[ARQUIVO] PENSAMENTOS PASCALIANOS

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

“Dá-se hoje o nome de abismo de Pascal à dificuldade que certos problemas sociais ou morais oferecem em sua elucidação.”

Cromwell teria morrido por causa de um grão-de-areia em sua uretra.

Niilismo comendo pelas beiradas!

“Dediquem a esta leitura algumas das horas que tão inutilmente empregam fora: se alguma aversão experimentarem, talvez reconheçam ainda assim alguma coisa ou, pelo menos, não perderão muito.”

“As outras religiões, como as pagãs, são mais populares, porque se exteriorizam: não são, porém, para as pessoas hábeis.”

“Nenhuma outra religião pode, pois, agradar aos que odeiam a si mesmos e que procuram um ser verdadeiramente amável.”

“Quando se lê depressa ou devagar demais, não se entende nada.”

“Se considerarmos a nossa obra imediatamente depois de a termos executado, ainda somos bastante prevenidos; se muito tempo depois, não a entendemos mais.”

“Conhecemo-nos tão pouco que muitos pensam morrer quando estão passando bem; e muitos parecem passar bem quando estão próximos da morte.”

“Ora, em que pensa o mundo? (…) em dançar, em tocar alaúde, em cantar, em fazer versos, em correr o anel (…) em fazer-se rei”

“Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado.”

“toda a infelicidade dos homens provêm de uma só coisa, que é não saberem ficar em repouso num quarto.”

“Que quimera é então o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que motivo de contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, imbecil verme da Terra, depositário do verdadeiro, cloaca de incerteza e de erro, glória e escória do universo.”

Para Pascal, subsiste-se ora sendo pirroniano (estóico) ora sendo dogmatista.

“Por que me matais? Como! Não ficais do outro lado da água? Meu amigo, se ficásseis deste lado, eu seria um assassino, seria injusto matar-vos da mesma maneira; mas, desde que ficais do outro lado, sou um bravo, e isso é justo.” Sobre a divisão em nações.

“É preciso ter um ponto fixo para julgar. O porto julga os que estão no barco; mas, onde tomaremos um porto na moral?”

P.sacal

“Não mostramos nossa grandeza ficando numa extremidade, mas tocando as duas ao mesmo tempo e enchendo todo o intervalo.” “por mais elevados que estejam, unem-se aos menores dos homens por algum lugar.”

“Que tolo projeto teve Montaigne de se pintar!”

“César era muito velho, parece-me, para ir divertir-se em conquistar o mundo. Esse divertimento ficava bem em Alexandre: era um rapaz difícil de conter; mas César devia ser mais maduro.”

“Querei que se fale bem de vós? Não o faleis.”

Na segunda metade de seu trabalho, é um imoralista!

“Dois rostos semelhantes, dos quais nenhum faz rir em particular, fazem rir juntos pela sua semelhança.”

SIMPLESMENTE A ENUNCIAÇÃO DO ETERNO RETORNO (115, LXII): “A natureza recomeça sempre as mesmas coisas, os anos, os dias, as horas; os espaços também, e os números estão nos dois sentidos em seguida uns dos outros. Assim, faz-se uma espécie de infinito eterno. Não é que haja nada de tudo isso que seja infinito e eterno; mas, esses seres terminados se multiplicam infinitamente. Assim, parece-me, só o número que os multiplica é infinito.”

E A LEI DO TRÁGICO: “Tudo o que se aperfeiçoa por progresso perece também por progresso.”

“é preciso dizer como os outros, mas não pensar como eles.”

[ARQUIVO] A ORIGEM DA FAMÍLIA, DA PROPRIEDADE E DO ESTADO

 

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

“se a estrita monogamia é o ápice da virtude, então a palma deve ser dada à tênia solitária que, em cada um dos seus 50 a 200 anéis, possui um aparelho sexual masculino e feminino completo, e passa a vida inteira coabitando consigo mesma em cada um desses anéis reprodutores.”

“a forma de casamento em que grupos inteiros de homens e grupos inteiros de mulheres pertencem-se mutuamente, deixando bem pouca margem para os ciúmes.”

“antes da invenção do incesto” “até o nascimento de um pimpolho” “família punaluana” matrimônio sindiásmico” Saturnais ocasionais em que o incesto voltava à tona.

“as mulheres babilônicas estavam obrigadas a entregar-se uma vez por ano, no templo de Milita” “disfarces religiosos” “Não tem pai, é filha da fortuna” “bus primae noctis” “direito da primeira noite” Só em 1486 esse direito do senhor feudal sobre a esposa do vassalo é abolido em Castela.

ORIGEM ROMANA: “Famulus quer dizer escravo doméstico e família é o conjunto dos escravos pertencentes a um mesmo homem.” “Quanto à vida em família no seio de tais comunidades familiares, deve-se ressaltar que, pelo menos na Rússia, os donos da casa têm fama de abusar muito de sua situação no que concerne às mulheres mais jovens da comunidade, principalmente suas noras, com as quais muitas vezes formam um harém; as canções populares russas são bastante eloqüentes a respeito.”

O Código de Napoleão sanciona a infidelidade masculina, desde que ela se realize fora de casa.

“Aristófanes fala de cães molossos para espantar adúlteros”

ENGELS NUNCA ENTENDEU O ESPÍRITO GREGO: “o envilecimento das mulheres refluiu sobre os próprios homens e também os envilece, levando-os às repugnantes práticas da pederastia e a desonrarem [!] seus deuses e a si próprios, pelo mito de Ganimedes.”

“o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia”

Atenas: prostituição patrocinada pela comunidade/polis. Em Esparta as mulheres eram mais consideradas, mas o Ocidente é tipicamente “ateniense”.

“contra o adultério, como contra a morte, não há remédio que valha”

“guardar as aparências, o que está muito de acordo com a hipocrisia protestante”

Esse “aborrecimento mortal, sofrido em comum, e que se chama felicidade doméstica.”

“na novela alemã, o jovem consegue a moça; na novela francesa, o marido ganha um par de cornos.” “o clima de aborrecimento da novela alemã inspira aos leitores da burguesia francesa o mesmo horror que a ‘imoralidade’ da novela francesa inspira ao filisteu alemão”

O direito de deserdar a prole está ligado a poder ou não escolher o casamento para os filhos (se não tem um, vai precisar do outro).

“Na família, o homem é o burguês e a mulher representa o proletário.”


ELITISMO & SUBSERVIÊNCIA

Após meditar bastante acerca das minhas últimas leituras “feministas”, cheguei à conclusão de que para que eu viesse a pensar como penso, não adiantava mesmo ser de qualquer outro modo, totalmente rebaixado ou totalmente superior no plano social: classe média, “deficiente”, mas homem branco; bem como se eu fosse apenas mulher ou negro poderia me tornar um “Thomas”. Mas ser filho dum barão midiático ou ter facilidade para ganhar dinheiro me acomodariam cegamente. Torna-se uma tônica, uma aceitação, para mim, do status quo burguês atual ser homem, e ver que nasci e sou legitimamente superior à mulher. Devo suportar a “injustiça” como já faço ao reconhecer a “justiça” que me foi brindada, “ao acaso”.


* * *

“em 90% dos casos, o noivado prolongado é uma verdadeira escola preparatória para a infidelidade conjugal.”

“Antes da Idade Média não se pode dizer que existisse amor sexual individual.”

“no poema dos Nibelungos, Krimhilda, embora esteja secretamente apaixonada por Siegfried e este por ela, quando Gunther lhe anuncia que a prometeu a um cavaleiro cujo nome não diz, responde apenas: ‘Não me precisais suplicar, farei aquilo que me ordenais, estou disposta, senhor, de boa-vontade, a unir-me àquele que me dais por marido’.” Engels não deixa de ser extremamente ingênuo!

35: mais capítulos da birra Marx-Gladstone!

Gordas citações do melhor amigo.

Engels, não sei se desautorizando Marx nos Manuscritos, parece fazer o Homo oeconomicus nascer perto de Homero “A autoridade da aristocracia vai aumentando cada vez mais, até chegar a se tornar insuportável (…) Os principais meios para estrangular a liberdade comum foram o dinheiro e a usura [!].” “o sistema monetário que se desenvolvia penetrou, como um ácido corrosivo, na vida tradicional das antigas comunidades agrícolas” “os atenienses já tinham inventado a hipoteca” “o camponês devedor tinha que vender seus filhos nos mercados de escravos estrangeiros para satisfazer por completo o seu credor.” “Essa foi a aurora da formosa civilização do povo ateniense.” “Semelhante revolução…” “Os atenienses (…) deviam aprender (…) como (…) o produto vem a dominar o produtor.” “divisão do trabalho [!!!]” “o Estado se desenvolvia sem ser notado”—grosseirão!

Protecionistas militarizados, encarnação do mal! Ó!

“a reforma de Sólon” 594 a.C.

“Não foi a democracia que arruinou Atenas, como pretendem os lacaios pedantes dos monarcas do professorado europeu, e sim a escravidão—que proscrevia o trabalho do cidadão livre.”

DIREITO CELTA: “Os motivos pelos quais a mulher podia divorciar-se sem prejuízo dos seus direitos eram muitos e diversos: bastava que o marido tivesse mau hálito.”

Diz que na Idade Antiga a cidade dominava o campo. Talvez uma cidade rural!

Napoleão e Bismarck nivelados: joguetes e uma balança entre oprimidos e opressores.


GLOSSÁRIO:

hetera: puta

[ARQUIVO] NIETZSCHE COMO PENSADOR POLÍTICO — Ansell-Pearson

Originalmente publicado em 22 de abril de 2012

“Há grandes perigos na leitura de Nietzsche. O leitor pode prejudicar seriamente sua própria saúde no decorrer do processo.” “Erich Heller escreveu que o exemplo de Nietzsche é tão único e aterrorizante que não pode ser imitado; e, todavia, é de tal importância que tampouco pode ser ignorado.”

“Apesar dos excessos retóricos dessa obra”

“os soldados alemães [da I Guerra] iam para o front, ao que se diz, com a Bíblia em um bolso da capa e Assim Falou Zaratustra no outro”

32-3: explicação de aforismo que tanto me intrigara

67: o destrambelhado Deleuze

A posteriori, excelente discussão sobre o Übermensch.

O cerne do livro (p. 88 e em muitas outras): “Seu pensamento político não reconhece que seu princípio aristocrático de governo é afetado pela estrutura moderna da questão da legitimidade.”

“O poeta é uma inspiração, mas freqüentemente infantil, enquanto o homem moral é amadurecido, mas muitas vezes enfadonho.”

“Nietzsche detecta uma ‘estupidez masculina’ no movimento das mulheres” “a garra de tigre sob a luva” “Ela é oca como um útero.”—nota 16—autor desconhecido (Nietzsche, Derrida ou uma mulher).

“Nietzsche quer atingir o impossível e desejar para trás a fim de dar a luz a si mesmo.”

“Sloterdijk levanta a questão crucial quando pergunta: ‘não é esse autonascimento (…) apenas o exercício da evasão original de uma origem intolerável?’”

“A senhora européia é uma criatura que absolutamente não deve existir.” Schopenhauer

“o primeiro niilista perfeito (…) não para ser imitado, o que seria loucura”

[ARQUIVO] CATECISMO POSITIVISTA — Comte (da coleção Os Pensadores)

Originalmente publicado em 21 de abril de 2012

“Os demolidores incompletos, Voltaire e Rousseau”

“meu precursor essencial, o eminente Condorcet.”

O POSITIVISMO COMO EXECUÇÃO OU EXTENSÃO DO QUE ENCETARAM HUME E KANT: “verdadeira filosofia moderna, Bacon, Descartes e Leibniz.”

“príncipe eterno dos verdadeiros pensadores, o incomparável Aristóteles.”

“Há mais de 5 séculos que o islamismo desistiu de dominar o Ocidente.”

Comte adotou uma de suas empregadas domésticas.

“a profunda inópia que sinto no meio de minhas melhores efusões cotidianas”

“25 de Carlos Magno de 64”—jeito estranho de cunhar datas!

Obras recomendadas de Auguste Comte: Homero; Sófocles (obs: recomenda que não leiam edições comentadas); Píndaro; Dáfinis (?); Virgílio “completo”; ao passo que Horácio, apenas a seleção do melhor; Ovídio; DANTE; Petrarca; Dom Quixote; Corneille; Molière completo; as fábulas de La Fontaine; escolhidos de Shakespeare; Milton; Robinson Crusoe; “as 7 obras-primas de Walter Scott”; escolhidas de Byron – (menos!) Don Juan; e Goethe; 1001 Noites; Carnot, pré-darwiniano (ah, coitado!); Buffon; Cook—As Viagens; Tácito completo; “A Bíblia completa. O Alcorão completo”; Pascal; até agora só uma mulher entre os citados (quanta equanimidade); De Maistre; ele mesmo, É CLARO!

“As mulheres e os proletários, que esta exposição tem principalmente em vista, não podem nem devem converter-se em doutores, e nem eles o querem.”

“Ninguém hesitará, então, em considerar tais cavalos, cães, bois, etc., como mais estimáveis que certos homens.”

Privar o sentido da visão para melhor contemplar os objetos de nossos pensamentos…

“Ninguém, segundo Dante, poderá nunca representar-se a sua suave Beatriz senão na idade de 25 anos.”

Agradeço a torrente do Devir por não ter modos afetados como o Farsante Rei dos Mantras Jr., que apenas reitera de forma autômata aquilo que não pode cumprir.

Pedir pouco é uma coisa que aprendi com resignação durante o purgatório universitário. “Acho que não quero nada, minha moça” E sem que percebessem… Quem sabe a oportunidade de amar de novo, de perdoar, de não perdoar (tudo misturado, se bem que discriminado), o “melhor escrever”, mas é claro! Ter uma ou duas febres a menos (!), um mês a mais (30 dias são muita coisa!)… Um fim digno. E o sono. Não tremer, subestimar mais os humanos enquanto estou com eles, olhar nos olhos, quem sabe até praticar algum tipo de arte-marcial ou dança que me locuplete…

“cada positivista deve ser, a certos respeitos, uma espécie de poeta, ao menos para seu culto íntimo.”

“todos se terão familiarizado com o canto, base essencial da música, e com o desenho, fonte geral da tríplice arte da forma, pintada, esculturada ou construída.”

Pelo menos não é um Platão!

“a cultura teórica deve permanecer indivisível.”

“Aristóteles teria sido um grande poeta e Dante um filósofo eminente.”

“Desde Homero até Walter Scott, não existem no Ocidente senão 13 poetas verdadeiramente grandes, 2 antigos, 11 modernos, incluindo mesmo neste número 3 pensadores.” (o outro antigo seria Ésquilo)

“a duração total de nosso culto cotidiano alcança somente duas horas” (!)

“viuvez eterna”, vinda de um cara que se casou de novo poucos anos depois da “tragédia”…

Homens devem ser 7 anos mais velhos que as mulheres.

Fã da cor verde.

A sociologia ou física social não é rainha soberana, perdendo para a moral.

“Quando a palavra Antropologia for mais e mais bem-usada, será preferível para este destino coletivo, pois que significa literalmente estudo do homem. Dever-se-á, porém, empregar por muito tempo o nome sociologia, a fim de caracterizar mais a principal superioridade do novo regime intelectual, que consiste sobretudo na introdução enciclopédica do ponto de vista social, essencialmente alheio à antiga síntese.”

482: o monstro indesejado chamado Estado

“Daí resultam os sonhos, estados passageiros de alienação mental” “Pode-se, pois, esperar que a teoria cerebral conduza finalmente a bem interpretar os sonhos, e mesmo a modifica-los, segundo o voto prematuro de toda a Antiguidade.”

“Sabeis, enfim, que uma ternura profunda constitui sempre o melhor preservativo contra a libertinagem.”

CURIOSA INVERSÃO: “Embora o casamento fique facultativo para os cidadãos ordinários, ele torna-se obrigatório para os padres, cujo ofício não pode ser dignamente preenchido sem a influência contínua, aliás objetiva ou subjetiva, da mulher sobre o homem.”

Contra os suicidas. E o álcool, obviamente.

“Quando a fé positiva houver prevalecido, chegará o tempo de compor um novo Catecismo mais análogo ao dos católicos” HAHA

“casamento (…) abstraído de toda sensualidade.”

“disciplinando o impulso carnal”

“a mais perfeita das amizades”

“desenvolver a ternura”

Eugenia, difícil saber por que você não ganhou essa guerra! “Na civilização moderna, em que todos os nascimentos são igualmente protegidos, esses tristes resultados multiplicam-se mais do que entre os antigos, que destruíam a maior parte dos descendentes débeis.”

Divórcio: o mesmo que Morus (escravidão + pena capital).

“Antes do fim do séc. XIX, a República Francesa achar-se-á livremente decomposta em 17 repúblicas independentes, formadas cada uma de 5 departamentos atuais.”

“Portugal e Irlanda (…) formarão, no começo do século seguinte, as maiores repúblicas do Ocidente.”

Clotilde, por compaixão, fingia acreditar em cada uma das idéias abiloladas desse homem! Não, não! Pensando bem, foi Comte que troçou de todos nós!

564: a fantástica dissolvição da classe média!

“2 mil banqueiros, 100 mil comerciantes, 200 mil fabricantes e 400 mil agricultores parecem-me fornecer chefes industriais em número suficiente para os 120 milhões de habitantes que compõem a população ocidental.”

“essas satisfações domésticas, nas quais reside sobretudo nossa verdadeira felicidade.”

“Quanto ao domicílio, vós sabeis que a maioria dos proletários está antes acampada do que alojada em nossas cidades anárquicas.”

“O porteiro (concierge) representa o proprietário e serve de laço entre os diferentes inquilinos.”

“Confundindo as palavras família e casa na palavra ménage…”

“Todos sabem, aliás, da tendência universal a não se trabalhar no lunedia [a segunda-feira comteana].”

O milagre teórico onipresente do ensino público superior ao privado!

“O Sumo Sacerdote da Humanidade constituirá, melhor do que nenhum papa da Idade Média, o único chefe verdadeiramente ocidental.”

Considera a conversão turca mais difícil que a russa.

“A poligamia é hoje, minha filha, mais real amiúde em Paris do que em Constantinopla.”

585: raças. Pelo menos não fala em apartheid.

“Assim, toda a história da Humanidade condensa-se necessariamente na história da religião. A lei geral do movimento humano consiste, sob qualquer aspecto, em que o homem se torne cada vez mais religioso.” Indisfarçável simpatia pela Idade Média, que é seu verdadeiro Espírito do Tempo. “Por isso, ao positivismo só resta agora retomar o conjunto do programa da Idade Média, para realiza-lo dignamente, mediante uma fé melhor”—importância do(a) culto/emancipação da Mulher no sistema comteano. “A Imitação de Cristo (…) este admirável livro que todo positivista deve ler diariamente.” “uma cega reprovação do conjunto da Idade Média, mal-compensada por uma irracional admiração pela Antiguidade.” Protestantismo, “doutrina puramente negativa”. “a religião final” “universal” “Desde então admirou-se a Idade Média, sem deixar de apreciar melhor a Antiguidade.”

“a admirável ditadura de Cromwell” anti-napoleônico

“ouso proclamar aqui os votos solenes que faço, em nome dos verdadeiros positivistas, para que os árabes expulsem energicamente os franceses da Argélia se estes não a souberem dignamente restituir àqueles.”

“Mas a anarquia e a retrogradação são ainda mais completas na arte, cuja natureza eminentemente sintética rechaçava com mais força o empirismo analítico.”

“o relativo sucede irrevogavelmente ao absoluto” “Em uma palavra, a Humanidade substitui-se definitivamente a Deus, sem esquecer jamais seus serviços provisórios.”

[ARQUIVO] TUDO O QUE MAIS INTERESSA A UM HOMEM

Originalmente publicado em 14 de outubro de 2011


…Cachorros me mordam! Mas a mandíbula desses animais não me pode causar dano, eu posso pegá-los pelo focinho e arremessá-los…

* * *

…Tranca tripla no banheiro, a porta parece menor do que o batente e é possível empurrá-la para frente e puxá-la para trás. Tento me proteger de uma criatura do porte de um rottweiler…

* * *

…Tento fazer a reconciliação com a Jacky Fly…

* * *

…Depois de dizer que detesto meu pai na frente dele, minha mãe e meu pai acham que a melhor atitude é cortar minha internet. Eu me ponho do lado de fora de minha própria janela, dependurado, e ameaço me soltar rumo ao vazio…

* * *

…Eu tinha de trocar as lentes dos meus óculos por outras melhores, e meu método pouco ortodoxo de fazer isso era comendo ou mordendo as lentes até que elas virassem simples cacos ou estivessem completamente rachadas…

* * *

…Maniax me instrui para pegar algum ônibus de determinada satélite de volta para casa. Insegurança, falta de convicção de que a linha irá passar…

* * *

…Saio bêbado pela W3 Norte, encontro o Maniax, ele se depara com um desafeto e leva uma surra, vários murros na cara. Passo por um supermercado e compro coisas aleatórias, entre elas cerveja. Algo acontece que eu perco a memória. Já não sei onde estão as mercadorias.

De repente acordo em casa, as sacolas plásticas espalhadas pelo chão. Muitas são de salgadinhos, pois no fim das noites ébrias eu fico com muita fome. A embalagem da pipoca de microondas se encontra rasgada, ainda com algum conteúdo dentro. Devo tê-la inflado ainda no supermercado pedindo a ajuda de algum funcionário. Pouco tempo depois de acordar, brigo com minha mãe por motivos e através de termos incognoscíveis (porém recordo que minha principal queixa era a de que eu começara a ouvir e ver coisas que não existem—e meus pais não estavam acreditando). Dou tapas alternados nos dois lados de sua face, como fizeram com Jesus. Já como uma auto-represália, tento esmurrar meu próprio maxilar, mas os socos não saem fortes como eu queria.

Pouco tempo depois, piso em uma latinha amassada de cerveja consumida. Lembro da utilização do remédio…


A DIVINA TRINDADE DE FOUCAULT

a) DOENÇA MENTAL E PSICOLOGIA

Medicina orgânica vs. Medicina mental

“Mas o fluxo do pensamento permanece intacto na sua estrutura, mesmo se é mais lento nos psicastênicos (…) o neurótico, mesmo quando apresenta obliterações de consciência como o histérico, ou impulsos incoercíveis como o obsedado [monomaníaco], conserva a lucidez crítica com relação a seus fenômenos mórbidos.”

“a essência da doença não está somente no vazio criado, mas também na plenitude positiva das atividades de substituição que vem preenchê-lo.” “A doença não é uma essência contra a natureza, ela é a própria natureza, mas num processo invertido”

ALERTA: ESTAR JÁ TROCANDO O DIÁLOGO PELO MONÓLOGO: “Como o professor psicastênico que só podia proferir sua conferência diante do espelho.” “eis porque tantos sujeitos obsedados ou psicastênicos, apresentam, quando se sentem observados, fenômenos de liberação emocional, como os tiques, as mímicas, as mioclonias de toda espécie.”

O PESO DE UM SIMPLES CUMPRIMENTO, DA OPINIÃO QUE IRÁ DEIXAR: “o sorriso (…) se destaca (…) como a expressão de uma ironia que se cala e ameaça. O universo da perseguição brota de todos os lados”

“o critério social da verdade já não tem mais valor para o doente”

“os psicanalistas rejeitam cada vez mais a noção bio-psicológica de libido

O absurdo da comparação entre o doente mental e o primitivo ou a criança.

paranóia (sensos semi-comprometidos) oniróia

“O erro originário da psicanálise e depois dela da maioria das psicologias genéticas, é, sem dúvida, não ter apreendido estas duas dimensões irredutíveis da evolução e da história na unidade do devir psicológico.”

“irrealizar o presente” nos doentes; o passado é o futuro.

“o obsedado defende-se sobretudo pelo isolamento” “o paranóico caracteriza-se pelos mecanismos de auto-referência” “angústia (…) a apoteose sensível da contradição psicológica”

Obviamente, meu quadro traz a vantagem de eu me forçar a fazer um compêndio, de eu me voltar para mim mesmo e as coisas que passaram. As pessoas da minha idade ainda vivem “no presente” e otimistas em relação ao futuro. Eu só antecipei a crise de meia-idade/pós-morte-paterna?

“monotonia circular”


ANGUSTIÓDROMO

quer viver, quer sentir o dissabor

Por que penso na minha avó Maria?

Maria Clara Gamotivos para não se matar.

Gamo em você.

Não queria mais agir…

2003, 2004, 2007…

2010, 2011.

Intervalos palpitantes.

Palpites burros e errados.

Será que ainda estabelecerei contato contigo neste misterioso dia de…

2012?

Me descafeinando…

Trabalho, a maior angústia—não ter tempo para angústias.

Reprisinfinita represa de sensações.

Por que vc não luta?

A minissérie crossover de Seiya Balboa.

Angústia mesmo de terminar o texto.

Ninguém aperta o botão vermelho.

Ninguém que conta (que quer trepar) seus males espanta.

Angustia priori.


Quando o doente pensa não estar doente e apenas se comportar de maneira sui generis.

“preocupações hipocondríacas que se encontram tão freqüentemente na psicastenia” “[o doente] vê no começo da doença a explosão de uma existência nova que altera profundamente o sentido de sua vida, com o risco de ameaçá-la.” “Apreendem a doença como um destino [ler e escrever isso como pura Moira]; ela só termina sua vida rompendo-a.”

“termos técnicos da filosofia heideggeriana”—SENTA QUE LÁ VEM SER-NA-HISTÓRIA!

“sentimento de estranheza diante da linguagem, o sistema de expressão, o corpo do outro”

45: o mesmo efeito da maconha como surto esquizofrênico em uma paciente—“como se toda a sala só fosse dentes” “a consciência não pode mais reconhecer seu corpo”

No começo da Idade Moderna, era-se bastante complacente com o comportamento do louco. Condenou-se o criminoso ao mesmo tipo de segregação que o louco.

Pinel, médico francês. Posteriormente, nome de um hospício.


b) HISTÓRIA DA SEXUALIDADE

Ainda parecemos uns vitorianos! Ou eles eram mais bem-resolvidos?

Quarto dos pais, o “antro sagrado do sexo”, recanto exclusivo da permissividade. Isso até cada jovem ter o seu carro…

Masturbar-se 2x por dia em tempos de extrema ansiedade…

“No que diz respeito ao sexo, talvez a mais inexaurível e impaciente das sociedades seja a nossa.”

“a guerra contra o onanismo, que durou quase dois séculos no Ocidente.”

O fosso entre o didatismo enfadonho de um Therborn e a real histossociologia.

“nós entramos em uma fase de regressão jurídica”

“Hoje em dia, a compreensão plenamente consciente do instinto sexual importa mais do que o ato sexual.”

Engraçado como tanto há o discurso da verdade acessível através da transa como da verdade através da abstinência/do celibato.

22: o prazer anal masculino segundo Aristóteles

Resta saber se seria vergonhoso se o próprio Zeus fosse afeito a essas coisas: “O excesso e a passividade são, para um homem, as duas formas principais de imoralidade na prática dos aphrodisia [termo lato dos gregos para designar ‘relações sexuais’ ou algo que disso se aproxime].”

“É conhecido o gesto escandaloso de Diógenes: quando tinha necessidade de satisfazer seu apetite sexual, ele se satisfazia a si próprio em praça pública.”

Sexo, usualmente à noite, na Grécia.

Antístenes “se dava a qualquer uma”, a primeira que aparecesse em sua frente, feia ou bonita. Mas não se entrega ao excesso, não é hedonista: é uma medida para atender a um pedido urgente do corpo, que se repete apenas de espaços em espaços.

Incesto como questão de eugenia: assimetria de idades e descendência arruinada (um dos dois da cópula já passou do apogeu). Exemplo clássico encontrável: Aquiles-Pátroclo (primos)!

O ESPÍRITO AGONÍSTICO: “Os adversários que o indivíduo deve combater não estão simplesmente nele ou perto dele. São parte dele mesmo.” “o mais vergonhoso dos fracassos consiste em ser vencido por si mesmo.” Platão

“A virtude na ordem dos prazeres não é concebida como um estado de integridade mas como uma relação de dominação”

35: o sábio que pensa em séries de coisas prefixadas antes de dormir para chamar o sono, em Zaratustra, é pitagórico!

Platão, nas Leis, fala de minha facilidade com os livros: “Aquele que quiser se sobressair um dia no que quer que seja deve se aplicar nesse objeto desde a infância, encontrando, ao mesmo tempo, seu divertimento e sua ocupação em tudo que se relacionar com ele.”

“O mais real dos homens é rei de si mesmo.” Platão

“mau tirano” “os abusos sexuais do déspota, quando ele se põe a desonrar os filhos—meninos ou meninas—dos cidadãos, são freqüentemente invocados como motivo inicial dos complôs para derrubar as tiranias e estabelecer a liberdade: assim foi com Pisístrato em Atenas, Periandro em Ambrácia e outros mais que Aristóteles menciona no V livro da Política.” Honra pública que mais de 2200 anos depois Silvio Berlusconi na Itália e Jair Bolsonaro no Brasil—ele e suas “meninas da Ceilândia”—não aprenderam a preservar…

“A temperança é, no sentido pleno, uma virtude de homem.”

Para o grego, a chave ativo/passivo era mais relevante, em suma, na atribuição de um “gênero” à pessoa até do que para os machos homofóbicos contemporâneos (não existia “opção sexual” na Grécia Arcaica), pelo fato de considerarem o passivo da relação a “mulherzinha”, ao passo que o ativo ainda que homossexual preserva certo status “masculino”.

“O regime físico não deve portanto ser cultivado por si mesmo de modo demasiado intenso.” Platão, já em contraposição ao que diria Hitler dois milênios mais tarde.

“é necessário reter que a dieta não é concebida como uma obediência nua ao saber do outro: ela deveria ser, por parte do indivíduo, uma prática refletida de si mesmo e de seu corpo.”

Acabo de ler que Sócrates estimulava os outros a anotar coisas, o que contraria o mito popular!

Há bulimia desde Hipócrates: “vomitória três vezes por mês para os temperamentos úmidos, duas vezes por mês para aqueles que são secos.”

Um temperamento úmido em público pode denunciar o quanto alguém é seco por dentro e vice-versa.

“ninguém deve fazer uso freqüente e contínuo do coito” Diocles, com ressalvas para os mal-humorados, depressivos, peidorreiros e gordos! Pré-adolescentes e idosos estão proibidos.


ESQUEMA ARISTOTÉLICO:

♀ frias, úmidas, ápice da ninfomania no verão

♂ quentes, secos, ápice da ninfomania no inverno


55: sobre a abstenção nos atletas

Os gregos acreditavam que o sêmen era produzido pelas, ou pelo menos atravessava as, costas, região da medula espinhal. “é da cabeça que [o esperma] viria”, dizem outros.

Relações de poder do lar são o microcosmo da Política de Aristóteles: uma aristocracia quando a casa é bem-governada; uma oligarquia quando a mulher não cumpre seu papel e o marido acumula funções demais. Em outras formatações, o “governo” pode descambar para o caos da tirania, da “maioria” ou de um só.

O amor do varão por outros rapazes na Grécia se dava sobretudo em tenra idade, na adolescência. A assimetria da idade (mestre-discípulo). “a relação entre dois homens feitos será mais facilmente objeto de crítica ou de ironia: é porque a suspeita de uma passividade, sempre malvista, é particularmente mais grave quando se trata de adulto.”

“todo um jogo de adiamentos e de chicanas destinados a retardar o término e a integrá-la numa série de atividades e de relações anexas.” Coquetismo viril. Correr através dos bosques e até mesmo rumo à escola atrás de seu amado púbere! E, aliás, é a primeira barba que leva à idade adulta.

“philia”, a amizade entre dois homens maduros, que nasce do ocaso do amor, que é necessariamente ligeiro.

Na Antiguidade, não deixava de haver os aficionados por batidas de carros, embora fossem mais lentas e menos drásticas, com toda certeza.

Parece que somando-se todas as civilizações conhecidas, a sodomia é o pior pecado. O beijo não é assimétrico como a metida no cu. Quando as mulheres fazem os cílios, elas estão caçando!


c) NIETZSCHE E A GENEALOGIA (Microfísica)

“a injustiça e a instabilidade no espírito de alguns homens, sua desordem e sua falta de medida são as últimas conseqüências de inumeráveis inexatidões lógicas de falta de profundidade, de conclusões apressadas de que seus ancestrais se tornaram culpados.” Nietzsche

“Má alimentação, má respiração, corpo débil e vergado daqueles cujos ancestrais cometeram erros”


GLOSSÁRIO:

pituíta: catarro

[ARQUIVO] A MISÉRIA DOS QUE CRÊEM

Originalmente publicado em 21 de julho de 2011

a) EM QUE CRÊEM OS QUE NÃO CRÊEM?—Umberto Eco e Carlo Maria Martini

“A experiência demonstra que somente nos arrependemos daquilo que pressentimos poder fazer melhor.” padre

“Não é, pois, ainda o momento de deixar-se embebedar pela televisão, enquanto esperamos o fim.”

“Há ascetas orientais que cobrem a boca para não ingerir e destruir microorganismos invisíveis.”

b) MISÉRIA DA FILOSOFIA—Marx

Mészáros e Lukács reafirmados como bons hermeneutas.

“o primado ontológico da economia, que funda a teoria social moderna, descoberto por Marx, opera no interior de uma estrutura teórica que produz um objeto (teórico) para reproduzir um objeto real na perspectiva da totalidade.” José Paulo Netto

Em algo, Proudhon fôra mais sábio: enxergou a Face de Janos do Socialismo.

c) CRÍTICA AO PROGRAMA DE GOTHA—Marx

“De cada qual segundo sua capacidade; a cada qual segundo suas necessidades.” Já no comunismo.

31: lição soviética—fazer a revolução nacional e isolar-se não é mais do que uma traição

35: Lassalle, o principal inimigo. Saudade desses tempos combativos de honra aos grandes adversários que não vivi. Nunca tive um adversário, nunca vi um grande homem e não sabemos o que é honra; quanto mais se se imaginar que este inimigo ideológico deveria estar quase que na minha causa ou time—um nietzscheano alternativo! Impossível!

“Esta fantasia de que com empréstimos do Estado pode-se construir uma nova sociedade como se constrói uma nova ferrovia é digna de Lassalle.”

“a ditadura revolucionária do proletariado.”

“o Estado [burguês, lógico] do futuro, na Suíça”

46: o sistema “socialista” de Fidel (saúde e educação). “designar o Estado como educador do povo! (…) é o Estado quem necessita de receber do povo uma educação muito severa.”

“a combinação do trabalho produtivo com o ensino, desde uma tenra idade, é um dos mais poderosos meios de transformação da sociedade atual.”

61: Engels tripudia do socialismo francês e da noção de “igualdade absoluta” que querem para o comunismo, reflexo dos ideais burgueses da Revolução de 1789

[ARQUIVO] A ILHA — ISLAND — Aldous Huxley, 1961.

Originalmente publicado em 12 de abril de 2011

O elemento edipiano foi removido do filme “O Náufrago”.

“this improbable Highlander”

Há a presença de nativos nesse paraíso tropical.

Trabalho investigativo regulado pelo relógio.

“So unhappy that he has to laugh like a hyena.”

“I don’t care where I’m from. Nor where I’m going. From hell to hell.”

“He tried not to listen; but ears have no lids”

O céu azul de abril e um desastre iminente…

“In religion all words are dirty words.”

“Conflicts and frustration—the theme of all history and almost all biography. (…) Buddha [teached] the blessed experience of Not-Two.”

Os estóicos (imperfeitos) e o Ser Supremo ou Bom. “the only genuine yoga.” Spinoza

“God = ‘God’.”

“L’État c’est moi” vs. “like the Queen of England”

Antinous, The Raja of Pala, 17 anos.

Os problemas giram em torno da discussão do monopólio da exploração de petróleo na região. O jornalista Will Farnaby trabalha para um dos tubarões.

“Industrialization for industrialization’s sake.”

Algo sobre uma destruição considerável do mundo.

“a World Movement to save Humanity from self-destruction.”

“I canceled my last four lectures in Brazil” o tipo de líder religiosa que realmente amealharia muitos adeptos por aqui.

57-8: a enfermeira gostosa

“Você é uma aberração de um jeito, eu sou de outro. Um esquizóide (não é o que você é?) e, do outro lado do mundo, um paranóico. Ambos vítimas da mesma praga do século vinte. Não a Peste Negra, dessa vez; mas a Vida Cinza. Já esteve interessado no poder?”

49: turismo sexual

“We’re all demented sinners in the same cosmic boat—and the boat is perpetually sinking.”

63: medicina moderna vs. medicina tradicional

Ilha bissexual.

69: filosofia oriental vs. ocidental

Maithuna, “the yoga of love”—o tantrismo—“it’s just birth control without contraceptives”

“the perfect stranger, who is the other half of your own self”

Ensino sexual prático nas escolas.

“Whenever the parental Home Sweet Home becomes too unbearable, the child is allowed, is actively encouraged—and the whole weight of public opinion is behind the encouragement—to migrate to one of its other homes.”

Suicídios só podem acontecer no calor da madrugada, Sr. Durkheim!

“Hybridization of microcultures—that’s what our sociologists call the process.”

“You can’t get rid of them, can’t take a holiday from them”

“Fourteen years of family servitude. How I envy you! Free as a bird!”

“Se suas crianças levam essas boçalidades a sério, crescem como pecadores miseráveis. Se não levam, acabam sendo cínicos miseráveis. E se reagirem desse cinismo miserável, já estão aptos a se tornar o papa ou um marxista. Não me espanta vocês precisarem de todos esses milhares de prisões e igrejas e celas para comunistas.”

“no Communist pie in the twenty-second century.”

“No, old friends would never do. But from this dark little outsider, this stranger to whom he already owed so much and with whom, though he knew nothing about her, he was already so intimate, there would come no foregone conclusions, no ex parte judgements—would come perhaps, he found himself hoping (he who had trained himself never to hope!), some unexpected enlightment, some positive and practical help. (And, God knew, he needed help—though God also knew only too well that he would never say so, never sink so low as to ask for it.)”

“Cold War I”

“Eu fui um sucesso porque eu era irremediavelmente de segundo-escalão.”

“The sex addicts are also person addicts. In other words they’re lovers.”

“pink alcove” o leito de amor com a amante Babs.

NOMENCLATURA-PARÓDIA DE ADMIRÁVEL MUNDO NOVO: “Those are the Alpha Plus undesirables. As a journalist you rank as a Beta. Not the kind of person we should ever dream of inviting to Pala. But also not the kind who, having managed to get there, requires to be summarily deported.”

“Por quem você preferia ser devorado—um lobo ou um tigre? Desde que o carneiro é a caça, dificilmente isso importa.”

108: os 99,9% condenados, segundo o calvinismo

“I have a theory that, wherever little boys and girls are systematically flagellated, the victims grow up to think of God as ‘Wholly Other’—isn’t that the fashionable argot in your part of the world? Wherever, on the contrary, children are brought up without being subjected to physical violence, God is immanent. A people’s theology reflects the state of its children’s buttocks.”

Os mais privilegiados são os que mais sofrem, não se esqueça disso! Sofrimento subcutâneo.

SANTO AGOSTINHO E LUTERO: “os dois traseiros mais imperdoavelmente flagelados de toda a história do pensamento cristão.” “the perfect Pavlovian setup.”

“E pensar que as pessoas reclamam que a vida moderna não faz nenhum sentido! Olhe para o que a vida era quando fazia sentido! Um conto contado por um idiota ou um conto contado por um calvinista? Dê-me o idiota sempre!”

15% da população não se dá bem com alucinógenos.

“you spend 9/10 of your time on foam rubber. Spongy seats for spongy bottoms—at home, in the office, in cars and bars, in planes and trains and buses.” “You don’t allow your teenagers to work, so they have to blow off steam in delinquency or else throttle down steam till they’re ready to become domesticated sitting-addicts.”

“And finally we don’t spend a quarter of the gross national product preparing for World War III or even World War’s baby brother, Local War 3.333.”

143: o rodízio de empregos

“Materialismo abstrato é tão ruim quanto idealismo abstrato—ele faz da experiência espiritual imediato algo quase impraticável.”

“You can expect one Peter Pan among every 5 or 6 male children.”

“But Adolf [H.] was sexually backward. Other boys made advances to girls, and the girls responded. Adolf was too shy, too uncertain of his manhood.” E seu <Mundo à Parte>, como se julgava um Miquelângelo e não era nada. “Hitler’s the supreme example of the delinquent Peter Pan. Stalin’s the supreme example of the delinquent Muscle Man. (…) the one who always feels impelled to Do Something and is never inhibited by doubts or qualms.” “Peter Pans are wonderfully good at starting wars and revolutions; but it takes Muscle Men to carry them through to a successful conclusion.”

“I was thinking of my father. A little wood-chopping might have been the making of him—not to mention the salvation of his wretched family.” Will

“Rock climbing’s a branch of applied ethics; it’s another preventive substitute for bullying.”

“o que é melhor—nascer estúpido numa sociedade inteligente ou inteligente em uma insana?”

“Time even in this place of timeless meditation. Time for dinner breaking incorrigibly into eternity.”

Anxiety for peeping, eating, talking… Self-generated apprehension. Gloriously numb and erroneous for the sake of being free to be wrong about health and wealth.

“Para os animais, nós somos Satanás.”

184: Polly, o papagaio

“So never take yes for an answer, even when, as now, yes is self-evident.”

“Will laughed. ‘God said, Let Darwin be, and there was Nietzsche, Imperialism and Adolf Hitler.’” “Darwinism was the old Neolithic Wisdom turned into scientific concepts.”

Bebês não são picados por serpentes porque não tremem de medo delas. Porém, são engolidos.

195: orientalização do Ocidente e vice-versa

“So we teach our children all kinds of breathing games, to be played whenever they’re angry or upset.”

“Por elas mesmas, as humanidades não humanizam. Ler Platão ou ouvir um seminário sobre T.S. Eliot tampouco educa a integridade do ser humano.”

204: jogos de sorte para as crianças

214: o treinamento de professores

216: o dualismo dos gregos

227: a primeira morte—o animal de estimação. Não vivi o ritual de despedida. Com ninguém.

“beijos e conseqüentemente nascimento e depois morte para ainda mais uma geração de testemunhas do pôr-do-sol.”

“Você nunca viu alguém morrendo e você nunca viu ninguém tendo um bebê. Como chegou a saber as coisas?”

242: Édipo provoca risos nos Palaneses

253: a experiência espiritual de sair do próprio corpo e vê-lo

ALUCINÓGENOS: “Speaking was difficult. Not because there was any physical impediment. It was just that speech seemed so fatuous, so totally pointless.”

260: lombrando ao som de Bach

“There was a tempo, but no time. So what was there?”

“Grateful is heaven itself”

GLOSSÁRIO:

breadfruit: jaca

[ARQUIVO] FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO

 

Originalmente publicado em 22 de dezembro de 2010

“o que se exige para a exposição da filosofia é, antes, o contrário da forma do conceito. O absoluto não deve ser conceitualizado, mas somente sentido e intuído”

“Não é o conceito, mas o êxtase, não é a necessidade fria e metódica da Coisa (…) mas sim o entusiasmo abrasador.”

“Pela insignificância daquilo com que o espírito se satisfaz, pode-se medir a grandeza do que perdeu.”

“Mas a filosofia deve guardar-se de querer ser edificante [moral].”

“a frivolidade e o tédio que invadem o que ainda subsiste, o pressentimento vazio de um desconhecido são os sinais precursores de algo diverso que se avizinha.”

“o começo é fim”

“O espírito só alcança sua verdade na medida em que se encontra a si mesmo no dilaceramento absoluto. (…) Esse demorar-se é o poder mágico que converte o negativo em ser.” “Foi por isso que alguns dos antigos conceberam o vazio como motor.”

“A matemática se orgulha e se pavoneia frente à filosofia (…) proposições mortas e rígidas.”

“a necessidade de um outro saber.”

“A aparição é o surgir e passar que não surge nem passa”

“O formalismo da filosofia da natureza pode ensinar que a inteligência é a eletricidade, ou que o animal é o nitrogênio.”

“Difícil decidir o que é maior: a sem-cerimônia com que se pinta tudo que há no céu, na terra e nos infernos com tal sopa de tintas; ou a vaidade pela excelência desse meio-universal: uma coisa serve de apoio à outra.”

“Sofistaria é uma palavra-de-ordem do senso comum contra a razão cultivada”

“O cepticismo que termina com a abstração do nada ou do esvaziamento não pode ir além disso, mas tem de esperar que algo de novo se lhe apresente”

“no movimento da consciência ocorre um momento do ser-em-si ou do ser-para-nós, que não se apresenta à consciência, pois ela mesma está compreendida na experiência.”

“Fica patente que por trás da assim chamada cortina, que deve cobrir o interior, nada há para ver; a não ser que nós entremos lá dentro—tanto para ver como para que haja algo ali atrás para ser visto.”

“A consciência-de-si só alcança sua satisfação em uma outra consciência-de-si.”

SUPRASSUMIR, que permeia toda a obra: não aniquilar, porque isso inexiste, mas superar algo e conservá-lo de forma metamorfoseada, mutada, sintetizada, modificada—primeiro inconsciente, depois que vem à baila. Funde-se um momento do passado com o ser; mas então já é algo novo, de características inéditas, embora a matéria-prima não possa ser negada. Portanto suprassumir é superar e voltar. Incorporar. É como a morte do pai: ele não morre, realmente.

“obstinação (…) uma liberdade que ainda permanece no interior da escravidão” Paralelamente, se se pensa que o senhor não teme e se põe cego a um perigo que é real, pode-se dizer que ele nunca foi tão inumano, não no sentido que lhe seria mais desejável, o de cruel, mas de que ele se coisifica, por coisificar o Outro: me ignora como dotado de sentimentos, ousadia e liberdade, torna-se simplesmente vulnerável…

“Seu falatório [o da consciência] é, de fato, uma discussão entre rapazes teimosos: um diz A quando o outro diz B, e diz B quando o outro diz A: e assim cada um, à custa da contradição consigo mesmo, se paga a alegria de ficar sempre em contradição com o outro.”

Estoicismo como estágio preliminar do ceticismo. Ceticismo como estágio preliminar da consciência infeliz. “Movimento de uma nostalgia infinita”

Se para Marx o moto é o trabalho, em Hegel são o desejo e o trabalho.

165: no fim, um tratado anti-cartesiano em sua essência

“gozo” “graças” “Além” “dom”: brincalhão Hegel.

“Na luta da alma, a consciência singular só está como momento musical, abstrato”

POR QUE SE TEM RAZÃO EM DIZER QUE NÃO SE PODE ESCAPAR OU AINDA NINGUÉM ESCAPOU DE HEGEL: “O que deve-ser, também é, de fato. O que apenas deve ser, sem ser, não tem verdade nenhuma.”

205: a mesma coisa que o “coeficiente de atrito” sartriano. “É indiferente a esse rio da vida que espécie de moinhos ele faz girar.”

“as leis são sem verdade”

226: sobre videntes que lêem a mão do cliente!

238: Hamlet e a cena do crânio

240: Hegel, o criminalista: por que seus coleguinhas cientistas do séc. XIX erravam clamorosamente ao medir a periculosidade de um criminoso pelas medidas de seu crânio. “Por conseguinte, as observações estabelecidas sobre esse ponto têm o mesmo valor que as do vendedor e da lavandeira”

254-5: moral e virtude

257: hedonismo; “ipseidade”

261: equilibrando-se entre altruísmo e egoísmo

262: o que “Durkheim e seu deus” e Dostoievsky também souberam em seu tempo—a teoria do grande criminoso (ou quando a sociedade é o revoltado em questão, e o indivíduo indolente ou inadaptado o conservador)

271: nossa quixotesca missão

“Mas a consciência virtuosa entra em luta contra o curso-do-mundo como contra um oposto ao bem.” “Portanto a virtude é vencida pelo curso-do-mundo”

274: inversão (moral cristã vs. moral antiga): “tudo isso só produz tédio” (“[N]a cultura de nossa época”)—A morte de Deus.

E mais adiante, um prato cheio para mal-entendidos, partindo de uma consciência proletária: “o curso-do-mundo não é tão mau como aparentava (…) o movimento da individualidade é a realidade do universal.” “são apenas uma maneira de ver, e nada mais.” E ainda metade do livro pela frente…

“um nada labutando rumo ao nada.”

“O talento, do mesmo modo, não é outra coisa que a individualidade originária determinada que se considera como meio interior, ou como passagem do fim à efetividade”

281: da concorrência e da competição. Formulação antecipada do “além do bem e do mal”.

“desvanecer do desvanecer”

NÃO SERIA UM RIO DO QUAL SÓ SE FOGE DUAS VEZES? “Haja o que houver, a consciência honesta vai sempre implementar e atingir a Coisa mesma, já que é o predicado de todos esses momentos como este gênero universal.”

Por que não preferir o congelamento do tempo? Por que todo domingo parece uma tortura, cadafalso para a alma, o último gole, a última canção, o despertador, tudo que cause muita dor? Pessoas que querem dormir mais de 10 ou 12h, i.e., hibernar, para um ser humano, que compartilham algo realmente profundo comigo mas que não dispõem da complexidade ou força de caráter que seriam necessárias para compreenderem em que ovos elas mesmas estão pisando… Passar pelas humilhações como um trator, é o que pensamos que queremos… A questão é: melhor uma hipocrisia mórbida exagerada do que o Complexo de Poliana da ditadura do prazer!

“É como meninos maus, que recebendo uma palmada se alegram a si mesmos, por terem sido precisamente a causa do castigo.”

“Para ela [a consciência honesta], a Coisa mesma é tanto Coisa sua como absolutamente obra nenhuma; ou seja, é o puro agir, ou o fim vazio, ou ainda, uma efetividade desativada. Faz sujeito desse predicado uma significação depois da outra, e as esquece sucessivamente.”

“O consolo pelo fracasso do fim, pois pelo menos foi querido, pelo menos foi puramente agido—como também a satisfação de ter dado aos outros algo para fazerem, fazem do puro agir ou de uma obra totalmente má, a essência: porque se deve chamar uma obra má a que não é absolutamente nenhuma.”

Exatamente o que se passou pela minha cabeça ao ler o epílogo de Neurose, de Edgar Morin, nem pela primeira, nem pela última vez, esse fluir que independe de nós, o qual devemos nos preparar para aproveitar, é essa bem a palavra, considerando apenas os acontecimentos correntes e seus efeitos imediatos, a supressão do filosofar, em verdade filosofia efetiva, quer seja, em carne viva—Espírito poderoso!—Porque o amanhã ainda pode esperar em seu devido lugar e agora nada há de mais importante a considerar… Nada de atropelamentos… Mas se não der, tudo bem também. Era parte do plano, estava fixado no firmamento, tinha que se suceder assim, você não tem culpa, era incapaz. A própria sensação de suportar é só uma sensação de sensação, fugidia… Suporta-se qualquer coisa desde que haja oxigênio para puxar e, afinal, por que a pressa? Só não precisa recair no outro extremo e ter calma demais… Cada refeição tem sua hora de ser servida e saboreada…

“O todo é interpenetração semovente da individualidade e do universal” “surge um jogo de individualidades, uma com a outra, jogo em que se enganam e se encontram enganadas, umas pelas outras, como se enganam a si mesmas.”

“O que lhe interessa [à primeira individualidade] na Coisa é seu agir e atarefar-se; e quando os outros se dão conta que era isso a Coisa mesma, se sentem também ludibriados. Mas, de fato (…) queriam enganar os outros, do mesmo modo como lamentam ter sido enganados.”

296: primeira menção de “Estado”

“O mundo ético—o mundo cindido entre o aquém e o além”

O ÚTERO DA TERRA: “[o morto] desposar o seio da terra, a individualidade elementar imperecível.”

FAMÍLIA, PIEDADE, INCESTO: “a relação sem mistura encontra lugar entre irmão e irmã. São o mesmo sangue, o qual porém neles chegou à sua quietude e equilíbrio. Por isso não se desejam um ao outro”

CERTA ASSIMETRIA QUE IRRITARIA AS FEMINISTAS: “a perda do irmão é irreparável para a irmã; e seu dever para com ele, o dever supremo.”

“O irmão [o homem] é o lado segundo o qual o espírito da família se torna a individualidade que se volta para Outro e passa à consciência da universalidade. O irmão abandona essa eticidade da família—imediata elementar e por isso propriamente negativa—a fim de conquistar e produzir a eticidade efetiva, consciente de si mesma.” “A irmã, porém (…) ou a mulher (…) a guardiã da lei divina.”

325: Édipo. Antígona, a Anti-Édipo. Ele atenta contra a lei de Deus; ela, contra a lei da polis. Édipo apenas age como um bom cidadão, Antígona como fiel e temente ao Olimpo.

“os irmãos encontram ambos sua mútua destruição, através um do outro.”

Recorrente referência a um mundo “subterrâneo”.

Hegel masculiniza o Estado ou governo e feminiza o genos. Em tempos em que o mais viril não aceitaria guerrear…

“A figura ética do espírito desvaneceu, e surge uma outra em seu lugar.”

“mesmo o espírito que partiu está presente no sangue dos parentes, no Si da família”

“o todo, como cada momento singular, é uma realidade alienada de si mesma”

“O Iluminismo leva a cabo a alienação (…) Essa revolução produz a liberdade absoluta”

340: o nacionalista Hegel

362: “Diógenes no tonel”

“na substância ética a religião aparecia como fé no mundo subterrâneo”

“carente-de-espírito”: se refere a um além

“rico-de-espírito”: auto-suficiente, essência fenomenológica

Cada pessoa é uma igreja. Mas não são Capelas Sistinas, apenas frágeis toldos sobre suas cabeças.

“No que concerne o seu conteúdo, o Iluminismo é, antes de tudo, a inteligência vazia (…) encontra-o [o conteúdo] na fé.” “Com isso declara a fé como sendo um erro, e uma ficção poética sobre o mesmo que o Iluminismo é.” “está descartado completamente o pensamento do engano.”

SOBRE A FALTA DE SOFISTICAÇÃO DO PENSAMENTO MODERNO: “Essa sabedoria própria do Iluminismo aparece-lhe [à religião], necessariamente, como a banalidade mesma, e ao mesmo tempo como a confissão da banalidade.” “consciência crente” “A fé tem naquele Si o momento que a leva à perfeição; mas perecendo por causa dessa plenitude (…)”

INDÍCIOS DE POR QUE A MORAL, NO SISTEMA HEGELIANO, NÃO SE AUTO-SUPRIMIRIA, COMO A LIBERDADE, A INTELIGÊNCIA, A FÉ, O CETICISMO & O ESTOICISMO: “A perfeição, portanto, não há que atingi-la efetivamente, mas só há que pensa-la como uma tarefa absoluta, i.e., como uma tal que permanece tarefa, pura e simplesmente. (…) O que ocorre de fato, não se consegue distinguir nos longes obscuros da infinitude—para onde se deve protelar, por esse motivo, a obtenção da meta. (…) isso leva a contradições: uma tarefa que deve permanecer tarefa e, contudo, ser cumprida (…) Pela consideração de que a moralidade consumada encerra uma contradição, se lesaria a santidade da essencialidade moral, e o dever absoluto pareceria como algo inefetivo.”—Niilismo em estado bruto, grassando entre os pós-modernos cansados de missões, anômicos, baratas tontas que pedem arrego e são tão vaidosos quanto vãos… Pit stop.

Em seguida, todos os elementos do ­­saber-mentir!

“aproximar-se sempre mais e mais do nada significa diminuir.” “a lamentação que é mais uma lágrima sobre a necessidade.”

448: a “bela alma”—odor de Wilde?

DE QUE TODA AÇÃO GERA FINS INDESEJADOS, E DE POR QUE ISSO NÃO PODE PARAR

É necessário que por mais que se capte a lei trágica dos fins indesejáveis da ação, exerça-se a ação apaixonadamente, i.e., com convicção de que não havia mais certo a fazer. Pelo simples fato de que não fosse assim e: 1) ou viveríamos no aborrecido mundo em que “querer” seria sempre “poder” e aí então indelevelmente, depois de um pouco de sacanagem, o Espírito se suprimiria, ao invés de apenas suprassumir seus estados um pelo outro. Porque a realidade tem que estar deslocada do pensamento “para dar certo”; 2) ou nos manteríamos inertes, ou enraivecidos. O fato é que seríamos ainda obrigados a agir, e qualquer ação destrutiva ainda seria carregada de paixão. Mas, se quisermos exagerar, se sabemos (e acreditamos a cada segundo!) que tudo que fizermos “dá errado” ou no seu oposto, passaríamos a viver de pura má-fé—mas assim que descobríssemos que mesmo a ação maligna visando ao bem seria traída pela sua benignidade última, e porque nada mais era que uma esperteza pessoal de última hora, desistiríamos desse modo “birrento” de proceder e simplesmente nos colapsaríamos ou nos suicidaríamos. Rá! Porém, como isso é mais uma artimanha do Para-Si imediato, simplesmente ingênua demais para capturar o inconsciente, aí então acho que seríamos forçados a continuar a viver! E para viver… Que nem sonho quando… O mundo, os acontecimentos, são o meio-termo entre a onipotência sem-sal e o autômato-barata-tonta-super-títere, afinal temos que ter alguma autonomia para fazer as escolhas, mas nunca, rigorosamente sob nenhuma circunstância, podemos assumir total controle. Deus e coisas não dariam certo aqui, apenas humanos, um espírito propulsor e propalado por fenômenos. É pisar em outra pedra quando saltar da anterior… A vida é um jogo de tabuleiro enquanto ainda gostamos dele. Num banco imobiliário sem ser Lex Luthor, o Rei do Crime, nem alguém tão endividado quanto o Corinthians. Eternamente bailando a mesma Dança dos Cisnes… Navegadores do Mar dos Erros! Não seria de Eros?!

“Ninguém é herói para seu criado-de-quarto” Ninguém mais tem criado-de-quarto…

“A série das diversas religiões, que vão produzir-se, só apresenta igualmente de novo os diversos lados de uma única religião”

649: totemismo

478: deus ex machina

479: nacionalismo; Hobbes.

“deus, que é o espírito do povo ético” “a consciência ética se deixa (…) assim determinar (…) de uma maneira irrefletida e estranha, como por meio de um jogo de dados.”

482: idealismo musical

484: o banquete

“princípio feminino da nutrição” “espírito masculino da força”

488: da desportividade

490: as Musas e os Aedos (cantores, intérpretes mundanos)

491: moral do Prólogo do Céu—“os deuses existem para servir os humanos”. Não havendo consenso divino… Os deuses nada arriscam…

493: tragédia

496: de Édipo a Macbeth e Hamlet. Fala justamente da hesitação em cumprir a vingança, o príncipe dinamarquês como que livre de uma superstição ancestral. Ele duvida do pai e monta a peça. Mas não fugiu ao fado! Não tente a ação contrária (reflexões acima)!

“O frenesi da sacerdotisa, a figura desumana das bruxas, a voz da árvore, do pássaro, o sonho, etc., não são modos em que a verdade apareça, mas sinais de advertência do embuste, da irreflexão, da singularidade e contingência do saber.”

Comédia como o destino dos deuses. Somos anti-trágicos, porque sabemos demais, e Hamlet já é assaz engraçado.

502: sobre a comedialização do mundo

504: “Deus morreu”

Conclusão da consciência infeliz-trágica; em oposição à divina consciência feliz-cômica. Porém, algo não bate aí: o pós-moderno não é alegre e mundano demais? O tempo de Hegel, por mais que ele fosse capaz de pressentir um outro dele derivado, não é, ao mesmo tempo que confiante, sério e amuado? “no Estado de Direito [o Todo-Poderoso de Hegel], o mundo ético e sua religião soçobraram na consciência cômica; e a consciência infeliz é o saber dessa perda total.”

“As estátuas são agora cadáveres cuja alma vivificante escapou, como os hinos são palavras cuja fé escapou”

“Deus só é acessível no puro saber especulativo (…) Deus é o espírito” “auto-humilhação da essência divina (…) O representar toma o outro lado, o mal, como um acontecer alheio à essência divina. Captar o mal nessa essência mesma, como a sua cólera, é o esforço extremo e mais árduo do representar em conflito consigo mesmo;—esforço que, por carecer de conceito, permanece infrutífero.”

524: a figura do semi-Deus, Cristo, qualquer um na História que serve conscientemente de pára-raio universal. Aceita todo o depósito do mal e lança as sementes.

“Esse movimento é o círculo que retorna sobre si, que pressupõe seu começo e que só o atinge no fim.” “o conteúdo da religião proclama no tempo, mais cedo que a ciência, o que é o espírito; mas só a ciência é o verdadeiro saber do espírito sobre si mesmo.” Fim que deixa patente a formulação apócrifa do eterno retorno: um momento forçoso da “máquina universal” em que o Espírito se auto-denotaria antes de seguir a sua marcha como sempre… “é o novo ser-aí, um novo mundo e uma nova figura-de-espírito. (…) como se todo o anterior estivesse perdido para ele, e nada houvesse aprendido da experiência dos espíritos precedentes. (…) embora esse princípio recomece desde o princípio sua formação, parecendo partir somente de si, ao mesmo tempo é de um nível mais alto que [re]começa.” “Sua meta [do espírito] é a revelação da profundeza, e essa é o conceito absoluto.” Muito bem, e depois da transa vem outra transa, sem perdão… De modo que se o mundo alcança mesmo esse fim, só que isso não tem nada de mais. É apenas belo. E no dia seguinte Fenomenologia está na gráfica e… Sils-Maria recebe convidados e… eu me apoio a esta escrivaninha… Disso, reitera-se ainda: Rafael, espero que este seja (mais) um marco para sua vida. Olvidar e caminhar, até mesmo SEM olhar para trás—ironicamente neste mesmo momento quero reler meu primeiro livro, o do astronauta—, porque o caminho pela frente pressupõe a bagagem… Dir-se-ia que TODA vida precisa dessa culminância? Que renasci, etc.?

GLOSSÁRIO

penates: deuses romanos do lar

[ARQUIVO] O HOMEM REVOLTADO

Originalmente publicado em 27 de outubro de 2010

Quais fundamentos residem sob essa dita vida? Para mim tudo se resume a uma aberração matemática—o êxito cabe a poucos. “Mas o que é o êxito?”, você dirá. A própria vida do exitoso parece uma peça pregada. Durante apenas algumas horas na semana posso eu realmente me perguntar coisas e me indignar. A sonolência e o cansaço tomam conta de mim. Mas se fosse só isso! Meu humor, eu não consigo estabelecê-lo minimamente. Sou um escravo completo. Não é possível observar o próprio auto-perecimento pelo imperativo do trabalho! Não é possível ter um ponto de vista não-estulto sobre a família. Não acho o sal e o molho shoyo para temperar e suportar os meus dias.

Se não é para ficar pensando na morte da bezerra, eu sou a bezerra! Sim, porque ao menos como o portador sacro de leite eu sou melhor do que como essa bola massacrada de jogos de pingue-pongue sem-fim!

“todo suicídio solitário, quando não há ressentimento, é generoso e desdenhoso.”

“Não se é niilista pela metade.”

“Respirar é julgar. (…) Falar repara (…) A absurdidade perfeita tenta ser muda. (…) A ferida que se coça com tanta solicitude acaba dando prazer.”

“entrar no movimento pelo qual o absurdo supera a si próprio.”

“Mas seu ímpeto cego reivindica a ordem no meio do caos e a unidade no próprio seio daquilo que foge e desaparece. A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e que se fixe finalmente aquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar.” “Antes morrer de pé do que viver de joelhos.”

Revolta como contrário de ressentimento. “o revoltado defende aquilo que ele é”. Já “O ressentimento é sempre ressentimento contra si mesmo”.

31: “Ivan Karamazov” “insurreição metafísica” “Eu me revolto, logo existimos”

“A história da revolta metafísica não pode, portanto, ser confundida com a do ateísmo.” “do dândi ao revolucionário” “justificar a perda da autoridade divina”

43-4: análise do mito prometéico, o primeiro Satã. “Zeus (…) cujos dias estão contados”

“a palavra eterna de Édipo que, cego e desgraçado, irá reconhecer que tudo vai bem.”

Epicuro e Lucrécio, dois revoltados antigos. “De espera em espera consumimos nossa vida e morremos todos no sofrimento” “Como Epicteto e Marco Aurélio, Epicuro vai banir a morte da existência humana.” “morrer significa apenas retornar aos elementos. O ser é a pedra.”

52: o infernal Don Juan de Molière, que despreza o lúgubre Convidado de Pedra em seus dizeres de redenção

53: Sade, teórico precoce da vontade de poder. “Toda ética da solidão implica exercício de poder.”

62: o paradoxo do assassino ou psicopata perfeito: Jason. Matar é eliminar o prazer futuro de tirar a vida de alguém, se este fosse o último ser vivo do recinto. Forçosamente haveria uma auto-aniquilação (paradigma de Majin Boo). Mas Don Juan e serial killers têm opções demais pela frente até a primeira repetição do cardápio, que talvez já nem seja repetição… Nietzsche e o prazer do sexo. Perde-ganha.

“O senhor, por sua vez, aceita ser escravo e talvez até mesmo o deseje. ‘O cadafalso também seria para mim o trono das volúpias.’”

Metamorfose imagética de Satã em Vigny: “Um adolescente ‘jovem, triste e encantador’ substitui a besta fera de chifres.”

69: “essa obstinação com o satanismo” “a metafísica do pior” “o poeta, para ser aceito, deve então ser maldito”

“O dandismo é uma forma degradada da ascese.” “audácias da ‘excentricidade’”

76: Ivan, “quixotismo metafísico” “Com este ‘tudo é permitido’ começa realmente a história do niilismo contemporâneo.’ “a lei do assassinato”

Jamais se admite a—ou se deixa de ficar constrangido diante da—morte legal, i.e., a execução burocrática do Estado. Ride the Lightning

“O Único (…) Stirner ri diante do impasse, Nietzsche se atira contra as paredes.” Stirner, o mais “adolescente” do séc. XIX (que o diga a Ideologia Alemã): “a fraternidade é apenas o ‘modo de ver domingueiro dos comunistas’.” “a guerra dos Únicos”

Já em Nietzsche: “O próprio caos também é uma servidão. (…) Em outras palavras, (…) a revolta desemboca na ascese.” “O amor fati substitui o que era um odium fati.”

Hitler: “A doutrina do super-homem levando à fabricação metódica de subomens”

“Devemos ser advogados de defesa de Nietzsche”

Séc. XX e luta de trincheiras pelo território: “colonização a propósito de Hegel”.

“corrigindo Nietzsche com a ajuda de Marx”

Por que o nome “revolta metafísica”? “Nietzsche (…) antes dele Marx, (…) substituem ambos o além pelo mais tarde.”

Começam as tergiversações camusianas: “marxismo-leninismo” como o protótipo desse casamento entre o social e o esquizóide, o político e o artista, o histórico e o natural. “cesarismo intelectual”

“Depois de Moby Dick, O processo, Zaratustra, Os possuídos, o que imaginar?”

“O melhor, um sono bem embriagado na praia.”

Rimbaud

116: surrealistas que se mataram—Crevel, Rigaut e Vaché. Comparado, o movimento em seus atos gratuitos entrópicos, por Camus, a uma apologia de um sujeito que atualmente chamaríamos de Charles Manson.

“o amor sem objeto, que é o das almas torturadas.”

André Breton, o marxista. “Poder-se-iam contar nos dedos da mão os comunistas que chegaram à revolução pelo estudo do marxismo. Primeiro, a pessoa se converte, em seguida, lê as Escrituras e os Padres.” Ser comunista no começo do séc. XX era como acreditar no amor. Era a última escapatória da modorra da vida. Era como estar namorando, se casar, preencher-se com algum afeto; ou mesmo comer alguém na balada. Simplesmente, coisas que todo homem deveria experimentar. Que deixa mais forte quem nele acredita.

“Uma das teses fundamentais do surrealismo é que realmente não há salvação.” “o estado de sítio pouco a pouco se generaliza”

“ainda não houve revolução na história.” Crítica tácita à idéia trotskista: não pode haver governo revolucionário. “Se houvesse revolução uma única vez, não haveria mais história. Haveria uma feliz unidade e uma morte satisfeita. É por isso que todos os revolucionários visam à unidade do mundo e agem como se acreditassem no fim da história.”

A ESTERILIDADE DA REVOLTA DE ESPÁRTACO: “o exército bate em retirada [de Roma], sem ter combatido (…) Começam então a derrota e o martírio.”

143: Rousseau, germe de Stalin

“Em suas instituições, Saint-Just abolia a carne para menores de 16 anos e sonhava com uma nação vegetariana e revolucionária.” Atmosfera insustentável: “Quem critica é traidor; quem não apóia ostensivamente a república, um suspeito.”

“Rousseau, a quem não faltava bom senso, compreendera efetivamente que a sociedade do Contrato só convinha aos deuses.”

“A bandeira vermelha, símbolo (…) do Executivo”

Espanha, a única nação européia a não perder o Rei após a I Guerra Mundial.

“ninguém se torna deus com tanta facilidade”

E os acontecimentos se tornam esmagadores em velocidade, a ponto de este livre ser anacrônico em 50 anos, apesar das verdades milenares que contém.

“Chega o dia em que a ideologia entra em choque com a psicologia. Não há mais então poder legítimo.” “justificados pela (…) ausência de justificação” “o homem (…) de agora em diante estará fadado às revoluções do séc. XX (…) para finalmente fundar a religião do homem.”

“Se bem que haja infinitamente mais em Hegel do que nos hegelianos de esquerda (…) O vencedor sempre tem razão, esta é uma das lições que se pode tirar do maior sistema alemão do séc. XIX.” “Matar ou escravizar” Hegel

Indiretamente, Hegel fundou a atitude terrorista pessoal e de Estado: o matar e morrer pela transcendência, pela missão. Beco sem-saída.

FEUERBACH: “A Phénoménologie, bíblia que só teria profetizado o passado, colocava um limite nos tempos.” “O endeusamento de Hegel por ele mesmo, após a deificação de Napoleão, a partir de agora inocente porque havia conseguido estabilizar a história, só durou 7 anos. Em vez da afirmação total, o niilismo recobriu o mundo. A filosofia, mesmo a filosofia dos escravos, tem também seu Waterloo.”

“Stendhal via uma primeira diferença dos alemães com os outros povos no fato de se exaltarem pela meditação em vez de se acalmarem.”

184: Raskolnikov, Pisarev e o “assassinato da própria mãe”—curioso prelúdio em O Estrangeiro.

“Aquele que entendeu a realidade não se insurge contra ela, antes se rejubila.”

188: Proudhon e seus flertes com o Satanismo

Bakunin a favor de uma ditadura do proletariado. Outro “inimigo marxista” que é seu complemento ideal. Porém, tece-se, à p. 189, uma espécie de bakuninismo-stalinismo.

“O revolucionário é um homem condenado antecipadamente. Ele não deve ter relações românticas, nem coisas ou seres amados. Ele deveria despojar-se até de seu nome. Nele, tudo deve concentrar-se em uma única paixão: a revolução.” Nechaiev

“Com ele, pela primeira vez a revolução vai separar-se explicitamente do amor e da amizade.”

“se a revolução é o único valor, ela exige tudo e até mesmo a delação; portanto, o sacrifício do amigo.”

Este capítulo sobre os primórdios do niilismo russo é também uma genealogia dos atentados terroristas.

“Em 1883, atentado contra o imperador da Alemanha, cujo assassino foi executado a machadadas.” “assassinato de Carnot” + Operação Valquíria. “O futuro é a única transcendência dos homens sem deus.”

“Quanto a Hitler, sua religião confessa justapunha, sem hesitação, o Deus-Providência e o Walhalla.” “Até mesmo sua forma física, medíocre e banal, não representava para ele um limite, fundia-o com a massa.” “Hitler era a história em estado puro.” “A Alemanha desmoronou por ter travado uma luta imperial com um pensamento político provinciano.”

“Quando o procurador inglês observa que ‘de Minha luta, a estrada levava diretamente às câmaras de gás de Majdanek’, ele toca, pelo contrário, no verdadeiro assunto do julgamento, o das responsabilidades históricas do niilismo ocidental, o único, no entanto, que não foi realmente discutido em Nuremberg, por motivos evidentes. Não se pode conduzir um julgamento anunciando a culpabilidade geral de uma civilização. Julgaram-se apenas os atos que, esses pelo menos, eram gritantes diante do mundo inteiro.”

Impossível não lembrar da “paralisação da História” e da eterna guerra em 1984.

“a mãe grega que foi forçada por um oficial a escolher qual dos três filhos seria fuzilado.”

“Esta primeira tentativa de uma Igreja construída sobre o nada pagou-se com a própria aniquilação.”

“Hitler exemplifica o caso, talvez único na história, de um tirano que não deixou nenhum saldo.” “a negação de tudo é servidão”

O TEMPO GREGO: “Aristóteles (…) não se julgava posterior à guerra de Tróia”

“povos nórdicos, que não têm uma tradição de amizade com o mundo

“Marx é o Jeremias do deus histórico e o Santo Agostinho da revolução.”

DE MAISTRE VS. MARX: “A eternidade os separa no princípio, mas a historicidade acaba reunindo-os numa conclusão realista.” “Maistre odiava a Grécia (que irritava Marx, avesso a qualquer beleza solar)”

“O progresso, paradoxalmente, pode servir para justificar o conservantismo.”

“Marx não dispõe de zombarias suficientes para o otimismo racional dos burgueses.” “O positivismo mostra com muita clareza as repercussões da revolução ideológica do séc. XIX, da qual Marx é um dos representantes, e que consistiu em colocar no fim da história o Paraíso e a Revelação que a tradição colocava na origem do mundo.” “ele [Comte] quis ser o São Paulo dessa nova religião e substituir o catolicismo de Roma pelo catolicismo de Paris.” “sociolatria” “religiões horizontais do nosso tempo”

Comte vs. Marx: o primeiro inaugurava uma transição sem sofrimento: “como querem os desordenados marxistas de nosso tempo” “Sua doutrina, que ele [Marx] considerava realista, era efetivamente realista no tempo da religião da ciência, do evolucionismo darwinista, da máquina a vapor e da indústria têxtil.” “Seria mais correto chamar a posição de Marx de determinismo histórico.” “Marx avança mais do que Hegel e dá a entender que o considera um idealista (coisa que ele não é ou, pelo menos, não mais do que Marx é materialista)”

“O proletariado só pode existir no plano da história mundial… A ação comunista só pode existir como realidade histórica planetária.” “Não se espera pelo poder ou então espera-se por ele indefinidamente. Chega o dia em que é preciso tomá-lo, e é esse dia que continua sendo algo meio nebuloso para os leitores de Marx.”

“Michel Collinet, em La Tragédie du marxisme, assinala em Marx três formas de tomada de poder pelo proletariado: república jacobina, no Manifesto Comunista; ditadura autoritária, em 18 Brumário; e governo federal e libertário em A guerra civil na França.”

“Se está garantido que o reino chegará, que importa o tempo? O sofrimento nunca é provisório para quem não acredita no futuro.” “Nessa Jerusalém estrepitante de máquinas maravilhosas, quem ainda se lembrará do grito do degolado?” “No fundo, que diferença tem de Fourier, que anuncia ‘os desertos férteis, a água do mar potável e com gosto de violeta, a eterna primavera…’?” “Mas todo socialismo é utópico, sobretudo o socialismo científico.” “Quem decidirá quanto à oportunidade senão o oportunista?”

Séc. XIX, o dos erros, do “agora vai!”, do “recebi uma mensagem confirmando o fim para tal dia”. O século da soberba crença no eu.

“Ainda no fim do século IV, um bispo da África proconsular calculava que restavam 101 anos de vida no mundo.”

“Sob um de seus aspectos, a história do socialismo em nosso século pode ser considerada como a luta do movimento proletário contra a classe camponesa.” “A luta das nacionalidades revelou-se pelo menos tão importante para explicar a história quanto a luta de classes.” “Divisão do trabalho e propriedade privada, dizia [Marx], são expressões idênticas. A história demonstrou o contrário.” Equívoco!

250: a derrocada da II Internacional. Basicamente conclusões parecidas com as do(a) autor(a) da unidade I de Sociologia Brasileira (Benedict Anderson?).

“o proletariado não teve outra missão histórica senão a de ser traído.” “A história do niilismo contemporâneo não é mais portanto que um longo esforço para dar ordem, apenas pelas forças humanas e simplesmente pela força, a uma história que não tem mais ordem.” “Não se prega a razão; quando isso acontece, não é mais razão.” “Marx não é mais científico do que La Rochefoucauld” “Em outras palavras, estamos no purgatório e nos prometem que não haverá inferno.” Resumo: as relações materiais guiam o homem. O fim da História representa, portanto, o fim da matéria. Voilà!

“cidade definitiva” “A dialética aplicada corretamente não pode e não deve parar.” “a dialética não é nem pode ser revolucionária. Do nosso ponto de vista, ela é somente niilista, puro movimento que visa negar (sic) tudo que não for ele mesmo.”

“O fim da história não é um valor de exemplo e de aperfeiçoamento. É um princípio arbitrário e terrorista.” “A vontade de poder veio ocupar o lugar da vontade de justiça, fingindo inicialmente identificar-se com ela, relegando-a depois a algum lugar no fim da história, quando já não houver mais nada para ser dominado na terra.”

Stalin estava no fim da vida à publicação desse livro.

“Marx, bom estrategista e filósofo medíocre [!]”

LENIN, MAIS MAQUIAVÉLICO DO QUE SE PENSA: “Ele nega a espontaneidade das massas.” Matou o irmão. Ou melhor: mandou enforcá-lo. “O governo das pessoas é substituído pela administração das coisas…” Se essa afirmação pudesse ser ajustada, diria que já somos coisas. “Lassalle, inventor do socialismo de Estado”

“Não ocorreu a nenhum socialista prometer o advento da fase superior do comunismo” Lenin

A URSS mais parece o III Reich em câmera lenta (tudo ou nada).

“A verdadeira paixão do séc. XX é a servidão.”

Cada vez seria mais capaz de apostar que Sartre só veio a se aproximar do Marxismo por pura birra contra Camus.

ORWELLISMO: “A cada ano, às vezes a cada mês, o Pravda se corrige, sucedem-se as edições retocadas da história oficial, Lenin é censurado, Marx deixa de ser publicado.” “a fabricação da verdade” “o rei está nu” “romantismo da eficácia” E a maquiagem do lado ocidental?

“formigueiro de homens sós” “física das almas” “O pão substituído pelo cupom de racionamento” “O estado de sítio, mesmo estendido aos limites do mundo, não é a reconciliação.”

“No universo do julgamento, finalmente conquistado e acabado, um povo de culpados caminhará sem trégua rumo à inocência impossível, sob o olhar amargo dos Grandes Inquisidores. No séc. XX, o poder é triste.” “Se nossa história é nosso inferno, não saberíamos desviar-lhe o rosto. Tal horror não pode ser escamoteado, ele deve ser assumido para ser superado” “elites desonradas dessa época” “renascer ou morrer” Outro bom título para o livro seria CONTRA A REVOLUÇÃO.

“A história necessária, não suficiente, não passa portanto de uma causa ocasional. Ela não é ausência de valor, nem o próprio valor, nem mesmo o material do valor. Ela é a ocasião, entre outras, em que o homem pode experimentar a existência ainda confusa de um valor que lhe permite julgar a história. A própria revolta nos faz essa promessa. (…) Certamente, a história é um dos limites do homem; neste sentido o revolucionário tem razão. Mas o homem, em sua revolta, coloca por sua vez um limite à história.”

“descobri-la [a revolta] em estado puro na criação artística.” “viver e deixar viver”


IV. REVOLTA E ARTE (última seção)

A arte por enquanto ausente. De tudo! “O niilista Nekrassov, grande e comovente poeta, afirma entretanto que prefere um pedaço de queijo a toda a obra de Pushkin.” “Seguindo os intérpretes revolucionários da Fenomenologia, não haverá arte na sociedade reconciliada.” “a arte posta a serviço da revolução” “O sapateiro russo, a partir do momento em que fica consciente de seu papel revolucionário, é o verdadeiro criador da beleza definitiva. Rafael só criou uma beleza passageira, que será incompreensível para o novo homem.” “Notemos efetivamente que, nessa luta entre Shakespeare e o sapateiro, quem maldiz Shakespeare ou a beleza não é o sapateiro, mas, ao contrário, aquele que continua a ler Shakespeare e não resolve fazer botas, que, aliás, ele nunca conseguiria fazer.”

“a última coisa que um artista pode sentir, diante de sua arte, é o arrependimento.” Só artista entende artista. Eu sei o que é o desprezo às artes! A vida toda, jamais reconhecido por aquilo que realmente se é! Eis o valor de nosso tempo…

Não existe fadiga para o artista. Sempre penso no “Gohan, fique nervoso!” aplicado a minha pessoa. É o baygon de parede que atiça as muriçocas! Esmurre meu olho, conviva comigo, pise no meu calo! Estúpido xará, abra essa boca! Fale do que você não compreende uma vírgula. Assim você me alimenta! Eu transformo em jóias preciosas o adubo da sociedade! Zangar-se é em muitos casos a brecha para a mofa!

“o extremo sofrimento tira o gosto pela leitura.”

“A não ser nos instantes fulgurantes da plenitude, toda realidade é para eles [os homens revoltados] incompleta.” “entender a vida como destino, eis sua verdadeira nostalgia”

Todos os insetos são assim: nunca se insurgem contra você antes que você manifeste sua clara desaprovação primeiro. Depois, só o que sabem ser são marimbondos, como que libertados após mil anos, sem distinguir graça de ridículo, grandeza do que é vil, i.e., eles mesmos. Esses imbecis do banho-maria são o que há de pior! Mas antes uma ferramenta que mostre a desaprovação instantânea da outra pessoa, e que remanesça tudo bem, depois dos pratos limpos, do que todo esse acúmulo de sujeira invisível que só nubla o coração, embora ainda não a visão!

“Parece que as grandes almas, às vezes, ficam menos apavoradas com o sofrimento do que com o fato de ele não durar. (…) nossas piores torturas um dia chegarão ao fim. Certa manhã, após tanto desespero, uma irreprimível vontade de viver vai nos anunciar que tudo acabou e que o sofrimento não tem mais sentido que a felicidade.”

“O vergonhoso sofrimento do amante, a partir de agora solitário, não é tanto de não ser mais amado, mas de saber que o outro pode e deve amar ainda. Em última instância, todo homem devorado pelo desejo alucinado de durar e de possuir deseja aos seres que amou a esterilidade ou a morte. Esta é a verdadeira revolta.”

Poor and idiot guy,

You should know that I never decline!

“Dar nome ao desespero é superá-lo. A literatura desesperada é uma contradição em termos.”

“heróis perturbadores” “Julien Sorel” “eles terminam aquilo que nós nunca consumamos” “paliativo de uma realidade falhada” Os protagonistas dos romances são como que terroristas. Parece que sempre há tempo para mudar de idéia e ir fazer outra coisa… Escrever mais uma linha… Arrepender-se de seus crimes…

304: Faulkner e os cínicos americanos. Se fosse pintura, seria modernista, estilizada: “Neste nível mecânico, na verdade, os homens se parecem, explicando-se, desta forma, o curioso universo em que todos os personagens parecem intercambiáveis, mesmo em suas particularidades físicas.”

PROUST: “As moças em flor riem e tagarelam eternamente diante do mar, mas aquele que as contempla perde pouco a pouco o direito a amá-las, assim como as que ele amou perdem o poder de serem amadas.”

Afirmação absoluta ou negação absoluta são igualmente prejudiciais nas artes (realismo e niilismo). Algum outro período histórico em que se tentou um realismo? “a arte dos macacos” “a arte moderna [.ak.a. politizada], em sua quase totalidade, é uma arte de tiranos e de escravos, não de criadores.”

O PROBLEMA FORMA-CONTEÚDO: “A arte é uma exigência de impossível à qual se deu forma. (…) Como o verdadeiro classicismo não é mais que um romantismo domado, o gênio é uma revolta que criou sua própria medida. Por isso, não há gênio, contrariamente ao que se ensina hoje, na negação e no puro desespero.”

COROLÁRIO: “a sociedade capitalista e a sociedade revolucionária são apenas uma, na medida em que se escravizam ao mesmo meio—a produção industrial” “a era do comentário perpétuo e da reportagem agoniza; ela anuncia então a era dos criadores.” Época antropofágica. Deifágica. Amanhã: Leonardo da Vinci vs. Napoleão? “Só como exceção se encontram assassinos entre os artistas.” “Torturadores humanistas” “as vítimas (…) entediam.”

Sangue: mais banal que graxa. A era do “zombie proudness”. A cabeça decapitada ainda é livre.

“Quando Caim mata Abel, ele foge para o deserto.”

Forrest Gump é um cara que “se cansa” das coisas e não vai até a última conseqüência, como nos romances. Ou será que ele se apazigua com seu filho indo para a escola? Se bem que seus afetos são sem-fixos… Brotar-lhe-á um novo amor carnal?

“a música silenciosa que ainda irá transfigurar os infernos terrestres.”

“A física confirma a filosofia”

“O pensamento aproximativo é o único gerador de real.” Ernst Bickel

“a ciência servirá talvez à revolta individual [num futuro próximo]. Esta terrível necessidade marcará a virada decisiva.”

339: Heráclito e Nêmesis, a deusa da medida

No limbo entre cinismo e humanismo. Se eu fosse um jogador seria um meio-campo cerebral, desses que faltam hoje em dia.

342: países do Norte—rei e sindicatos coabitando! Serenidade grega… “justo retorno das coisas” “ideologia alemã (…) i.e., tirania.”

“Nossa civilização vegeta (…) no desejo das pequenas glórias de velhos adolescentes.” Lúcifer pós-rebeldia: seu pecado é a desmedida (alçar-se, invertido, ao lugar daquele que combate por abjeção). A importância do budismo. Epicurêca; Senicuro.

“A revolta é a medida, é ela quem a exige” “palavras de coragem e de inteligência (…) junto ao mar” “as crianças continuarão a morrer sempre injustamente, mesmo na sociedade perfeita.” “O ‘por quê’ de Dimitri Karamazov continuará a ecoar; a arte e a revolta só morrerão com a morte do último homem.” “o segredo da Europa é que ela não ama mais a vida.” Por que Ulisses preferiu Ítaca a se tornar Imortal?

“aqui se encerra o romantismo. (…) é preciso renunciar à época e aos seus furores adolescentes. O arco se verga, a madeira geme.”

[ARQUIVO] O SUPER-HOMEM CONTRA A DIALÉTICA

 

Originalmente publicado em 3 de maio de 2010


A) DELEUZE—Nietzsche e a Filosofia—CAPÍTULO 5

Diferença entre os designativos:

– Homem-Deus: o homem à la Ivan: “tudo é permitido”.

– Deus-Homem: Cristo—Deus no formato circunstancial de homem {primazia do 1º elemento}.

“Na verdade, para o olho do genealogista, o trabalho do negativo é apenas uma grosseira aproximação dos jogos da vontade de poder.” Hegel como a consciência onisciente dos fins a que conduzem as sucessivas negações das negações… Somente na genealogia há algo novo.

Sobre inversões e manutenções de significado: “Stirner é o dialético que revela o niilismo como verdade da dialética”—poderia ser: Stirner é o niilista que revela a dialética como verdade do niilismo. Não se está saindo do lugar.

AMOR ENQUANTO LUBRIFICANTE DA EXISTÊNCIA: “Só do amor me pode vir a vontade de meu desprezo e de meu pássaro anunciador, não do pântano.” Nietzsche


B) HEIDEGGER—A Sentença Nietzscheana “Gott ist Tot”

“A destituição do supra-sensível desemboca em um nem-nem” “rompantes epocais” “Todo pensamento metafísico é onto-logia ou não é absolutamente nada.” “A obra central planejada nunca foi levada a termo.” Frase antes cunhada por Hegel. E até Pascal.

“também os deuses apodrecem” “A grandeza deste ato não é grande demais para nós?” “O mais sinistro de todos os hóspedes” A grande pergunta desse texto sequer será “qual a gênese”, mas “qual o telos do niilismo?”. “O pessimismo da força” Ele executa o que intentarei: uma hierarquia dos diferentes niilismos. A recriação de Deus/deus (minha fala simplificadora no seminário). Como pode ser que na Rússia o Cristianismo se liquidou primeiro? Porque este sempre fôra o país mais cristão. Mesmo antes de ser cristão. Almas/personas e doutrina se encaixa(va)m. Napoleão como protótipo níti-do.

Por que “a-metafísico”?

“O artista é apenas um estágio prévio.” Nietzsche

“A arte é o valor supremo” Heidegger

Nomenclaturiza as coisas de modo a tornar N. em algo parecido com Descartes! Mais da metade da leitura transcorrida e por enquanto nada de pré-socráticos sendo citados.

“do uso e do abuso da História para a vida”—versão em inglês. “seria (…) equivocado se se quisesse tomar a formulação do princípio valorativo como uma prova de que Nietzsche filosofa existencialmente. Ele nunca fez isto. Mas ele pensou metafisicamente.”

Aristóteles e “o quarto livro de sua Metafísica”. “Kierkegaard não é nenhum pensador, mas um escritor religioso.”

Compreensão errônea do supra-homem. S-H: Querer querer. “a tarefa de assumir o domínio da terra” “Somente quando um pensamento futuro for levado até o ponto de pensar este Livro para todos e para nenhum em conjunto com as Investigações sobre a essência da liberdade humana, de Schelling (1809), e isso significa concomitantemente, em conjunto com a obra hegeliana A fenomenologia do espírito (1807), e isso significa concomitantemente, em conjunto com a Monadologia (1714) de Leibniz, e de pensar essas obras não apenas metafisicamente, mas a partir da essência da metafísica, serão fundados o direito e o dever, assim como o solo e o campo de visão para uma discussão.”

“O grande meio-dia” Sol, horizonte, mar… Hannah Arendt. Não vejo, ao final, nenhum postulado novo; apenas uma introdução amigável. Última linha: “O pensamento só começará ao experimentarmos que a razão há séculos glorificada é a mais tenaz rival do pensamento.”

O “não-posicionamento nietzsch3eano diante da existência ou não de Deus”—utilidade da mentira. Tudo é um como se… Aceitemos a factível existência Dele: infelizmente o homem perdeu o valor para acreditar Nele. Ou felizmente.

[ARQUIVO] ORIGEM DA TRAGÉDIA —OU GRÉCIA E PESSIMISMO—

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

30: a ilusão do eu vs. o caos

38: Rei Midas e Sileno, o tutor de Dioniso

44: A Transfiguração, de Raffaelo Sanzio (capa)

51: lições de perspectivismo

61: “o aniquilamento budista da vontade na Grécia Antiga; Hamlet, o Homem “Ridículo e Envergonhado” do Vontade de Potência.

72: Édipo em Kolonos: o passivo ativo e o ativo passivo

75: Adão, Eva e Prometeu, o Ariano

79: o Platão dionisíaco

82: Eurípides, o discípulo teatrólogo de Sócrates, o envenenador involuntário da Tragédia e do mito

83: “O grande Pan morreu!”

91: o paradigma da participação

101: sabe-se que o protagonista não morrerá—por uma ficção anti-heróica

107: a ciência enquanto ócio criativo e jogo

111: “renascença da tragédia”

142: bazuca agora mira a universidade e o jornalismo

149: o choque fatal da barca de Tristão e Isolda como uma solução mítica, digna de Édipo!

151: mérito, ou “escapatória”: enxergar (ou inserir) finalmente a necessidade do apolíneo, tão trucidado ao longo do texto

155: desde já um ferrenho antagonismo a Aristóteles

163: exortação à guerra ariana


“a morte é o prazer supremo, enquanto significa o reencontro com a origem.” Ciro Mioranza

“Existe um pessimismo da força?”

“um livro que (…) deu satisfação aos ‘melhores de seu tempo’ (…) entretanto, não quero dissimular de modo algum a impressão desagradável que hoje me produz: quão estranho se apresenta a mim dezesseis anos depois” Nietzsche 1888

“Talvez hoje eu fosse mais circunspecto, menos eloqüente para tratar de uma questão psicológica tão complicada como é a busca das origens da tragédia entre os gregos.”

“Há porventura—pergunta para os psicanalistas—uma neurose da saúde?”

“um desejo de nada, de morte, de repouso, até o ‘sabbat dos sabbats’”

“passagem do ‘matador de dragões’ (…) Não é a autêntica e verdadeira profissão de fé do romantismo de 1830 sob a máscara do pessimismo de 1850?”


“Meu amigo, esse é precisamente o trabalho do poeta,

Observar e interpretar seus sonhos

Acredite, a ilusão mais verdadeira do homem

a ele se manifesta no sonho;

Toda arte poética, toda poetização

Nada mais é que tradução verdadeira do sonho.”

Hans Sachs, Mestres Cantores


“Ouvi dizer também que certas pessoas possuíam a faculdade de prolongar a causalidade de um só e mesmo sonho por três e mais noites consecutivas.”

“Eurípides em As Bacantes, o sono nos altos caminhos das montanhas, sob o sol do meio-dia.”

“Se esse mundo tendesse a um fim, esse fim já teria sido alcançado”

“se esquece aquilo que todos sabem”—se esquece que não há indivíduos

METAFÍSICA DO ARTISTA: “Todo o nosso conhecimento da arte é no fundo absolutamente ilusório (…) É somente no ato de criação artística e na medida em que se identifica com esse artista primordial do mundo que o gênio sabe algo da eterna essência da arte; pois, nesse estado, é então, por milagre, semelhante à perturbadora figura da fábula, que tem a faculdade de voltar seus olhos para dentro e se contemplar a si mesma; ele é agora, de uma só vez, sujeito e objeto, de uma só vez poeta, ator e espectador.”

“O conhecimento mata a ação, à ação pertence a miragem da ilusão—este é o ensinamento de Hamlet.”

“em todos os criadores, o instinto é precisamente a força positiva, criadora, e a razão consciente é uma função crítica, desencorajadora”

TODOS OS POSTULADOS DO ETERNO RETORNO E DO NIILISMO JÁ INCLUSOS EM SUA OBRA INICIAL: “Quando, cheio de espanto, vê nesse limite extremo a lógica se enrolar sobre si mesma como uma serpente e morder-se a cauda—então surge diante dele a forma mais nova do conhecimento, o conhecimento trágico, do qual lhe é impossível suportar unicamente o aspecto, sem a proteção e o auxílio da arte.”

CONTINUAÇÃO DO EQUÍVOCO: “reflexo da própria vontade e, portanto, representa, com relação a todo o físico do mundo, o metafísico, e com relação a toda aparência, a coisa em si. De acordo com isso se poderia denominar o mundo (…) música corporificada” Schopenhauer

“O deus ex machina tomou o lugar da consolação metafísica.” HAPPY END—imagine-se Aquiles voltando pra mamãe!

“cultura alexandrina [socrática] ou helênica ou budista.”

“Parece somente que revivemos analogicamente, de algum modo na ordem inversa, as grandes épocas decisivas do helenismo e que remontamos, p.ex., da era alexandrina até a época da tragédia.”

“Com o tirso(*) nas mãos, coroem-se de heras e não se admirem se o tigre e a pantera se deitam a seus pés, acariciando-os. Ousem ser agora homens trágicos: pois, devem ser redimidos. Vocês devem escoltar o cortejo dionisíaco da Índia à Grécia!”

(*) “O tirso era um bastão encimado por uma pinha rodeada de gavinhas de videira e de ramos de hera; era um dos símbolos de Dioniso.”

“Para sair do orgiasmo, não há para um povo senão um caminho, aquele do budismo indiano.”

“Em cada propagação importante de excitações dionisíacas, pode-se sempre notar que a liberação dionisíaca das algemas do indivíduo se manifesta primeiramente numa depreciação dos instintos políticos que chega até a indiferença e mesmo até a hostilidade.”

ANTI-ANTICRISTO: “Colocados entre a Índia e Roma e impelidos a uma escolha tentadora, os gregos conseguiram descobrir, com pureza clássica, uma terceira forma, a qual não foi usada por eles por longo tempo, mas, justamente por causa disso, é imortal.” Falta de vontade ou excesso de vontade: o Cila ou Caribde do macrocosmo cultural.

“os prediletos dos deuses devem morrer cedo”

“com um exame rigoroso cada um (…) [vai] chegar (…) por intermédio de abstrações, a acreditar numa existência real do mito no passado.” “As imagens do mito devem ser os guardas demoníacos, invisíveis e onipresentes, propícios ao desenvolvimento da alma adolescente e cujos sinais anunciam e explicam ao homem sua vida e suas lutas”

“Não escrevo tratados; estes são para asnos e leitores de periódicos”


Anotações de cunho pessoal & Poesia:

Parece que de um modo ou de outro eu sou um exímio artista plástico!

Por que desejaríamos o pesadelo?

Eu não sou um indivíduo, eu sou só uma retaliação.

O GATILHO—Assim como Billy Elliot quando dança, quando escrevo já não sou mais eu. Eu, rá, que petulância! Sou só um hospedeiro, e a caneta mais segue a natureza que uma mão humana volitiva!

There’s nothing to worry about…

It’s never YOU, never your fault!

Cause of the click of the forgotten…

Querer ser um artista—o que representa? Vontade de reconhecimento instantâneo, de matar dragões.

As cerimônias do Ocidente foram todas feitas para acentuar o que há de ridículo nas pessoas.

O que os olhos não vêem, o coração não sente, mas especula. E não há anestésico melhor do que a certeza do olho.

Pp. 92-4 (trecho também em O Caso Wagner): Sócrates mata essa personalidade sobrenatural tácita no artista, de modo que subsista tão-somente a capa/máscara, i.e., aquilo que antes deveria ser o corpo e hospedeiro—mas que, por não ter mais nenhuma função metafísica, perde a razão de existir, de estar aí. Esterilização do mundo. Anti-natureza. O homem como desafio, aberração, excrescência. Ilusão de que se pode mudar a História (essa própria reviravolta não passando de uma fatalidade dionisíaca, por Dioniso). Perda “agendada” do Uno de si mesmo.

Gênese do conceito de “sombra” em Nietzsche: quando seu segundo, sua segunda natureza (ou sua primeira) surge e dialoga ou então toma a palavra tiranicamente. Resta ao corpo frágil aparar as arestas ou tornar-se o pára-raio das conseqüências, com os dedos cruzados. Porém, este é um personagem que jamais pode ser chamado. Ele aparece, no nosso melhor humor.

But everything is gonna work out fine

If it don’t, I think I’ll lose my mind, yeah!

A importância apregoada ao sonho do fim da vida de Sócrates: “Sócrates se dedicando à música”. Ele que chegou às culminâncias… Se há uma teleologia do indivíduo, aquele que antes da metade da vida já é adepto do trágica fica então louco!

O que deve ser corrigido na análise: a Música per se não define o triunfo do trágico, porque ela pode ter sido elaborada segundo a dialética socrática; ao mesmo tempo, produções culturais presentes ou vindouras podem se apresentar num formato cênico; porém com elementos trágicos predominantes, i.e., o instinto grego original sendo aquele que conduz as personagens, por trás da trama aparentemente racional.

CONCLUSÃO: Não existe a variável artística proeminente/sobressalente que determine as demais.

Unidade nos fragmentos, seus tolos!

O hiper-defeito de Marx: cego em relação à arte (Ideologia Alemã como panfleto político icônico). Engels, a despeito de entender “a vida como um processo contínuo”, ainda só quer o fim dele. O conceito consciente de comunismo é apenas disfarce. A. e T. estão todos no mesmo rol dos doentes caluniadores da vida. Não há diferença nenhuma entre eles, a rigor, para a análise que se aprofunde 3 milímetros na epiderme.

“Então Prometeu foi CASTIGADO porque…”—tal não existe. O auto-aniquilamento da força—quer viver, POR ISSO, quer também morrer. “Viveu como morreu” filósofo Bart. O herói da era cristã nunca está atrás de promover o injusto! Só “consertar erros”… Existência eternamente falhada. Depois do happy end, todo herói morre. Nós tornamos o mundo imperfeito para que, durante o grande jogo, ele tenha realmente ares de perfeito.

É porque 90% dos expectadores de filmes são passivos e não modificam suas vidas, nada aprendem, que eu tinha uma aversão metafísica pelo gênero? Preferia livros, moldadores de caráter? Só assim eu aceito “participar”: música e outros que reflitam nos meus próximos passos. [escolher: meditar o trabalhar—parece que de nenhuma forma se é mais do que um zumbi]


De 30 de março a 4 de abril de 2011

[ARQUIVO] LA ROCHEFOUCAULD

 

1ª PARTE

Mascaramento de imperfeições—exemplo: “Eu não posso. Logo, eu não quero.”

Devidamente transposto no séc. XIX, quando começou a ascender o amor ao nada: “Há no coração humano uma geração perpétua de paixões, de modo que a ruína de uma é quase sempre o estabelecimento de outra.”

“somos muitas vezes firmes por fraqueza e audaciosos por timidez.” (*)

“Os homens odeiam até mesmo aqueles que lhes prestam serviços e deixam de odiar aqueles que os cobriram de ultrajes.”

“a moderação dos homens em seu mais alto grau é desejo de parecer maiores que sua fortuna.” Nem muito feliz nem muito cabisbaixo publicamente: assim espanta-se o mau agouro dos invejosos e a compaixão destrutiva dos piedosos.

“excetuando-se sua enorme vaidade, os heróis são feitos como os outros homens.”

“Nem o sol nem a morte podem ser encarados fixamente.”

(*) Desfecho de Zaratustra: a verdade é que o anfitrião deveria ter sido mais duro com os visitantes desde o início, mas sua reação retardada mostrou ser a melhor de todas. Porque nós, metade tiranos, tiranos do espírito, temos pena dos outros, mas não de nós mesmos. E aí somos cruéis ao máximo com os outros, indiretamente (mas em cheio), assim que ficamos com raiva do nosso próprio sentimento de pena.

MAIS UMA: “O mal que praticamos não atrai tanta perseguição e ódio quanto nossas boas qualidades.”

A diferença entre ciúme e inveja: “merecer” ou não uma coisa. Têm inveja da minha escrita; eu sou enciumado de mestrandos burros.

“Eu quero que você seja feliz!”—quanta maldade nesse desejo!

O mito do amor crescente—talvez os mais nobres sentimentos devessem ficar incomunicáveis.

O orgulho é constante numa vida—o problema é que ele se disfarça em “orgulho silencioso” quando o amor-próprio não é mais exteriorizado, seja porque se o percebeu ofendido e atacado pelos outros, seja porque simplesmente é-se mais virtuoso, e isso encolhe a vaidade e a pavonice: a tranqüilidade da superioridade. Ou seja: palavras viram desprezo. O maior tagarela e prosador torna-se o maior desprezador.

PENA DOS BILIONÁRIOS: “Por diferentes que sejam as fortunas, há, contudo certa compensação de bens e de males que as torna iguais.”

P. 22: o ideal de pobreza dos filósofos; maus do século XVII; do humor.

“Ocorre com o verdadeiro amor o mesmo que com a aparição de fantasmas: todos falam deles, mas poucos já os viram.”

“Um ingrato pode ser menos culpado de sua ingratidão que aquele que lhe fez o bem.”

“É uma espécie de galanteio fazer notar que nunca usamos galanteios.”

Espírito: o enganador. Coração: suas verdadeiras disposições.

“Os defeitos do espírito, como os do rosto, aumentam com a idade.”

“O que mais liberalmente damos são conselhos.”

“fazemos o bem para podermos impunemente fazer o mal.”

“O uso contínuo da astúcia é a marca de um espírito pequeno.”

Talvez possa antecipar a síntese máxima desse livro: que nossa força reside em sermos seres fracos. Sempre obtemos bem mais do que parecemos capazes de fazer. Nós, as pontes, nós os comediantes, nós que tratamos bem a maioria dos interlocutores—não há como não surpreender!

“Há pessoas que jamais teriam se apaixonado se não tivessem ouvido falar do amor.”

“Preferimos falar mal de nós mesmos a não falar de nós.”

“procurar tão insistentemente agradar a si mesmo é um meio equivocado de tentar agradar aos outros ou persuadi-los”

“Um homem de espírito haveria de ficar com freqüência muito embaraçado sem a companhia dos tolos.”

Sob várias formas ao longo do livro: “A natureza faz o mérito e a sorte lhe dá emprego.”

“O que nos leva a apegar-nos a novas amizades não é tanto o cansaço que temos das antigas ou o prazer de mudar, quanto o desgosto de não sermos admirados por aqueles que nos conhecem demais e a esperança de sermos mais admirados por aqueles que não nos conhecem.”

“Esquecemos facilmente nossos erros quando somente nós os conhecemos.”

“Quem vive sem loucura não é tão sensato quanto pensa.”

“A distância diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e acende o fogo.”

“Há maus que seriam menos perigosos se não tivessem nenhuma bondade.”

“Por que é que temos bastante memória para reter até nos mínimos detalhes o que nos aconteceu e que não tenhamos bastante para lembrar quantas vezes os contamos à mesma pessoa?”

“Por vezes supomos odiar a bajulação, mas só odiamos a maneira de bajular.”

“É mais difícil ser fiel à amante quando se é feliz do que quando se é maltratado.”

“As mulheres desconhecem toda a sua afetação.”

“O sotaque da região em que nascemos permanece no espírito e no coração, como na linguagem.” (???) P.S.: Como os gaúchos—as gaúchas—são orgulhos@s (vaidosas?) da sua própria voz! Nisso, já beiram a xenofobia…

“O maior milagre do amor é curar da afetação!”

“É muito difícil romper quando a gente já não se ama.”

“Aborrecem-nos quase sempre aqueles com quem não é permitido se aborrecer.”

“Somente as pessoas que evitam causar ciúmes é que são dignas de que se tenha ciúmes delas.”

“O ciúme nasce sempre com o amor, mas nem sempre morre com ele.”

“Sabe-se muito bem que não se deve falar da própria mulher, mas não se sabe suficientemente que menos ainda se deveria falar de si.”

“As violências a que nos submetemos para nos impedir de amar são muitas vezes mais cruéis que os rigores de quem amamos.”

“Quase todos os jovens pensam ser naturais, quando são apenas mal-educados e grosseiros.”

“A inveja é destruída pela verdadeira amizade”

“A violência que nos fazemos para permanecer fiéis a quem amamos não vale mais que uma infidelidade.”

“Ela não era bonita”—a flecha do cupido demora muito até ser retirada.

“Perde-se às vezes o ar burguês no exército, mas nunca na côrte.”—distinguir-se pelo valor, não pela afetação. Talvez fosse o remédio para os mais esdrúxulos dessa classe média candanga, principalmente dessa ralé empertigada dos cursinhos de direito.

“Guarda-se por muito tempo o primeiro amante, enquanto não se arranja um segundo.”

“O que menos se encontra no galanteio é amor.”

A Filosofia é útil para o passado e o futuro, mas não serve para o presente.

Quanto mais distante a perspectiva da qual se observa a vida, menos ela faz sentido. Hoje, aqui, tudo é plenamente coerente.

“As afetadas se sentem honradas com os ciúmes que têm de seus amantes, para esconder que têm inveja das outras mulheres.”

“Poucos sabem ser velhos.”

“As mulheres que amam perdoam mais facilmente as grandes indiscrições que as pequenas infidelidades.”

“Nada impede tanto ser natural que a vontade de sê-lo.”

“É mais fácil conhecer o homem em geral que um homem em particular.”

“Não desejaríamos praticamente nada com ardor, se soubéssemos perfeitamente o que desejamos.”

“Tratamos de nos orgulhar dos defeitos que não queremos corrigir.”

“A velhice é um tirano que proíbe sob pena de morte todos os prazeres da juventude.”

“Nas primeiras paixões as mulheres amam o amante [lato sensu] e nas outras, amam o amor.”

NADA CONSOLADOR: “Por mais raro que seja o verdadeiro amor, é ainda mais raro que a verdadeira amizade.” Eu não usufruí nem de um, nem da outra.

“A vontade de ser lamentado ou admirado constitui muitas vezes a maior parte de nossa confiança.”

CONSOLADOR: “A mesma firmeza que serve para resistir ao amor serve também para torná-lo violento e duradouro e as pessoas fracas, que são sempre agitadas pelas paixões, quase nunca a têm verdadeiramente.”

“A timidez é um defeito perigoso de repreender nas pessoas que queremos livrar dela.”

“Quando temos o coração ainda agitado com o que resta de uma paixão, estamos mais perto de sermos invadidos por uma nova do que quando inteiramente curados dela.”

“Geralmente só se conta o primeiro galanteio das mulheres depois do segundo.”

AFORISMO 500: “Há pessoas tão centradas em si mesmas que, quando estão apaixonadas, encontram meios de se ocupar de sua paixão sem se ocupar da pessoa que amam.”

P. 74: consideração sobre os suicidas e outros. O diário problema da morte. O mais divertido é que a morte em si não existe—mas a reputação é um pós-morte vivido na vida muito importante! Um suicida é, no mínimo, muito mais nobre que qualquer fiel de religião. Porque isso se chama: viver a vida com covardia. Não adianta parasitar um organismo que desejaria ser suprimido dessa maneira anêmica.


2ª PARTE

P. 79: um pouco de História

P. 80: um pouco das possessões e viagens ilustres de La Rochefoucauld

P. 81: sobre a relatividade da beleza—quando as menos belas desbancam as mais belas

As frases da primeira parte ajudam bastante aqui, dados os vocábulos dos quais o autor retira um significado bastante específico e “de época”, como “humor” ou “espírito”; mas, na realidade, é bem provável que estes parágrafos maiores tenham sido escritos antes e aí sim La Rochefoucauld engastou e poliu suas pérolas, já que a arte dos aforismos do sábio é mais bem-elaborada e marcante.

P. 87: a inevitável beleza da espontaneidade infantil

Exatamente o que vinha pensando mais dia, menos dia: o retrato da decadência desta sociedade é que o adulto é sempre feio, não se sente confortável. Educação falha—super-coação dos poucos que tentam prosseguir mais ou menos na mesma marcha harmônica. “Isso é o certo para a sua idade”—padronização extenuante; rejeição das atitudes e hábitos dos bem-nascidos, como intolerância ao seu perguntar incessante, ao seu falar e ao seu contar, risadas a suas observações mais ingênuas. Coação dos próprios moleques já pervertidos a um estilo absolutamente bárbaro e fanfarrão—mesmo Aquiles passaria belos anos de tormenta no mar antes de voltar pintado de ouro, desta socialização que tentou vencê-lo (para não falar de Ulisses). Hoje até os homens são superafetados. “Mantenha a boca fechada, você fica parecendo bobo assim” “Cada um quer ser outro e não ser mais o que é” “Você fica bravo quando escuta música?”—talvez eu lance um CD sampleado com “Vozes do Rebanho—greatest hits”. “Fuleiro buddy” “corta esse cabelo”…

CRÍTICA AO MODERNO: faltam salões amplos.

ILUSÃO DE QUE SE PUDESSE SALVAR ALGUMA COISA: “não temos a força de terminar voluntariamente e, no declínio do amor como no declínio da vida, ninguém pode decidir-se a prevenir os desgostos que deverá ainda experimentar.”

P. 108: homem, o superanimal

P. 119: as semostradeiras e sua paixão por velhos que “já foram alguma coisa”.

“Pode-se ter ao mesmo tempo um ar sério no espírito e dizer muitas vezes coisas agradáveis e alegres” “Os jovens têm usualmente o espírito alegre e zombeteiro, sem o terem sério, e é isso que os torna muitas vezes importunos.”

“Que pessoas teriam começado a se amar se elas se tivessem visto antes como se vêem na seqüência dos anos?”


De 10 a 19 de março de 2011

[ARQUIVO] EXTENSÃO DOS COMENTÁRIOS PASSADOS (Zaratustra)

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

28: o “homem da morfina”

31: representando uma comédia

38: “deserto”, “dragão”; a solidão do sábio, as agruras e a moral do mundo ocidental.

39: eu já sou a criança

40: a luta do dia a dia. Para o insone. É preciso cair desprotegido, acabar com o ranger de dentes.

43: metafísica antropomorfa

52: escrever com o sangue

83: a constante alegoria da flecha. Estás aqui, há ainda muito por viver…

86: a cidade de “Vaca Malhada”. Uma tarde de sabedoria.

96: desaguar no mar

116: sobre o iminente uso indevido dos postulados de Zaratustra

117: o asno

123: da sensualidade e da dança

125: sobre a perda de amigos

145: da sucessão dos poetas. Sensação de descrever o inefável em vão.

147: preservai os monumentos

156: para se livrar de Hegel

173: o anão e o eterno retorno; o pórtico do “instante”.

174: o jovem e a temerária serpente em sua boca

182: não há teias e fins, mas dados e jogadores

193: Estado e Capital

200: cena digna de Ulisses

219: o grande déspota que manipula o passado

233: do pensamento abissal

235: novo círculo, nova serpente. Velho expediente. Declaração de morte à metafísica.

287: o nojo da elite

291: “Tudo é permitido.”

303: paródia da bíblia. Mas esta é o livro inteiro! Ausência da mulher em qualquer candidato.

322: o homem, emulador de todos os animais

328: a Europa aleijada


Da desilusão histórico-maníaca nietzschiana ou a sucessão ad infinitum de erros humanos no projeto de consecução da transmutação de todos os valores. No final de O Anticristo—mas não só deste livro, e costumeiramente assim que realmente vai se acercando do fim do que ia dizer—é clarividente o tom lamurioso, a oscilação, provocados pela narrativa de momentos cruciais em que o homem moderno ou ainda o homem antigo mais tardio falhou ao intentar a milenar inversão de valores, fosse com a desagregação/implosão do Império Romano; o retrocesso da Renascença; ou as Cruzadas e a expulsão dos mouros. É como se insidiosamente o devir brindasse o homem sedento pela volta da nobreza com uma irônica solene recusa. Cabe todo esse descontentamento? Ele ser considerado válido dentro da habitual lógica nietzschiana? Que outras lições advêm daí? As características da nostalgia e do remorso são realmente chamativas em sua obra. Poderia isso querer dizer, em que pese tudo, que a realidade empírica do homem seja transfigurar-se em seu ideal, que ainda assim o ocaso e soçobramento do niilismo estão fora de questão? O que garante a ocorrência, por fim, desta tal “guerra santa de indivíduos” e o desmantelamento dos Estados-nações? De Sócrates a Lutero, Napoleão, César Augusto e César Bórgia e Maquiavel, ele parece não aceitar a efemeridade do gênio ou a faceta obscura dessas populações privilegiadas. Devemos assumir no mínimo que ninguém está isento de cometer seus errinhos, erros e grandes gafes.

“Zaratustra quis voltar a ser homem”

SOBRE COM QUE PESSOAS NÃO É FUNESTO LIDAR ROTINEIRAMENTE: “Gosto muito também dos pobres de espírito. Favorecem o sono. São bem-aventurados, mormente quando se lhes dá sempre razão”

“Teu Em-si se ri de teu Eu e de seus impulsos arrogantes.” O belo diálogo—ou ordens unilaterais—do instinto (do corpo, da matéria!) com a(à) consciência.

“Mais um século de leitores e o próprio espírito terá mau cheiro.”

“meu demônio (…) o espírito da gravidade”

“amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas estamos habituados a amar.

Há sempre algo de loucura no amor, mas também há sempre algo de razão na loucura.”

“Onde acaba o Estado—Olhai para lá, meus irmãos! Não conseguis ver o arco-íris e as pontes que levam ao super-homem?”

“Teu sonho deve revelar-te o que faz teu amigo quando desperto.”

“Os mais afastados são os que pagam seu amor ao próximo e desde que vos reunis em cinco, um sexto é que vai morrer.”

“Enfim, meus irmãos, evitai ser injustos com os solitários. Como poderia um solitário esquecer? Como poderia tomar medidas?”

“Que filho não teria razão para chorar por causa de seus pais?”

“mesmo o mais astuto compra suas mulheres às cegas.”

“Muitas breves loucuras, isso é que chamais amor. (…) casamento (…) tolice prolongada.”

“Solitários de hoje, que viveis marginalizados, algum dia devereis chegar a ser um povo. De vós que vos escolhestes a vós mesmos, deverá surgir e crescer um povo eleito, do qual nascerá o super-homem.”

“Na verdade, vos aconselho: Afastai-vos de mim e precavei-vos contra Zaratustra! Melhor ainda, envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado!”

“E o grande meio-dia será quando o homem estiver na metade de seu trajeto, entre o animal e o super-homem, se mantiver firme, como sua esperança suprema, e festeja seu caminho para o acaso, porquanto será o caminho para uma nova manhã” “E o sol do conhecimento atingirá seu zênite.”

“Em torno de nós reina o outono”

“Se existissem deuses, como poderia eu suportar não ser um deus? Por conseguinte, não há deuses.”

“Nunca houve até hoje um super-homem”

“Em meus filhos quero remediar o fato de ter sido filho de meus pais. E, no futuro, todo, quero remediar este presente.”

“É difícil viver entre os homens porque é muito difícil calar. Sobretudo para um falador.”

“e aquele que quiser permanecer limpo entre os homens deve aprender a lavar-se em água suja”

“Até acredita em vossas mentiras, se mentis bem a respeito dele, porque no fundo do coração suspira: ‘Quem sou eu?’”

“Bendito seja aquele que endurece!”

“Aquele que foi de minha têmpera tropeçará em seu caminho com aventuras iguais às minhas, de forma que seus primeiros companheiros só poderão ser cadáveres e palhaços.

Seus segundos companheiros, porém, serão chamados seus fiéis: um enxame animado, muito amor, muita loucura, muita veneração juvenil.

A estes fiéis não deverá ligar seu coração aquele que dentre os homens for de minha índole. Nessas primaveras e nesses prados de variadas cores, aquele que conhece não deve dar confiança à fraca e fugitiva espécie humana.”

“Para ti, é uma vergonha rezar!”

“Não consiste precisamente a divindade em haver deuses, e que Deus não exista?”

“Esquece-se o que os homens são quando se vive com eles.”

“Há também outros cantores que não têm a garganta expedita, a mão eloqüente, expressivo o olhar e o coração desperto, senão quando têm a casa cheia. Não me pareço com eles.”

“E algumas invenções são tão boas que, como o seio da mulher, são úteis e agradáveis ao mesmo tempo.”

“A sociedade humana é uma tentativa, assim eu ensino, uma longa investigação, mas uma investigação de quem manda.

Uma tentativa, meus irmãos, e não um ‘contrato’.”

“A todos os momentos a existência principia. Em torno de cada aqui, gira a bola acolá. O centro está em toda parte. A senda da eternidade é tortuosa.”

“o canto é o que convém a convalescentes”

“Ensinar que há um grande ano de devir, um ano monstruoso que, à semelhança de um relógio de areia, tem sempre que se voltar novamente para correr e se esvaziar outra vez.” “O nós das causas em que me encontro tornará a criar-me! Eu mesmo pertenço às causas do eterno regresso das coisas.”

“Todas as palavras não foram feitas para os que são pesados? Não mentem todas as palavras ao que é leve? Canta! Não fales mais!”

“Não cantes! Silêncio! O mundo é perfeito.”

“Que aconteceria se aquele, cujo pai foi afeiçoado às mulheres, aos vinhos fortes e aos javalis, exigisse de si castidade?”

AS CINDERELAS: “A meia-noite é também meio-dia”

“se algum dia quisestes que uma vez se repetisse, se algum dia dissestes: ‘Agradas-me, felicidade! Instante, momento!’ Então quisestes que tudo retornasse.”


Anotações de cunho pessoal & Poesia:

Este sou eu que, na primeira vez em que li esta obra a sério (…) estava sufocado e necessitando me apartar. Hoje o movimento é reverso, também na pureza. Andando em círculos?…

Eu tenho mãos e pés! O que mais eu poderia querer?

Um maldito com uma navalha ensaiou a destruição do cosmo!

Eu estou em busca de um exército! De certa fama “diferente” na cidade. Um respeito mesclado com temor. Como andar sempre no limbo entre o imprestável e o impecável, porque pecaminoso mesmo é fracassar por excesso de uma só coisa, hipertrofia de uma convicção, quer dizer, do olho que agora nada vê. Cornucópia que pretende ser uma armadilha de coelho ou rato para afastar toda a fauna exótica (…) e me distrair de mim mesmo.

Todos são apenas macacos imutáveis—eu sou o único em movimento. Caricaturas de desenvolvimento: (…) Todos estagnados diante da própria essência. Hoje eu sou um ponto, uma estrela, no firmamento de (…) Em breve terei feito os mais velhos comerem poeira cósmica: (…) e o que subsistirá? Os mortos, os clássicos… O insondável.

Não parece estranho que nunca tenha sonhado, ao longo desses anos todos, nem tenha ouvido relatos a respeito, que eu mesmo fosse deus, que de algum modo adquiria a onipotência—mas esse sujeito é aquele que sabe que num instante vai acordar? T.E., o último discípulo viúvo, me persegue nessas representações, como um lado gosmento e sórdido da inconsciência superada.

E aquele que cai doente, sem quem lhe dê de comer?

Os animais antropomorfos de Zaratustra—fiéis escudeiros—a meio caminho?

Que fazer, eu que nem os animais ideais tenho?

Cerveja e masturbação. Há de alguma forma uma pureza em quem passou a vida ao lado de uma única e jamais experimentou entorpecentes ilegais. Eu: alguém que não teve coragem de se servir de uma prostituta. Mas não devemos fazer propaganda, e por dois motivos. Não esquecer também da outra metade da família. TRABALHADORES. DESPREZADORES. Eu que não amo minha ascendência. Por isso é que eu acho: numa briga de vida ou morte com alguém fisicamente mais forte, eu levaria vantagem. O BRAVO. Sou o escriba encarregado de sistematizar as qualidades dos meus últimos parentes?

Imagina teu futuro mais funesto, e lento! Isso será razão para praguejar? Só temos voz para o presente. Se bem que o presente é um elo de uma cadeia, que o comanda, ele mesmo um dos líderes dessa cadeia. Aqui fala um soberano e eleito, elo da cadeia fenomenal chamada humanidade, esta uma das argolas do colar chamado mundo! Aqui não se trata de bijuteria, pois não se pode quebrar, cada peça precisa ser mais maleável que a borracha e mais resistente que o diamante! Então o que eu digo, petulante, hoje? Para ser frase eterna, que seja: já muito eu venci… Justifiquei-o?


De 10 a 19 de março de 2011

[ARQUIVO] O ANTICRISTO II

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

48-51: Nietzsche, os dois Budismos. Talvez uma demonstração de que uma vez “nula”, a Europa já não tem muito o que temer…

73: a “boa-nova” do Messias

81: o cristianismo de fechada; o padre perdido.

102: do Gênese à Torre de Babel

119: Manu

126: extrema nostalgia romana

129: ode ao Islã


“A noção cristã de Deus (…) Deus como aranha.”

“Se não se conseguir terminar com o cristianismo, os alemães são a causa disso…”

“E conta-se o tempo a partir do dies nefastus em que essa fatalidade começou—a partir do primeiro dia do cristianismo!—Por que não contá-lo a partir de seu último dia?—A partir de hoje?—Transmutação de todos os valores!”


Anotações de cunho pessoal:

O reino de Deus como um imenso hospital—última visita: pobretões implorando ao Senhor pela pronta recuperação do paciente em estado terminal, porque “Ele pode tudo!”. Como se não estivesse pressuposto desde o começo que mais cedo ou mais tarde—nessa ou noutras gerações desta família—a crença no poder de Deus será reduzida a cinzas. Eu simplesmente não sei me comportar como um doente!

Em simples coisas como o futebol de três décadas atrás se viaja no tempo de forma literal e impactante o suficiente para dizer: como perdemos o gosto; massacramos qualquer cadência! Ação, ação, ação, chazam! Quero um chá, Zâmbia irá me esperar! A música não alenta? Tirar alguma conclusão? Pra que a pressa? Outra hora vem… Ainda que “o dia” fosse amanhã, eu diria: ainda falta muito tempo para o mundo acabar…


9 de março de 2010

[ARQUIVO] SCHOPENHAUER COMO EDUCADOR (A III Intempestiva)

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

25: o homem moderno entre um sim e um não

33: Shelley, Prometeu Desacorrentado

37: o problema do ceticismo

61: o castigo do homem tornado a ser animal

68: tartufismo

75: da moda

80-1: o “mata-moscas” do sábio

110: o elogiado filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson

111: as eternas metáforas da bela mulher e da velhota


“Um homem nunca sobe mais alto a não ser quando ignora para onde seu caminho pode levá-lo.”

O prefácio mais lindo e comovente.

“De fato, todo aquele que tiver o furor philosophicus no corpo não terá mais tempo para o furor politicus e se absterá sabiamente de ler jornal todos os dias e especialmente militar num partido, embora não se deva hesitar um instante para tomar seu lugar na hierarquia, desde que um perigo real ameace a pátria.”

Livro essencialmente para tratar daquele que escolheu a carreira de professor no âmbito da modernidade e se vê diante do ESTADO para filosofar… Sobre a honestidade e o caráter de um professor universitário… Há coisas que simplesmente estão fora de pauta. Agregue-se a isso a função de antiquário do moderno.

“E se quiserem ouvir os cantos da solidão, escutem a música de Beethoven.”

“E se for verdade que as florestas devem rarear aos poucos, não chegará um momento em que será necessário usar bibliotecas como nos servimos de lenha, palha e gravetos?”

“Toda filosofia que acreditar afastar ou mesmo resolver com a Judá de um acontecimento político o problema da existência não passa de uma caricatura e de um sucedâneo da filosofia.”

“As águas da religião estão em baixa e deixam atrás delas pântanos e lamaçais (…) Jamais o século foi mais secular, mais pobre de amor e de bondade.”

“No devir, tudo é vazio, mentiroso, chato e miserável”

“a terra perderá seu peso, os acontecimentos e as potências terrestres não serão mais que sonhos, uma transfiguração semelhante àquela das tardes de verão se difundirá em torno dele.”

“A pressa é geral, porque todos querem escapar de si mesmos”

“deveríamos algum dia aprender a odiar algo de mais geral que nossa individualidade (…) será somente então que um novo fim será fixado a nosso amor e a nosso ódio”

“Mas quando alguém se acostumou a traduzir toda espécie de experiência em termos de dialética e num puro problema cerebral, é surpreendente ver com que rapidez se resseca em semelhante atividade, que logo só é capaz de se fazer entender por um estalar de ossos.”

“Em oitavo lugar, (…) Seus consoladores são os livros ou escutar outro pensar de forma diversa da sua, é assim que consegue matar o tempo durante um longo dia.”

“se fixarão por objetivo preparar o surgimento de um novo Schopenhauer, de um gênio filosófico.”

“o fato de ser obrigado a pensar publicamente, em horas previamente determinadas, em coisas previamente fixadas. E diante de jovens! (…) E se acontecesse um dia de sentir que nesse dia não consegue pensar em nada, que nenhuma única idéia lhe vem ao espírito—e que tivesse de se apresentar, no entanto, a fingir de pensar?” “essa maneira de pesquisar em inumeráveis opiniões estranhas e absurdas lhe parece quase o mais repugnante e o menos oportuno dos serviços.” “‘É um bom filólogo, um bom arqueólogo, um bom lingüista, um bom historiador’, mas nunca: ‘É um bom filósofo.’”

“é mais filosófico nada saber do que aprender o que quer que seja”

“em nossos dias precisamente é uma raça fraca que ocupa as cátedras de filosofia e Schopenhauer, se tivesse agora de escrever seu tratado sobre a filosofia universitária, não teria mais necessidade de tomar sua clava: uma vareta lhe bastaria.”

“Aqui e acolá, um dentre eles tenta ainda um pequeno vôo metafísico—com os resultados habituais: vertigem, enxaqueca e sangramento do nariz.”

“é da própria natureza da filosofia nunca se deixar assalariar”


Anotações de cunho pessoal:

Tem-se pelo menos uma certeza: não se atingiu o auge de nada. O que não significa que tenha sido em vão. Ainda que houvesse um “ato em si” reconhecido por todas as épocas como tendo sido o mais grandioso, isso nunca é percebido no tempo presente, é sempre “tarde demais”. Mas o mais comum e salutar e natural é projetá-lo à frente de si… Portanto, não existe “meio-termo” de um homem íntegro. Ou só existem híbridos.


9 de março de 2010

[ARQUIVO] O CASO WAGNER

4ª CONSIDERAÇÃO INTEMPESTIVA: WAGNER EM BAYREUTH

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

92: a recorrente puxada de orelha nos alemães e seus estudos históricos

93: a orientalização do mundo, desde Alexandre

98: o problema da arte como única justificativa para a vida

100: a linguagem universal

110: da transição de um talento a outro: Wagner, Goethe, Schiller—da expressão escrita à oral/musical?

112: da árvore que finca raízes; Zaratustra.

126: as músicas de Wagner são versadas

129: as diversas sensações suscitadas no ouvinte pelo desenvolvimento das técnicas musicais

130: para entender Beethoven

131: Wagner e Heráclito


Já não acreditava mais no que escrevia? Última homenagem terna?

“Em toda parte o homem só encontra sua insuficiência pessoal, sua impotência total ou parcial. Que coragem teria para combater se não tivesse recebido previamente a consagração de uma causa que ultrapassa sua personalidade?” “nossa tríplice insuficiência”—“Não podemos estar felizes”; “não podemos ser morais”; “não podemos até mesmo ser sábios” “a arte é a atividade do homem em repouso”, isso quer dizer: “A arte não é o mestre e o mentor da atividade concreta”—porque somos como somos e as personagens não ditam nosso comportamento. Mas adoramos ser múltiplos.

Arte como mapa da vida, a vida como o JOGO DOS JOGOS: “a grandeza e o valor insubstituível da arte consistem precisamente no fato de que evoca a aparência de um mundo mais simples, de uma solução mais rápida para os enigmas da vida. Aquele que a vida fere não pode prescindir dessa aparência, como não pode prescindir do sono.” …AND JUSTICE FOR ALL

“Impedir que o arco se rompa, essa é a razão de ser da arte.”

O erro nietzscheano, se existe algum aqui, consiste na crença na instantaneidade da mudança e em seu marco divisório, que certamente não era este Wagner nem esta Bayreuth!

Elogios alter-biográficos que num espaço de uma década e meia seriam convertidos em autobiográficos: Ecce Homo, ele mesmo! Despojado de seu ídolo, superado…

Um pouco de afetação, aqui e acolá. Alguns anos depois, em que hierarquia situaria seu “primeiro músico absoluto”?


O CASO WAGNER (p.d.)

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

20: Benjamin Constant

22: sobre querer-se fundir com o amante

24: “o nada, a Circe indiana”

38: Wagner e Hegel—“a música como idéia”

44: Nietzsche contra os adolescentes

45: Wagner, o Minotauro. Ou comunista, comedor de criancinhas.

47: os tipos mórbidos de Dostoievsky


Ouvir 20 vezes uma mesma música devia ser algo bastante excepcional, àquele tempo.

Um libelo chauvinista.

Humor picante, sob a égide cesárea (“dizer o sério rindo”).

Como no Ecce Homo, tratado encharcado de citações em francês.

Siegfried//Shakespeare—tanto Siegfried e Brunilda quanto Romeu e Julieta “só podem se amar no Além”: logo, o “depois” é mais importante que o REAL.

“Wagner resume a modernidade. Não adianta, deve-se começar por ser wagneriano…”

“Um ser esgotado é atraído por aquilo que é nocivo: um vegetariano o é pelos legumes.”

Mais para o final da vida, começou a citar jornais em seus textos.

“Quando não se é rico, é preciso ser suficientemente digno para se ser pobre!…”

Só no epílogo, a crítica mais contundente e clara: uso dos mitos que sustentavam uma moral aristocrática para posar e se refestelar sobre a massa cristã. Ainda ensina: não se CONVENCE alguém ou uma época a favor ou contra uma crença.


Anotações de cunho pessoal:

De repente, acordamos pensando horrores daqueles por quem guardávamos uma alta estima!


NIETZSCHE CONTRA WAGNER

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

58: tiradas sarcásticas com direito até a merchand!

62-3: no parágrafo sobre a música como eco tardio de uma outra época, a previsão do gênero folk!

67: lamenta a França igualmente perdida… e já lamantara a Itália, no prefácio


“Ninguém leva ao teatro o sentido mais refinado de sua arte, muito menos quando se é artista que trabalha para o teatro—a solidão faz falta, a perfeição não tolera testemunhas… No teatro, nos tornamos plebe, rebanho, mulher, fariseu, gado eleitoral, patrono de igreja, idiota—wagneriano: é ali que a consciência mais pessoal se submete ao encanto nivelador da maioria, é ali que reina o próximo, ali é que nos tornamos próximo…”

“Foi assim que, progressivamente, passei a compreender Epicuro, antítese de um grego dionisíaco, e igualmente o cristão que, de fato, não passa de uma espécie de epicurista e se conforma a seu axioma ‘a fé torna feliz’.”

“A doença é sempre a resposta se queremos duvidar de nosso direito à nossa missão, se começamos a tornar as coisas mais fáceis para nós em qualquer sentido. Estranho e assustador ao mesmo tempo! São nossas facilitações que devemos expiar mais duramente! E se, depois disso, quisermos recuperar a saúde, não há mais escolha: temos de nos carregar mais pesadamente do que estávamos antes…”


De 5 a 8 de março de 2010

[ARQUIVO] A FILOSOFIA NA ÉPOCA TRÁGICA DOS GREGOS

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

47: o reinado do agon

130: Eurípides, o socrático

133: os Cínicos, super-socráticos


Sobre o tempo, para além da História (Homem)

“Com três historietas é possível compor o retrato de um homem”

“é significativo que seja Sócrates o primeiro grande grego a ser feio”


Anotações de cunho pessoal:

Existe o suicídio por felicidade incontível? Creio que nesse momento eu me proporia a isso: seria uma das mortes mais invejadas em todas as salas de cinema.

Ficção contemporânea e seu maior erro: os mortos como seres fracassados. O protagonista clássico nunca morre (anti-Aquiles, este ainda assim capturado de ângulo romântico).

[ARQUIVO] O LIVRO DO FILÓSOFO

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

16: o problema milenar de ter começado a se preocupar com o de fora, mero reflexo do que é “de dentro”. Hipertrofia teutônica.

20: elogios a Kant

22: a necessária—anti-Marcuse—marginalização da Filosofia

60: a sinestesia da criança

67: em certos aspectos me parece que estes esboços são a prévia direta de VdP, que veio para realizar um projeto antigo

69: “impossibilidade da metafísica” reiteradas vezes

72: do filósofo-legislador ou do iconoclasta

108: sobre a efemeridade do Helenismo

110: o imenso perigo da centralização política

119: ANEXO transbordante (“SOBRE OS HUMORES”). A luta entre o lembrar e o esquecer, o osciloscópio da mente e do coração. Aqueles que não amo mais, aqueles que ainda vou amar… Aquilo que amo…

“O filósofo como freio da roda do tempo.

É nas épocas de grande perigo que os filósofos aparecem—no momento em que a roda gira cada vez mais depressa—eles e a arte tomam o lugar do mito que desaparece. Mas eles se lançam muito à frente, pois a atenção dos contemporâneos só se volta lentamente para eles.”

Antes dos 30, já desfia as categorias de niilismo.

“o filósofo trágico não é um cético”

Todo ídolo nasce do nada.

“Íntimo parentesco entre os filósofos e os fundadores de religião.”—O Judeu maometano e minha aparência de “tabuador”.

“A arte repousa na imprecisão da vista.”

Sobre o “metafísico em Nietzsche” (mais particularmente, eu diria: “sobre o sentido da vida”): “Vocês não devem se refugiar numa metafísica, mas sacrificar-se à civilização do devir! É por isso que me oponho absolutamente ao idealismo do sonho.” Sua metafísica é real.

“Que sentido tem o homem dizer não! Com toda a franqueza, enquanto todos os seus sentidos e todos os seus nervos dizem sim! E que cada fibra, cada célula se opõe.”

“Não autorizamos mais a ficção conceitual. Somente na obra de arte.”

Sobre meu mandamento 4 (vide em 03/03/10 neste blog (e também o hilário excerto do dia 4!): “Vocês praticam a filosofia com jovens sem experiência: seus anciãos se voltam para a história. Vocês não têm de modo algum filosofia popular, mas em compensação têm conferências populares vergonhosamente uniformes. Temas de composição propostos pelas universidades aos estudantes, sobre Schopenhauer! Discursos populares sobre Schopenhauer! Isso é falta de toda dignidade!”

“o povo tem necessidade das anomalias, a obra de arte é prova disso (…) O filósofo como médico da civilização.”

“A falsa oposição entre a vida prática e a vida contemplativa é asiática. Os gregos compreendiam melhor as coisas.”


Anotações de cunho pessoal:

Se o filósofo congela o tempo e as rodas da confusão, ele é o doente por excelência, porque na vida de um pensador e de muitas outras pessoas é a doença que cumpre esse papel de calmaria e reassentamento.

Eu estou tão alto que poderia rasgar o céu. Subi. Eu subi tanto: confesso que já nem sei mais como descer da árvore.

Não é coincidência eu não ter (mais) primos-irmãos? No máximo primos de primas?

Maço é sempre de papel

mas eu quero o mais cruel

Você não está vendo? O mundo vai virar areia…

Três pratos de tigres para três dias tristes…


De 3 a 4 de março de 2010

PSICOLOGIA E ALQUIMIA — Jung

PREFÁCIO DOS EDITORES

“O VOLUME VI ‘Tipos Psicológicos’ e o volume VII – ‘O Eu e o Inconsciente’ e ‘Psicologia do Inconsciente’ – eram considerados básicos e imprescindíveis à compreensão de sua Obra Completa pelo próprio C.G. JUNG. Nesta Obra Completa, o presente volume n° XII, ‘Psicologia e Alquimia’ ocupa um lugar central. O texto é aqui apresentado em sua terceira edição.”

I

INTRODUÇÃO À PROBLEMÁTICA DA PSICOLOGIA RELIGIOSA DA ALQUIMIA

“A exigência da ‘imitatio Christi’, isto é, a exigência de seguir seu modelo, tomando-nos semelhantes a ele, deveria conduzir o homem interior ao seu pleno desenvolvimento e exaltação. Mas o fiel, de mentalidade superficial e formalística, transforma esse modelo num objeto externo de culto”

“Cristo pode ser imitado até o ponto extremo da estigmatização, sem que seu imitador chegue nem de longe ao modelo e seu significado. Não se trata de uma simples imitação, que não transforma o homem, representando assim um mero artifício. Pelo contrário, trata-se de realizar o modelo segundo os meios próprios de cada um – Deo concedente – na esfera da vida individual.”

“A concepção inadequada da ‘imitatio Christi’ apenas exterior é reforçada pelo preconceito europeu que distingue a atitude ocidental da oriental. O homem ocidental sucumbe ao feitiço das ‘dez mil coisas’: distingue o particular, uma vez que está preso ao eu e ao objeto, permanecendo inconsciente no que diz respeito às raízes profundas de todo o ser. Inversamente, o homem oriental vivência o mundo das coisas particulares e o seu próprio eu como um sonho, pelo fato de seu ser encontrar-se enraizado no fundamento originário; este o atrai de forma tão poderosa que relativiza sua relação com o mundo, de um modo muitas vezes incompreensível para nós.”

“A atitude oriental (principalmente a hindu) representa o contrário dessa atitude: o mais alto e o mais baixo estão dentro do sujeito (transcendental). Por este motivo o significado do ‘atman’, do si-mesmo, é elevado além de todos os limites.”

“O psíquico é só natureza – e por isso se pensa comumente que nada de religioso pode provir dele.”

“(Um pouco mais de Meister Eckhart não faria mal a ninguém!)”

“Uma projeção exclusivamente religiosa pode privar a alma de seus valores, tomá-la incapaz de prosseguir em seu desenvolvimento, por inanição, retendo-a num estado inconsciente. Ela pode também cair vítima da ilusão de que a causa de todo o mal provém de fora, sem que lhe ocorra indagar como e em que medida ela mesma contribui para isso. A alma parece assim tão insignificante a ponto de ser considerada incapaz do mal e muito menos do bem.”

“É verdade que os missionários cristãos pregam o Evangelho aos pobres pagãos nus, mas os pagãos interiores que povoam a Europa ainda não ouviram essa mensagem.”

“Todavia, quando demonstro que a alma possui uma função religiosa natural, e quando reafirmo que a tarefa mais nobre de toda a educação (do adulto) é a de transpor para a consciência o arquétipo da imagem de Deus, suas irradiações e efeitos, são justamente os teólogos que me atacam e me acusam de ‘psicologismo’.”

“A psicologia, enquanto ciência da alma, deve restringir-se ao seu objeto e precaver-se no sentido de não ultrapassar seus limitas, fazendo afirmações metafísicas ou não importa que profissão de fé.”

“Ignoramos em última instância de onde se origina o arquétipo, da mesma forma que ignoramos a origem da alma. A competência da psicologia enquanto ciência empírica não vai além da possibilidade de constatar, à base de uma pesquisa comparativa, se o tipo encontrado na alma pode ou não ser designado como uma ‘imagem de Deus’. Desta forma, nada se afirma de positivo ou de negativo acerca de uma possível existência de Deus, do mesmo modo que o arquétipo do ‘herói’ não pressupõe a sua existência.” Bela saída pela tangente!

“Ninguém pode evitar a fé em aceitar como causa primeira Deus, Purusha, Atman ou Tao, eliminando assim a inquietude última do homem. A ciência trabalha com escrúpulo e não pretende tomar o céu de assalto.”

“O ponto de vista religioso interpreta o tipo como algo decorrente da ação do impressor; o ponto de vista científico o interpreta como símbolo de um conteúdo desconhecido e inapreensível.”

“É impensável que qualquer figura determinada possa exprimir a indeterminação arquetípica. Senti-me impelido por isso a dar o nome psicológico de Si-mesmo (Selbst) ao arquétipo correspondente – suficientemente determinado para dar uma idéia da totalidade humana e insuficientemente determinado para exprimir o caráter indescritível e indefinível da totalidade.”

“o símbolo de Cristo é da maior importância para a psicologia, porquanto constitui, ao lado da figura de Buda, talvez o símbolo mais desenvolvido e diferenciado do Si-mesmo. Isto pode ser avaliado pela amplitude e pelo conteúdo dos predicados atribuídos ao Cristo, que correspondem à fenomenologia psicológica do Si-mesmo de um modo incomum, apesar de não incluir todos os aspectos deste arquétipo.”

“O Si-mesmo não só é indefinido, como também comporta paradoxalmente o caráter do definido e até mesmo da unicidade.” “A inclusão de uma personalidade humana, única (especialmente quando ligada à natureza divina indefinível), corresponde ao individual absoluto do Si-mesmo, que liga o único ao eterno e o individual ao mais geral.”

“A vivência dos opostos nada tem a ver com a visão intelectual, nem com a empatia. É mais aquilo a que poderíamos chamar de destino.”

“Sabe-se que os números ímpares sempre foram masculinos não só para nós, ocidentais, como também para os chineses; quanto aos números pares, são femininos.”

“Como o leitor já percebeu pelo título deste livro, ocupa-se ele com o significado psicológico da alquimia e portanto com um problema que, salvo raríssimas exceções, tem escapado à pesquisa científica até o presente.”

“A alquimia constitui como que uma corrente subterrânea em relação ao cristianismo que reina na superfície. A primeira se comporta em relação ao segundo como um sonho em relação à consciência e da mesma forma que o sonho compensa os conflitos do consciente, assim o esforço da alquimia visa preencher as lacunas deixadas pela tensão dos opostos no cristianismo.”

“A transformação histórico-universal da consciência para o lado ‘masculino’ é em primeiro lugar compensada pelo inconsciente ctônico-feminino.”

“Não se escandalize o leitor se a minha digressão soa como um mito gnóstico. Movemo-nos aqui no terreno psicológico em que está enraizada a gnose. A mensagem do símbolo cristão é gnose, e a compensação do inconsciente o é ainda mais.”

“A alquimia trata principalmente do germe da unidade que está oculto no caos de Tiamat e que corresponde à contrapartida da unidade divina.”

“O número três não é uma expressão natural da totalidade, ao passo que o número quatro representa o mínimo dos determinantes de um juízo de totalidade.”

“O ‘mercúrio’ é sem dúvida ‘quadratus’, mas também uma serpente tricéfala, ou simplesmente uma tri-unidade.”

“os temas do sonho sempre reaparecem depois de determinados intervalos, sob certas formas que designam à sua maneira o centro.”

“Poderíamos estabelecer um paralelo entre esses processos em espiral e o processo de crescimento das plantas; o tema vegetal (árvore, flor, etc.) também retorna freqüentemente nesses sonhos e fantasias, ou em desenhos espontâneos.” O tema do concurso refeito: voltei ao Colégio Militar por direito, “me emendei”, etc. Há sempre uma festa que é a do meu casamento ou casamento do A. em que bebo tanto que emendo o fim de semana com a segunda de trabalho.

“No processo do tratamento psíquico, a relação dialética conduz logicamente ao confronto do paciente com sua sombra, essa metade obscura da alma da qual nos livramos invariavelmente através de projeções, ora carregando o próximo – num sentido mais ou menos lato – de todos os vícios que são nossos, ora transferindo os próprios pecados para um mediador divino através da ‘contritio’ ou da ‘attritio’ mais amena.(*)

(*) Contritio é ‘arrependimento perfeito’. Attritio é ‘arrependimento imperfeito’ (‘contritio imperfecta’ à qual também pertence a ‘contritio naturalis’). A primeira considera o pecado como oposição ao Bem Supremo; a última o rejeita por sua maldade e feiúra e também por medo do castigo.”

“Quando a sombra é trazida à consciência pode arrastar consigo, à tona, os conteúdos do inconsciente coletivo. Isto pode exercer uma influência tremenda sobre a consciência, uma vez que a vivificação dos arquétipos molesta o mais frio dos racionalistas, e precisamente a ele.”

“O simples conhecimento da estrutura psíquica da neurose também é insuficiente nesses casos; quando o processo atinge a esfera do inconsciente coletivo encontramo-nos diante de material saudável, ou seja, dos fundamentos universais da psique, com suas variações individuais. O que ajuda a compreender essas camadas mais profundas da psique é, por um lado, o conhecimento da mitologia e da psicologia primitiva e, por outro, de um modo muito especial, o conhecimento das etapas históricas preliminares da consciência moderna. A consciência atual foi modelada tanto pelo espírito da Igreja, como pela ciência em cujos primórdios se ocultava muita coisa que não podia ser aceita pela Igreja. Trata-se principalmente de remanescentes do espírito da Antiguidade e do seu sentimento da natureza que não era possível extirpar, tendo encontrado um refúgio na Filosofia Natural da Idade Média. Os antigos deuses dos planetas sobreviveram a muitos séculos de Cristianismo sob a forma de ‘spiritus metallorum’ e componentes astrológicos do destino.”

“A alquimia movia-se de fato sempre no limite da heresia e era proibida pela Igreja. Ela desfrutou entretanto da proteção eficaz da obscuridade de seu simbolismo, que a qualquer momento podia ser explicado por uma alegoria inofensiva. Para muitos alquimistas, o aspecto alegórico se achava de tal modo em primeiro plano, que estavam totalmente convencidos de tratar-se apenas de corpos químicos. Outros, entretanto, consideravam o trabalho de laboratório relacionado com o símbolo e seu efeito psíquico. Tal como demonstram os textos, esses alquimistas tinham a consciência do efeito psíquico, a ponto de condenarem os ingênuos fazedores de ouro como mentirosos, trapaceiros ou extraviados.”

“A grande preocupação da Igreja é a ‘imitatio Christi’, ao passo que o alquimista, na solidão e na problemática obscura de sua obra, sucumbe sem saber ou mesmo sem querer aos pressupostos inconscientes naturais de seu espírito e de seu ser, por não dispor para se apoiar de modelos claros e inequívocos como o Cristo. Os autores estudados pelo alquimista fornecem-lhe símbolos cujo sentido ele capta a seu modo, embora na realidade toquem e excitem seu inconsciente. Ironizando-se a si mesmos, os alquimistas cunharam a expressão: ‘obscurum per obscurius’ (o obscuro pelo mais obscuro).”

“A unidade dos quatro, o ouro filosófico, o ‘lapis angularis’ (pedra angular), a ‘aqua divina’ (água divina) correspondiam na Igreja à cruz de quatro braços na qual o ‘Unigenitus’ foi sacrificado, uma vez na história e por toda a eternidade.”

“A possessão revela-se quase sempre pelo fato de as pessoas possuídas se identificarem com os conteúdos. Não reconhecendo o papel que lhes é imposto como efeito dos novos conteúdos a serem descobertos, elas os encarnam exemplarmente em suas vidas, tomando-se profetas e reformadoras.” “Jesus tomou-se assim a imagem protetora contra todos os poderes arquetípicos que ameaçavam apoderar-se das pessoas. A boa-nova anunciava: ‘Já aconteceu, e já não vos acontecerá mais se acreditardes em Jesus, o filho de Deus!’” “Por isso sempre houve pessoas que, não se satisfazendo com a dominante da vida consciente, buscaram por debaixo do pano ou por atalhos secundários, para seu bem ou para seu mal, a experiência originária das raízes eternas. Seguindo o fascínio do inconsciente irrequieto, puseram-se a caminho rumo .ao deserto, onde, como Jesus, depararam com o filho das Trevas”

“Mas a parte anímica da obra não desapareceu. Ela conquistou novos intérpretes, como vemos por exemplo no Fausto e na relação significativa da psicologia moderna do inconsciente com a simbólica alquímica.”

II.

SÍMBOLOS ONÍRICOS DO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Contribuição para o conhecimento dos processos do inconsciente manifesto nos sonhos

“a simbólica da mandala”

“O material de que disponho consiste em mais de mil sonhos e impressões visuais de um homem ainda jovem cuja formação científica deve ser sublinhada.” “A não ser uma curta entrevista no início, antes de começar as observações, não encontrei o sonhador durante os oito primeiros meses. Assim, pois, 355 dos 400 sonhos foram sonhados independentemente de qualquer contato pessoal comigo.”

“Não contesto de modo algum a possibilidade de sonhos ‘paralelos’, isto é, de sonhos cujo sentido coincida com a atitude da consciência ou venha em apoio desta última. Mas na minha experiência, pelo menos, estes últimos são relativamente raros.”

“O chapéu que cinge a cabeça é redondo como o círculo solar da coroa, contendo por isso a primeira alusão à mandala.”

usar o chapéu de outra pessoa

boné capacete

boina

usar o cabelo de outra pessoa

“O mar é o símbolo do inconsciente coletivo porque sob sua superfície espelhante se ocultam profundidades insondáveis.”

“Tal como a mania de perseguição resulta de um relacionamento envenenado pela desconfiança, assim também uma realidade ilusória vem substituir a animação normal do meio ambiente e, em lugar de pessoas, começam a mover-se sombras aterradoras e fantasmagóricas. Este é o motivo pelo qual o homem primitivo povoava os lugares desertos e solitários de ‘diabos’ e outros fantasmas.” Porões do CMB.

“A resistência do consciente contra o inconsciente, bem como a depreciação deste último, é uma necessidade histórica do desenvolvimento da consciência, pois de outro modo ela nunca se teria diferenciado do inconsciente. A consciência do homem moderno porém distanciou-se demasiadamente da realidade do inconsciente.”

“país das crianças”

O País das Maravilhas aceita todas as idades, é atemporal

“É infantil não apenas aquele que permanece criança por muito tempo, mas aquele que separando-se da infância pensa que ela não existe mais porque não a vê.”

“A pré-história psíquica é o espírito da gravidade, que exige degraus e escadas porque não pode voar, a modo do intelecto, sem corpo e sem peso.”

“O inconsciente pessoal deve sempre ser resolvido em primeiro lugar, isto é, deve ser integrado na consciência. De outro modo, o acesso ao inconsciente coletivo tomar-se-ia impossível. A viagem com pai e mãe, subindo e descendo muitas escadas, corresponde a esta conscientização de conteúdos infantis ainda não-integrados.”

“SONHO 13

O pai grita ansioso: ‘Este é o sétimo!’”

“Se for correta a interpretação de que o ‘sétimo’ corresponde ao degrau máximo da iluminação, o processo da integração do inconsciente pessoal deveria em princípio estar concluído.”

“Enquanto planeta Mercúrio ele é o mais próximo do sol, o que indica também sua maior afinidade com o ouro. Enquanto metal, o mercúrio dissolve o ouro e apaga seu brilho solar.”

“A ‘arte negra’ porém não é tão remota quanto se pensa; o sonhador, como homem culto, devia ter lido o Fausto. Este último é um drama alquímico do começo ao fim, embora o homem culto de hoje tenha apenas uma vaga idéia disto.”

“Os monólogos da caveira, no Fausto e em Hamlet, evocam o absurdo aterrador da existência quando é apenas considerada pelo ‘pálido esboço do pensamento’.”

“O fenômeno da ‘voz’ sempre tem um caráter definitivo e indiscutível para o sonhador, isto é, a voz enuncia uma verdade ou condição que já não pode ser posta em dúvida.”

“Nenhuma mandala é igual a outra, sendo individualmente diferentes. Acrescentou que as mandalas encontradas nos mosteiros e nos templos não têm significado particular, por serem meras representações exteriores. A verdadeira mandala é sempre uma imagem interior, construída pouco a pouco através da imaginação (ativa) somente em períodos de distúrbio do equilíbrio anímico, ou quando se busca ima pensamento difícil de ser encontrado por não figurar na doutrina sagrada.”

“ela é sempre um sistema quaternário, uma ‘quadratura circuli’ (quadratura do círculo), cujos conteúdos procedem invariavelmente da dogmática lamaísta.”

“É essencial conhecer esta valorização máxima do símbolo, porquanto coincide com o significado central dos símbolos mandálicos individuais, caracterizados pelas mesmas qualidades de natureza por assim dizer ‘metafísica’. Se não estivermos completamente enganados, eles representam um centro psíquico da personalidade que não é idêntico ao ‘eu’. Observei tais processos e imagens ao longo de vinte anos, através de um material empírico relativamente abundante.”

“Pratica-se a ioga indiana de qualquer escola, seguem-se regimes alimentares, aprende-se de cor a teosofia, rezam-se mecanicamente os textos místicos da literatura universal – tudo isto porque não se consegue mais conviver consigo mesmo e porque falta fé em que algo de útil possa brotar de nossa própria alma.”

“Perde-se a culpa, que é substituída por uma inocência infantil; reaparece então o pai mau responsável por isto e a mãe pouco amorosa responsável por aquilo e nesses inegáveis nós causais fica-se preso como uma mosca em teia de aranha, sem perceber que se perdeu a liberdade moral.”

“O tipo de veículo, num sonho, ilustra o tipo de movimento, ou a maneira pela qual se avança no tempo – em outras palavras, como se vive sua vida psíquica, individual ou coletivamente, por seus próprios meios ou por meios emprestados, espontaneamente ou mecanicamente. No avião, o sonhador é conduzido por um piloto desconhecido, isto é, por vima intuição de origem inconsciente.” “No sonho de que tratamos agora, ele está num bonde elétrico que pode ser usado por qualquer pessoa; isto significa que ele se movimenta ou se comporta como qualquer pessoa.”

“Da mesma forma os filósofos afirmam que o quadrado deve transformar-se em triângulo, isto é, em corpo, espírito e alma, os quais antes do vermelho aparecem em três cores, ou seja, o corpo ou a terra num negro saturnino, o espírito num branco lunar como água, a alma ou o ar, amarelo como o sol. Então o triângulo estará completo, todavia, por sua vez, ele deve transformar-se num círculo, isto é, num vermelho inalterável.”

“o intelecto do homem moderno considera tudo isto o maior dos absurdos. No entanto, este juízo de valor não impede que tais associações de idéias existam há muitos séculos, desempenhando um papel de suma importância.” “(Muitos de meus críticos, que se dizem ‘cientistas’, reagem exatamente como aquele bispo que excomungou os besouros por proliferarem desavergonhadamente.)”

“A retro-identificação com os ancestrais humanos e animais significa, no plano psicológico, uma integração do inconsciente, um verdadeiro banho de renovação na fonte da vida, onde se é novamente peixe, isto é, inconsciente, como no sono, na embriaguez e na morte; daí o sono de incubação, a consagração orgiástica dionisíaca e a morte ritualística na iniciação. Tais procedimentos realizam-se sempre no lugar sagrado. Podemos transpor facilmente estas idéias para o concretismo freudiano: o temenos [estrutura geralmente quadrangular ou circular que nos rodeia e protege] seria o útero materno, e o rito, uma regressão ao incesto. No entanto, neste caso, trata-se de equívocos de neuróticos, os quais permaneceram parcialmente infantis. Ignoram que essas práticas foram exercidas pelos adultos desde os primórdios, sendo portanto impossível explicá-las como simples regressões ao estágio infantil. Caso contrário, as mais altas conquistas da humanidade não significariam mais do que desejos infantis pervertidos, e a expressão ‘infantil’ perderia a sua razão de ser.”

“Se esses ritos de renovação não produzissem resultados efetivos, não só teriam desaparecido na pré-história, como nem mesmo teriam surgido. Nosso caso demonstra que mesmo quando a consciência está a milhas de distância das representações arcaicas dos ritos de renovação, o inconsciente procura reaproximá-los da consciência, mediante os sonhos. Sem dúvida alguma a autonomia e autarquia da consciência representam qualidades sem as quais esta última não existiria; no entanto, tais qualidades podem constituir também um perigo de isolamento e de aridez, por criarem uma alienação insuportável do instinto, resultante da cisão entre consciência e inconsciente.”

“Minha experiência, entretanto, testemunha que a consciência só pode pretender a uma posição relativamente central, devendo aceitar o fato de que de certa forma é ultrapassada e cercada pela psique inconsciente por todos os lados. ‘Para trás’, mediante os conteúdos inconscientes, está conectada com as condições fisiológicas e com os pressupostos arquetípicos. Contudo também protende ‘para frente’, através de intuições que por sua vez são parcialmente condicionadas por arquétipos e por percepções subliminares, ligadas à relatividade espácio-temporal do inconsciente. Deixo ao critério do leitor que examine a possibilidade de uma tal hipótese, após uma ponderação cuidadosa sobre esta série de sonhos e sobre a temática por ela levantada.”

“As festas carnavalescas medievais e o jogo da péla na igreja foram abolidos relativamente cedo; conseqüentemente, o carnaval foi secularizado, desaparecendo a ebriedade divina do espaço sagrado. Restaram na igreja o luto, a severidade, o rigor e a alegria espiritual temperada. Mas a embriaguez, essa forma de possessão imediata e perigosa, desligou-se dos deuses, envolvendo por isso o mundo dos homens em seu excesso e seu ‘pathos’. As religiões pagãs enfrentavam este perigo, dando lugar no culto a esse êxtase da embriaguez.”

“A problemática do três e quatro, do sete e oito, que GOETHE tocou neste ponto, é um dos enigmas da alquimia que remonta historicamente a textos atribuídos a CHRISTIANOS.”

“Filho, toma do corpo mais simples e redondo, e não do triangular ou quadrangular, toma do redondo; porque o redondo está mais próximo da simplicidade do que o triangular. Note-se que o corpo simples não tem ângulo algum, pois é o primeiro e o último dentre os planetas, como o sol entre as estrelas”

“Os leões, como todos os animais selvagens, indicam afetos latentes. Na alquimia, o papel do leão é importante e tem um significado semelhante. Trata-se de um animal ‘do fogo’, alegoria do diabo, e indica o perigo do sonhador ser tragado pelo inconsciente.”

“De vez em quando aparecem mandalas ‘perturbadas’. Elas consistem de todas as formas derivadas do círculo, do quadrado ou da cruz regular; bem como as formas baseadas não no número quatro, mas no três ou no cinco. Os números seis e doze constituem neste caso uma certa exceção. O doze pode ter relação com o quatro ou o três. Os doze meses e os doze signos do Zodíaco são símbolos circulares, colocados à nossa disposição. Da mesma forma, o seis é um conhecido símbolo do círculo. O três sugere a predominância da idéia e da vontade (trindade) e o cinco, o homem físico (materialismo).” // CANA NA CASA & O 6 IMPOSSÍVEL

“A ‘voz’ tem em geral um caráter indiscutível de autoridade e costuma comparecer nos momentos decisivos.”

“Sem o círculo vertical azul a mandala dourada permanece incorpórea e bidimensional, mera imagem abstrata. Somente a interferência do tempo e do espaço no aqui e agora cria a realidade. A totalidade se concretiza apenas no instante, naquele instante que Fausto buscou pela vida afora.”

“A visão do ‘relógio do mundo’ não é o último estágio, nem o ponto culminante no desenvolvimento dos símbolos da psique objetiva. No entanto ela é mais ou menos o desfecho da terça parte inicial do material que abrange cerca de quatrocentos sonhos e visões.”

“Não quero contudo insinuar que me julgo capaz de fazer afirmações concludentes acerca de um tema tão complexo. Não é a primeira vez que trato de uma série de manifestações espontâneas do inconsciente. Já o fiz em meu livro Símbolos da Transformação; neste se tratava do problema de uma neurose (da puberdade), ao passo que aqui a problemática se prolonga até a individuação. Além disso, há uma diferença considerável entre as duas personalidades em questão. O primeiro caso, do qual aliás nunca tratei pessoalmente, terminou numa catástrofe psíquica (psicose); o segundo, aqui em questão, apresenta um desenvolvimento normal, tal como tenho observado freqüentemente em pessoas de elevado nível intelectual.”

“É como se normalmente existisse uma nítida insistência no quatro, ou como se houvesse estatisticamente uma probabilidade maior em relação ao quatro. Não posso silenciar a seguinte observação: o fato de o principal elemento químico constitutivo do organismo físico ser o carbono – caracterizado por quatro valências – é sem dúvida um ‘lusus naturae’ (um jogo da natureza) bastante estranho”

III.

AS IDÉIAS DE SALVAÇÃO NA ALQUIMIA

Uma contribuição à história das idéias na alquimia

“LENTAMENTE, no decurso do século XVIII, a alquimia pereceu em sua própria obscuridade. Seu método de explicação – ‘obscurum per obscurius, ignotum per ignotius’ (o obscuro pelo mais obscuro, o desconhecido pelo mais desconhecido) – era incompatível com o espírito do iluminismo e particularmente com o alvorecer da ciência química, no final do século. Mas estas duas novas forças intelectuais apenas eram o tiro de misericórdia na alquimia. Sua decadência interna começara pelo menos um século antes, no tempo de JAKOB BÖHME, quando muitos alquimistas abandonaram seus alambiques e cadinhos, devotando-se inteiramente à filosofia (hermética).”

“Sobre este aspecto da alquimia, especialmente quanto a seu significado psicológico, o livro de HERBERT SILBERER Probleme der Mystik und ihrer Symbolik (1914) fornece uma informação abundante. O simbolismo fantástico relacionado com o aspecto psicológico é graficamente descrito num trabalho de BERNOULLI: Seelische Entwicklung im Spiegel der Alchemie. Podemos encontrar em EVOLA um relato detalhado da filosofia hermética: La tradizione ermetica. Mas um estudo abrangente das idéias contidas nos textos, e da sua história, ainda está faltando, embora sejamos devedores a REITZENSTEIN por sua importante obra preparatória neste campo.”

“Quatro estágios são assinalados, caracterizados pelas cores originárias já mencionadas em HERÁCLITO: melanosis (o enegrecimento), leukosis (embranquecimento), xanthosis (amarelecimento), iosis (enrubescimento).” “Mais tarde, por volta dos séculos XV e XVI, as cores foram reduzidas a três, e a xanthosis, também chamada ‘citrinitas’, caiu gradualmente em desuso, ou então era raramente mencionada. Em seu lugar a ‘viriditas’ (o verde) aparece raras vezes após a melanosis ou ‘nigredo’.”

“A partir da ‘nigredo’, a lavagem (ablutio, baptisma) conduz diretamente ao embranquecimento, ou então ocorre que a alma (anima) liberta pela morte é reunida ao corpo morto e cumpre sua ressurreição; pode dar-se finalmente que as múltiplas cores (omnes colores) – a ‘cauda pavonis’ (cauda do pavão) – conduzam à cor branca e una, que contém todas as cores. Neste ponto, a primeira meta importante do processo é alcançada: trata-se da ‘albedo’, ‘tinctura alba’, ‘terra alba foliata’, ‘lapis albus’, etc., altamente valorizada por muitos alquimistas como se fosse a última meta. É o estado lunar ou de prata, que ainda deve alçar-se ao estado solar. A ‘albedo’ é, por assim dizer, a aurora; mas só a ‘rubedo’ é o nascer do sol. A transição para a ‘rubedo’ constitui o amarelecimento (citrinitas), se bem que como já observamos este é suprimido posteriormente.”

“Tal é superficialmente e em suas linhas gerais a estrutura da alquimia, como é conhecida por todos. Do ponto de vista do nosso conhecimento moderno da química, ela nos diz pouco ou nada e se nos voltarmos para os textos, com seus mil e um processos e receitas legados pela Idade Média e pela antiguidade, encontraremos poucos dentre eles, relativamente, de significado identificável pelo químico. É provável acharmos a maioria sem sentido; é indubitável que jamais foi produzida uma verdadeira tintura ou ouro artificial durante todos esses séculos de intenso labor. Podemos então perguntar com toda a razão o que induzia os velhos alquimistas a prosseguir trabalhando ou ‘operando’ (como diziam) de modo constante, escrevendo todos aqueles tratados sobre a ‘divina’ arte, se toda a sua ação era tão desprovida de esperança? Para fazer-lhes justiça devemos acrescentar que todos os conhecimentos essenciais da química e suas limitações eram-lhes desconhecidos e assim podiam ter esperança como aqueles que sonhavam com o vôo e cujos sucessores fizeram tal sonho tornar-se realidade. Nem poderíamos subestimar o sentido da satisfação que nasce do empreendimento, da aventura: o ‘quaerere’ (buscar) e o ‘invenire’ (achar). Estes permanecem, na medida em que os métodos empregados parecem ter sentido. Nada havia naquele tempo que pudesse convencer o alquimista da falta de sentido de suas operações químicas; e o que é mais, ele contava com uma longa tradição de não poucos que haviam obtido o maravilhoso resultado.”

“Se admitimos que o alquimista usa o processo químico só simbolicamente, então por que trabalha num laboratório com cadinhos e alambiques? E se, como ele constantemente afirma, está descrevendo processos químicos, por que os desfigura com seu simbolismo mitológico até torná-los irreconhecíveis?”

“A constituição espiritual do homem pertencente aos ciclos pré-modernos da cultura era tal, que cada percepção física tinha simultaneamente um componente psíquico que o ‘animava’, conferindo à imagem um ‘significado’ adicional e ao mesmo tempo uma tonalidade emotiva particular e poderosa. Assim sendo, a física antiga era ao mesmo tempo uma teologia e uma psicologia transcendental: pelo fato de receber os lampejos das essências metafísicas na matéria dos sentidos corporais. A ciência natural era ao mesmo tempo uma ciência espiritual e os múltiplos sentidos dos símbolos reuniam os diversos aspectos em um único conhecimento.” EVOLA

“Fazer segredo pode ser um mero blefe com o propósito óbvio de explorar os crédulos. Mas toda tentativa de explicar a alquimia unicamente sob este ponto de vista é, na minha opinião, desmentida pelo fato de que vim bom número de tratados detalhados, eruditos e conscienciosos foram escritos e impressos anonimamente, não podendo portanto ter representado uma vantagem ilegítima para alguém.”

“Na tentativa de explicar o mistério da matéria, projetava outro mistério, isto é, projetava seu próprio fundo psíquico desconhecido no que pretendia explicar”

“O alquimista não pratica sua arte por acreditar teoricamente numa correspondência, mas tem uma teoria das correspondências pelo fato de vivenciar a presença da idéia na matéria (physis).”

“A astrologia é uma experiência primordial, como a alquimia. Projeções deste tipo repetem-se todas as vezes que o homem tenta explorar uma escuridão vazia, preenchendo-a involuntariamente com formas vivas.”

“As exposições de HOGHELANDE vêm provar, tal como os dois textos anteriores, que durante as experiências de laboratório ocorrem alucinações ou visões, as quais só podem ser projeções de conteúdos inconscientes.” Neste momento ouvindo CATHEDRAL, trilha perfeita.

“A fim de podermos compreender tais afirmações temos que livrar-nos de todas as idéias modernas sobre a constituição de um gás, e concebê-las como puramente psicológicas. Trata-se nesse caso da projeção de pares de opostos, tais como leve – pesado, visível – invisível, etc. Acontece que a identidade dos opostos é a característica de todo fato psíquico no estado inconsciente. Assim sendo, uma ‘anima corporalis’ é simultaneamente ‘spiritualis’ e o núcleo do ar sólido e pesado é ao mesmo tempo o ‘spiritus creator’ que paira sobre as águas.”

“Assim por exemplo o sábio MICHAEL MAIER censura GEBER – autoridade clássica – de ser o mais obscuro de todos, afirmando que seria preciso um Édipo para decifrar o enigma da ‘Gebrina Sphinx’. BERNARDUS TREVISANUS, outro alquimista famoso, acusa GEBER de obscurantista, comparando-o a um Proteu que promete a fruta e dá cascas.”

“Mercurius encontra-se no início e no fim da obra. É a ‘prima materia’, o ‘caput corvi’, a ‘nigredo’, Como dragão, devora-se a si mesmo e como dragão morre para ressuscitar sob a forma do lapis. É o jogo de cores da ‘cauda pavonis’ (cauda do pavão) e a separação nos quatro elementos. É o hermafrodita, o ser primordial, o qual se divide, formando o par clássico de irmão-irmã, e se unifica na ‘coniunctio’, a fim de aparecer de novo ao fim sob a forma radiante do ‘lumen novum’ (nova luz), do lapis. É metal e não obstante líquido, matéria e no entanto espírito, frio porém ígneo, veneno que é medicamento, um símbolo unificador de opostos.”

“A metáfora enfática usada por NIETZSCHE no Zarathustra: ‘Para mim uma imagem dorme na pedra’, parece dizer o mesmo, mas em uma ordem inversa. Na antigüidade, o mundo da matéria era preenchido pela projeção de um segredo anímico que, desde então, aparecia como o segredo da matéria, assim permanecendo até a decadência da alquimia no século XVIIl. A intuição estática de NIETZSCHE porém queria arrancar da pedra o segredo do super-homem, onde ele até então dormia. À semelhança dessa imagem, NIETZSCHE queria criar o super-homem, o qual segundo a linguagem dos antigos poderia ser considerado o homem divino. Os velhos alquimistas, pelo contrário, procuravam a pedra miraculosa que contivesse uma essência pneumática a fim de extrair dela a substância que penetra em todos os corpos (pois ela é o ‘espírito’ que penetrou na pedra), transformando todas as substâncias vis em matéria nobre mediante a tintura. Esta ‘matéria-espírito’ é como o mercúrio que se encontra invisivelmente dentro dos minérios e que deve em primeiro lugar ser expulso afim de ser recuperado ‘in substantia’. Mas assim que se possui esse mercúrio penetrante é possível ‘projetá-lo’ em outros corpos, fazendo-os passar do estado imperfeito para o estado perfeito.”

“Na medida em que o ponto de vista da psicologia complexa é realista, isto é, fundamentado na hipótese de que os conteúdos psíquicos são existências, os atributos mencionados caracterizam uma parcela inconsciente da personalidade, dotada de uma consciência superior que ultrapassa o humano comum. Empiricamente, tais figuras exprimem sempre ‘insights’ ou qualidades superiores, ainda não conscientes, podendo-se até mesmo perguntar se elas podem ser atribuídas ou não ao ego propriamente dito. Tal problema, que o leigo pode considerar um sofisma, se reveste de um enorme significado na prática. Uma atribuição incorreta pode provocar inflações perigosas, que o leigo só considera sem importância por desconhecer os desastres anímicos e exteriores que podem ser causados por tais inflações.”

“Assim como no cristianismo a divindade se oculta na figura do servo, na ‘filosofia’ ela se oculta na pedra insignificante.”

“Poderíamos ser tentados a explicar o simbolismo alquímico da transformação como sendo uma caricatura da Missa, se sua origem não fosse pagã e portanto muito mais antiga.”

“Os alquimistas são, de fato, pessoas solitárias; cada qual diz o que tem a dizer à sua maneira. Raramente têm discípulos e parece que transmitiam bem pouca coisa por tradição direta; nem temos provas da existência de quaisquer sociedades secretas. Cada qual trabalhava sozinho no laboratório e sofria com a sua solidão.”

“não é correto afirmar que os alquimistas nunca definiram a ‘materia prima’; muito pelo contrário, foram tantas as definições dadas que estas acabaram por contradizer-se repetidamente.”

“Voltai-vos para mim de todo o coração e não me rejeiteis, por eu ser preta e escura, pois o sol assim me queimou; e as profundezas cobriram o meu rosto e a terra foi deteriorada e maculada em minhas obras, pois havia escuridão sobre ela, por eu ter afundado no lodo da profundeza e minha substância não foi explorada. Por isso clamo da profundeza e do abismo da Terra minha voz se dirige a todos vós que passais pelo caminho: Tende cuidado e olhai para mim, se jamais um dentre vós encontrou alguém que comigo se parecesse, eu lhe porei nas mãos a estrela matutina.”

“Não podemos esquecer que o alquimista não faz a menor questão de se torturar com escrúpulos morais, sob pretexto de o homem ser um nada pecador que vai ao encontro da obra de redenção de Deus através de uma conduta ética irrepreensível. O alquimista está no papel de um ‘redentor’ cujo ‘opus divinum’ é mais uma continuação da obra divina de redenção do que uma medida de prevenção contra uma eventual danação por ocasião do Juízo Final.”

“Uma vez que o incesto se dá a conselho dos filósofos, a morte do filho do rei é algo de desagradável e perigoso. A consciência coloca-se numa situação perigosa pela descida ao inconsciente; aparentemente, é como se ela se extinguisse. A situação é a do herói dos primórdios devorado pelo dragão. Em se tratando de um decréscimo ou extinção da consciência, tal ‘abaissement du niveau mental’ equivale ao ‘peril of the soul’ tão temido pelos primitivos (medo dos espíritos).”

“Quando a própria mãe se une a seu filho maritalmente, não se considera este ato como incestuoso. Pois é a natureza que assim ordena e assim exige a sagrada lei do destino, e o fato não desagrada a Deus.”

“O mito gnóstico originário sofreu estranhas transformações: o ‘nous’ e a ‘physis’ constituem uma unidade indistinta na ‘prima materia’, tomando-se uma ‘natura abscondita’.”

“O alquimista ressalta incessantemente a sua ‘humilitas’ (humildade) e sempre inicia seus tratados invocando Deus. Não pensa em identificar-se com Cristo; muito pelo contrário, a alquimia estabelece um paralelo entre a substância procurada, o ‘lapis’, e o Cristo. Não se trata assim propriamente de uma identificação, mas do ‘sicut’ (assim como) hermenêutico, que indica a analogia.”

“O homem moderno deve quase considerar-se feliz pelo fato de que, no momento da colisão com o pensamento e a vivência orientais, seu empobrecimento espiritual chegou a tal ponto que mal percebeu contra o que estava colidindo. Seu confronto com o Oriente desenrola-se agora no nível totalmente inadequado e inócuo do intelecto”

“As raízes do gnosticismo não radicam no cristianismo; aliás seria mais verdadeiro afirmar que este último assimilou idéias do gnosticismo.”

WEI PO-YANG, An Ancient Chinese Treatise on Alchemy

“nos escritos dos padres da Igreja o vento sul é uma alegoria do Espírito Santo, provavelmente devido à natureza quente e seca desse vento. Por este motivo, o processo de sublimação é denominado na alquimia árabe ‘o grande vento do sul’, referindo-se ao aquecimento da retorta e do seu conteúdo. O Espírito Santo é ígneo e provoca a exaltação.”

“Nessa época floresceram as sociedades secretas, sobretudo os Rosa-cruzes – a melhor prova da exaustão do segredo da alquimia! A existência de uma ordem secreta tem sua razão de ser quando é necessário proteger um segredo que perdeu sua vitalidade e que só poderá perdurar de um modo formal.”

“Na tradição medieval associa-se o unicórnio ao leão ‘porque este animal é como o leão, forte, feroz e cruel’. ‘Por esta razão’, diz BACCIUS, ‘este animal chama-se Lycornu na França e na Itália’, o que parece significar um derivado de ‘lion’.” “Conta-se do unicórnio coisas semelhantes às do dragão, que em sua qualidade de animal subterrâneo habita cavernas e gargantas; que eles (os unicórnios) se escondem e habitam os desertos e as altas montanhas e as grutas mais profundas e estranhas e as tocas dos animais selvagens, entre sapos e outros vermes nojentos e imundos”

“No Rig-Veda, ele é chamado de ‘Pai Manu’ e conta-se que com sua filha gerou os homens. É o fundador da ordem social e moral. É o primeiro sacrificador e sacerdote. Transmitiu aos homens a doutrina dos Upanishades.”

“O leão, sendo um animal perigoso, é semelhante ao dragão. Este tem que ser morto; quanto ao leão, tem pelo menos que ter as patas cortadas. O unicórnio também deve ser domado; por ser um monstro, possui um significado simbólico superior e sua natureza é mais espiritual do que a do leão.”

“Segundo o Li-ki há quatro animais benévolos ou espirituais: o unicórnio (K’i-lin), a fénix, a tartaruga e o dragão. O unicórnio é o maior dos quadrúpedes. Seu corpo é de cervo, tem rabo de boi e cascos de cavalo. Suas costas têm cinco diferentes cores e seu ventre é amarelo. É benévolo em relação aos outros animais. Dizem que aparece por ocasião do nascimento dos bons imperadores ou dos grandes sábios. Se é ferido, isto significa maus presságios. Apareceu pela primeira vez no jardim do Imperador Amarelo. Mais tarde, dois unicórnios viviam em P’ing-yang, capital do imperador Yao. Um unicórnio apareceu à mãe de Confúcio, estando ela grávida. Antes da morte de Confúcio houve um presságio que ela ocorreria: um cocheiro feriu um unicórnio.”

“Este apanhado do simbolismo do unicórnio não passa de uma amostra, exemplificando as conexões intimamente entretecidas e emaranhadas que há entre a filosofia natural pagã, o gnosticismo, a alquimia e a tradição da Igreja, a qual, por sua vez, influenciou profundamente a cosmovisão da alquimia medieval. Espero que este exemplo tenha esclarecido meu leitor até que ponto a alquimia representava um movimento filosófico-religioso ou ‘místico’.”

EPÍLOGO

“NUNCA ficou muito claro o que os antigos filósofos entendiam por ‘lapis’. Esta questão só será respondida satisfatoriamente depois de sabermos que conteúdos eles projetavam de seu inconsciente. Somente a Psicologia do Inconsciente poderá resolver tal enigma. Sabemos que um conteúdo do inconsciente, enquanto projetado, é inacessível.”

“Identificando-se com Paris, Fausto traz a ‘coniunctio’ da projeção para a esfera da vivência pessoal psicológica e portanto para a consciência. Este passo decisivo significa nada mais nada menos do que a solução do enigma alquímico, e também o resgate de uma parte da personalidade até então inconsciente. Todo acréscimo de consciência porém traz consigo o perigo da inflação. Isto fica demonstrado claramente no aspecto de super-homem em Fausto. A morte deste, necessidade que se deve às exigências da época, não constitui de modo algum uma resposta satisfatória. O nascimento e transformação que se seguem à ‘coniunctio’ se dão no além, isto é, no inconsciente, deixando o problema em aberto. Este foi retomado por NIETZSCHE, como sabemos, no Zarathustra: o da transformação em super-homem, que ele aproximou perigosamente do homem terrestre. Isto provocou inevitavelmente o ressentimento anticristão, pois o seu super-homem é uma hybris da consciência individual, que se choca necessariamente com o poder coletivo do cristianismo – levando à destruição catastrófica do indivíduo. É sabido o modo pelo qual e de que formas características isto aconteceu ‘tam ethice quam physice’ (tanto moral como fisicamente) com o próprio NIETZSCHE. E que resposta os tempos subseqüentes deram ao individualismo do super-homem nietzscheano? Responderam com o coletivismo, com a organização coletivista e o amontoamento de massas ‘tam ethice quam physice’, escarnecendo de tudo o que existira até então.”

“O fogo esfriou, transformando-se em ar, o ar tornou-se o vento de Zarathustra e causou uma inflação de consciência. Esta, pelo visto, só pôde ser dominada pelas mais aterradoras catástrofes da civilização, ou seja, pelo dilúvio que os deuses enviaram à humanidade pouco hospitaleira.” Jung criou uma estorinha de gibi na própria cabeça.

“Este estado de possessão inconsciente prosseguirá até o dia em que o europeu se ‘assuste com sua semelhança a Deus’.”

“O termo científico ‘individuação’ não significa de modo algum que se trate de fatos inteiramente conhecidos e esclarecidos. Ele apenas designa um domínio obscuro de pesquisa ainda em curso dos processos psíquicos através dos quais a personalidade em formação atinge seu centro no inconsciente. Trata-se de processos vitais, que, por seu caráter numinoso, serviram desde os primórdios de estímulo fundamental para a formação dos símbolos.”

[ARQUIVO] DA UTILIDADE & DO INCONVENIENTE DA HISTÓRIA PARA A VIDA —A II Intempestiva de Nietzsche—

 

Páginas destacadas e temáticas (ed. Escala):

35: o deus ex machina; a “história monumental” como a perfeita para o supra-homem, ou aquele com ânsia de ser clássico. Uma “estrutura do herói” muito antes do nazismo de Campbell.

44: bricolage. Lévi-Strauss devia ser um fóssil vivo com seu hábito exclusivo de releituras de cartas.

50: o novo amigo do homem moderno, a irracionalidade

51: o descompasso entre teoria e prática

52: o “sentido não-histórico” dos gregos; forma vs. conteúdo; gregos são auto-suficientes. Não são colonizadores; o fosso bem antes: “aumentamos, até a insensibilidade com relação à barbárie, o perigoso abismo que separa o conteúdo da forma.”

54: só um povo tão sério quanto os teutônicos poderia provocar tanto riso; quando uma sociedade importa seu vestuário de outras, ela é decadente. A despeito de muitos pensarem em vias públicas, a realidade é que não entendemos o conceito de clima tropical!

61: Dom Quixote

63: “Faça o que eu digo…”

65: quando o didatismo apaga a “hierarquia filosófica” e cada “sistema” e cada indivíduo de qualquer época e país se torna tão relevante quanto os milhares de outros. Nivela-se, para se ter idéia, um pré-socrático e um medieval, um grande poeta torna-se tão prosaico quanto e tão parecido com um filólogo ou um jurista. É como um almanaque isométrico, ou ainda um álbum de figurinhas sem protagonistas ou estrelas de brilho mais intenso. Meras curiosidades, afinal ninguém está certo sozinho, o que mais parece dizer que se trata de uma coleção de erros ou de adultos engraçados que tinham vidas pacatas e que se preocupavam mais com o invisível que com que tipo de roupa saíam à rua.

66: o problema da crítica; história crítica.

69: a “justiça”

78: para o passado—oráculos.

87: sobre a divisão do trabalho

97: Hegel e a Ideologia Alemã

99: “A moral é, p.ex., ofendida por ver que um Rafael tenha tido de morrer aos 36 anos.”; a cena da idolatria ao bode.

100: ponte para alguma coisa; a ironia pós-moderna.

107: São estas as páginas seguidas mais hilárias desse homem! “a partir de amanhã, o tempo não existirá mais e todos os jornais deixarão de circular”

109: “da ausência de toda diversidade entre o homem e o animal—doutrinas que tenho por verdadeiras, mas por mortais” presente eterno, egoísmo, felicidade

116: para todos e ninguém


O primeiro parágrafo já toca nos animais! A tentativa de diálogo entre um homem e um animal: “Isso acontece porque esqueço sempre o que pretendo responder”, assim o animal gostaria de se justificar às súplicas do homem que fala sozinho, se não esquecesse o que tinha em mente um segundo depois… Mas… como pode então o cão latir pelo seu dono (tutor)? O animal = a criança.

“a natureza mais poderosa e mais formidável”

Todos os enunciados já estão aqui; aliás, poder-se-ia dizer que ele sempre foi assim, que ele não visava a nada, não perseguia o rabo de nenhuma cobra (Ivan!): “A negação do homem supra-histórico [estrutural] não vê a salvação no desenvolvimento, mas, pelo contrário, considera que o mundo acabou e atingiu seu fim em cada momento particular.” Em outras palavras, vencemos o niilismo extremo.

“No fundo, o que foi possível outrora não poderia se reproduzir uma segunda vez, a menos que os pitagóricos tivessem razão em acreditar que uma mesma constelação dos corpos celestes produzisse até nos mínimos detalhes os mesmos acontecimentos na terra, de modo que quando as estrelas ocuparem a mesma posição uma com relação às outras, um estóico se uniria a um epicurista, César seria assassinado e, de novo, em outras condições, Colombo descobriria a América.”

Perigo de hipertrofia de qualquer uma das 3 categorias de história.

“O crítico sem angústia, o antiquado sem compaixão, aquele que conhece o sublime sem poder realizar o sublime: essas são plantas que se tornaram estranhas a seu solo nativo e que, por causa disso, degeneraram e se transformaram em joio.”

Utiliza expressões que se consagrariam em títulos de obras posteriores.

História antiquada: a monumental tornada linear, uniforme, homogênea; ou seja, os personagens e costumes possuindo o mesmo valor.

A França como uma referência cultural “menos degradada”. Em busca da unidade superior.

“É assim que [o grande homem] abandona a alegria divina de criador (…) para ficar oprimido sob a profunda compreensão de seu destino. E acaba o curso da vida como iniciado solitário, como sábio saturado. Esse é o espetáculo mais doloroso que se possa ver. (…) É necessário que essa cisão entre o ser íntimo e o exterior desapareça sob os golpes do martelo da angústia. (…) É preciso que expresse o que compreendeu, que o defenda (…) Essa necessidade violenta produzirá um dia a ação vigorosa.”

Como se deve ler o suicídio de Werther: “Seja homem e não me siga!”

“Por que devemos ouvir incessantemente a hipérbole das hipérboles, a palavra universo, quando cada um só deveria sinceramente falar do homem?”

“Mede o que sabes do nível do que podes”

Exatamente a assunção da vítima das três categorias do fazer-história: “este tratado, com sua crítica imoderada, com o verdor de sua humanidade, com seus saltos freqüentes da ironia ao cinismo, do orgulho ao ceticismo, mostra muito bem, não gostaria de escondê-lo, que carrega a marca moderna, o caráter da personalidade fraca.” “É necessário ser jovem para compreender esse protesto”


Anotações de cunho pessoal:

Síndrome dos jogos de futebol (dos livros eu até entendo): por que eles são tão bons para pensar na vida?

Talvez eu precise, mais do que a colega tuiteira a meu lado, dotar a vida de plurissentidos numa taxa que assustaria o estranho ao ninho.

Ilhas de despreocupação no inferno.

Nunca mais vou deixar de olhar aquela pequena conversa com o Marco Antônio depois da aula como um marco divisor.

“Um dia a menos para a vida passar” é um pensamento idiota.


De 28 de janeiro a 4 de fevereiro de 2010