos que o islamismo desistiu de dominar o Ocidente.”

Comte adotou uma de suas empregadas domésticas.

“a profunda inópia que sinto no meio de minhas melhores efusões cotidianas”

“25 de Carlos Magno de 64”—jeito estranho de cunhar datas!

Obras recomendadas de Auguste Comte: Homero; Sófocles (obs: recomenda que não leiam edições comentadas); Píndaro; Dáfinis (?); Virgílio “completo”; ao passo que Horácio, apenas a seleção do melhor; Ovídio; DANTE; Petrarca; Dom Quixote; Corneille; Molière completo; as fábulas de La Fontaine; escolhidos de Shakespeare; Milton; Robinson Crusoe; “as 7 obras-primas de Walter Scott”; escolhidas de Byron – (menos!) Don Juan; e Goethe; 1001 Noites; Carnot, pré-darwiniano (ah, coitado!); Buffon; Cook—As Viagens; Tácito completo; “A Bíblia completa. O Alcorão completo”; Pascal; até agora só uma mulher entre os citados (quanta equanimidade); De Maistre; ele mesmo, É CLARO!

“As mulheres e os proletários, que esta exposição tem principalmente em vista, não podem nem devem converter-se em doutores, e nem eles o querem.”

“Ninguém hesitará, então, em considerar tais cavalos, cães, bois, etc., como mais estimáveis que certos homens.”

Privar o sentido da visão para melhor contemplar os objetos de nossos pensamentos…

“Ninguém, segundo Dante, poderá nunca representar-se a sua suave Beatriz senão na idade de 25 anos.”

Agradeço a torrente do Devir por não ter modos afetados como o Farsante Rei dos Mantras Jr., que apenas reitera de forma autômata aquilo que não pode cumprir.

Pedir pouco é uma coisa que aprendi com resignação durante o purgatório universitário. “Acho que não quero nada, minha moça” E sem que percebessem… Quem sabe a oportunidade de amar de novo, de perdoar, de não perdoar (tudo misturado, se bem que discriminado), o “melhor escrever”, mas é claro! Ter uma ou duas febres a menos (!), um mês a mais (30 dias são muita coisa!)… Um fim digno. E o sono. Não tremer, subestimar mais os humanos enquanto estou com eles, olhar nos olhos, quem sabe até praticar algum tipo de arte-marcial ou dança que me locuplete…

“cada positivista deve ser, a certos respeitos, uma espécie de poeta, ao menos para seu culto íntimo.”

“todos se terão familiarizado com o canto, base essencial da música, e com o desenho, fonte geral da tríplice arte da forma, pintada, esculturada ou construída.”

Pelo menos não é um Platão!

“a cultura teórica deve permanecer indivisível.”

“Aristóteles teria sido um grande poeta e Dante um filósofo eminente.”

“Desde Homero até Walter Scott, não existem no Ocidente senão 13 poetas verdadeiramente grandes, 2 antigos, 11 modernos, incluindo mesmo neste número 3 pensadores.” (o outro antigo seria Ésquilo)

“a duração total de nosso culto cotidiano alcança somente duas horas” (!)

“viuvez eterna”, vinda de um cara que se casou de novo poucos anos depois da “tragédia”…

Homens devem ser 7 anos mais velhos que as mulheres.

Fã da cor verde.

A sociologia ou física social não é rainha soberana, perdendo para a moral.

“Quando a palavra Antropologia for mais e mais bem-usada, será preferível para este destino coletivo, pois que significa literalmente estudo do homem. Dever-se-á, porém, empregar por muito tempo o nome sociologia, a fim de caracterizar mais a principal superioridade do novo regime intelectual, que consiste sobretudo na introdução enciclopédica do ponto de vista social, essencialmente alheio à antiga síntese.”

482: o monstro indesejado chamado Estado

“Daí resultam os sonhos, estados passageiros de alienação mental” “Pode-se, pois, esperar que a teoria cerebral conduza finalmente a bem interpretar os sonhos, e mesmo a modifica-los, segundo o voto prematuro de toda a Antiguidade.”

“Sabeis, enfim, que uma ternura profunda constitui sempre o melhor preservativo contra a libertinagem.”

CURIOSA INVERSÃO: “Embora o casamento fique facultativo para os cidadãos ordinários, ele torna-se obrigatório para os padres, cujo ofício não pode ser dignamente preenchido sem a influência contínua, aliás objetiva ou subjetiva, da mulher sobre o homem.”

Contra os suicidas. E o álcool, obviamente.

“Quando a fé positiva houver prevalecido, chegará o tempo de compor um novo Catecismo mais análogo ao dos católicos” HAHA

“casamento (…) abstraído de toda sensualidade.”

“disciplinando o impulso carnal”

“a mais perfeita das amizades”

“desenvolver a ternura”

Eugenia, difícil saber por que você não ganhou essa guerra! “Na civilização moderna, em que todos os nascimentos são igualmente protegidos, esses tristes resultados multiplicam-se mais do que entre os antigos, que destruíam a maior parte dos descendentes débeis.”

Divórcio: o mesmo que Morus (escravidão + pena capital).

“Antes do fim do séc. XIX, a República Francesa achar-se-á livremente decomposta em 17 repúblicas independentes, formadas cada uma de 5 departamentos atuais.”

“Portugal e Irlanda (…) formarão, no começo do século seguinte, as maiores repúblicas do Ocidente.”

Clotilde, por compaixão, fingia acreditar em cada uma das idéias abiloladas desse homem! Não, não! Pensando bem, foi Comte que troçou de todos nós!

564: a fantástica dissolvição da classe média!

“2 mil banqueiros, 100 mil comerciantes, 200 mil fabricantes e 400 mil agricultores parecem-me fornecer chefes industriais em número suficiente para os 120 milhões de habitantes que compõem a população ocidental.”

“essas satisfações domésticas, nas quais reside sobretudo nossa verdadeira felicidade.”

“Quanto ao domicílio, vós sabeis que a maioria dos proletários está antes acampada do que alojada em nossas cidades anárquicas.”

“O porteiro (concierge) representa o proprietário e serve de laço entre os diferentes inquilinos.”

“Confundindo as palavras família e casa na palavra ménage…”

“Todos sabem, aliás, da tendência universal a não se trabalhar no lunedia [a segunda-feira comteana].”

O milagre teórico onipresente do ensino público superior ao privado!

“O Sumo Sacerdote da Humanidade constituirá, melhor do que nenhum papa da Idade Média, o único chefe verdadeiramente ocidental.”

Considera a conversão turca mais difícil que a russa.

“A poligamia é hoje, minha filha, mais real amiúde em Paris do que em Constantinopla.”

585: raças. Pelo menos não fala em apartheid.

“Assim, toda a história da Humanidade condensa-se necessariamente na história da religião. A lei geral do movimento humano consiste, sob qualquer aspecto, em que o homem se torne cada vez mais religioso.” Indisfarçável simpatia pela Idade Média, que é seu verdadeiro Espírito do Tempo. “Por isso, ao positivismo só resta agora retomar o conjunto do programa da Idade Média, para realiza-lo dignamente, mediante uma fé melhor”—importância do(a) culto/emancipação da Mulher no sistema comteano. “A Imitação de Cristo (…) este admirável livro que todo positivista deve ler diariamente.” “uma cega reprovação do conjunto da Idade Média, mal-compensada por uma irracional admiração pela Antiguidade.” Protestantismo, “doutrina puramente negativa”. “a religião final” “universal” “Desde então admirou-se a Idade Média, sem deixar de apreciar melhor a Antiguidade.”

“a admirável ditadura de Cromwell” anti-napoleônico

“ouso proclamar aqui os votos solenes que faço, em nome dos verdadeiros positivistas, para que os árabes expulsem energicamente os franceses da Argélia se estes não a souberem dignamente restituir àqueles.”

“Mas a anarquia e a retrogradação são ainda mais completas na arte, cuja natureza eminentemente sintética rechaçava com mais força o empirismo analítico.”

“o relativo sucede irrevogavelmente ao absoluto” “Em uma palavra, a Humanidade substitui-se definitivamente a Deus, sem esquecer jamais seus serviços provisórios.”

[ARQUIVO] TUDO O QUE MAIS INTERESSA A UM HOMEM

Originalmente publicado em 14 de outubro de 2011


…Cachorros me mordam! Mas a mandíbula desses animais não me pode causar dano, eu posso pegá-los pelo focinho e arremessá-los…

* * *

…Tranca tripla no banheiro, a porta parece menor do que o batente e é possível empurrá-la para frente e puxá-la para trás. Tento me proteger de uma criatura do porte de um rottweiler…

* * *

…Tento fazer a reconciliação com a Jacky Fly…

* * *

…Depois de dizer que detesto meu pai na frente dele, minha mãe e meu pai acham que a melhor atitude é cortar minha internet. Eu me ponho do lado de fora de minha própria janela, dependurado, e ameaço me soltar rumo ao vazio…

* * *

…Eu tinha de trocar as lentes dos meus óculos por outras melhores, e meu método pouco ortodoxo de fazer isso era comendo ou mordendo as lentes até que elas virassem simples cacos ou estivessem completamente rachadas…

* * *

…Maniax me instrui para pegar algum ônibus de determinada satélite de volta para casa. Insegurança, falta de convicção de que a linha irá passar…

* * *

…Saio bêbado pela W3 Norte, encontro o Maniax, ele se depara com um desafeto e leva uma surra, vários murros na cara. Passo por um supermercado e compro coisas aleatórias, entre elas cerveja. Algo acontece que eu perco a memória. Já não sei onde estão as mercadorias.

De repente acordo em casa, as sacolas plásticas espalhadas pelo chão. Muitas são de salgadinhos, pois no fim das noites ébrias eu fico com muita fome. A embalagem da pipoca de microondas se encontra rasgada, ainda com algum conteúdo dentro. Devo tê-la inflado ainda no supermercado pedindo a ajuda de algum funcionário. Pouco tempo depois de acordar, brigo com minha mãe por motivos e através de termos incognoscíveis (porém recordo que minha principal queixa era a de que eu começara a ouvir e ver coisas que não existem—e meus pais não estavam acreditando). Dou tapas alternados nos dois lados de sua face, como fizeram com Jesus. Já como uma auto-represália, tento esmurrar meu próprio maxilar, mas os socos não saem fortes como eu queria.

Pouco tempo depois, piso em uma latinha amassada de cerveja consumida. Lembro da utilização do remédio…


A DIVINA TRINDADE DE FOUCAULT

a) DOENÇA MENTAL E PSICOLOGIA

Medicina orgânica vs. Medicina mental

“Mas o fluxo do pensamento permanece intacto na sua estrutura, mesmo se é mais lento nos psicastênicos (…) o neurótico, mesmo quando apresenta obliterações de consciência como o histérico, ou impulsos incoercíveis como o obsedado [monomaníaco], conserva a lucidez crítica com relação a seus fenômenos mórbidos.”

“a essência da doença não está somente no vazio criado, mas também na plenitude positiva das atividades de substituição que vem preenchê-lo.” “A doença não é uma essência contra a natureza, ela é a própria natureza, mas num processo invertido”

ALERTA: ESTAR JÁ TROCANDO O DIÁLOGO PELO MONÓLOGO: “Como o professor psicastênico que só podia proferir sua conferência diante do espelho.” “eis porque tantos sujeitos obsedados ou psicastênicos, apresentam, quando se sentem observados, fenômenos de liberação emocional, como os tiques, as mímicas, as mioclonias de toda espécie.”

O PESO DE UM SIMPLES CUMPRIMENTO, DA OPINIÃO QUE IRÁ DEIXAR: “o sorriso (…) se destaca (…) como a expressão de uma ironia que se cala e ameaça. O universo da perseguição brota de todos os lados”

“o critério social da verdade já não tem mais valor para o doente”

“os psicanalistas rejeitam cada vez mais a noção bio-psicológica de libido

O absurdo da comparação entre o doente mental e o primitivo ou a criança.

paranóia (sensos semi-comprometidos) oniróia

“O erro originário da psicanálise e depois dela da maioria das psicologias genéticas, é, sem dúvida, não ter apreendido estas duas dimensões irredutíveis da evolução e da história na unidade do devir psicológico.”

“irrealizar o presente” nos doentes; o passado é o futuro.

“o obsedado defende-se sobretudo pelo isolamento” “o paranóico caracteriza-se pelos mecanismos de auto-referência” “angústia (…) a apoteose sensível da contradição psicológica”

Obviamente, meu quadro traz a vantagem de eu me forçar a fazer um compêndio, de eu me voltar para mim mesmo e as coisas que passaram. As pessoas da minha idade ainda vivem “no presente” e otimistas em relação ao futuro. Eu só antecipei a crise de meia-idade/pós-morte-paterna?

“monotonia circular”


ANGUSTIÓDROMO

quer viver, quer sentir o dissabor

Por que penso na minha avó Maria?

Maria Clara Gamotivos para não se matar.

Gamo em você.

Não queria mais agir…

2003, 2004, 2007…

2010, 2011.

Intervalos palpitantes.

Palpites burros e errados.

Será que ainda estabelecerei contato contigo neste misterioso dia de…

2012?

Me descafeinando…

Trabalho, a maior angústia—não ter tempo para angústias.

Reprisinfinita represa de sensações.

Por que vc não luta?

A minissérie crossover de Seiya Balboa.

Angústia mesmo de terminar o texto.

Ninguém aperta o botão vermelho.

Ninguém que conta (que quer trepar) seus males espanta.

Angustia priori.


Quando o doente pensa não estar doente e apenas se comportar de maneira sui generis.

“preocupações hipocondríacas que se encontram tão freqüentemente na psicastenia” “[o doente] vê no começo da doença a explosão de uma existência nova que altera profundamente o sentido de sua vida, com o risco de ameaçá-la.” “Apreendem a doença como um destino [ler e escrever isso como pura Moira]; ela só termina sua vida rompendo-a.”

“termos técnicos da filosofia heideggeriana”—SENTA QUE LÁ VEM SER-NA-HISTÓRIA!

“sentimento de estranheza diante da linguagem, o sistema de expressão, o corpo do outro”

45: o mesmo efeito da maconha como surto esquizofrênico em uma paciente—“como se toda a sala só fosse dentes” “a consciência não pode mais reconhecer seu corpo”

No começo da Idade Moderna, era-se bastante complacente com o comportamento do louco. Condenou-se o criminoso ao mesmo tipo de segregação que o louco.

Pinel, médico francês. Posteriormente, nome de um hospício.


b) HISTÓRIA DA SEXUALIDADE

Ainda parecemos uns vitorianos! Ou eles eram mais bem-resolvidos?

Quarto dos pais, o “antro sagrado do sexo”, recanto exclusivo da permissividade. Isso até cada jovem ter o seu carro…

Masturbar-se 2x por dia em tempos de extrema ansiedade…

“No que diz respeito ao sexo, talvez a mais inexaurível e impaciente das sociedades seja a nossa.”

“a guerra contra o onanismo, que durou quase dois séculos no Ocidente.”

O fosso entre o didatismo enfadonho de um Therborn e a real histossociologia.

“nós entramos em uma fase de regressão jurídica”

“Hoje em dia, a compreensão plenamente consciente do instinto sexual importa mais do que o ato sexual.”

Engraçado como tanto há o discurso da verdade acessível através da transa como da verdade através da abstinência/do celibato.

22: o prazer anal masculino segundo Aristóteles

Resta saber se seria vergonhoso se o próprio Zeus fosse afeito a essas coisas: “O excesso e a passividade são, para um homem, as duas formas principais de imoralidade na prática dos aphrodisia [termo lato dos gregos para designar ‘relações sexuais’ ou algo que disso se aproxime].”

“É conhecido o gesto escandaloso de Diógenes: quando tinha necessidade de satisfazer seu apetite sexual, ele se satisfazia a si próprio em praça pública.”

Sexo, usualmente à noite, na Grécia.

Antístenes “se dava a qualquer uma”, a primeira que aparecesse em sua frente, feia ou bonita. Mas não se entrega ao excesso, não é hedonista: é uma medida para atender a um pedido urgente do corpo, que se repete apenas de espaços em espaços.

Incesto como questão de eugenia: assimetria de idades e descendência arruinada (um dos dois da cópula já passou do apogeu). Exemplo clássico encontrável: Aquiles-Pátroclo (primos)!

O ESPÍRITO AGONÍSTICO: “Os adversários que o indivíduo deve combater não estão simplesmente nele ou perto dele. São parte dele mesmo.” “o mais vergonhoso dos fracassos consiste em ser vencido por si mesmo.” Platão

“A virtude na ordem dos prazeres não é concebida como um estado de integridade mas como uma relação de dominação”

35: o sábio que pensa em séries de coisas prefixadas antes de dormir para chamar o sono, em Zaratustra, é pitagórico!

Platão, nas Leis, fala de minha facilidade com os livros: “Aquele que quiser se sobressair um dia no que quer que seja deve se aplicar nesse objeto desde a infância, encontrando, ao mesmo tempo, seu divertimento e sua ocupação em tudo que se relacionar com ele.”

“O mais real dos homens é rei de si mesmo.” Platão

“mau tirano” “os abusos sexuais do déspota, quando ele se põe a desonrar os filhos—meninos ou meninas—dos cidadãos, são freqüentemente invocados como motivo inicial dos complôs para derrubar as tiranias e estabelecer a liberdade: assim foi com Pisístrato em Atenas, Periandro em Ambrácia e outros mais que Aristóteles menciona no V livro da Política.” Honra pública que mais de 2200 anos depois Silvio Berlusconi na Itália e Jair Bolsonaro no Brasil—ele e suas “meninas da Ceilândia”—não aprenderam a preservar…

“A temperança é, no sentido pleno, uma virtude de homem.”

Para o grego, a chave ativo/passivo era mais relevante, em suma, na atribuição de um “gênero” à pessoa até do que para os machos homofóbicos contemporâneos (não existia “opção sexual” na Grécia Arcaica), pelo fato de considerarem o passivo da relação a “mulherzinha”, ao passo que o ativo ainda que homossexual preserva certo status “masculino”.

“O regime físico não deve portanto ser cultivado por si mesmo de modo demasiado intenso.” Platão, já em contraposição ao que diria Hitler dois milênios mais tarde.

“é necessário reter que a dieta não é concebida como uma obediência nua ao saber do outro: ela deveria ser, por parte do indivíduo, uma prática refletida de si mesmo e de seu corpo.”

Acabo de ler que Sócrates estimulava os outros a anotar coisas, o que contraria o mito popular!

Há bulimia desde Hipócrates: “vomitória três vezes por mês para os temperamentos úmidos, duas vezes por mês para aqueles que são secos.”

Um temperamento úmido em público pode denunciar o quanto alguém é seco por dentro e vice-versa.

“ninguém deve fazer uso freqüente e contínuo do coito” Diocles, com ressalvas para os mal-humorados, depressivos, peidorreiros e gordos! Pré-adolescentes e idosos estão proibidos.


ESQUEMA ARISTOTÉLICO:

♀ frias, úmidas, ápice da ninfomania no verão

♂ quentes, secos, ápice da ninfomania no inverno


55: sobre a abstenção nos atletas

Os gregos acreditavam que o sêmen era produzido pelas, ou pelo menos atravessava as, costas, região da medula espinhal. “é da cabeça que [o esperma] viria”, dizem outros.

Relações de poder do lar são o microcosmo da Política de Aristóteles: uma aristocracia quando a casa é bem-governada; uma oligarquia quando a mulher não cumpre seu papel e o marido acumula funções demais. Em outras formatações, o “governo” pode descambar para o caos da tirania, da “maioria” ou de um só.

O amor do varão por outros rapazes na Grécia se dava sobretudo em tenra idade, na adolescência. A assimetria da idade (mestre-discípulo). “a relação entre dois homens feitos será mais facilmente objeto de crítica ou de ironia: é porque a suspeita de uma passividade, sempre malvista, é particularmente mais grave quando se trata de adulto.”

“todo um jogo de adiamentos e de chicanas destinados a retardar o término e a integrá-la numa série de atividades e de relações anexas.” Coquetismo viril. Correr através dos bosques e até mesmo rumo à escola atrás de seu amado púbere! E, aliás, é a primeira barba que leva à idade adulta.

“philia”, a amizade entre dois homens maduros, que nasce do ocaso do amor, que é necessariamente ligeiro.

Na Antiguidade, não deixava de haver os aficionados por batidas de carros, embora fossem mais lentas e menos drásticas, com toda certeza.

Parece que somando-se todas as civilizações conhecidas, a sodomia é o pior pecado. O beijo não é assimétrico como a metida no cu. Quando as mulheres fazem os cílios, elas estão caçando!


c) NIETZSCHE E A GENEALOGIA (Microfísica)

“a injustiça e a instabilidade no espírito de alguns homens, sua desordem e sua falta de medida são as últimas conseqüências de inumeráveis inexatidões lógicas de falta de profundidade, de conclusões apressadas de que seus ancestrais se tornaram culpados.” Nietzsche

“Má alimentação, má respiração, corpo débil e vergado daqueles cujos ancestrais cometeram erros”


GLOSSÁRIO:

pituíta: catarro

[ARQUIVO] A MISÉRIA DOS QUE CRÊEM

Originalmente publicado em 21 de julho de 2011

a) EM QUE CRÊEM OS QUE NÃO CRÊEM?—Umberto Eco e Carlo Maria Martini

“A experiência demonstra que somente nos arrependemos daquilo que pressentimos poder fazer melhor.” padre

“Não é, pois, ainda o momento de deixar-se embebedar pela televisão, enquanto esperamos o fim.”

“Há ascetas orientais que cobrem a boca para não ingerir e destruir microorganismos invisíveis.”

b) MISÉRIA DA FILOSOFIA—Marx

Mészáros e Lukács reafirmados como bons hermeneutas.

“o primado ontológico da economia, que funda a teoria social moderna, descoberto por Marx, opera no interior de uma estrutura teórica que produz um objeto (teórico) para reproduzir um objeto real na perspectiva da totalidade.” José Paulo Netto

Em algo, Proudhon fôra mais sábio: enxergou a Face de Janos do Socialismo.

c) CRÍTICA AO PROGRAMA DE GOTHA—Marx

“De cada qual segundo sua capacidade; a cada qual segundo suas necessidades.” Já no comunismo.

31: lição soviética—fazer a revolução nacional e isolar-se não é mais do que uma traição

35: Lassalle, o principal inimigo. Saudade desses tempos combativos de honra aos grandes adversários que não vivi. Nunca tive um adversário, nunca vi um grande homem e não sabemos o que é honra; quanto mais se se imaginar que este inimigo ideológico deveria estar quase que na minha causa ou time—um nietzscheano alternativo! Impossível!

“Esta fantasia de que com empréstimos do Estado pode-se construir uma nova sociedade como se constrói uma nova ferrovia é digna de Lassalle.”

“a ditadura revolucionária do proletariado.”

“o Estado [burguês, lógico] do futuro, na Suíça”

46: o sistema “socialista” de Fidel (saúde e educação). “designar o Estado como educador do povo! (…) é o Estado quem necessita de receber do povo uma educação muito severa.”

“a combinação do trabalho produtivo com o ensino, desde uma tenra idade, é um dos mais poderosos meios de transformação da sociedade atual.”

61: Engels tripudia do socialismo francês e da noção de “igualdade absoluta” que querem para o comunismo, reflexo dos ideais burgueses da Revolução de 1789

[ARQUIVO] A ILHA — ISLAND — Aldous Huxley, 1961.

Originalmente publicado em 12 de abril de 2011

O elemento edipiano foi removido do filme “O Náufrago”.

“this improbable Highlander”

Há a presença de nativos nesse paraíso tropical.

Trabalho investigativo regulado pelo relógio.

“So unhappy that he has to laugh like a hyena.”

“I don’t care where I’m from. Nor where I’m going. From hell to hell.”

“He tried not to listen; but ears have no lids”

O céu azul de abril e um desastre iminente…

“In religion all words are dirty words.”

“Conflicts and frustration—the theme of all history and almost all biography. (…) Buddha [teached] the blessed experience of Not-Two.”

Os estóicos (imperfeitos) e o Ser Supremo ou Bom. “the only genuine yoga.” Spinoza

“God = ‘God’.”

“L’État c’est moi” vs. “like the Queen of England”

Antinous, The Raja of Pala, 17 anos.

Os problemas giram em torno da discussão do monopólio da exploração de petróleo na região. O jornalista Will Farnaby trabalha para um dos tubarões.

“Industrialization for industrialization’s sake.”

Algo sobre uma destruição considerável do mundo.

“a World Movement to save Humanity from self-destruction.”

“I canceled my last four lectures in Brazil” o tipo de líder religiosa que realmente amealharia muitos adeptos por aqui.

57-8: a enfermeira gostosa

“Você é uma aberração de um jeito, eu sou de outro. Um esquizóide (não é o que você é?) e, do outro lado do mundo, um paranóico. Ambos vítimas da mesma praga do século vinte. Não a Peste Negra, dessa vez; mas a Vida Cinza. Já esteve interessado no poder?”

49: turismo sexual

“We’re all demented sinners in the same cosmic boat—and the boat is perpetually sinking.”

63: medicina moderna vs. medicina tradicional

Ilha bissexual.

69: filosofia oriental vs. ocidental

Maithuna, “the yoga of love”—o tantrismo—“it’s just birth control without contraceptives”

“the perfect stranger, who is the other half of your own self”

Ensino sexual prático nas escolas.

“Whenever the parental Home Sweet Home becomes too unbearable, the child is allowed, is actively encouraged—and the whole weight of public opinion is behind the encouragement—to migrate to one of its other homes.”

Suicídios só podem acontecer no calor da madrugada, Sr. Durkheim!

“Hybridization of microcultures—that’s what our sociologists call the process.”

“You can’t get rid of them, can’t take a holiday from them”

“Fourteen years of family servitude. How I envy you! Free as a bird!”

“Se suas crianças levam essas boçalidades a sério, crescem como pecadores miseráveis. Se não levam, acabam sendo cínicos miseráveis. E se reagirem desse cinismo miserável, já estão aptos a se tornar o papa ou um marxista. Não me espanta vocês precisarem de todos esses milhares de prisões e igrejas e celas para comunistas.”

“no Communist pie in the twenty-second century.”

“No, old friends would never do. But from this dark little outsider, this stranger to whom he already owed so much and with whom, though he knew nothing about her, he was already so intimate, there would come no foregone conclusions, no ex parte judgements—would come perhaps, he found himself hoping (he who had trained himself never to hope!), some unexpected enlightment, some positive and practical help. (And, God knew, he needed help—though God also knew only too well that he would never say so, never sink so low as to ask for it.)”

“Cold War I”

“Eu fui um sucesso porque eu era irremediavelmente de segundo-escalão.”

“The sex addicts are also person addicts. In other words they’re lovers.”

“pink alcove” o leito de amor com a amante Babs.

NOMENCLATURA-PARÓDIA DE ADMIRÁVEL MUNDO NOVO: “Those are the Alpha Plus undesirables. As a journalist you rank as a Beta. Not the kind of person we should ever dream of inviting to Pala. But also not the kind who, having managed to get there, requires to be summarily deported.”

“Por quem você preferia ser devorado—um lobo ou um tigre? Desde que o carneiro é a caça, dificilmente isso importa.”

108: os 99,9% condenados, segundo o calvinismo

“I have a theory that, wherever little boys and girls are systematically flagellated, the victims grow up to think of God as ‘Wholly Other’—isn’t that the fashionable argot in your part of the world? Wherever, on the contrary, children are brought up without being subjected to physical violence, God is immanent. A people’s theology reflects the state of its children’s buttocks.”

Os mais privilegiados são os que mais sofrem, não se esqueça disso! Sofrimento subcutâneo.

SANTO AGOSTINHO E LUTERO: “os dois traseiros mais imperdoavelmente flagelados de toda a história do pensamento cristão.” “the perfect Pavlovian setup.”

“E pensar que as pessoas reclamam que a vida moderna não faz nenhum sentido! Olhe para o que a vida era quando fazia sentido! Um conto contado por um idiota ou um conto contado por um calvinista? Dê-me o idiota sempre!”

15% da população não se dá bem com alucinógenos.

“you spend 9/10 of your time on foam rubber. Spongy seats for spongy bottoms—at home, in the office, in cars and bars, in planes and trains and buses.” “You don’t allow your teenagers to work, so they have to blow off steam in delinquency or else throttle down steam till they’re ready to become domesticated sitting-addicts.”

“And finally we don’t spend a quarter of the gross national product preparing for World War III or even World War’s baby brother, Local War 3.333.”

143: o rodízio de empregos

“Materialismo abstrato é tão ruim quanto idealismo abstrato—ele faz da experiência espiritual imediato algo quase impraticável.”

“You can expect one Peter Pan among every 5 or 6 male children.”

“But Adolf [H.] was sexually backward. Other boys made advances to girls, and the girls responded. Adolf was too shy, too uncertain of his manhood.” E seu <Mundo à Parte>, como se julgava um Miquelângelo e não era nada. “Hitler’s the supreme example of the delinquent Peter Pan. Stalin’s the supreme example of the delinquent Muscle Man. (…) the one who always feels impelled to Do Something and is never inhibited by doubts or qualms.” “Peter Pans are wonderfully good at starting wars and revolutions; but it takes Muscle Men to carry them through to a successful conclusion.”

“I was thinking of my father. A little wood-chopping might have been the making of him—not to mention the salvation of his wretched family.” Will

“Rock climbing’s a branch of applied ethics; it’s another preventive substitute for bullying.”

“o que é melhor—nascer estúpido numa sociedade inteligente ou inteligente em uma insana?”

“Time even in this place of timeless meditation. Time for dinner breaking incorrigibly into eternity.”

Anxiety for peeping, eating, talking… Self-generated apprehension. Gloriously numb and erroneous for the sake of being free to be wrong about health and wealth.

“Para os animais, nós somos Satanás.”

184: Polly, o papagaio

“So never take yes for an answer, even when, as now, yes is self-evident.”

“Will laughed. ‘God said, Let Darwin be, and there was Nietzsche, Imperialism and Adolf Hitler.’” “Darwinism was the old Neolithic Wisdom turned into scientific concepts.”

Bebês não são picados por serpentes porque não tremem de medo delas. Porém, são engolidos.

195: orientalização do Ocidente e vice-versa

“So we teach our children all kinds of breathing games, to be played whenever they’re angry or upset.”

“Por elas mesmas, as humanidades não humanizam. Ler Platão ou ouvir um seminário sobre T.S. Eliot tampouco educa a integridade do ser humano.”

204: jogos de sorte para as crianças

214: o treinamento de professores

216: o dualismo dos gregos

227: a primeira morte—o animal de estimação. Não vivi o ritual de despedida. Com ninguém.

“beijos e conseqüentemente nascimento e depois morte para ainda mais uma geração de testemunhas do pôr-do-sol.”

“Você nunca viu alguém morrendo e você nunca viu ninguém tendo um bebê. Como chegou a saber as coisas?”

242: Édipo provoca risos nos Palaneses

253: a experiência espiritual de sair do próprio corpo e vê-lo

ALUCINÓGENOS: “Speaking was difficult. Not because there was any physical impediment. It was just that speech seemed so fatuous, so totally pointless.”

260: lombrando ao som de Bach

“There was a tempo, but no time. So what was there?”

“Grateful is heaven itself”

GLOSSÁRIO:

breadfruit: jaca

[ARQUIVO] FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO

 

Originalmente publicado em 22 de dezembro de 2010

“o que se exige para a exposição da filosofia é, antes, o contrário da forma do conceito. O absoluto não deve ser conceitualizado, mas somente sentido e intuído”

“Não é o conceito, mas o êxtase, não é a necessidade fria e metódica da Coisa (…) mas sim o entusiasmo abrasador.”

“Pela insignificância daquilo com que o espírito se satisfaz, pode-se medir a grandeza do que perdeu.”

“Mas a filosofia deve guardar-se de querer ser edificante [moral].”

“a frivolidade e o tédio que invadem o que ainda subsiste, o pressentimento vazio de um desconhecido são os sinais precursores de algo diverso que se avizinha.”

“o começo é fim”

“O espírito só alcança sua verdade na medida em que se encontra a si mesmo no dilaceramento absoluto. (…) Esse demorar-se é o poder mágico que converte o negativo em ser.” “Foi por isso que alguns dos antigos conceberam o vazio como motor.”

“A matemática se orgulha e se pavoneia frente à filosofia (…) proposições mortas e rígidas.”

“a necessidade de um outro saber.”

“A aparição é o surgir e passar que não surge nem passa”

“O formalismo da filosofia da natureza pode ensinar que a inteligência é a eletricidade, ou que o animal é o nitrogênio.”

“Difícil decidir o que é maior: a sem-cerimônia com que se pinta tudo que há no céu, na terra e nos infernos com tal sopa de tintas; ou a vaidade pela excelência desse meio-universal: uma coisa serve de apoio à outra.”

“Sofistaria é uma palavra-de-ordem do senso comum contra a razão cultivada”

“O cepticismo que termina com a abstração do nada ou do esvaziamento não pode ir além disso, mas tem de esperar que algo de novo se lhe apresente”

“no movimento da consciência ocorre um momento do ser-em-si ou do ser-para-nós, que não se apresenta à consciência, pois ela mesma está compreendida na experiência.”

“Fica patente que por trás da assim chamada cortina, que deve cobrir o interior, nada há para ver; a não ser que nós entremos lá dentro—tanto para ver como para que haja algo ali atrás para ser visto.”

“A consciência-de-si só alcança sua satisfação em uma outra consciência-de-si.”

SUPRASSUMIR, que permeia toda a obra: não aniquilar, porque isso inexiste, mas superar algo e conservá-lo de forma metamorfoseada, mutada, sintetizada, modificada—primeiro inconsciente, depois que vem à baila. Funde-se um momento do passado com o ser; mas então já é algo novo, de características inéditas, embora a matéria-prima não possa ser negada. Portanto suprassumir é superar e voltar. Incorporar. É como a morte do pai: ele não morre, realmente.

“obstinação (…) uma liberdade que ainda permanece no interior da escravidão” Paralelamente, se se pensa que o senhor não teme e se põe cego a um perigo que é real, pode-se dizer que ele nunca foi tão inumano, não no sentido que lhe seria mais desejável, o de cruel, mas de que ele se coisifica, por coisificar o Outro: me ignora como dotado de sentimentos, ousadia e liberdade, torna-se simplesmente vulnerável…

“Seu falatório [o da consciência] é, de fato, uma discussão entre rapazes teimosos: um diz A quando o outro diz B, e diz B quando o outro diz A: e assim cada um, à custa da contradição consigo mesmo, se paga a alegria de ficar sempre em contradição com o outro.”

Estoicismo como estágio preliminar do ceticismo. Ceticismo como estágio preliminar da consciência infeliz. “Movimento de uma nostalgia infinita”

Se para Marx o moto é o trabalho, em Hegel são o desejo e o trabalho.

165: no fim, um tratado anti-cartesiano em sua essência

“gozo” “graças” “Além” “dom”: brincalhão Hegel.

“Na luta da alma, a consciência singular só está como momento musical, abstrato”

POR QUE SE TEM RAZÃO EM DIZER QUE NÃO SE PODE ESCAPAR OU AINDA NINGUÉM ESCAPOU DE HEGEL: “O que deve-ser, também é, de fato. O que apenas deve ser, sem ser, não tem verdade nenhuma.”

205: a mesma coisa que o “coeficiente de atrito” sartriano. “É indiferente a esse rio da vida que espécie de moinhos ele faz girar.”

“as leis são sem verdade”

226: sobre videntes que lêem a mão do cliente!

238: Hamlet e a cena do crânio

240: Hegel, o criminalista: por que seus coleguinhas cientistas do séc. XIX erravam clamorosamente ao medir a periculosidade de um criminoso pelas medidas de seu crânio. “Por conseguinte, as observações estabelecidas sobre esse ponto têm o mesmo valor que as do vendedor e da lavandeira”

254-5: moral e virtude

257: hedonismo; “ipseidade”

261: equilibrando-se entre altruísmo e egoísmo

262: o que “Durkheim e seu deus” e Dostoievsky também souberam em seu tempo—a teoria do grande criminoso (ou quando a sociedade é o revoltado em questão, e o indivíduo indolente ou inadaptado o conservador)

271: nossa quixotesca missão

“Mas a consciência virtuosa entra em luta contra o curso-do-mundo como contra um oposto ao bem.” “Portanto a virtude é vencida pelo curso-do-mundo”

274: inversão (moral cristã vs. moral antiga): “tudo isso só produz tédio” (“[N]a cultura de nossa época”)—A morte de Deus.

E mais adiante, um prato cheio para mal-entendidos, partindo de uma consciência proletária: “o curso-do-mundo não é tão mau como aparentava (…) o movimento da individualidade é a realidade do universal.” “são apenas uma maneira de ver, e nada mais.” E ainda metade do livro pela frente…

“um nada labutando rumo ao nada.”

“O talento, do mesmo modo, não é outra coisa que a individualidade originária determinada que se considera como meio interior, ou como passagem do fim à efetividade”

281: da concorrência e da competição. Formulação antecipada do “além do bem e do mal”.

“desvanecer do desvanecer”

NÃO SERIA UM RIO DO QUAL SÓ SE FOGE DUAS VEZES? “Haja o que houver, a consciência honesta vai sempre implementar e atingir a Coisa mesma, já que é o predicado de todos esses momentos como este gênero universal.”

Por que não preferir o congelamento do tempo? Por que todo domingo parece uma tortura, cadafalso para a alma, o último gole, a última canção, o despertador, tudo que cause muita dor? Pessoas que querem dormir mais de 10 ou 12h, i.e., hibernar, para um ser humano, que compartilham algo realmente profundo comigo mas que não dispõem da complexidade ou força de caráter que seriam necessárias para compreenderem em que ovos elas mesmas estão pisando… Passar pelas humilhações como um trator, é o que pensamos que queremos… A questão é: melhor uma hipocrisia mórbida exagerada do que o Complexo de Poliana da ditadura do prazer!

“É como meninos maus, que recebendo uma palmada se alegram a si mesmos, por terem sido precisamente a causa do castigo.”

“Para ela [a consciência honesta], a Coisa mesma é tanto Coisa sua como absolutamente obra nenhuma; ou seja, é o puro agir, ou o fim vazio, ou ainda, uma efetividade desativada. Faz sujeito desse predicado uma significação depois da outra, e as esquece sucessivamente.”

“O consolo pelo fracasso do fim, pois pelo menos foi querido, pelo menos foi puramente agido—como também a satisfação de ter dado aos outros algo para fazerem, fazem do puro agir ou de uma obra totalmente má, a essência: porque se deve chamar uma obra má a que não é absolutamente nenhuma.”

Exatamente o que se passou pela minha cabeça ao ler o epílogo de Neurose, de Edgar Morin, nem pela primeira, nem pela última vez, esse fluir que independe de nós, o qual devemos nos preparar para aproveitar, é essa bem a palavra, considerando apenas os acontecimentos correntes e seus efeitos imediatos, a supressão do filosofar, em verdade filosofia efetiva, quer seja, em carne viva—Espírito poderoso!—Porque o amanhã ainda pode esperar em seu devido lugar e agora nada há de mais importante a considerar… Nada de atropelamentos… Mas se não der, tudo bem também. Era parte do plano, estava fixado no firmamento, tinha que se suceder assim, você não tem culpa, era incapaz. A própria sensação de suportar é só uma sensação de sensação, fugidia… Suporta-se qualquer coisa desde que haja oxigênio para puxar e, afinal, por que a pressa? Só não precisa recair no outro extremo e ter calma demais… Cada refeição tem sua hora de ser servida e saboreada…

“O todo é interpenetração semovente da individualidade e do universal” “surge um jogo de individualidades, uma com a outra, jogo em que se enganam e se encontram enganadas, umas pelas outras, como se enganam a si mesmas.”

“O que lhe interessa [à primeira individualidade] na Coisa é seu agir e atarefar-se; e quando os outros se dão conta que era isso a Coisa mesma, se sentem também ludibriados. Mas, de fato (…) queriam enganar os outros, do mesmo modo como lamentam ter sido enganados.”

296: primeira menção de “Estado”

“O mundo ético—o mundo cindido entre o aquém e o além”

O ÚTERO DA TERRA: “[o morto] desposar o seio da terra, a individualidade elementar imperecível.”

FAMÍLIA, PIEDADE, INCESTO: “a relação sem mistura encontra lugar entre irmão e irmã. São o mesmo sangue, o qual porém neles chegou à sua quietude e equilíbrio. Por isso não se desejam um ao outro”

CERTA ASSIMETRIA QUE IRRITARIA AS FEMINISTAS: “a perda do irmão é irreparável para a irmã; e seu dever para com ele, o dever supremo.”

“O irmão [o homem] é o lado segundo o qual o espírito da família se torna a individualidade que se volta para Outro e passa à consciência da universalidade. O irmão abandona essa eticidade da família—imediata elementar e por isso propriamente negativa—a fim de conquistar e produzir a eticidade efetiva, consciente de si mesma.” “A irmã, porém (…) ou a mulher (…) a guardiã da lei divina.”

325: Édipo. Antígona, a Anti-Édipo. Ele atenta contra a lei de Deus; ela, contra a lei da polis. Édipo apenas age como um bom cidadão, Antígona como fiel e temente ao Olimpo.

“os irmãos encontram ambos sua mútua destruição, através um do outro.”

Recorrente referência a um mundo “subterrâneo”.

Hegel masculiniza o Estado ou governo e feminiza o genos. Em tempos em que o mais viril não aceitaria guerrear…

“A figura ética do espírito desvaneceu, e surge uma outra em seu lugar.”

“mesmo o espírito que partiu está presente no sangue dos parentes, no Si da família”

“o todo, como cada momento singular, é uma realidade alienada de si mesma”

“O Iluminismo leva a cabo a alienação (…) Essa revolução produz a liberdade absoluta”

340: o nacionalista Hegel

362: “Diógenes no tonel”

“na substância ética a religião aparecia como fé no mundo subterrâneo”

“carente-de-espírito”: se refere a um além

“rico-de-espírito”: auto-suficiente, essência fenomenológica

Cada pessoa é uma igreja. Mas não são Capelas Sistinas, apenas frágeis toldos sobre suas cabeças.

“No que concerne o seu conteúdo, o Iluminismo é, antes de tudo, a inteligência vazia (…) encontra-o [o conteúdo] na fé.” “Com isso declara a fé como sendo um erro, e uma ficção poética sobre o mesmo que o Iluminismo é.” “está descartado completamente o pensamento do engano.”

SOBRE A FALTA DE SOFISTICAÇÃO DO PENSAMENTO MODERNO: “Essa sabedoria própria do Iluminismo aparece-lhe [à religião], necessariamente, como a banalidade mesma, e ao mesmo tempo como a confissão da banalidade.” “consciência crente” “A fé tem naquele Si o momento que a leva à perfeição; mas perecendo por causa dessa plenitude (…)”

INDÍCIOS DE POR QUE A MORAL, NO SISTEMA HEGELIANO, NÃO SE AUTO-SUPRIMIRIA, COMO A LIBERDADE, A INTELIGÊNCIA, A FÉ, O CETICISMO & O ESTOICISMO: “A perfeição, portanto, não há que atingi-la efetivamente, mas só há que pensa-la como uma tarefa absoluta, i.e., como uma tal que permanece tarefa, pura e simplesmente. (…) O que ocorre de fato, não se consegue distinguir nos longes obscuros da infinitude—para onde se deve protelar, por esse motivo, a obtenção da meta. (…) isso leva a contradições: uma tarefa que deve permanecer tarefa e, contudo, ser cumprida (…) Pela consideração de que a moralidade consumada encerra uma contradição, se lesaria a santidade da essencialidade moral, e o dever absoluto pareceria como algo inefetivo.”—Niilismo em estado bruto, grassando entre os pós-modernos cansados de missões, anômicos, baratas tontas que pedem arrego e são tão vaidosos quanto vãos… Pit stop.

Em seguida, todos os elementos do ­­saber-mentir!

“aproximar-se sempre mais e mais do nada significa diminuir.” “a lamentação que é mais uma lágrima sobre a necessidade.”

448: a “bela alma”—odor de Wilde?

DE QUE TODA AÇÃO GERA FINS INDESEJADOS, E DE POR QUE ISSO NÃO PODE PARAR

É necessário que por mais que se capte a lei trágica dos fins indesejáveis da ação, exerça-se a ação apaixonadamente, i.e., com convicção de que não havia mais certo a fazer. Pelo simples fato de que não fosse assim e: 1) ou viveríamos no aborrecido mundo em que “querer” seria sempre “poder” e aí então indelevelmente, depois de um pouco de sacanagem, o Espírito se suprimiria, ao invés de apenas suprassumir seus estados um pelo outro. Porque a realidade tem que estar deslocada do pensamento “para dar certo”; 2) ou nos manteríamos inertes, ou enraivecidos. O fato é que seríamos ainda obrigados a agir, e qualquer ação destrutiva ainda seria carregada de paixão. Mas, se quisermos exagerar, se sabemos (e acreditamos a cada segundo!) que tudo que fizermos “dá errado” ou no seu oposto, passaríamos a viver de pura má-fé—mas assim que descobríssemos que mesmo a ação maligna visando ao bem seria traída pela sua benignidade última, e porque nada mais era que uma esperteza pessoal de última hora, desistiríamos desse modo “birrento” de proceder e simplesmente nos colapsaríamos ou nos suicidaríamos. Rá! Porém, como isso é mais uma artimanha do Para-Si imediato, simplesmente ingênua demais para capturar o inconsciente, aí então acho que seríamos forçados a continuar a viver! E para viver… Que nem sonho quando… O mundo, os acontecimentos, são o meio-termo entre a onipotência sem-sal e o autômato-barata-tonta-super-títere, afinal temos que ter alguma autonomia para fazer as escolhas, mas nunca, rigorosamente sob nenhuma circunstância, podemos assumir total controle. Deus e coisas não dariam certo aqui, apenas humanos, um espírito propulsor e propalado por fenômenos. É pisar em outra pedra quando saltar da anterior… A vida é um jogo de tabuleiro enquanto ainda gostamos dele. Num banco imobiliário sem ser Lex Luthor, o Rei do Crime, nem alguém tão endividado quanto o Corinthians. Eternamente bailando a mesma Dança dos Cisnes… Navegadores do Mar dos Erros! Não seria de Eros?!

“Ninguém é herói para seu criado-de-quarto” Ninguém mais tem criado-de-quarto…

“A série das diversas religiões, que vão produzir-se, só apresenta igualmente de novo os diversos lados de uma única religião”

649: totemismo

478: deus ex machina

479: nacionalismo; Hobbes.

“deus, que é o espírito do povo ético” “a consciência ética se deixa (…) assim determinar (…) de uma maneira irrefletida e estranha, como por meio de um jogo de dados.”

482: idealismo musical

484: o banquete

“princípio feminino da nutrição” “espírito masculino da força”

488: da desportividade

490: as Musas e os Aedos (cantores, intérpretes mundanos)

491: moral do Prólogo do Céu—“os deuses existem para servir os humanos”. Não havendo consenso divino… Os deuses nada arriscam…

493: tragédia

496: de Édipo a Macbeth e Hamlet. Fala justamente da hesitação em cumprir a vingança, o príncipe dinamarquês como que livre de uma superstição ancestral. Ele duvida do pai e monta a peça. Mas não fugiu ao fado! Não tente a ação contrária (reflexões acima)!

“O frenesi da sacerdotisa, a figura desumana das bruxas, a voz da árvore, do pássaro, o sonho, etc., não são modos em que a verdade apareça, mas sinais de advertência do embuste, da irreflexão, da singularidade e contingência do saber.”

Comédia como o destino dos deuses. Somos anti-trágicos, porque sabemos demais, e Hamlet já é assaz engraçado.

502: sobre a comedialização do mundo

504: “Deus morreu”

Conclusão da consciência infeliz-trágica; em oposição à divina consciência feliz-cômica. Porém, algo não bate aí: o pós-moderno não é alegre e mundano demais? O tempo de Hegel, por mais que ele fosse capaz de pressentir um outro dele derivado, não é, ao mesmo tempo que confiante, sério e amuado? “no Estado de Direito [o Todo-Poderoso de Hegel], o mundo ético e sua religião soçobraram na consciência cômica; e a consciência infeliz é o saber dessa perda total.”

“As estátuas são agora cadáveres cuja alma vivificante escapou, como os hinos são palavras cuja fé escapou”

“Deus só é acessível no puro saber especulativo (…) Deus é o espírito” “auto-humilhação da essência divina (…) O representar toma o outro lado, o mal, como um acontecer alheio à essência divina. Captar o mal nessa essência mesma, como a sua cólera, é o esforço extremo e mais árduo do representar em conflito consigo mesmo;—esforço que, por carecer de conceito, permanece infrutífero.”

524: a figura do semi-Deus, Cristo, qualquer um na História que serve conscientemente de pára-raio universal. Aceita todo o depósito do mal e lança as sementes.

“Esse movimento é o círculo que retorna sobre si, que pressupõe seu começo e que só o atinge no fim.” “o conteúdo da religião proclama no tempo, mais cedo que a ciência, o que é o espírito; mas só a ciência é o verdadeiro saber do espírito sobre si mesmo.” Fim que deixa patente a formulação apócrifa do eterno retorno: um momento forçoso da “máquina universal” em que o Espírito se auto-denotaria antes de seguir a sua marcha como sempre… “é o novo ser-aí, um novo mundo e uma nova figura-de-espírito. (…) como se todo o anterior estivesse perdido para ele, e nada houvesse aprendido da experiência dos espíritos precedentes. (…) embora esse princípio recomece desde o princípio sua formação, parecendo partir somente de si, ao mesmo tempo é de um nível mais alto que [re]começa.” “Sua meta [do espírito] é a revelação da profundeza, e essa é o conceito absoluto.” Muito bem, e depois da transa vem outra transa, sem perdão… De modo que se o mundo alcança mesmo esse fim, só que isso não tem nada de mais. É apenas belo. E no dia seguinte Fenomenologia está na gráfica e… Sils-Maria recebe convidados e… eu me apoio a esta escrivaninha… Disso, reitera-se ainda: Rafael, espero que este seja (mais) um marco para sua vida. Olvidar e caminhar, até mesmo SEM olhar para trás—ironicamente neste mesmo momento quero reler meu primeiro livro, o do astronauta—, porque o caminho pela frente pressupõe a bagagem… Dir-se-ia que TODA vida precisa dessa culminância? Que renasci, etc.?

GLOSSÁRIO

penates: deuses romanos do lar

[ARQUIVO] O HOMEM REVOLTADO

Originalmente publicado em 27 de outubro de 2010

Quais fundamentos residem sob essa dita vida? Para mim tudo se resume a uma aberração matemática—o êxito cabe a poucos. “Mas o que é o êxito?”, você dirá. A própria vida do exitoso parece uma peça pregada. Durante apenas algumas horas na semana posso eu realmente me perguntar coisas e me indignar. A sonolência e o cansaço tomam conta de mim. Mas se fosse só isso! Meu humor, eu não consigo estabelecê-lo minimamente. Sou um escravo completo. Não é possível observar o próprio auto-perecimento pelo imperativo do trabalho! Não é possível ter um ponto de vista não-estulto sobre a família. Não acho o sal e o molho shoyo para temperar e suportar os meus dias.

Se não é para ficar pensando na morte da bezerra, eu sou a bezerra! Sim, porque ao menos como o portador sacro de leite eu sou melhor do que como essa bola massacrada de jogos de pingue-pongue sem-fim!

“todo suicídio solitário, quando não há ressentimento, é generoso e desdenhoso.”

“Não se é niilista pela metade.”

“Respirar é julgar. (…) Falar repara (…) A absurdidade perfeita tenta ser muda. (…) A ferida que se coça com tanta solicitude acaba dando prazer.”

“entrar no movimento pelo qual o absurdo supera a si próprio.”

“Mas seu ímpeto cego reivindica a ordem no meio do caos e a unidade no próprio seio daquilo que foge e desaparece. A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e que se fixe finalmente aquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar.” “Antes morrer de pé do que viver de joelhos.”

Revolta como contrário de ressentimento. “o revoltado defende aquilo que ele é”. Já “O ressentimento é sempre ressentimento contra si mesmo”.

31: “Ivan Karamazov” “insurreição metafísica” “Eu me revolto, logo existimos”

“A história da revolta metafísica não pode, portanto, ser confundida com a do ateísmo.” “do dândi ao revolucionário” “justificar a perda da autoridade divina”

43-4: análise do mito prometéico, o primeiro Satã. “Zeus (…) cujos dias estão contados”

“a palavra eterna de Édipo que, cego e desgraçado, irá reconhecer que tudo vai bem.”

Epicuro e Lucrécio, dois revoltados antigos. “De espera em espera consumimos nossa vida e morremos todos no sofrimento” “Como Epicteto e Marco Aurélio, Epicuro vai banir a morte da existência humana.” “morrer significa apenas retornar aos elementos. O ser é a pedra.”

52: o infernal Don Juan de Molière, que despreza o lúgubre Convidado de Pedra em seus dizeres de redenção

53: Sade, teórico precoce da vontade de poder. “Toda ética da solidão implica exercício de poder.”

62: o paradoxo do assassino ou psicopata perfeito: Jason. Matar é eliminar o prazer futuro de tirar a vida de alguém, se este fosse o último ser vivo do recinto. Forçosamente haveria uma auto-aniquilação (paradigma de Majin Boo). Mas Don Juan e serial killers têm opções demais pela frente até a primeira repetição do cardápio, que talvez já nem seja repetição… Nietzsche e o prazer do sexo. Perde-ganha.

“O senhor, por sua vez, aceita ser escravo e talvez até mesmo o deseje. ‘O cadafalso também seria para mim o trono das volúpias.’”

Metamorfose imagética de Satã em Vigny: “Um adolescente ‘jovem, triste e encantador’ substitui a besta fera de chifres.”

69: “essa obstinação com o satanismo” “a metafísica do pior” “o poeta, para ser aceito, deve então ser maldito”

“O dandismo é uma forma degradada da ascese.” “audácias da ‘excentricidade’”

76: Ivan, “quixotismo metafísico” “Com este ‘tudo é permitido’ começa realmente a história do niilismo contemporâneo.’ “a lei do assassinato”

Jamais se admite a—ou se deixa de ficar constrangido diante da—morte legal, i.e., a execução burocrática do Estado. Ride the Lightning

“O Único (…) Stirner ri diante do impasse, Nietzsche se atira contra as paredes.” Stirner, o mais “adolescente” do séc. XIX (que o diga a Ideologia Alemã): “a fraternidade é apenas o ‘modo de ver domingueiro dos comunistas’.” “a guerra dos Únicos”

Já em Nietzsche: “O próprio caos também é uma servidão. (…) Em outras palavras, (…) a revolta desemboca na ascese.” “O amor fati substitui o que era um odium fati.”

Hitler: “A doutrina do super-homem levando à fabricação metódica de subomens”

“Devemos ser advogados de defesa de Nietzsche”

Séc. XX e luta de trincheiras pelo território: “colonização a propósito de Hegel”.

“corrigindo Nietzsche com a ajuda de Marx”

Por que o nome “revolta metafísica”? “Nietzsche (…) antes dele Marx, (…) substituem ambos o além pelo mais tarde.”

Começam as tergiversações camusianas: “marxismo-leninismo” como o protótipo desse casamento entre o social e o esquizóide, o político e o artista, o histórico e o natural. “cesarismo intelectual”

“Depois de Moby Dick, O processo, Zaratustra, Os possuídos, o que imaginar?”

“O melhor, um sono bem embriagado na praia.”

Rimbaud

116: surrealistas que se mataram—Crevel, Rigaut e Vaché. Comparado, o movimento em seus atos gratuitos entrópicos, por Camus, a uma apologia de um sujeito que atualmente chamaríamos de Charles Manson.

“o amor sem objeto, que é o das almas torturadas.”

André Breton, o marxista. “Poder-se-iam contar nos dedos da mão os comunistas que chegaram à revolução pelo estudo do marxismo. Primeiro, a pessoa se converte, em seguida, lê as Escrituras e os Padres.” Ser comunista no começo do séc. XX era como acreditar no amor. Era a última escapatória da modorra da vida. Era como estar namorando, se casar, preencher-se com algum afeto; ou mesmo comer alguém na balada. Simplesmente, coisas que todo homem deveria experimentar. Que deixa mais forte quem nele acredita.

“Uma das teses fundamentais do surrealismo é que realmente não há salvação.” “o estado de sítio pouco a pouco se generaliza”

“ainda não houve revolução na história.” Crítica tácita à idéia trotskista: não pode haver governo revolucionário. “Se houvesse revolução uma única vez, não haveria mais história. Haveria uma feliz unidade e uma morte satisfeita. É por isso que todos os revolucionários visam à unidade do mundo e agem como se acreditassem no fim da história.”

A ESTERILIDADE DA REVOLTA DE ESPÁRTACO: “o exército bate em retirada [de Roma], sem ter combatido (…) Começam então a derrota e o martírio.”

143: Rousseau, germe de Stalin

“Em suas instituições, Saint-Just abolia a carne para menores de 16 anos e sonhava com uma nação vegetariana e revolucionária.” Atmosfera insustentável: “Quem critica é traidor; quem não apóia ostensivamente a república, um suspeito.”

“Rousseau, a quem não faltava bom senso, compreendera efetivamente que a sociedade do Contrato só convinha aos deuses.”

“A bandeira vermelha, símbolo (…) do Executivo”

Espanha, a única nação européia a não perder o Rei após a I Guerra Mundial.

“ninguém se torna deus com tanta facilidade”

E os acontecimentos se tornam esmagadores em velocidade, a ponto de este livre ser anacrônico em 50 anos, apesar das verdades milenares que contém.

“Chega o dia em que a ideologia entra em choque com a psicologia. Não há mais então poder legítimo.” “justificados pela (…) ausência de justificação” “o homem (…) de agora em diante estará fadado às revoluções do séc. XX (…) para finalmente fundar a religião do homem.”

“Se bem que haja infinitamente mais em Hegel do que nos hegelianos de esquerda (…) O vencedor sempre tem razão, esta é uma das lições que se pode tirar do maior sistema alemão do séc. XIX.” “Matar ou escravizar” Hegel

Indiretamente, Hegel fundou a atitude terrorista pessoal e de Estado: o matar e morrer pela transcendência, pela missão. Beco sem-saída.

FEUERBACH: “A Phénoménologie, bíblia que só teria profetizado o passado, colocava um limite nos tempos.” “O endeusamento de Hegel por ele mesmo, após a deificação de Napoleão, a partir de agora inocente porque havia conseguido estabilizar a história, só durou 7 anos. Em vez da afirmação total, o niilismo recobriu o mundo. A filosofia, mesmo a filosofia dos escravos, tem também seu Waterloo.”

“Stendhal via uma primeira diferença dos alemães com os outros povos no fato de se exaltarem pela meditação em vez de se acalmarem.”

184: Raskolnikov, Pisarev e o “assassinato da própria mãe”—curioso prelúdio em O Estrangeiro.

“Aquele que entendeu a realidade não se insurge contra ela, antes se rejubila.”

188: Proudhon e seus flertes com o Satanismo

Bakunin a favor de uma ditadura do proletariado. Outro “inimigo marxista” que é seu complemento ideal. Porém, tece-se, à p. 189, uma espécie de bakuninismo-stalinismo.

“O revolucionário é um homem condenado antecipadamente. Ele não deve ter relações românticas, nem coisas ou seres amados. Ele deveria despojar-se até de seu nome. Nele, tudo deve concentrar-se em uma única paixão: a revolução.” Nechaiev

“Com ele, pela primeira vez a revolução vai separar-se explicitamente do amor e da amizade.”

“se a revolução é o único valor, ela exige tudo e até mesmo a delação; portanto, o sacrifício do amigo.”

Este capítulo sobre os primórdios do niilismo russo é também uma genealogia dos atentados terroristas.

“Em 1883, atentado contra o imperador da Alemanha, cujo assassino foi executado a machadadas.” “assassinato de Carnot” + Operação Valquíria. “O futuro é a única transcendência dos homens sem deus.”

“Quanto a Hitler, sua religião confessa justapunha, sem hesitação, o Deus-Providência e o Walhalla.” “Até mesmo sua forma física, medíocre e banal, não representava para ele um limite, fundia-o com a massa.” “Hitler era a história em estado puro.” “A Alemanha desmoronou por ter travado uma luta imperial com um pensamento político provinciano.”

“Quando o procurador inglês observa que ‘de Minha luta, a estrada levava diretamente às câmaras de gás de Majdanek’, ele toca, pelo contrário, no verdadeiro assunto do julgamento, o das responsabilidades históricas do niilismo ocidental, o único, no entanto, que não foi realmente discutido em Nuremberg, por motivos evidentes. Não se pode conduzir um julgamento anunciando a culpabilidade geral de uma civilização. Julgaram-se apenas os atos que, esses pelo menos, eram gritantes diante do mundo inteiro.”

Impossível não lembrar da “paralisação da História” e da eterna guerra em 1984.

“a mãe grega que foi forçada por um oficial a escolher qual dos três filhos seria fuzilado.”

“Esta primeira tentativa de uma Igreja construída sobre o nada pagou-se com a própria aniquilação.”

“Hitler exemplifica o caso, talvez único na história, de um tirano que não deixou nenhum saldo.” “a negação de tudo é servidão”

O TEMPO GREGO: “Aristóteles (…) não se julgava posterior à guerra de Tróia”

“povos nórdicos, que não têm uma tradição de amizade com o mundo

“Marx é o Jeremias do deus histórico e o Santo Agostinho da revolução.”

DE MAISTRE VS. MARX: “A eternidade os separa no princípio, mas a historicidade acaba reunindo-os numa conclusão realista.” “Maistre odiava a Grécia (que irritava Marx, avesso a qualquer beleza solar)”

“O progresso, paradoxalmente, pode servir para justificar o conservantismo.”

“Marx não dispõe de zombarias suficientes para o otimismo racional dos burgueses.” “O positivismo mostra com muita clareza as repercussões da revolução ideológica do séc. XIX, da qual Marx é um dos representantes, e que consistiu em colocar no fim da história o Paraíso e a Revelação que a tradição colocava na origem do mundo.” “ele [Comte] quis ser o São Paulo dessa nova religião e substituir o catolicismo de Roma pelo catolicismo de Paris.” “sociolatria” “religiões horizontais do nosso tempo”

Comte vs. Marx: o primeiro inaugurava uma transição sem sofrimento: “como querem os desordenados marxistas de nosso tempo” “Sua doutrina, que ele [Marx] considerava realista, era efetivamente realista no tempo da religião da ciência, do evolucionismo darwinista, da máquina a vapor e da indústria têxtil.” “Seria mais correto chamar a posição de Marx de determinismo histórico.” “Marx avança mais do que Hegel e dá a entender que o considera um idealista (coisa que ele não é ou, pelo menos, não mais do que Marx é materialista)”

“O proletariado só pode existir no plano da história mundial… A ação comunista só pode existir como realidade histórica planetária.” “Não se espera pelo poder ou então espera-se por ele indefinidamente. Chega o dia em que é preciso tomá-lo, e é esse dia que continua sendo algo meio nebuloso para os leitores de Marx.”

“Michel Collinet, em La Tragédie du marxisme, assinala em Marx três formas de tomada de poder pelo proletariado: república jacobina, no Manifesto Comunista; ditadura autoritária, em 18 Brumário; e governo federal e libertário em A guerra civil na França.”

“Se está garantido que o reino chegará, que importa o tempo? O sofrimento nunca é provisório para quem não acredita no futuro.” “Nessa Jerusalém estrepitante de máquinas maravilhosas, quem ainda se lembrará do grito do degolado?” “No fundo, que diferença tem de Fourier, que anuncia ‘os desertos férteis, a água do mar potável e com gosto de violeta, a eterna primavera…’?” “Mas todo socialismo é utópico, sobretudo o socialismo científico.” “Quem decidirá quanto à oportunidade senão o oportunista?”

Séc. XIX, o dos erros, do “agora vai!”, do “recebi uma mensagem confirmando o fim para tal dia”. O século da soberba crença no eu.

“Ainda no fim do século IV, um bispo da África proconsular calculava que restavam 101 anos de vida no mundo.”

“Sob um de seus aspectos, a história do socialismo em nosso século pode ser considerada como a luta do movimento proletário contra a classe camponesa.” “A luta das nacionalidades revelou-se pelo menos tão importante para explicar a história quanto a luta de classes.” “Divisão do trabalho e propriedade privada, dizia [Marx], são expressões idênticas. A história demonstrou o contrário.” Equívoco!

250: a derrocada da II Internacional. Basicamente conclusões parecidas com as do(a) autor(a) da unidade I de Sociologia Brasileira (Benedict Anderson?).

“o proletariado não teve outra missão histórica senão a de ser traído.” “A história do niilismo contemporâneo não é mais portanto que um longo esforço para dar ordem, apenas pelas forças humanas e simplesmente pela força, a uma história que não tem mais ordem.” “Não se prega a razão; quando isso acontece, não é mais razão.” “Marx não é mais científico do que La Rochefoucauld” “Em outras palavras, estamos no purgatório e nos prometem que não haverá inferno.” Resumo: as relações materiais guiam o homem. O fim da História representa, portanto, o fim da matéria. Voilà!

“cidade definitiva” “A dialética aplicada corretamente não pode e não deve parar.” “a dialética não é nem pode ser revolucionária. Do nosso ponto de vista, ela é somente niilista, puro movimento que visa negar (sic) tudo que não for ele mesmo.”

“O fim da história não é um valor de exemplo e de aperfeiçoamento. É um princípio arbitrário e terrorista.” “A vontade de poder veio ocupar o lugar da vontade de justiça, fingindo inicialmente identificar-se com ela, relegando-a depois a algum lugar no fim da história, quando já não houver mais nada para ser dominado na terra.”

Stalin estava no fim da vida à publicação desse livro.

“Marx, bom estrategista e filósofo medíocre [!]”

LENIN, MAIS MAQUIAVÉLICO DO QUE SE PENSA: “Ele nega a espontaneidade das massas.” Matou o irmão. Ou melhor: mandou enforcá-lo. “O governo das pessoas é substituído pela administração das coisas…” Se essa afirmação pudesse ser ajustada, diria que já somos coisas. “Lassalle, inventor do socialismo de Estado”

“Não ocorreu a nenhum socialista prometer o advento da fase superior do comunismo” Lenin

A URSS mais parece o III Reich em câmera lenta (tudo ou nada).

“A verdadeira paixão do séc. XX é a servidão.”

Cada vez seria mais capaz de apostar que Sartre só veio a se aproximar do Marxismo por pura birra contra Camus.

ORWELLISMO: “A cada ano, às vezes a cada mês, o Pravda se corrige, sucedem-se as edições retocadas da história oficial, Lenin é censurado, Marx deixa de ser publicado.” “a fabricação da verdade” “o rei está nu” “romantismo da eficácia” E a maquiagem do lado ocidental?

“formigueiro de homens sós” “física das almas” “O pão substituído pelo cupom de racionamento” “O estado de sítio, mesmo estendido aos limites do mundo, não é a reconciliação.”

“No universo do julgamento, finalmente conquistado e acabado, um povo de culpados caminhará sem trégua rumo à inocência impossível, sob o olhar amargo dos Grandes Inquisidores. No séc. XX, o poder é triste.” “Se nossa história é nosso inferno, não saberíamos desviar-lhe o rosto. Tal horror não pode ser escamoteado, ele deve ser assumido para ser superado” “elites desonradas dessa época” “renascer ou morrer” Outro bom título para o livro seria CONTRA A REVOLUÇÃO.

“A história necessária, não suficiente, não passa portanto de uma causa ocasional. Ela não é ausência de valor, nem o próprio valor, nem mesmo o material do valor. Ela é a ocasião, entre outras, em que o homem pode experimentar a existência ainda confusa de um valor que lhe permite julgar a história. A própria revolta nos faz essa promessa. (…) Certamente, a história é um dos limites do homem; neste sentido o revolucionário tem razão. Mas o homem, em sua revolta, coloca por sua vez um limite à história.”

“descobri-la [a revolta] em estado puro na criação artística.” “viver e deixar viver”


IV. REVOLTA E ARTE (última seção)

A arte por enquanto ausente. De tudo! “O niilista Nekrassov, grande e comovente poeta, afirma entretanto que prefere um pedaço de queijo a toda a obra de Pushkin.” “Seguindo os intérpretes revolucionários da Fenomenologia, não haverá arte na sociedade reconciliada.” “a arte posta a serviço da revolução” “O sapateiro russo, a partir do momento em que fica consciente de seu papel revolucionário, é o verdadeiro criador da beleza definitiva. Rafael só criou uma beleza passageira, que será incompreensível para o novo homem.” “Notemos efetivamente que, nessa luta entre Shakespeare e o sapateiro, quem maldiz Shakespeare ou a beleza não é o sapateiro, mas, ao contrário, aquele que continua a ler Shakespeare e não resolve fazer botas, que, aliás, ele nunca conseguiria fazer.”

“a última coisa que um artista pode sentir, diante de sua arte, é o arrependimento.” Só artista entende artista. Eu sei o que é o desprezo às artes! A vida toda, jamais reconhecido por aquilo que realmente se é! Eis o valor de nosso tempo…

Não existe fadiga para o artista. Sempre penso no “Gohan, fique nervoso!” aplicado a minha pessoa. É o baygon de parede que atiça as muriçocas! Esmurre meu olho, conviva comigo, pise no meu calo! Estúpido xará, abra essa boca! Fale do que você não compreende uma vírgula. Assim você me alimenta! Eu transformo em jóias preciosas o adubo da sociedade! Zangar-se é em muitos casos a brecha para a mofa!

“o extremo sofrimento tira o gosto pela leitura.”

“A não ser nos instantes fulgurantes da plenitude, toda realidade é para eles [os homens revoltados] incompleta.” “entender a vida como destino, eis sua verdadeira nostalgia”

Todos os insetos são assim: nunca se insurgem contra você antes que você manifeste sua clara desaprovação primeiro. Depois, só o que sabem ser são marimbondos, como que libertados após mil anos, sem distinguir graça de ridículo, grandeza do que é vil, i.e., eles mesmos. Esses imbecis do banho-maria são o que há de pior! Mas antes uma ferramenta que mostre a desaprovação instantânea da outra pessoa, e que remanesça tudo bem, depois dos pratos limpos, do que todo esse acúmulo de sujeira invisível que só nubla o coração, embora ainda não a visão!

“Parece que as grandes almas, às vezes, ficam menos apavoradas com o sofrimento do que com o fato de ele não durar. (…) nossas piores torturas um dia chegarão ao fim. Certa manhã, após tanto desespero, uma irreprimível vontade de viver vai nos anunciar que tudo acabou e que o sofrimento não tem mais sentido que a felicidade.”

“O vergonhoso sofrimento do amante, a partir de agora solitário, não é tanto de não ser mais amado, mas de saber que o outro pode e deve amar ainda. Em última instância, todo homem devorado pelo desejo alucinado de durar e de possuir deseja aos seres que amou a esterilidade ou a morte. Esta é a verdadeira revolta.”

Poor and idiot guy,

You should know that I never decline!

“Dar nome ao desespero é superá-lo. A literatura desesperada é uma contradição em termos.”

“heróis perturbadores” “Julien Sorel” “eles terminam aquilo que nós nunca consumamos” “paliativo de uma realidade falhada” Os protagonistas dos romances são como que terroristas. Parece que sempre há tempo para mudar de idéia e ir fazer outra coisa… Escrever mais uma linha… Arrepender-se de seus crimes…

304: Faulkner e os cínicos americanos. Se fosse pintura, seria modernista, estilizada: “Neste nível mecânico, na verdade, os homens se parecem, explicando-se, desta forma, o curioso universo em que todos os personagens parecem intercambiáveis, mesmo em suas particularidades físicas.”

PROUST: “As moças em flor riem e tagarelam eternamente diante do mar, mas aquele que as contempla perde pouco a pouco o direito a amá-las, assim como as que ele amou perdem o poder de serem amadas.”

Afirmação absoluta ou negação absoluta são igualmente prejudiciais nas artes (realismo e niilismo). Algum outro período histórico em que se tentou um realismo? “a arte dos macacos” “a arte moderna [.ak.a. politizada], em sua quase totalidade, é uma arte de tiranos e de escravos, não de criadores.”

O PROBLEMA FORMA-CONTEÚDO: “A arte é uma exigência de impossível à qual se deu forma. (…) Como o verdadeiro classicismo não é mais que um romantismo domado, o gênio é uma revolta que criou sua própria medida. Por isso, não há gênio, contrariamente ao que se ensina hoje, na negação e no puro desespero.”

COROLÁRIO: “a sociedade capitalista e a sociedade revolucionária são apenas uma, na medida em que se escravizam ao mesmo meio—a produção industrial” “a era do comentário perpétuo e da reportagem agoniza; ela anuncia então a era dos criadores.” Época antropofágica. Deifágica. Amanhã: Leonardo da Vinci vs. Napoleão? “Só como exceção se encontram assassinos entre os artistas.” “Torturadores humanistas” “as vítimas (…) entediam.”

Sangue: mais banal que graxa. A era do “zombie proudness”. A cabeça decapitada ainda é livre.

“Quando Caim mata Abel, ele foge para o deserto.”

Forrest Gump é um cara que “se cansa” das coisas e não vai até a última conseqüência, como nos romances. Ou será que ele se apazigua com seu filho indo para a escola? Se bem que seus afetos são sem-fixos… Brotar-lhe-á um novo amor carnal?

“a música silenciosa que ainda irá transfigurar os infernos terrestres.”

“A física confirma a filosofia”

“O pensamento aproximativo é o único gerador de real.” Ernst Bickel

“a ciência servirá talvez à revolta individual [num futuro próximo]. Esta terrível necessidade marcará a virada decisiva.”

339: Heráclito e Nêmesis, a deusa da medida

No limbo entre cinismo e humanismo. Se eu fosse um jogador seria um meio-campo cerebral, desses que faltam hoje em dia.

342: países do Norte—rei e sindicatos coabitando! Serenidade grega… “justo retorno das coisas” “ideologia alemã (…) i.e., tirania.”

“Nossa civilização vegeta (…) no desejo das pequenas glórias de velhos adolescentes.” Lúcifer pós-rebeldia: seu pecado é a desmedida (alçar-se, invertido, ao lugar daquele que combate por abjeção). A importância do budismo. Epicurêca; Senicuro.

“A revolta é a medida, é ela quem a exige” “palavras de coragem e de inteligência (…) junto ao mar” “as crianças continuarão a morrer sempre injustamente, mesmo na sociedade perfeita.” “O ‘por quê’ de Dimitri Karamazov continuará a ecoar; a arte e a revolta só morrerão com a morte do último homem.” “o segredo da Europa é que ela não ama mais a vida.” Por que Ulisses preferiu Ítaca a se tornar Imortal?

“aqui se encerra o romantismo. (…) é preciso renunciar à época e aos seus furores adolescentes. O arco se verga, a madeira geme.”

[ARQUIVO] O SUPER-HOMEM CONTRA A DIALÉTICA

 

Originalmente publicado em 3 de maio de 2010


A) DELEUZE—Nietzsche e a Filosofia—CAPÍTULO 5

Diferença entre os designativos:

– Homem-Deus: o homem à la Ivan: “tudo é permitido”.

– Deus-Homem: Cristo—Deus no formato circunstancial de homem {primazia do 1º elemento}.

“Na verdade, para o olho do genealogista, o trabalho do negativo é apenas uma grosseira aproximação dos jogos da vontade de poder.” Hegel como a consciência onisciente dos fins a que conduzem as sucessivas negações das negações… Somente na genealogia há algo novo.

Sobre inversões e manutenções de significado: “Stirner é o dialético que revela o niilismo como verdade da dialética”—poderia ser: Stirner é o niilista que revela a dialética como verdade do niilismo. Não se está saindo do lugar.

AMOR ENQUANTO LUBRIFICANTE DA EXISTÊNCIA: “Só do amor me pode vir a vontade de meu desprezo e de meu pássaro anunciador, não do pântano.” Nietzsche


B) HEIDEGGER—A Sentença Nietzscheana “Gott ist Tot”

“A destituição do supra-sensível desemboca em um nem-nem” “rompantes epocais” “Todo pensamento metafísico é onto-logia ou não é absolutamente nada.” “A obra central planejada nunca foi levada a termo.” Frase antes cunhada por Hegel. E até Pascal.

“também os deuses apodrecem” “A grandeza deste ato não é grande demais para nós?” “O mais sinistro de todos os hóspedes” A grande pergunta desse texto sequer será “qual a gênese”, mas “qual o telos do niilismo?”. “O pessimismo da força” Ele executa o que intentarei: uma hierarquia dos diferentes niilismos. A recriação de Deus/deus (minha fala simplificadora no seminário). Como pode ser que na Rússia o Cristianismo se liquidou primeiro? Porque este sempre fôra o país mais cristão. Mesmo antes de ser cristão. Almas/personas e doutrina se encaixa(va)m. Napoleão como protótipo níti-do.

Por que “a-metafísico”?

“O artista é apenas um estágio prévio.” Nietzsche

“A arte é o valor supremo” Heidegger

Nomenclaturiza as coisas de modo a tornar N. em algo parecido com Descartes! Mais da metade da leitura transcorrida e por enquanto nada de pré-socráticos sendo citados.

“do uso e do abuso da História para a vida”—versão em inglês. “seria (…) equivocado se se quisesse tomar a formulação do princípio valorativo como uma prova de que Nietzsche filosofa existencialmente. Ele nunca fez isto. Mas ele pensou metafisicamente.”

Aristóteles e “o quarto livro de sua Metafísica”. “Kierkegaard não é nenhum pensador, mas um escritor religioso.”

Compreensão errônea do supra-homem. S-H: Querer querer. “a tarefa de assumir o domínio da terra” “Somente quando um pensamento futuro for levado até o ponto de pensar este Livro para todos e para nenhum em conjunto com as Investigações sobre a essência da liberdade humana, de Schelling (1809), e isso significa concomitantemente, em conjunto com a obra hegeliana A fenomenologia do espírito (1807), e isso significa concomitantemente, em conjunto com a Monadologia (1714) de Leibniz, e de pensar essas obras não apenas metafisicamente, mas a partir da essência da metafísica, serão fundados o direito e o dever, assim como o solo e o campo de visão para uma discussão.”

“O grande meio-dia” Sol, horizonte, mar… Hannah Arendt. Não vejo, ao final, nenhum postulado novo; apenas uma introdução amigável. Última linha: “O pensamento só começará ao experimentarmos que a razão há séculos glorificada é a mais tenaz rival do pensamento.”

O “não-posicionamento nietzsch3eano diante da existência ou não de Deus”—utilidade da mentira. Tudo é um como se… Aceitemos a factível existência Dele: infelizmente o homem perdeu o valor para acreditar Nele. Ou felizmente.

[ARQUIVO] ORIGEM DA TRAGÉDIA —OU GRÉCIA E PESSIMISMO—

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

30: a ilusão do eu vs. o caos

38: Rei Midas e Sileno, o tutor de Dioniso

44: A Transfiguração, de Raffaelo Sanzio (capa)

51: lições de perspectivismo

61: “o aniquilamento budista da vontade na Grécia Antiga; Hamlet, o Homem “Ridículo e Envergonhado” do Vontade de Potência.

72: Édipo em Kolonos: o passivo ativo e o ativo passivo

75: Adão, Eva e Prometeu, o Ariano

79: o Platão dionisíaco

82: Eurípides, o discípulo teatrólogo de Sócrates, o envenenador involuntário da Tragédia e do mito

83: “O grande Pan morreu!”

91: o paradigma da participação

101: sabe-se que o protagonista não morrerá—por uma ficção anti-heróica

107: a ciência enquanto ócio criativo e jogo

111: “renascença da tragédia”

142: bazuca agora mira a universidade e o jornalismo

149: o choque fatal da barca de Tristão e Isolda como uma solução mítica, digna de Édipo!

151: mérito, ou “escapatória”: enxergar (ou inserir) finalmente a necessidade do apolíneo, tão trucidado ao longo do texto

155: desde já um ferrenho antagonismo a Aristóteles

163: exortação à guerra ariana


“a morte é o prazer supremo, enquanto significa o reencontro com a origem.” Ciro Mioranza

“Existe um pessimismo da força?”

“um livro que (…) deu satisfação aos ‘melhores de seu tempo’ (…) entretanto, não quero dissimular de modo algum a impressão desagradável que hoje me produz: quão estranho se apresenta a mim dezesseis anos depois” Nietzsche 1888

“Talvez hoje eu fosse mais circunspecto, menos eloqüente para tratar de uma questão psicológica tão complicada como é a busca das origens da tragédia entre os gregos.”

“Há porventura—pergunta para os psicanalistas—uma neurose da saúde?”

“um desejo de nada, de morte, de repouso, até o ‘sabbat dos sabbats’”

“passagem do ‘matador de dragões’ (…) Não é a autêntica e verdadeira profissão de fé do romantismo de 1830 sob a máscara do pessimismo de 1850?”


“Meu amigo, esse é precisamente o trabalho do poeta,

Observar e interpretar seus sonhos

Acredite, a ilusão mais verdadeira do homem

a ele se manifesta no sonho;

Toda arte poética, toda poetização

Nada mais é que tradução verdadeira do sonho.”

Hans Sachs, Mestres Cantores


“Ouvi dizer também que certas pessoas possuíam a faculdade de prolongar a causalidade de um só e mesmo sonho por três e mais noites consecutivas.”

“Eurípides em As Bacantes, o sono nos altos caminhos das montanhas, sob o sol do meio-dia.”

“Se esse mundo tendesse a um fim, esse fim já teria sido alcançado”

“se esquece aquilo que todos sabem”—se esquece que não há indivíduos

METAFÍSICA DO ARTISTA: “Todo o nosso conhecimento da arte é no fundo absolutamente ilusório (…) É somente no ato de criação artística e na medida em que se identifica com esse artista primordial do mundo que o gênio sabe algo da eterna essência da arte; pois, nesse estado, é então, por milagre, semelhante à perturbadora figura da fábula, que tem a faculdade de voltar seus olhos para dentro e se contemplar a si mesma; ele é agora, de uma só vez, sujeito e objeto, de uma só vez poeta, ator e espectador.”

“O conhecimento mata a ação, à ação pertence a miragem da ilusão—este é o ensinamento de Hamlet.”

“em todos os criadores, o instinto é precisamente a força positiva, criadora, e a razão consciente é uma função crítica, desencorajadora”

TODOS OS POSTULADOS DO ETERNO RETORNO E DO NIILISMO JÁ INCLUSOS EM SUA OBRA INICIAL: “Quando, cheio de espanto, vê nesse limite extremo a lógica se enrolar sobre si mesma como uma serpente e morder-se a cauda—então surge diante dele a forma mais nova do conhecimento, o conhecimento trágico, do qual lhe é impossível suportar unicamente o aspecto, sem a proteção e o auxílio da arte.”

CONTINUAÇÃO DO EQUÍVOCO: “reflexo da própria vontade e, portanto, representa, com relação a todo o físico do mundo, o metafísico, e com relação a toda aparência, a coisa em si. De acordo com isso se poderia denominar o mundo (…) música corporificada” Schopenhauer

“O deus ex machina tomou o lugar da consolação metafísica.” HAPPY END—imagine-se Aquiles voltando pra mamãe!

“cultura alexandrina [socrática] ou helênica ou budista.”

“Parece somente que revivemos analogicamente, de algum modo na ordem inversa, as grandes épocas decisivas do helenismo e que remontamos, p.ex., da era alexandrina até a época da tragédia.”

“Com o tirso(*) nas mãos, coroem-se de heras e não se admirem se o tigre e a pantera se deitam a seus pés, acariciando-os. Ousem ser agora homens trágicos: pois, devem ser redimidos. Vocês devem escoltar o cortejo dionisíaco da Índia à Grécia!”

(*) “O tirso era um bastão encimado por uma pinha rodeada de gavinhas de videira e de ramos de hera; era um dos símbolos de Dioniso.”

“Para sair do orgiasmo, não há para um povo senão um caminho, aquele do budismo indiano.”

“Em cada propagação importante de excitações dionisíacas, pode-se sempre notar que a liberação dionisíaca das algemas do indivíduo se manifesta primeiramente numa depreciação dos instintos políticos que chega até a indiferença e mesmo até a hostilidade.”

ANTI-ANTICRISTO: “Colocados entre a Índia e Roma e impelidos a uma escolha tentadora, os gregos conseguiram descobrir, com pureza clássica, uma terceira forma, a qual não foi usada por eles por longo tempo, mas, justamente por causa disso, é imortal.” Falta de vontade ou excesso de vontade: o Cila ou Caribde do macrocosmo cultural.

“os prediletos dos deuses devem morrer cedo”

“com um exame rigoroso cada um (…) [vai] chegar (…) por intermédio de abstrações, a acreditar numa existência real do mito no passado.” “As imagens do mito devem ser os guardas demoníacos, invisíveis e onipresentes, propícios ao desenvolvimento da alma adolescente e cujos sinais anunciam e explicam ao homem sua vida e suas lutas”

“Não escrevo tratados; estes são para asnos e leitores de periódicos”


Anotações de cunho pessoal & Poesia:

Parece que de um modo ou de outro eu sou um exímio artista plástico!

Por que desejaríamos o pesadelo?

Eu não sou um indivíduo, eu sou só uma retaliação.

O GATILHO—Assim como Billy Elliot quando dança, quando escrevo já não sou mais eu. Eu, rá, que petulância! Sou só um hospedeiro, e a caneta mais segue a natureza que uma mão humana volitiva!

There’s nothing to worry about…

It’s never YOU, never your fault!

Cause of the click of the forgotten…

Querer ser um artista—o que representa? Vontade de reconhecimento instantâneo, de matar dragões.

As cerimônias do Ocidente foram todas feitas para acentuar o que há de ridículo nas pessoas.

O que os olhos não vêem, o coração não sente, mas especula. E não há anestésico melhor do que a certeza do olho.

Pp. 92-4 (trecho também em O Caso Wagner): Sócrates mata essa personalidade sobrenatural tácita no artista, de modo que subsista tão-somente a capa/máscara, i.e., aquilo que antes deveria ser o corpo e hospedeiro—mas que, por não ter mais nenhuma função metafísica, perde a razão de existir, de estar aí. Esterilização do mundo. Anti-natureza. O homem como desafio, aberração, excrescência. Ilusão de que se pode mudar a História (essa própria reviravolta não passando de uma fatalidade dionisíaca, por Dioniso). Perda “agendada” do Uno de si mesmo.

Gênese do conceito de “sombra” em Nietzsche: quando seu segundo, sua segunda natureza (ou sua primeira) surge e dialoga ou então toma a palavra tiranicamente. Resta ao corpo frágil aparar as arestas ou tornar-se o pára-raio das conseqüências, com os dedos cruzados. Porém, este é um personagem que jamais pode ser chamado. Ele aparece, no nosso melhor humor.

But everything is gonna work out fine

If it don’t, I think I’ll lose my mind, yeah!

A importância apregoada ao sonho do fim da vida de Sócrates: “Sócrates se dedicando à música”. Ele que chegou às culminâncias… Se há uma teleologia do indivíduo, aquele que antes da metade da vida já é adepto do trágica fica então louco!

O que deve ser corrigido na análise: a Música per se não define o triunfo do trágico, porque ela pode ter sido elaborada segundo a dialética socrática; ao mesmo tempo, produções culturais presentes ou vindouras podem se apresentar num formato cênico; porém com elementos trágicos predominantes, i.e., o instinto grego original sendo aquele que conduz as personagens, por trás da trama aparentemente racional.

CONCLUSÃO: Não existe a variável artística proeminente/sobressalente que determine as demais.

Unidade nos fragmentos, seus tolos!

O hiper-defeito de Marx: cego em relação à arte (Ideologia Alemã como panfleto político icônico). Engels, a despeito de entender “a vida como um processo contínuo”, ainda só quer o fim dele. O conceito consciente de comunismo é apenas disfarce. A. e T. estão todos no mesmo rol dos doentes caluniadores da vida. Não há diferença nenhuma entre eles, a rigor, para a análise que se aprofunde 3 milímetros na epiderme.

“Então Prometeu foi CASTIGADO porque…”—tal não existe. O auto-aniquilamento da força—quer viver, POR ISSO, quer também morrer. “Viveu como morreu” filósofo Bart. O herói da era cristã nunca está atrás de promover o injusto! Só “consertar erros”… Existência eternamente falhada. Depois do happy end, todo herói morre. Nós tornamos o mundo imperfeito para que, durante o grande jogo, ele tenha realmente ares de perfeito.

É porque 90% dos expectadores de filmes são passivos e não modificam suas vidas, nada aprendem, que eu tinha uma aversão metafísica pelo gênero? Preferia livros, moldadores de caráter? Só assim eu aceito “participar”: música e outros que reflitam nos meus próximos passos. [escolher: meditar o trabalhar—parece que de nenhuma forma se é mais do que um zumbi]


De 30 de março a 4 de abril de 2011

[ARQUIVO] LA ROCHEFOUCAULD

 

1ª PARTE

Mascaramento de imperfeições—exemplo: “Eu não posso. Logo, eu não quero.”

Devidamente transposto no séc. XIX, quando começou a ascender o amor ao nada: “Há no coração humano uma geração perpétua de paixões, de modo que a ruína de uma é quase sempre o estabelecimento de outra.”

“somos muitas vezes firmes por fraqueza e audaciosos por timidez.” (*)

“Os homens odeiam até mesmo aqueles que lhes prestam serviços e deixam de odiar aqueles que os cobriram de ultrajes.”

“a moderação dos homens em seu mais alto grau é desejo de parecer maiores que sua fortuna.” Nem muito feliz nem muito cabisbaixo publicamente: assim espanta-se o mau agouro dos invejosos e a compaixão destrutiva dos piedosos.

“excetuando-se sua enorme vaidade, os heróis são feitos como os outros homens.”

“Nem o sol nem a morte podem ser encarados fixamente.”

(*) Desfecho de Zaratustra: a verdade é que o anfitrião deveria ter sido mais duro com os visitantes desde o início, mas sua reação retardada mostrou ser a melhor de todas. Porque nós, metade tiranos, tiranos do espírito, temos pena dos outros, mas não de nós mesmos. E aí somos cruéis ao máximo com os outros, indiretamente (mas em cheio), assim que ficamos com raiva do nosso próprio sentimento de pena.

MAIS UMA: “O mal que praticamos não atrai tanta perseguição e ódio quanto nossas boas qualidades.”

A diferença entre ciúme e inveja: “merecer” ou não uma coisa. Têm inveja da minha escrita; eu sou enciumado de mestrandos burros.

“Eu quero que você seja feliz!”—quanta maldade nesse desejo!

O mito do amor crescente—talvez os mais nobres sentimentos devessem ficar incomunicáveis.

O orgulho é constante numa vida—o problema é que ele se disfarça em “orgulho silencioso” quando o amor-próprio não é mais exteriorizado, seja porque se o percebeu ofendido e atacado pelos outros, seja porque simplesmente é-se mais virtuoso, e isso encolhe a vaidade e a pavonice: a tranqüilidade da superioridade. Ou seja: palavras viram desprezo. O maior tagarela e prosador torna-se o maior desprezador.

PENA DOS BILIONÁRIOS: “Por diferentes que sejam as fortunas, há, contudo certa compensação de bens e de males que as torna iguais.”

P. 22: o ideal de pobreza dos filósofos; maus do século XVII; do humor.

“Ocorre com o verdadeiro amor o mesmo que com a aparição de fantasmas: todos falam deles, mas poucos já os viram.”

“Um ingrato pode ser menos culpado de sua ingratidão que aquele que lhe fez o bem.”

“É uma espécie de galanteio fazer notar que nunca usamos galanteios.”

Espírito: o enganador. Coração: suas verdadeiras disposições.

“Os defeitos do espírito, como os do rosto, aumentam com a idade.”

“O que mais liberalmente damos são conselhos.”

“fazemos o bem para podermos impunemente fazer o mal.”

“O uso contínuo da astúcia é a marca de um espírito pequeno.”

Talvez possa antecipar a síntese máxima desse livro: que nossa força reside em sermos seres fracos. Sempre obtemos bem mais do que parecemos capazes de fazer. Nós, as pontes, nós os comediantes, nós que tratamos bem a maioria dos interlocutores—não há como não surpreender!

“Há pessoas que jamais teriam se apaixonado se não tivessem ouvido falar do amor.”

“Preferimos falar mal de nós mesmos a não falar de nós.”

“procurar tão insistentemente agradar a si mesmo é um meio equivocado de tentar agradar aos outros ou persuadi-los”

“Um homem de espírito haveria de ficar com freqüência muito embaraçado sem a companhia dos tolos.”

Sob várias formas ao longo do livro: “A natureza faz o mérito e a sorte lhe dá emprego.”

“O que nos leva a apegar-nos a novas amizades não é tanto o cansaço que temos das antigas ou o prazer de mudar, quanto o desgosto de não sermos admirados por aqueles que nos conhecem demais e a esperança de sermos mais admirados por aqueles que não nos conhecem.”

“Esquecemos facilmente nossos erros quando somente nós os conhecemos.”

“Quem vive sem loucura não é tão sensato quanto pensa.”

“A distância diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e acende o fogo.”

“Há maus que seriam menos perigosos se não tivessem nenhuma bondade.”

“Por que é que temos bastante memória para reter até nos mínimos detalhes o que nos aconteceu e que não tenhamos bastante para lembrar quantas vezes os contamos à mesma pessoa?”

“Por vezes supomos odiar a bajulação, mas só odiamos a maneira de bajular.”

“É mais difícil ser fiel à amante quando se é feliz do que quando se é maltratado.”

“As mulheres desconhecem toda a sua afetação.”

“O sotaque da região em que nascemos permanece no espírito e no coração, como na linguagem.” (???) P.S.: Como os gaúchos—as gaúchas—são orgulhos@s (vaidosas?) da sua própria voz! Nisso, já beiram a xenofobia…

“O maior milagre do amor é curar da afetação!”

“É muito difícil romper quando a gente já não se ama.”

“Aborrecem-nos quase sempre aqueles com quem não é permitido se aborrecer.”

“Somente as pessoas que evitam causar ciúmes é que são dignas de que se tenha ciúmes delas.”

“O ciúme nasce sempre com o amor, mas nem sempre morre com ele.”

“Sabe-se muito bem que não se deve falar da própria mulher, mas não se sabe suficientemente que menos ainda se deveria falar de si.”

“As violências a que nos submetemos para nos impedir de amar são muitas vezes mais cruéis que os rigores de quem amamos.”

“Quase todos os jovens pensam ser naturais, quando são apenas mal-educados e grosseiros.”

“A inveja é destruída pela verdadeira amizade”

“A violência que nos fazemos para permanecer fiéis a quem amamos não vale mais que uma infidelidade.”

“Ela não era bonita”—a flecha do cupido demora muito até ser retirada.

“Perde-se às vezes o ar burguês no exército, mas nunca na côrte.”—distinguir-se pelo valor, não pela afetação. Talvez fosse o remédio para os mais esdrúxulos dessa classe média candanga, principalmente dessa ralé empertigada dos cursinhos de direito.

“Guarda-se por muito tempo o primeiro amante, enquanto não se arranja um segundo.”

“O que menos se encontra no galanteio é amor.”

A Filosofia é útil para o passado e o futuro, mas não serve para o presente.

Quanto mais distante a perspectiva da qual se observa a vida, menos ela faz sentido. Hoje, aqui, tudo é plenamente coerente.

“As afetadas se sentem honradas com os ciúmes que têm de seus amantes, para esconder que têm inveja das outras mulheres.”

“Poucos sabem ser velhos.”

“As mulheres que amam perdoam mais facilmente as grandes indiscrições que as pequenas infidelidades.”

“Nada impede tanto ser natural que a vontade de sê-lo.”

“É mais fácil conhecer o homem em geral que um homem em particular.”

“Não desejaríamos praticamente nada com ardor, se soubéssemos perfeitamente o que desejamos.”

“Tratamos de nos orgulhar dos defeitos que não queremos corrigir.”

“A velhice é um tirano que proíbe sob pena de morte todos os prazeres da juventude.”

“Nas primeiras paixões as mulheres amam o amante [lato sensu] e nas outras, amam o amor.”

NADA CONSOLADOR: “Por mais raro que seja o verdadeiro amor, é ainda mais raro que a verdadeira amizade.” Eu não usufruí nem de um, nem da outra.

“A vontade de ser lamentado ou admirado constitui muitas vezes a maior parte de nossa confiança.”

CONSOLADOR: “A mesma firmeza que serve para resistir ao amor serve também para torná-lo violento e duradouro e as pessoas fracas, que são sempre agitadas pelas paixões, quase nunca a têm verdadeiramente.”

“A timidez é um defeito perigoso de repreender nas pessoas que queremos livrar dela.”

“Quando temos o coração ainda agitado com o que resta de uma paixão, estamos mais perto de sermos invadidos por uma nova do que quando inteiramente curados dela.”

“Geralmente só se conta o primeiro galanteio das mulheres depois do segundo.”

AFORISMO 500: “Há pessoas tão centradas em si mesmas que, quando estão apaixonadas, encontram meios de se ocupar de sua paixão sem se ocupar da pessoa que amam.”

P. 74: consideração sobre os suicidas e outros. O diário problema da morte. O mais divertido é que a morte em si não existe—mas a reputação é um pós-morte vivido na vida muito importante! Um suicida é, no mínimo, muito mais nobre que qualquer fiel de religião. Porque isso se chama: viver a vida com covardia. Não adianta parasitar um organismo que desejaria ser suprimido dessa maneira anêmica.


2ª PARTE

P. 79: um pouco de História

P. 80: um pouco das possessões e viagens ilustres de La Rochefoucauld

P. 81: sobre a relatividade da beleza—quando as menos belas desbancam as mais belas

As frases da primeira parte ajudam bastante aqui, dados os vocábulos dos quais o autor retira um significado bastante específico e “de época”, como “humor” ou “espírito”; mas, na realidade, é bem provável que estes parágrafos maiores tenham sido escritos antes e aí sim La Rochefoucauld engastou e poliu suas pérolas, já que a arte dos aforismos do sábio é mais bem-elaborada e marcante.

P. 87: a inevitável beleza da espontaneidade infantil

Exatamente o que vinha pensando mais dia, menos dia: o retrato da decadência desta sociedade é que o adulto é sempre feio, não se sente confortável. Educação falha—super-coação dos poucos que tentam prosseguir mais ou menos na mesma marcha harmônica. “Isso é o certo para a sua idade”—padronização extenuante; rejeição das atitudes e hábitos dos bem-nascidos, como intolerância ao seu perguntar incessante, ao seu falar e ao seu contar, risadas a suas observações mais ingênuas. Coação dos próprios moleques já pervertidos a um estilo absolutamente bárbaro e fanfarrão—mesmo Aquiles passaria belos anos de tormenta no mar antes de voltar pintado de ouro, desta socialização que tentou vencê-lo (para não falar de Ulisses). Hoje até os homens são superafetados. “Mantenha a boca fechada, você fica parecendo bobo assim” “Cada um quer ser outro e não ser mais o que é” “Você fica bravo quando escuta música?”—talvez eu lance um CD sampleado com “Vozes do Rebanho—greatest hits”. “Fuleiro buddy” “corta esse cabelo”…

CRÍTICA AO MODERNO: faltam salões amplos.

ILUSÃO DE QUE SE PUDESSE SALVAR ALGUMA COISA: “não temos a força de terminar voluntariamente e, no declínio do amor como no declínio da vida, ninguém pode decidir-se a prevenir os desgostos que deverá ainda experimentar.”

P. 108: homem, o superanimal

P. 119: as semostradeiras e sua paixão por velhos que “já foram alguma coisa”.

“Pode-se ter ao mesmo tempo um ar sério no espírito e dizer muitas vezes coisas agradáveis e alegres” “Os jovens têm usualmente o espírito alegre e zombeteiro, sem o terem sério, e é isso que os torna muitas vezes importunos.”

“Que pessoas teriam começado a se amar se elas se tivessem visto antes como se vêem na seqüência dos anos?”


De 10 a 19 de março de 2011

[ARQUIVO] EXTENSÃO DOS COMENTÁRIOS PASSADOS (Zaratustra)

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

28: o “homem da morfina”

31: representando uma comédia

38: “deserto”, “dragão”; a solidão do sábio, as agruras e a moral do mundo ocidental.

39: eu já sou a criança

40: a luta do dia a dia. Para o insone. É preciso cair desprotegido, acabar com o ranger de dentes.

43: metafísica antropomorfa

52: escrever com o sangue

83: a constante alegoria da flecha. Estás aqui, há ainda muito por viver…

86: a cidade de “Vaca Malhada”. Uma tarde de sabedoria.

96: desaguar no mar

116: sobre o iminente uso indevido dos postulados de Zaratustra

117: o asno

123: da sensualidade e da dança

125: sobre a perda de amigos

145: da sucessão dos poetas. Sensação de descrever o inefável em vão.

147: preservai os monumentos

156: para se livrar de Hegel

173: o anão e o eterno retorno; o pórtico do “instante”.

174: o jovem e a temerária serpente em sua boca

182: não há teias e fins, mas dados e jogadores

193: Estado e Capital

200: cena digna de Ulisses

219: o grande déspota que manipula o passado

233: do pensamento abissal

235: novo círculo, nova serpente. Velho expediente. Declaração de morte à metafísica.

287: o nojo da elite

291: “Tudo é permitido.”

303: paródia da bíblia. Mas esta é o livro inteiro! Ausência da mulher em qualquer candidato.

322: o homem, emulador de todos os animais

328: a Europa aleijada


Da desilusão histórico-maníaca nietzschiana ou a sucessão ad infinitum de erros humanos no projeto de consecução da transmutação de todos os valores. No final de O Anticristo—mas não só deste livro, e costumeiramente assim que realmente vai se acercando do fim do que ia dizer—é clarividente o tom lamurioso, a oscilação, provocados pela narrativa de momentos cruciais em que o homem moderno ou ainda o homem antigo mais tardio falhou ao intentar a milenar inversão de valores, fosse com a desagregação/implosão do Império Romano; o retrocesso da Renascença; ou as Cruzadas e a expulsão dos mouros. É como se insidiosamente o devir brindasse o homem sedento pela volta da nobreza com uma irônica solene recusa. Cabe todo esse descontentamento? Ele ser considerado válido dentro da habitual lógica nietzschiana? Que outras lições advêm daí? As características da nostalgia e do remorso são realmente chamativas em sua obra. Poderia isso querer dizer, em que pese tudo, que a realidade empírica do homem seja transfigurar-se em seu ideal, que ainda assim o ocaso e soçobramento do niilismo estão fora de questão? O que garante a ocorrência, por fim, desta tal “guerra santa de indivíduos” e o desmantelamento dos Estados-nações? De Sócrates a Lutero, Napoleão, César Augusto e César Bórgia e Maquiavel, ele parece não aceitar a efemeridade do gênio ou a faceta obscura dessas populações privilegiadas. Devemos assumir no mínimo que ninguém está isento de cometer seus errinhos, erros e grandes gafes.

“Zaratustra quis voltar a ser homem”

SOBRE COM QUE PESSOAS NÃO É FUNESTO LIDAR ROTINEIRAMENTE: “Gosto muito também dos pobres de espírito. Favorecem o sono. São bem-aventurados, mormente quando se lhes dá sempre razão”

“Teu Em-si se ri de teu Eu e de seus impulsos arrogantes.” O belo diálogo—ou ordens unilaterais—do instinto (do corpo, da matéria!) com a(à) consciência.

“Mais um século de leitores e o próprio espírito terá mau cheiro.”

“meu demônio (…) o espírito da gravidade”

“amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas estamos habituados a amar.

Há sempre algo de loucura no amor, mas também há sempre algo de razão na loucura.”

“Onde acaba o Estado—Olhai para lá, meus irmãos! Não conseguis ver o arco-íris e as pontes que levam ao super-homem?”

“Teu sonho deve revelar-te o que faz teu amigo quando desperto.”

“Os mais afastados são os que pagam seu amor ao próximo e desde que vos reunis em cinco, um sexto é que vai morrer.”

“Enfim, meus irmãos, evitai ser injustos com os solitários. Como poderia um solitário esquecer? Como poderia tomar medidas?”

“Que filho não teria razão para chorar por causa de seus pais?”

“mesmo o mais astuto compra suas mulheres às cegas.”

“Muitas breves loucuras, isso é que chamais amor. (…) casamento (…) tolice prolongada.”

“Solitários de hoje, que viveis marginalizados, algum dia devereis chegar a ser um povo. De vós que vos escolhestes a vós mesmos, deverá surgir e crescer um povo eleito, do qual nascerá o super-homem.”

“Na verdade, vos aconselho: Afastai-vos de mim e precavei-vos contra Zaratustra! Melhor ainda, envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado!”

“E o grande meio-dia será quando o homem estiver na metade de seu trajeto, entre o animal e o super-homem, se mantiver firme, como sua esperança suprema, e festeja seu caminho para o acaso, porquanto será o caminho para uma nova manhã” “E o sol do conhecimento atingirá seu zênite.”

“Em torno de nós reina o outono”

“Se existissem deuses, como poderia eu suportar não ser um deus? Por conseguinte, não há deuses.”

“Nunca houve até hoje um super-homem”

“Em meus filhos quero remediar o fato de ter sido filho de meus pais. E, no futuro, todo, quero remediar este presente.”

“É difícil viver entre os homens porque é muito difícil calar. Sobretudo para um falador.”

“e aquele que quiser permanecer limpo entre os homens deve aprender a lavar-se em água suja”

“Até acredita em vossas mentiras, se mentis bem a respeito dele, porque no fundo do coração suspira: ‘Quem sou eu?’”

“Bendito seja aquele que endurece!”

“Aquele que foi de minha têmpera tropeçará em seu caminho com aventuras iguais às minhas, de forma que seus primeiros companheiros só poderão ser cadáveres e palhaços.

Seus segundos companheiros, porém, serão chamados seus fiéis: um enxame animado, muito amor, muita loucura, muita veneração juvenil.

A estes fiéis não deverá ligar seu coração aquele que dentre os homens for de minha índole. Nessas primaveras e nesses prados de variadas cores, aquele que conhece não deve dar confiança à fraca e fugitiva espécie humana.”

“Para ti, é uma vergonha rezar!”

“Não consiste precisamente a divindade em haver deuses, e que Deus não exista?”

“Esquece-se o que os homens são quando se vive com eles.”

“Há também outros cantores que não têm a garganta expedita, a mão eloqüente, expressivo o olhar e o coração desperto, senão quando têm a casa cheia. Não me pareço com eles.”

“E algumas invenções são tão boas que, como o seio da mulher, são úteis e agradáveis ao mesmo tempo.”

“A sociedade humana é uma tentativa, assim eu ensino, uma longa investigação, mas uma investigação de quem manda.

Uma tentativa, meus irmãos, e não um ‘contrato’.”

“A todos os momentos a existência principia. Em torno de cada aqui, gira a bola acolá. O centro está em toda parte. A senda da eternidade é tortuosa.”

“o canto é o que convém a convalescentes”

“Ensinar que há um grande ano de devir, um ano monstruoso que, à semelhança de um relógio de areia, tem sempre que se voltar novamente para correr e se esvaziar outra vez.” “O nós das causas em que me encontro tornará a criar-me! Eu mesmo pertenço às causas do eterno regresso das coisas.”

“Todas as palavras não foram feitas para os que são pesados? Não mentem todas as palavras ao que é leve? Canta! Não fales mais!”

“Não cantes! Silêncio! O mundo é perfeito.”

“Que aconteceria se aquele, cujo pai foi afeiçoado às mulheres, aos vinhos fortes e aos javalis, exigisse de si castidade?”

AS CINDERELAS: “A meia-noite é também meio-dia”

“se algum dia quisestes que uma vez se repetisse, se algum dia dissestes: ‘Agradas-me, felicidade! Instante, momento!’ Então quisestes que tudo retornasse.”


Anotações de cunho pessoal & Poesia:

Este sou eu que, na primeira vez em que li esta obra a sério (…) estava sufocado e necessitando me apartar. Hoje o movimento é reverso, também na pureza. Andando em círculos?…

Eu tenho mãos e pés! O que mais eu poderia querer?

Um maldito com uma navalha ensaiou a destruição do cosmo!

Eu estou em busca de um exército! De certa fama “diferente” na cidade. Um respeito mesclado com temor. Como andar sempre no limbo entre o imprestável e o impecável, porque pecaminoso mesmo é fracassar por excesso de uma só coisa, hipertrofia de uma convicção, quer dizer, do olho que agora nada vê. Cornucópia que pretende ser uma armadilha de coelho ou rato para afastar toda a fauna exótica (…) e me distrair de mim mesmo.

Todos são apenas macacos imutáveis—eu sou o único em movimento. Caricaturas de desenvolvimento: (…) Todos estagnados diante da própria essência. Hoje eu sou um ponto, uma estrela, no firmamento de (…) Em breve terei feito os mais velhos comerem poeira cósmica: (…) e o que subsistirá? Os mortos, os clássicos… O insondável.

Não parece estranho que nunca tenha sonhado, ao longo desses anos todos, nem tenha ouvido relatos a respeito, que eu mesmo fosse deus, que de algum modo adquiria a onipotência—mas esse sujeito é aquele que sabe que num instante vai acordar? T.E., o último discípulo viúvo, me persegue nessas representações, como um lado gosmento e sórdido da inconsciência superada.

E aquele que cai doente, sem quem lhe dê de comer?

Os animais antropomorfos de Zaratustra—fiéis escudeiros—a meio caminho?

Que fazer, eu que nem os animais ideais tenho?

Cerveja e masturbação. Há de alguma forma uma pureza em quem passou a vida ao lado de uma única e jamais experimentou entorpecentes ilegais. Eu: alguém que não teve coragem de se servir de uma prostituta. Mas não devemos fazer propaganda, e por dois motivos. Não esquecer também da outra metade da família. TRABALHADORES. DESPREZADORES. Eu que não amo minha ascendência. Por isso é que eu acho: numa briga de vida ou morte com alguém fisicamente mais forte, eu levaria vantagem. O BRAVO. Sou o escriba encarregado de sistematizar as qualidades dos meus últimos parentes?

Imagina teu futuro mais funesto, e lento! Isso será razão para praguejar? Só temos voz para o presente. Se bem que o presente é um elo de uma cadeia, que o comanda, ele mesmo um dos líderes dessa cadeia. Aqui fala um soberano e eleito, elo da cadeia fenomenal chamada humanidade, esta uma das argolas do colar chamado mundo! Aqui não se trata de bijuteria, pois não se pode quebrar, cada peça precisa ser mais maleável que a borracha e mais resistente que o diamante! Então o que eu digo, petulante, hoje? Para ser frase eterna, que seja: já muito eu venci… Justifiquei-o?


De 10 a 19 de março de 2011

[ARQUIVO] O ANTICRISTO II

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

48-51: Nietzsche, os dois Budismos. Talvez uma demonstração de que uma vez “nula”, a Europa já não tem muito o que temer…

73: a “boa-nova” do Messias

81: o cristianismo de fechada; o padre perdido.

102: do Gênese à Torre de Babel

119: Manu

126: extrema nostalgia romana

129: ode ao Islã


“A noção cristã de Deus (…) Deus como aranha.”

“Se não se conseguir terminar com o cristianismo, os alemães são a causa disso…”

“E conta-se o tempo a partir do dies nefastus em que essa fatalidade começou—a partir do primeiro dia do cristianismo!—Por que não contá-lo a partir de seu último dia?—A partir de hoje?—Transmutação de todos os valores!”


Anotações de cunho pessoal:

O reino de Deus como um imenso hospital—última visita: pobretões implorando ao Senhor pela pronta recuperação do paciente em estado terminal, porque “Ele pode tudo!”. Como se não estivesse pressuposto desde o começo que mais cedo ou mais tarde—nessa ou noutras gerações desta família—a crença no poder de Deus será reduzida a cinzas. Eu simplesmente não sei me comportar como um doente!

Em simples coisas como o futebol de três décadas atrás se viaja no tempo de forma literal e impactante o suficiente para dizer: como perdemos o gosto; massacramos qualquer cadência! Ação, ação, ação, chazam! Quero um chá, Zâmbia irá me esperar! A música não alenta? Tirar alguma conclusão? Pra que a pressa? Outra hora vem… Ainda que “o dia” fosse amanhã, eu diria: ainda falta muito tempo para o mundo acabar…


9 de março de 2010

[ARQUIVO] SCHOPENHAUER COMO EDUCADOR (A III Intempestiva)

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

25: o homem moderno entre um sim e um não

33: Shelley, Prometeu Desacorrentado

37: o problema do ceticismo

61: o castigo do homem tornado a ser animal

68: tartufismo

75: da moda

80-1: o “mata-moscas” do sábio

110: o elogiado filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson

111: as eternas metáforas da bela mulher e da velhota


“Um homem nunca sobe mais alto a não ser quando ignora para onde seu caminho pode levá-lo.”

O prefácio mais lindo e comovente.

“De fato, todo aquele que tiver o furor philosophicus no corpo não terá mais tempo para o furor politicus e se absterá sabiamente de ler jornal todos os dias e especialmente militar num partido, embora não se deva hesitar um instante para tomar seu lugar na hierarquia, desde que um perigo real ameace a pátria.”

Livro essencialmente para tratar daquele que escolheu a carreira de professor no âmbito da modernidade e se vê diante do ESTADO para filosofar… Sobre a honestidade e o caráter de um professor universitário… Há coisas que simplesmente estão fora de pauta. Agregue-se a isso a função de antiquário do moderno.

“E se quiserem ouvir os cantos da solidão, escutem a música de Beethoven.”

“E se for verdade que as florestas devem rarear aos poucos, não chegará um momento em que será necessário usar bibliotecas como nos servimos de lenha, palha e gravetos?”

“Toda filosofia que acreditar afastar ou mesmo resolver com a Judá de um acontecimento político o problema da existência não passa de uma caricatura e de um sucedâneo da filosofia.”

“As águas da religião estão em baixa e deixam atrás delas pântanos e lamaçais (…) Jamais o século foi mais secular, mais pobre de amor e de bondade.”

“No devir, tudo é vazio, mentiroso, chato e miserável”

“a terra perderá seu peso, os acontecimentos e as potências terrestres não serão mais que sonhos, uma transfiguração semelhante àquela das tardes de verão se difundirá em torno dele.”

“A pressa é geral, porque todos querem escapar de si mesmos”

“deveríamos algum dia aprender a odiar algo de mais geral que nossa individualidade (…) será somente então que um novo fim será fixado a nosso amor e a nosso ódio”

“Mas quando alguém se acostumou a traduzir toda espécie de experiência em termos de dialética e num puro problema cerebral, é surpreendente ver com que rapidez se resseca em semelhante atividade, que logo só é capaz de se fazer entender por um estalar de ossos.”

“Em oitavo lugar, (…) Seus consoladores são os livros ou escutar outro pensar de forma diversa da sua, é assim que consegue matar o tempo durante um longo dia.”

“se fixarão por objetivo preparar o surgimento de um novo Schopenhauer, de um gênio filosófico.”

“o fato de ser obrigado a pensar publicamente, em horas previamente determinadas, em coisas previamente fixadas. E diante de jovens! (…) E se acontecesse um dia de sentir que nesse dia não consegue pensar em nada, que nenhuma única idéia lhe vem ao espírito—e que tivesse de se apresentar, no entanto, a fingir de pensar?” “essa maneira de pesquisar em inumeráveis opiniões estranhas e absurdas lhe parece quase o mais repugnante e o menos oportuno dos serviços.” “‘É um bom filólogo, um bom arqueólogo, um bom lingüista, um bom historiador’, mas nunca: ‘É um bom filósofo.’”

“é mais filosófico nada saber do que aprender o que quer que seja”

“em nossos dias precisamente é uma raça fraca que ocupa as cátedras de filosofia e Schopenhauer, se tivesse agora de escrever seu tratado sobre a filosofia universitária, não teria mais necessidade de tomar sua clava: uma vareta lhe bastaria.”

“Aqui e acolá, um dentre eles tenta ainda um pequeno vôo metafísico—com os resultados habituais: vertigem, enxaqueca e sangramento do nariz.”

“é da própria natureza da filosofia nunca se deixar assalariar”


Anotações de cunho pessoal:

Tem-se pelo menos uma certeza: não se atingiu o auge de nada. O que não significa que tenha sido em vão. Ainda que houvesse um “ato em si” reconhecido por todas as épocas como tendo sido o mais grandioso, isso nunca é percebido no tempo presente, é sempre “tarde demais”. Mas o mais comum e salutar e natural é projetá-lo à frente de si… Portanto, não existe “meio-termo” de um homem íntegro. Ou só existem híbridos.


9 de março de 2010

[ARQUIVO] O CASO WAGNER

4ª CONSIDERAÇÃO INTEMPESTIVA: WAGNER EM BAYREUTH

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

92: a recorrente puxada de orelha nos alemães e seus estudos históricos

93: a orientalização do mundo, desde Alexandre

98: o problema da arte como única justificativa para a vida

100: a linguagem universal

110: da transição de um talento a outro: Wagner, Goethe, Schiller—da expressão escrita à oral/musical?

112: da árvore que finca raízes; Zaratustra.

126: as músicas de Wagner são versadas

129: as diversas sensações suscitadas no ouvinte pelo desenvolvimento das técnicas musicais

130: para entender Beethoven

131: Wagner e Heráclito


Já não acreditava mais no que escrevia? Última homenagem terna?

“Em toda parte o homem só encontra sua insuficiência pessoal, sua impotência total ou parcial. Que coragem teria para combater se não tivesse recebido previamente a consagração de uma causa que ultrapassa sua personalidade?” “nossa tríplice insuficiência”—“Não podemos estar felizes”; “não podemos ser morais”; “não podemos até mesmo ser sábios” “a arte é a atividade do homem em repouso”, isso quer dizer: “A arte não é o mestre e o mentor da atividade concreta”—porque somos como somos e as personagens não ditam nosso comportamento. Mas adoramos ser múltiplos.

Arte como mapa da vida, a vida como o JOGO DOS JOGOS: “a grandeza e o valor insubstituível da arte consistem precisamente no fato de que evoca a aparência de um mundo mais simples, de uma solução mais rápida para os enigmas da vida. Aquele que a vida fere não pode prescindir dessa aparência, como não pode prescindir do sono.” …AND JUSTICE FOR ALL

“Impedir que o arco se rompa, essa é a razão de ser da arte.”

O erro nietzscheano, se existe algum aqui, consiste na crença na instantaneidade da mudança e em seu marco divisório, que certamente não era este Wagner nem esta Bayreuth!

Elogios alter-biográficos que num espaço de uma década e meia seriam convertidos em autobiográficos: Ecce Homo, ele mesmo! Despojado de seu ídolo, superado…

Um pouco de afetação, aqui e acolá. Alguns anos depois, em que hierarquia situaria seu “primeiro músico absoluto”?


O CASO WAGNER (p.d.)

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

20: Benjamin Constant

22: sobre querer-se fundir com o amante

24: “o nada, a Circe indiana”

38: Wagner e Hegel—“a música como idéia”

44: Nietzsche contra os adolescentes

45: Wagner, o Minotauro. Ou comunista, comedor de criancinhas.

47: os tipos mórbidos de Dostoievsky


Ouvir 20 vezes uma mesma música devia ser algo bastante excepcional, àquele tempo.

Um libelo chauvinista.

Humor picante, sob a égide cesárea (“dizer o sério rindo”).

Como no Ecce Homo, tratado encharcado de citações em francês.

Siegfried//Shakespeare—tanto Siegfried e Brunilda quanto Romeu e Julieta “só podem se amar no Além”: logo, o “depois” é mais importante que o REAL.

“Wagner resume a modernidade. Não adianta, deve-se começar por ser wagneriano…”

“Um ser esgotado é atraído por aquilo que é nocivo: um vegetariano o é pelos legumes.”

Mais para o final da vida, começou a citar jornais em seus textos.

“Quando não se é rico, é preciso ser suficientemente digno para se ser pobre!…”

Só no epílogo, a crítica mais contundente e clara: uso dos mitos que sustentavam uma moral aristocrática para posar e se refestelar sobre a massa cristã. Ainda ensina: não se CONVENCE alguém ou uma época a favor ou contra uma crença.


Anotações de cunho pessoal:

De repente, acordamos pensando horrores daqueles por quem guardávamos uma alta estima!


NIETZSCHE CONTRA WAGNER

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

58: tiradas sarcásticas com direito até a merchand!

62-3: no parágrafo sobre a música como eco tardio de uma outra época, a previsão do gênero folk!

67: lamenta a França igualmente perdida… e já lamantara a Itália, no prefácio


“Ninguém leva ao teatro o sentido mais refinado de sua arte, muito menos quando se é artista que trabalha para o teatro—a solidão faz falta, a perfeição não tolera testemunhas… No teatro, nos tornamos plebe, rebanho, mulher, fariseu, gado eleitoral, patrono de igreja, idiota—wagneriano: é ali que a consciência mais pessoal se submete ao encanto nivelador da maioria, é ali que reina o próximo, ali é que nos tornamos próximo…”

“Foi assim que, progressivamente, passei a compreender Epicuro, antítese de um grego dionisíaco, e igualmente o cristão que, de fato, não passa de uma espécie de epicurista e se conforma a seu axioma ‘a fé torna feliz’.”

“A doença é sempre a resposta se queremos duvidar de nosso direito à nossa missão, se começamos a tornar as coisas mais fáceis para nós em qualquer sentido. Estranho e assustador ao mesmo tempo! São nossas facilitações que devemos expiar mais duramente! E se, depois disso, quisermos recuperar a saúde, não há mais escolha: temos de nos carregar mais pesadamente do que estávamos antes…”


De 5 a 8 de março de 2010

[ARQUIVO] A FILOSOFIA NA ÉPOCA TRÁGICA DOS GREGOS

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

47: o reinado do agon

130: Eurípides, o socrático

133: os Cínicos, super-socráticos


Sobre o tempo, para além da História (Homem)

“Com três historietas é possível compor o retrato de um homem”

“é significativo que seja Sócrates o primeiro grande grego a ser feio”


Anotações de cunho pessoal:

Existe o suicídio por felicidade incontível? Creio que nesse momento eu me proporia a isso: seria uma das mortes mais invejadas em todas as salas de cinema.

Ficção contemporânea e seu maior erro: os mortos como seres fracassados. O protagonista clássico nunca morre (anti-Aquiles, este ainda assim capturado de ângulo romântico).

[ARQUIVO] O LIVRO DO FILÓSOFO

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

16: o problema milenar de ter começado a se preocupar com o de fora, mero reflexo do que é “de dentro”. Hipertrofia teutônica.

20: elogios a Kant

22: a necessária—anti-Marcuse—marginalização da Filosofia

60: a sinestesia da criança

67: em certos aspectos me parece que estes esboços são a prévia direta de VdP, que veio para realizar um projeto antigo

69: “impossibilidade da metafísica” reiteradas vezes

72: do filósofo-legislador ou do iconoclasta

108: sobre a efemeridade do Helenismo

110: o imenso perigo da centralização política

119: ANEXO transbordante (“SOBRE OS HUMORES”). A luta entre o lembrar e o esquecer, o osciloscópio da mente e do coração. Aqueles que não amo mais, aqueles que ainda vou amar… Aquilo que amo…

“O filósofo como freio da roda do tempo.

É nas épocas de grande perigo que os filósofos aparecem—no momento em que a roda gira cada vez mais depressa—eles e a arte tomam o lugar do mito que desaparece. Mas eles se lançam muito à frente, pois a atenção dos contemporâneos só se volta lentamente para eles.”

Antes dos 30, já desfia as categorias de niilismo.

“o filósofo trágico não é um cético”

Todo ídolo nasce do nada.

“Íntimo parentesco entre os filósofos e os fundadores de religião.”—O Judeu maometano e minha aparência de “tabuador”.

“A arte repousa na imprecisão da vista.”

Sobre o “metafísico em Nietzsche” (mais particularmente, eu diria: “sobre o sentido da vida”): “Vocês não devem se refugiar numa metafísica, mas sacrificar-se à civilização do devir! É por isso que me oponho absolutamente ao idealismo do sonho.” Sua metafísica é real.

“Que sentido tem o homem dizer não! Com toda a franqueza, enquanto todos os seus sentidos e todos os seus nervos dizem sim! E que cada fibra, cada célula se opõe.”

“Não autorizamos mais a ficção conceitual. Somente na obra de arte.”

Sobre meu mandamento 4 (vide em 03/03/10 neste blog (e também o hilário excerto do dia 4!): “Vocês praticam a filosofia com jovens sem experiência: seus anciãos se voltam para a história. Vocês não têm de modo algum filosofia popular, mas em compensação têm conferências populares vergonhosamente uniformes. Temas de composição propostos pelas universidades aos estudantes, sobre Schopenhauer! Discursos populares sobre Schopenhauer! Isso é falta de toda dignidade!”

“o povo tem necessidade das anomalias, a obra de arte é prova disso (…) O filósofo como médico da civilização.”

“A falsa oposição entre a vida prática e a vida contemplativa é asiática. Os gregos compreendiam melhor as coisas.”


Anotações de cunho pessoal:

Se o filósofo congela o tempo e as rodas da confusão, ele é o doente por excelência, porque na vida de um pensador e de muitas outras pessoas é a doença que cumpre esse papel de calmaria e reassentamento.

Eu estou tão alto que poderia rasgar o céu. Subi. Eu subi tanto: confesso que já nem sei mais como descer da árvore.

Não é coincidência eu não ter (mais) primos-irmãos? No máximo primos de primas?

Maço é sempre de papel

mas eu quero o mais cruel

Você não está vendo? O mundo vai virar areia…

Três pratos de tigres para três dias tristes…


De 3 a 4 de março de 2010

PSICOLOGIA E ALQUIMIA — Jung

PREFÁCIO DOS EDITORES

“O VOLUME VI ‘Tipos Psicológicos’ e o volume VII – ‘O Eu e o Inconsciente’ e ‘Psicologia do Inconsciente’ – eram considerados básicos e imprescindíveis à compreensão de sua Obra Completa pelo próprio C.G. JUNG. Nesta Obra Completa, o presente volume n° XII, ‘Psicologia e Alquimia’ ocupa um lugar central. O texto é aqui apresentado em sua terceira edição.”

I

INTRODUÇÃO À PROBLEMÁTICA DA PSICOLOGIA RELIGIOSA DA ALQUIMIA

“A exigência da ‘imitatio Christi’, isto é, a exigência de seguir seu modelo, tomando-nos semelhantes a ele, deveria conduzir o homem interior ao seu pleno desenvolvimento e exaltação. Mas o fiel, de mentalidade superficial e formalística, transforma esse modelo num objeto externo de culto”

“Cristo pode ser imitado até o ponto extremo da estigmatização, sem que seu imitador chegue nem de longe ao modelo e seu significado. Não se trata de uma simples imitação, que não transforma o homem, representando assim um mero artifício. Pelo contrário, trata-se de realizar o modelo segundo os meios próprios de cada um – Deo concedente – na esfera da vida individual.”

“A concepção inadequada da ‘imitatio Christi’ apenas exterior é reforçada pelo preconceito europeu que distingue a atitude ocidental da oriental. O homem ocidental sucumbe ao feitiço das ‘dez mil coisas’: distingue o particular, uma vez que está preso ao eu e ao objeto, permanecendo inconsciente no que diz respeito às raízes profundas de todo o ser. Inversamente, o homem oriental vivência o mundo das coisas particulares e o seu próprio eu como um sonho, pelo fato de seu ser encontrar-se enraizado no fundamento originário; este o atrai de forma tão poderosa que relativiza sua relação com o mundo, de um modo muitas vezes incompreensível para nós.”

“A atitude oriental (principalmente a hindu) representa o contrário dessa atitude: o mais alto e o mais baixo estão dentro do sujeito (transcendental). Por este motivo o significado do ‘atman’, do si-mesmo, é elevado além de todos os limites.”

“O psíquico é só natureza – e por isso se pensa comumente que nada de religioso pode provir dele.”

“(Um pouco mais de Meister Eckhart não faria mal a ninguém!)”

“Uma projeção exclusivamente religiosa pode privar a alma de seus valores, tomá-la incapaz de prosseguir em seu desenvolvimento, por inanição, retendo-a num estado inconsciente. Ela pode também cair vítima da ilusão de que a causa de todo o mal provém de fora, sem que lhe ocorra indagar como e em que medida ela mesma contribui para isso. A alma parece assim tão insignificante a ponto de ser considerada incapaz do mal e muito menos do bem.”

“É verdade que os missionários cristãos pregam o Evangelho aos pobres pagãos nus, mas os pagãos interiores que povoam a Europa ainda não ouviram essa mensagem.”

“Todavia, quando demonstro que a alma possui uma função religiosa natural, e quando reafirmo que a tarefa mais nobre de toda a educação (do adulto) é a de transpor para a consciência o arquétipo da imagem de Deus, suas irradiações e efeitos, são justamente os teólogos que me atacam e me acusam de ‘psicologismo’.”

“A psicologia, enquanto ciência da alma, deve restringir-se ao seu objeto e precaver-se no sentido de não ultrapassar seus limitas, fazendo afirmações metafísicas ou não importa que profissão de fé.”

“Ignoramos em última instância de onde se origina o arquétipo, da mesma forma que ignoramos a origem da alma. A competência da psicologia enquanto ciência empírica não vai além da possibilidade de constatar, à base de uma pesquisa comparativa, se o tipo encontrado na alma pode ou não ser designado como uma ‘imagem de Deus’. Desta forma, nada se afirma de positivo ou de negativo acerca de uma possível existência de Deus, do mesmo modo que o arquétipo do ‘herói’ não pressupõe a sua existência.” Bela saída pela tangente!

“Ninguém pode evitar a fé em aceitar como causa primeira Deus, Purusha, Atman ou Tao, eliminando assim a inquietude última do homem. A ciência trabalha com escrúpulo e não pretende tomar o céu de assalto.”

“O ponto de vista religioso interpreta o tipo como algo decorrente da ação do impressor; o ponto de vista científico o interpreta como símbolo de um conteúdo desconhecido e inapreensível.”

“É impensável que qualquer figura determinada possa exprimir a indeterminação arquetípica. Senti-me impelido por isso a dar o nome psicológico de Si-mesmo (Selbst) ao arquétipo correspondente – suficientemente determinado para dar uma idéia da totalidade humana e insuficientemente determinado para exprimir o caráter indescritível e indefinível da totalidade.”

“o símbolo de Cristo é da maior importância para a psicologia, porquanto constitui, ao lado da figura de Buda, talvez o símbolo mais desenvolvido e diferenciado do Si-mesmo. Isto pode ser avaliado pela amplitude e pelo conteúdo dos predicados atribuídos ao Cristo, que correspondem à fenomenologia psicológica do Si-mesmo de um modo incomum, apesar de não incluir todos os aspectos deste arquétipo.”

“O Si-mesmo não só é indefinido, como também comporta paradoxalmente o caráter do definido e até mesmo da unicidade.” “A inclusão de uma personalidade humana, única (especialmente quando ligada à natureza divina indefinível), corresponde ao individual absoluto do Si-mesmo, que liga o único ao eterno e o individual ao mais geral.”

“A vivência dos opostos nada tem a ver com a visão intelectual, nem com a empatia. É mais aquilo a que poderíamos chamar de destino.”

“Sabe-se que os números ímpares sempre foram masculinos não só para nós, ocidentais, como também para os chineses; quanto aos números pares, são femininos.”

“Como o leitor já percebeu pelo título deste livro, ocupa-se ele com o significado psicológico da alquimia e portanto com um problema que, salvo raríssimas exceções, tem escapado à pesquisa científica até o presente.”

“A alquimia constitui como que uma corrente subterrânea em relação ao cristianismo que reina na superfície. A primeira se comporta em relação ao segundo como um sonho em relação à consciência e da mesma forma que o sonho compensa os conflitos do consciente, assim o esforço da alquimia visa preencher as lacunas deixadas pela tensão dos opostos no cristianismo.”

“A transformação histórico-universal da consciência para o lado ‘masculino’ é em primeiro lugar compensada pelo inconsciente ctônico-feminino.”

“Não se escandalize o leitor se a minha digressão soa como um mito gnóstico. Movemo-nos aqui no terreno psicológico em que está enraizada a gnose. A mensagem do símbolo cristão é gnose, e a compensação do inconsciente o é ainda mais.”

“A alquimia trata principalmente do germe da unidade que está oculto no caos de Tiamat e que corresponde à contrapartida da unidade divina.”

“O número três não é uma expressão natural da totalidade, ao passo que o número quatro representa o mínimo dos determinantes de um juízo de totalidade.”

“O ‘mercúrio’ é sem dúvida ‘quadratus’, mas também uma serpente tricéfala, ou simplesmente uma tri-unidade.”

“os temas do sonho sempre reaparecem depois de determinados intervalos, sob certas formas que designam à sua maneira o centro.”

“Poderíamos estabelecer um paralelo entre esses processos em espiral e o processo de crescimento das plantas; o tema vegetal (árvore, flor, etc.) também retorna freqüentemente nesses sonhos e fantasias, ou em desenhos espontâneos.” O tema do concurso refeito: voltei ao Colégio Militar por direito, “me emendei”, etc. Há sempre uma festa que é a do meu casamento ou casamento do A. em que bebo tanto que emendo o fim de semana com a segunda de trabalho.

“No processo do tratamento psíquico, a relação dialética conduz logicamente ao confronto do paciente com sua sombra, essa metade obscura da alma da qual nos livramos invariavelmente através de projeções, ora carregando o próximo – num sentido mais ou menos lato – de todos os vícios que são nossos, ora transferindo os próprios pecados para um mediador divino através da ‘contritio’ ou da ‘attritio’ mais amena.(*)

(*) Contritio é ‘arrependimento perfeito’. Attritio é ‘arrependimento imperfeito’ (‘contritio imperfecta’ à qual também pertence a ‘contritio naturalis’). A primeira considera o pecado como oposição ao Bem Supremo; a última o rejeita por sua maldade e feiúra e também por medo do castigo.”

“Quando a sombra é trazida à consciência pode arrastar consigo, à tona, os conteúdos do inconsciente coletivo. Isto pode exercer uma influência tremenda sobre a consciência, uma vez que a vivificação dos arquétipos molesta o mais frio dos racionalistas, e precisamente a ele.”

“O simples conhecimento da estrutura psíquica da neurose também é insuficiente nesses casos; quando o processo atinge a esfera do inconsciente coletivo encontramo-nos diante de material saudável, ou seja, dos fundamentos universais da psique, com suas variações individuais. O que ajuda a compreender essas camadas mais profundas da psique é, por um lado, o conhecimento da mitologia e da psicologia primitiva e, por outro, de um modo muito especial, o conhecimento das etapas históricas preliminares da consciência moderna. A consciência atual foi modelada tanto pelo espírito da Igreja, como pela ciência em cujos primórdios se ocultava muita coisa que não podia ser aceita pela Igreja. Trata-se principalmente de remanescentes do espírito da Antiguidade e do seu sentimento da natureza que não era possível extirpar, tendo encontrado um refúgio na Filosofia Natural da Idade Média. Os antigos deuses dos planetas sobreviveram a muitos séculos de Cristianismo sob a forma de ‘spiritus metallorum’ e componentes astrológicos do destino.”

“A alquimia movia-se de fato sempre no limite da heresia e era proibida pela Igreja. Ela desfrutou entretanto da proteção eficaz da obscuridade de seu simbolismo, que a qualquer momento podia ser explicado por uma alegoria inofensiva. Para muitos alquimistas, o aspecto alegórico se achava de tal modo em primeiro plano, que estavam totalmente convencidos de tratar-se apenas de corpos químicos. Outros, entretanto, consideravam o trabalho de laboratório relacionado com o símbolo e seu efeito psíquico. Tal como demonstram os textos, esses alquimistas tinham a consciência do efeito psíquico, a ponto de condenarem os ingênuos fazedores de ouro como mentirosos, trapaceiros ou extraviados.”

“A grande preocupação da Igreja é a ‘imitatio Christi’, ao passo que o alquimista, na solidão e na problemática obscura de sua obra, sucumbe sem saber ou mesmo sem querer aos pressupostos inconscientes naturais de seu espírito e de seu ser, por não dispor para se apoiar de modelos claros e inequívocos como o Cristo. Os autores estudados pelo alquimista fornecem-lhe símbolos cujo sentido ele capta a seu modo, embora na realidade toquem e excitem seu inconsciente. Ironizando-se a si mesmos, os alquimistas cunharam a expressão: ‘obscurum per obscurius’ (o obscuro pelo mais obscuro).”

“A unidade dos quatro, o ouro filosófico, o ‘lapis angularis’ (pedra angular), a ‘aqua divina’ (água divina) correspondiam na Igreja à cruz de quatro braços na qual o ‘Unigenitus’ foi sacrificado, uma vez na história e por toda a eternidade.”

“A possessão revela-se quase sempre pelo fato de as pessoas possuídas se identificarem com os conteúdos. Não reconhecendo o papel que lhes é imposto como efeito dos novos conteúdos a serem descobertos, elas os encarnam exemplarmente em suas vidas, tomando-se profetas e reformadoras.” “Jesus tomou-se assim a imagem protetora contra todos os poderes arquetípicos que ameaçavam apoderar-se das pessoas. A boa-nova anunciava: ‘Já aconteceu, e já não vos acontecerá mais se acreditardes em Jesus, o filho de Deus!’” “Por isso sempre houve pessoas que, não se satisfazendo com a dominante da vida consciente, buscaram por debaixo do pano ou por atalhos secundários, para seu bem ou para seu mal, a experiência originária das raízes eternas. Seguindo o fascínio do inconsciente irrequieto, puseram-se a caminho rumo .ao deserto, onde, como Jesus, depararam com o filho das Trevas”

“Mas a parte anímica da obra não desapareceu. Ela conquistou novos intérpretes, como vemos por exemplo no Fausto e na relação significativa da psicologia moderna do inconsciente com a simbólica alquímica.”

II.

SÍMBOLOS ONÍRICOS DO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Contribuição para o conhecimento dos processos do inconsciente manifesto nos sonhos

“a simbólica da mandala”

“O material de que disponho consiste em mais de mil sonhos e impressões visuais de um homem ainda jovem cuja formação científica deve ser sublinhada.” “A não ser uma curta entrevista no início, antes de começar as observações, não encontrei o sonhador durante os oito primeiros meses. Assim, pois, 355 dos 400 sonhos foram sonhados independentemente de qualquer contato pessoal comigo.”

“Não contesto de modo algum a possibilidade de sonhos ‘paralelos’, isto é, de sonhos cujo sentido coincida com a atitude da consciência ou venha em apoio desta última. Mas na minha experiência, pelo menos, estes últimos são relativamente raros.”

“O chapéu que cinge a cabeça é redondo como o círculo solar da coroa, contendo por isso a primeira alusão à mandala.”

usar o chapéu de outra pessoa

boné capacete

boina

usar o cabelo de outra pessoa

“O mar é o símbolo do inconsciente coletivo porque sob sua superfície espelhante se ocultam profundidades insondáveis.”

“Tal como a mania de perseguição resulta de um relacionamento envenenado pela desconfiança, assim também uma realidade ilusória vem substituir a animação normal do meio ambiente e, em lugar de pessoas, começam a mover-se sombras aterradoras e fantasmagóricas. Este é o motivo pelo qual o homem primitivo povoava os lugares desertos e solitários de ‘diabos’ e outros fantasmas.” Porões do CMB.

“A resistência do consciente contra o inconsciente, bem como a depreciação deste último, é uma necessidade histórica do desenvolvimento da consciência, pois de outro modo ela nunca se teria diferenciado do inconsciente. A consciência do homem moderno porém distanciou-se demasiadamente da realidade do inconsciente.”

“país das crianças”

O País das Maravilhas aceita todas as idades, é atemporal

“É infantil não apenas aquele que permanece criança por muito tempo, mas aquele que separando-se da infância pensa que ela não existe mais porque não a vê.”

“A pré-história psíquica é o espírito da gravidade, que exige degraus e escadas porque não pode voar, a modo do intelecto, sem corpo e sem peso.”

“O inconsciente pessoal deve sempre ser resolvido em primeiro lugar, isto é, deve ser integrado na consciência. De outro modo, o acesso ao inconsciente coletivo tomar-se-ia impossível. A viagem com pai e mãe, subindo e descendo muitas escadas, corresponde a esta conscientização de conteúdos infantis ainda não-integrados.”

“SONHO 13

O pai grita ansioso: ‘Este é o sétimo!’”

“Se for correta a interpretação de que o ‘sétimo’ corresponde ao degrau máximo da iluminação, o processo da integração do inconsciente pessoal deveria em princípio estar concluído.”

“Enquanto planeta Mercúrio ele é o mais próximo do sol, o que indica também sua maior afinidade com o ouro. Enquanto metal, o mercúrio dissolve o ouro e apaga seu brilho solar.”

“A ‘arte negra’ porém não é tão remota quanto se pensa; o sonhador, como homem culto, devia ter lido o Fausto. Este último é um drama alquímico do começo ao fim, embora o homem culto de hoje tenha apenas uma vaga idéia disto.”

“Os monólogos da caveira, no Fausto e em Hamlet, evocam o absurdo aterrador da existência quando é apenas considerada pelo ‘pálido esboço do pensamento’.”

“O fenômeno da ‘voz’ sempre tem um caráter definitivo e indiscutível para o sonhador, isto é, a voz enuncia uma verdade ou condição que já não pode ser posta em dúvida.”

“Nenhuma mandala é igual a outra, sendo individualmente diferentes. Acrescentou que as mandalas encontradas nos mosteiros e nos templos não têm significado particular, por serem meras representações exteriores. A verdadeira mandala é sempre uma imagem interior, construída pouco a pouco através da imaginação (ativa) somente em períodos de distúrbio do equilíbrio anímico, ou quando se busca ima pensamento difícil de ser encontrado por não figurar na doutrina sagrada.”

“ela é sempre um sistema quaternário, uma ‘quadratura circuli’ (quadratura do círculo), cujos conteúdos procedem invariavelmente da dogmática lamaísta.”

“É essencial conhecer esta valorização máxima do símbolo, porquanto coincide com o significado central dos símbolos mandálicos individuais, caracterizados pelas mesmas qualidades de natureza por assim dizer ‘metafísica’. Se não estivermos completamente enganados, eles representam um centro psíquico da personalidade que não é idêntico ao ‘eu’. Observei tais processos e imagens ao longo de vinte anos, através de um material empírico relativamente abundante.”

“Pratica-se a ioga indiana de qualquer escola, seguem-se regimes alimentares, aprende-se de cor a teosofia, rezam-se mecanicamente os textos místicos da literatura universal – tudo isto porque não se consegue mais conviver consigo mesmo e porque falta fé em que algo de útil possa brotar de nossa própria alma.”

“Perde-se a culpa, que é substituída por uma inocência infantil; reaparece então o pai mau responsável por isto e a mãe pouco amorosa responsável por aquilo e nesses inegáveis nós causais fica-se preso como uma mosca em teia de aranha, sem perceber que se perdeu a liberdade moral.”

“O tipo de veículo, num sonho, ilustra o tipo de movimento, ou a maneira pela qual se avança no tempo – em outras palavras, como se vive sua vida psíquica, individual ou coletivamente, por seus próprios meios ou por meios emprestados, espontaneamente ou mecanicamente. No avião, o sonhador é conduzido por um piloto desconhecido, isto é, por vima intuição de origem inconsciente.” “No sonho de que tratamos agora, ele está num bonde elétrico que pode ser usado por qualquer pessoa; isto significa que ele se movimenta ou se comporta como qualquer pessoa.”

“Da mesma forma os filósofos afirmam que o quadrado deve transformar-se em triângulo, isto é, em corpo, espírito e alma, os quais antes do vermelho aparecem em três cores, ou seja, o corpo ou a terra num negro saturnino, o espírito num branco lunar como água, a alma ou o ar, amarelo como o sol. Então o triângulo estará completo, todavia, por sua vez, ele deve transformar-se num círculo, isto é, num vermelho inalterável.”

“o intelecto do homem moderno considera tudo isto o maior dos absurdos. No entanto, este juízo de valor não impede que tais associações de idéias existam há muitos séculos, desempenhando um papel de suma importância.” “(Muitos de meus críticos, que se dizem ‘cientistas’, reagem exatamente como aquele bispo que excomungou os besouros por proliferarem desavergonhadamente.)”

“A retro-identificação com os ancestrais humanos e animais significa, no plano psicológico, uma integração do inconsciente, um verdadeiro banho de renovação na fonte da vida, onde se é novamente peixe, isto é, inconsciente, como no sono, na embriaguez e na morte; daí o sono de incubação, a consagração orgiástica dionisíaca e a morte ritualística na iniciação. Tais procedimentos realizam-se sempre no lugar sagrado. Podemos transpor facilmente estas idéias para o concretismo freudiano: o temenos [estrutura geralmente quadrangular ou circular que nos rodeia e protege] seria o útero materno, e o rito, uma regressão ao incesto. No entanto, neste caso, trata-se de equívocos de neuróticos, os quais permaneceram parcialmente infantis. Ignoram que essas práticas foram exercidas pelos adultos desde os primórdios, sendo portanto impossível explicá-las como simples regressões ao estágio infantil. Caso contrário, as mais altas conquistas da humanidade não significariam mais do que desejos infantis pervertidos, e a expressão ‘infantil’ perderia a sua razão de ser.”

“Se esses ritos de renovação não produzissem resultados efetivos, não só teriam desaparecido na pré-história, como nem mesmo teriam surgido. Nosso caso demonstra que mesmo quando a consciência está a milhas de distância das representações arcaicas dos ritos de renovação, o inconsciente procura reaproximá-los da consciência, mediante os sonhos. Sem dúvida alguma a autonomia e autarquia da consciência representam qualidades sem as quais esta última não existiria; no entanto, tais qualidades podem constituir também um perigo de isolamento e de aridez, por criarem uma alienação insuportável do instinto, resultante da cisão entre consciência e inconsciente.”

“Minha experiência, entretanto, testemunha que a consciência só pode pretender a uma posição relativamente central, devendo aceitar o fato de que de certa forma é ultrapassada e cercada pela psique inconsciente por todos os lados. ‘Para trás’, mediante os conteúdos inconscientes, está conectada com as condições fisiológicas e com os pressupostos arquetípicos. Contudo também protende ‘para frente’, através de intuições que por sua vez são parcialmente condicionadas por arquétipos e por percepções subliminares, ligadas à relatividade espácio-temporal do inconsciente. Deixo ao critério do leitor que examine a possibilidade de uma tal hipótese, após uma ponderação cuidadosa sobre esta série de sonhos e sobre a temática por ela levantada.”

“As festas carnavalescas medievais e o jogo da péla na igreja foram abolidos relativamente cedo; conseqüentemente, o carnaval foi secularizado, desaparecendo a ebriedade divina do espaço sagrado. Restaram na igreja o luto, a severidade, o rigor e a alegria espiritual temperada. Mas a embriaguez, essa forma de possessão imediata e perigosa, desligou-se dos deuses, envolvendo por isso o mundo dos homens em seu excesso e seu ‘pathos’. As religiões pagãs enfrentavam este perigo, dando lugar no culto a esse êxtase da embriaguez.”

“A problemática do três e quatro, do sete e oito, que GOETHE tocou neste ponto, é um dos enigmas da alquimia que remonta historicamente a textos atribuídos a CHRISTIANOS.”

“Filho, toma do corpo mais simples e redondo, e não do triangular ou quadrangular, toma do redondo; porque o redondo está mais próximo da simplicidade do que o triangular. Note-se que o corpo simples não tem ângulo algum, pois é o primeiro e o último dentre os planetas, como o sol entre as estrelas”

“Os leões, como todos os animais selvagens, indicam afetos latentes. Na alquimia, o papel do leão é importante e tem um significado semelhante. Trata-se de um animal ‘do fogo’, alegoria do diabo, e indica o perigo do sonhador ser tragado pelo inconsciente.”

“De vez em quando aparecem mandalas ‘perturbadas’. Elas consistem de todas as formas derivadas do círculo, do quadrado ou da cruz regular; bem como as formas baseadas não no número quatro, mas no três ou no cinco. Os números seis e doze constituem neste caso uma certa exceção. O doze pode ter relação com o quatro ou o três. Os doze meses e os doze signos do Zodíaco são símbolos circulares, colocados à nossa disposição. Da mesma forma, o seis é um conhecido símbolo do círculo. O três sugere a predominância da idéia e da vontade (trindade) e o cinco, o homem físico (materialismo).” // CANA NA CASA & O 6 IMPOSSÍVEL

“A ‘voz’ tem em geral um caráter indiscutível de autoridade e costuma comparecer nos momentos decisivos.”

“Sem o círculo vertical azul a mandala dourada permanece incorpórea e bidimensional, mera imagem abstrata. Somente a interferência do tempo e do espaço no aqui e agora cria a realidade. A totalidade se concretiza apenas no instante, naquele instante que Fausto buscou pela vida afora.”

“A visão do ‘relógio do mundo’ não é o último estágio, nem o ponto culminante no desenvolvimento dos símbolos da psique objetiva. No entanto ela é mais ou menos o desfecho da terça parte inicial do material que abrange cerca de quatrocentos sonhos e visões.”

“Não quero contudo insinuar que me julgo capaz de fazer afirmações concludentes acerca de um tema tão complexo. Não é a primeira vez que trato de uma série de manifestações espontâneas do inconsciente. Já o fiz em meu livro Símbolos da Transformação; neste se tratava do problema de uma neurose (da puberdade), ao passo que aqui a problemática se prolonga até a individuação. Além disso, há uma diferença considerável entre as duas personalidades em questão. O primeiro caso, do qual aliás nunca tratei pessoalmente, terminou numa catástrofe psíquica (psicose); o segundo, aqui em questão, apresenta um desenvolvimento normal, tal como tenho observado freqüentemente em pessoas de elevado nível intelectual.”

“É como se normalmente existisse uma nítida insistência no quatro, ou como se houvesse estatisticamente uma probabilidade maior em relação ao quatro. Não posso silenciar a seguinte observação: o fato de o principal elemento químico constitutivo do organismo físico ser o carbono – caracterizado por quatro valências – é sem dúvida um ‘lusus naturae’ (um jogo da natureza) bastante estranho”

III.

AS IDÉIAS DE SALVAÇÃO NA ALQUIMIA

Uma contribuição à história das idéias na alquimia

“LENTAMENTE, no decurso do século XVIII, a alquimia pereceu em sua própria obscuridade. Seu método de explicação – ‘obscurum per obscurius, ignotum per ignotius’ (o obscuro pelo mais obscuro, o desconhecido pelo mais desconhecido) – era incompatível com o espírito do iluminismo e particularmente com o alvorecer da ciência química, no final do século. Mas estas duas novas forças intelectuais apenas eram o tiro de misericórdia na alquimia. Sua decadência interna começara pelo menos um século antes, no tempo de JAKOB BÖHME, quando muitos alquimistas abandonaram seus alambiques e cadinhos, devotando-se inteiramente à filosofia (hermética).”

“Sobre este aspecto da alquimia, especialmente quanto a seu significado psicológico, o livro de HERBERT SILBERER Probleme der Mystik und ihrer Symbolik (1914) fornece uma informação abundante. O simbolismo fantástico relacionado com o aspecto psicológico é graficamente descrito num trabalho de BERNOULLI: Seelische Entwicklung im Spiegel der Alchemie. Podemos encontrar em EVOLA um relato detalhado da filosofia hermética: La tradizione ermetica. Mas um estudo abrangente das idéias contidas nos textos, e da sua história, ainda está faltando, embora sejamos devedores a REITZENSTEIN por sua importante obra preparatória neste campo.”

“Quatro estágios são assinalados, caracterizados pelas cores originárias já mencionadas em HERÁCLITO: melanosis (o enegrecimento), leukosis (embranquecimento), xanthosis (amarelecimento), iosis (enrubescimento).” “Mais tarde, por volta dos séculos XV e XVI, as cores foram reduzidas a três, e a xanthosis, também chamada ‘citrinitas’, caiu gradualmente em desuso, ou então era raramente mencionada. Em seu lugar a ‘viriditas’ (o verde) aparece raras vezes após a melanosis ou ‘nigredo’.”

“A partir da ‘nigredo’, a lavagem (ablutio, baptisma) conduz diretamente ao embranquecimento, ou então ocorre que a alma (anima) liberta pela morte é reunida ao corpo morto e cumpre sua ressurreição; pode dar-se finalmente que as múltiplas cores (omnes colores) – a ‘cauda pavonis’ (cauda do pavão) – conduzam à cor branca e una, que contém todas as cores. Neste ponto, a primeira meta importante do processo é alcançada: trata-se da ‘albedo’, ‘tinctura alba’, ‘terra alba foliata’, ‘lapis albus’, etc., altamente valorizada por muitos alquimistas como se fosse a última meta. É o estado lunar ou de prata, que ainda deve alçar-se ao estado solar. A ‘albedo’ é, por assim dizer, a aurora; mas só a ‘rubedo’ é o nascer do sol. A transição para a ‘rubedo’ constitui o amarelecimento (citrinitas), se bem que como já observamos este é suprimido posteriormente.”

“Tal é superficialmente e em suas linhas gerais a estrutura da alquimia, como é conhecida por todos. Do ponto de vista do nosso conhecimento moderno da química, ela nos diz pouco ou nada e se nos voltarmos para os textos, com seus mil e um processos e receitas legados pela Idade Média e pela antiguidade, encontraremos poucos dentre eles, relativamente, de significado identificável pelo químico. É provável acharmos a maioria sem sentido; é indubitável que jamais foi produzida uma verdadeira tintura ou ouro artificial durante todos esses séculos de intenso labor. Podemos então perguntar com toda a razão o que induzia os velhos alquimistas a prosseguir trabalhando ou ‘operando’ (como diziam) de modo constante, escrevendo todos aqueles tratados sobre a ‘divina’ arte, se toda a sua ação era tão desprovida de esperança? Para fazer-lhes justiça devemos acrescentar que todos os conhecimentos essenciais da química e suas limitações eram-lhes desconhecidos e assim podiam ter esperança como aqueles que sonhavam com o vôo e cujos sucessores fizeram tal sonho tornar-se realidade. Nem poderíamos subestimar o sentido da satisfação que nasce do empreendimento, da aventura: o ‘quaerere’ (buscar) e o ‘invenire’ (achar). Estes permanecem, na medida em que os métodos empregados parecem ter sentido. Nada havia naquele tempo que pudesse convencer o alquimista da falta de sentido de suas operações químicas; e o que é mais, ele contava com uma longa tradição de não poucos que haviam obtido o maravilhoso resultado.”

“Se admitimos que o alquimista usa o processo químico só simbolicamente, então por que trabalha num laboratório com cadinhos e alambiques? E se, como ele constantemente afirma, está descrevendo processos químicos, por que os desfigura com seu simbolismo mitológico até torná-los irreconhecíveis?”

“A constituição espiritual do homem pertencente aos ciclos pré-modernos da cultura era tal, que cada percepção física tinha simultaneamente um componente psíquico que o ‘animava’, conferindo à imagem um ‘significado’ adicional e ao mesmo tempo uma tonalidade emotiva particular e poderosa. Assim sendo, a física antiga era ao mesmo tempo uma teologia e uma psicologia transcendental: pelo fato de receber os lampejos das essências metafísicas na matéria dos sentidos corporais. A ciência natural era ao mesmo tempo uma ciência espiritual e os múltiplos sentidos dos símbolos reuniam os diversos aspectos em um único conhecimento.” EVOLA

“Fazer segredo pode ser um mero blefe com o propósito óbvio de explorar os crédulos. Mas toda tentativa de explicar a alquimia unicamente sob este ponto de vista é, na minha opinião, desmentida pelo fato de que vim bom número de tratados detalhados, eruditos e conscienciosos foram escritos e impressos anonimamente, não podendo portanto ter representado uma vantagem ilegítima para alguém.”

“Na tentativa de explicar o mistério da matéria, projetava outro mistério, isto é, projetava seu próprio fundo psíquico desconhecido no que pretendia explicar”

“O alquimista não pratica sua arte por acreditar teoricamente numa correspondência, mas tem uma teoria das correspondências pelo fato de vivenciar a presença da idéia na matéria (physis).”

“A astrologia é uma experiência primordial, como a alquimia. Projeções deste tipo repetem-se todas as vezes que o homem tenta explorar uma escuridão vazia, preenchendo-a involuntariamente com formas vivas.”

“As exposições de HOGHELANDE vêm provar, tal como os dois textos anteriores, que durante as experiências de laboratório ocorrem alucinações ou visões, as quais só podem ser projeções de conteúdos inconscientes.” Neste momento ouvindo CATHEDRAL, trilha perfeita.

“A fim de podermos compreender tais afirmações temos que livrar-nos de todas as idéias modernas sobre a constituição de um gás, e concebê-las como puramente psicológicas. Trata-se nesse caso da projeção de pares de opostos, tais como leve – pesado, visível – invisível, etc. Acontece que a identidade dos opostos é a característica de todo fato psíquico no estado inconsciente. Assim sendo, uma ‘anima corporalis’ é simultaneamente ‘spiritualis’ e o núcleo do ar sólido e pesado é ao mesmo tempo o ‘spiritus creator’ que paira sobre as águas.”

“Assim por exemplo o sábio MICHAEL MAIER censura GEBER – autoridade clássica – de ser o mais obscuro de todos, afirmando que seria preciso um Édipo para decifrar o enigma da ‘Gebrina Sphinx’. BERNARDUS TREVISANUS, outro alquimista famoso, acusa GEBER de obscurantista, comparando-o a um Proteu que promete a fruta e dá cascas.”

“Mercurius encontra-se no início e no fim da obra. É a ‘prima materia’, o ‘caput corvi’, a ‘nigredo’, Como dragão, devora-se a si mesmo e como dragão morre para ressuscitar sob a forma do lapis. É o jogo de cores da ‘cauda pavonis’ (cauda do pavão) e a separação nos quatro elementos. É o hermafrodita, o ser primordial, o qual se divide, formando o par clássico de irmão-irmã, e se unifica na ‘coniunctio’, a fim de aparecer de novo ao fim sob a forma radiante do ‘lumen novum’ (nova luz), do lapis. É metal e não obstante líquido, matéria e no entanto espírito, frio porém ígneo, veneno que é medicamento, um símbolo unificador de opostos.”

“A metáfora enfática usada por NIETZSCHE no Zarathustra: ‘Para mim uma imagem dorme na pedra’, parece dizer o mesmo, mas em uma ordem inversa. Na antigüidade, o mundo da matéria era preenchido pela projeção de um segredo anímico que, desde então, aparecia como o segredo da matéria, assim permanecendo até a decadência da alquimia no século XVIIl. A intuição estática de NIETZSCHE porém queria arrancar da pedra o segredo do super-homem, onde ele até então dormia. À semelhança dessa imagem, NIETZSCHE queria criar o super-homem, o qual segundo a linguagem dos antigos poderia ser considerado o homem divino. Os velhos alquimistas, pelo contrário, procuravam a pedra miraculosa que contivesse uma essência pneumática a fim de extrair dela a substância que penetra em todos os corpos (pois ela é o ‘espírito’ que penetrou na pedra), transformando todas as substâncias vis em matéria nobre mediante a tintura. Esta ‘matéria-espírito’ é como o mercúrio que se encontra invisivelmente dentro dos minérios e que deve em primeiro lugar ser expulso afim de ser recuperado ‘in substantia’. Mas assim que se possui esse mercúrio penetrante é possível ‘projetá-lo’ em outros corpos, fazendo-os passar do estado imperfeito para o estado perfeito.”

“Na medida em que o ponto de vista da psicologia complexa é realista, isto é, fundamentado na hipótese de que os conteúdos psíquicos são existências, os atributos mencionados caracterizam uma parcela inconsciente da personalidade, dotada de uma consciência superior que ultrapassa o humano comum. Empiricamente, tais figuras exprimem sempre ‘insights’ ou qualidades superiores, ainda não conscientes, podendo-se até mesmo perguntar se elas podem ser atribuídas ou não ao ego propriamente dito. Tal problema, que o leigo pode considerar um sofisma, se reveste de um enorme significado na prática. Uma atribuição incorreta pode provocar inflações perigosas, que o leigo só considera sem importância por desconhecer os desastres anímicos e exteriores que podem ser causados por tais inflações.”

“Assim como no cristianismo a divindade se oculta na figura do servo, na ‘filosofia’ ela se oculta na pedra insignificante.”

“Poderíamos ser tentados a explicar o simbolismo alquímico da transformação como sendo uma caricatura da Missa, se sua origem não fosse pagã e portanto muito mais antiga.”

“Os alquimistas são, de fato, pessoas solitárias; cada qual diz o que tem a dizer à sua maneira. Raramente têm discípulos e parece que transmitiam bem pouca coisa por tradição direta; nem temos provas da existência de quaisquer sociedades secretas. Cada qual trabalhava sozinho no laboratório e sofria com a sua solidão.”

“não é correto afirmar que os alquimistas nunca definiram a ‘materia prima’; muito pelo contrário, foram tantas as definições dadas que estas acabaram por contradizer-se repetidamente.”

“Voltai-vos para mim de todo o coração e não me rejeiteis, por eu ser preta e escura, pois o sol assim me queimou; e as profundezas cobriram o meu rosto e a terra foi deteriorada e maculada em minhas obras, pois havia escuridão sobre ela, por eu ter afundado no lodo da profundeza e minha substância não foi explorada. Por isso clamo da profundeza e do abismo da Terra minha voz se dirige a todos vós que passais pelo caminho: Tende cuidado e olhai para mim, se jamais um dentre vós encontrou alguém que comigo se parecesse, eu lhe porei nas mãos a estrela matutina.”

“Não podemos esquecer que o alquimista não faz a menor questão de se torturar com escrúpulos morais, sob pretexto de o homem ser um nada pecador que vai ao encontro da obra de redenção de Deus através de uma conduta ética irrepreensível. O alquimista está no papel de um ‘redentor’ cujo ‘opus divinum’ é mais uma continuação da obra divina de redenção do que uma medida de prevenção contra uma eventual danação por ocasião do Juízo Final.”

“Uma vez que o incesto se dá a conselho dos filósofos, a morte do filho do rei é algo de desagradável e perigoso. A consciência coloca-se numa situação perigosa pela descida ao inconsciente; aparentemente, é como se ela se extinguisse. A situação é a do herói dos primórdios devorado pelo dragão. Em se tratando de um decréscimo ou extinção da consciência, tal ‘abaissement du niveau mental’ equivale ao ‘peril of the soul’ tão temido pelos primitivos (medo dos espíritos).”

“Quando a própria mãe se une a seu filho maritalmente, não se considera este ato como incestuoso. Pois é a natureza que assim ordena e assim exige a sagrada lei do destino, e o fato não desagrada a Deus.”

“O mito gnóstico originário sofreu estranhas transformações: o ‘nous’ e a ‘physis’ constituem uma unidade indistinta na ‘prima materia’, tomando-se uma ‘natura abscondita’.”

“O alquimista ressalta incessantemente a sua ‘humilitas’ (humildade) e sempre inicia seus tratados invocando Deus. Não pensa em identificar-se com Cristo; muito pelo contrário, a alquimia estabelece um paralelo entre a substância procurada, o ‘lapis’, e o Cristo. Não se trata assim propriamente de uma identificação, mas do ‘sicut’ (assim como) hermenêutico, que indica a analogia.”

“O homem moderno deve quase considerar-se feliz pelo fato de que, no momento da colisão com o pensamento e a vivência orientais, seu empobrecimento espiritual chegou a tal ponto que mal percebeu contra o que estava colidindo. Seu confronto com o Oriente desenrola-se agora no nível totalmente inadequado e inócuo do intelecto”

“As raízes do gnosticismo não radicam no cristianismo; aliás seria mais verdadeiro afirmar que este último assimilou idéias do gnosticismo.”

WEI PO-YANG, An Ancient Chinese Treatise on Alchemy

“nos escritos dos padres da Igreja o vento sul é uma alegoria do Espírito Santo, provavelmente devido à natureza quente e seca desse vento. Por este motivo, o processo de sublimação é denominado na alquimia árabe ‘o grande vento do sul’, referindo-se ao aquecimento da retorta e do seu conteúdo. O Espírito Santo é ígneo e provoca a exaltação.”

“Nessa época floresceram as sociedades secretas, sobretudo os Rosa-cruzes – a melhor prova da exaustão do segredo da alquimia! A existência de uma ordem secreta tem sua razão de ser quando é necessário proteger um segredo que perdeu sua vitalidade e que só poderá perdurar de um modo formal.”

“Na tradição medieval associa-se o unicórnio ao leão ‘porque este animal é como o leão, forte, feroz e cruel’. ‘Por esta razão’, diz BACCIUS, ‘este animal chama-se Lycornu na França e na Itália’, o que parece significar um derivado de ‘lion’.” “Conta-se do unicórnio coisas semelhantes às do dragão, que em sua qualidade de animal subterrâneo habita cavernas e gargantas; que eles (os unicórnios) se escondem e habitam os desertos e as altas montanhas e as grutas mais profundas e estranhas e as tocas dos animais selvagens, entre sapos e outros vermes nojentos e imundos”

“No Rig-Veda, ele é chamado de ‘Pai Manu’ e conta-se que com sua filha gerou os homens. É o fundador da ordem social e moral. É o primeiro sacrificador e sacerdote. Transmitiu aos homens a doutrina dos Upanishades.”

“O leão, sendo um animal perigoso, é semelhante ao dragão. Este tem que ser morto; quanto ao leão, tem pelo menos que ter as patas cortadas. O unicórnio também deve ser domado; por ser um monstro, possui um significado simbólico superior e sua natureza é mais espiritual do que a do leão.”

“Segundo o Li-ki há quatro animais benévolos ou espirituais: o unicórnio (K’i-lin), a fénix, a tartaruga e o dragão. O unicórnio é o maior dos quadrúpedes. Seu corpo é de cervo, tem rabo de boi e cascos de cavalo. Suas costas têm cinco diferentes cores e seu ventre é amarelo. É benévolo em relação aos outros animais. Dizem que aparece por ocasião do nascimento dos bons imperadores ou dos grandes sábios. Se é ferido, isto significa maus presságios. Apareceu pela primeira vez no jardim do Imperador Amarelo. Mais tarde, dois unicórnios viviam em P’ing-yang, capital do imperador Yao. Um unicórnio apareceu à mãe de Confúcio, estando ela grávida. Antes da morte de Confúcio houve um presságio que ela ocorreria: um cocheiro feriu um unicórnio.”

“Este apanhado do simbolismo do unicórnio não passa de uma amostra, exemplificando as conexões intimamente entretecidas e emaranhadas que há entre a filosofia natural pagã, o gnosticismo, a alquimia e a tradição da Igreja, a qual, por sua vez, influenciou profundamente a cosmovisão da alquimia medieval. Espero que este exemplo tenha esclarecido meu leitor até que ponto a alquimia representava um movimento filosófico-religioso ou ‘místico’.”

EPÍLOGO

“NUNCA ficou muito claro o que os antigos filósofos entendiam por ‘lapis’. Esta questão só será respondida satisfatoriamente depois de sabermos que conteúdos eles projetavam de seu inconsciente. Somente a Psicologia do Inconsciente poderá resolver tal enigma. Sabemos que um conteúdo do inconsciente, enquanto projetado, é inacessível.”

“Identificando-se com Paris, Fausto traz a ‘coniunctio’ da projeção para a esfera da vivência pessoal psicológica e portanto para a consciência. Este passo decisivo significa nada mais nada menos do que a solução do enigma alquímico, e também o resgate de uma parte da personalidade até então inconsciente. Todo acréscimo de consciência porém traz consigo o perigo da inflação. Isto fica demonstrado claramente no aspecto de super-homem em Fausto. A morte deste, necessidade que se deve às exigências da época, não constitui de modo algum uma resposta satisfatória. O nascimento e transformação que se seguem à ‘coniunctio’ se dão no além, isto é, no inconsciente, deixando o problema em aberto. Este foi retomado por NIETZSCHE, como sabemos, no Zarathustra: o da transformação em super-homem, que ele aproximou perigosamente do homem terrestre. Isto provocou inevitavelmente o ressentimento anticristão, pois o seu super-homem é uma hybris da consciência individual, que se choca necessariamente com o poder coletivo do cristianismo – levando à destruição catastrófica do indivíduo. É sabido o modo pelo qual e de que formas características isto aconteceu ‘tam ethice quam physice’ (tanto moral como fisicamente) com o próprio NIETZSCHE. E que resposta os tempos subseqüentes deram ao individualismo do super-homem nietzscheano? Responderam com o coletivismo, com a organização coletivista e o amontoamento de massas ‘tam ethice quam physice’, escarnecendo de tudo o que existira até então.”

“O fogo esfriou, transformando-se em ar, o ar tornou-se o vento de Zarathustra e causou uma inflação de consciência. Esta, pelo visto, só pôde ser dominada pelas mais aterradoras catástrofes da civilização, ou seja, pelo dilúvio que os deuses enviaram à humanidade pouco hospitaleira.” Jung criou uma estorinha de gibi na própria cabeça.

“Este estado de possessão inconsciente prosseguirá até o dia em que o europeu se ‘assuste com sua semelhança a Deus’.”

“O termo científico ‘individuação’ não significa de modo algum que se trate de fatos inteiramente conhecidos e esclarecidos. Ele apenas designa um domínio obscuro de pesquisa ainda em curso dos processos psíquicos através dos quais a personalidade em formação atinge seu centro no inconsciente. Trata-se de processos vitais, que, por seu caráter numinoso, serviram desde os primórdios de estímulo fundamental para a formação dos símbolos.”

[ARQUIVO] DA UTILIDADE & DO INCONVENIENTE DA HISTÓRIA PARA A VIDA —A II Intempestiva de Nietzsche—

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

35: o deus ex machina; a “história monumental” como a perfeita para o supra-homem, ou aquele com ânsia de ser clássico. Uma “estrutura do herói” muito antes do nazismo de Campbell.

44: bricolage. Lévi-Strauss devia ser um fóssil vivo com seu hábito exclusivo de releituras de cartas.

50: o novo amigo do homem moderno, a irracionalidade

51: o descompasso entre teoria e prática

52: o “sentido não-histórico” dos gregos; forma vs. conteúdo; gregos são auto-suficientes. Não são colonizadores; o fosso bem antes: “aumentamos, até a insensibilidade com relação à barbárie, o perigoso abismo que separa o conteúdo da forma.”

54: só um povo tão sério quanto os teutônicos poderia provocar tanto riso; quando uma sociedade importa seu vestuário de outras, ela é decadente. A despeito de muitos pensarem em vias públicas, a realidade é que não entendemos o conceito de clima tropical!

61: Dom Quixote

63: “Faça o que eu digo…”

65: quando o didatismo apaga a “hierarquia filosófica” e cada “sistema” e cada indivíduo de qualquer época e país se torna tão relevante quanto os milhares de outros. Nivela-se, para se ter idéia, um pré-socrático e um medieval, um grande poeta torna-se tão prosaico quanto e tão parecido com um filólogo ou um jurista. É como um almanaque isométrico, ou ainda um álbum de figurinhas sem protagonistas ou estrelas de brilho mais intenso. Meras curiosidades, afinal ninguém está certo sozinho, o que mais parece dizer que se trata de uma coleção de erros ou de adultos engraçados que tinham vidas pacatas e que se preocupavam mais com o invisível que com que tipo de roupa saíam à rua.

66: o problema da crítica; história crítica.

69: a “justiça”

78: para o passado—oráculos.

87: sobre a divisão do trabalho

97: Hegel e a Ideologia Alemã

99: “A moral é, p.ex., ofendida por ver que um Rafael tenha tido de morrer aos 36 anos.”; a cena da idolatria ao bode.

100: ponte para alguma coisa; a ironia pós-moderna.

107: São estas as páginas seguidas mais hilárias desse homem! “a partir de amanhã, o tempo não existirá mais e todos os jornais deixarão de circular”

109: “da ausência de toda diversidade entre o homem e o animal—doutrinas que tenho por verdadeiras, mas por mortais” presente eterno, egoísmo, felicidade

116: para todos e ninguém


O primeiro parágrafo já toca nos animais! A tentativa de diálogo entre um homem e um animal: “Isso acontece porque esqueço sempre o que pretendo responder”, assim o animal gostaria de se justificar às súplicas do homem que fala sozinho, se não esquecesse o que tinha em mente um segundo depois… Mas… como pode então o cão latir pelo seu dono (tutor)? O animal = a criança.

“a natureza mais poderosa e mais formidável”

Todos os enunciados já estão aqui; aliás, poder-se-ia dizer que ele sempre foi assim, que ele não visava a nada, não perseguia o rabo de nenhuma cobra (Ivan!): “A negação do homem supra-histórico [estrutural] não vê a salvação no desenvolvimento, mas, pelo contrário, considera que o mundo acabou e atingiu seu fim em cada momento particular.” Em outras palavras, vencemos o niilismo extremo.

“No fundo, o que foi possível outrora não poderia se reproduzir uma segunda vez, a menos que os pitagóricos tivessem razão em acreditar que uma mesma constelação dos corpos celestes produzisse até nos mínimos detalhes os mesmos acontecimentos na terra, de modo que quando as estrelas ocuparem a mesma posição uma com relação às outras, um estóico se uniria a um epicurista, César seria assassinado e, de novo, em outras condições, Colombo descobriria a América.”

Perigo de hipertrofia de qualquer uma das 3 categorias de história.

“O crítico sem angústia, o antiquado sem compaixão, aquele que conhece o sublime sem poder realizar o sublime: essas são plantas que se tornaram estranhas a seu solo nativo e que, por causa disso, degeneraram e se transformaram em joio.”

Utiliza expressões que se consagrariam em títulos de obras posteriores.

História antiquada: a monumental tornada linear, uniforme, homogênea; ou seja, os personagens e costumes possuindo o mesmo valor.

A França como uma referência cultural “menos degradada”. Em busca da unidade superior.

“É assim que [o grande homem] abandona a alegria divina de criador (…) para ficar oprimido sob a profunda compreensão de seu destino. E acaba o curso da vida como iniciado solitário, como sábio saturado. Esse é o espetáculo mais doloroso que se possa ver. (…) É necessário que essa cisão entre o ser íntimo e o exterior desapareça sob os golpes do martelo da angústia. (…) É preciso que expresse o que compreendeu, que o defenda (…) Essa necessidade violenta produzirá um dia a ação vigorosa.”

Como se deve ler o suicídio de Werther: “Seja homem e não me siga!”

“Por que devemos ouvir incessantemente a hipérbole das hipérboles, a palavra universo, quando cada um só deveria sinceramente falar do homem?”

“Mede o que sabes do nível do que podes”

Exatamente a assunção da vítima das três categorias do fazer-história: “este tratado, com sua crítica imoderada, com o verdor de sua humanidade, com seus saltos freqüentes da ironia ao cinismo, do orgulho ao ceticismo, mostra muito bem, não gostaria de escondê-lo, que carrega a marca moderna, o caráter da personalidade fraca.” “É necessário ser jovem para compreender esse protesto”


Anotações de cunho pessoal:

Síndrome dos jogos de futebol (dos livros eu até entendo): por que eles são tão bons para pensar na vida?

Talvez eu precise, mais do que a colega tuiteira a meu lado, dotar a vida de plurissentidos numa taxa que assustaria o estranho ao ninho.

Ilhas de despreocupação no inferno.

Nunca mais vou deixar de olhar aquela pequena conversa com o Marco Antônio depois da aula como um marco divisor.

“Um dia a menos para a vida passar” é um pensamento idiota.


De 28 de janeiro a 4 de fevereiro de 2010

AN INQUIRY INTO THE HUMAN MIND. ON THE PRINCIPLES OF COMMON SENSE. – Thomas Reid, London, 1823.

INVESTIGAÇÃO DA MENTE HUMANA & FUNDAMENTOS DO SENSO COMUM – Tradução de Rafael de Araújo Aguiar, Brasília, 2022-2024.

A inspiração do Todo-Poderoso deu-lhes o entendimento. – Jó

ÍNDICE

CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO

Seção 1ª. A importância da matéria e como investigá-la [SEC11]

Seção 2ª. Os obstáculos para nosso conhecimento da mente [SEC12]

Seção 3ª. O presente estado desta especialidade da filosofia. Descartes, Malebranche e Locke [SEC13]

Seção 4ª. Em defesa destes filósofos [SEC14]

Seção 5ª. O Bispo Berkeley – O Tratado da Natureza Humana – Do ceticismo [SEC15]

Seção 6ª. Do Tratado da Natureza Humana [SEC16]

Seção 7ª. Que o sistema de todos esses autores é idêntico e conduz ao ceticismo [SEC17]

Seção 8ª. Não devemos desistir das investigações [SEC18]

CAPÍTULO 2. O OLFATO

Seção 1ª. Ordem da investigação. Organização do sentido do olfato. [SEC21]

Seção 2ª. O olfato abstrato (a sensação) [SEC22]

Seção 3ª. Sensação e memória: Princípios naturais da crença [SEC23]

Seção 4ª. Juízo e crença em alguns casos precedem a apreensão simples. [SEC24]

Seção 5ª. Duas teorias da natureza da crença refutadas. Conclusões derivadas. [SEC25]

Seção 6ª. Em defesa de absurdidades metafísicas. Sensações sem senciência como conseqüência da Teoria das Idéias. Conclusões acerca desta estranha opinião [SEC26]

Seção 7ª. A concepção e a crença num ser senciente ou na mente é sugerida por nossa própria constituição; A noção que há das relações nem sempre é adquirida mediante a comparação entre idéias relacionadas. [SEC27]

Seção 8ª. Existe uma qualidade ou virtude dos corpos chamada olfato. Como ela está conectada, na imaginação, à sensação. [SEC28]

Seção 9ª. Existe um princípio da condição humana do qual derivam a noção do olfato e outras virtudes ou causas naturais. [SEC29]

Seção 10ª. Durante a sensação a mente é ativa ou passiva? [SEC210]

CAPÍTULO 3. O PALADAR [SEC3]

CAPÍTULO 4. A AUDIÇÃO

Seção 1ª. A variedade dos sons. Seu lugar e distância aprendidos pelo costume, sem o uso da razão [SEC41]

Seção 2ª. A linguagem natural [SEC42]

CAPÍTULO 5. O TATO

Seção 1ª. O quente e o frio [SEC51]

Seção 2ª. O duro e o flácido [SEC52]

Seção 3ª. Os signos naturais [SEC53]

Seção 4ª. O árido e outras qualidades primárias [SEC54]—

Seção 5ª. A extensão [SEC55]

Seção 6ª. A extensão (cont.) [SEC56]

Seção 7ª. A existência de um mundo material [SEC57]

Seção 8ª. Os sistemas dos filósofos que concernem aos sentidos [SEC58]

CAPÍTULO 6. A VISÃO

Seção 1ª. A excelência e dignidade desta faculdade [SEC61]

Seção 2ª. A vista não descobre quase nada que o cego não possa compreender. A razão disso [SEC62]

Seção 3ª. A aparência visível dos objetos [SEC63]

Seção 4ª. A cor é uma qualidade dos corpos, não uma sensação da mente [SEC64]

Seção 5ª. Uma inferência baseada no precedente [SEC65]

Seção 6ª. De que nenhuma de nossas sensações é similar às qualidades dos corpos [SEC66]

Seção 7ª. A figura visível e a extensão [SEC67]

Seção 8ª. Algumas questões que concernem a figuras respondidas [SEC68]

Seção 9ª. A geometria do visível [SEC69]

Seção 10ª. O movimento paralelo dos olhos [SEC610]

Seção 11. Sobre vermos objetos eretos através de imagens invertidas [SEC611]

Seção 12. Continuação do anterior [SEC612]

Seção 13. A unidade dos objetos vistos por dois olhos [SEC613]

Seção 14. As leis da visão nos animais [SEC614]

Seção 15. A visão periférica/O estrabismo considerado hipoteticamente [SEC615]

Seção 16. Fatos relativos à visão periférica/ao estrabismo/à visão estrábica [SEC616]

Seção 17. O efeito do hábito sobre a unidade da visão [SEC617]

Seção 18. As considerações do Dr. Porterfield sobre a visão una e a visão dupla [SEC618]

Seção 19. A Teoria do Dr. Briggs e a conjetura de Isaac Newton na matéria [SEC619]

Seção 20. Da percepção em geral [SEC620]

Seção 21. O processo da natureza na percepção [SEC621]

Seção 22. Dos sinais pelos quais aprendemos a perceber a distância mediante a vista [SEC622]

Seção 23. Dos signos em outras percepções adquiridas [SEC623]

Seção 24. A analogia entre a percepção e o crédito que damos ao testemunho humano [SEC624]

CAPÍTULO 7. CONCLUSÃO

Reflexões acerca da opinião dos filósofos sobre o assunto [SEC7]

CARTA AO HONORÁVEL SR. JAMES, CONDE DE FINDLATER E SEAFIELD, REITOR DA UNIVERSIDADE DE OLD ABERDEEN

SENHOR,

Embora eu reconheça que existem coisas novas e de suma importância nesta Investigação, não é senão de forma timorata que me resolvi a publicá-la. O tema já foi esboçado por homens de grande penetração e gênio: pois quem não haveria de situar Descartes, Malebranche, Locke, Berkeley e Hume nesta categoria? Uma perspectiva sobre o entendimento humano tão distinta daquela que eles manifestaram será, sem dúvida, condenada sem exame, como produto de atitude vã e temerária.

Mas eu espero que ao menos algumas almas cândidas e seletas, capazes de vigiar as operações da própria mente, deliberem acerca do que está aqui exposto antes de passarem uma sentença. A essas eu apelo, como únicos juízes competentes. Se pessoas assim constituídas desaprovarem a iniciativa, significa provavelmente que estou equivocado, e me disponho a mudar de opinião para melhor. Se elas aprovarem, a maioria, então, cederá a sua autoridade, como sempre sucede.

Por mais contrárias que sejam minhas noções em relação às dos escritores que mencionei, suas especulações me foram de grande utilidade, e até parecem apontar a trilha que segui: como o Senhor sabe, o mérito de descobertas úteis muitas vezes não cabe a seus autores propriamente ditos, mas a quem plantou as sementes, para seus sucedâneos as colherem.

Eu admito, Senhor, que jamais pensei em pôr em dúvida os princípios a respeito do entendimento humano popularmente reconhecidos, até a publicação do Tratado da Natureza Humana¹ em 1739. O engenhoso autor deste tratado erigiu, sobre os princípios de Locke, que não era um cético, um sistema de ceticismo que não deixa margem para a crença em nada a não ser no seu contrário. Seu raciocínio me parece justo. Havia a necessidade, portanto, de duvidar dos princípios que o fundaram, ou então de admitir suas conclusões.

¹ David Hume, A Treatise of Human Nature: Being an Attempt to Introduce the Experimental Method of Reasoning into Moral Subjects. (N.T.)

Mas pode qualquer mente engenhosa admitir esse sistema cético sem relutância? Eu não poderia, Senhor: persuado-me de que o ceticismo absoluto não é mais destrutivo para a fé do cristão do que para o saber filosófico, e para a prudência de um homem de entendimento vulgar. Estou convencido de que o injusto vive pela fé tanto quanto o justo; mas, se toda crença pudesse ser posta de lado, a piedade, o patriotismo, a amizade, a afeição parental e a virtude privada pareceriam ridículos tanto quanto um cavaleiro andante. Também creio que a busca do prazer, da ambição e da avareza devem, como as boas virtudes, escorar-se na crença.

O trabalhador trabalha o dia inteiro com a crença de que receberá seu dinheiro à noite;¹ se não cresse, não trabalharia. Poderíamos aventar que mesmo o autor desse sistema cético elaborou-o na esperança de que ele fosse lido e considerado. Acredito mesmo que redigiu-o pensando que seria útil à humanidade; e quem haverá de dizer que não poderá sê-lo? Concebo o trabalho do investigador cético como esse inspetor das frestas do nosso falho sistema de conhecimento. Ele repara essas rachaduras do edifício social, que se torna mais sólido.

¹ Numa economia em que o trabalhador recebia por horas trabalhadas. (N.T.)

Seguindo minha própria inclinação, me entreguei a um sério exame dos princípios sobre os quais se assenta esse ceticismo; e não fiquei pouco surpreso ao descobrir que todo este ceticismo está baseado numa hipótese antiga, acolhida por filósofos de todos os tempos, que não passa de uma hipótese. Que hipótese? De que nada é percebido senão o que é produzido em nossa mente. De que não percebemos as coisas tal como são no exterior, mas apenas as imagens das coisas impressas em nosso interior, que recebem o nome de idéias.

Se isso é verdade, quer seja, a existência destas idéias na minha mente, não posso inferir a existência de nada mais. Minhas impressões são as únicas existências que posso conhecer ou conceber. E elas são seres tão passageiros e transitórios que no fundo elas não existem senão enquanto estou delas consciente. Sendo assim, de acordo com esta hipótese, o universo inteiro que me cerca, corpos e espíritos, sol, lua, estrelas, Terra, amigos e relacionamentos, tudo, sem exceção, que imaginei tendo existência permanente, independentes do meu pensar, se dissolve instantaneamente.

E, como o infundado fabrico de uma visão,

Não deixam nem uma pegada.

Não considerei razoável, Senhor, admitir uma hipótese, baseada na autoridade dos filósofos, que a meu ver subverte toda a filosofia, a religião e a virtude, até todo o senso comum. Constatando, pois, que todos os sistemas de entendimento humano foram erigidos sobre esta hipótese, resolvi começar do zero neste campo, sem partir de uma primeira hipótese.

O que agora apresento humildemente é o fruto desta pesquisa, dedicada aos cinco sentidos. Nela eu nada mais fiz do que dar grande atenção a minhas operações mentais, havendo me expressado com toda a perspicácia de que sou capaz, o que creio possa ser obtido por qualquer um que fizer o mesmo. As produções do espírito requerem um gênio que estão acima da compreensão vulgar; mas os tesouros do conhecimento estão enterrados profundamente para todos os homens, e podem ser escavados por todos os indivíduos que trabalharem com paciência, sem para tal necessitar-se de poderes sobrenaturais. Os experimentos requeridos neste tipo de investigação eram-me adequados, já que não exigiam recursos para além de tempo e atenção, o que tinha de sobra. A condição da carreira acadêmica, desinteressada e sem ambições materiais; as obrigações de minha profissão, que me obrigam a dar preleções sobre essa temática à juventude; e uma inclinação precoce a especulações do gênero – tudo isso colaborou, sem falsa modéstia de minha parte, para que eu fosse um homem a dar uma atenção especial aos pequenos detalhes, fundamentais nesta investigação.

Meus pensamentos sobre estas questões já existiam em papel para uso de meus alunos; depois estes escritos foram submetidos ao escrutínio duma sociedade privada de filosofia,¹ à qual também pertenço. Tive o prazer de que meus trabalhos fossem perscrutados inclusive pelo Senhor. A amizade desta comunidade filosófica é um grande estímulo para mim, sua opinião é também muito importante. Creio que a recepção a meus escritos e sua crítica, positiva ou negativa, contrabalançando minha timidez e reserva, foram fundamentais para me convencer a expor minhas conclusões ao grande público.

¹ Uma aberração social. (N.T.)

Se, com isso, puder justificar o senso comum e as faculdades racionais em face dessas sutilezas céticas, que nessa idade nos corroem; se eu puder iluminar um pouco mais nosso acabamento divino enquanto homens; honrando o Seu respeito pelas artes e ciências, bem como por tudo que possa fazer progredir a humanidade e fazer avançar nosso país; não tenho receio de submeter minhas investigações a sua aprovação, que nada mais são que a conseqüência de minha indústria em minha vocação. Seu dedicado servidor,

Thomas Reid

INVESTIGAÇÃO DA MENTE HUMANA

CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO

SEÇÃO 1ª. A IMPORTÂNCIA DA MATÉRIA E COMO INVESTIGÁ-LA [SEC11]

O fabrico da mente humana é curioso e maravilhoso, tanto quanto o do corpo humano. As faculdades da primeira não estão adaptadas ao mundo com menos sabedoria do que os órgãos do segundo. Pelo contrário: temos motivos para pensar a sabedoria da mente como inclusive mais elevada. O Divino Arquiteto nela empregou mais sabedoria e habilidade do que no resto de nossa estrutura. É, portanto, um nobilíssimo objeto de pesquisa, não só em si mesma como considerando sua influência sobre outros ramos da ciência.

Nas artes e ciências, mesmo as mais distantes da abstração pura, a mente ainda é fundamental e imprescindível. Quão melhor pudermos entender sua natureza, suas funções, defeitos e desordens, melhor saberemos empregá-la. Já nas artes mais nobres, a mente é inclusive o próprio objeto envolvido na operação. O pintor, o poeta, o ator, o orador, o moralista e o homem de Estado no fundo nada fazem senão trabalhar sobre a mente; e os melhores são os que melhor sabem fazê-lo.

Os homens sábios concordam, ou ao menos deveriam concordar, que só há um caminho rumo ao conhecimento das obras da natureza: observação e experimentação. Devido a nossa constituição inerente, temos fortes inclinações a generalizar baseados em fatos particulares, e essas generalizações são por sua vez utilizadas por nós para produzir outros efeitos particulares passíveis de observação. Esse proceder do entendimento é comum a toda criatura humana no cotidiano. E é o único por meio do qual qualquer descoberta em filosofia pode ser feita.

O homem que primeiro descobriu que a baixa temperatura congela a água, e que a alta temperatura a evapora, atuava pelos mesmos princípios, usava os mesmos métodos de Newton quando este enunciou as leis da gravitação e as propriedades da luz. Suas regulae philosophandi¹ são máximas do senso comum, praticadas todos os dias ao redor de todo o mundo. Aquele que filosofa por outras regras, seja sobre a realidade material ou mental, incorre em erro.

¹ “Régua do fazer-filosófico”, aquilo que deve nortear o pensamento filosófico. (N.T.)

Conjeturas e teorias são nossas filhas, e jamais se parecerão com aquilo que Deus criou a sua imagem e semelhança. A justa interpretação da natureza é a única filosofia, ortodoxa, evidente. Tudo o que adicionarmos a essa interpretação por nossa própria conta é apócrifo e não tem autoridade.

Todas as nossas curiosas teorias sobre a formação da Terra, a geração dos animais, a origem do mal natural e moral, sempre que se excedem e vão além de uma justa indução dos fatos, são tolice e vaidade, tanto quanto os vórtices de Descartes¹ ou os Archaeus de Paracelso.² Talvez a filosofia da mente não tenha sido menos adulterada que a filosofia sobre as coisas visíveis. A teoria das idéias é muito antiga, e foi recebida universalmente.

¹ Ou teoria dos fluidos de Descartes. Não se relaciona com suas pesquisas matemáticas, mas são de ordem astrofísica. (N.T.)

² Conceitos usados na alquimia para atribuir entidade vital à matéria inanimada. (N.T.)

Tudo aquilo que sabemos do nosso corpo se deve à dissecção anatômica e à observação, e deve ser, analogamente, por uma analogia da mente que podemos descobrir suas virtudes e princípios.

SEÇÃO 2ª. OS OBSTÁCULOS PARA NOSSO CONHECIMENTO DA MENTE [SEC12]

Deve ser reconhecido, porém, que esse segundo tipo de anatomia é mais difícil que o primeiro. Sendo assim, não deve parecer estranho que a humanidade nela tenha feito menos progressos. Captar com precisão as operações de nossas mentes, e tomá-las como objeto do próprio pensamento, não seria fácil nem para o sujeito mais contemplativo; para o grosso da humanidade, então, é tarefa quase que impossível.

Um anatomista que teve excelentes oportunidades terá examinado com os próprios olhos, e com uma exatidão comparável à melhor das vistas, corpos de diferentes idades, sexos e condições. Aquilo que é defeituoso, obscuro ou aberrante num corpo pode ser discernido com clareza, e em estado mais perfeito, em outro. Mas o anatomista da mente não pode se dar ao mesmo luxo. Só sua própria mente é que pode ser examinada com qualquer grau decente de veracidade e exaustão. Este é o único objeto a que ele tem acesso em seu estudo. Mediante evidências externas, é verdade, ele poderá coletar e comparar as operações de outras mentes; essas evidências são, porém, ambíguas no melhor dos casos. Precisam ser interpretadas de acordo com o que o anatomista percebe em si mesmo.

De tal maneira que se um filósofo pudesse delinear para nós, distintiva e metodicamente, todas as operações do princípio do pensamento inerentes a ele, o que, aliás, homem algum foi jamais capaz de realizar, tudo isso ainda seria apenas a anatomia de um só sujeito. Decerto que dita anatomia seria deficiente e errônea se aplicada à natureza humana em geral. Com meramente um bocado de reflexão podemos nos satisfazer da opinião de que a diferença entre as nossas mentes é maior do que aquela que podemos verificar entre as mentes de quaisquer animais da mesma espécie que tomemos como exemplo.

Dentre todos os múltiplos poderes e faculdades por nós possuídos, parece haver alguns que a natureza plantou e formou sozinha, como que deixando de fora qualquer participação da indústria humana. Falo dos poderes que temos em comum com os selvagens, necessários à preservação do indivíduo ou a continuidade da espécie. Há outros poderes, não obstante, cujas sementes foram apenas plantadas pela natureza em nossa mente, legando seu cultivo à própria cultura do homem. E é mediante este cultivo que somos capazes de todos os aperfeiçoamentos do intelecto, do gosto e da moral, que exaltam e dignificam a condição humana. A negligência ou perversão desse cultivo, por outro lado, transforma aquelas sementes em degeneração e corrupção.

O animal bípede que come o que a natureza oferece apenas conforme o que seu paladar e apetite ditam, e satisfaz sua sede na fonte cristalina, que propaga seu gênero sempre que a ocasião e a luxúria permitam, repele ferimentos e se alterna entre labores e o repouso é, como uma árvore na floresta, puramente integrante do processo do crescimento natural. Mas essa mesma criatura selvagem teve desde sempre consigo as sementes do lógico, do homem de gosto refinado, do orador, do político, do virtuoso, do santo. Sementes que, embora presentes, por falta de estímulo do ambiente, podem permanecer latentes indefinidamente, quase nunca percebidas pelo indivíduo que a conserva ou pelos seus mais próximos.

O degrau mais baixo da vida social trará à tona alguns desses princípios que ficam ocultos no estado puramente selvagem. Conforme o ser humano se exercita no campo da cultura, ajudado pelas companhias certas, pelos hábitos convenientes, compondo uma pequena parte, uma elite, graças a seu vigor congênito ou a uma conformação mais feliz do ambiente, desenvolve as sementes antes dormentes. Seres menos privilegiados integrantes deste mesmo princípio de civilização decairão até mesmo em relação a seus dons naturais, embora sobrevivam e gerem descendentes. Um terceiro grupo, ainda menos competente, pode mesmo se ver obstruído de tal maneira que vem a perecer, mutilado pelas contradições da natureza e da cultura incipiente.

Esse quadro faz da condição humana algo tão variegado e multiforme para os indivíduos que, dos pontos de vista intelectual e moral, há espaço para todo tipo de existência no gradiente que vai do mais rústico e simplório ao mais elaborado e complexo, como ir-se-ia do inferno ao céu. Essa diversidade prodigiosa torna extremamente difícil a descoberta dos princípios comuns a toda a espécie.

A linguagem dos filósofos, no que cocerne às faculdades originais da mente, está tão adaptada ao sistema vigente que não é adequada para expressar nenhum outro; como um terno que serve ao homem que o encomendou, e torna-o mais belo, mas que ficaria muito estranho ou mesmo cômico em outro sujeito, ainda que este último em tese nada devesse ao primeiro em termos de compelição e proporções dos membros. É quase impossível inovar na atual disciplina da filosofia da mente e suas operações sem empregar para isso um vocabulário e fraseado inédito, ou dotar de sentido inusitado as expressões antigas. Uma liberdade que, mesmo sendo tão necessária, cria preconceitos e mal-entendidos. Talvez só com o tempo essas descrições obtenham autorização e sanção sociais. Inovações na língua, como na religião e no governo, são sempre suscetíveis da desconfiança e aversão da maioria, até que por fim o costume as torne não só familiares mas mesmo o novo padrão.

Se as percepções e inclinações originais da mente aparecessem descontaminadas de todas as influências externas, exatamente como as recebemos da mãe-natureza, aquele mais acostumado à reflexão enfrentaria menos dificuldades ao tentar traçá-las. Antes do ato da reflexão as percepções e os movimentos da mente já nos aparecem tão sobrepostos uns em relação aos outros, tão compostos e descompostos pelas ações do cotidiano, modificados por associações e abstrações, que é difícil dizer quais eram os movimentos originais da mente.¹ A mente poderia ser comparada ao apotecário ou químico, cujos materiais são fornecidos pela própria natureza, mas que em sua arte sintetiza-os, modifica-os, dissolve-os, evapora-os e sublima-os de tal sorte que a aparência do produto obtido mal deixa pistas dos ingredientes utilizados. Só os melhores apotecários e químicos poderiam listar as matérias-primas. Reverter o produto obtido por experimentos à forma original é, então, impossível. Esse trabalho da mente não é realizado via razão madura, atos deliberados, algo que possamos rememorar ou recuperar. Tudo acontece escorado nos instintos, hábitos adquiridos, associações mil e outros princípios ainda, que operam muito antes de possuirmos a razão propriamente dita. É especialmente laborioso para a mente se debruçar sobre si mesma a fim de analisar as próprias pegadas e vestígios, desvendando suas próprias operações remotas quando já raciocinava e agia, mas ainda não refletia.

¹ O autor busca o que não há: palavras para expressar o que não pode ser expressado. Hoje o filósofo já se curou de procurar estas quiméricas coisas em si da mente. (N.T.)

Se pudéssemos mesmo obter uma história completa e bem-definida de tudo que se passa na mente de uma só criança, do começo de seus dias, desde as primeiras sensações, até seu amadurecimento e a fase do uso da razão; como suas faculdades ainda em desenvolvimento se puseram a trabalhar em primeiro lugar, e como esse trabalho evoluiu a ponto de gerar diversas noções, opiniões e sentimentos que guardamos dentro de nós mesmos; se pudéssemos fazê-lo, tal achado seria um tesouro da história natural, capaz de jogar mais luz sobre as faculdades humanas do que todos os sistemas morais criados até hoje unidos. É em vão que se aspira a tal evento. A natureza não nos concedeu esse poder. A reflexão, único instrumento de que dispomos para discernir os poderes da própria mente, advém muito tarde para que pudesse observar o progresso natural, entender a própria infância com a perfeição requerida.

Este é um tema, portanto, que jamais será abordado de maneira cuidadosa ou aplicada demais. Todo homem, abarrotado dos preconceitos da educação, da moda e da filosofia, fica assim obrigado a desfiar as próprias noções e opiniões, até encontrar os princípios mais simples e originais de sua constituição, relato que só pode ser produzido pelo próprio autor do relato, uma razão a mais para dele desconfiarmos. Eu chamaria essa investigação da verdadeira análise das faculdades humanas; e até que cumpramos essa tarefa é vão falar em qualquer sistema da mente. Por sistema, entendo: uma enumeração exaustiva dos poderes e leis originais de nossa constituição, e uma explicação dela derivada para os múltiplos fenômenos da condição humana.

Êxito, numa investigação tal, não é algo humanamente solicitável. Talvez seja possível, entretanto, com precaução e humildade, evitar ao menos erros e ilusões crassos. O labirinto pode ser o mais intrincado, e o barbante o mais delicado, de modo que ninguém consegue percorrer todas as alas do calabouço e viver para contar. Paramos, porém, onde já não podemos avançar um milímetro a mais. Marcamos posição para os exploradores das gerações seguintes, reafirmando o terreno já conquistado, em vez de pôr tudo a perder precipitadamente. Quem sabe quão mais ágeis não serão os olhos de nossos descendentes, aptos a distinguir linhas para nós invisíveis?

É o gênio, e não a falta do gênio, que adultera a filosofia, multiplicando os erros e as falsas teorias. A imaginação criativa desdenha o trabalho mais modesto e tosco de fazer a terraplanagem da fundação. É preciso antes remover muitos detritos, transportar muitos materiais: estas ações tidas como mais servis são delegadas aos burros de carga da ciência. A mente superior desenha a planta que quer atingir ao final de tudo. A invenção abastece de materiais os trechos mais carentes da obra. A moda do tempo adiciona as cores e os ornamentos. O trabalho direto deleita os olhos, e não deseja mais do que uma boa e sólida fundação. O trabalho direto do homem parece até competir com o relógio da natureza. Até, evidentemente, o arquiteto implodir a edificação, convertendo-a em ruínas. E o processo recomeça… Felizmente, para a idade presente, os erigidores de castelos andam a se envolver mais em romances que na filosofia. O romance é, sem dúvida, sua verdadeira província, essas regiões em que o desabrochar das fantasias é mais legítimo. Em filosofia, ceder aos caprichos é agir de modo espúrio.

SEÇÃO 3ª. O PRESENTE ESTADO DESTA ESPECIALIDADE DA FILOSOFIA. DESCARTES, MALEBRANCHE E LOCKE. [SEC13]

Que nossa filosofia da mente e suas faculdades está ainda num estado muito precário pode ser conjeturado, e com razão, mesmo por aqueles que nunca a examinaram detidamente. Há qualquer princípio, relativo à mente, fixado com a mesma perspicácia e nitidez, que se equipare aos princípios da mecânica, da astronomia ou da ótica? – Essas são realmente ciências fundadas nas leis da natureza universalmente obteníveis. O que é descoberto nelas não mais é objeto de disputa: tempos futuros poderão acrescentar a essas leis, mas, até que o curso da natureza seja modificado, o que já foi estabelecido não pode ser alterado. Porém, assim que voltamos nossa atenção para dentro, e considerados o fenômeno dos pensamentos, opiniões e percepções humanos, e tentamos relacioná-los com as leis gerais e os primeiros princípios de nossa constituição, imediatamente nos envolvemos em perplexidade e trevas. – E se o senso comum ou os princípios da educação não forem teimosos, há grandes chances de terminarmos num ceticismo absoluto.

Descartes, nada achando estabelecido nessa parte da filosofia, a fim de lançar-lhe pela primeira vez as bases profundas, decidiu não acreditar em sua própria existência até que pudesse justificá-la muito bem. Ele talvez tenha sido o primeiro a tomar essa resolução: mas pudera ele atingir seu propósito, e realmente tornar-se difidente de sua existência (para além da retórica), seu caso teria se tornado deplorável, e impossível de ser sanado mediante a razão ou a filosofia. Um homem teórico que descrê de sua própria existência está tão inapto para o diálogo e o debate quanto um homem que acreditasse ser feito de vidro. Não é impossível que desordens na constituição humana produzam tais casos extravagantes; porém a cura jamais viria mediante raciocínios. Descartes quer nos fazer crer que escapou de seu delírio pelo argumento lógico Cogito, ergo sum. Mas é evidente que ele jamais escapou de nenhum delírio e conservou a razão desde o princípio, nunca duvidando seriamente de sua própria existência. Ele já o toma como implícito em seu argumento, e nada prova. Eu penso, diz ele, dessa forma eu sou: e não é ainda o uso da boa razão dizer eu estou dormindo, por isso mesmo eu sou? Ou eu não estou fazendo nada, portanto eu sou? Se um corpo se move, sem dúvida ele existe; mas se está em repouso, ainda assim deve existir.

Talvez Descartes não tenha desejado assumir sua própria existência por este entimema, e sim assumir a existência do pensamento; e com isso inferir desta existência do pensamento a existência da mente ou do objeto do pensar. Mas por que ele não provou a existência de seu pensamento? A consciência o avaliza, poder-se-ia dizer. Mas quem é o comprovador da consciência? Pode qualquer homem provar que sua consciência está isenta de traí-lo? Nenhum homem o pode: nem podemos dar uma justificativa melhor para acreditar nela do que que cada homem, enquanto em posse da razão, está determinado pela constituição de sua natureza a dar crédito implícito a ela, a rir ou ter piedade do homem que duvida de seu testemunho. E não está todo homem em seu juízo perfeito, cada um tão determinado quanto os outros em considerar sua própria existência fiada em sua própria consciência?

A outra proposição assumida neste argumento, a de que o pensamento não pode ser sem uma mente ou um sujeito, está sujeita à mesma objeção: não que isso necessite de evidência; mas esta evidência não é mais pura nem imediata que a da própria proposição que deve ser provada por esta evidência mesma! Enfim, reunindo todas essas proposições em conjunto, – eu penso, – eu sou consciente, – tudo que pensa existe, – eu existo, – não está óbvio que todo homem sóbrio nutriria a mesma opinião acerca do homem que seriamente duvidou de qualquer uma delas? E se um desses homens fosse o amigo pessoal deste homem teórico que duvida seriamente, não ansiaria ele pela sua cura, prescrevendo-lhe ou arranjando quem lhe prescreva um bom regime físico e dietético, isto é, o cultivo da saúde, em detrimento de metafísica e lógica?

Todavia, supondo tudo como provado, i.e., que meu pensamento e minha consciência tem de ter um sujeito, e conseguintemente que eu existo, como sei eu que toda essa cadeia de pensamentos que eu rememoro pertence a um sujeito, e que o eu desse momento é o mesmo eu individual de ontem ou de antanho?

Descartes nunca pensou em começar essa dúvida: mas Locke o fez; e, a fim de resolvê-la, determina, de forma grave, que a identidade pessoal consiste em consciência; se você tem consciência de que fez algo há um ano, essa consciência torna-o a exata pessoa que o fez. E no entanto consciência do passado não pode significar nada além de uma lembrança de que eu o fiz. O princípio de Locke é, portanto, que a identidade consiste em lembranças e memórias; e conseguintemente um homem perde sua identidade pessoal quanto a tudo aquilo que ele esquece.

Nem são essas as duas únicas ocasiões em que nossa filosofia da mente parece ter sido muito prolífica em suscitar dúvidas, e igualmente infeliz em respondê-las.

Descartes, Malebranche e Locke empregaram todos eles seu gênio e habilidade em provar a existência de um mundo material; e o provaram muito mal. Mortais parcos de entendimento acreditam, sem dúvida, que há um sol, uma lua e as estrelas; uma terra, na qual habitamos; um país, amigos e relações, que desfrutamos; pedaços de terra, casas e objetos movíveis, que possuímos. Mas filósofos, apiedando-se da credulidade do vulgo, estão determinados a perder a fé no que está fundado na razão. Eles se empenham em refletir em razões para a crença nas coisas, nas coisas em que toda a humanidade sempre acreditou, sem no entanto serem capazes de dar nenhuma razão! Esperar-se-ia, num empreendimento tão importante, que a prova não fosse árdua: mas é a coisa mais difícil em todo o mundo! Esses três homens, de toda a boa-fé, fracassaram, munidos de todas as riquezas da filosofia, em estabelecer um argumento propício a convencer um homem capaz de reflexão de que a existência de qualquer coisa depende deste argumento lançado. Admirável Filosofia! filha da luz! parente da sabedoria e conhecimento! se verdadeiramente és ela! se és ela, certamente tu ainda não pousaste na mente humana, nem abençoaste-nos com teus raios o bastante para dissipar a “escuridão visível” das faculdades humanas, nem perturbaste este repouso e segurança que os melhores dos mortais usufruem, esses que nunca se aproximaram de teu altar nem sentiram tua influência! Mas se tu não tens o poder de dissipar essas nuvens e fantasmas que tu mesma descobriste ou criaste, fora com estes raios malignos e miseráveis! Eu desprezo a Filosofia e renuncio sua guia: deixa minha alma morar no Senso Comum.

SEÇÃO 4ª. EM DEFESA DESTES FILÓSOFOS [SEC14]

Mas em vez de desprezar a aurora, devemos esperar que a luz se intensifique! Em vez de culpar os filósofos que mencionei pelos defeitos e manchas de seus sistemas, devemos honrar sua memória, como a dos primeiros descobridores da região da filosofia anteriormente inexplorada; e, não importa quão estultos e imperfeitos sejam esses sistemas, eles abriram caminho para futuras descobertas, e dividirão, com justiça, o crédito por elas com seus sucedâneos. A poeira e os destroços que eles removeram, acumulada em todos os séculos de Escolástica, é quase infinita. Graças a eles estamos na boa senda, a da experiência e reflexão acurada. Eles nos ensinaram a evitar as ciladas da ambigüidade e da fraca razão de tantas palavras, tendo falado e pensado nessa matéria com uma distinção e perspicácia sem precedentes. As verdades a serem reveladas, que eles não alcançaram, a detecção dos erros em que eles involuntariamente se enredaram, serão também obra sua.

Deve ser observado que as deficiências da filosofia da mente, que foi exposta ao desprezo e ao ridículo de homens sensíveis, derivam principalmente disso: – que os devotos dessa filosofia, imbuídos de um preconceito natural, tentaram estender em demasia sua jurisdição além de seus justos limites, denominando-a falsamente Senso Comum. Mas sem saber esses devotos já declinaram essa jurisdição; porque eles desdenham o processo da razão e perdem assim qualquer autoridade; muito cheios de si, eles não pediam a ajuda da razão nem temiam seus ataques!

Neste torneio injusto entre Senso Comum e Filosofia, a última sairá sempre desonrada e derrotada; nem pode ela dar o troco um dia antes que essa rivalidade inútil seja descartada. Chega de intromissões; devemos promover uma cordial amizade entre ambos. O Senso Comum nada tem da Filosofia, nem nunca precisou de seu auxílio. Mas, por outro lado, a Filosofia (se me permitem mudar a metáfora) não tem nenhuma outra raiz que não sejam os princípios do Senso Comum. Ela nasce do Senso Comum, e cresce e se revigora graças a ele. Separada dessa raiz, seca-se a seiva, resseca-se a árvore do conhecimento e a Filosofia morre a apodrece.

Os filósofos da última geração, que evoquei, não se preocuparam com a preservação dessa união nem distinguiram a necessidade dessa subordinação; ao menos, não o bastante para os interesses da própria Filosofia. Mas os filósofos do presente, esses já declararam abertamente guerra ao Senso Comum, na expectativa de conquistar completamente seus domínios, substituindo tudo por Filosofia; uma ação não menos audaciosa e vã do que a dos titãs que tentaram destronar o temível Zeus.

SEÇÃO 5ª. O BISPO BERKELEY – O TRATADO DA NATUREZA HUMANA – DO CETICISMO [SEC15]

O tempo presente não produziu dois homens mais afiados e preparados no campo da filosofia da mente que o Bispo de Cloyne e o autor do Tratado da Natureza Humana. O primeiro, inimigo do ceticismo, com seu zelo religioso e moral, atingiu os seguintes resultados: não há mundo material; não há nada na natureza senão espíritos e idéias; a crença em substâncias materiais e em idéias abstratas são as causas principais de todos os erros filosóficos, e aliás de todas as infidelidades e heresias religiosas. Seus argumentos são fundados nos princípios legados por Descartes, Malebranche e Locke, e isso de uma maneira muito superficial.

A opinião dos juízes mais capazes parece ser a de que nenhum deles foi nem pode ser refutado. O bispo provou, de acordo consigo, mediante argumentos incontestáveis, aquilo em que nenhum homem reflexivo pode dar fé.

O segundo procede pelos mesmos princípios, mas estende-os ao máximo; e, como o bispo tinha desfeito o mundo material, esse autor, justificando-se da mesma forma, também dissolve esse mundo dos espíritos, e não deixa nada na natureza senão idéias e impressões, sem qualquer sujeito no qual essas possam ser imprimidas.

Há qualquer tensão ou irritabilidade neste autor, que logo na introdução de seu principal trabalho promete, seriamente, um sistema completo das ciências, e sobre uma fundação completamente nova, a da natureza humana; isso quando o intuito de toda a obra é mostrar que não há natureza humana nem ciência neste mundo. Talvez seja desarrazoado reclamar dessa conduta num autor, se ele nem acredita na própria existência nem na do leitor. Sendo assim, ele não teria a intenção de desapontar ninguém nem rir da credulidade dos outros. Continuo, porém, sem poder conceber que o autor do Tratado da Natureza Humana, em seu ceticismo, necessite de contemporizações quando se o critica abertamente. Pois devo contrastar seu trabalho com seu aspecto inusitado: ele crê, contra seus princípios, que deva ser lido e que deva conservar sua identidade pessoal até o momento de colher os frutos de sua investigação – que atingiu o acme metafísico –, em forma de honra e reputação. Ele confessa ingenuamente, até, que só na mais completa solidão e afastado dos homens ele consegue concordar com sua própria filosofia; a sociedade, como a luz do dia, dissipa a escuridão e a neblina do ceticismo e fá-lo regressar ao Bom Senso. Não soube de nada em sua vida privada, tampouco, que pudesse demonstrar ser ela um exemplo do ceticismo por ele mesmo pregado. Porque se seus amigos desconfiarem que isso possa vir a se passar, tenho certeza de que terão caridade e nunca o deixarão desacompanhado.

Pirro de Élis, o pai do ceticismo, me parece, levou uma vida de um perfeito cético, muito mais condizente com a doutrina que seus discípulos: conforme o que sabemos, Antígono de Caristo, citado em Diógenes Laércio, atesta que Pirro fazia exatamente o que e como dizia para os outros fazerem. Diz-se que se uma carroça estiava prestes a atropelá-lo ou um cachorro a mordê-lo, ou se ele se abeirava de um precipício, ele não se movia um milímetro no sentido de escapar do perigo e seguia seu curso, não confiando em seus sentidos. Afortunadamente, para ele, Pirro tinha escravos e alunos que não eram tão céticos quanto o mestre que tomavam conta de si. E assim ele pôde viver até os 90 anos.

É provável que o Tratado da Natureza Humana não tenha sido escrito em companhia; e não obstante ele contém indícios manifestos de que o autor descansava na fé do vulgo, e é raro enxergar nele um caráter cético contínuo que perdure por mais de meia dúzia de páginas sem concessões.

É dessa mesma forma que um dia o grande Pirro esqueceu seus próprios princípios, e diz-se que, uma vez, pôs-se tão furioso com seu cozinheiro e o gosto da comida que, de garfo (e, preso ao garfo, o pedaço de carne) em mãos, perseguiu-o até o mercado.

É peremptória a filosofia que, sem cerimônia, rejeita princípios que governam irresistivelmente a conduta do homem no cotidiano; princípios aos quais deve retornar o filósofo, após tão cuidadosamente refutá-los. Estes princípios de que falo são mais antigos e possuem mais autoridade que a Filosofia: ela deles emana, não o contrário. Se por um acaso a Filosofia pudesse levar a melhor, estaria se condenando à morte. Nenhuma sutileza ou engenhoso filosófico é competente o bastante para essa proeza, entretanto (destronar o Senso Comum). Seria como se um mecânico buscasse mover a Terra inteira de lugar por meio de um axis in peritrochio.¹ Ou se um matemático pretendesse demonstrar que umas primeiras quantidades, verificadas iguais a umas segundas, e estas segundas a umas terceiras, que essas primeiras quantidades não fossem também iguais às terceiras.

¹ Expressão para designar “a roda e o eixo”, um par de objetos que compõe uma das “máquinas simples” a ilustrar os princípios básicos da mecânica arquimediana ou clássica, que explica como, por exemplo, com economia de força, dirigida da maneira correta, através de alguns objetos e cálculos como angulações ou distâncias entre eles, pode-se levantar ou mover grandes pesos impossíveis para um indivíduo com o mero uso da força bruta. Não é por outra razão que, com um simples macaco hidráulico e uma haste de ferro (eixo) em ‘L’ com pontas que respeitem encaixes na roda conforme a funcionalidade dos parafusos, roscas, etc., e o treinamento adequado, qualquer pessoa capaz de conduzir um veículo também será capaz de trocar o pneumático, procedimento que requer a suspensão do carro (potencialmente mais de 1T, ou seja, mais de 10x grande parte da população) a fim de liberar a rotação manual da roda em plano inclinado para a remoção do pneu velho e reposição do pneu novo, exercendo a força de torque. Sobre a clássica e imorredoura frase “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo”, realmente, considerando a Terra a roda, precisaríamos “apenas” de uma super-alavanca e de nos situarmos num ponto de apoio longínquo o suficiente para alterar seus movimentos (fora do sistema solar seria um bom começo…). Nosso ponto de apoio sendo a própria Terra, isto (querer, a sério, mover o planeta mediante a aplicação dos princípios da mecânica) é um dos absurdos clássicos da Lógica. Este é o tamanho da absurdidade do ceticismo moderno para Reid, pois é impossível aplicá-lo à vida.

Zenão se esforçou por demonstrar a impossibilidade do movimento; Hobbes, que não havia diferença entre o certo e o errado; e esse autor, que não se deve acreditar nos nossos sentidos, em nossa memória, nem mesmo em provas empíricas. Tal filosofia é apenas ridícula, inclusive para aqueles que não conseguem detectar sua falácia. Não pode lhe seguir outra tendência senão a exibição da solércia do sofista, e o preço é muito caro: desgraçar a natureza e a razão humana, e fazer da humanidade Yahoos.¹

¹ Raça fictícia do livro As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Os Yahoos têm a mesma aparência de seres humanos (Homo sapiens), porém seu intelecto e cultura não ultrapassa os dos primatas, sendo incapazes da linguagem.

SEÇÃO 6ª. DO TRATADO DA NATUREZA HUMANA [SEC16]

“Há outros preconceitos contra este sistema da natureza humana que, mesmo numa visão generalista, podem tornar alguém dele desconfiado.

Descartes, Hobbes e esse autor cada um nos deu um sistema da natureza humana; uma missão vasta demais para um homem apenas, não importa quão genial e formidável. Há razões certeiras para crer que muitas partes da natureza humana foram negligenciadas por eles; e que outras foram simplificadas e distorcidas, para costurar os pontos cegos e completar o sistema. Cristóvão Colombo ou Sebastian Cabot poderiam com igual justiça ter-nos fornecido um mapa completo da América.¹

¹ Como primeiros descobridores e navegadores modernos do continente, eles não conheceram todos os seus contornos – nos deram um mapa incompleto da América.

Há um caráter e um estilo próprio às obras da natureza, nunca captável nas suas melhores imitações. Esse caráter e esse estilo parecem estar ausentes nos sistemas da natureza humana que eu mencionei, e particularmente no último. Pode-se ver uma marionete executar os mais vastos gestos e movimentos, que impressionam os observadores principiantes; mas, observando-se mais de perto, e isolando cada operação, nossa admiração logo cessa; isso porque passamos a compreender a arte do mestre titereiro. Como a marionete é diferente daquilo que representa! Quão pobre, comparada com o corpo humano, cujas estruturas, quão mais desvendamos, mais maravilhosas se nos tornam, e mais cônscios de nossa ignorância! O mecanismo da mente seria tão facilmente compreensível, sendo o do corpo tão complicado? E não obstante, através deste sistema três leis de associação, acrescidas de algumas impressões originais, explicam todo o mecanismo do sentido, da imaginação, da memória, da crença e de todas as ações e paixões da mente! É este o homem que a natureza produziu? Suspeito que não seja assim tão simples olhar os bastidores da própria natureza. É uma marionete, decerto, ideada por um aprendiz da natureza muito seguro de si, seguro de que é o seu melhor mímico. À luz de vela, é uma marionete tolerável; mas, à luz do dia, e analisada em suas porções, parecerá um homem feito com argamassa e espátula. Quanto mais sabemos de outras partes da natureza, mais com ela simpatizamos, mais a aprovamos. O pouco que conheço do sistema planetário, da Terra que habitamos, dos minerais, vegetais e animais, do meu próprio corpo e das leis obteníveis neste setor do universo abrem à minha mente cenas graciosas e grandiosas, e contribui igualmente para meu contentamento e minha sensação de poder. Mas quando olho por dentro e considero a mente em si mesma, que me faz capaz de todos esses prospectos e apreensões; se ela for mesmo o que o Tratado da Natureza Humana propõe, descubro que caí do cavalo e saí de meu castelo encantado, pois era tudo espectros e aparições. Envergonho-me intimamente por pensar como me deixei iludir: estou com vergonha de minha organização, e não posso me impedir de contender com meu destino. É este teu passatempo, ó Natureza, encher tua tola criatura de artimanhas, depois despir-lhe a máscara e mostrá-la a si própria como fôra trapaceada? Se esta é a filosofia da natureza humana, minha alma não adentra em seus segredos. Encontramos de fato a proibida Árvore do Conhecimento! Mal provo de seu fruto e vejo-me nu e despido de tudo o mais, isto é, até meu eu! Eu vejo a mim e a toda a estrutura da natureza chafurdarem em idéias fugidias, que, como os átomos de Epicuro, dançam em torno do vazio.

SEÇÃO 7ª. QUE O SISTEMA DE TODOS ESSES AUTORES É IDÊNTICO E CONDUZ AO CETICISMO [SEC17]

Mas e se eu objetar que todas essas profundas disquisições nos primeiros princípios da natureza humana deveriam conduzir, natural e necessariamente, seu investigador direto ao abismo do ceticismo? Não deveríamos julgar racionalmente levando em conta o que aconteceu? Descartes mal principiara a cavar nessa mina e o ceticismo já estava à espreita para devorá-lo. Ele fez o que pôde para afastá-lo. Malebranche e Locke, que cavaram ainda mais fundo, acharam a dificuldade de lidar com esse inimigo ainda mais elevada; mas eles laboraram com honestidade. Berkeley, que deu prosseguimento ao trabalho, desesperando de poder concluí-lo, utilizou de um expediente: ao renunciar ao mundo material, que pensou poder preservar sem dano, e até mesmo com lucro, esperava, por uma partição inexpugnável, preservar também o mundo espiritual. Ai de nós! O Tratado da Natureza Humana arruinou arbitrariamente todo o empreendimento da repartição, e inundou esta mina em novo dilúvio.

Esses fatos, que não se pode negar, nos dão motivos para temer que o sistema cartesiano do entendimento humano, que eu devo pedir a vênia de chamar aqui de sistema ideal, e que, com alguns melhoramentos de seus discípulos é agora recebido, tinha alguns defeitos originais. Que o ceticismo está nele embutido, e nele pegou carona, parece consensual. Exumando a fundação do sistema ideal, portanto, a fim de estudar suas fundações, o material empregado na obra, damos um primeiro passo a fim de encontrar e erigir qualquer fundamento sólido e útil de conhecimento na matéria.

SEÇÃO 8ª. NÃO DEVEMOS DESISTIR DAS INVESTIGAÇÕES [SEC18]

Deveríamos desistir, porque Descartes e seus sucedâneos falharam? De maneira alguma. Essa pusilanimidade seria injuriosa conosco mesmos e injuriosa para com a verdade. Descobertas proveitosas são às vezes o efeito do gênio superior, mas com ainda mais freqüência são o resultado acidental de circunstâncias felizes. Um viajante prudente pode errar o caminho, e andar longo tempo pela pior estrada sem o saber; e, embora a estrada seja boa e sempre convidativa para ele, pois onde há estrada há avanço, se não se der conta do erro ele pode prosseguir muitos quilômetros sem suspeitas, cada vez mais longe do destino almejado, e até sendo seguido por outros viajantes menos experientes. Quando a estrada termina, porém, no abismo, mesmo os menos ajuizados dos viajantes conseguem perceber de imediato o erro anterior, sendo mais fácil recuar e retraçar seus passos pela boa senda.

No entre-tempo, essa parte não-exitosa da filosofia produziu efeitos, muitos deles desencorajadores para novos exploradores da mente; mas, se um erro foi cometido na estrada antes disso, era uma conseqüência previsível que erros desembocassem em efeitos indesejados. Só o tempo e escolhas melhores poderão remediar a situação. Homens sensíveis, jamais céticos nos problemas do dia-a-dia, são aqueles aptos para tratar com soberano desprezo tudo que tenha sido dito ultimamente ou está para ser dito em filosofia da mente. – É metafísica, eles dizem: quem tem isso em mente? Deixe que os sofistas e escolásticos se embrenhem em suas próprias teias-de-aranha. Estou decidido a crer na minha própria existência, e na existência de outras coisas, sem vacilar. E não hesitarei em dizer que fria é a neve e doce o mel, não importa o que digam aqueles. Que sejam tolos ou que queiram me fazer passar por tolo, mas não dou crédito a quem argumenta que devo prescindir de minha razão e de meus sentidos na investigação.

Confesso que não sei dizer o que um cético redarguiria a isso, não me antecipo nesse tocante; nem a quais argumentos os críticos recorrerão para refutar qualquer coisa que eu encontre. Não devemos nos engessar porque a sofística atravessa nosso caminho; tudo que os sofistas merecem é o desprezo. Ou não há verdade alguma nas faculdades humanas… e por que então debatemos?

Sendo assim, qualquer homem que se veja neste beco sem-saída metafísico, não refletindo numa saída, ora, que recorra a sua bravura e corte os nós desta corda ou teia-de-aranha que não pode afrouxar pela sutileza ou paciência. Que maldiga a metafísica e dissuada seus colegas de serem metafísicos! Porque se eu alguma vez pisei em pântanos e brejos, falsamente conduzido por ignis fatuss,¹ o que posso fazer senão recuar e avisar os demais sobre o que vivi? Se a Filosofia se contradiz, engana seus devotos, depriva-os de todo objeto digno de investigação, deixe que ela vaga de volta para as regiões infernais de onde deve ter partido sua versão prototípica.

¹ Fogos fátuos.

Mas estaríamos seguros de que essa donzela é do partido dos céticos? Não poderia ser que trilharam para longe do caminho da Filosofia? Por um acaso um gênio nunca fez com que seus próprios sonhos passassem por oráculos divinos? Condenaremos a Filosofia sem direito de antes ouvi-la? Não seria razoável. Já encontrei na filosofia uma companheira agradável em outras matérias, uma conselheira confiável, uma amiga do Senso Comum, e alguém capaz de melhorar a humanidade. Esse crédito que ela amealhou lhe dá ainda o direito de se corresponder comigo, e de que eu nela confie, ao menos até que esbarrasse com provas infalíveis de sua infidelidade!

CAPÍTULO 2. O OLFATO

SEÇÃO 1ª. ORDEM DA INVESTIGAÇÃO. ORGANIZAÇÃO DO SENTIDO DO OLFATO. [SEC21]

É de tal maneira difícil desvendar as operações do entendimento humano e reduzi-las a seus primeiros princípios que não podemos esperar o sucesso senão começando do mais simples, e prosseguindo passo a passo, com cuidado, ao mais e mais complexo. Os cinco sentidos externos, por essa mesma razão, devem ser considerados primeiro na análise das faculdades humanas. E a mesma lógica deve estabelecer uma hierarquia dentro mesmo destes cinco sentidos, não cabendo a precedência ao mais nobre ou mais útil, e sim ao mais simples. Deve ser eleito o sentido cujos objetos estão em menor risco de ser apreendidos por outras coisas senão aquilo que são.¹

¹ Cheiros.

É nesse sentido que nossa análise das sensações deve ser levada adiante, com muito mais facilidade e distinção, na seguinte ordem: olfato, paladar, audição, toque e, por último, a visão.

A filosofia natural nos informa que todo corpo animal e vegetal, e provavelmente todo outro corpo, enquanto exposta ao ar, está continuamente emanando eflúvios extremamente sutis, não só enquanto em estado vital e durante o crescimento, mas também nos estados de fermentação e putrefação. Essas partículas voláteis provavelmente repelem-se umas às outras, espalhando-se no ar, até atingirem outros corpos com que possam ter alguma afinidade química, com os quais interagem, unindo-se em novos compostos. Todo o aroma das plantas e outros corpos é causado por essas partes voláteis e é cheirado tanto quanto perpassa o ar: a acuidade do sentido do olfato em alguns animais nos mostra que esses eflúvios viajam grandes distâncias e são inconcebivelmente sutis.

Se, como alguns químicos colocam, toda espécie de corpo tem um spiritus rectus,¹ ou seja, uma espécie de alma, que é causa do cheiro e de todas as virtudes específicas daquele corpo, e que, sendo extremamente volátil, flutua pelo ar em busca de receptáculos apropriados, isso eu não estou aqui para discutir. Esta, como outras teorias, é mais produto da imaginação do que da justa indução. Mas que todos os corpos são cheirados via eflúvios que eles emitem, e que são sugados pelas narinas junto com o ar, disso não há dúvida. Há uma aparência manifesta de algum intuito ou interesse no posicionamento desse órgão do cheiro ou olfato no interior deste canal, mediante o qual o ar atravessa continuamente, no processo de inspiração e expiração.

¹ A tradução literal seria “espírito fixo”.

A anatomia nos diz que a membrana pituitaria¹ e os nervos olfatórios, que estão distribuídos por partes vilosas² da membrana, são os órgãos destinados pela sabedoria da natureza para este sentido. Sendo assim, quando um corpo não emite eflúvios, ou quando os eflúvios não penetram o nariz, ou quando a membrana pituitária ou os nervos olfatórios por algum motivo não podem executar seu trabalho, não pode ser sentido o cheiro.

¹ Relativo ao muco ou tecido mucoso.

² Recobertas de pêlo.

E apesar disso, é evidente que nem os órgãos do cheiro, nem o meio, nem qualquer movimento excitado na membrana acima mencionada que possamos conceber, ou no nervo ou ‘espírito’ animal, guardam semelhança com a sensação do ato de cheirar; nem essa sensação em si mesma poderia nos levar a uma apreensão imediata dos nervos, da alma animal ou dos eflúvios.

SEÇÃO 2ª. O OLFATO ABSTRATO (A SENSAÇÃO) [SEC22]

Havendo estabelecido essas premissas com respeito ao meio e ao órgão desse sentido, agora devemos prestar atenção àquilo de que a mente está consciente quando cheiramos uma rosa ou um lírio.¹ E como a linguagem não nos brinda com outro nome para essa sensação, contentar-nos-emos em chamá-la de cheiro ou odor, mas tomando o cuidado de excluir do significado, a partir daqui, tudo que não seja a sensação em si, até terminarmos de analisar o olfato de maneira abstrata.

¹ Flor também chamada copo-de-leite dada sua brancura.

Suponha uma pessoa que nunca usou deste sentido antes; ao recebê-lo pela primeira vez, e cheirar uma rosa, pode este indivíduo perceber qualquer similitude ou acordo entre o cheiro e a rosa? ou entre aquele e qualquer outro objeto? Decerto que não. O indivíduo se sentirá afetado de uma forma nova, sem saber por quê. Exatamente como o homem que sente alguma dor ou prazer anteriormente desconhecido, ele estará consciente que ele não é a própria causa da sensação; mas não conseguirá, pela natureza da coisa, determinar se ela é causada por um corpo ou espírito, por algo perto ou por algo à distância. Não há verossimilhança a nada mais, nada que permitira uma comparação. O indivíduo não concluirá nada a respeito, a não ser que realmente há uma causa qualquer desconhecida da sensação.

É evidentemente ridículo associar ao cheiro uma imagem, cor, extensão ou qualquer outra qualidade dos corpos. Não é possível conceder um lugar ou espaço à sensação, mais do que poderíamos atribuir um espaço à melancolia ou algria: a existência da sensação se dá quando se cheira, e em nenhum outro instante. Parece, tudo indica, uma afecção ou ‘sentimento mental’ simples e original, inexplicável e indescritível. É de fato impossível que esta sensação seja um corpo: é sensação; e sensação é justamente algo numa senciência.

Diferentes odores possuem diferentes graus de força e fraqueza, ou de ‘pervasividade’. Maioria pode ser classificada em agradáveis ou desagradáveis; e freqüentemente os agradáveis, quando fracos, são desagradáveis uma vez que se apresentem fortes. Quando comparamos diferentes aromas em conjunto, percebemos quase nada de ‘igual’ ou ‘contrário’ entre um aroma e outro. Não podemos traçar relações entre aromas, eles são ‘únicos’. São coisas tão simples que é quase impossível dividi-los entre genera e species.¹ Quase todos os nomes que lhes concedemos são particulares; como ‘cheiro da rosa, ou da jasmim. Concedo que há nomes gerais: doce, fedorento, de mofo, pútrido, cadavérico, aromático. Alguns parecem refrescar e animar a mente, outros mortificá-la, deprimi-la.

¹ Classificações elementares da biologia.

SEÇÃO 3ª. SENSAÇÃO E MEMÓRIA: PRINCÍPIOS NATURAIS DA CRENÇA. [SEC23]

Até aqui consideramos a sensação abstratamente. Agora comparemos a sensação abstrata com outras coisas com que ela pareça guardar alguma relação. Primeiro nos cabe comparar essa sensação com a memória e a imaginação.

Posso pensar no cheiro da rosa quando não cheiro a rosa; e é possível que quando penso nisso não haja por perto nem rosa nem cheiro algum que esteja sentindo. Mas quando cheiro efetivamente a rosa, estou necessariamente determinado a crer que a sensação existe. Isto é comum a todas as sensações, i.e., que elas não podem existir senão ao ser ‘percebidas’; o que nos leva a ‘não poderiam ser percebidas se não existissem’. Eu poderia com a mesma facilidade duvidar de minha própria existência e da existência de minhas sensações. Mesmo esses filósofos profundos que se esforçaram por refutar a própria existência ainda deixaram o campo das sensações intacto dentro de si, sem um objeto, preferindo-o em detrimento de negar, com a própria negação de si mesmos, a realidade da existência de suas sensações.

Aqui então uma sensação, um odor, por exemplo, pode ser apresentada à mente de 3 formas diferentes: pode ser cheirado, pode ser rememorado, pode ser imaginado ou objeto da reflexão. No primeiro caso, está necessariamente acompanhada, a sensação do odor, de uma crença ou fé na sua existência presente; no segundo, vem necessariamente acompanhada de uma crença na sua existência passada; e no último, nada há de crença, mas sim do que os lógicos denominam uma apreensão simples.

Por que a sensação deveria nos compelir a dar fé na existência imediata da coisa, a memória, na existência passada; e a imaginação em nada? Aposto que nenhum filósofo pode atinar com as respostas. O máximo que podemos dizer é que essa é a natureza dessas operações: são simples e originais, e atos inexplicáveis da mente.

Suponha que uma vez, e tão-só uma vez, eu cheirara uma tuberosa numa sala, em que ela crescia num vaso, e produzia um ótimo perfume. No dia seguinte eu conto o que vi e cheirei. Quando me auto-observo para constatar o que se passa na minha mente neste caso, me parece evidente que a coisa que vi ontem, e a fragrância que respirei, são agora objetos imediatos de minha mente no momento em que me recordo do episódio. Posso ainda imaginar este vaso e flor transportados para a sala onde estou sentado agora, e portanto que a tuberosa emana o mesmo cheiro. Aqui também me parece que a coisa individual que eu vi e cheirei é objeto de minha imaginação.

Filósofos dizem que o objeto imediato de minha memória e imaginação, neste caso, não é a sensação passada, mas uma idéia dela, uma imagem, fantasma, ou espécies de odores que eu cheirara: que essa idéia agora existe em minha mente ou em meu aparelho sensório. A mente, contemplando esta idéia, a considera a representação do que passou, ou do que pode existir; a mente chama esta representação de memória ou imaginação, recordação. Essa é a doutrina da filosofia ideal; não passaremos um juízo sobre esta doutrina nesta altura. Não percamos o precioso fio de raciocínio. Prestando detida atenção, a memória me parece ter coisas do passado, mas não idéias do presente, como objetos. Examinando mais de perto esse sistema de idéias que constitui a memória, nos recordamos de que nenhuma prova sólida da existência de idéias foi jamais aduzida. Idéias são meras ficções ou hipóteses, inventadas para resolver o enigma dos fenômenos do entendimento humano; idéias não são o suficiente para resolver este enigma; essa hipótese das idéias ou imagens das coisas em nossa mente, ou no aparelho sensório é afim aos múltiplos paradoxos tão chocantes ao senso comum, afim ao ceticismo que desgraça nossa filosofia da mente e que nos trouxe, em primeiro lugar, à condição de sermos alvos do ridículo e do desprezo de homens sensíveis ou prudentes.

Nesse ínterim, peço vênia para pensar com o vulgo que, quando lembro o cheiro da tuberosa, toda sensação que senti ontem, e que não mais prevalece (não mais existe), é o objeto imediato de minha memória. Quando imagino as coisas de outrora presentes, a sensação ela mesma, não sua representação, não seria o objeto imediato de minha imaginação? Mas se o objeto de minha sensação, a memória e a imaginação forem neste caso o mesmo, ainda assim esses atos ou operações da mente são tão diferentes e tão facilmente distinguíveis quanto cheiro, gosto e som! Estou consciente de uma diferença de tipo entre sensação e memória, e entre ambas e minha imaginação. Reitero que a sensação me obriga a crer na existência presente do cheiro, e a memória me obriga a crer na existência passada desse cheiro. Há um odor, é o testemunho imediato do sentido; houve ou havia um cheiro, é o testemunho imediato da memória. Se você me pergunta: por que você acredita que o cheiro existe?, eu não posso dar outra resposta a não ser que eu cheiro, estou sentindo o cheiro. E se você me perguntar: por que você acredita que o cheiro existiu ontem?, a única resposta é porque eu lembro do cheiro que eu senti.

Sensação e memória, portanto, são operações mentais simples, originais e perfeitamente distintas, e ambas, a sensação e a memória, são princípios originais da crença. A Imaginação, esta é distinta de ambas, pois não é um princípio da crença. Sensação implica existência presente do objeto; memória, existência passada; porém, imaginação é uma operação da mente que vê o objeto desnudo, sem implicar na fé na existência do mesmo, ou na sua não-existência. Isto é o que as escolas denominam apreensão simples.

SEÇÃO 4ª. JUÍZO E CRENÇA EM ALGUNS CASOS PRECEDEM A APREENSÃO SIMPLES. [SEC24]

Mas eis que nos deparamos com o sistema ideal, que bloqueia nossa passagem. Ele ensina que a primeira operação da mente sobre suas idéias é a apreensão simples, a concepção mais crua de alguma coisa, sem crença embutida. Só depois de termos adquirido mais apreensões simples, via comparação, percebemos acordos e desacordos entre estas apreensões. Estas percepções de acordos e desacordos seria o que chamamos de crença, juízo, conhecimento. O problema é que toda essa sistemática é fictícia, arbitrária, sem fundamento natural: a sensação deve vir primeiro que a memória e a imaginação; se isto é verdade, estaria pressuposto que a apreensão, acompanhada de crença e conhecimento, viria antes da apreensão simples, ao menos dentro do escopo que agora estudamos. Em vez de dizer ingenuamente que crença e conhecimento advêm da comparação entre apreensões simples, deveríamos afirmar que a apreensão simples é desempenhada decidindo sobre e analisando um juízo original e natural. E é com operações mentais, neste caso, como é com os corpos naturais, que se compoem de elementos e princípios simples. A natureza não exibe esses elementos em separado, para que nós os unifiquemos; ela os exibe misturados e compostos em corpos concretos, e é só via arte¹ e análise química que decompomos os elementos.

¹ No sentido de experiência acumulada, não da intuição estética.

SEÇÃO 5ª. DUAS TEORIAS DA NATUREZA DA CRENÇA REFUTADAS. CONCLUSÕES DERIVADAS. [SEC25]

O que é exatamente essa crença ou conhecimento que acompanha a sensação e a memória? Todo homem sabe o que é, mas nenhum ainda o definiu. Algum homem aspira a definir a sensação, a fim de definir o que é a consciência? Afortunadamente, ninguém incorre nesse erro. Se nenhum filósofo tentou até hoje definir e explicar a crença, alguns paradoxos filosóficos – mais incríveis que qualquer um nascido das superstições mais abjetas ou do entusiasmo mais frenético – jamais viram a luz. Desse tipo decerto é aquela descoberta moderna da filosofia ideal, de que a sensação, a memória, a crença e a imaginação – provado que se relacionam ao mesmo objeto – são apenas diferentes graus de força e vivacidade da ‘idéia’. Suponhamos a idéia como sendo a de um estado futuro post mortem. Um homem tem nele plena convicção; outro é agnóstico (possui um grau fraco e diáfano da idéia). Suponha agora uma terceira pessoa que acredita firmemente que não haja tal estado. Estará sua idéia num grau extremamente fraco da escala ou, pelo contrário, no grau mais poderoso? Se é um estágio fraco da idéia que move este terceiro homem, então há de haver uma crença poderosa, em que a idéia é fraca; se é um estágio poderoso da idéia, então a crença num futuro estado da alma e a crença de que não haja tal estado devem ser uma e a mesma. O mesmo argumento usado para provar que a fé sugere tão-só idéias consolidadas de um objeto, em vez da apreensão simples, pode ser usado, portanto, para dizer que a fé em Zeus seria mais poderosa, inerentemente, do que uma indiferença qualquer do sujeito frente a um objeto (a postura do agnóstico). O que diríamos então do ódio? Usando esta escala hipotética, seria um grau do amor ou um grau de indiferença? Se devêramos dizer que no amor há algo mais que uma idéia, p.ex., que é uma afecção da mente; não poderíamos dizer com igual razão que na fé ou convicção há algo mais que uma idéia, p.ex., uma persuasão ou assentimento da mente?

Talvez cheguemos à conclusão de que é tão ridículo tentar lutar contra esta opinião quanto defendê-la! De fato, se um homem insiste que um círculo, um quadrado e um triângulo diferem somente em magnitude, e não em figura, acredito que ele não encontraria nem apoiadores nem debatedores, isto é, refutadores. E no entanto não me soa menos chocante ao senso comum insistir que sensação, memória e imaginação diferem somente em grau, e não em tipo ou qualidade. Sei, ilustrativamente, que se diz que no delírio ou no sonho os sujeitos estão sujeitos a trocar uma pela outra. Mas disso tornar-se-ia necessário que em vigília e em estado saudável de consciência não distinguíssimos uma da outra? Como um homem vem a saber que não delira? Não posso afirmá-lo;¹ nem como um homem sabe que existe! Mas se um homem, no cotidiano, duvida seriamente se está ou não em crise de delírio, a probabilidade maior é que ele realmente esteja delirando, e é hora de consultar um médico – e não um professor de lógica!

¹ A famosa fala confuciana: “Como sabemos que não estamos sonhando com a realidade?”.

Já descrevi a noção lockeana de crença ou conhecimento: ele sustenta que essa não é senão a percepção do acordo ou desacordo com as idéias; e isso ele considera uma descoberta importantíssima.

Teremos ainda a oportunidade de examinar mais minuciosamente esse grande princípio da filosofia do senhor Locke, e de demonstrar que com efeito se trata de um dos principais pilares do ceticismo moderno, muito embora contra a vontade do autor. De imediato, consideremos apenas o quanto este princípio adere à causa da crença que estamos estudando. Poderá este princípio iluminar o caso? Creio que a sensação que sinto existe; e que a sensação de que me lembro não existe agora, mas existiu ontem. Aqui, de acordo com o sistema de Locke, eu comparo a idéia de uma sensação com as idéias das existências passada e presente. Numa ocasião essa idéia está de acordo com a idéia da existência presente, mas em desacordo com a idéia da existência pretérita; na segunda ocasião, o inverso. São idéias caprichosas e que estão o tempo todo trocando amizades e inimizades! E não estou preparado para entender como funcionam esses caprichos… Quando digo que uma sensação existe, penso que entendo claramente aquilo que quero expressar. Mas aquele que quer tornar a expressão ainda mais clara afirma que há uma concórdia entre a idéia dessa sensação e a idéia da existência! Isso são trevas, não luzes. Circunlóquios obscuros. Concluo, portanto, que a crença que acompanha a sensação e a memória é um simples ato mental, que carece de definição. E assim será com as demais sensações: ver e ouvir jamais poderão ser definidos a ponto de ver e ouvir serem entendidos por quem não vê ou ouve. Para quem vê e para quem ouve, tanto faz uma definição: ela não tornará o visto ou o ouvido ‘mais claro’ para si. Todo homem com crenças e artigos de fé (e seria uma grande curiosidade depararmo-nos com um homem isento de crenças!) sabe perfeitamente o que uma crença é, mas nunca a definirá nem explicará a contento. Concluso, ainda, que sensação, memória e imaginação, mesmo debruçadas sobre o mesmo objeto, são operações de uma natureza bastante distinta, perfeitamente distinguíveis para qualquer homem sóbrio e em sua razão. Um homem que corre perigo de trocar umas pelas outras está ele mesmo em grande perigo e deve ser considerado com grande piedade. O que quer que este homem espere encontrar em termos de consolação, deverá se dirigir a outra coisa fora da metafísica e da lógica! Concluo, indo além, que pertence à condição humana o ato de acreditar na existência presente das nossas sensações e na existência passada daquilo que a memória é capaz de recordar tanto quanto o ato de achar 4 como resposta de de 2². A evidência dos sentidos, a evidência da memória e a evidência da relação necessária entre as coisas¹ são todas evidências distintas e originais inerentes a nossa constituição. Nenhuma dessas evidências depende da outra ou pode ser por elas esclarecida. Debater contra isso seria absurdo. Não, debater a favor delas é ainda absurdo, tautológico!² São princípios primordiais. São princípios não da razão, mas do próprio senso comum.³

¹ Quase chega à Crítica da Razão Pura de Kant. Sentir implica o espaço, a memória implica o tempo e em terceiro lugar vem o princípio da causalidade; eis o tripé do a priori epistemológico kantiano.

² Daí serem faculdades hoje chamadas a priori, que precedem nossa experiência.

³ Da razão pura, na nomenclatura de Immanuel Kant. O que Reid chama de razão neste contexto ainda é a razão empírica dos britânicos e/ou a razão abstrata dos franceses cartesianos antes do “kantismo” filosófico elaborar a síntese e encerrar o debate.

SEÇÃO 6ª. EM DEFESA DOS ABSURDOS EM METAFÍSICA. SENSAÇÃO SEM SUJEITO, UMA CONSEQÜÊNCIA DA TEORIA DAS IDÉIAS. OUTRAS CONSEQÜÊNCIAS DESSA ESTRANHA OPINIÃO. [SEC26]

Havendo considerado a relação existente entre a sensação do cheiro e a lembrança e a imaginação dele, prossigo, agora, com a relação do olfato com a mente, ou princípio senciente. É certo que nenhum homem pode conceber ou crer na existência do cheirar sem uma consciência, ou algo que tenha o poder de cheirar, o que chamamos simplesmente sensação, operação ou sentimento. Se for solicitada uma prova da asserção anterior, no entanto, confesso que ela não existe. Querer provar o olfato ou a sensação seria tão absurdo quanto negá-los.

Tudo isso poderia ser afirmado sem escusar o leitor antes da publicação do Tratado da Natureza Humana. Porque até este evento não sei de indivíduo algum que pensara em pôr em dúvida aquele princípio, ou em dar para sua crença uma justificação racional. Que os seres pensantes fosse de natureza etérea ou ígnea, material ou imaterial, tudo isso andava em disputa; mas pensar numa operação executada por um ser ou outro havia sido sempre prestabelecido, um princípio que não admitia dúvida.

Desde que Hume, no entanto, que é sem dúvida um dos metafísicos mais agudos jamais produzidos, tratou este princípio como um preconceito vulgar, e sustentou que a mente é só uma sucessão de idéias e impressões sem qualquer objeto, isto mudou. Sua opinião, embora contrária às apreensões comuns da humanidade, merece respeito. Peço portanto que nem esta nem outras noções metafísicas correlatas sejam pejorativamente tratadas como absurdos ou contra-sensos. Não significa, por ser uma opinião minoritária, nenhuma depreciação desses autores. Seu procedimento não se deve à falta de entendimento, mas de um excesso de refino: os raciocínios que conduzem a suas hipóteses iluminam a matéria de modo inédito e são sinais de verdadeiro gênio e penetração. As premissas expiam a conclusão.

Se há determinados princípios, como creio ser o caso, em que a constituição de nossa natureza nos leva a crer, e que normalmente, por necessidade, devemos tomar como inatos no sentido do cotidiano, sem por isso poder explicar sua causa –– se há esse tipo de princípios, são eles o que batizamos de princípios do senso comum. Aquilo que se apresenta como manifestamente contrário aos princípios do senso comum são naturalmente considerados por nós como absurdos.

Se nossa mente formula a abstração “A sensação e o pensamento podem existir sem a senciência”, e estabelece esta formulação na filosofia como uma verdade, isto não se deve ao acaso. Com efeito, e não ironizo, o atingimento desta formulação são a mais incrível descoberta de toda nossa história intelectual. A doutrina das idéias que nós recebemos da Antiguidade é o princípio-base que torna possível este conhecimento por dedução (em vez de indução). Em dado momento seria necessário chegar a esta conseqüência, dada a premissa. Que tenha demorado muitos séculos é chocante – mas é provável que não fosse assim se a repugnância e contrariedade que sente nossa apreensão cotidiana não retardassem bastante seu estabelecimento. É de fato uma conclusão que exige um grau incomum de intrepidez filosófica. É um princípio fundamental de um sistema ideal: Todo objeto do pensamento deve ser uma impressão, ou uma idéia, isto é, uma cópia mais tênue de uma impressão precedente. Este princípio fundamental é tão universalmente validado que o autor acima citado¹ não necessitou, ainda que todo seu sistema fosse decorrente dele, erigido sobre ele, provar seu ponto. Este ponto fixo, este princípio básico, sobre o qual Hume erige seu maquinário metafísico, é o suficiente, ao fim, para tornar céu e terra, corpo e espírito convolutos. Em minha apreensão indutiva, este ponto fixo não gera tamanha conseqüência à toa ou devido a qualquer tipo de erro. É uma revolução lógica do espírito humano. Porque se impressões e idéias são os únicos objetos do pensamento, faz sentido que céu e terra, corpo e espírito, e tudo o mais, devam ser considerados unicamente como impressões e idéias, ou seriam ainda pior, palavras sem qualquer significado. Tal noção, em que pese tão estranha, está intimamente conectada com a validade da doutrina das idéias – neste ponto, ou admitimos as conclusões que tal doutrina nos preme a tomar ou então questionamos toda a doutrina.

¹ Aqui fala-se de David Hume, mas não devemos esquecer que a doutrina das idéias provém de Platão.

As idéias parecem conter algo em sua natureza que não coaduna bem com outras existências. Sua primeira aparição na filosofia se deu por meio de imagens ou símbolos um tanto simplórios das coisas. São imagens tão tíbias que não têm – ou tinham – qualquer caráter ofensivo; ao contrário, serviam admiravelmente bem ao progresso do pensar, em particular como instrumentos da filosofia na descrição das operações do entendimento humano. Desde que, porém, o homem começou a raciocinar mais clara e distintamente, as idéias foram de grau em grau suplantando seus constituintes (as coisas), tomando o lugar de tudo, subsumindo sua existência, menos a das próprias idéias. Em primeiro lugar, foram descartadas as qualidades secundárias dos corpos. Isto significa: o fogo não é quente, a neve não é fria, o mel não é doce: o calor, o frio, o som, a cor, o gosto e o olfato nada são senão idéias, impressões. O Bispo de Berkeley tomou um passo adiante, encontrando, racionalmente, seguindo o mesmo princípio, outrossim, a formulação de extensão, solidez, espaço, figura e corpo como idéias – em suma, que nada há na natureza a não ser idéias e espíritos. Mas o triunfo das idéias foi finalmente declarado pelo Tratado da Natureza Huamana, que contesta, finalmente, a co-primazia dos espíritos na fórmula. Apenas idéias (impressões) têm existência no cosmo. O que se daria se, coexistentes apenas umas com as outras, as idéias, finalmente soberanas, passassem a predar agora umas às outras, num canibalismo figurado, deixando a natureza órfã de existência em absoluto? Isso deixaria a filosofia em grave perigo. Seria o fim das investigações.¹

¹ Engenhoso parágrafo de Reid, parecendo antecipar, ao menos em seus contornos, a crise da razão que se concretizaria e ultimaria somente cem anos depois, quando já não seria mais possível fugir da questão do niilismo metodológico.

Isso, porém, seria uma questão para adiante. Até o presente os filósofos reconhecem a existência das impressões e idéias. Reconhecem determinadas leis da atração, ou regras de precedência, de acordo com as quais as idéias e impressões variam em forma e sucedem-se entre si. Mas que devam pertencer à mente, como objetos ou propriedades de um senhor, isso não admitem. As idéias são tão livres e autônomas quanto os pássaros no vôo, ou os átomos de Epicuro sem obstáculos em sua trajetória. Nos permitamos considerar as idéias como películas ou membranas das coisas com auxílio do sistema de Epicuro.

Principio hoc dico, rerum simulacra vagari,

Multa modis multis, in cunctas undique parteis

Tenuia, quae facile inter se junguntur in auris,

Obvia cum veniunt.¹ – LUCRÉCIO²

¹ —No princípio, diz-se, as imagens vagaram,

De todos os modos, em todas as direções

Sendo que a tendência era eventualmente

Se reunirem umas com as outras.

²

Ou as idéias antes lembrariam os espécimes inteligíveis de Aristóteles após serem projetados do objeto, mas antes de atingirem o intelecto passivo? Mas por que gastamos nosso tempo com comparações, se não há nada na natureza a não ser idéias? Eis toda a decoração do universo; principiando na existência, ou fora dela, sem causa; combinando-se em parcelas (receptáculos?), que o vulgo chama de mentes; sucedendo umas às outras segundo leis imutáveis, sem tempo, lugar ou autor destas leis mesmas.

E contudo essas idéias auto-existentes e independentes parecem tristes, carentes e capengas, se deixadas ao relento em meio ao universo das coisas. Parece que as idéias nunca estiveram em pior estado. Descartes, Malebranche e Locke, como utilizavam muitas e muito as idéias, tratavam-nas bem, hospedando-as nos melhores aposentos. Com efeito, a residência das idéias, para estes senhores, era ou a glândula pineal ou o puro intelecto ou até a mente divina. Estas idéias também eram vestidas e revestidas de bons trajes e ofícios, cabendo a elas representar as coisas, prestando-lhes a máxima dignidade e caráter. Mas o Tratado da Natureza Humana, muito embora deva sua existência a toda essa nobreza das idéias prévias, foi muito ingrato com todas. Pensou ser grato concedendo-lhes essa liberdade absoluta, essa existência independente. Órfãs, por assim dizer, sem um lar aconchegante como antes, desamparadas no caótico mundo das ruas, sem amizades nem conexões, sem mesmo trapos para cobrir a própria nudez – queem sabe se não irão todas essas idéias, na nova condição, perecer, graças ao próprio zelo de seus novos defensores zelosos, os últimos filósofos?

E no entanto trata-se da mais maravilhosa descoberta, a de que pensamento e idéias existam independentemente do ser: uma grande descoberta com conseqüências difíceis de mensurar por esses mortais iludidos, que raciocinam na senda comum. Sempre estivemos inclinados a imaginar que um pensamento tem um pensador, que o amor possui amante e amado, e a traição, traídos e traidores. Hoje, entretanto, apercebemo-nos de que era um erro histórico. Pode haver traição sem traidores, amor sem amantes, leis sem legisladores, até punição sem punidos, sucessão sem tempo e movimento sem objetos que se movem, aliás, nem falar em espaço no qual se movam; ou, analogamente, se as idéias forem quem ama, quem sofre, quem trai – aí então é desejável que o autor desta descoberta complementasse seu trabalho, informando-nos se, nesse caso, idéias podem dialogar entre si, se podem assumir obrigações morais ou relações de gratidão; fazer promessas, ingressar em associações, assinar tratados, cumpri-los ou quebrá-los, e com isso ser passíveis de punição. Se um rol de idéias pactua, outro rol pode desebedecê-las, uma terceira categoria ser eleita como bode expiatório, e assim por diante. Não há qualquer razão para atribuir justiça inata a este sistema.

Mas para mim parecia natural que o Tratado da Natureza Humana necessitava um Autor, não se escrevendo sozinho. E não um qualquer, um muito engenhoso. Claro que foi apenas uma suposição imatura e afoita: o Tratado é o resultado da concórdia entre idéias livres, que se associam e atraem de acorod com o próprio senso de independência individual.

Depois de tudo, este curioso sistema não calha muito com o atual estado da natureza humana, analisando mais densamente. Claro que alguns espíritos eleitos, muito acima do senso comum, muito refinados, ainda poderão tirar proveito do Tratado em larga medida. Porém, ainda resta minha restrição de que mesmo estas almas só podem ingressar no sistema nas horas mais prazeiteiras e ociosas, sendo vedado se aventurar no reino das idéias independentes em horas menos especulativas. Condescender em lidar de novo com a raça humana e as coisas materiais, digo, conversar com um amigo, um companheiro, um compatriota, um cidadão, é desmanchar este sistema ideal. O senso comum, como corrente irresistível, retoma o controle e arrasta a todos, sem exceção. Apesar de todo seu isolamento e suas reservas, os filósofos também crêem que existem, e crêem na existêm das coisas que os rodeiam.

O que é muito positivo, por sinal: assim o restante da humanidade não os considera indivíduos doentes, podendo estes sujeitos levar uma vida normal. Assim como Platão exigia certas qualificações para a entrada em sua Academia, os proponentes desta filosofia ideal devem providenciar o mesmo, por prudência, admitindo em seu círculo somente aqueles que sabem diferenciar aquilo que pensam de si quando estão sozinhos ou quando estão acompanhados. Em suma, que só sejam admitidos filósofos que saibam que seus princípios não funcionam na prática. Esta filosofia é como um passatempo que um homem cultive em seu tempo recluso; que até um homem nada virtuoso cultive, em seclusão, sem prejuízo social. Sem prejuízo para a própria reputação. Mas se ele exibe esses princípios na igreja, no comércio, nas inter-relações, no jogo de cartas, seu herdeiro imediato não deverá pestanejar em evitar a mácula convocando de pronto um júri, a fim de interditá-lo.

SEÇÃO 7ª. A CONCEPÇÃO E A CRENÇA NUM SER SENCIENTE OU NA MENTE É SUGERIDA POR NOSSA PRÓPRIA CONSTITUIÇÃO; A NOÇÃO QUE HÁ DAS RELAÇÕES NEM SEMPRE É ADQUIRIDA MEDIANTE A COMPARAÇÃO ENTRE IDÉIAS RELACIONADAS. [SEC27]

Deixando de lado, portanto, essa filosofia àqueles que têm predisposição a ela e a utilizam com discrição num “exercício de quarto”, devemos ainda indagar como o restante da humanidade, e os próprios céticos quando não em estado solitário, veio a adquirir e cultivar tão forte e irresistível fé: a fé de que o pensamento tem de ter um objeto, e ser ato também de um sujeito: como todo homem crê em si como sendo algo distinto de suas próprias idéias e impressões; algo, por assim dizer, que continua sendo o mesmo ‘si’ idêntico mesmo quando suas idéias e impressões mudam. É impossível traçar a origem dessa opinião na história: em qualquer língua o designativo em primeira pessoa existe desde os primeiros vestígios de sua existência. Todas as nações creram até hoje no eu. Todas as constituições e governos, bem como todas as transações cotidianas da vida, supõem o eu.

Não é menos impossível ao próprio sujeito tentar lembrar-se desde quando ele veio a ter essa noção de si; nossas memórias mais antigas já estão associadas a uma consciência de si próprio, tão claramente quanto era claro que existíamos, e que reconhecíamos a existência de outros objetos externos. Numa palavra, de modo tão conciso e que não aceita exceções como 1 + 1 = 2. É uma opinião que a priori antecede todo raciocínio, e mesmo experiência e instrução; é especulação minha, mas é o mais provável, porque seria difícil nos inculcar algo tão poderoso mais tarde, se já não fosse nosso. É um fato inegável que, via pensamento ou sensação, toda a humanidade, constante e invariavelmente, desde a aurora da consciência, infere um poder ou faculdade do pensamento, e junto com ela uma mente ou ser permanente a que esta faculdade pertence; é fato inegável que nós adscrevemos invariavelmente todos os tipos de sensação e pensamento de que temos consciência a uma mente individual ou self.

Mas sobre quais regras lógicas fazemos essas inferências é impossível demonstrar; até mesmo nossas sensações e nosso pensamento vigentes, que são capazes de se referir a uma noção ou conceito de mente ou faculdade, são igualmente incapazes de nos brindar com a explicação de como eles mesmos são disso capazes! A faculdade do olfato é algo bem distinto da sensação de cheirar por si mesma; pois a faculdade continuará mesmo que percamos a sensação (supondo que estamos apenas descansando de usá-la ou num ambiente inodoro). E a mente não é diferente, nesse aspecto de perseverança, que a faculdade. Ela é a própria faculdade da faculdade, i.e., o que a faculdade é para a sensação, a mente é para a faculdade. A mente segue a mesma ainda que por algum evento percamos, por exemplo, a faculdade do olfato. A sensação nos sugere uma faculdade e uma mente; e não apenas uma noção de ambas, mas até cria, acredito, a fé na ou certeza de sua existência. Embora seja impossível avaliar o que afirmo racionalmente e estabelecer qualquer conexão, mais fugaz ou diáfana que seja, entre tal sensação e certeza.

O que podemos dizer, então? Ou referidas inferências que tiramos das sensações (a existência da mente, os poderes das faculdades que lhe pertencem) são prejuízos da filosofia ou da educação, meras ficções da… mente, o que um homem prudente deve logo descartar, como se se tratasse de crença em fadas, pois já seria imputar má-fé ao próprio objeto aqui investigado… Ou referidas inferências são juízos da natureza, juízos obtidos não ao comparar idéias, captando concórdias e discórdias entre elas, mas imediatamente inspiradas pela nossa própria constituição.¹

¹ Reid prefigura Kant claramente. Comparemos a possível data em que ambos publicaram primeiro suas afirmativas neste sentido: Reid neste tratado e Kant em Crítica da Razão Pura. (…) Isso é o máximo que podemos sacar de conclusões num debate sobre pioneirismo em filosofia. Ignoro, na história das idéias, quais fatores foram mais decisivos para Kant ser ilustríssimo e Reid quase uma curiosidade de pé de página (que ainda teve a sorte de ser citado por Arthur Schopenhauer numa obra muito conhecida, ao que devo meu próprio conhecimento de sua existência). Kant tem suas deficiências palpáveis de estilo e escrita; mas o mesmo pode ser censurado a Reid, que é bem menos direto do que a modorra do assunto parece exigir; mas falo da perspectiva de um filósofo do séc. XXI já “farto de ouvir falar” nestes “primórdios” da concepção dos a priori da (a)percepção humana. Provavelmente este assunto delicado, à época, requeria todo esse cuidado dos dois autores, quiçá até mais.

Considerando que a resposta é o segundo caso, será impossível abandonar estas concepções, então sirvamo-nos delas! Se pudéssemos, mediante uma obstinação reiterada, atirar fora esses princípios naturais, seria até uma atitude anti-filosófica, mas apenas abdicar à loucura. Cabe aos céticos se explicarem diante de sua confusão precipitada, e não a nós, que seguimos a natureza milenar das coisas.

Faz parte da doutrina filosófica que herdamos o conhecimento de que nossas noções das relações só podem ser obtidas comparando idéias relacionadas; mas, no presente caso, pareço haver encontrado uma instância excepcional. Não é através das noções de mente e sensação que alcançamos a relação de uma delas com a coisa ou substratum¹ e a relação da outra com um ato ou operação. É todo o contrário: uma das coisas comparadas, quer seja, a sensação, sugere de antemão tanto o correlato quanto a própria relação!

¹

Peço que me permitam a utilização das palavras ligadas a sugestão aqui. Sugerir, no caso acima. Desconheço expressão melhor para exprimir um poder da mente que por tanto tempo parece ter passado desapercebido pelos mais distintos filósofos. Muito do que somos capazes de operar com a mente, que não é nem impressão nem idéia, é também atribuível a esse poder de sugestão. Muitos princípios originários da crença, por sinal.¹

¹ Revisemos o verbo sugerir no dicionário português: insinuar; lembrar; inspirar; fazer nascer no espírito; promover. Sem dúvida Reid foi muito feliz na escolha da palavra.

Todos nós sabemos que um certo tipo de som nos sugere imediatamente, ou sugere antes à mente, uma carruagem atravessando a rua. E não só essa sugestão alimenta poderosa e rapidamente nossa imaginação como a crença, a crença de que uma carruagem está passando. Idéias não chegaram a ser comparadas. Não há aqui uma reflexão interna que leve em conta harmonias e discordâncias, nada do tipo. É uma crença; nasce como crença. Não há como comparar, tampouco, a carruagem com o som dos cavalos e das rodas da carruagem em contato com o asfalto. Tal analogia entre duas idéias, ou, na verdade, uma idéia e uma sensação, é impossível.

Esta sugestão em específico não é natural e original; é o resultado da da experiência e do hábito. Alguém que nunca ouviu este som antes, não conhece o veículo e nunca visitou a cidade correria sério risco de ser atropelado, pois o som não necessariamente lhe sugeriria algum perigo ou nada pesado em particular se deslocando em velocidade. Porém, acredito que haja sugestões naturais neste mundo. Uma delas eu citei: que a sensação nos sugere a noção da existência imediata, e a crença de que o que percebemos ou sentimos agora existe agora. Que a memória sugira a noção de uma existência passada e a crença de que lembramos ter vivido e tido um tempo passado nós mesmos; e que nossas sensações e pensamentos sugiram a noção de uma mente, e a crença em sua existência, e de imediato sua relação com os pensamentos, tudo isso é mera conseqüência natural do já dito.

Algum princípio natural do tipo, que nos sugere um começo do existir, ou mudanças na natureza, nos sugere a noção de causa e nos compele à fé em sua existência (causas existem). Antes de encerrar o capítulo, devo assinalar que, no devido tempo, discorreremos sobre a sugestão que nos dá o sentido do toque ou tato: mediante algumas sensações no contato com objetos ou corpos, devido à nossa constituição inata, ficam-nos sugeridos desde já aspectos como extensão, solidez e até movimento, que não são simples sensação, muito embora os filósofos têm-nos confundido com sensações até aqui. Não encerramos o tópico do olfato, entretanto.

SEÇÃO 8ª. EXISTE UMA QUALIDADE OU VIRTUDE DOS CORPOS CHAMADA OLFATO. COMO ELA ESTÁ CONECTADA, NA IMAGINAÇÃO, À SENSAÇÃO. [SEC28]

Por enquanto consideramos o cheiro como significando uma sensação, sentimento ou impressão impingidos na mente; nesse sentido, só pode ser mesmo numa mente, num ser senciente. Mas é evidente que a humanidade dá o nome de cheiro muito mais amiúde a algo que se concebe como meramente externo, ou seja, qualidade dos corpos: entende-se com esse discurso que cheiro está como que “separado” da mente. O homem, com efeito, não sente dificuldades ou constrangimento em conceber o ar perfumado com odores aromáticos nos desertos da Arábia, ou em qualquer ilha desabitada, sem a presença de mentes ou criaturas sencientes para cheirá-los. Do mais eminente filósofo ao trabalhador mais humilde, esse trabalho de concepção será igualmente fácil e estará igualmente presente. Não há ninguém convencido do contrário. Há cheiros lá fora, sendo sentidos ou não.

Mas, já que tocamos no filósofo, suponhamos um encontro deste trabalhador dotado de senso comum com um filósofo moderno, no sentido mais pejorativo do termo. Suponhamos que o trabalhador muito respeita a sabedoria do filósofo e lhe pergunta: O que é o cheiro das plantas? O filósofo então dirá: Não há cheiro das plantas, nem em nada mais, o cheiro está só na mente; é impossível que haja cheiro fora da mente; tudo isso já foi demonstrado pela filosofia moderna. O homem de senso comum irá, sem dúvida, achar que foi vítima dum gracejo; mas se por um acaso interpretar que o filósofo falou a sério, sua próxima conclusão, então, será que ele ficou louco. Ou que a filosofia, como a magia, transforma o homem noutra coisa, condu-lo a outro mundo, concede-lhe poderes inimagináveis para o homem de senso comum. É então que o senso comum e a filosofia se divorciam para sempre. Mas a quem devemos culpar? Em minha opinião, o filósofo. Porque se ele entende por cheiro o que todo o resto da humanidade aprecia como cheiro, ele realmente ficou louco. Mas se ele concede um significado diferente à palavra cheiro, sem no entanto avisar disso a coletividade que o rodeia, ele abusa da linguagem, e desgraça com isso a filosofia, sem chegar um centímetro mais perto da verdade – como um homem que trocasse as palavras filha e vaca e tentasse provar ao vizinho que sua vaca é sua filha, e sua filha sua vaca.

Acredito não haver muito mais sabedoria em muitos desses paradoxos da filosofia idealista, que, para homens no pleno uso da razão, não passam de patentes absurdos, com a diferença de que os adeptos destes absurdos tentam convencer os leigos de que se tratam de profundas descobertas. De minha parte eu delibero seguir a rota ditada pelo senso comum, e não sair deste caminho seguro senão em caso de absoluta necessidade. Agindo assim, chego à conclusão de que há realmente na rosa ou no lírio algo que o vulgo chama de cheiro, e que continua a existir mesmo quando não é cheirado. Devo seguir investigando o objeto. Como adquirimos dele a noção? Qual é a relação dessa qualidade ou virtude do olfato com a sensação do olfato, que anteriormente nos vimos obrigado a chamar pelo mesmo nome, embora sejam duas coisas distintas, pela falta de um outro nome adequado.

Imaginemos uma pessoa que começa a exercitar o sentido do cheiro: um pouco só de experiência irá ensinar-lhe que o nariz é o órgão deste sentido, e que o ar, ou algo no ar, é seu meio. Adquirindo mais experiência, perceberá que quando uma rosa está próxima ela tem certa sensação; quando a rosa é retirada ou removida, a sensação é suspensa. A pessoa obrigatoriamente estabelece uma conexão entre a rosa e a dita sensação. A rosa é considerada como a causa, a ocasião, ou antecedente da sensação; a sensação como um efeito ou conseqüência da presença da rosa; ambas estão associadas na mente, e constantemente aparecem indissociadas na imaginação.

Mas há algo que merece nosso reparo: embora a sensação pareça mais intimamente rligada à mente enquanto seu sujeito, e ao nariz enquanto seu órgão, nenhuma dessas conexões opera tão poderosamente sobre a imaginação quanto sua conexão com a própria rosa, sua concomitante. A razão para isso parece residir na maior generalidade da conexão das coisas ou sensações com a mente, que não ‘sabe’ bem separar outros tipos de cheiros, i.e., não sabe como compará-los, o mesmo valendo para gostos, sons e outras sensações. A relação da sensação com o órgão é também ‘geral’, e não distingue de outros cheiros – mas a conexão com a rosa é especial e constante. Doravante, rosa e sensação se tornam inseparáveis, por assim dizer, na imaginação, assim como não pensamos, praticamente, no trovão sem pensar no relâmpago, no objeto congelado sem pensar no frio.

SEÇÃO 9ª. EXISTE UM PRINCÍPIO DA CONDIÇÃO HUMANA DO QUAL DERIVAM A NOÇÃO DO OLFATO E OUTRAS VIRTUDES OU CAUSAS NATURAIS. [SEC29]

Para ilustrar melhor como concebemos uma qualidade ou virtude na rosa, que vimos a chamar de cheiro, e o que o cheiro é, é necessário observar que a mente começa muito precocemente a buscar por princípios que dirijam-na no exercício de seus poderes. O cheiro da rosa é determinada afecção ou sentimento da mente; como não é constante, mas vem e vai, o que queremos saber é quando e onde devemos esperar pela sua presença; ficamos inquietos até acharmos algo que, estando perto, nos traz consigo este sentimento determinado e que, como dito mais acima, estando longe, arranca de nós este mesmo sentimento. A isso denominamos causa. Não no sentido mais filosófico do termo, é verdade: não que o sentimento fosse produzido de fato pela causa, mas no sentido popular do termo. A mente está satisfeita se há o estabelecimento de uma conjunção constante entre um e outro (objeto e sentimento). Estas causas nada mais são que leis da natureza. Tendo verificado que o cheiro da rosa está constantemente aferrado à rosa, a mente se tranqüiliza, sem se perguntar se essa conjunção, verificada, testada, se deve a uma eficiência real ou não. Pois adentrando a investigação filosófica, não concerne à vida humana cotidiana. Mas toda descoberta de conjunção constante é, em realidade, muito importante na vida, e deixa grande impressão na mente.

Desejamos tão ardentemente encontrar tudo que acontece dentro de nossas observações em conexão com outros objetos, atribuindo causas ou ocasiões de fenômenos ou efeitos, que estamos aptos a imaginar conexões até precárias, quase sem fundamento: essa debilidade é mais marcante na mente ignorante, que menos conhece das reais conexões estabelecidas na natureza. Um homem se depara com um acidente inesperado num dado dia do ano; desconhecendo qualquer outra causa para sua atribulação, está o homem disposto a conceber que este mesmo dia do calendário é a possível causa da ocorrência de azares, eventos ruins. E se no ano seguinte, no mesmo dia do mês lhe sucede outro evento indesejável, talvez, melhor ainda, não já no ano seguinte, mas vários anos depois, pensa, se guardou bem na memória, poder confirmar a conexão (neste caso uma superstição atrelada a um simples número, e um nome associado ao número, se se quiser). Lembro, muitos anos atrás, de um boi importado a este país, tão grande e pesado que as pessoas percorriam enormes distâncias para vê-lo. Aconteceu que, meses depois, uma fatalidade incomum afetou várias mulheres durante o parto. Dois eventos insólitos seguidos um do outro deixaram a suspeita na mente das pessoas de uma conexão oculta, e fizeram nascer a opinião, entre os habitantes do campo, de que o boi branco era a causa dos problemas de parto.

Malgradas a tolice e ridicularia desta opinião, ela nasceu da mesma raiz da condição humana da qual toda a filosofia também brota, da mente. Da mente e de seu aflitivo desejo de encontrar relações lógicas entre as coisas, uma inclinação natural, original e incontrolável de crer que fatos que viemos a observar no passado, e aos quais atribuímos conexões, voltarão a se repetir. Presságios, portentos, sorte ou azar, quiromancia,¹ astrologia e inúmeras outras artes da adivinhação, além da interpretação de sonhos, falsas hipóteses e sistemas, e mesmo verdadeiros princípios da filosofia da natureza foram erigidos sobre a mesma fundação da constituição humana. E os casos são fechados após apenas algumas poucas observaçoes, em grande parte; noutra, por insistência e indução num grau suficiente, os casos são solucionados de maneira propícia.

Como é unicamente a experiência que descobre essas conexões entre causas naturais e seus efeitos, sem inquirir além atribuímos à causa alguma noção vaga e indistinta de um poder ou virtude para produzir efeitos esperados. Em muitas instâncias da vida não se vê necessidade de distinguir causa e efeito por nomes diferentes. Tão próximos na imaginação, embora tão distintos se considerados em separado, dois nomes vêm a ser conhecidos por um só. No discurso diário, o nome vencedor é o do objeto que mais nos chama a atenção. Isso ocasiona a ambigüidade de inúmeras palavras que, tendo uma mesma causa em muitas línguas, nunca é percebida pelos filósofos. – Alguns exemplos ajudarão a confirmar o que foi dito até aqui.

¹ Leitura do destino pelas linhas das mãos.

Magnetismo significa tanto a atração do ferro pelo ímã quanto a qualidade ou poder do ímã de em geral causar essa atração. E se fosse perguntado: é uma qualidade do ferro ou do ímã?, talvez a resposta fosse hesitante e confusa. Mas um pouco de reflexão sobre o tema descortina que concebemos um poder no ímã como causa, e o movimento do ferro como o efeito. E mesmo o ferro, sem mais, sendo atraído e a faculdade dos ímas (ferro oxidado, magneto) de atrair ferros não-magnetizados sendo duas coisas bem particulares, tendemos a chamar ambas as coisas de magnetismo.¹ O mesmo pode ser dito da gravitação, que às vezes significa a tendência dos corpos em direção ao centro da terra, às vezes o poder de atratividade da terra, que consideramos como a causa verdadeira do fenômeno.² A mesma ambigüidade está presente em alguns dos escritos de Sir Isaac Newton, e em suas definições mesmo. O próprio pai da gravitação universal! Em 3 de suas definições ele detalha claramente o que entende por quantidade absoluta, por quantidade acelerativa³ e por quantidade motriz da força centrípeta. Na primeira das três definições, a força centrípeta é posta como a causa, o que concebemos como o poder no centro do corpo, ou do corpo central, num sistema com vários corpos; nas duas definições seguintes, a mesma palavra é considerada efeito desta causa no ato de produzir a velocidade ou ao produzir o movimento direcionado ao centro.4

¹ Em minha opinião o primeiro exemplo escolhido é péssimo! Mas o autor não estaria em maus lençóis se vivesse para ver o intenso fenômeno dos mesmerizadores, i.e., da proliferação dos estudos sobre o magnetismo animal – por falta de palavras, começamos a empregar o mesmo termo do mundo mineral para relações de sugestão provocadas por um hipnotizador típico do século XIX.

² Novamente um péssimo exemplo. Talvez para seu leitor fizesse algum sentido, mas do época em que estamos não podemos considerar essas falsas equivalências como torpes ou ingênuas.

³ O uso é tão ruim que a palavra sequer se encontra dicionarizada em português.

4 Não tive o privilégio de ler Newton até o momento. Não posso dizer se Reid se expressou mal, não entendeu as leis de Newton ou simplesmente voltou a escolher um mal exemplo (Newton pode efetivamente ter se expressado de uma maneira pouco inteligível ao leigo, de forma que hoje um aluno esteja mais bem-informado em física lendo intérpretes do que Newton queria dizer do que lendo o próprio Newton!).

Calor designa uma sensação, frio sem contrário. Mas calor significa também uma qualidade ou estado dos corpos, sem um “contrário”, mas apenas diferenças de grau. […]¹ E quando o homem doente sente que o alimento é ruim mesmo que ontem tenha comido a mesma coisa e o gosto era bom, ele sabe que nenhuma propriedade foi alterada no gosto, mas na sua sensação do gosto.

¹ Em defesa de Reid, aqui o exemplo é melhor. Não se trata de analisar o mesmo fenômeno científico de duas perspectivas (falsamente) bem dicotômicas, mas de constatar que falamos de calor no dia a dia, embora calor seja também um conceito da física moderna. Neste caso, porém, creio que não inventar uma nova palavra seja uma economia com vantagens: o discurso vulgar não interfere no discurso acadêmico, e vice-versa. Nunca vi alguém se descabelar por não entender de qual calor se está falando, mesmo numa aula de física do ciclo básico! Um trecho do parágrafo foi suprimido porque contém noções tão óbvias sobre frio e calor de líquidos como a água e do corpo que achei desnecessário e até pejorativo incluir na tradução – ao mesmo tempo em que tanto honra o “homem de senso comum” em sua obra, Reid parece subestimar bastante sua intelecção, proclamando-o incapaz das associações mais banais. Veja que no exemplo seguinte Reid não comete o mesmo erro! Não vejo necessidade, no entanto, de se criar uma palavra diferente para designar a sensação do gosto para se contrapor à… virtude do gosto? A sensação do gosto do gosto propriamente dito, numa palavra. ‘Sensação’ já faz a discriminação técnica necessária mesmo ao filosofar.

O vulgo é comumente premido pelo filósofo a pensar no absurdo do cheiro da rosa sendo algo igual à sensação do cheirar.¹ Mas eu penso sem justeza; porque eles sequer tão os mesmos epítetos a ambos.² Nem pensam de maneira análoga para ambos (o cheirar e o cheiro). O que é o cheiro da rosa? É a qualidade ou virtude da rosa; ou de algo que provém dela, que percebemos pelo sentido do olfato. E isso é quanto sabemos do assunto. Mas o que é o olfato, então? É um ato mental; mas nunca é imaginado como uma qualidade da mente.³ De novo, a sensação do cheiro é concebida como inferindo necessariamente uma mente, ou ser senciente. Mas cheiro da rosa nada infere! Dizemos: Esse corpo tem um cheiro doce; isso fede. Mas não dizemos: Essa mente cheira algo doce, e essa algo que fede.4 Destarte, o cheiro da rosa e a sensação que ele causa não são concebidos, mesmo pelo vulgo, como coisas do mesmo gênero, embora compartilhem o nome.4

¹ Como Reid exagera!

² Exatamente!

³ Como não, se já se concede que seja um ato mental segundo o filósofo?

4 Extrapolação.

Do dito, podemos aprender que o cheiro da rosa significa duas coisas. Primeiro, Uma sensação, que não pode ter existência quando não é percebido (o cheiro), e só pode ocorrer em um ser senciente, ou mente. Segundo, Significa algum poder, qualidade ou virtude, na rosa, ou nos eflúvios provenientes da rosa, que tem uma existência permanente, independente da mente, e que devido à constituição da natureza produz em nós a sensação. Pela constituição original de nossa natureza, somos levados a acreditar, duplamente: que há uma causa permanente da sensação, projetada para ir em sua procura (a mente, através do nariz); e que a experiência nos conduz a depositar essa causa na rosa. Os nomes de todos os cheiros, gostos, sons, e também do frio e do calor, possuem a mesma ambigüidade em todas as línguas.¹ O que merece nossa atenção é que esses nomes são raramente usados na linguagem cotidiana para se referir às sensações. Quase sempre esses nomes denotam as qualidades externas que são indicadas pelas sensações.² A causa desta situação eu reputo como sendo que nossas sensações têm diferentes graus de força. Algumas delas são tão vívidas e imediatas, predominantes, enfim, que nos mergulham sem esforço no prazer, ou então no desconforto. Quando este é o caso, somos compelidos a prestar atenção à sensação ela mesma, e torná-la objeto do pensamento e do discurso. Damos-lhe um nome específico que nada indica a não ser a própria sensação. Nestes casos mais favoráveis, e somente nestes, admitimos de imediato que a coisa referenciada pelo nome está apenas na mente, e não no exterior. Estamos falando dos vários tipos de medos, mal-estares e graus da fome ou outros apetites, devidamente substantivados. Mas, onde as sensações não são tão interessantes a ponto de exigir de nossa parte que se tornem objeto imediato do pensar, nossa constituição nos leva a considerá-las o signo de algo externo, que está afinal sempre associado à sensação. Descobrindo o que a sensação indica, damo-lhe um nome: a sensação, esta sensação geral, sem um nome propício, que se torna acessória do sentido que ela evoca, e subsume sob seu nome. O nome (da sensação) pode até ser aplicado à sensação (sensação do cheiro), mas o mais comum é atribuí-lo diretamente ao objeto visível provocador da sensação. As sensações do cheiro, sabor, sons e cores são infinitamente mais importantes como signos ou indicadores do que como sensações em si, predominantes; como as palavras de um idioma, em que não dedicamos novos nomes provocados pelo som, mas nos atemos ao sentido da audição.³

¹ Isso seria um indício para ter fé na língua, não para culpar os filósofos de incompetência.

² O esforço para superar Hume parece interminável e incalculável, vendo-se como Reid se prolonga em circunlóquios relativamente simples (da nossa perspectiva) que são apenas sintomas de uma ingênua compreensão, até sua geração, de questões epistemológicas e fenomenológicas bem-resolvidas mais tarde.

³ Para uma exposição sem solavancos recomendo minha versão abreviada!

SEÇÃO 10ª. DURANTE A SENSAÇÃO A MENTE É ATIVA OU PASSIVA? [SEC210]

Uma dúvida remanesce: no ato de cheirar e no desempenho de outras sensações, é a mente passiva ou ativa? Essa parece uma pergunta sobre palavras, ou ao menos marginal. Mas se sua resposta nos levar mais acuradamente às operações da mente do que estamos acostumados a fazer, não será perda de tempo nem de esforços. Creio que a opinião dos filósofos contemporâneos seja que a sensação é passivamente sentida na mente. E isso é em tal grau verdadeiro que não podemos chegar às sensações por mera força de vontade; na outra mão, parece impossível evitar sentir a sensação quando o objeto é apresentado. Ao mesmo tempo ainda, parece verdadeiro que, na proporção em que a atenção está mais ou menos focada na sensação, ou totalmente dela alheada, a sensação é mais ou menos percebido e relembrada. Todos sabem que uma dor muito intensa pode ser aliviada por exemplo por um fator surpresa, ou muitas coisas que passam a ocupar a atividade mental. Engajados numa conversa, pode ser que nem escutemos as badaladas do relógio; pelo menos não lembramos de imediato termos escutado nada. O ruído e o tumulto de uma grande cidade comerciante não é sequer ouvido ou sentido por quem nela nasceu e a ela está acostumado todos os dias. Os turistas, entretanto, de locais mais remotos, logo se sentirão impactados. Se há alguma sensação que o cérebro possa sentir de maneira puramente passiva, não chegarei a tal extemo. Tudo o que posso dizer é que estamos cônscios de conceder em algum grau a atenção necessária a toda sensação de que recordamos, remota ou recente.

Sem dúvida que, onde o impulso é forte e incomum, é difícil distrair a atenção, como é difícil não acabar chorando sofrendo uma dor atroz, ou não tremer testemunhando uma rápida escalada do pavor. Mas quanto se pode atingir essa dissolução da atenção dependendo da firme resolução mental e do caráter da pessoa, e treinamente, não é fácil determinar. Embora os peripatéticos¹ não possuíssem razões para supor pólos passivos e ativos do intelecto, já que a atenção pode ser designada como uma to de vontade, eles chegaram, ao meu ver, o mais próximo da verdade nesta questão até hoje, ao defender que a mente sempre se desdobra simultaneamente em ativa e passiva diante da sensação. Os modernos julgam de outra forma. Sensação, imaginação, memória e juízo foram considerados pelo vulgo, em todas as idades, atos mentais. A maneira como são expressos em todas as línguas o evidencia. Quando a mente é muito exercida nestas atividades, dizemos, logicamente, que a mente se encontra bastante ativa; mas quando se trata apenas de impressões, como a filosofia idealista nos conduziria a concluir, diríamos, em tal caso, que a mente é demasiado passiva e recipiente: creio que nenhum homem atribuiria grande atividade ao papel sobre o qual escrevo, só porque ele recebe uma variedade de caracteres, manchas e impressões, sobre sua superfície.

¹ Seguidores de Aristóteles.

A relação da sensação do olfato com a memória e sua imaginação, e com a mente e o objeto que emana cheiro, é comum a todas as nossas sensações, e a todas as operações da mente: a relação que ela estabelece com a vontade é comum àquela com as faculdades do entendimento. E a relação estabelecida com essa qualidade ou virtude dos corpos que o olfato indica é comum com a relação estabelecida pelo paladar, pela audição, pela vista da cor, pelo calor e pelo frio: o que foi dito deste sentido pode ser sem problemas aplicado a vários de nossos sentidos, sem falar das operações mentais. Este é meu momento de escusa por me delongar no tópico do olfato.

CAPÍTULO 3. O PALADAR [SEC3]

Quase tudo quanto foi dito sobre o sentido do olfato pode ser replicado para o gosto e a audição, evitando assim uma tediosa repetição em nosso tratado.

É até provável que tudo quanto afeta o paladar é em algum grau solúvel na saliva. Não é concebível como qualquer coisa poderia entrar de imediato, e de seu próprio acordo, como é na realidade, nos poros da língua, palato e as fauces, a menos que houvesse alguma afinidade química ao licor com o qual esses poros estão sempre repletos. Seria realmente uma falta de economia da natureza se assim não fosse, pois se dá ao trabalho de produzir sempre essa espécie de solução nos seres dotados do paladar. E não investigamos até hoje os atributos da saliva o suficiente. Nos cães há uma grande capacidade médica e restaurativa na própria saliva. E não só os cães. Quanto a nós, é muito mais central a subserviência do órgão como um todo ao paladar e à digestão.

É de suma importância o órgão que guarda a entrada do canal alimentar, como foi dito que o nariz era o órgão perfeito para a entrada da respiração e dos cheiros, sendo este canal na verdade interconectado e útil para o caso da respiração bucal. Que tudo que entre no estômago de certa forma passa pelo escrutínio tanto do paladar quanto indiretamente pelo do olfato parece ser uma característica da evolução de nossa espécie, porque o que não é saudável provavelmente nos sabe mal e nos cheira mal. Os homens selvagens não têm sequer outra maneira de selecionar alimentos. O mesmo para os animais mais desenvolvidos. É muito provável aliás que o olfato e o paladar, sem ser viciados pela luxúria e os maus hábitos, nos ajudariam muito mais hoje do que são capazes de ajudar. Muitas vezes especiarias exóticas passam pelo nosso auto-controle, e enfrentamos problemas após o consumo. Isso se deve ao excessivo refino da arte da culinária, usando conhecimentos adquiridos da química e da farmácia para ludibriar nossos sentidos. Todos sabem que colocar pimenta numa comida pouco aprazível facilita sua ingestão. Isso demonstra que estamos vivendo de forma desnaturada na sociedade civilizada.

Podemos reconhecer a mudança no estado de corpos mais facilmente mediante estes dois sentidos que quaisquer outros. Imagine-se quanto há no mercado, nos restaurantes, na taverna, no apotecário e nos _chemist’s shops_ que reconhecemos como sendo aquilo que exibem etiquetado ou como sendo tal e tal coisa, justamente porque não podem nos enganar quanto à natureza da coisa? É impressionante também quão especializado pode se tornar o paladar, ou o olfato. Isso varia individualmente. Isaac Newton tentou distinguir a magnitude de partículas transparentes pela cor visível de seus corpos opacos:¹ e quem sabe que novas luzes a filosofia natural ainda poderá receber de qualidades secundárias, quando bem examinadas?

¹ Trecho que absolutamente não entendi. O que é de conhecimento comum é que Goethe corrigiu Newton no campo da teoria das cores.

Alguns gostos e cheiros estimulam os nervos e elevam o espírito. Mas essa elevação artificial é, pelas leis da natureza, seguida de uma depressão, que só o tempo cura, ou pela repetição do estímulo.¹ Pelo uso corriqueiro dessas coisas, criamos apetite por elas, o que muito lembra uma força natural.² É assim que a gente adquire o gosto pelo rapé, tabaco, licores fortes, láudano, etc.

¹ Sem querer, Reid resumiu o consumo de narcóticos!

² Não o estímulo artificial, mas a obtenção da excitação naturalmente.

A natureza parece industriosa em ter delimitado limites claros para prazeres e desprazeres compatíveis com estes nossos dois sentidos “inferiores” ou “mais vitais por assim dizer. Seus limites são particularmente estreitos. Não há cheiro incrivelmente desagradável que possamos tolerar, muito menos converter por hábito em algo agradável. Nem nada que seja agradável que não perca seu impacto com a assiduidade com que se nos é oferecido. E o prazer e o desprazer são automaticamente seguidos de seus contrários: a supressão do odor ou gosto desagradável causa alívio, etc. A divina alegoria de Sócrates pode ser aqui citada: embora contrários em sua natureza, Dor e Prazer, olhando cada qual um vetor oposto, Zeus atou-os de tal maneira para permanecerem juntos que aquele que se apossar de um(a), levará consigo o(a) outro(a).

Parece adequado dizer que um gosto não é menos diferente de outro gosto da mesma forma que a relação dos cheiros entre si. Eis uma questão: como cheiros vêm a constituir-se um genus, e os gostos outro? Qual é a distinção genérica entre ambos? Seria só a distinção do nariz e do palato realmente? Ou, mais abstratamente, não haveria algo nas sensações mesmas, algo sempre comum entre os aromas, algo sempre comum entre os gostos? Me parece que a resposta está mais para a última hipótese referida. A natureza disfarça detrás de uma simplicidade singela (nariz e boca, a grosso modo) uma multitude de complexidades sutis.

A missão do filósofo é ver a questão de forma mais abstrata. Um número de sensações, ou de qualquer coisa individualmente contável, que é perfeitamente simples e ‘puro’ (que não consideramos algo composto de outras duas unidades menores), parece irredutível aos genera e species. Indivíduos devem poder ter espaço para a individualidade e a diferenciação no mesmo gênero. Ao mesmo tempo, há os traços comuns que categorizam-no sem dúvida como membro de toda uma espécie. O mesmo, me aventuro a dizer, ocorre com species de um mesmo genus. Se não há aí uma entremescla de cheiros com gostos, deixarei para os metafísicos.

Fato é que as sensações provocadas por cheiros e gostos admitem tal infinidade de variantes ou modificações internas que nenhum idioma delas dá conta. Se um homem fosse avaliar 500 vinhos, dificilmente encontraria 2 exatamente idênticos em gosto. O mesmo para queijos, etc. Mas de 500 diferentes gostos de queijo e vinho, mal podemos diferenciar 20 com palavras, o que nos ajuda rudimentariamente a separar as sensações provocadas em nosso palato e descrevem, da melhor maneira que conseguimos, qual é o gosto, a alguém que não provou.

O doutor Nehemiah Grew, laborioso e judicioso naturalista, em discurso na Royal Society, 1675, se esforçou por demonstrar que existem pelo menos 16 gostos simples diferentes entre si, que ele enumerou. Quantos “gostos compósitos” a natureza não faria de dois, três, quatro ou mais desses gostos simples quando misturados? É preciso um cálculo matemático para apreender o quanto isso fala sobre a multiplicidade possível dos gostos. Além disso, todo gosto tem graus de intensidade. Muitos, outras variedades: em alguns artigos o gosto é mais rapidamente percebido, em outros essa sensação vem mais devagar. Às vezes a sensação perdura por mais tempo, em outros é mais passageira. Alguns gostos parecem ser ondulantes, cíclicos, vêm e vão; outros são constantes. As várias partes do órgão gustativo, os lábios, a ponta da língua, o fundo da língua, as fauces, a uvula, e a garganta, podem ser diferentemente afetadas por um gosto ou outro. Aromas, avaliados com o mesmo nível de detalhes, dariam o mesmo tanto que descrever.

CAPÍTULO 4. A AUDIÇÃO

SEÇÃO 1ª. A VARIEDADE DOS SONS. SEU LUGAR E DISTÂNCIA APRENDIDOS PELO COSTUME, SEM O USO DA RAZÃO [SEC41]

Os sons têm provavelmente mais variedade de modificações que gostos e odores; quando muito, variedade equivalente. Primeiro, os sons diferem em tom. O ouvido é capaz de perceber 400 ou 500 variações de tom no som, e provavelmente o mesmo número de graus de intensidade. Combinando apenas estes, numa estimativa modesta, temos pelo menos 20 mil sons simples, diferenciando-se por tom ou intensidade (força, volume). Isso se considerarmos os tons de forma pura, perfeita. Mas o tom perfeito só se propaga nas melhores condições espaciais. As ondas do tom precisam ser de igual duração e extensão, seguindo-se uma à outra em regularidade irretocável. Toda ondulação tem de ser feita do avanço e recolhimento de inumeráveis partículas da elasticidade do ar, seu meio propagador, com movimentos todos uniformes em direção, força e tempo. Então podemos facilmente conceber uma prodigiosa variedade de um mesmo tom, provenientes da simples irregularidade com que ele é propagado, ocasionado pela constituição, figura, situação ou maneira de atingir o corpo sonoro. O vento, por exemplo, modifica o tom, como objetos no caminho da onda. E de acordo com a própria constituição orgânica do órgão auditivo a impressão pode ser diferente.

A flauta, o violino, o oboé, a corneta francesa podem inclusive tocar o mesmo tom, facilmente distinguível, mas cada instrumento produz seu som. Vinte vozes humanas soando a mesma nota, e com a mesma força, ainda produzirão um som distinto. A mesma voz, retendo suas próprias idiossincrasias, é incrivelmente elástica, e não falo do canto: condições como saúde ou doença, juventude ou idade, magreza ou adiposidade, bom ou mau humor. As mesmas palavras pronunciadas por estrangeiros e nativos, ou melhor ainda, por pessoas de diferentes províncias de um mesmo povo, são facilmente distinguíveis.

Uma tão magnânima diferenciação nas sensações do cheiro, do gosto e do som não parece à toa. São todas sinais que usamos para conhecer e classificar as coisas a nossa volta. E nada mais previsível que a variedade dos signos devessem em algum grau corresponder à variedade das coisas por eles significadas.

Começamos a aprender a distinguir o lugar e a natureza das coisas pelo seu som. Tal som vem da rua, este da sala sobre mim; esta foi uma batida em minha porta; estes são passos de uma pessoa subindo as escadas; tudo isso parece ser fruto da experiência. Talvez aprendamos o que seja acima e abaixo, esquerda e direita, e a medir distâncias com mais competência, muito por conta das propriedades do som. Ninguém sabe ao nascer diferenciar um bumbo do badalar de um sino, ou do miado de um gato. A natureza é frugal em suas operações, e não gastaria energias excessivas nos concedendo toda esta habilidade inicialmente, se em poucos anos seremos capazes de assimilá-la.

A imaginação conecta todas essas impressões díspares com uma incrível rapidez. Posso entender que passa uma carruagem de imediato ao ouvi-la, sem raciocinar. Não há aqui premissas, inferências e conclusões lógicas. É efeito de um princípio inato de nossa constituição, compartilhado aliás com os animais mais desenvolvidos.

Sendo pelo ouvir que percebemos a harmonia e a melodia, e conseqüentemente pelo ouvir crônico que aprendemos a apreciar a arte da música; pareceria que entre perceber simples barulhos e chegar à apreciação de uma arte aí viria uma diferença tão grande que exigiria uma faculdade especial, o ouvido musical. Ocorre que há muitos graus de ouvidos musicais. Não devemos chamar os mais aptos a diferenciar tons de possuidores de uma faculdade exclusiva, que transcenda o simples sentido da audição, que é simplesmente mais ou menos acurada.

SEÇÃO 2ª. A LINGUAGEM NATURAL [SEC42]

Um dos propósitos mais nobres do som é indubitavelmente a linguagem. Sem esta última, a humanidade não existiria, por não poder se encontrar acima da animalidade. A linguagem costuma ser considerada puramente como invenção dos homens, que por natureza não seriam mais mudos que os próprios animais; e não obstante, graças a seu engenho e razão, mediante signos artificiais para se referir a pensamentos e propósitos, lograram estabelecer consensos. Mas a origem da língua merece ser investigada mais cuidadosamente, não só porque tal investigação é importante para o aperfeiçoamento da própria língua como porque, na atual matéria ela pode nos ajudar a desvendar alguns princípios primários da condição humana.

Por linguagem ou língua compreendo todos os signos que a humanidade utiliza a fim de se comunicar entre si: comunicar pensamentos e intenções, desejos e objetivos. Estes signos podem ser divididos em dois: aqueles sem sentido, a não ser o que é convencionalmente atrelado a ele (sentido arbitrário), i.e., signos artificiais; aqueles que, antes de qualquer consenso ou acordo, possuíam já um significado que todo homem é capaz de compreender a priori. A linguagem considerada artificialmente difere portanto da linguagem considerada naturalmente.¹

¹ Sabemos hoje que Reid se encontra completamente equivocado e que todos os signos lingüísticos são arbitrários.

Com base nessas predefinições, creio ser demonstrável que se a humanidade não tivesse uma língua natural jamais teria podido alcançar a linguagem artificial por conta própria (razão e engenho). Toda invenção supõe um acordo prévio para fixar sentidos a um número determinado de signos. Sendo assim, deve haver concórdia antes dos signos artificiais serem postos. Mas não pode haver concórdia sem ditos signos! Destarte, tem de haver uma língua natural prévia a toda língua artificial inventada.¹

¹ Discurso completamente tautológico e inaceitável.

Fosse a língua invenção humana tanto quanto o são a escrita e a imprensa¹ países inteiros serão silenciosos como as bestas. Aliás, mesmo tais bestas possuem certos sinais naturais por meio dos quais expressam seus próprios pensamentos, afetos e desejos,² e compreendem os de outros indivíduos. Um pinto, assim que sai do ovo, entende que alguns sons de sua mãe significam aqui há comida, já outros cuidado, perigo. Um cão ou um cavalo compreende, naturalmente, quando uma voz humana é-lhe amigável e quando é ameaçadora. Mas feras, tanto quanto sabemos, não possuem noção de contratos ou convenções, nem de obrigações morais. Onde a natureza negou essas noções, é impossível adquiri-las por arte, como se fôra possível a um homem cego adquirir a sensação das cores. Alguns animais possuem a sensibilidade da honra ou desgraça;³ ressentem-se e são gratos. Mas nenhum – tanto quanto sabemos – pode fazer uma promessa, colocar em jogo sua fé, porque sua constituição não permite que saibam o que é uma promessa ou no que consiste a fé. Se a humanidade não tivesse essas noções pela própria natureza, e sinais naturais para comunicá-las, pouco importaria nossa inteligência ou artimanha: não seríamos capazes de inventar a linguagem.

¹ Aqui o autor entra em contradição: a escrita é linguagem. Se a escrita é invenção humana, não há por que não considerar a oralidade invenção humana, cronologicamente anterior ou não.

² Palavras que não servem ao animal, i.e., não podem ser aplicadas ao reino animal.

³ Reid delira.

Os elementos dessa linguagem natural da humanidade, ou signos que expressam naturalmente nosso pensar, podem, penso, ser reduzidos a três tipos: modulações de voz, gestos e personalidades.¹ Mediante esse trio, dois selvagens ou então dois estranhos que não compreendem um o idioma do outro podem chegar a um entendimento. É possível perguntar, negar, afirmar, ameaçar, suplicar; traficar (comerciar), pactuar e fazer juramento de fé. Tudo isso está afiançado por relatos históricos indubitáveis.²

¹ Modulações de voz são parte de estudos mais amplos de acústica, e não necessariamente comportam palavras, portanto a acústica dos animais pode coexistir com a humana sem contradição com o fato de os animais serem incapazes da linguagem e de não haver “linguagem natural”. Gestos tampouco são linguagem nesse sentido, necessariamente. É necessário saber separar o que constitui cultura e o que é instintivo. Libras é uma linguagem; reflexos de espanto ou júbilo (do tipo cru, como após beber água ou comer estando sedento ou faminto), não. Sobre a inclusão da palavra feature, que escolhi traduzir por personalidade, mal tenho o que falar, tamanho o constrangimento da noção! Feature no sentido de feições seria ainda mais rústico, e seria o equivalente a dizer que qualquer animal usa a linguagem porque possui feições!

² Gostaria muito de saber quais!

Os signos artificiais aparecem apenas paulatinamente a fim de aperfeiçoar a linguagem e acompanhar o aumento da sabedoria do homem. As articulações da voz parecem, de todos os signos, os mais apropriados para a linguagem artificial.¹ Um homem que anda demais de carroça perde o uso de suas pernas; um que usasse apenas a parte artificial da linguagem atrofiaria sua parte natural. Os idiotas retêm, em proporção, muito mais dos elementos naturais que os cultivados, e isso por pura necessidade. É por isso que os povos ágrafos e animais também usam mais da natureza que da artificialidade. A força e a energia da linguagem são quase todas derivadas de suas condições naturais, não daquelas acrescidas pela civilização. Quão menos vigorosa e enérgica a língua, menos expressiva e persuasiva, e mais inútil. Escrever é muito menos persuasivo que ler, e ler é muito menos persuasivo que falar sem apenas repetir um livro; falar sem as modulações adequadas (naturais), sem força e sem variação, é frígido e parece ser expressar uma língua morta; mas mais expressiva ainda é a linguagem que, modulando a voz corretamente, e utilizando a força das cordas vocais, não se esquece do apoio dos olhos e músculos faciais. É aí, nesse sumo da perfeição natural, repleta de energia, que conseguimos aliar a ação à linguagem.

¹ Essa frase não faz sentido.

Onde a linguagem é natural ela será o desempenho (a ação, o exercício) não só do aparelho vocal e dos pulmões como de todos os músculos do corpo. Vide como os imbecis e os selvagens se contorcem, são mais expressivos, e podem aprender e ensinar coisas com mais facilidade.¹

¹ Argumento embaraçoso e ofensivo. Imagino que Reid pense que os italianos dominaram o mundo na Antiguidade porque possuíam mais expressividade lingüística – que pena para os europeus que os asiáticos falam mais com o corpo que eles! Nota-se a grande contradição: Reid precisa evocar os homens com intelecto prejudicado e os animais a fim de justificar a superioridade de um elemento cultural. Mas é lógico e “natural” pensar que Reid toma esse caminho, quando pensamos que ele combate o ceticismo filosófico com todas as forças, entendendo o ceticismo como o aumento do refino e incitador do divórcio entre natureza e razão.

Significar não é o mesmo que expressar. A parte artificial das línguas falam ao entendimento, como caracteres algébricos também o fazem, mas não às paixões, afeições e à vontades; esse é seu defeito.

Seria igualmente fácil demonstrar¹ que a elaborada arte do músico, do pintor, do ator, do orador, tanto quanto são capazes de expressão, embora exijam um gosto delicado, um bom julgamento e discernimento, e muito estudo e prática, nada são senão linguagens naturais.² Carregamos todas essas coisas conosco desde o sempre, mas as desaprendemos devido ao desuso de sua energia natural a utilizá-las em seu máximo potencial, restando apenas carapaças vazias.

¹ Até agora não houve demonstração de nada sobre a linguagem, apenas a exposição de uma tese com palavras (signos artificiais)!

² É o ápice da imbecilidade: chamar as artes (música, pintura, oratória) de linguagem natural!

Que sejam abolidos os usos de sons articulados e da escrita por um século, e todo homem será pintor, ator e orador. Não quero dizer com isso que tal expediente seja praticável.¹ Mesmo se fôra, creio que as desvantagens superariam as vantagens.² Significa que, como o homem é conduzido pela natureza e pela necessidade a estar sempre em comunhão com os outros homens, ele usará de todo expediente de que puder lançar mão a fim de ser compreendido. Quero dizer que essa compreensão jamais advirá do uso exclusivo da parte artificial da língua. Aquele que compreender perfeitamente o uso natural dos signos será o melhor juiz possível nas artes expressivas.

¹ Seria irônico, já que essa exortação foi feita num livro…

² Reid cai de repente em si.

CAPÍTULO 5. O TATO

SEÇÃO 1ª. O QUENTE E O FRIO [SEC51]

Os sentidos que até o presente consideramos são simples e uniformes, cada um exibindo só um tipo de sensação, indicando portanto apenas uma qualidade dos corpos. Pelo ouvido percebemos sons, e nada mais; pelo palato, gostos; e pelo nariz, odores. Essas qualidades são todas de uma mesma ordem, qualidades secundárias por assim dizer: pelo toque, não obstante, percebemos muito mais do que uma qualidade, e dos mais diferentes tipos. As principais, dir-se-ia, são o calor e o frio, a dureza e a flacidez, aridez e fluidez, figura, solidez, movimento e extensão. Consideremo-las em ordem.

Sobre o calor e o frio, ou o quente e o frio, ou o quente e o gelado, estas são também qualidades secundárias, da mesma ordem do cheiro, gosto ou som. O que foi dito do cheiro pode ser dito para ambos estes opostos por analogia. A palavra quente e a palavra frio têm cada uma dois significados distintos: algumas vezes representam sensações da mente, sem existência palpável, a não ser como abstração da mente senciente; mas com mais freqüência nos referimos às qualidades físicas da temperatura dos corpos, reguladas por leis naturais. Sentimos temperaturas mais elevadas ou mais baixas do que nossa própria pele. Estamos tão habituados a sentir estes extremos que é até difícil falar de tais coisas como sensações exteriores. E no entanto o calor e o frio existiriam sem que estivéssemos em contato com os corpos que assim qualificamos.

O quente e o frio são facilmente reconhecíveis, pois não podem ser nada diferente do que se entende por quente e frio por qualquer ser humano. Mas as qualidades nos corpos que chamamos de calor e frio são desconhecidas. São apenas concebidas por nós, sem que tenhamos idéia da causa. O senso comum impõe essa noção. O termômetro sempre terá uma medida, estando ali uma pessoa com tato ou não.

É trabalho dos filósofos investigar, via experimentação e indução, que calor ou frio há nos corpos. E se o calor é um elemento específico difundido na natureza, acumulado em especial nos corpos chamados quentes (que reúnem mais calor) e menos concentrado nos espaços que chamamos de frios (que reúnem menos calor). Ou então se o calor é alguma espécie de vibração das partes de um corpo aquecido. Ou – é ainda papel do filósofo – se preocupar em responder se quente e frio são qualidades opostas, como as sensações nos parecem ser, ou se só o calor é uma qualidade, e o frio seu negativo. Essas questões são da província da filosofia. O senso comum nada diz a favor ou contra nenhum parecer.¹

¹ Trecho extremamente ingênuo e redundante da obra, e ao mesmo tempo revelando uma confusão epistemológica inaceitável para leitores de nosso período: esse não é o papel do filósofo, é o papel do físico. Os últimos filósofos que realmente trataram do conceito de calor da forma como aqui se explicita foram os pré-socráticos! Acontece que na Inglaterra de Reid confundiam alhos com bugalhos: para eles Bacon era um filósofo, pois estudava aspectos da física. Ora, Bacon era filósofo, mas foi principalmente um cientista, e seus resultados nas ciências naturais não importam à metafísica em sentido nobre.

Mas qualquer que seja a natureza dessa qualidade dos corpos que chamamos de calor, o que com certeza sabemos é que esse tal calor, abstrato, não pode nunca coincidir com a sensação do quente. Sensação e qualidade nunca se identificam. Seria o mesmo dizer que a dor da doença da gota equivale a um quadrado ou um triângulo. O homem mediano sabe que a sensação do calor não está dentro do fogo. Ele só imagina ou concebe que há alguma propriedade do fogo que faz com que ele e outros seres senciente sintam calor ao se aproximarem. E no entanto como a linguagem mesmo evidencia, calor no sentido metafísico e calor no sentido cotidiano são usados indistintamente. Mas quente nunca poderia ser a qualidade metafísica, sendo apenas um grau diferente do frio.¹

¹ Não foi minha intenção fazer um trocadilho, ausente no original, com “grau de temperatura”, embora funcione na frase. Falo de grau no sentido de gradação, qualidades aproximadas que podem ser medidas, portanto não consistindo em qualidades diferentes uma da outra (o que por si só, usando o senso comum, já elimina o que Reid diz acima que seria papel do filósofo investigar: se frio e quente são duas qualidades opostas ou não; não há controvérsia a esse respeito, isso é uma infantilidade).

SEÇÃO 2ª. O DURO E O FLÁCIDO [SEC52]

Consideremos agora a dureza e a maciez. Estão são qualidades dos corpos que podemos sentir com convicção.

Quando as partes de um corpo aderem tão firmemente que não podem ser facilmente modificadas em seu aspecto, chamamos o corpo de duro; quando essas partes são facilmente movíveis, macio ou mole ou flácido. Toda a humanidade concorda facilmente com essas premissas. São sensações diferentes de quaisquer outras sensações. Eram qualidades antes de serem percebidas pelo toque, e persistem depois de cessar o contato.

Algo nos comunica, no nosso sentido do tato, que um corpo é mais ou menos duro, mais ou menos flácido. Essa sensação de dureza ou rigidez é facilmente evocada ao se pressionar uma mão, p.ex., contra uma mesa, mesmo abstraindo-se do que a mesa é feita. Mas uma coisa é a sensação e outra prestar bastante atenção na sensação e refletir sobre ela. A primeira se produz com a maior das facilidades; a última, até determinar-se, p.ex., um coeficiente de rigidez, pode vir a ser sumamente complicada.

Estamos tão habituados a usar a sensação como um signo, e dele passar imediatamente ao significado de dureza, que parece até que o conceito nunca foi objeto do pensar, seja do vulgo, seja dos filósofos.¹ Não existe um nome diferente (da sensação) em nenhuma língua. E não há sensação mais distinta ou freqüente! Mas é raro passá-lo em revista durante toda a vida.

Há casos mais extremos: quando a dureza se faz sentir de modo violento, causando dor; então a natureza chama o indivíduo para o fenômeno, mas consideramo-lo ‘mera sensação’, atributo do ser senciente. Se um homem choca sua cabeça fortemente contra um pilar, tanto se lhe dá se é uma dureza provocada pela pedra ou por outra matéria: só o que lhe importa é a dor suscitada.

Mas o mesmo homem, roçando delicadamente seu rosto contra o pilar, poderá se concentrar em ‘sentir a pedra’. Ele não sentirá a dor mental, mas a textura na pele. Não são sensações em ambos os casos? Mas isto é a natureza se comunicando por símbolos.² …³

¹ Reid não cansa de exagerar.

² Péssima maneira de se expressar!

³ Devido à banalidade do conteúdo no restante do parágrafo (e outros parágrafos, ainda), decidi omitir por completo uma tradução.

Não deveríamos concluir (dada a duplicidade da palavra rigidez) que o conhecimento das faculdades humanas se encontra ainda na infância?¹

¹ O mesmo argumento é aduzido sempre, à exaustão. E daí que a língua só tem uma palavra para ambos – inerentemente, isso não significa que ‘os filósofos’ não compreendem o conceito de rigidez – apenas que não é útil inventar uma palavra para ele, pois o conceito de rigidez é único, tanto quanto a sensação da rigidez! Infelizmente o livro se torna imensamente previsível, pois Reid, i.e., a mente de Reid, é fácil de ler, interpretar e adivinhar em suas intenções.

Quando alguém aprende uma língua, se concentra no som. Quando alguém já domina uma língua, concentra-se diretamente no significado do que é expresso. Se é assim, devemos nos tornar novamente crianças se queremos ser filósofos.

…

Acreditamos no conceito de dureza, e isso com base na sensação de dureza. Mas como se deu esse salto? Mas é uma idéia de sensação ou reflexão? Não podemos concordar com nenhum dos dois preliminarmente. É uma sensação sem semelhança com qualquer outra sensação. Então, a origem dessa idéia de dureza, uma das mais distintas que nós temas, não deve ser achada em todos os nossos circuitos nervosos.

Mas como então chegamos ao conceito de dureza? A qualidade do corpo precisa existir para que haja uma sensação que lhe corresponda. Mesmo o autor do Tratado da Natureza Humana, em que pese não haver razão para sua crença, e haver muitos argumentos contra ela, não pôde defini-la a contento em seus momentos mais especulativos e solitários.¹

¹ Ou eu “cansei” do autor ou ele perdeu o fio de raciocínio e já não consegue desenvolver qualquer coisa apreciável ou digna de tradução, daí as reticências que seguem.

…

SEÇÃO III. Dos signos naturais

Como com os signos artificiais, os da linguagem, por exemplo, em que não há verossimilhança necessária entre o signo e a coisa significada, com os signos naturais sucede que não há qualquer conexão necessária entre estes e a natureza das coisas. A palavra ouro nada tem de parecido com a substância ouro. Só se evoca o que se evoca com a palavra ouro pela força do hábito. Dessa forma é que uma sensação do toque sugere dureza, embora não haja semelhança entre a dureza, tanto quanto podemos senti-la, conceito, e dureza sensação.¹ … O que é tudo que sabemos de mecânica, astronomia e ótica, senão conexões estabelecidas pela natureza e descobertas mediante a experiência ou a observação, e suas conseqüências dedutíveis? Todo nosso conhecimento em agricultura, jardinagem, química e medicina está erigido sobre a mesma fundação. … O que chamamos de causa devia ser chamado de signos naturais, e o que chamamos de efeitos, de coisas significadas. As causas não têm eficiência ou causalidade, tanto quanto podemos saber. Tudo o que podemos afirmar é que a natureza estabeleceu uma constante conjunção entre as causas e as coisas chamadas de efeitos das causas. E deu à condição humana a disposição de observar essas conexões.

¹ O autor estabelece o inconcebível. Que uma pedra seja dura é coisa bem diferente de ouro ou gold designar um metal ou elemento químico! A dureza certamente não poderá ser encontrada na água… Hábito milenar arredio algum mudaria essa verdade elementar!

…

… Destarte, … a dureza deve ser considerada como um princípio original da natureza humana,¹ até que achemos um outro princípio geral que venha a explicá-lo.

¹ Tal qual uma sensação?!?

SEÇÃO IV. Da dureza e outras qualidades primárias

…¹ Se qualquer homem dissesse que a dureza dos corpos é uma dada vibração de outras partes, ou que é um dado eflúvio emitido pelos corpos que afeta nosso toque na maneira como devemos sentir, tal hipótese chocaria o senso comum? sim, porque sabemos que o corpo é duro uma vez que as partes do corpo aderem fortemente, não devido à emissão de eflúvio ou porque vibre.

¹ Primeiro Reid compara a dureza às cores e ao calor, o que para nós, em nosso século, torna o fim do parágrafo risível, uma vez que cores e calor são de fato ondas de energia.

…

SEÇÃO V. Da extensão

Doravante vou apenas destacar, em inglês, o de importância.

“The theory of ideas, like the Trojan horse, had a specious appearance both of innocence and beauty; but if those philosophers had known that it carried in its belly death and destruction to all science and common sense, they would not have broken down their walls to give it admittance.”

[ARQUIVO] CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS — OU COMO FILOSOFAR A MARTELADAS

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

17: filósofo, o animal-deus

21: sobre as mulheres insinuantes, em vestes tropicais para climas frios. Dormir nu, ao sereno: tem-se de estar serenado.

22: “Quando a mulher possui virtudes masculinas, não há quem resista a ela; quando não possui virtudes masculinas, é ela que não resiste.”

23-4: os intrigantes 4 casos de consciência. Sobre o apartamento e a misantropia. Como somos sui generis.

29: da feiúra de Sócrates

36: “monótono-teísmo”

39: “Temo que jamais nos livraremos de Deus, porquanto acreditamos ainda na gramática…”

41-2: espécie de resumo da ópera (cronologia das obras de N.). Meio-dia.

45: o problema do aniquilamento

46: nas entrelinhas: o que é perfeito quer…

50: o problema do “homem mais forte do mundo” que morreu centenário, agora entendido sob o prisma nutricional correto: ele recomendava que se comessem vegetais para se viver longamente; porém ele comia vegetais unicamente porque seu metabolismo era mais lento. Suicídio intelectual em nossa época: dieta pobre em proteínas. Ver citação abaixo.

58: “somos um pedaço de destino.”

60: o “animal louro”

61: “Como o Novo Testamento é pobre ao lado do Manu, como cheira mal!”

66: sempre o bordão “A Alemanha, a Alemanha acima de tudo.”; o problema dos jovens filósofos beberrões. Strauss entre eles.

71: a importância da digestão dos pensamentos (sozinho e em grupo)

76: muitas escritoras que utilizavam pseudônimos masculinos

81: músculos e música

84: a astúcia como artifício do fraco; a diferença entre o psicólogo e o político.

93: receita de Júlio César para o corpo: “grandes caminhadas, estilo de vida o mais simples possível, permanência ininterrupta ao ar livre [contradiz o preceito nietzschiano das ‘grandes galerias ao abrigo do sol e da chuva’], fadigas contínuas.”

94: quando o “ideal” é o real

95: as farinhas do mesmo saco sacristão

97: saber morrer

99: crítica a suas minguadas resenhas em jornais

103: incompreensível fé na Mãe-Rússia!

109: “Dostoievski, o único psicólogo, diga-se de passagem, de quem aprendi alguma coisa.”

117: palestra “no antiquário” (complemento a Ecce Homo): Salústio, Horácio, Fontenelle, Tucídides.

118: de como o “ser grego” está absolutamente fora da meta (impossível ser clássico na modernidade…). Romanos: os perfeitos intermediários entre as duas culturas. Extrema dualidade em relação a Platão.


O livro das frases mais célebres.

“O que não me faz morrer me torna mais forte.”

“Sem música a vida seria um erro”

“com a dialética, a plebe chega ao alto”

“Um sábio de nossos [e fala de um tempo que hoje soa ainda clássico, pasmacento] dias, com seu consumo de força nervosa, se fosse submetido ao regime de Cornaro, arruinaria sua saúde completamente.” Diria que até os genuínos Cornaros morrem cedo na era do fast food.

“Toda educação superior não pertence senão às exceções: é preciso ser privilegiado para ter direito a um privilégio tão superior. Todas as coisas grandes e belas não podem jamais ser um bem comum: pulchrum est paucorum hominum (o belo é de poucos homens). O que é que ocasiona o rebaixamento da cultura alemã? O fato da ‘educação superior’ não ser mais um privilégio—o democratismo da ‘cultura’ tornada obrigatória, comum.”

“Que não se cometa a infantilidade de me objetar Rafael ou qualquer cristão homeopático do século XIX. Rafael dizia sim, Rafael criava a afirmação, logo Rafael não era um cristão…”

“Não temos em mãos um meio que possa nos impedir de nascer: mas podemos reparar essa falta—pois às vezes é uma falta. O fato de suprimir-se é o mais estimável de todos os atos: quase dá direito a viver…”

“Meu conceito de gênio (…) histórica e fisiologicamente, sua condição primeira é sempre a longa espera de sua vinda, uma preparação, um arqueamento sobre si mesmo—isto é, que durante muito tempo não se tenha produzido nenhuma explosão. Quando a tensão na massa se tornou muito grande, a mais fortuita irritação basta para recorrer no mundo ao ‘gênio’, à ‘ação’, ao grande destino. Que importam então o meio, a época, o ‘espírito do século’, a ‘opinião pública’! (…) a esterilidade os segue passo a passo. O grande homem é um final; a grande época, o Renascimento, por exemplo, é um final. (…) Esse é o agradecimento da humanidade: entende seus benfeitores em sentido contrário [como tiranos da moral, déspotas de si mesmos, quando tudo o que fazem é involuntário].”

“Aproximam-se tempos—posso assegurar—em que o sacerdote será considerado como o ser mais baixo, mais mentiroso e mais indecente, como nosso chandala (…) Catilina—a forma preexistente de todo César.” Precisamos nós, os imoralistas, odiar o mundo antes de perdoá-lo.

“O progresso na minha opinião—Também eu falo de um ‘retorno à natureza’, [vis à vis Rousseau e Goethe], embora não se trate propriamente de um retorno para trás, mas uma caminhada para frente e para o alto, para a natureza sublime, livre e mesmo terrível, que brinca, que tem o direito de brincar com os grandes destinos. (…) Napoleão foi um exemplo desse ‘retorno à natureza’ como o entendo (…) Mas Rousseau (…) Esse aborto que acampou no umbral dos nossos tempos, também ele queria o ‘retorno à natureza’ – (…) aonde queria realmente chegar? – Odeio ainda Rousseau na revolução que é a expressão histórica desse ser de duas caras, idealista e canalha. (…) Só conheço um que a sentiu como deveria ser sentida, com aversão—Goethe…”

“seria desconhecer os grandes homens se estes forem considerados sob a perspectiva miserável de uma utilidade pública.”

“meu orgulho é dizer em dez frases o que qualquer outro diz num volume—o que outro não diz num volume…” “Ofereci à humanidade o livro mais profundo que ela possui, meu Zaratustra”


Anotações de cunho pessoal:

Vulgar Display of Power seria uma bela denominação para as coisas do mundo.

12 de julho de 2011