[ARQUIVO] 2013: VELHOTES AUDAZES, LETRADOS & SARADOS!

Originalmente publicado em 20 de agosto de 2013

Trinta e cinco anos depois do (agora pen)último álbum de estúdio com Ozzy Osbourne, cerca de 45 anos após as primeiras reuniões da banda… a lenda negra revive. Sábado Negro, o quarteto que continua sendo o ápice e a referência máxima dentro do tema “música pesada”, dá uma volta completa no círculo: sua contemporaneidade são as próprias origens, com exceção do carcomido baterista. Muitos boatos há a respeito do seu não-retorno ao lado dos outros Três Cavaleiros do Apocalipse, mas pouco de confiável podemos entrever mediante tanta névoa—nem as entrevistas dos músicos deixam os entreveros claros. Mas, como a noite, essa banda nunca nasceu para ser clara!

O que esperar de [[[13]]], o álbum que nem precisaria ter saído numa sexta-feira para deixar todos de cabelos em pé? Mais do que uma revolução ou injeção de novo fôlego, é um pastiche que mostra que ninguém ali caducou de verdade, e todos sabem reprisar a velha fórmula das canções clássicas do Sabbath, aproveitando-se dos novos e tecnológicos instrumentos para maximizar o impacto.

“O Final do Começo” abre estrategicamente o CD. O clima é de faroeste. Versos-clichê, na boca de Ozzy, tornam-se uma verdade universal testada e consagrada pelo tempo. O ar “anti-científico” e pessimista das primeiras letras nos rememoram algumas incursões do Technical Ecstasy, embora a sonoridade esteja bem mais grave e intimidadora. Como sabemos, a lentidão do Black Sabbath é 50% de sua sensação de peso, e nem isso é capaz de manter os thrashers compulsivos e tarados por velocidade afastados da obra, graças ao virtuosismo não-aborrecido de Iommi e ao baixo sinistro de Butler, dobradinha que deixa qualquer malcriado dorme-sujo em casa onde quer que esteja ouvindo, estirado num sofá de veludo preto imaginário. Mas essa porrada foi só um aquecimento diante da faixa 02…

A faixa é 2, mas o número 4—Volume 4—é o que vem à tona de imediato. O jogo dialético sombra-luz não tem fim nas imediações do BS. Não que alguém esteja cansado por enquanto. O niilismo ataca novamente após hibernar quase meio siglo, e as filosofias do século XIX renovam sua fama de “as mais atuais” para o homem ou Homem, o que quer que ainda reste após o deicídio longamente anunciado pelas trombetas e promovido por nossas próprias mãos. Remanesce uma hesitação, uma dúvida. Ele realmente morreu? Continua, o evento, mero pressentimento de uma alma rancorosa e sem resposta no fundo da caverna…

Não é de um dia para o outro que o Além, cada vez mais desacreditado, perderá toda a sua importância paliativa, e que a esperança de sua existência de fato cessará. Até que a esperança se converta em maldição, nos agarraremos a qualquer indício de uma pós-vida. Interlocutor, você pode ajudar o eu-lírico perdido dessa canção-tumba? A agonia é muito mais longa que a duração das lamentações verbais, não se esqueça… Embora elas permaneçam como um eco surdo em nossas mentes por não poucos dias após escutarmos!

“Johnny Blade”: A Continuação? É o que parece. “Loner” é a revisitação de um tema muito conhecido pelos esquizóides fãs de Sabbath, incompreendidos entre seus pares inferiores. Ou superiores? Somos incapazes de adaptação por sermos além-do-medíocre ou sub-homens rapaces? Seria impossível tentar ser gregário sem culpa depois de ouvir o trecho:

I wonder if the loner can assimilate.

A life less lived alone plays devil’s advocate.

Através de uma música assim, comunica-se o incomunicável.

Em seguida, ninguém vai deixar de reparar que a Caravana de Planetas (não confundir com Caverna de Platão) ainda não terminou—também pudera, anos-luz são muita coisa para ser atravessados em décadas! Sabbath nunca foi sinônimo de clausura em um gênero só. Ele foi definidor, principalmente, de um (com seus diversos sub-ramos), mas isso não significa inaptidão para o restante. Lírico, melan(al)c(o)ólico, triste: assim é o lado sentimental dos quatro. Nada diferente do nosso, ou de uma criança. Só quando a Terra adquire as dimensões de um ponto perdido no espaço, oculto pelo brilho fraco e azul de Doppler de um Sol que já não é mais do que uma estrela semi-visível da galáxia vizinha, nos damos conta da nossa condição de desacompanhados de tudo e todos a não ser poeira que vaga sem gravidade por aí…

The love I feel as I fly endlessly through space

Lost in time I wonder will my ship be found

A idade da razão se sobrepuja ao desespero da nave perdida no abismo sem-fim e absurdo. Seu terror sobrepuja esse do viajante solitário, marujo do céu, porque talvez seja muito pior definhar na Terra, o falso lugar da lógica e do império da racionalidade. O relâmpago e o trovão—nessa ordem—são a síntese da desordem, e até hoje a ciência não os domou. Até hoje? Talvez estejamos no lucro de não termos sido tostados pela fúria vendética de uma nimbus gigantesca cansada de nós! Uma extinção sustentável a curto prazo é do que somos profetas. Como é viver sabendo-se que não há herdeiros para o que fize(r)mos? Nossa insônia é só um sintoma… Somos sementes estéreis, a despeito de podermos ser criativos acerca do nosso momento fatal.

Já se perguntou quando esses músicos morrerão? Se pensa que é heresia de fã, deveria, porque eles se perguntam o tempo todo. Como é isso de querer viver e morrer ao mesmo tempo? Ah, francamente… Todos nós sabemos! Somando o ontem, o hoje e o amanhã, ao menos. A vida carrega cores desbotadas de sonho, mas é melhor ter sonhos ruins e pesadelos do que afundar sem uma reminiscência, uma Musa a cantar suas desgraças…

Se existe uma canção que eu considero menos do que as outras nesse conjunto nada menos que semi-perfeito, é “Damaged Soul”, mas talvez seja só questão de tempo. Curiosamente, é a introdução mais intelectual do CD inteiro, me lembra o quase-jazz distorcido pelas assombrações do álbum seminal. O vocal de Ozzy também foi propositalmente trabalhado para parecer excepcionalmente jovem e altissonante aqui. “Evil” e “graveyard” já aparecem nas primeiras linhas. Isso que é saber pagar um tributo a si mesmo! “Age of Reason” e “Beginning of The End” refluem ainda neste ponto da trilha:

Religion won’t save me, the damage is done.

The future has ended before it’s begun.

Enquanto Deus e o Diabo duelam na Terra do Sol os perdedores somos apenas nós.

“Querido Pai”, o nome, havia me deixado cético quanto ao “fim” (proto-, ilusório) do ressurgimento. Mas não é só a chuva final que remete ao começo de tudo, senão a qualidade que perpassa todos os segundos da produção. Não se deixe enganar pelo título piegas como eu fui. Parece o cabeçalho duma carta, se pensar bem, algo já visto em Dehumanizer, sem o Ozzy. Até os “yeahs” do cantor se encaixam bem nessa música. Uma carta de despedida para deus, quem sabe. Quem sabe? Talvez o dentista de Ozzy que coleciona revistas TIME. Ou pode ser que “father” queira dizer aqui Padre. Crucificado numa cruz de espírito. Isso deve doer, sr. Frankenstein ao contrário! Somos melhores como formigas do formigueiro da fazenda de crianças ou como peças de um lego de um adulto? Em realidade esse foi um Juízo Final às avessas, com um martelo pesadíssimo segurado pelo povo.

Mas o epílogo era falso. Ainda tem o BÔNUS da orgia sonora. Quem um dia já fez um hino à maconha e outro tão poderoso ao pó agora está do lado de cá, do Proerd e da consciência da vaidade dos prazeres: “Methademic” é a vingança do corpo contra seus fugazes espoliadores. Titio Ozzy também é maxima moralia, meus amigos! Você jovem vive rápido demais, tão rápido quanto essa música, uma “Symptom of the Universe” deluxe edition. Uma Sabotagem tão gratuita quanto bem-vinda…

“Peace of Mind” e “Pariah” parecem nascidas do mesmo caldo, aquele caldo anticristão em eterna ebulição que, insaciável, depois de tanta porrada no disco ainda quis dar umas últimas chibatadas sádicas no mito do messias e seu ultra-ícone, Jesus:

A product of a virgin birth

Another god on earth

Yes that’s your fantasy (…)

Make your own truth, and get out of my way

Do outro lado do mundo foi onde tudo começou. O homem virou homem. Nada mais justo do que haver uma faixa exclusiva para os olhos-puxados, então. Faixa cujas iniciais equivalem a “N.I.B.”, um dos clássicos mais velhos da banda – fechando com chave negra.

[ARQUIVO] COMUNISTA CHATO

 

Originalmente publicado em 17 de agosto de 2013

Passa o ferro

carril, a mulher…

Jivagando pelas terras

De neve vermelha de sangue

onde o povaréu urra e geme

Ganharam, ganharam, aboliram a História

só o que sobra sobrou sobrará é um sobrado,

um chalé, um xale qualquer

fogão à lenha

Num ninho de palha se embrenha

Mas se o lobo uiva, não é nada mal!

[ARQUIVO] VIDANTE NOVANDANTE

 

Originalmente publicado em 16 de agosto de 2013


PURGATÓRIO & PARAÍSO

Mulder enganou a todos.

O que eu queria era encher a cara

Quebrou-se a jarra

Eu ouço um “E aí?” e acordo. Minha voz ou a do meu irmão. Mas que bela peça pregada!

Imploro aos Céus de Dante uma trégua.

Já sou ferido demais pela humanidade…


VIDA NOVA

Dante Alighieri não era “pedófilo” se ele também tinha 9 anos ao se apaixonar! Amor congelado.

Obedece ao tirano dos sonhos.

Sofria de “TOC das nove horas”. Vida Nove.

Adoeceu por 9 dias!

“como seja fato que se concede aos poetas maior licença no falar do que aos prosadores”

Corruptela:

Tem tal virtude em sua gostosura

Que nunca foi por outras penetrada,

Tida mulher fazendo andar pouco trajada

De decote, pós-plástica, a bunda dura

[ARQUIVO] FLORES VÃS

 

Originalmente publicado em 10 de agosto de 2013

As conversas com amigos. Inocentes. Sobre o futuro. Despretensiosas. De pé. Enrolando para haver a despedida. O estômago só roncará depois. O céu enegreceu. Sei que foi só fumaça, era como o interlocutor de dentro, eu quero crescer, estourar, enrugar, gemer, ah

O sofrimento é o que nos torna únicos. A música é a única prova. O único sofrer está nela.

Eu sou o que eu não posso ser na telinha jogando o jogo real da vida.

* * *

[untitled]

Já fui mais sozinho?

Me apegando a terapias

Rolando no vômito

Estudando

Sendo expulso, reentrando, descansando

Exasperando-me por coisas vãs

O pão comprando

Já fui mais sozinho?

Cinema sem amigos…

A família decepcionando

Não estou namorando

Quero pedir carona no coração de alguém

Muito ermo esta parada, este ponto.

* * *

VÃ VOCÊ

Você é o gato de Schroedinger do meu coração

viva e morta, puta e bela esposa, imprestável ex-amiga e vício mais vivo, meu amanhã, meu eterno e meu nada, insignificante a ponto de merecer meu poema.

*

Alguém mais interessante como um personagem que conservo.

Casca de carne.

*

Você é só isso

Casca de carne.

A musa inspiradora dum escritor

Mas eu prezo a escrita mais que qualquer coisa, então

Realmente isto está 20 mil léguas acima de 1 beijo.

*

Você é uma planta desprovida de atitude que tem pena de mim.

[ARQUIVO] BAUDELAIRE POR I. JUNQUEIRA (CCXXIII—Spleen 47)

 

Originalmente publicado em 1º de agosto de 2013

Chegado é o tempo em que, vibrando o caule virgem,

Cada flor se evapora igual a um incensório;

Sons e perfumes pulsam no ar quase incorpóreo;

Melancólica valsa e lânguida vertigem!

*

Cada flor se evapora igual a um incensório;

Fremem violinos como fibras que se afligem;

Melancólica valsa e lânguida vertigem!

É triste e belo o céu como um grande oratório.

*

Fremem violinos como fibras que se afligem;

Almas ternas que odeiam o nada vasto e inglório!

É triste e belo o céu como um grande oratório;

O sol se afoga em ondas que de sangue o tingem.

*

Almas ternas que odeiam o nada vasto e inglório

Recolhem do passado as ilusões que o fingem!

O sol se afoga em ondas que de sangue o tingem…

Fulge a tua lembrança em mim qual ostensório!

[ARQUIVO] REFLEXÕES DE UM TOLO — Tomo I

Originalmente publicado em 22 de julho de 2013

Pode alguém se desvincular da música? De uma paisagem, não é preciso ser cego, basta fechar os olhos. De uma sensação, recolher o corpo. Do olfato, prender a respiração. Do paladar, retrair a língua. Mesmo com todos os estímulos aos sentidos trabalhando ao mesmo tempo, mesmo diante de um furacão de sensações, o homem tem como, no olho do torvelinho, se concentrar, se controlar, se desligar, raciocinar só de si para consigo mesmo, ignorando qualquer coisa lá fora—ainda que digam que o “consigo mesmo” só pode estar em relações com os sons, os cheiros, os tatos, os gostos, as imagens…

Assim seria com os outros quatro sentidos mais fracos e mais simples, mais rasos, mais epiteliais. Mas A MÚSICA não é driblada por nenhuma finta ou artimanha da consciência. Ela é suprema. Os surdos ainda escutam. E não podemos falar aqui dos mortos. Estar vivo e centrado em si o suficiente para não ser desestabilizado pela música—este é o ponto. Só com outra música? Silêncio pode ser música?

O resultado de uma vitória é só outro confronto? Em última instância, outros combates ou a derrota, a agonia sempiterna seguida do sepulcro?

[ARQUIVO] DEMÔNIO AFRICANO, @ AfroDite

Originalmente publicado em 21 de julho de 2013

Pele sebosa

Vaca mimosa

Tábua rancorosa

Carne de porco

Espírito de freira,

quer dormir com

as freiras

e professoras

*

Garçonete cantora

Um boquete por hora

Para espantar a modorra

Se mete a ser mãe,

agora

*

Fora o dispêndio,

vai envelhecendo

se maltratando,

as ex peranças

ex fumando

*

Melhor amiga Maria

Mas em verdade

É Madalena,

A Quenga

Triste como as hienas

*

Por trás é que arde,

boa menina

Imigrante cuja sina

É fazer um Deus

virar Obina

*

Dorme ao meu lado

estuda comigo

joga os búzios

esfrega os lábios,

geme um pouquinho

ex-namorado

idólatra do umbigo

queimou meus fusos

ao dar pra larápios

*

Perfume da vagina

Imagina terrores

te amei tanto

comeria teu estrume

por que essa cara

de espanto, Dolores?

*

Sempre sem pensar 2x

Pra mim todo te quis

Sinto que a bala que

passou por um triz

Te tornou meretriz

O que foi que eu fiz?

[ARQUIVO] O PORTAL DAS SOMBRAS: O LUGAR, A PESSOA

Originalmente publicado em 17 de julho de 2013

Tem sempre algo extraordinário sobre castelos, não acha?—especialmente para nós filhos da América que nunca vimos nem entramos num pessoalmente! Muita coisa de épico pode acontecer em mansões, cidades-fantasmas, densas florestas e pântanos que nem deixam passar a luz do sol pelas copas das árvores mais altas… Mas um castelo é a forma mais pura do terror. Um castelo é… um castelo—e vice-versa, como diria o filósofo. Os vários pórticos e infindáveis corredores (como que talhados não para gente, mas para gigantes) que se imbricam em labirintos que desafiam qualquer evolução da arquitetura e da engenharia, todos os “ecossistemas” abrigáveis numa só propriedade de alguns quilômetros quadrados, num só terreno, numa só dimensão, numa mesma propriedade e território… Bibliotecas menos visitadas mas contendo mais volumes do que as de grandes centros universitários, capitais e sedes mundiais da intelligentsia, salas de banquete com louça de cristal e jardins encantadores que coexistem sem constrangimento algum com câmaras de tortura úmidas e fétidas no extremo subsolo! É, o castelo é um mundo em si, que representa a ambigüidade do homem diante da natureza e todos os estratos sociais ao mesmo tempo.

Um sem-par de figuras mitológicas tem espaço dentro do castelo. E das mitologias antitéticas e díspares, diga-se de passagem. O Portal das Sombras é uma viagem traumática pela orla de gaiolas de aberrações, caldo cultural forte para quem não tem o estômago preparado, um coquetel de folclores de deixar ébrios contumazes no chão.

Ah, é tão duro, mas necessário, voltar à realidade!…

Sou mais poético do que verdadeiro, saberia Fernando Pessoa!

[ARQUIVO] SOMBRAS QUE SE APROCHEGAM…

 

Originalmente publicado em 16 de julho de 2013

1855

Jack, O Estripador, o maior serial killer de todos os tempos, está relembrando um por um de seus assassinatos e tentando desvendar seus motivos mais profundos para cometê-los, se existirem, antes de terminar a sua grande obra chamada vida com o homicídio-apoteose: o próprio. Antes do suicídio se consumar, uma entidade interrompe Jack e diz que ele não conhece a sensação de poder como pensa que conhece, nem a de privar o ser humano, efetivamente, da existência, já que há muitas verdades metafísicas que ele ignora. Para ele se tornar um serial killer completo, deveria segui-lo. Seguir Legion. Aliciando Jack, ele quer que o estripador o ajude a erguer uma catedral do medo capaz de reunir todas as almas penadas do Outro Mundo, a ser batizada de Asilo, o pré-requisito para fazer os dois planos (o além e o aqui-e-agora) fundirem-se num só. Em troca, Jack ganharia o direito de ser o vice-pontífice desse reino do horror e a imortalidade: poderia, agora sim, se matar no mundo dos vivos, somente para ser eternizado como Jack, O Estripador, o morto-vivo—Jack, o Supra-Extirpador! E é o que ele faz…

… os guinchos dum patinho de borracha na banheira deserta, a risada dum bebê que não pressente o perigo, uma broca de dentista em funcionamento, e depois vários e intensos gritos de morte, de crianças e mulheres—acompanham a soturna e deliciosa melodia de Beethoven …

1999

Michael LeRoi jubilou no curso de literatura por vícios como o álcool, e como não queria voltar à casa dos pais, no estado natal, cabisbaixo e derrotado, tratou de achar um bico como taxista—a profissão mais legal do mundo, dizem—no mesmo local, a fim de ganhar a vida. Miserável vida. Numa noite de trabalho, um dos passageiros de Michael não era flor que se cheirasse e acabou sendo assassinado num linchamento coletivo, bem na sua frente, logo após descer do veículo. Temendo pela própria vida, Mike dá o fora da cena do crime cantando pneu. Algumas horas depois ele descobre que o passageiro falecido havia deixado uma sacola no banco de trás com muito dinheiro—20 mil dólares—… Pelo menos para ele, isso era muito dinheiro, sim. Grana, muita grana! Que Mike usa para comprar presentes para toda a família antes de passar merecidas férias em sua antiga residência, simulando que está tudo bem, que ele vai seguir carreira…

Os mesmos fulanos que tiraram a vida do passageiro desconhecido descobrem tudo sobre Michael LeRoi e sua vida precária e patética. Os pais e o irmão caçula de Mike são os primeiros a pagar—com a vida—pelo inocente uso dos 20 mil dólares… Como se a situação do taxista, ex-taxista ou seja lá o que ele for agora, não pudesse piorar!!

Drenando um pouco mais de seu vigor vital para chorar as mágoas num bar de quinta categoria, Mike é abordado por uma mulher muito suspeita, Agnetta, doravante apenas Nettie. Uma sacerdotisa de magia negra, poderosa manipuladora e rainha dos vodus. Ela seduz o bêbado e ambos dormem juntos essa noite. Com seu dom macabro, o propósito desse flerte é cedo revelado: ela costura uma máscara na altura do peito de Mike, que daqui em diante será conhecido somente pelo apodo Shadow Man, uma entidade capaz de fazer travessias entre as duas dimensões do universo, o Lado dos Vivos e o Lado dos Mortos. Isso porque agora ele não está nem vivo nem morto, propriamente falando… Na verdade, essa dicotomia é tão absurda quanto a descrença no absurdo!

… na poeira ou terra batida, é um som seco e áspero, como o de pequenas e frágeis pedras sendo esmigalhadas pela sola de sapatos frementes; atravessando canos, alumínio ou metal, o som é aquele típico clank, clank; superfícies molhadas farão aquele squish, squish análogo ao dos monstros do lago nessie …

Ultimamente, a ancestralmente sábia e bela Nettie, que não sabemos há quanto tempo co-habita com os vivos, anda tendo sonhos proféticos acerca da vinda do Apocalipse. São cinco—e não quatro—os arautos do Armageddon. A energia negra que possibilitará a invasão está próxima de ser finalmente reunida e despejada, ela o sente. Alguém passou os últimos séculos colecionando almas…

Michael, Jack, Legion, Nettie…

… o tempo está correndo e Shadow “Mike” Man, a mando de Nettie, precisa correr atrás das almas negras pendentes antes dos inimigos LOUCOS, ou será o fim dos tempos como a humanidade os conhece e concebe! A profecia interpretada por Nettie significa que, além de Jack, Legion tem outros subordinados super-eficazes no seu trabalho mesquinho de artesãos da carne podre: outros dos maiores serial killers da História se juntaram à dupla nessa cruzada | anti-cruzada, prótons e neutrinos no café-da-manhã …

[ARQUIVO] CARTAS CHILENAS — Tomás Antonio Gonzaga (Critilo)

 

Originalmente publicado em 11 de julho de 2013

“Há muitos fanfarrões no mundo, e talvez que tu sejas também um deles”

Reino estranhol

“E limpa, das pestanas carregadas,

O pegajoso humor, que o sono ajunta.”

*

“Que coisas, (tu dirás), que coisas podes

Contar que valham tanto, quanto vale

Dormir a noite fria em mole cama”

*

“Não falta tempo em que do sono gozes:

Então verás leões com pés de pato,

Verás voarem tigres e camelos,

Verás parirem homens”

*

O governante chileno que é um Sancho Pança às avessas.

*

“Nem Zeus pode tudo”

*

“De fogo devorante e ao longe soa,

De compridos trovões, o baixo estrondo.”

*

“Noutro tempo

Ninguém se retirava dos amigos,

Sem que dissesse adeus.

Agora é moda

Sairmos dos congressos em segredo.”

[ARQUIVO] REINAÇÕES OBSCURAS

Originalmente publicado em 17 de junho de 2013

Assim que entrou no bar sua figura se distorceu em três:

MOSCA FILOSÓFICA:

E o que acontecerá, num mundo sem dinheiro outra vez?

OCIDENTAL OBSCURO:

Como chegamos a isso?

MESTRE TRÁGICO DO EXISTIR:

Eu voltarei a reinar supremo!

OO:

Bobagem: não importa em qual mundo, sempre estaremos eclipsados! Nossos sonhos debaixo dos escombros, a promessa nunca cumprida. E você, Mosca Pensante?

MF:

Eu não estarei viva até lá, para mim isto basta.

MTE:

Seu nome é mesmo “Ocidental”? Pois parece que o Oriente, e o Sol, e a Lua, e todas as estrelas desta e de outras galáxias não passam de buracos negros, uma ruína perene, se é que isto não seria um contra-senso! Tem medo do amanhã?

OO:

O Mestre devia saber, eu sou o ocaso de todos os tempos e otimismo não posso enxergar. Fui ensinado desde cedo que é falácia. Mesmo que sejam mesmo, você impetuoso, o outro cavalheiro inseto esperto, superiores a mim, não importa, desde que do meu ponto de vista Deus, Gaia, o estrume e o escaravelho estão igualados.

MF:

Quem vai pagar a conta?

MTE:

Vocês não são moscas, são homens-tentáculos, sempre agarrando nossas pernas e nos fazendo descer do céu. O nosso céu pessoal. Mas ainda hoje e ainda na terra eu sou senhor. Como diz você, Sombrio: contra os fatos! Dentro do meu coração tenho espaço para todas as contradições, e até para o seu NÃO! E sobra um bocado para a indecisão.

OO:

Mas me conte do seu Reino, Quimera do Circo!

MTE:

Meu avesso regurgita moedinhas, eu sou o fliperama que despeja fichas ao invés de puxá-las. Quem quer ser um indigente? Moscas não conseguem se pensar sem seu açúcar, porque sem seu açúcar estão mortas. Mas eu sou massinha de modelar. Eu sou a esperança para frente e até para trás. Sabe escrever, não sabe? Sabe se ser—e ainda lamuria pelos cantos! O triste é que gostaria de lhe dizer que falta algo, mas não falta nada! Você já tem você. O resto são moscas na sopa, ou no refrigerante, certo? Vou zunir minha verdade estilizada: sou do topo da casta. O sonho com pés no subsolo, cabeça na estratosfera, banho gelado ou que escalda.

Com o tempo o Um vira nós 3—ou até nós 4, quando o Judeu Maometano quer ressuscitar—, as pessoas rumam cada uma para um canto, concertam seus solilóquios, treinam interações e depois festejam juntas, não importa se como escravos ou senhores. Saturno acabou, que venha Marte!

Quando as forças produtivas colapsam, o forte e seu instinto protetor é que cagam as regras!

…

[ARQUIVO] OS DONOS DO PODER: Formação do Patronato Político Brasileiro — Raymundo Faoro (3ª ed., 2001)

Originalmente publicado em 12 de junho de 2013

« J’adjouste, mais je ne corrige pas. » Montaigne

Portugal, esse outro Palmeiras, que só agoniza, tendo como fardo e simultâneo guindaste do ânimo seu passado cheio de glórias, conquistas e feitos notáveis. Antes seu fim honrado do que desse jeito se arrastar… Camões—Antiquado Imodesto. Os séculos foram inclementes com a Terrinha…

“Afonso Henriques, 1º rei de Portugal, no remoto ano de 1140”

“a carta de foral—pacto entre o rei e o povo”

“o estatuto da Covilhã, segundo o qual se cobrava das mulheres mundanas um soldo cada mês, pelo direito de exercerem a profissão”

“Justiça salomônica, cuja caricatura fez do governador Sancho Pança o modelo dos juízes do caso a caso, espectro racional ao serviço das decisões arbitrárias.”

O dinheiro é a medida de todos os homens-coisa.

“Portugal não conheceu o feudalismo.” O Estado—a máquina—tem um cunho invencível de obrigatoriedade; o mesmo não se podendo dizer dos senhores vassalos. O feudalismo foi um grande acidente europeu.

“A velha lição de Maquiavel, que reconhece dois tipos de principado: o feudal e o patrimonial, visto, o último, nas suas relações com o quadro administrativo, não perdeu o relevo e a sua significação.”

“A persistência de magnatas territoriais” na História não pode ser indício suficiente para decretar o feudalismo de um regime—nem mesmo entre as nações européias em sua idade medieva. A lista de exigências do modelo é mais ampla.

“Outro passo ainda e os legistas, doutores e letrados, conservando os fumos aristocráticos, serão sepultados na vala comum dos funcionários, onde a vontade do soberano os ressuscita para as grandezas ou lhes vota o esquecimento aniquilador.”

Camões entenderia perfeitamente bem as raízes do talento brasileiro para escavar o pré-sal.

A luta de classes que não houve. Se “sempre há luta de classes”, então nunca há. Pois guerra só é guerra pelo contraste com os períodos de paz.

“Perece uma dinastia, a dinastia afonsina, filha da infância do reino; em seu lugar, ergue-se a gloriosa dinastia de Avis (1385-1580), plataforma social e política da conquista do mundo desconhecido pelas audaciosas naus de Vasco da Gama. Nasce, assistida pela violência, pelo dissídio, pela guerra, a nação épica de Os Lusíadas, sonho de curta duração, meteórico, que deixou, na sua cauda de luz, uma constelação ainda íntegra.”

“Os estamentos governam, as classes negociam.”

“O vinho, o azeite, as frutas e o sal—as 4 pedras da economia portuguesa”

“Certo, um setor ficou alheio ao contágio, inassimilável: a burguesia judia, saliente no séc. XIV, ao ponto de ser preservada do ódio popular pelo Mestre de Avis. [trecho ambíguo] Mas ela pagaria caro pela diferença e autonomia.”

MUITO DIFERENTE DOS INGLESES: “Podemos, pois, concluir dizendo que até as reformas pombalinas a concepção dominante no nosso [português] país foi a da escolástica, aristotélica e tomista.”

“É dinheiro de encantamento que se converte em carvões” Diogo do Couto

“D. João II, O Príncipe Perfeito”—maquiavélico antes de Maquiavel.

A Índia interiorana jamais veio a ser colônia portuguesa.

“O reino, renascido e revigorado com a Revolução de Avis, incapaz de digerir a presa, entregava-a, na parte suculenta, aos banqueiros italianos e do norte da Europa, contentando-se com as sobras ostentatórias, que escorregavam para as garras ávidas da nobreza—militares e funcionários.”

“O comerciante [pecador maldisfarçado] não devia ser nobre, mas o capitão do navio, homem mais de guerra do que de comércio, devia ter o sangue azul.”

“Os cargos dos governos e das fortalezas davam-se por 3 anos para contentar quanto possível o maior número.”

“cada um dança segundo os amigos que tem na sala” “vê tudo e olha pouco” “a quem vela, tudo se lhe revela” “ouve e não escuta”

“Se basta hum Provedor em cada Província, para que são 5 ou 6? Se basta hum Corregedor para 20 léguas de destrito, para que são tantos” “Não há só multidão de funcionários: estes acumulam 2, 3 e 4 cargos, ajudados de muitos oficiais, no cultivo do ócio, agarrando com as unhas ardentes todo o comércio, a economia inteira.”

“Nem o açúcar do Brasil, nem o escravo africano, nem o ouro de Minas Gerais—nada salvará este mundo, condenado à mansa agonia de muitos séculos.”

“o Estado fonte de todos os milagres e pai de todas as desgraças.”

“mais contra a sombra de Rousseau do que contra o Rousseau histórico” No fundo somos todos sociopatas. Quando deveríamos ter medo dos fantasmas autoproduzidos por nossa esquizofrenia.

Raymundo Faoro é o gênio trágico que o Brasil teve mas ainda não descobriu: “A história não é senão um cemitério de elites, que correm, ao longo do leito secular, como um rio: a classe dirigente de hoje não será a mesma de ontem.”

Cuidado: para Faoro, uma democracia (classes) ou aristocracia (estamentos) não precisa ter uma elite. Alguns autores ainda trarão o estamento-líder como classe (não-social) ou intelligentsia (Manheim/Toynbee). Quase “casta”.

Montaigne, “o mais universal dos escritores europeus do seu século” + 100 anos: Hans Staden.

Contra Sombart e Sílvio Romero.

“As vilas se criavam antes da povoação, a organização administrativa precedia ao afluxo das populações. Prática que é modelo da ação do estamento, repetida no Império e na República: a criação da realidade pela lei, pelo regulamento.”

“Tomas Morus, na sua época, escreveu em vão a Utopia: só um século depois foi ela habitada, para decepção de muitos e engano de poucos.”

A Irlanda sempre foi o depósito de lixo—humano ou não—da Inglaterra.

“o inglês trouxe a sua mulher para a colônia, ao contrário do português”

“A riqueza dos colonos dos primeiros séculos é uma lenda, enganadoramente criada para embelezar a história.”

“Desde o primeiro século da história brasileira, a realidade se faz e se constrói com decretos, alvarás e ordens régias.”

“As minas aceleram o curso da disciplina americana às rédeas do soberano, rédeas firmes e curtas.” “O inconfidente é bem o protótipo do homem colonial: destemperado e afoito na conspiração, tímido diante das armas e, frente ao juiz, herege que renuncia ao pecado, saudoso da fé.”

“O funcionário é o outro eu do rei”

Como que uma “história do cargo público ou servidor no Brasil”. Essa é a minha escusa nos estudos!

“soldo estipulado em dinheiro e pimenta”

228: a genealogia do arbítrio militar brasileiro

238 et circa: a obstinação dos jesuítas

Importante lembrar que o lucro dos monocultores de cana era, em média, de apenas 8%. Os traficantes de escravos, que vendiam a rodo e a crédito, tinham-nos na mão.

Dois fracassos do Primeiro Reinado: o BB, que nasce para morrer, e a companhia siderúrgica, que só nasce no papel.

No duelo proto-imperial federação vs. confederação, a proa conservadora de José Bonifácio, que termina exilado.

“O Poder Moderador situa no Senado a barreira de defesa ao despotismo das maiorias parlamentares.”

“Na cúpula do sistema, a segunda Câmara, o Senado vitalício, cujo papel conservador e refreador da opinião pública foi ressaltado por dom Pedro I.” Enquanto isso, a Câmara temporária seria um vestibular-para-novos-conservadores maldisfarçado!

“O talhe de D. Pedro I não se coadunará com o arcabouço por ele montado, mas encontrará em D. Pedro II, conjugado à maturidade do plano, o príncipe para conduzir a máquina, maciamente.” “educado na neutralidade bonapartista” “o conservadorismo, estuário natural da vitória”

365: o juiz de paz (vs. juiz de direito). Inesperado poder da figura: “O centro do sistema estava no juiz de paz, armado com a truculência de seus servidores, os inspetores de quarteirão, de triste memória nos anais do crime e da opressão: ‘era talvez a 3ª autoridade depois da regência e dos ministros’.” “O juiz de direito, nomeado pelo imperador, era menos que um juiz de paz.” (!) Tudo isso no confuso código penal de 1832.

“A desconfiança ao poder—que levou à descentralização e à supressão do Conselho de Estado—leva ao poder sem freio, ao poder incontrolado, ao arbítrio do mandonismo impune.”

Engana-se quem tacha os movimentos sociais da Regência de “separatistas”. Era mero discurso, tática. Entre os enganados, Euclides da Cunha.

Teria sido aberto o parlamentarismo, para vigorar durante todo o II Reinado. Menos de 5% da população seria votante.

“O poder, se não corrompe, amansa e infunde o esquecimento das loucuras da mocidade.”

“O princípio ‘o rei reina, mas não governa’ seria formulação de Chateaubriand, [1816] treze anos antes que Thiers o lançasse diante da câmara dos deputados, dramaticamente.”

“Lucidamente, no cume da pirâmide, sabe a majestade que seu poder ocupa um espaço vazio, preenche o vácuo e, como Leviatã, nasce do mar, trazido nas naus portuguesas, indomesticável!”

“Não espanta que o Império, com seu cortejo solene de espectros, não resista a uma espada desembainhada simbolicamente, numa parada sem sangue.”

“Espalhar pelas cidades e pelo interior, onde o emprego era uma sorte grande, diplomas de eleitor era distribuir bilhetes de loteria para um sorteio sempre renovado”

Ao invés de ter sido incluído a posteriori, na verdade o voto do analfabeto foi excluído das eleições, após ser inicialmente válido.

“Tomem-se, ao acaso, 20 ou 30 brasileiros em qualquer lugar onde se reúna a nossa sociedade mais culta: todos eles ou foram ou são, ou hão de ser, empregados públicos; se não eles, seus filhos.” “Quem melhor do que Silveira Martins sentiu o espírito do insondável, ao dizer que ‘o poder é o poder’, como Jeová é o que é?” “Só vive, pensa e governa no Brasil o espírito burocrático.”

478: O Barão de Mauá, voz solitária pró-padrão papel-moeda, que, paradoxalmente, era o único meio realmente utilizado. O padrão-ouro era ambicionado por todos os outros agentes econômicos, única forma possível do Império tropical possuir moeda própria forte.

“todos os orçamentos [do império] foram encerrados com déficits.”

“Parentes, amigos e compadres, os comissários [empresários intermediadores] não dispensam os juros de 12 a 18%, calculados nos saldos das contas correntes” O latifundiário sempre refém desse adiantador de crédito, que movimentará o negócio a médio prazo da exportação (o café necessitava de meia década de cultivo, em cada safra). Por sua vez, os capitalistas ingleses farão dos comissários, brasileiros, seus servos no jogo de títeres global.

“O antigo fazendeiro trabalhava para o traficante que lhe fornecia escravos, como o atual trabalha para o correspondente (comissário) ou para o banco que lhe adianta capitais. Uma boa parte da riqueza nacional é eliminada do país pelo comércio de exportação, cujos lucros ficam em parte no estrangeiro” Joaquim Nabuco

“A frustração dos planos de Mauá [o industrialista precoce] não se deve a um capricho governamental, como capricho não foi a tarifa Alves Branco. O café cresce e se expande, pressionando, em todos os campos, [literalmente!] a política econômico-financeira.”

“Lançai uma estrada de ferro desde S. Cristovão até o Pará, desmontai as cachoeiras de S. Francisco e entupi desde a foz até a nascente com os clippers e os ericsons; fundai um banco, dois mais (…)” Cronista. O punch direto continua: “Iluminai o Corcovado, o Pão de Açúcar, a Gávea (…) fundai um hospital para as vítimas do ágio no dia supremo das tribulações.”

“Primeira aparição do termo “plantation” somente à página 511!

“Quarto Banco do Brasil”… e contando!

“seria um crime se não fosse uma lei”

“O império não subsistia apenas graças ao apoio do fazendeiro como se pretende na historiografia tradicional.”

“Não data do término da guerra do Paraguai, portanto, a divergência entre a ordem civil e a militar, conforme repetida e generalizada afirmação.”

“A embriaguez revela o sonho do homem sóbrio.”

“a voz grossa e altaneira do bandeirante ainda discernível no fiapo da arrogância cafeeira.”

“Nasce, aprovado pela Lei de 30 de dezembro de 1905, o 4º Banco do Brasil, que é o atual [?] BB.” “Banco central, cornucópia da União”

Instituto de Defesa Permanente do Café (1922). Tão permanente que durou 3 longos anos!

A industrialização não “começou” em 1930. É certo que havia surtos de fabricação têxtil desde a Colônia, brevemente arrefecidos. Ondas de um mar irregular. Porém, em se tratando de uma indústria moderna e mais diversificada, o “pontapé varguista” é mais um mito ou figura de linguagem: já nos anos da I Guerra Mundial a República se viu forçada a praticar uma maciça substituição de importações.

“Não se pode dizer, para o Brasil, o que se disse para a Rússia: esta não possui um Exército, mas o Exército possui a nação.” Engraçado como o exército é sempre pincelado como um poder neutro, de vocação apolítica, subordinado à Constituição Civil, incapaz—mantidos esses moldes—de vir a tomar o poder no futuro, menos de 20 anos depois do fim do livro [P.S. 2026: anos 50]. Os militares da transição Monarquia-República teriam sido meros agentes estabilizadores (o que a Constituição de 1988 sonhou que agora fossem).

“café puro se possível, café com leite se necessário”: <Federalismo>, no contexto da República Velha: <estadismos>, ou <são paulo-minas geraisismo>, uma vez que significava o enfraquecimento da União, o que hoje seria considerado o poder federal. E ao contrário de hoje, o Distrito Federal não elegia seu governador.

The Economist: não é de hoje que metem o bedelho.

* * *

ADENDO NATALINO

Um idiota—parasita—só quer usar o telefone. O outro—esquizóide, pois está sempre a falar sozinho—a regulagem do sistema de som de sua caranga. Por fim, a intrometida só quer passar a imagem de altruísta para o resto da família em frangalhos: nada de refrigerantes pela metade. Tudo pelo verniz.

* * *

“Não nos podemos embelecar com esses desmoralizados truques do mundo em que envelhecemos” Rui Barbosa

* * *

O estilo peculiar de cada um abrir a porta do meu quarto:

  • duas batidinhas que assustam e o abrir em menos tempo do que o necessário para qualquer reação;

  • o girar da maçaneta tão discreto que é quase imperceptível;

  • um estardalhaço, parece um arrombamento.

* * *

720: a questão trabalhista. O germe da CLT, já 20 anos antes.

“O poder no Brasil, não é senão uma tarima de senzala, acobertada de baixas pompas.”

“Mas, entre a mão e a espiga, há sempre o muro, e o muro importuno do poeta.”

“Enquanto a tempestade se arma, no palco o espetáculo continua”

“O coronel, antes de ser um líder político, é um líder econômico, não necessariamente, como se diz sempre, o fazendeiro que manda nos seus agregados, empregados ou dependentes.” “Ocorre que o coronel não manda porque tem riqueza, mas manda porque se lhe reconhece esse poder, num pacto não-escrito.”

“Sempre que o poder estadual se eleva e se fortalece decai o poder municipal, expressa a relação nas nomeações dos prefeitos.”

“Viver do alheio não se chama viver, senão fermentar e apodrecer.”

“As vozes isoladas enfeitavam os plenários monótonos, no gorjeio inocente das patativas entre os gaviões.”

GOVERNADOR e CORONEL eram assim assim.

{coronel burocrata

coronel autônomo}

“As despesas eleitorais cabem, em regra, ao coronel, por conta de seu patrimônio. Em troca, os empregos públicos, sejam os municipais ou os estaduais sediados na comuna, obedecem às suas indicações.” “O coronel é inseparável da sociedade agrária, matando-a, em morte lenta, a urbanização e a crescente comercialização dos interesses.” “quem tem padrinho não morre pagão” “A caracterização sociológica do fenômeno coronelista ainda não mereceu tratamento sistemático. Não raro é ele apresentado, ilegitimamente, como singularidade brasileira.” “não se compra o voto, ainda não transformado em objeto comercial” Sobre a figura do coronel, Weber diria: no limbo entre a dominação tradicional e a carismática. Raymundo Faoro vê o coronelismo no sistema inglês até 1868. “os tories se sustentavam nos grandes proprietários rurais, os pastores anglicanos e os mestres-escolas, enquanto os whigs arrimavam-se nos pregadores não-conformistas, nos agentes do correio, ferreiros, alfaiates e outros artesãos.” Tempos pré-burocráticos. Idem na Sicília.

Ceará, o estado mais coronelista, anulando até o unionismo do governador. “coronéis autônomos” “Tratado de Haia Mirim” Ao contrário de Pernambuco, em que foi mais fácil o Estado-Exército derrubar os coronéis a partir de Recife (e mais complicado no interior), no Ceará Fortaleza prosseguiu muito tempo rachada, palco de guerra civil. Há dialética nesses dois (e noutros) casos, com reascensão dos coronéis, mas rostos novos—até 1930.

Vale lembrar que Rui Barbosa (o super-republicano) é senador baiano.

Tempos em que as urnas eram apuradas nos casarões das elites!

794: os macacos de Kipling

“O Partido Comunista será fundado em 1922, dominado por intelectuais e cortado de dissidências e rivalidades, sem atuação no movimento operário.” “…até 30, quando Luiz Carlos Prestes adere ao credo vermelho”

Artur Bernardes antecipou algumas reformas trabalhistas, inclusive o feriado de 1º/5.

“Nós somos todos vinhos da mesma pipa.” “A palavra liberal, aliás, é um anacronismo ao meu modo de ver, e não tem significação real nos nossos tempos”

OS ANOS 20: “a guerra européia demonstra a inépcia dos parlamentos para resolver os conflitos. Na época das grandes crises, os homens superiores conseguem imprimir a sua direção, dominando a anarquia dos parlamentares, e não sendo por eles dirigidos”

819: o abraço da nação—e até dos paulistas—em Getúlio. “São Paulo amanheceu, a 5 de janeiro, estatelado. Como pôde acontecer tudo aquilo entre a gente pacata e fria da cidade dos nevoeiros?”

“o Exército brasileiro não se deixou seduzir pelo fascismo—como aconteceu com os exércitos italiano e alemão—, graças ao repúdio à teoria da obediência passiva.”

Já na década de 1940 se falava em “neoliberalismo”…

PRIMEIRA FACULDADE DE ENGENHARIA: “Em 1879 fundara-se a Escola de Minas, em Ouro Preto, sob a iniciativa de dom Pedro II”

“Me parece que uma casa não deveria ser construída por um arquiteto, nem autoconstruída por ela mesma, mas pelo próprio proprietário” Taine


Nota

“A distinção entre regime totalitário e autoritário, criada por Loewenstein, foi inspirada pelo estudo de uma época brasileira: Loewenstein, Karl. Brazil under Vargas”


GLOSSÁRIO (português):

bovarista: “Insatisfação romântica que consiste em querer evadir-se de sua condição, adotando uma personalidade idealizada, como o fez a heroína do romance Madame Bovary, de Flaubert.”

ismaelita: “Diz-se dos, ou os árabes que pretendiam descender de Ismael, filho de Abraão e Agar.”

jugular (verbo): [logicamente!] degolar

monhadego ou monaria: “o direito da Coroa de herdar os bens dos vilões (vilani) que morriam sem prole.”

patativa: poema; improvisação; concerto.

tarima: toldo


GLOSSÁRIO (francês):

belle époque: a febre do século, para não ser pouco literal dizendo “milênio”

[ARQUIVO] PERFEIÇÃO IMANENTE

 

Originalmente publicado em 1º de junho de 2013

Você zerou a vida. Sente-se incomodado, esvaziado, perturbado, entediado, em hiato?

Todos os pequenos aborrecimentos são reflexos da conclusão dos trabalhos de Hércules pela mente maravilhosa—poucos setores em sua cidade possuem poder tão concentrado. A morosidade devia sempre estar lá, mas eu não ligava para ela, eu estava somente em formação, não dependia estritamente de mim, o paraíso, a perfectibilidade do amanhã, estavam longe.

Consegue acompanhar meu raciocínio ou apenas ri? Tente fazer os dois ao mesmo tempo sentindo o frio subir a espinha, subir o fio delicado superexcitável da espinha!

A verdadeira natureza do meu ser é não ser mais aturado tal como é em média entre os semelhantes. A reflexão abstrata me leva a uma ponte, a mais uma—ó, eternas!—decisão: parar ou continuar? Com que fito? Brasil Colonial, forças mutantes e outras mais, continhos singelos infantis—vai ser divertido!

Fumo ou tusso? Fuço ou ignoro? Demência iminente na riqueza do lar vazio? Lar vazio e frio quer dizer muitas coisas, escutando o que estou a escutar.

Blow those chicks, campeão do boxe! Arraste a carcaça dos animais no chão.

*

*

Guerra consigo mesmo, é melhor não duvidar.

[ARQUIVO] QUEM É VOCÊ, BICHO-PAPÃO?

Originalmente publicado em 22 de maio de 2013

Você sempre vê na TV, lê nos jornais inúmeros casos. Ou então você é que se torna uma pessoa assim. Um adulto rancoroso. Que só quer, arrependido dos anos, voltar a ser criança, antes da Revolução Francesa ser livre de novo. Quando dar o dedo do meio para a pessoa que mais ama e de quem mais depende não tinha conseqüências amargas… Adeus talão de cheques. E eu nem sei jogar xadrez! Expediente, que expediente? Vão me demitir? Dessa vida eu prefiro mesmo. Eu sou asmático, mas no geral minha saúde está melhor. Parei de beber e de fumar.

Mas a criança não está isenta de sentar e refletir nas experiências passadas que teve. Hmm… Algo sinistro na penumbra. E quando eu voltei da caixa de areia, do parquinho no qual eu sou o gato miniatura, a melancolia baixou. Nadar, nadar, pode se afogar. Correr sem dor muscular. Os sintomas continuam.

Crianças do mundo, uni-vos! Cansamos das batalhas! Nossa constituição fraca não pode suportar nem longos comícios, então todos para casa! A Floresta de Varg e do Lobisomem me amedronta. Na verdade ouvi dizer que o pó da borboleta e o líquido do sapo cegam. A bruxa de Varginha, no quarto de empregada, esquenta o caldeirão e o salpica de vegetais, esperando eu, o prato principal. Na janela, lá fora, flutuando, sei que o Vampiro me observa. Vai me tornar imortal? Ou só um morcego? O rei de toda essa gangue é o bicho-papão, ele está debaixo da cama esperando um sinal, uma brecha. Quando súcubo sair de cima de mim ele ataca!

Eu tenho armas poderosas. Eu sou a inocência natural. Eu sou o sol que vos cega. Eu sou a caixa de areia protegida sem muros. Qualquer luzinha acesa da casa me conforta. Vos desmonta. Alô, Gênio! Meu pai e minha mãe. Meus guarda-costas. Invisibilidade. De olhos fechados ninguém pode me tocar. Porque estão na minha cabeça.

Mas isso termina? Gargalho me perdendo no labirinto da cidade, que é o que me resta. Ah, achei um abrigo longe do umbigo, uma casa. Deixe o mundo se estrepar lá fora. Eu vou matar o Bicho-Papão!

Fecho os olhos e ainda estou aqui, o azar é seu.

Com a faca na cela eu devo sair e encontrar umbrella, entrar no crisântemo.

“Matar ou morrer” é o moto aqui!

Zumbis com trombas mentirosas, eu os rasgo os corto. Triunfei. Como dizem os tuiteiros, zerei a vida, zerei Aquiles e a Mitologia. Eu até pensei estar salvando a humanidade, não só meu próprio rabo.

Você pode misturar ervas resultando em drogas mais potentes para me salvar do inferno.

Arquialquimista das emoções.

Estará no limiar de si mesmo esperando alguém entrar pela janela ou sair da jaula, suas janelas, suas jaulas, seus gorilas, lembre-se. Medo da minha sombra.

Voltar ao mundo real vai desapontá-lo tanto…

Ó!… Arrepios na espinha só um som. Geme geme geme.

(Não, não sou eu tresloucado pela falta de idéias sobre minha escrita!)

UUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUIIIII O Gemido. O orvalho.

Eu sou o irmão gêmeo do Leonardo Di Caprio!

Ó querida, parece que você acidentalmente se chocou com a parede e foi comida viva. Pela parede.

VIADO! . . .

Imagina se todos começassem loucos na terra e fossem paulatinamente se tornando sãos e coerentes, exatamente ao contrário do que acontece! Mas então o mundo seria dos sãos, porque hoje ele é dos mais velhos!

Maldita criança incoerente!

Desaprender a andar de bicicleta é necessário.

Se desfazer da última comunhão.

Recuperar a virgindade.

A razão está na imagem.

O que me irrita é que estou forte demais!

[ARQUIVO] O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

Originalmente publicado em 27 de abril de 2013


“Que frívolos cata-ventos somos nós!”


TENTATIVA DE EXPLICAR A ÁRVORE GENEALÓGICA DO ROMANCE SEM UM DESENHO:

—1. Heathcliff central —

(irmão adotivo de 2. Earnshaw—homem & 3. Catherine “Cathy” Earnshaw—mulher)

3. casada com o primo Linton (7.)

(1. casado com srta. Linton 8.)

filho 1.: 4. Linton (Heathcliff II) | filho 2.: 5. Hareton | filha 3.: 6. Catherine “viúva” Heathcliff II [4&5&6.: primos entre si—4&6.: proto-romance; 5&6.: “criados” da casa de 1. em Wuthering Heights—casal final e sobrevivente da trama—depois que Linton, O Frágil (4.) morre]

(*) 1. 3. 7. corpos alinhados no cemitério, em lápide tripla.


Entre as maçãs podres do cesto, sempre resta uma sadia.

[ARQUIVO] MODESTE MIGNON

 

Originalmente publicado em 27 de abril de 2013

Balzac n’est pas Molière, mas é um teatrólogo de primeira! « la pièce restait indécise entre drame et comédie : ah, que Balzac sait bien tenir son lecteur ! »

« A Comédia Humana » parece um grande arco que inclui várias de suas obras.

Se eu não for famoso, meu pseudônimo sê-lo-á!

Ao sair da gaiola fiquei com saudade, saudade de ver o sol nascer quadrado, saudade da água filtrada na tigela, dos meus companheiros de cela e fundamentalmente dos meus lamentos, dos meus sucessivos cantos finais—quantos réquiens para uma vida só!

O livro cuja produção foi a mais prazerosa a B.. A última encenação da série Cenas da Vida Privada. Obra inspirada e dedicada a sua esposa mais longeva, polaca. “bem melhor que meu Pequenos Burgueses” O Autor—e também uma espécie de prólogo a ele.

Vago|bonde das vagabundas moles e mentes vagas

« Où les marchands placeraient-ils ces produits, s’il n’existait pas des madame Latournelle ? » « elle vénère son père et adore son mari. »

« l’invasion du Minotaure » como metáfora sexual.

« Ingouville est au Havre [a cidade-palco] ce que Montmartre est à Paris, une haute colline au pied de laquelle la ville s’étale » Cidade litorânea.

« Quel crime de lèse-million que de démontrer aux riches l’impuissance de l’or ? »

“se você conhece a gaiola, conhece o pássaro”

Apenas 20 anos. Tem uma mãe cega, Madame Mignon. “Elle a 20 ans. A cet âge, on s’aime soi-même. On se pare pour se voir parée. »

« La botanique est venue après les fleurs. »

« l’éternelle répétition de la première scène jouée au lever du rideau de la Crátion : Eve dans le paradis. » « Modeste avait transporté sa vie dans un monde, aussi nié de nos jours que le fut celui de Christophe Colomb au seizième siècle. »

« La passion est ce qu’il y a de vraiment absolu dans les choses humaines, elle ne veut jamais avoir tort. »

« Modeste avait soif des souffrances innomées, des grandes douleurs de la pensée. Tantôt, elle composait les baumes, elle inventait les recherches, les musiques, les mille moyens par lesquels elle aurait calmé la féroce misanthropie de Jean-Jacques. Tantôt, elle se supposait la femme de lord Byron, et devinait presque son dédain du réel en se faisant fantasque autant que la poésie de Manfred » « Comment n’accourt-il pas, se demandait-elle vers chaque homme de génie, une femme aimante, riche, belle, qui se fasse son esclave, comme dans Lara, le page mystérieux ? »

O cotidiano é o freio que salva a vida do louco velocista das idéias.

“Todas as grandes inteligências se atrelam a qualquer trabalho mecânico a fim de se tornarem mestres do pensamento. Spinoza polia lentes de óculos, Bayle contava as telhas do telhado, Montesquieu jardinava. Os corpos assim domados, a alma soltava suas asas em total segurança.”

« Canalis se sentait incapable d’inventer une nouvelle forme de poésie ; sa lyre ne possède pas 7 cordes, elle n’en a qu’une »

« Vous ne sentez pas, sous les berceaux de clématite où vous méditez sur les poésies l’odeur du cigare qui dépoétise les manuscrits »

“O homem forte perdoa. O poeta se lamenta.”

“Você é de uma só vez um poeta e uma poesia, antes de ser uma mulher.”

« Non, je n’ai plus d’illusions ; mais j’ai mieux : j’ai des croyances et une religion. »

« car vous avez réuni tout ce qui peut troubler un coeur et une tête d’homme. »

Estou aliviado que nem todos os versos e melodias inscritos no livro sejam de Balzac. Ademais de termos uma obra mais heterogênea, significa que nem ele é tão genial assim (nem Goethe!), e que sou menos desprezível do que pensava, em minha época, por carecer de ser multifacetado!

Pedirei que me desenhem ou começarei da estaca zéro moi-même?

“eu sou o Hamlet católico ou qualquer doença incurável.”

Voltou no tempo e fez o parto da própria mãe.

« Quand je reçois dans le dos l’arquebusade d’un ennemi embusqué dans un journal, je regarde cette cassette, et je me dis : – Il est, ça et là, quelques âmes dont les blessures ont été guéries, ou amusées, ou pansées par moi… »

« Six millions, voilà, le prix d’un ami »

« tu fais de la poésie à propos de mariage »

« C’est toi qui a joué avec la vie, et la vie se joue de toi… »

« Un homme peut avoir encore des vertus, après avoir trompé une femme, (…) Mais une jeune fille ?… elle ment alors à tout ce que Dieu a fait fleurir de saint, de beau, de grand en elle, quelque grâce, quelque poésie, quelques précautions qu’elle mette à cette faute. »

« une pensée [peut] change[r] toutes les conditions de la plus forte vie. »

« En effet, quand, chez une jeune personne, le coeur se refroidit, la tête devient saine »

« Les hommes sont comme les livres, ils sont quelquefois apprécies trop tard. »

« Il ne peut plus avoir rien de grand dans un siècle à qui le règne de Napoléon sert de préface. »

« La vie du monde est aussi fatigante pour les hommes que pour les femmes (…) ni les hommes ni les femmes n’ont d’ami pour les avertir au moment où le parfum de leur modestie se rancit »

« Et l’autre restait là, sombre comme un Espagnol »

“Se me oferecessem o trono da Rússia, eu responderia: Amo demais o sol!”

“um doente, quando está doente há muito tempo, se torna mais forte que seu remédio, se entende com a doença”

« j’aime et j’étudie les femmes ! »

“Nossos sonhos fabricam poemas melhores que a Ilíada.”

« Vous l’appelez um calculateur; mais il calcule bien mal »

« On expie le bonheur de dix ans en dix minutes. »

“Quinze dias de abstinência, quando não matam o amor, devolvem-lhe o ardor e o viço dos primeiros dias”


GLOSSÁRIO (francês) :

parer : o mesmo que s’habiller

rideau: cortina

[ARQUIVO] TRUE STORY — Hans Staden of Homberg in Hesse

Originalmente publicado em 23 de março de 2013

Os Fuggers, clã bávaro de tino comerciante que se instalou em Lisboa no século XVI ou mesmo antes. Lisboa era um centro cosmopolita em que todos os estrangeiros cristãos eram bem-vindos.

“Brazil had been discovered in 1500 by Vincent Pinzon”

Tupiniquim vs. Tupinambá (os “maus”)

A “Etnografia Perfeita”.

A visão típica do sujeito vivo cozinhando no caldeirão parece mentirosa.

“Desafortunadamente, o escritor adicionou uma riqueza de detalhes que é meramente doentia [discordo—livro de leitura bem rápida]. Ele estava determinado a que nenhuma fração dos horrores de que escapara se perdesse para seus leitores.”

Um sujeito que, embora atirador, levava vida “pacata” e teve apenas esse trecho de sua vida iluminado: antes e depois de ser hóspede de canibais, não há registros sobre suas atividades.

“Foi sugerido que Staden não era suficientemente educado para escrever o livro por si mesmo, e que ele teria trabalhado sob a direção do Dr. Dryander, professor de Marburg” Idéia provavelmente falsa, já que Hans era um poliglota.

“He was not a coward”

Havia um certo Dr. Richard Wagner na Alemanha do princípio do séc. XX que se interessava por H.S..

Para fazer seu fogo: madeira seca: retirar pequenos gravetos das lascas maiores e atritá-las. O pó que sair desse contato é altamente inflamável, bastando produzir faíscas em cima.

“They wear no beards, but pluck the hair by the roots as soon as it grows. They bore holes in the mouth and ears, in which they hang stones.”

Utilizam dentes de porcos selvagens e outras bestas como utensílios de corte, armas e adornos.

O furo no maxilar é feito com um chifre de veado.

Devoram os piolhos por vingança, já que os próprios piolhos estavam a devorar-lhes as cabeças!

“They name their children without any baptism or circumcisions.”

“Os homens e as mulheres se comportam decentemente e fazem seus negócios em segredo.”

“He that has many feathers is rich, and he that has a stone in his lip is also counted among the rich.”

Alguém tem tantos nomes quantos forem os inimigos que matou mais um, que é o de nascença.

140: do trickster que cada tribo merece

“Eles não se aventuram a mais que 2 milhas da terra [de jangada], mas eles viajam longas distâncias através da costa.”

“The savages have not the art of counting beyond 5”

Comeu muita carne de tamanduá no seu estágio—gravidez de 9 meses entre os Tupinambás!

155: o bicho-de-pé; das 3 abelhas. Picadas suaves!

sacred heathen

“Ele me deu dois ducados imperiais pela minha ajuda. Deus lhe pagará.”


NOTAS

“a German mile equals about 4 English miles.” 2 milhas, no livro = ~16km, p.ex., o Plano Piloto!

O “corpo santo” ou “fogo de Santo Elmo/Erasmo”, luzes azuis que se defrontavam com os navios em mar aberto—sinal de sorte para os marinheiros.

Os mais violentos silvícolas pareciam estar sempre contra os portugueses…

“Potiguaras, os Lordes da Paraíba”

“Guará is the Tupi name for the American flamingo.”

Instalavam uma fogueira abaixo da rede-de-dormir: ninguém acordava chamuscado?

As “damas da côrte” francesas adoravam encomendar nossos macaquinhos e papagaios.

Tipoya já significou “camiseta regata”!

Mudou dentro da sua mudança, ou seja, permaneceu.

Dispenso, logo me excito?

Ao que parece, a cabeça do europeu é muito mais fácil de quebrar que o crânio aborígene—os porretes que o digam!

[ARQUIVO] MOBY DICK OR THE WHALE

Originalmente publicado em 1º de março de 2013

Anotações ao ler Moby Dick, de Herman Melville. Algumas citações foram traduzidas para o português.

“Melhor dormir com um canibal sóbrio que um cristão bêbado.”

“nowhere in all America will you find more patrician-like houses; parks and gardens more opulent, than in New Bedford.” Esta cidade teria crescido graças ao comércio de carne de baleia.

“em assuntos espirituais, somos como ostras observando o sol pela água”

Jonas, o personagem bíblico marinho. Poderia ser Jó (Jonah)? O arrependimento de um pecador no estômago de uma baleia.

“That Himmalehan, salt-sea, Mastodon, cloth with such portentousness of unconscious power, that his very panics are more to be dreaded than his most fearless and malicious assaults!”

“Who is Captain Ahab, sir?”

O que são as brincadeiras entre soldadinhos de uma Guerra Mundial, que só envolvem suas consciências previsíveis e um maquinário estreito idem, perante as Cruzadas contra o Insondável, as criaturas de Deus, cujos propósitos—se há—permanecem tão obscuros quanto o fundo do alto-mar? O que é inclusive a Peste Negra perto de uma Baleia Branca?

Expedições de baleias: heróis antropológicos. Mergulhados no anonimato. Os precursores da democracia “eterna” em sítios remotos como Bolívia, Peru e Chile! Abaixo o jugo espanhol!

“Essa grande América do outro lado do hemisfério, Austrália”—e ainda tornaram/tornarão o Japão hospitaleiro!

Na caça às baleias os arpoeiros da linha de frente avançam em barcos precários. O navio não é a única, talvez nem a principal, fonte de ataque.

Enquanto o sentido da vida dos bebês é dormir, velhos capitães rabugentos tratam de fechar os olhos, se muito, 3 horas a cada 24.

A baleia é o único peixe com pulmões e sangue quente.

89: aula sobre baleias

a) grandes baleias

Sperm Whale / Physetur catodon—Cabeça-de-prego/martelo/bigorna / cachalote mares temperados e tropicais 20m. Maior animal dentado (34 a 58 dentes só na parte de baixo; gengiva superior possui dentes mas quase não podem ser vistos). “Sperm” vem do óleo que recobre sua cabeça, de cor branca. Descobrimento: somente em 1758 por Lineu. 1/3 do tamanho do animal é sua cabeça! Usualmente cinzas, mas podem ter albinismo. Cérebro de 7kg. As fêmeas são bem menores. Nasce-se com 4m e 1 tonelada. Graças ao espermacete e à armazenagem de oxigênio, pode efetuar caças submarinas a 2 mil metros de profundidade.

Right Whale—Baleia Preta, a Grande Baleia. A mais caçada e cobiçada por baleeiros. Inclusive na costa brasileira, e também na indiana.

Fin-Back—O jato d’água “mais conhecido” pelos viajantes. Fin = barbatana. Baleias misantropas.

Hump-Back—Corcova acentuada (apesar da cachalote também ter). Costa setentrional dos EUA. Óleo menos valioso. Mais barulhenta.

Razor-Back—A mais pacífica. Misteriosa. Só se conhece suas costas.

Sulphur Bottom—Baleias do Sul. Não são caçadas. Fugiriam depressa demais.

Grampus—Em bandos. Óleo bom para luz. Pouco caçada. Presença pode ser premonitória da chegada de um cachalote.

Black Fish / Hyena Whale—Curva para cima dos lábios e intensa voracidade. Suas barbatanas dorsais parecem um nariz romano à distância. Proporcionalmente, muito abundantes em óleo.

Narwhale / Nostril Whale—Baleia com Presa ou Unicórnio do Mar. Tem um chifre de utilidade desconhecida—mais provável que como gancho para revirar o fundo do mar atrás de comida que como arma. Habita regiões polares. Alvinegra.

Killer—Selvagem. Parasita até mesmo de baleias grandes. Não é caçada. “Todos somos assassinos, na terra e no mar; Bonaparte e tubarões inclusos.”

Thrasher—Rabo que chacoalha rapidamente para golpear. Capaz de se ater às costas das grandes baleias para prejudica-las.

b) pequenas baleias (incrivelmente menores que um ser humano adulto!)

Huzza Porpoise—“Boto”. Forma engraçada de nadar. Considerada um ótimo agouro. Carne deliciosa.

Algerine Porpoise—Uma pirata dos mares. Exclusiva do Pacífico. Conduta de tubarão.

Mealy-mouthed Porpoise—Não tem barbatanas, mas sim uma cauda. Olhos castanhos sentimentais. Sua boca farinhento-rugosa estraga seu aspecto.

c) espécimes difíceis de catalogar

Baleia do Nariz-Chato; Baleia-Lixo; Baleia Cabeça-de-Pudim; Baleia do Cabo; A Líder; Canhão; Baleia de Cobre; Elefante; Iceberg. Talvez fábulas.


“Ó, Tempo, Força, Dinheiro e Paciência!”

Injustiça, Desigualdade, Falta de Fraternidade

Hostilidade

Moby Dick, ubíqua e imortal. Lembrando que em inglês baleias são macho.

O urso polar é tão temido porque é branco. Sem falar no tubarão branco.

O albino, mais feio dos abortos humanos!

O cavalo branco do Deus Bonachão.

A palidez cadavérica, o osso, o leite.

Cegueira branca. “Pensamento de aniquilação” Via Láctea

“he never rests till blue water is under him again.”

“até tulipas e rosas”

Dados reais: 1820—navio Essex, Capitão Pollard, de Nantucket, naufragado por uma baleia branca. Em menos de 10 minutos.

Ei, man, Ei, Rebe!

“essas maravilhas (como todas as maravilhas) são meras repetições das eras; pela milionésima vez dizemos amém com Salomão”

“Tem certos momentos esquisitos nessa estranha mistura de negócios chamada vida em que um homem interpreta todo esse universo, na prática, como uma grande piada.” “Essa variante peculiar e teimosa de ânimo da qual estou falando só toma conta dum homem em dias de extrema atribulação; ela chega bem no cerne de sua seriedade”

Viajar no mar é mais cruel que no espaço sideral, pois um capitão experiente e condecorado nada tem a fazer se o vento for contrário. Só esperar e rezar. No cosmo infinito e negro, engenhosos propulsores bastam, tudo é meticulosamente controlado à distância. E qualquer imprevisto gera a melhor das mortes—indolor. No mar, se não quiser se afogar (e não ouvi de quem tenha querido), o marujo pode morrer desidratado e feio, depois de muitos dias. Uma morte bem salgada.

“mas aonde toda essa circunavegação conduz? Apenas por um sem-número de perigos até o mesmo ponto de onde começamos”

“GAM. NOUN—A social meeting of two (or more) Whaleships, generally on a cruising-ground; when, after exchanging hails, they exchange visits by boats’ crews, the two captains remaining, for the time, on board of one ship, and the two chief mates on the other.” Gamming, uma arte.

Uma revolta em alto-mar bem próxima do Taiti—bem melgibsoniano!

Perseu resgata Andrômeda de uma baleia (versão alternativa?).

Já consideraram golfinhos como subespécies de baleia. Desenhos de baleias foram completamente absurdos e incorretos até o próprio advento da fotografia, mesmo em obras de cunho científico. “In a word, Frederick Cuvier’s Sperm Whale is not a Sperm Whale, but a squash.” Tal infortúnio, longe de se resumir a negligência do homem, é bastante natural, já que ao contrário dos elefantes uma baleia nunca posou para um retrato! A cabeça da baleia lembra uma luva de boxe. “And the only mode in which you can derive even a tolerable idea of his living contour, is by going a whaling yourself; but by so doing, you run no small risk of being eternally stove and sunk by him.” “Os franceses são os caras para pintar a ação.”

“Essa parte do mar conhecida como ‘Brazil Bounks’, por causa de sua marcante aparência de pradaria, causada pela matéria amarelada que flutua em abundância nessas latitudes, onde a Grande Baleia é constantemente caçada e da qual ela se alimenta.”

“por mais que, num futuro lisonjeiro, a ciência e a técnica aumentem; ainda para sempre e eternamente, até o estalar da destruição final, o mar vai insultar e matar o homem, pulverizar a mais dura e grandiosa fragata que ele puder fazer.” Antes do Titanic!

“O Dilúvio de Noé ainda não cessou seus efeitos, tolos mortais; dois terços do mundo ele ainda cobre.”

A embarcação não terá caçado nenhuma outra baleia no meio do caminho? Resposta: página 181 e avante…

176: …eis que era “apenas” uma lula gigante!

“The whale-line in only 2/3 of an inch in thickness. At first sight, you would not think it so strong as it really is.” “the line attached to the harpoon” Jogam-se os dardos, mas se os resgata depois. A corda é bem comprida e NÃO é amarrada a nenhum barco: “This arrangement is indispensable for common safety’s sake; for were the lower end of the line in any way attached to the boat, and were the whale then to run the line out to end almost in a single, smoking minute as he sometimes does he [the whale] would not stop there, for the doomed boat would infallibly be dragged down after him into the profundity of the sea”

“o barco está balançando como um berço”

Ao contrário das aparências e dos julgamentos simplistas, “mesmo você sendo um filósofo, embora sentado num barco de caça à baleia, não sentirá um pingo de terror a mais no coração do que sentado diante de sua fogueira numa noitinha, de espanador ao invés de arpão à mão”, principalmente porque nos momentos mais calmos é que temos mais razões e condições de nos sentirmos apreensivos.

Parece incrível como uns poucos homens em barcos a remo conseguem perseguir um animal cujo ofício é o nado. Muitos arpões de reserva em cada barco. De 8 a 10 sendo arremessados ao mesmo tempo. “sharks will be seen longingly gazing up to the ship’s decks, like hungry dogs round a table where red meat is being carved”

Dizem que a carne de baleia malpassada é a melhor!

“Of Whales & Men”—“Seja refrescante no equador; mantenha seu sangue fluido no Polo.”

O navio tem de ser ancorado enquanto a gordura vai sendo despejada e liquefeita nos tonéis e a carne ainda é consumida. E ainda não decapitaram o animal, cuja cabeça será exibida como troféu. Ancorado no meio do oceano profundo. Imaginem o cheiro do cadáver!

202: a bela alegoria da corda que nos ata como siameses aos outros seres humanos, encarnada pela corda-de-macaco ligando Ishmael e Queequeg

O navio baleeiro que possuísse em sua carga uma cabeça de cachalote e outra de green whale estaria misticamente protegido de qualquer desastre. Fedallah: Dite ou Belzebu ou o Coisa-Ruim. “Look here, Beelzebub, you don’t do it; and if he makes any fuss, by the Lord I’ll make a grab into his pocket for his tail”

Na verdade, se o trabalho é profissional e a extração do líquido é célere, não há perigo de se conviver com nenhum fedor mortuário nem qualquer odor nauseabundo e ofensivo. “nem pode o baleeiro ser reconhecido, como a gente da idade média afeita a detectar um judeu na companhia, pelo nariz.” “no baleeiro, não é todo mundo que vai nos barcos ao caçar. Algumas mãos são reservadas como vigias, cuja tarefa é conduzir o navio enquanto perseguem a baleia.”

“a posição dos olhos da baleia corresponde àquela das orelhas humanas (…) Em uma palavra, você teria duas costas, por assim dizer; mas, ao mesmo tempo, ainda, duas frentes (frentes laterais): porque o que define a frente de um homem—o quê, de fato, senão seus olhos?” Um nêmese não-euclidiano! Além disso, o globo ocular é terrivelmente desproporcional, quase azeitonas perdidas, cravadas numa montanha! E as orelhas? Um leigo as caçaria na cabeça horas a fio… Curiosamente, os leviatãs do oceano mergulham com a cabeça quase perpendicular ao mar. A baleia branca aceitaria placidamente seu destino—a morte—até na expressão “facial”, se é que baleias têm face: “This Right Whale I take to have been a Stoic; the Sperm Whale, a Platonian, who might have taken up Spinoza in his latter years.” E se a regra da testa grande de Schopenhauer é válida, as baleias são gênios. Aliás, Melville também cita: a depressão no meio da testa, a marca da genialidade. “Mas como? Gênio na Baleia Branca? A Baleia Branca por um acaso já escreveu um livro, emitiu alguma fala? Não, seu grande gênio está declarado no não fazer nada em particular para prová-lo. Está sobretudo declarado no seu silêncio piramidal. E isso me lembra que, se a grande Baleia Branca fosse conhecida do jovem Mundo Oriental, teria sido deificada por seus pensamentos infanto-místicos. Eles deificaram o crocodilo do Nilo, porque o crocodilo não tem língua; e a Baleia Branca não tem língua, ou ao menos ela é tão pequena a ponto de ser incapaz da protusão [movimento para frente]. Se as altas culturas revisassem suas origens e seus deuses mais antigos com os dados de hoje, o tão exaltado trono de Zeus, no céu egotista, estaria subordinado à grande Baleia Branca. § Champollion decifrou os graníticos hieróglifos. Mas não há Champollion para decifrar o Egito de cada homem e a face de cada ser. A fisionomia, como qualquer outra ciência humana, não passa de uma fábula que passa. Se o próprio William Jones, que lê em 30 línguas, não pode ler o rosto do camponês mais simples em seus sentidos mais profundos e sutis, como este iletrado Ishmael esperaria poder ler a testa da Baleia Branca? Ponho a testa diante de ti. Leias se puderes.”

“Muito do caráter de um homem será encontrado em suas costas.”

O óleo sangrento que ilumina as igrejas que pregam a não-violência.

Às vezes a baleia afunda depois de morta, às vezes não. Mas após alguns dias carcaças podem emergir de novo. “Cadáver-balão”

“Tu és como um leão das águas, e como um dragão do mar” Ezequiel—Ishmael desconfia que São Jorge na verdade matou uma baleia! “Qualquer homem mata uma cobra mas só um Perseu, um São Jorge, tem o coração para marchar tenazmente rumo a uma baleia.” + Hércules e Vishnu.

A baleia só respira por 1/7 do seu tempo—seu domingo.

Como era de se esperar, uma baleia não tem olfato. Nem voz, ao contrário das Free Willies (orcas).

Receber uma rajada ou jato do orifício da baleia significa entrar em contato com ácido, pois descama a pele. Diz a lenda que o líquido também o cegará.

Nem as fadas podem sobrepor a beleza da cauda! Ela é praticamente reservada em especial para atacar o predador-homem. As ancestrais das coreografias de nado sincronizado! Só falta haver uma linguagem de libras para todos os executados pela santa cauda!

Há a hipótese de que o sentido do tato da baleia se concentra todo no rabo, como os elefantes têm uma tromba supersensível. Só falta mesmo o poder preênsil. Fosse assim, a baleia poderia retirar por conta própria pelo menos alguns dos arpões fincados em sua densa camada de gordura traseira. Alguma conexão com elefantes se reconhecerem no espelho? “o elefante está para a baleia como o cachorro está para o elefante.”

As duas tetas ou mamilos nos quais os cachalotes recém-nascidos mamam se localizam nas extremidades do ânus da mãe.

“Os touros”: bandos de baleias-macho “adolescentes”.

E os ciúmes são tão discretos quanto a massa corporal desses bichos! Mesmo que haja poligamia qualquer perda é sentida. E quantos pais não “saem de casa” para nunca mais voltar!

Holanda (1695): 1ª legislação concernente à caça de baleias. Há, no entanto, uma série de costumes e tradições não-escritos consolidados.

“Never heard of such a whale, Cachalot Blanche!”

“Pense você no ditado de São Paulo no Corinthians, sobre corrupção e incorrupção; como somos soterrados na desonra, mas elevados na glória.”

“in the pitchiest night the ship’s black hull still houses an illumination.”

Esses seres simples, mera bucha de canhão!

Que tipo de pessoa gasta seu tempo observando os detalhes do dinheiro?

273: os 12 signos

O objetivo de Moby Dick não poderia ser se alimentar do homem, já que nem digerir um membro ela consegue!

A cerveja deixa o baleeiro [dessa vez o homem] mais atento nos climas polares.

Tatuou medidas de um fóssil de cachalote no braço—porque estava numa tribo sem acesso a papel.

“Para produzir um grande livro, você deve escolher um grande tema.” “Nenhum volume duradouro pode ser escrito sobre a pulga”

Methuselah

Denderah

Na África está a Meca dos baleeiros.

Com o passar dos milhões de anos as baleias têm ficado maiores. De fato, tem sido assim com o homem também, não tem? No ritmo das caçadas atual, defende Melville, o Leviatã jamais seria extinto. Para ilustrar, ele cita a depredação dos búfalos, literalmente mil vezes mais notável. Segundo ele, as geleiras seriam sempre um refúgio. “for all these, we account the whale immortal in his species, however perishable in his individuality.” “In Noah’s flood he despised Noah’s Ark”

Por que não armas de fogo contra as baleias? Deterioração do gosto da carne e da qualidade do óleo?

“era do conceito de Queequeg que, se um homem se convenceu a viver, uma mera doença não poderia levá-lo”

“o Delta das veias de sua testa saltou como um riacho transbordante”

Oceano pacífico sangrento. Une a terra mais nova à mais velha.

“There is some unsuffusing thing beyond thee, thou clear spirit, to whom all thy eternity is but time, all thy creativeness mechanical.”

“qualquer homem com metade de um olho pode ser sensível”

“Trovões demais aqui em cima. Qual a utilidade do trovão? Não queremos trovão, queremos rum; dê-nos uma garrafa de rum” “São os céus assassinos quando seu raio fulmina um futuro assassino em sua cama, queimando folhas e pele juntas?”

“debaixo d’água, sob certas circunstâncias, focas foram com muita freqüência tomadas por homens.”

Um falcão roubou o chapéu de Ahab. Ahab tem 58 anos. No último momento, Ahab parece hesitar acerca de seu automatismo vingativo. Ishmael é quase, ou é, um figurante, um expectador da tribulação. Sequer teria interagido com Ahab durante toda a viagem!

“Ye two are the opposite poles of one thing; Starbuck is Stubb reversed, and Stubb is Starbuck; and ye two are all mankind; and Ahab stands alone among the millions of the peopled earth, nor gods nor men his neighbors!” “but Ahab’s soul’s a centipede, that moves upon a hundred legs.”

Pequod como Colombo do Oriente, atrás do continente branco! Trinta homens a bordo.

Três dias de caçada diurna. O caixão-bóia de Queequeg salva Ishmael, O Único.

Dinamarquês de baleia: HVALT. WHALE já na Islândia. Nós temos nossa palavra derivada do francês BALEINE.

“É Ahab, Ahab? Sou eu, Deus, ou quem, que ergue esse braço? Mas se o grande sol não se move por si mesmo; mas é um menino errante no céu; nem uma estrela sequer pode revolver/girar, a não ser por algum poder invisível; então como pode esse pequeno coração bater; esse pequeno cérebro pensar pensamentos; a menos que Deus faça esse bater, faça esse pensar, faça esse viver e não eu.”

* * *


A BOOK OF SEA LEGENDS—Michael Brown

Sereias têm cauda de peixe somente a partir dos romanos.

A proibição de empreender jornadas às sextas (dia da crucificação de Cristo).

MUITAS COMPLEMENTAÇÕES CERTEIRAS A MOBY DICK: “if the corposant [chama dos raios] shone round a seaman’s head like a halo he was doomed.” “When three seagulls are seen flying together overhead it is a bad omen” “In the old days sailors never learned to swim (…) the very word ‘drown’ was never to be spoken at sea, for fear of the consequences.” “the calling of the dead has frequently been heard, hailing their own names.” “Sailors believe that the ship’s bell is the soul of the ship and that it will always sing when a ship is wrecked.”

O mar é salgado porque um moedor mágico, antigamente posse do Diabo, que multiplica ao infinito qualquer matéria, foi parar no fundo do mar após seu último dono desejar grandes quantidades de sal.

243-3: Caribde e Cila


GLOSSÁRIO (português):

cetáceo: mamífero pisciforme

espiráculo: respiradouro das baleias


GLOSSÁRIO (inglês):

rosebud: lábios em flor; botão de rosa. O nome do navio francês que o Pequod encontrou.

waif: órfão

[ARQUIVO] TRÓPICO DE CÂNCER 1.0

Originalmente publicado em 24 de fevereiro de 2013

“O essencial é querer cantar.”

“O canguru tem um pênis duplo: um para os dias de semana e outro para as festas.”

“Deixei alargadas as extremidades… Amaciei bem. Depois do meu, caberão os de garanhões, touros, carneiros, patos, são bernardos. Podes embutir sapos, morcegos, lagartos no teu reto.”

“Como um ovo dançante sobre um jato d’água.”

“Há pessoas que não podem resistir ao desejo de se meter numa jaula com feras e se deixar despedaçar. (…) Nenhum leão ouviu falar de Spinoza. (…) Uma simples patada do leão e sua cosmogonia ficará destroçada.”

“Não se propõe nada que possa durar mais de 24h. Estamos vivendo um milhão de vidas no espaço de uma geração.”

“O telefone interrompe esta reflexão, que nunca havia podido levar a término.”

“E, nesses cem últimos anos aproximadamente, nenhum homem foi bastante louco como para meter uma bomba pelo olho do cu à criação e fazê-la saltar pelos ares.” “Vamos consignar a evolução deste mundo que morreu e que não percebeu sepultura.” “Será enorme, o Livro.”

O fetiche da máquina de escrever—nem tanto à folha, nem tanto ao computador.

“Até uma má novela requer um assento em que se sentar e um pouco de isolamento.” “as melhores idéias sempre se me ocorrem quando estou longe da máquina.”

“Não o nego. Tenho uma boa saúde, uma saúde sólida, de animal. A única coisa que se alça entre minha pessoa e o futuro é uma comida, outra comida.”

“Já superei minha juventude melancólica.”

“Pensar que um imbecil pobre e definhado, com vulgares obras da Broadway debaixo da manga, está urinando na mulher que amo. (…) Vai tomar no cu com seus dois modos de considerar as coisas!” Sylvester

“Não me dê seu vinho tinto… dê-me sua mulher…”

“Não sabe o apetitosa que é uma mulher manchada, até que ponto pode dar viço a uma mulher a troca de sêmen.”

“Eugène diz que tem 15 ou 16 canções em seu repertório, mas nunca ouvi mais de 3.”

“Não é difícil estar só, se é pobre e fracassado. Um artista sempre está só… se é um artista.”

“NY faz com que até um rico se sinta insignificante.”

“Uma forma fina de tortura autoimposta, o concerto.” “Nota que quanto mais bem-vestidos vão, mais profundamente dormem. Os ricos têm a consciência tranqüila.”

Os hindus não pedem (peidam) desculpa por terem sentido vontade de peidar justo na sua cara. Para eles, isso nada mais é que uma fata/futi-lidade inevitável, algo que não cheira mal fazer!

El hambre—y no el sexo—es su gran tema.

“Se está chovendo, diz: ‘Maldito seja este clima safado! Deixa qualquer um doente!’. E se brilha um sol esplêndido, diz: ‘Maldito seja este sol safado! Deixa qualquer um cego!’”

“Todo mundo é Joe porque assim é mais fácil” Joe Endri

“O livro tem de ser absolutamente original, absolutamente perfeito. Por isso é que, entre outras coisas, lhe resulta impossível começá-lo. Assim que se lhe ocorre uma idéia, se encarrega de impugná-la. Lembra-se de que Dostoievski a usou, ou Hamsun, ou algum outro autor.” “E, por isso, no lugar de escrever seu livro, lê um autor atrás do outro para se assegurar de que não vai pisar em sua propriedade particular.” “Esquecendo-se de que não escreveu um só capítulo, fala deles com ar de superioridade”

“É como uma máquina que vomita jornais, milhões e bilhões e trilhões deles a cada dia”

“Um bom revisor de diário não tem ambições, nem orgulho, nem mau humor.” “está no mundo mas não é dele. Só existe pros domingos.”

“Para o cavalariço, cujo dever é varrer o esterco, o terror supremo é a possibilidade de um mundo sem cavalos.”

“Como haveria podido prever, na América, com todos os rojões que te põem no cu pra te dar ânimo e valor, que a posição ideal pra um homem do meu temperamento era buscar erros de ortografia?” “A bandeira sempre ondula a meia altura.”

“Se não pode encontrar um hotel perto dum cinema, escolhe um perto do cemitério, vem a ser o mesmo. Sobretudo, não se desespere.”

Pré-II Guerra

“Requer mais concentração detectar a falta de uma vírgula que compreender a filosofia de Nietzsche”

“essa expressão de última hora com que se pretende comunicar tantas coisas, mas que é só uma máscara desfigurada por um sorriso vazio”

“a fisionomia humana das ruas”

“Não há nada como uma briga de bar”

Camisinhas da época feitas de pele de peixe.

“Así es como se conoce la gente en París: amistades genitourinarias.”

“Whitman. O primeiro poeta e o último.” “Goethe foi presunçoso em comparação.” “Goethe é o fim de algo, Whitman é um começo.”

“Mais obscena que nada é a inércia.”

“…é quando corro gozoso até os grandes e imperfeitos, sua confusão me alimenta, sua tartamudez é música divina para meus ouvidos.”

“Que haja mais oceanos, mais cataclismos, mais guerras, mais holocaustos. (…) um mundo que produza êxtase [Rafaéis] e não peidos secos. Creio que mais que nunca tem-se de procurar conseguir um livro ainda que só tenha uma grande página: temos de buscar fragmentos, lascas, unhas dos pés, qualquer coisa”

[ARQUIVO] OS LUSÍADAS

Originalmente publicado em 24 de fevereiro de 2013

“crendo ter nos braços quem amava,

Abraçado me achei cum duro monte

De áspero mato e de espessura brava.”

*

“Os formosos limões ali, cheirando

Estão virgíneas tetas imitando.”

*

“Pois, se as aves no ar voam,

Alegres animais o chão povoam.”

*

“Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,

Mas, mais industriosas que ligeiras,

Pouco e pouco, sorrindo, e gritos dando,

Se deixam ir dos galgos alcançando.”

*

“Acende-se o desejo, que se ceva

Nas alvas carnes, súbito mostradas.”

*

“Que sobre ela também caia

Quem a seguiu pela arenosa praia.”

*

“Nuas por entre o mato, aos olhos dando

O que às mãos cobiçosas vão negando.”

*

“co a ‘mora de se despir, há medo que inda tarde

A matar na água o fogo que nele arde.”

*

“Após Efire, exemplo de beleza,

Que mais caro que as outras dar queria

O que deu, para dar-se, a Natureza.”

*

“Entre a espiga e a mão, ergue-se (sempre) um muro”

Petrarca

*

Vasco da Gama comeu a mãe de Aquiles?

*

“O que mais passam na manhã e na sesta,

Que Vênus com prazeres inflamava,

Melhor é exprimentá-lo que julgá-lo”

até o talo

*

“Com palavras formais e estipulantes

Se prometem eterna companhia,

Em vida e morte, de honra e alegria.”

*

“Ela nos paços logra seus amores,

As outras pelas sombras, entre as flores.”

*

“Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,

Enéias e Quirino e os dous Tebanos,

Ceres, Palas e Juno com Diana,

Todos foram de fraca carne humana.”

*

“ó vós que as famas estimais,

Se quiserdes no mundo ser tamanhos,

Despertai já do sono do ócio ignavo,

Que o ânimo, de livre, faz escravo.”

*

“Não será a culpa abominoso incesto,

Nem violento estupro em virgem pura,

Nem menos adultério desonesto,

Mas cua escrava vil, lasciva e escura.”

*

“Olha o Cisne morrendo que suspira,

A Lebre os Cães, a Nau e a doce Lira.”

*

“Vês Europa Cristã, mais alta e clara

Que as outras em polícia e fortaleza.

Vês África, dos bens do mundo avara,

Inculta e toda cheia de bruteza,

(…)

Olha essa terra toda, que se habita

Dessa gente sem Lei, quase infinita.”