[ARQUIVO] O ORFANATO

As duas crianças cutucam Gohan—outra criança ainda menor—com um galho, hesitantes. Temem um não sei quê do corpo inconsciente, estirado de bruços na areia.

– Será que ele tá morto, mano?

– É claro que sim, tá vendo que ele não se mexe, mana?

Mas antes que o cadáver pudesse ser alvo de mais exames interessantes por parte da dupla, um objeto brilhante chama ainda mais a atenção dos investigadores-mirins: é uma espada de bom fio, deposta ao lado do caído.

– Uau! Que maravilha! Eu sou um pirata, iá!

– Cuidado, você pode se cortar!—respondeu Gohan, tão de repente de pé, ao reparar no estranho balançando sofregamente sua espada pesada. As ondas batem nos calcanhares de Gohan. Ele ainda veste as mesmas botas.

– Um fantasma!

– Essa espada é minha…—mas Gohan, fraco, desfalece novamente.

O garoto solta a espada, de susto…

– Fantasmas podem morrer?—era a dúvida de sua irmã de 6 anos.

* * *

Quando Gohan voltou a acordar estava debaixo de um teto. Uma casa. Embora o lugar fosse velho e as paredes e o forro estivessem todos descascados.

– Ai minha cabeça!

Os dois estão de pé bem perto da cama improvisada, e parecem empolgados.

– Este é o Rum, Garrafa de Rum, meu irmão mais velho, e eu sou a Cris! Qual é o seu nome?

– Eu me chamo Gohan. Onde estou?

– Esse é um dos nossos esconderijos secretos, gostou?

– De onde você veio?

– Eu não sei! Acho que tentei atravessar o mar e de repente…

Gohan não pôde terminar a frase (e acho que não terminaria…) porque Rum, hiperativo, já havia saltado para o canto, onde se pôs a batucar sem ritmo e sem jeito no que sobrou de um antigo órgão aristocrata.

– Você quer ser nosso amigo? Aqui é a República das Crianças! Aqui não tem adultos mas todos que agüentam ficar sem chorar são bem-vindos!

Rum dá um peteleco na orelha direita de Cris, que faz meia-volta furiosa e começa a puxar o mano pelos cabelos, e depois o morde no cotovelo.

– Quem aqui é chorona?! Isso era antes!

– Ué, mas eu não disse nada!

Os três riram.

* * *

O primeiro lema dos órfãos é: os órfãos se ajudam uns aos outros! Que tal, CORRAM?

– Ã… é Gohan! GO! É que, bem, eu, ã, eu tenho uma… ã, uma…

– HAHA, GO-AN—Gohan! Você é gaguinho?

– Me desculpa! É que faz muito tempo que não falo com ninguém, a última pessoa com quem falei nem era assim uma pessoa, sabe?

– Não, não sei, garoto esquisito!

– Gohan, chega de papo besta, você não quer conhecer os outros?

– Os outros? Tem mais gente?

– Mas é claro que tem!

* * *

Não muito longe dali…

Um furgão com três pessoas uniformizadas de semblante fechado percorre a estrada esburacada…

* * *

E de volta:

– Sabe, Gohan… Há dois anos teve uma tsunami na vila, e você não vai acreditar! Quase nenhuma casa ficou de pé! E os adultos, nossos pais e os pais de todos, fizeram de tudo pra nos proteger. No final, os que não morreram afogados acabaram doentes e depois morreram! Uns amigos da gente também morreram! Foi muito triste!

– É sério? Quem é o mais velho de vo…

A sala estava lotada. Era uma assembléia de boas-vindas. Mas um apito, silvo realmente irritante, do lado de fora interrompeu a conversa. Quem ficou de sentinela na copa da árvore notou a aproximação do furgão.

– SÃO AQUELES CARAS DE NOVO!

– Ô, QUE SACO!

– GOHAN, CORRE, SE ESCONDE!

– Quem?

– VEM LOGO, VEM LOGO!

– Todo dia eles vêm, esses caras não desistem! Pessoal, pro plano!

O robusto motor parou de roncar com um breque. Barulho de portas se abrindo e se fechando rapidamente.

– É, esses moleques e suas emboscadas…

– Vamos! Hoje eles vão ter uma surpresa maior que a nossa!

Dois eram homens parrudos. Mas a motorista, uma mulher.

– Rápido, CORRAM, eles vão te pegar! Sobe, sobe, sobe!

Eram terríveis lances de escada, às escuras.

– Esse é o terraço! Olha ali, na ponta! Tem um bambu! A gente usa pra pular praquela casa da árvore! E ninguém alcança a gente aqui! Gohan, peraí, eu levo a Cris que não sabe pular, depois eu volto e te levo!

– Espere, garoto!

Antes de Rum voltar, os funcionários da van tinham adivinhado que se ocultavam no terraço e encurralaram Gohan. “Fim da linha, pivete! Ou se esborracha ou vem com a gente!” Um dos homens tirou um porrete de dentro das calças beges imundas.

Gohan deu os três passos pra trás que o parapeito ainda permitia.

– Não se mexe! Ninguém vai machucar você! A menos que peça!

Do outro lado as crianças gritavam: “E agora? Se o Gohan não tem o bambu, ele não…” Mas Gohan fechou os olhos, e quando um dos gorilas ia abraçá-lo…

ZOOOOMP!

Ele pulou feito o Homem na Lua. Todas as testemunhas se confundiram, relatando, depois, a história para quem não tinha visto: disseram que ele, o recém-chegado, o novato, um dos mais novos, não tinha nada de bobo, tanto é que VOAVA!

Os trabalhadores do orfanato da cidade vizinha se recusavam a acreditar no milagre.

– Mas o que eles querem? Tinha gritado Gohan, depois de chegar sem ajuda de uma vara de bambu à casa d’árvore.

– Eles vão levar a gente pra prisão!

– Vão comer a gente vivo!

– A mulher que tá com eles é bruxa!

– É sim! Um garoto que conseguiu fugir da prisão disse que não davam comida nenhuma e levavam surra!

– É verdade! Eles te levam pra tomar banho e até cortam suas unhas!

– Urg…!

Mas quando as crianças viram, os dois brucutus e a outra capanga já tinham se dispersado pelo acampamento juvenil. Um deles apareceu puxando uma linda moça pelo braço, de dentro de outra casa, metade desabada.

– Me solta agora, seu velho tarado!

Um vulto velocíssimo retirou a indefesa donzela do maciço pulso do gorilão de uniforme. De cara suja e uma faixa amarrada na testa, à moda de um revolucionário, o vulto se revelou como um outro menino, mas um pouco maior que todos os demais, aparentando uns 14 anos. A menina resgatada, de uns 11 anos, com cara de miss acampamento aliviada, se ocultou detrás do corpo do atlético adolescente, exceto que esticou o pescoço e mostrou a língua para o feroz ex-captor.

– É o Fígaro!, vários dos meninos na casa d’árvore exclamaram.

– Ela não quer ir com vocês, seus ratos! Rosnou ameaçadora a grossa voz do garoto delinqüente. Agora seria Fígaro contra o gorilão mais próximo. Ele avança com um cassetete, mas Fígaro não quer saber de machucar ninguém com as próprias mãos: só ginga com o corpo e faz o grandalhão tropeçar vexatoriamente e comer terra.

Os outros funcionários sabem que podem menos ainda com o rebelde mais velho e já ensaiam um recuo. Só para decretar o lado vencedor, os meninos abrigados no alto saúdam os do furgão com várias pedras. A mulher ao volante, contrariada, tenta argumentar, mas as crianças fazem um escarcéu e ela mal é ouvida por si mesma. Resolve chamar seus homens para o veículo e arrancar cantando pneu.

– Esses pirralhos acham que podem viver soltos assim pra sempre! Grrr…

Ponto para a República!

– Já podem descer! Hm… Você é novo aqui? Fígaro encara Gohan, mas seu olhar não é bem de censura, e sim complacência.

– É, encontramos o CORRAM na beira do mar depois da tempestade!—isto foi Rum quem disse.

– Não, o meu nome é Gohan! Muito prazer.

– Sabe, ele ainda é muito pequeno, vamos ter que cuidar dele e dar de comer também!—veio, oportunista e empurrona, a Cris.

– Rá, olha só quem fala! Você também é bem pequena, não é? Atalhou Fígaro. Risos gerais.—Bem, Gohan, a única regra é: um órfão é bonzinho com outro órfão!

Ambos, Gohan e Fígaro, apertaram as mãos.

* * *

O dia correu na maior tranqüilidade e despreocupação, típica da idade, e sem supervisão neste República livre, com todos os tipos de brincadeira, de adivinhação a combate policial, amarelinha a pega-pega. Gohan nem se lembra da última vez que riu tanto assim!

* * *

No dia seguinte, Gohan foi com seus novos amigos passear no restante da ilha, ou continente, o que quer que fosse essa terra, e descobriu que aquela não era a única cidade! Havia, a vários quilômetros das casas semi-destruídas, mais longe da costa, centros muito mais desenvolvidos—uma grande feira ao ar livre só com adultos trabalhando, por exemplo!

Já estava tudo esquematizado. Gohan parecia um filhinho-da-mamãe todo fofinho e arrumado, então ele é que devia dar início ao golpe: salivante diante da tenda onde anunciavam com vigor maçãs frescas e brilhantes, ele desmaiou convincentemente, fazendo uma roda de almas preocupadas se fechar em torno dele num instante. Virou o foco de atenção da feira.

Enquanto isso, enquanto prestavam socorro ao pobre Gohan, outros meninos esvaziavam os estoques de tudo que podiam, abastecendo seus sacolões de comida. Assim a República prospera!

Quando descobriram a armação, já era tarde demais. Uma negociante corpulenta ainda partiu pra cima do bando dizendo “Ô, mas que malandros sem-vergonha!”, mas cansou rápido, pois não estava habituada a exercícios. Os mais adiantados iam com toda a bagagem conquistada no saque-de-mestre, em bicicletas enferrujadas. Gohan, que longe de ser bobo se ergueu do chão assim que se vira ignorado pelos adultos em meio ao tumulto, corria quase tão depressa quanto as rodinhas das magrelas.

– Não foi divertido, CORRAM? Podemos viver sem os nossos pais!

– É, gostei muito!

Depois disso, inconscientemente, o sorriso de Gohan sumiu do rosto e ele ficou cabisbaixo.

– Mas o que foi?—perguntou a bonitinha do bando, salva por Fígaro no dia anterior, que era sensível para essas coisas.

– Ah, não foi nada, he-he!

* * *

De novo o sossego litorâneo, só se ouvindo o bater das ondas nas encostas pedregosas, o grasnido das gaivotas e o barulho do estômago trabalhando lento, depois da rica refeição. Aquela hora no fim da tarde que dá uma leseira na gente, danada de boa…

Muito estranho, mas pela primeira vez desde o desastre o furgão do orfanato não apareceu e as crianças puderam relaxar e curtir. O futuro era brilhante e promissor!

* * *

Escureceu. Gohan, enquanto os meninos dormem, procura uma moita do lado de fora. Esgueirando-se, percebe uma presença. Antes que pudesse se assustar, dá-se conta de que é Fígaro, imponente, ereto, ar de não-cansado.

– Oi, o que você tá fazendo aqui?

– Eu tô de sentinela, Gohan. Precisamos proteger a República o tempo todo. A gente nunca sabe quando aqueles brutamontes vão voltar…

– Você acha mesmo, Fígaro? Acho que eles desistiram!

(ou será na verdade que Gohan queria ir além de um passeio ao mictório?)

– Além do mais… Há outras pessoas com más intenções por aí, Gohan. Nem sempre são do orfanato.

– Fígaro…

– O que foi, Gohan?

– Eu tenho um segredo… Na verdade eu não sou órfão… Não sou… totalmente órfão… Tenho uma mãe que me espera na Montanha Paoz… E meu vovô também…

– Então era isso, por isso você é diferente!—um dos moleques mais novos gritou, do parapeito da janela. Não estavam tão adormecidos assim…

– Me… me desculpem!

– Ora, Gohan, não precisa se desculpar!—Fígaro—Só tem um problema: a Montanha Paoz fica meio longe, como você veio parar aqui?! Tem ainda uma extensa rodovia e aí sim na Floresta de Bambus você já pode se considerar em casa. Mas vamos te levar lá! Amanhã…

– Como?

– Eu tenho um plano pra roubarmos o veículo!

E deu uma piscadinha. Tudo dependeria da visita dos inconvenientes adultos do maldito orfanato.

– Ei, CORRAM, sua mãe é legal com você?

– Ãhm, acho que não, ela fica brigando e me mandando estudar o tempo todo!

Óbvio que riram, mas aqueles que sabiam que jamais veriam sua mamãe de novo sentiram uma muda ponta de inveja.

– Gohan, de que matéria você mais gosta?

– Ah, eu acho que sou bom em Geografia, Desenho e Matemática!

– Eu detesto Ginástica! Mas gosto de Inglês.

– Já eu prefiro Ciências!

– Eu nunca fui pra escola…—acrescentou a Cris, desanimada.

– É claro, você é muito novinha!

Ela faz seu gesto costumeiro de dar a língua. Aliás, quantos linguarudos na República!

– Pelo que eu tô vendo, vocês tão a fim de ir pra escola, certo?—Fígaro se intrometeu.

– Não, além disso tanto faz! Agora não adianta mais mesmo!

– Ué, vocês podem se matricular na escola quando quiserem!

– Não fala isso, Fígaro, que papo é esse agora?!? Aquele lugar cheira a remédio!!

– Eu também não quero voltar.

– É, nem eu!

– Você conhece bem, já que fugiu!

– HAHAHA!

O papo continuou, besta, mas confortador, e os grilos cricrilejavam.

– Então, pessoal, amanhã acordem cedo porque vamos levar o Gohan à mãe dele!

– Ié!

– Oba!

– Viva o CORRAM!

Gohan corou, mas se contentou por dentro, embora uma dúvida cinza ainda o importunasse em alguma parte…

Ninguém dormiu muitas horas àquela noite…

* * *

Todos a postos. Sabiam, no íntimo, que os gorilas impiedosos não os deixariam em paz dois dias consecutivos, sem falar que viriam mais bem-preparados. Mas a recíproca também era verdadeira: ninguém deixaria o ronco de um motor pegá-los de surpresa dessa vez.

– Não vê nada?

– Não!—Rum, de binóculo.

– Está passando da hora!—Fígaro, preocupado.

– Ei… E-espera! Tá vindo! Tão vindo!

– Abaixem-se todos! Vamos fingir que tá tudo normal!

Dessa vez eram três, e não dois, os seguranças-armários. Logo que se retiraram da van, uma salva de pedras destinada a batizá-los foi atravessando o ar.

— Tomem isso, e isso!—Até a Cris e as outras garotas caprichavam na pontaria dos estilingues.

Os homens se dispersaram para se tornarem alvos mais difíceis, afastando-se da combi. Era a brecha desejada por Fígaro, que não teve dificuldade em expulsar rispidamente a motorista choramingona. Ele assoviou e toda a molecada se preparou para embarcar no bagageiro gigante. Ninguém queria ficar pra trás.

— Ah não!

Sirenes se ouviram. Eles tinham se planejado ainda melhor.

— Desçam do carro!—vociferou Fígaro—Esses sabujos chamaram a polícia!

Estavam cercados por incontáveis motocas e viaturas. O incidente de ontem na feira já havia despertado a atenção das autoridades. Sem plano nenhum, os meninos começaram a lutar com funcionários do orfanato e homens-da-lei, indistintamente. Uns com mais dificuldade, outros menos. Era notória a vantagem no corpo-a-corpo de Fígaro e de Gohan, que sozinhos davam conta de vários deles. Até a Cris, valente, mordia o braço de seus aprisionadores! Voavam voadoras e pedrinhas pra tudo que era canto. Os adultos devolviam com bravatas, botinadas e cacetadas. Pois é. Para a jovem República, estava claro que toda resistência tinha um limite, e até Fígaro foi dominado e algemado ao furgão pelos mais velhos. Gohan, num rompante de fúria (sempre um rompante de fúria), sacou sua espada, deu um de seus pulos fenomenais e quebrou o elo de ferro com a maior facilidade. Mas quando Fígaro se ergueu, assustado, e virou-se de costas, viu que todos os mais novos exceto seu salvador já estavam sob custódia. Haviam perdido? Fígaro parou para meditar uns dez segundos, enquanto os policiais, confiantes, mantinham-se alertas, prestes a dar o bote final. Um relâmpago atravessou-lhe a mente. Estamos falando de Fígaro, o líder da República em dissolução: “Melhor assim… Sentirei saudades.”

— Gohan, vem comigo!—e correram.

O gesto surpreendeu os policiais, que não imaginavam que os pestinhas se deslocassem na direção oposta.

— E os outros?!

— Só vem comigo!

Ouviam-se os gritos daqueles pequeninos, já amarrados e sem consolo algum:

— Fígaro! Fujão!

— Traidor!

— Não deixa a gente aqui, Fígaro!!

G. e F. montaram num conversível da polícia, arrancaram e deixaram a República e as ruínas e as moscas, e os adultos, e a Lei, e os amigos, para trás. Para ser fiel aos fatos, o mais velho e parrudo dos capangas do orfanato ainda tentou se agarrar ao pára-choque, mas sua queda foi de gibi. As crianças-reféns só não sabiam se riam ou se lastimavam, enraivecidas pelo abandono do ex-estimado líder.

— Fígaro!!! CORRAM!!—Em vão um ainda tentou: eles já tinham sumido de vista…

* * *

Na auto-estrada os dois, Fígaro ao volante, ainda tiveram de fintar alguns policiais motorizados, mas estes acabavam batendo ou perdendo a pista. Quando chegaram à Floresta de Bambus e se retiraram do carro, Gohan abordou Fígaro, sério e indignado:

— Por que, por que você largou seus amigos? E empurrava seu parceiro de fuga na altura do quadril, sem querer compreender. Fígaro deu-lhe um murrão na cara que o derrubou.

— Acorda, Gohan! É a melhor saída pra todos eles! Eles não têm idade pra serem uns vândalos! Não merecem essa vida que eu levo!—Dava pra sentir a umidade em seus olhos—Gohan! Eu percebi… Você não é um garoto comum! É muito mais forte do que eu, e olha seu tamanho!

— Você vai voltar, Fígaro?

— Não! Se eu voltasse, não encontraria mais ninguém! Bom… A gente se vê… por aí! Seja bonzinho pra tua mãe!

— Traga eles, Fígaro! Mas esse grito foi só um último ornamento à amizade que cresceu entre eles. Assim como os moleques da finada República berravam à toa, Gohan já sabia que Fígaro não devia ter escutada nada, por causa do barulho do carro. E no fundo concordava com o mais velho, embora isso fosse bem triste. Rum, Cris, a “miss” e os outros! Então ele se virou e foi trotando pela mata… Em dez minutos chegaria…

— Tá perto! Já reconhecia os padrões de vegetação da vizinhança—Uf, uf… Puff!… Já posso ver minha casa!!! —Esbaforido, mas era todo sorrisos e alívio. Chi Chi, sua mãe, fatiando legumes na cozinha, nada podia ver, mas seu sexto sentido entrou em ação—seu coração apertou. Chi Chi correu para o quarto do garoto, deixado como estava havia seis meses, esperando o retorno do dono. Vários livros empilhados, repletos de equações e teorias das mais estranhas…

— Hum! Suspirou, e engoliu o vento, amarga.

Ela, sem saber a que estava obedecendo, saiu correndo da casa, mirando ao longe…

Era na mesma direção de Gohan que ela fitava. Ambos, mãe e filho separados pela catástrofe, não uma tsunami, mas algo bem pior, iriam voltar a se encontrar!

“…sua mãe é legal com você?…eu nunca fui pra escola!…seja bonzinho pra tua mãe!…” Essas frases invadiam a consciência do garoto-guerreiro-misterioso. Mas por quê? Por que agora? Espera… tem algo faltando!

“Garoto especial…”

“O mundo precisa de você…a invasão.”

Suas veias estalaram e se comprimiram…

— Eu não posso! Se eu voltar as costas, todas as casas e famílias vão acabar!

Seu problema de amnésia estava de todo curado, de súbito. Não só sua identidade no deserto, antes de conhecer o Senhor Robô, mas todos os eventos macabros de meses atrás se perfilaram em seu álbum de fotografias mental. Não só sua mãe, mas até seu pai, e o outro…

E ele correu ao avesso. Tarde demais para Chi Chi, que não conseguiria alcançá-lo por nada. Nem seu coração terno de mãe podia com as passadas miraculosas de Gohan, o eleito… E, de mais a mais, ela não viu nada nem ninguém nos contornos da floresta, a não ser folhas farfalhando e bambus balançando. Podia ter sido tudo uma ilusão da carência e da loucura da solidão…—Goku, Gohan!…—Ela amarrotou uma foto que segurava na mão direita…

* * *

Gohan já evadia a floresta e chegava ao pé de uma montanha. O céu límpido. Começou a ventar muito. Pétalas de cerejeira e folhas agrediram sua cara, em redemoinhos ascendentes. Ele olhou pra cima. Lá estava ele, tapando o Sol. O turbante impecavelmente branco, apesar da negra sombra que projetava. Semblante fechado, poderoso, pairando no ar.

— Qual é a sua missão, pequeno? Indagou, tonitruante, taxativo. Vamos, me diga!

— É vencer os saiyajins… E salvar… A TERRA!

— Isso mesmo. Vamos voltar.

Voltar? Pra onde, se não é pra casa?! Ao Deserto. Ao Deserto vasto e cruel, de onde só por milagre se poderia escapar. Mas Gohan não tinha escapado? Treinar lá, com seu mestre, para produzir mais milagres.

Contagem regressiva.

2 de fevereiro de 2013

[ARQUIVO] O CULPADO DE SÍSIFO

Um homem está ao relento, do lado de fora da entrada de uma extensa gruta, tudo isso no altiplano de um morro de encosta bastante íngreme que dá para uma estrada de terra. O homem não passa de um jovem.

Lá embaixo alguns passantes fazem uso da estrada. Parece uma procissão que sai de uma vila em direção a algum sítio mais afastado e menos profano. Há uma grande pedra no mesmo cimo em que o jovem se encontra. Embora não seja perfeitamente regular, ela é redonda e rolaria pelo declive com facilidade.

O jovem se estirou sobre o topo chato da montanha e contemplou o céu pensativo. Não sabe por que está ali, não sabe que multidão é aquela lá embaixo. Por puro tédio, seria capaz de fazer aquela pedra rolar. Por tédio e ócio, brincaria de deus, se tornaria um homicida. Por capricho, rebaixar-se-ia como valor humano. Agora que essa fagulha de malignidade reluziu despretensiosamente em seu campo de ação consciente, agarrou-se a ela como se trepadeira fosse, e não podia mais se livrar dela.

Atos gratuitos não geram despesas. Tudo de que precisava era ir até lá, movimentar os músculos, animar-se a tirar do lugar todo aquele peso. No fim, em movimento ou estático, tanto faz, tudo é monstruosidade da natureza.

Nem bem ele havia se perguntado se deixaria seu corpo ser guiado pela nova vontade, a pedra já tinha percorrido toda a ladeira, e como a fila de sujeitos caminhando era ininterrupta, alguém foi atingido letalmente. Em que pese o forte ruído da descida e a visibilidade considerável que se tinha da pedra, a rampa tinha sua bruxaria de fazer com que o objeto ganhasse mais e mais velocidade ao final da trajetória e surpreendesse os cálculos dos homens. Os companheiros do homem que morreu na mesma hora do impacto com a pedra tentaram alertá-lo, mas este infeliz integrante do comboio pensou que ainda era possível desviar quando já não era. A pedra passou-lhe por cima como um trator. Adicionalmente, a distância muito grande e enganosa entre o ponto inicial de escorregamento da pedra e a estrada não deixava que nenhum homem, na base ou no topo do monte, percebesse as feições de quem estava na extremidade oposta. Foi um crime anônimo.

O rapaz, da boca da gruta, apenas pressentiu algo trágico, sem entender direito. Ouviu lamentos femininos e uns três varões bradando impropérios. Mas eram vultos indistinguíveis. Se é que havia um cadáver, ele já fôra há muito escondido pela multidão que se avolumava em torno quando o jovem tentou espreitar correndo alguns metros e forçando a vista. Só a pedra era perceptível daquela distância, colosso agora imóvel e inofensivo.

Como se inquietasse porque os minúsculos homens lá embaixo não se moviam, e após um instante de alvoroço tudo soasse calmo, resolveu que iria descer, por mais imprudente que fosse sua jogada. É possível que essa reação já estivesse embutida na vontade de arremessar a pedra, fazendo de homens estranhos meros pinos de boliche.

Após a resfolegante descida cheia de vento, interpelou os homens. Ofereceu auxílio. Deu a entender que esperava se deparar com machucados ou feridos, mas não com um moribundo. Alguns o receberam de modo irritado, por saberem de onde aquele rapaz chegara: “Foi você que nos jogou essa pedra maldita?”. O jovem ficou realmente embaraçado. Não poderia ter simulado a cor corada da pele do rosto. Mas mentiu convincentemente. Disse que havia outros homens lá, que ele não concordara com a idéia macabra de um deles e tentou demovê-lo da ação bárbara e despropositada, obviamente sem sucesso. Explicou que, como tentativa de expiação, desceu para entender direito o que a pedra havia provocado. Esperava que perguntassem o que estavam fazendo ali naquela gruta assustadora e que tipo de ligação o aproximava de homens tão abjetos. Mas foi outro o questionamento: “E, pois, por que demorou tanto para descer do morro?” É verdade. Ele não sabia por que hesitara antes da descida. “Esperava que alguém fosse ter conosco”, respondeu sua máscara instintiva. Alguns dos ouvintes emitiram um misto de guincho de dor pelo amigo atingido pela pedra, resmungo bonachão e gargalhada galhofante. E então lhe viraram as costas e foram olhar para o morto uma última vez. Uma das mulheres do bando foi a única que não o desprezou e ressaltou o evidente: a pedra vitimou uma pessoa, portanto o jovem havia chegado tarde demais se queria ajudar, e a menos que fosse um médico ou feiticeiro, nada poderia ter feito, de qualquer maneira.

O descaso em relação a um possível perigo ou algoz deixou o assassino e mentiroso tomado de um furor incontrolável. Quando as atenções se deslocavam para o material em decomposição, o rapaz insistiu: “Escutem… Não querem subir até a caverna para verificar o que eu disse?”

– Isso não é preciso, confiamos em você.

O rapaz engoliu em seco. Ficou minutos gelado por dentro, estirado, ali, de pé, em meio a desconhecidos, enquanto um pequeno grupo dentre os homens da caravana se encarregava de levar o corpo na direção do poente, ou seja, da vila. Não se sabe se ouvia os balbucios dos homens restantes. Estalava os dedos da mão e as juntas pelo corpo inteiro, tentando se livrar do choque provocado pelo último revide do diálogo: “Não desconfiavam de mim, não iam subir pela trilha careca do morro atrás do responsável? Com que tipo de lassidão me deparo neste lugarzinho? Uns frouxos!”

Com um sobressalto, o jovem se removia a si mesmo das reflexões um tanto inúteis e fazia o possível para interromper o caminho dos homens que, àquela altura, também caíam em si e se dividiam: uns seguiam em romaria para o leste, aonde já deviam ter ido não fosse o incidente; outros, todos os que estavam acompanhados da esposa, principiavam a caminhada em sentido contrário, o sentido do cadáver. Não contavam com aquele homem mais novo que todos eles gesticulando e balançando mais catatônica que euforicamente, tropeçando nas palavras… Vomitando uma confissão! “Fui eu que matei! Não há mais ninguém lá! Eu fiz rolar esse pesado pedregulho… Esperem, vocês não podem voltar para suas casas desse jeito—se dirigiu em especial aos que já iam longe, n’oeste—, ignorando quem fez isso com seu amigo morto.”

Fez-se um círculo em torno do confessor, olhares e barbas ameaçadores se tornavam mais nítidos. Ele esperava que o “líder” entre eles o sacudisse pela roupa e exigisse o porquê daquele ato, pior, daquele teatro. O porquê de ter descido, o porquê de ter se condoído a princípio, de ter, em outras palavras, se oferecido para ser a janta caso fosse desmascarado, mas em seguida se revelando a si próprio, como se fosse um cativo resignado que se atira vulnerável caldeirão fervente adentro, sem nenhum trunfo, num automatismo de brutamontes. Mas ninguém se mexia e ele se viu compelido a fazer sua versão retrospectiva completa, como que constrangido por uma mão invisível a chacoalhar sua gola, mas na verdade atendendo o pedido do próprio júri de sua cabeça.

Depois do discurso detalhado, esbaforido, o Sísifo de ocasião se deixou desmilingüir e pousou no solo, de cócoras, lentamente. A sua volta, para além de várias ondas de murmúrios se propagando aos oito cantos, um misterioso consenso mudo tinha brotado como efeito. Muito longe de demonstrarem qualquer feição amigável e sem mesmo olhar nos olhos do infrator, do perturbador daquele fim de tarde quente na aldeia, os ouvintes se escoraram nas palavras austeras de um porta-voz, centralizado na multidão: “Eu não sei qual poderia ser a direção tomada pelo mundo caso os mais novos e impetuosos fossem os únicos guias das coisas e dos destinos dos entes. Nós não entendemos que deva haver qualquer tipo de reparação diante de uma perda, de uma pedra, de um mal. Perdoamos você por ser o que é, se é isso que busca, essa idéia de redenção, de renascer e regenerar-se. Perdoamos você por ser o que é e por ter chegado aqui e cruzado nosso caminho. Mas temos o direito de exagerarmos nas suspeitas da próxima vez. Qualquer palavra sua soará como uma pedra. Seu destempero deve tornar qualquer um que faça parte do seu passado um desconfiado por natureza, você mesmo se comportou como se esperasse que reprisássemos aquilo que foi sua vida até este ponto, não é mesmo? Sua alma afundaria se fosse separada do seu corpo e jogada num lago, ela é mais pesada que a rocha que rolou por essa encosta, mas se isso fosse tudo… Seu lago não tem fundo. Não há o nirvana que procura.”

O jovem, abandonado finalmente a si, só pensou que malignidade nenhuma parecia fazer sentido quando não era combatida, quando era até permitida. A postura desses homens desencorajava, ridicularizava, o tipo do valentão vil, ou simplesmente essa espécie que hoje abunda, a dos adolescentes de alma, rosto calejado ou não, cansada do mundo, indiferentes a qualquer destruição e qualquer milagre. Aqueles homens logo se afastariam de sua vida, mesmo simbolicamente, e ele continuaria sua jornada? Como poderiam, se ele em primeiro lugar é que deveria rolar como uma pedra para longe dali? E vislumbrava, o rapaz, uma grande e espessa parede, uma muralha intransponível e cinzenta, de centenas de rochas iguais à que agora podia ser chamada de sua. Deveria amadurecer para buscar transpô-la. Destruir as lembranças. Os homens o perdoariam, mas ele continuou culpando-se diante do reflexo das águas.

[ARQUIVO] O SENHOR ROBÔ

Abandonado no deserto. O garoto nem sabe direito como foi parar ali. Seu pai está morto. Ele chora. Tem uma espada que mais parece um facão e se alimenta de pequenos animais. Isso é tudo com que conta. Não pode se lembrar de sua idade, de seu nome, nem de seu propósito, a não ser… Sua mãe! Ele tem uma mãe e precisa chegar até ela. Fugir desse lugar como puder. O solo arenoso dá lugar a um outro tipo de piso. Calcário rachado, desgastado pelo sol perene da região.

Após alguns passos na pouco convidativa e árida superfície, o chão começa a ceder debaixo dos pés do garoto. Ele está em uma galeria subterrânea! Uma câmara enorme se estende diante de seus olhos. A luminosidade é escassa. Ele analisa as pinturas rupestres que encontra gravadas nas paredes. Tem certeza de já tê-las visto antes! Algumas delas não são imagens, são letras: querem descrever qualquer coisa ou dão um aviso importante. O garoto desafortunado procura uma saída, mas o único jeito seria escapar por onde entrou, o buraco no teto, a mais de quatro metros de altura. A temperatura não é como lá fora. Faz frio. O garoto, vestido apenas em um kimono esfarrapado, cabelo desgrenhado, se encolhe e encosta em uma das quinas irregulares, sem nenhuma idéia.

Mas, ciente de que, de alguma forma, está sendo observado, ergue o olhar de súbito, desconfiado. Em frente, na extremidade oposta do salão, há um objeto, ou talvez um amontoado de detritos cintilantes. A cor prata do montículo reflete a pálida luz que consegue penetrar na gruta, produzindo um belo efeito à vista. O garoto se reergue sobre trêmulos membros inferiores e se aproxima, devagar. A cada passo as coisas ficam mais claras: trata-se de um robô! Mas deve estar “morto”. À guisa de comprovar sua condição de solitário nesse sítio tão inóspito, o garoto cutuca o esqueleto platinado, cadáver tecnológico, com sua pequena espada infantil, ainda embainhada, bem na parte do tronco, que continha uma grande cabeça inanimada, à maneira de uma moldura que envolve um relógio, vermelha, ao contrário da cor de metal enferrujado do envoltório. E se fosse o coração da máquina, sua bateria, um botão, o botão de ligar/desligar? O garoto intruso premedita alguns passos para trás. O que ele quer com o ferro-velho dos outros? Não há tempo para brincadeiras. Seu estômago clama por outras providências… Cadê a mamãe?

Antes de executar o plano—sair de perto dessa parede e desse boneco estranho—, o garoto é surpreendido por movimentos. O robô, cerca de três vezes mais alto e duas vezes mais largo que o menino, se aproxima perigosamente articulando duas hastes enormes e bambas que o cientista que o criou deveria chamar de pernas. Um brilho qualquer partiu de dentro da cabeça do bicho, uma centelha inquisidora, acompanhada de voz bruxuleante, de walkie-talkie. O garoto acaba de lembrar que na antiga vida que levava ele já brincara de guerra-por-rádio com seus amigos, e a voz dos companheiros, distante, saía mais ou menos assim:

– Quem é você? Como ousa me incomodar?

O menino espadachim solta um berro. Pó cai em sua cabeça. Talvez não tenha sido uma boa idéia! Como não obteve uma resposta inteligível, o robô voltou à entrevista:

– Quem está aí?

– Eu sou um garoto do deserto… Tentando sair do deserto… Eu não tenho um nome, Senhor!

– Você não tem um nome? Eu preciso do seu nome, eu não posso reconhecer um ser vivo sem um nome!

– Eu… eu…

Um relâmpago atravessa a mente hesitante do garoto e tudo parece mais coerente do que há poucos segundos:

– Meu nome é… Gohan!

– Ah, então se lembrou!

– Desculpe, Senhor, mas o que o Senhor faz num esconderijo tão afastado?

– Gohan, isso não interessa. Desligue o interruptor e saia o quanto antes.

– Mas não tem saída!

– Atrás de mim!

– Mas… mas… Só o que tem é a rocha!

– Tenho no meu computador os dados. Não sei quanto tempo passei desativado. Mas você precisa sair daqui, Gohan.

– Deve ter tido um desabamento. Nós estamos presos, Senhor!

– Gohan, isso não é minha responsabilidade. Desligue-me, humano! Desligue-me! Já não tenho mais a quem servir ou qualquer propósito. O ideal seria que eu jamais fosse despertado uma terceira vez…

– Sr. Robô, eu vou morrer aqui… Me faça companhia até o final!

– Isso é absurdo. Isso é absurdo, Gohan!

– Você, quer dizer, o Sr., o Senhor só sabe repetir? O Senhor tem vontade própria também, não tem?

– O que é isso?

– Senhor robô, o Senhor sabe como a gente faz para subir até aquele orificiozinho lá no teto?

– Gohan, meu visor foi muito prejudicado pela desativação. Sou quase cego. Por favor, você não pode me pedir nada. Eu não sou um robô atlético. Eu era um robô da ciência. Agora minha vontade é dormir o sono dos sábios.

Desesperado, Gohan emprega todas as artimanhas que conhece para convencer o robô astuto e obstinado a achar uma solução, querer sair do lugar e ir com ele pelo deserto… Mas era inútil. A máquina, obsoleta, teimava em ser um zero:

– Gohan, vou parar de responder as suas perguntas. Este lugar está condenado. Meu computador calcula que em 12 horas, sem interferência de seres vivos, todas as pedras vão desabar e soterrar essa caverna. Esse espaço oco dentro do chão vai deixar de existir. Todos os que se negarem a sair morrerão. Você tem de saltar por sua própria conta. Adeus.

Alguns minutos de silêncio…

– Ainda está aí, Gohan?

– Sr. Robô, eu vou consertar os seus olhos. Eu conheço tecnologia!

Gohan remexeu nuns fios que se ligavam às órbitas redondas daquela criatura artificial e, voilà, como que convertidas em lanternas elas adquiriram uma chama dourada, e passaram a enxergar Gohan nitidamente.

– Gohan, o que você fez foi inútil! Eu só quero dormir. O que garotinhos tão precoces fazem longe de seus pais? Desligue-me! Desligue-me!

Gohan obedeceu e dormiu de cansaço. Quando voltou a si, sobressaltou-se com algo rastejante a poucos metros e seu instinto o fez religar o Senhor Robô, bem no botão vermelho encefálico.

– Gohan!!

– Calma, Sr. Robô! Aqui tem cobras, o Senhor pode matá-las para mim?

– Gohan, você é um garoto intrometido e carente! Eu não devia, mas porque detesto choro de criança, vou assá-las para você…

– Muito obrigado, Sr. Robô!

E assim Gohan, de um golpe só, saciou o estômago e se livrou da companhia dos répteis asquerosos. O amigo robô disparou raios laser de cavidades estranhas em suas laterais. Sua eficácia para preparar churrascos é prodigiosa!

– Está satisfeito com o banquete, Gohan? Agora me desligue. Minha bateria vai acabar, mas eu gostaria de me despedir sem delongas…

– Eu acho que queimei a língua, Senhor Robô, mas estava uma delícia! Embora eu prefira o tempero da minha mamãe…

– Gohan…

– O que é, Senhor?

– DES…

– Tá bom, tá bom, já sei! O Sr. não teria uma mola para me ajudar a sair daqui?

– Gohan, lamento mas não consigo pensar em nada! Você pode, por consideração, apertar o meu botão?

– É que… Olha, só vou fazer umas perguntas antes, pode ser?

– Não, Gohan!

– Vou fazer sim, o Senhor não tem escolha!… Por que o Sr. está aqui?

– É uma longa história, Goha…

A voz do robô fica mais trêmula do que o normal.

– Senhor, Sr., o que foi?

– Eu não tenho mais energia para continuar es.. …ver..

– Robô, robô, Sr. Robô! Essa areia toda infiltrando nos circuitos do Senhor, é por isso que perdeu a mobilidade, não é?

– …

– Não precisa responder, eu vou tirar nós dois daqui, dou algum jeito! ALGUÉM ME AJUDE!!!

Tendo elevado a voz para pedir ajuda, Gohan se esqueceu de que poderia precipitar um deslizamento. Muito pó cede do teto e algumas porções do salão de calcário trincam. Gohan sabe que não terá muito tempo e que seu amigo não poderá mais ouvi-lo. Mas ele sabe—agora—que é uma criança diferente, senão não estaria no deserto passando por provações, nem teria uma espada ou… tanta sorte de arranjar um amigo até num calabouço tão escuro, no fim do mundo. Algo formiga dentro dele e ele se sente o rei do universo. Como quem pula por sobre um girassol ou um pé-de-milho, ele solta incríveis quatro metros e se agarra à beirada do buraco por onde havia caído. A borda é frágil, vai ceder se Gohan não puxar seu corpo para cima rápido. É o que ele faria, se não se lembrasse, na última hora, que esquecera de desligar o botão!

– SENHOR ROBÔ, O SENHOR NÃO PODE SOFRER POR MINHA CAUSA!!

A criança deixa-se cair de volta ao breu em dissolução. Seu último grito de solidariedade faz outras tantas rochas se desprenderem do teto. Mas ele precisa alcançar o botão luminoso… Ele deve isso ao anfitrião da caverna…

Ao tentar acioná-lo, o robô emite uma grande descarga, Gohan leva um choque e desmaia.

* * *

– Gohan, Gohan, acorde! A caverna está por um fio! Você ficou inconsciente depois de tocar em mim enquanto eu estava em curto! Mas graças a você ativei minha bateria reserva!

– Senhor… Senhor Robô, o Senhor está bem?!? Que bom!… Me desculpe… Eu me esqueci de desligar o botão quando estava prestes a sair e…

– Isso não importa mais. Não temos muito tempo.

Uma pedra de grandes dimensões cai perto dos dois, fazendo Gohan sobressaltar.

– Eu vou arremessar você, Gohan. Suba em mim e sente sobre a minha cabeça!

– Não, Senhor Robô! Eu não quero! E se eu sentar no botão o Senhor vai desligar para sempre! Preciso salvar o Senhor do desabamento!

– Não seja tola, criança! Estamos condenados se você não fizer o que eu lhe digo. O botão não vai me desligar. Eu posso mudar minhas configurações. Viu?

O robô passou a emitir uma aura azul, diferente da dourada de antes.

– Isso, assim mesmo. Agora comprima meu botão vermelho até o fundo! Prepare-se para EJETAR!

Um grande estrondo indicava que não só Gohan evadira em grande velocidade do reino subterrâneo como o próprio reino subterrâneo já não existia…

– Senhor Robô, onde o Senhor está? SENHOR ROBÔ!!

As lágrimas de Gohan são o único indício de umidade no vasto deserto, mas são logo arrancadas de seu rosto pela ventania. Breve anoitecerá e a temperatura diminuirá sensivelmente. Gohan não tem forças para erguer os escombros formados após o impacto para procurar seu heróico e mais novo amigo. Ele desembainha sua espada, engole em seco, ergue a cabeça e obedece a uma voz interior que o incita a seguir em frente…

28 de novembro de 2013

[ARQUIVO] DIÁLOGO DA FOME: AQUILO QUE É MAIS IMPORTANTE PARA O ANIMAL HOMEM

– Todos têm uma morte preferida. Um desejo de morrer de tal ou qual forma. Ou pelo menos uma intuição, uma forte impressão de que vão morrer de determinada maneira, não importa o que fizerem.

– Eu sou assim.

– E qual é a morte que lhe aguarda?

– Inanição.

– Sob quais circunstâncias?

– Não sei ao certo. Não sei com que idade. Não sei depois de quê. Pode haver messias epilépticos, neste país ou neste mundo, que sabem até mesmo a hora e o dia da semana em que morrerão. Mas eu ignoro o contexto. Sou mais simples. Mas algo me diz que estarei atirado na ruína, ou por algum motivo estarei em algum tipo de floresta longe da civilização, onde não me restam mais alternativas. Para falar a verdade, pensei na morte de fome em várias circunstâncias diferentes. Temo que não aconteça como em nenhum de meus pensamentos, romanceados. Não será trancado com meu filho em uma torre, como em Dante. (É isso mesmo? Mas isso foi realidade, e não ficção!) E confesso que prefiro a inanição em decorrência da miséria que de algum desastre eventual, como por exemplo ser seqüestrado, depois fugir e se arrepender, porque o cativeiro estava em lugar ermo! Sim, creio mesmo que algo me tirará a profissão, e me arrancará todas as possibilidades de recorrer a alguma ajuda. Ou talvez eu não queira essa ajuda. Talvez seja no meio da cidade, na praça, para todos verem. Um espetáculo público! Quem sabe haja outros mendigos, uma árvore, e então eu peça encarecidamente: Amarrem-me a este tronco com grossas correntes. Talvez tenhamos que roubá-las em uma oficina ou qualquer coisa do gênero. E por nada nesse mundo me soltem, nem que eu implore com os olhos marejados: Não me dêem de comer, não me ofereçam água. Deixem-me prostrar, até perder os sentidos, pouco importa quantos dias leve.

– Isso me parece um tanto trágico! Crê mesmo que é possível?

– Se essa pergunta é bem ou mal-formulada, eu não sei, mas se me deparo com ela sempre ao falar sobre isso, é porque faz sentido. Já me disseram inúmeras vezes que é impossível se morrer de fome de propósito, que existem formas muito mais nobres e imediatas de suicídio. Eu digo que não é um suicídio, pois é apenas uma natureza sem travas ou impedimentos, que faz seu trabalho. Acontece que não tem propósito continuar vivendo apenas para comer regularmente. Talvez nem fazendo outras coisas além de comer, mas isso não vem ao caso! Pois me dizem que o homem se torna um animal e não mede esforços para conseguir a próxima refeição. Mataria e comeria o próximo, se preciso fosse. Mas eu renuncio a ser homem. É bem verdade que não posso prever, não tendo antes passado fome ou me perdido no deserto, que tipo de reação sobreviria, mas é por isso que tomaria tal precaução. Atar-me-iam e me deixariam só.

– Besteiras… O corpo de bombeiros apareceria.

– Aborrece minha especulação!

– Continue…

– Seja como for, por ser ignominioso, proscrito, infame… Teria que acreditar que ninguém na cidade gostaria que eu me restabelecesse… Então se eu mesmo quisesse que assim fosse, nada haveria para me impedir… E supondo que o desespero não me desse força bruta como nunca antes, as correntes cumpririam seu propósito. Alguns acham mesmo que ninguém ama tanto a vida quanto um mendigo com disenteria. Que meu impulso, ou minha “previsão”, não passa de uma enfermidade ou desvio temporário. De fato o é, mas ele, ou ela, é recorrente. Nos meus piores momentos, essa visão sempre regressa. Eu acho que sei como é passar fome, ou quem sabe só os cadáveres descarnados o saibam! É o mesmo de quando passamos do horário de nossa refeição e não podemos mais ficar de pé, de tão trêmulos. A diferença é que quem verdadeiramente passa fome sente com tal banalidade esse fenômeno que em verdade não o sente mais. Já consegue andar, conversar, até carregar uma pedra pesada sem se queixar. O estômago não dói mais. Talvez volte a comer por inércia, ou por medo de alguma superstição!

– Não estou de acordo em tudo; mas acho até que esses bons samaritanos da caridade não compreendem muito bem “a fome”. Pode bem ser algo indescritível, que cada um sinta a sua maneira, como os pesadelos… Uma última pergunta: acredita que a mesma pessoa, em tempos diferentes, possa ter passado aguda fome e enfim decidido comer, depois de sua resolução suicida ter falhado, e, na segunda ou terceira vez que passar pela mesma situação, ter fibra o suficiente para levar o luto até o fim? Isso de morrer de fome me parece mais um dom, ou se tem ou se não tem!

– Acredito em tudo, meu amigo. Acredito mesmo que se em tal dia chove, a pessoa pode cometer um crime, ao passo que se fizesse sol ficaria em casa fazendo a sesta! Eu acredito, acima de tudo, que sempre podemos mudar para melhor!

[ARQUIVO] REFLEXÕES DE UM TOLO — Tomos V a VII

17 de novembro de 2013

Tomo V

ACORRENTADO AO FRACASSO

Por quê?

Chimpanzés de academia, não sabem lidar com o corpo, não sabem o que é o corpo, que ademais não vai só até os ombros.

A vida inteira comezinha reduzida ao romance burguês? Sapatonês?

Fontes de mal, desestabilizadores, no-breaks para as desgraças, dilúvio de opróbrios.

Olá, bunduda, suas meias estão demasiado arriadas!

Cigarras donas do crepúsculo atrasado. Choro tardio, tadinho.

Sinais de abatimento, má nutrição? Estou acorrentado ao fiasco passado, o futuro—e até o sono—me é negado.

MUSSOT ÉBRIO & O PSEUDO-SUICÍDIO

Toda hora o sentimento parece que vai aflorar

Por que não uma sucessão de acertos?


Tomo VI

defeitos hiper-especiais

Os defeitos de uma geração. O lunático autista de sua arte não-comercial… Mas é engraçado: não estou falando de mim! Na literatura, até que é escusado (ó, conferencistas!). Mas e o músico que não gosta de platéia?

Spaghetti tostado, cordas vocais nunca 100% utilizadas. O menino que também lê revistas dos anos 90 mas não tem vergonha da própria esquisitice.

O outro, seu antípoda, quer fazer melhor que eu: quer deixar de graduar-se e enganar os pais. Antes isso que se desgastar, se exaurir e ter um pífio diploma em mãos.

* * *

Diferente do trio trapalhão, alta (?) linhagem, peito estufado, jogador de futebol americano. Ele malha todo dia, e no entanto é cult: faz até aula de canto. Guitarra aprende com o João da Esquina, parlante de español, adora alugar o DVD de Friends na blockbuster e doar seus videogames para a caridade. Conselheiro-mor de todos os amigos, esse sabe o que faz, menos comigo! Ah, e os perigos do comunismo…


Tomo VII

InuYasha: o último grande êxtase. Época do amor.

Sou um nada, desprezível.

Minha barba coça. Não roça em ninguém,

Luz elétrica implica em segurança

Vou me recolher ao meu feudo

Seu eu tivesse um Buraco do Vento já tinha me sugado há muito tempo. Mas uma Tenseiga insiste em estar desembainhada na minha cinta, pulando, vibrando, a cada pseudo-morte emotiva. Bleargh!

Cada vez se torna mais difícil. Tenho zero amigos e pouco ou nenhum convívio com Zé Ninguém.

Sou um tratante! Onigumo

Ou um representante do canil

Pele branca babuinesca

Risada aberta mentirosa

Maltrato meus escravos que são-sou eu.

Parábola imperfeita do horror

Vá para outras praias, seu órfão!

Fuja quando mais (menos?) lhe é conveniente, microssábio!

Dispare uma flecha desenvenenada no coração do Destino Moribundo.

Os Kugas de minha vida são todos, que roubam minhas namoradas

[ARQUIVO] A FORMIGA E A CIGARRA: A REVANCHE

Originalmente publicado em 7 de novembro de 2013

Essa história acontece em solo europeu, por motivos que os artistas brasileiros conhecem muito bem…

A formiga, todo mundo sabe, é o trabalhador competente e compenetrado, que vende (aluga, cede) sua mão-de-obra tanto no verão quanto no inverno para suprir suas necessidades (um pouquinho mais no verão, é verdade).

A cigarra, o pessoal conhece como a vilã da fábula (infantil?), aquela que tem repulsa ao modus operandi do proletário e que por isso paga a conta no final (todo vilão, no reino do maniqueísmo, se torna a derradeira vítima). Vamos apresentar um início, um meio e um fim alternativos para esta triste lição de moral!

* * *

A cigarra canta no verão, e se dá ao luxo de deixar de cantar no inverno, a fim de preservar suas valiosas cordas vocais. Mas longe de recriminá-la pela postura, devo enaltecê-la; e nem preciso oferecer meu teto e meu cobertor quentinho a esta amante do ócio, quando o clima apertar, pois a cigarra tem tudo isso e muito mais: ela é uma celebridade das casas de ópera!

Por ser uma artista, a cigarra ganha numa só estação o suficiente para se sustentar por muitas estações. Ela tem um dom. Muitas formigas há que levem e tragam folhas e torrões de açúcar de lá para cá, de cá para lá, incessantemente, sob o sol forte, o vento inclemente, as mais variadas intempéries—mas cigarras são poucas, são raras, e como tal são mais prestigiadas.

A cigarra de nosso brevíssimo enredo passou o verão inteirinho cantando ao invés de “meter a mão na massa”, carregar peso, carpir um lote, plantar batata, sabe como é! No inverno, restava-lhe ler as cartas dos fãs, e estalar os dedos, em expectativa, preparando-se (psicologicamente, que fique bem claro) para os espetáculos da próxima (e cobiçada, pela platéia de insetos!) temporada.

Sim, amigos: nesta pequena fábula adulterada, a formiga é que tem inveja do excelente planejamento e previdência da amiga refinada!

Carpe diem, fazendo o que tu amas!

[ARQUIVO] OVERDOSE SHAKESPEAREANA

 

Originalmente publicado em 16 de outubro de 2013


A) MACBETH, O rei da Escócia

“Para o mundo enganardes, a aparência tomai do mundo.”

“congelada pelo meu sopro a ação se torna em nada.”

“O que nos atrapalha é a tentativa, somente, não a ação.”

“…que vai para os fogos eternos pela estrada semeada de rosas.”

“A bebida provoca o desejo mas impede a execução”

“O trabalho agradável é remédio da canseira.”

“Esgotado se acha o vinho da existência, só restando simples borra no fundo desta adega com que possa jactar-se.”

“Tirante ele, não há pessoa alguma de quem eu tenha medo, e junto dele meu gênio se intimida, como dizem que com o de Marco Antônio acontecia, quando junto de César.”

“Toca ao morto decerto melhor sorte que a de alegrar-se assim quem lhe deu morte.”

“O que não tem remédio, não devera ser pensado sequer. O que está feito, não está por fazer.” Talvez a vida não devesse ser pensada. Nem o fato de nos arrependermos e pensarmos sobre a vida.

“tenho o espírito cheio de escorpiões”

Inveja do futuro.

“dobra-se o ferro enquanto ele está quente.”

“Se estivesse em meu poder, atiraria logo no inferno o doce leite da discórdia”

O remorso remoça.

Sempre a frase existencialista perto do fim… A desta peça: som e fúria; o louco.

“Começo a achar a luz do sol enjoada. Ah, se este mundo se acabasse em nada!”

Outro tirano.


B) OTELO: O Mouro de Veneza

“palavrório sem sentido, carecente de prática; eis sua arte.”

“Chicote nessa gente muito honesta!”

“Chorar, depois de salvo, uma desgraça, é chamar outra mais feia e crassa.”

“O roubado que ri, rouba ao ladrão”

“Nossos corpos são nossos jardins, cujos jardineiros são nossas vontades.”

“o que denominais amor não é mais do que um sarmento ou uma vergôntea”

“veneziana arqui-sabida”

Só gasto tempo com idiotas para proveito próprio ou por distração!

“Então ela é sagrada? Mas o vinho que ela bebe é feito de uva!”

“É amaldiçoado todo copo bebida fora da conta, sendo o seu conteúdo o próprio diabo!”

“A honestidade, como os tolos, ao patrão só dá prejuízo.”

“Que promessa, minha pomba?”

“Nem dois anos são suficientes para conhecermos os homens. São estômago, somente, e nós, os alimentos. Todos eles nos devoram com ânsia; mas, repletos, nos vomitam.” Desdêmona


C) TUDO BEM QUANDO TERMINA BEM

“antes ser censurado por calado do que por falador.”

“Deve morrer a corça tímida que aspirava a um leão para consorte.”

“Não há medida política na república da natureza capaz de preservar a virgindade. Sua perda é de utilidade para a população.”

“Se nos nascesse uma mulher boa por cada cometa ou cada tremor de terra, a loteria só teria a lucrar; mas primeiro o homem arrancará o próprio coração sem que encontre uma nessas condições.”

“Quanta bala a zunir! Que estrondo! É duro! Quem casa cedo é assim, não tem futuro.” Jeremy Bertram

O perigo consiste em enfrentar o perigo, que é como os homens morrem e as crianças nascem. Mas como você é infantil, pode ir! O máximo que lhe irá acontecer será nascer de novo…

“Quando morta, ficareis como agora: fria e séria.”

“Nunca suportei a vista de gatos; de agora em diante para mim ele não passará de um gato.”


D) REI LEAR

“Já sou rabugento como um velho Lear!

Homens (filhos legítimos: “entre o sono e a vigília concebidos.”

“Por que bastardo? Por que mal-nascido, se minhas proporções são tão bem-feitas, a alma tão franca e a compostura toda tão certa como a de qualquer rebento de uma senhora honesta? (…) Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem—muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos—pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbados, mentirosos e adúlteros pela obediência forçada a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída a influência divina… Ótima escapatória para o homem, esse mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode. (…) Pelo pé de Deus! Eu teria sido o que sou ainda que a mais virginal estrela do firmamento houvesse piscado por ocasião de minha bastardização.” Edmundo

“falhando o berço, o espírito o assegura.”

“Não sou tão jovem, senhor, para amar uma mulher por causa de seu canto, nem tão velho para me apaixonar por ela sem motivo: tenho 48 anos na carcunda.”

“Nunca sofremos o pior, enquanto dizer podemos: Isto é o pior de tudo.” Preferia perder a visão que perder a língua.

“digna não sois da poeira que vos atira ao rosto o vento rude. (…) Olha em ti própria, demônia! A original deformidade não é tão repelente nos demônios como numa mulher.”


E) RICARDO III

“eu, que privado sou da harmoniosa proporção, erro de formação, obra de natureza enganadora, disforme, inacabado, lançado antes do tempo para este mundo que respira, quando muito meio feito e de tal modo imperfeito e tão fora de estação que os cães me ladram quando passo, coxeando, perto deles.” Ricardo, o novo Edmundo

“tu, vergonha do ventre da tua mãe, tu, odiado produto dos quadris do teu pai, tu, farrapo de honra, tu, desprezível…” PIOR AINDA É A MEDIOCRITAS.

Neste mundo há os tolos e os que conhecem Shakespeare.

“Não, não. Foi-se o meu sonho prolongando para além da vida.”

“Tua perda engrandecer é agravar o causador. Pensando nisso aprenderá a maldizer.”


F) A COMÉDIA DOS ERROS

“Sou no mundo como uma gota d’água que à procura de outra gota d’água no oceano se encontrasse.”

“E a febre que é, senão um grande acesso de loucura?”


GLOSSÁRIO:

vergôntea: ramo novo e fresco

[ARQUIVO] FLORES DO MAL: O LAR CALVO

Originalmente publicado em 7 de outubro de 2013

Você, como poeta, é um exímio poeta!

Póstumo, só me interessa Rimbaud.

* * *

PAI DE MIM MESMO: DUNGEON MASTER

Princípio. Labirinto de rato. Heloise. À primeira bifurcação me desdobro. Sou dois, sou três, sou quatro… Cada eu segue seu destino… fatídico. Múltiplas mortes. Sinto integralmente cada uma delas. Os becos sem-saída—vó!—vêm com suas cordas—hangman—e um pote fino e comprido para uma torrente de lágrimas esguias. Um deles, no entanto, Rafael nem pior nem melhor que ninguém (que os outros Rafaéis), chegará ao final. Será uma saída ou só mais uma parede?

VôSeiya morrer

* * *

O mundo (a população do mundo) se divide entre aquelas que têm inveja do pênis, aqueles que têm inveja de outros pênis e os negros. Melhor é ser gay!

O spleen assenta no infinito,

ou o absoluto habita sobre o tédio?

Cf. Perfume de Mulher—é mais fácil para um cego fingir que vê—até ao volante—que para um dotado de luz nas córneas simular a cegueira.

[ARQUIVO] PARERGA E PARALIPOMENA—continuação de O Mundo como Vontade e Representação

Originalmente publicado em 2 de outubro de 2013

Sou saudável? Sou belo? Sou forte? Sou moderado ou incontinente? Enérgico ou indolente? Sou a cópia de alguém? Devo ter escrúpulos de alguma coisa? Que tipo de inteligência, paciência, polidez? E tudo isso de acordo com quem?

“insatisfação íntima”

“para um é pobre, insípido e monótono, para outro é rico, interessante e importante.”

Quão bem estou adaptado a meu lar? Um PlayStation1 me basta. Que raro! Torcer dentro de casa, sem me entorpecer. Uma só graduação, sem nada após… Mas… infindáveis livros, sermões, jogos, discos, e ainda da sede não me livro… Mulher: o quanto UMA pode apetecer? Meu quarto poderia ser do que é só ¼? Uma porta com chave ou sem, que diferença! Poucos animes, grandes colóquios… Dor na coluna, tênis reluzentes queridos, panorama desdo meu umbigo. Cheio de estilo imortal recorrência inenjoativa! Sem ofe(re)nDas.

“similis simili gaundet”—cada qual com seu igual

TRATADO SOBRE A TESTA—Hoje estou mais bêbado que ontem, mesmo não tendo bebido (nem mesmo bebida).

“se a individualidade estiver mal-condicionada, todos os prazeres serão como vinhos finos numa boca impregnada de fel.”

“[a gargalhada] constitui o maior dos bens para seres cuja realidade apresenta a forma de um momento presente infinitesimal situado entre duas eternidades.”

“realizar exercícios diários a céu aberto, banhos frios”

Filosofia Para Paralíticos

Seqüestrado no Ingá, onde os quatro cavaleiros bebemos saudáveis.

“Uma sensibilidade excessiva produzirá uma desigualdade de humor, excessos de alegria periódicos e melancolia predominante. Como o gênio é condicionado por um excesso de força nervosa e, assim, de sensibilidade, Aristóteles muito corretamente observou que todos os homens ilustres e eminentes são melancólicos”

Por que sou tão único-dicotômico, poço inseguro e cético mas adoro o crônico som do meu próprio riso?

“quando uma afecção mórbida do sistema nervoso ou do aparelho digestório manifesta um mau humor inato, isso pode chegar ao grau em que a insatisfação permanente produz um cansaço de viver e, conseqüentemente, surge uma tendência ao suicídio.” “Descrições detalhados desse estado mental são fornecidas por Esquirol em Des maladies mentales.”

“um espírito eminente, fora nos momentos de fadiga, está fora do alcance do tédio.”

“A vida de um tolo é pior que a morte” Jesus de Sirach

“Neste mundo temos pouca escolha entre a solidão e a vulgaridade.” Ranna está aqui, mas eu sorrio, porque na realidade sou eu que não estou.

10: a patacoada racista!

“Até mesmo um cigarro é bem-vindo como substituto do pensamento.”

Dias em que o tédio de escrever um review não é menor do que o de freqüentar uma festa na casa do tio Dedé.

NÓS: “habituam-se gradualmente a vagar entre os demais como se fossem seres de espécie distinta e, em suas meditações sobre os demais, a servir-se da terceira e não da primeira pessoa do plural.”

“Para o homem destinado a imprimir a marca de seu espírito na humanidade inteira, não existe mais que uma só felicidade e uma só desgraça, i.e., poder aperfeiçoar suas habilidades e completar suas obras ou não. Todo o resto lhe é insignificante.”

“sem ócio, não seria mais que um Pégaso tolhido”

Filisteu: o homem abandonado pelas Musas. (Papai) “Nenhuma aspiração em adquirir conhecimento e juízo por eles próprios anima sua existência” “ostras e champagne são o fim supremo de sua existência” “é uma característica própria do filisteu uma seriedade grave e seca, semelhante à do animal.” Sim, e com eles dá-se tão bem! “as sociedades, sendo compostas de tais filisteus, tornam-se logo tediosas” “A última coisa que espera de seus amigos é a posse de qualquer espécie de capacidade intelectual.” “inveja surda e secreta”, que só não oculta quando já passou do ponto na bebedeira. “arrastam consigo desgraças e males de toda espécie.”

“meu ensaio premiado Sobre o Fundamento da Moral § 22”

O Nada seduz até quem sabe que ele não existe.

Proteu não é Prometeu. Ao invés de queimar e incandescer, ele gosta de se molhar e refrescar.

“Aquele que herda de seus pais uma fortuna suficiente para viver será, em geral, recalcitrante; [temperamental] está acostumado a caminhar tête levée; não aprendeu todas essas artes de mendigo. Talvez até se vanglorie de ostentar certas habilidades que possui, mas deveria compreender quão insuficientes são perante o medíocre et rampante (…) se as coisas chegarem a ser indignas, se faz contemplativo e misantropo. Não se vence com isso no mundo.”

“É difícil abrir passagem onde as condições miseráveis da casa são obstáculo ao desenvolvimento dos altos dotes.” Juvenal, Sátiras

No momento, meu interesse pela Vanessa é exclusivamente sexual. Quero que saiba que não voltei para você dois anos. Quanto tempo dura um tesão, um fetiche? Até ela “me trair” de novo, com alguém mais feio.

Sobre o orgulho e a va(l)idade: mais intenso justamente na minha época mais crítica—quer dizer muita coisa. Há uma barreira da “tolerância da humilhação cotidiana” além da qual eu não aceito trafegar.

“Recomendo, como antídoto, [à ética cavalheiresca, mero preconceito vicioso e estúpido] a leitura da história do sr. Desglands, na obra mestra de Diderot, Jacques le fataliste.”

“Rousseau é da opinião de que se deve vingar uma ofensa não pelo duelo, mas pelo assassinato. Vide Emílio”

Não existiam infecções venéreas no Mundo Antigo?

“a excelência amadurece com lentidão”

“Quando uma cabeça e um livro colidem, e produz-se um som oco, isso provém sempre do livro?” Lichtenberg

ACUSA A GLÓRIA DE HEGEL DE PASSAGEIRA (ainda não chegamos a essa posteridade): “proclamada a trompetes por um círculo de amigos interesseiros e repercutida pelo eco de cabeças ocas—;mas como sorrirá a posteridade quando, um dia batendo à porta desses edifícios de palavras exageradas, desses ninhos de uma glória desaparecida, desses viveiros de convenções mortas, encontrar tudo completamente vazio, sem nenhum pensamento que responda com confiança: entre!”

“Um músico se comprazeria pelos aplausos de aprovação de seu público se soubesse que, com a exceção de um ou dois, esse consiste inteiramente de pessoas surdas que, para esconder umas das outras sua debilidade, aplaudem ruidosamente assim que vêem os únicos que podem ouvir movendo suas mãos?”

“lastimável filosofastro Fichte”

“Na velhice é um consolo saber que se tem detrás de si o trabalho de viver.”

“Há sabedoria naquele que com um olhar sombrio considera o mundo como uma espécie de inverno e não se ocupa senão de proporcionar-se abrigo.”

“quanto mais insignificante for em si mesmo aquilo que aflige um homem, mais feliz ele será. Ser sensível a banalidades implica bem-estar, visto que no infortúnio não as sentimos absolutamente.”

Wilhelm Meister como um romance de natureza intelectual/não-moral, de estrato superior, por exemplo, a Walter Scott.

Alcance de velhas metas: distrações; manutenção de aparências. “somos alquimistas que, enquanto buscavam o ouro, descobriram a pólvora”

“é preciso que já esteja iniciado no conhecer-te a ti mesmo”

“a superioridade intelectual fere por sua simples existência, sem que nisso haja qualquer intenção.”

“Os adolescentes se reúnem entre si; unicamente os dotados de uma natureza mais nobre já buscam às vezes a solidão.”

“devido ao prolongado isolamento e solidão, nosso caráter se torna tão sensível que nos sentimos inquietos, aflitos ou irritados pelos acontecimentos mais insignificantes, por palavras e até por um olhar, enquanto que tais coisas passam despercebidas por aqueles que sempre estão no tumulto da vida.”

“O material para seus sonhos sombrios são desgraças que, mesmo remotas, de certo modo nos ameaçam efetivamente.”

« chaque fou a se maratotte »

“muitos espíritos nobres e muitos grandes sábios padeceram de demência em sua velhice, voltando a uma nova infância e chegando até a loucura.” Ex: Walter Scott, Wordsworth, Southey (todos poetas ingleses do XIX) “seduzidos por honorários elevados, exerceram a literatura como um ofício (…) esforços inaturais” “todo aquele que coloca seu Pégaso no cabresto e apressa sua musa com o açoite terá de pagar por isso” Kant também. Contra-exemplos (velhos potentes): Goethe, Wieland, Knebel, Voltaire.

“A respeito de muitos indivíduos, o mais prudente é dizer: empregarei em meu favor aquilo que não posso mudar.”

“é verdade que muitos na sociedade poderão se sentir como um dançarino que foi a um baile onde não há senão aleijados; com quem dançará?”

“o homem demonstra seu caráter no modo como lida com banalidades” Sêneca

“reconciliar-se com um amigo com o qual se havia rompido é uma fraqueza que terá de ser paga quando esse, na 1ª ocasião propícia, volta a fazer exatamente o mesmo que havia produzido a ruptura”

“Quem encontra defeitos nos demais trabalha em sua própria reforma.”

A estória do olho que via a si mesmo sem precisar de um espelho.

Eu vi o trono vago, mas não quis sentar-me ali.

O que sinto no sono (A QUEDA, A QUEBRA) pode ser acrofobia (medo de altura). [P.S. 2026: em realidade era bruxismo]

“Apenas animais de sangue frio têm a mordida peçonhenta”

Para mim, a vida não é um jogo de gamão, mas um de xadrez em que enfrentamos Kasparov, que consulta o Deep Blue, enquanto já não conseguimos pensar direito à causa de cefaléia e dor de barriga.

“A coragem é, depois da prudência, uma qualidade essencial à nossa felicidade; se herda a primeira do pai e a segunda da mãe.” “aquilo que se possui dessas qualidades pode ser desenvolvido pela resolução firme e pela prática.”

“Os seres distintos e bem-dotados que, como tais, não pertencem em absoluto ao mundo dos homens e se encontram, em proporção de seus méritos, mais ou menos isolados, experimentam dois sentimentos opostos em relação ao mundo. Em sua juventude, têm a sensação de terem sido abandonados pelo mundo; na idade madura, têm a sensação de terem escapado dele.” Aos 13, o mundo começa a desabar ao meu redor. Sinto-me sozinho mesmo viajando ao lado dos pais. Preso nos pensamentos, e num rosto que não é o meu. A tentativa de união com o bando só podia dar no que deu… Abandonado outra vez, até encontrar nova ressonância (recaída?) aos 16… Francis Fukuyama, Marx… Instrutores na minha última caça da quimera-borboleta. A adolescência foi até os 20 anos. Ultrapassei meu irmão, que se hoje parece meio-irmão, já é muito… A biblioteca, o álcool, os games, a música, o desporto—tudo isso é meu refúgio gigante e multifacetado! Até empregos podem ser refúgios… “vai ver o jogo onde?” De vez em quando eu volto ao mundo para fazer compras.

“quanto mais jovens formos, mais é provável que estejamos submetidos ao tédio.” De certa forma, todos voltamos a ser crianças na igreja!

“Verificamos que na maioria das vezes os grandes escritores não produziram suas obras mestras senão por volta dos 50 anos.”

“Abandonados por Vênus, buscamos alegria e diversão em Baco.”

“Aparecimento de uma terceira dentição, algo que ocorre em alguns casos raros entre os anciãos.” [!]

“O dia da morte é melhor que o dia do nascimento.” Eclesiastes 7:1

“Aos 30 anos reina Marte, e então o homem é impetuoso, forte, robusto, belicoso e altivo.”

[ARQUIVO] FAUSTO

Originalmente publicado em 21 de setembro de 2013

A ciência, a matemática, tudo estragaram. A moça despetalando, bem-me-quer, mal-me-quer não fala. Já calcula… como o atleta do dominó faria.

Jogar para quê, se sei que vou perder?

317: do “plágio” ou “inspiração”


Vol II P. 260 v.7.428-7.433

Se é mitológica, é única a mulher;

Recria-a o poeta como lhe prouver.

Não envelhece, nem fica madura,

Mais sedutora, sempre, sua figura.

Raptam-na, moça; idosa, ainda é do amor a meta;

Pois basta! não se atém ao tempo o poeta.


O próprio Fausto(s) é tão fragmentário quanto o MESSIA(S).

[ARQUIVO] NEUROMANCER+DOIDO DE ÁCIDO

Originalmente publicado em 21 de setembro de 2013

“como se uma centena de conversas, independentes umas das outras, tivesse atingido simultaneamente a mesma pausa.”

“Para Case, [24 anos] que havia vivido na incorpórea exaltação do ciberespaço, isso [ter sistema nervoso artificialmente danificado] constituiu a Queda.”

Linda Lee, a junkie.

“Depois de um ano de urnas, o quarto no 25º andar do Chiba Hotel parecia enorme.” Típico de um Japão do amanhã…

O quebra-gelo da Ciberguerra Fria: ICE—Instrumento de Contra-Espionagem.

“Estava lá quando eles inventaram a sua espécie.”

Julie Deane, homem.

“Em casa. A casa era o EMAB, o Eixo Metropolitano Atlanta-Boston, o Sprawl.”

Se alguém se acoplasse ao meu corpo e mente dessa mesma forma, a primeira coisa que sentiria seria um desconforto na bunda: “O que é isso, estou cagado? Tão cansado, inútil e impotente… E que vista suja!”

Guerra Penetrante é o Snatcher…

Zion

Simstin: a pessoa fica plugada na outra.

Por que quer me desligar? Sou indiferente!

 

[ARQUIVO] REFLEXÕES DE UM TOLO — Tomos II a IV

Originalmente publicado de 10 a 17 de setembro de 2013

Tomo II

Vocês são vermes com nutrientes riquíssimos que eu, o especialista, sei como aproveitar.

XXV

Monstro gorduroso, repelente

superpança, longe de atraente

Arrota, peida, hemorróidas

Cara inchada, pouca articulação

Igual os primos, inclusive reles vagabundo, incriador

O prato não está onde deveria estar, ó baleia!

Terás dinheiro, terás roupas e bons amigos,

quem sabe até beleza! Mas de nada vale

se não couber numa quarenta

Trinta e oito era o que eu queria usar…

Tomo IIb

Não sei por que meus parentes mais próximos não parecem se preocupar nem um pouco com a morte. Engano meu: com a minha morte. Isso é só o que me ocupa e sinto-me menos saudável que qualquer um dentre nós quatro. Sinto que há algo podre no meu interior. Seja o enxofre que vivo exalando, minha sempre manchada derme ou meus tecidos musculares…

Algo não processa! Da capacidade respiratória e a vista à finura e instabilidade dos dedos, nada consigo desempenhar bem. Minha vida está cheia de rasuras. Até a barba é falha!

Mas quanto ao que está escondido e ninguém pode ver—nem eu, o míope, mas posso sentir—, não pode ser só intelectual minha diferença (proeminência?) em relação a eles. Quase todo mês que vivo parece ser o último. Me arrasto para cumprir meu cotidiano e ninguém percebe. Cada carteira, caminhada, fisio, aula, livro ou jogo me deixa mais debilitado. A voracidade com que devoro meus alimentos não pode ser bom sinal. A porta do meu quarto parece a tampa da minha urna—só precisava ser um pouco mais escura.

Me assombra dormir a poucos metros de alguém que namora a morte com uma inconsciência e uma constância tão explícitas. Só mesmo diante da mais dormente das sensibilidades tal espetáculo não seria aterrador—ignorar o show o qual você dirige, UAU!

Me espanta a não-consideração da alternativa, em pessoas “tão velhas”. Falam do futuro como se já houvessem encomendado mais 30 anos!

GASES GAZES HOSPITAL HOSPÍCIO

le cahier de demain

“A vida inteira pela frente”

“O destino em suas mãos”

“Vontade de viver”

“Suicidas são pecadores”

A isso eu digo que sou vaso bom, e quebrarei cedo, que não depende de mim e não sei em que altura do túnel estou. Em que anel da minhoca… mas já é debaixo da terra.

Olaria é o meu rabo!

Falta o pathos antigo nessas pessoas contaminadas… Quem menos quer é quem mais se dedica, que flutuação em outra dimensão é essa, (…)?

Sou o contrário de Remo, nasci homem de animais impávidos, lobos que não querem me deixar ir rumo à cidade antropomorfa já fundada!

O caçula entra no casulo

Quem se envenena por dentro e embriaga por fora se pensa imortal. É tal sua soberba, a desse neandertal nada sóbrio!

“Nunca morri, logo não vou morrer”

A Pedra de Sísifo é só uma alegoria, mas a minha vida não! O que dizer de gente que só quer ser útil em momentos úteis? De imbecis que se isolam? De tudo e todos?!

Alguns são tão tolos que se fosse fisicamente possível dissecariam o próprio cadáver com prazer e zombeteiramente, sem saber que estão cavoucando suas tripas!

Somos pré-salame, já etiquetados, na fila, rolando numa esteira dentro de um imenso freezer.

Mas enfim… não sei minha posição e se alguns querem se jogar antes do tempo não vou impedir. Talvez eu seja mesmo rejeitado pelo controle de qualidade…

PENSANDO NO DESTERRO DO BEZERRO

Tomo III

A raiva está me comendo por dentro. Força vital lá embaixo. O mais trivial é o mais sofrível. Tudo dói. Não tenho energia para meus principais projetos e qualquer afazer cíclico-obrigatório cansa como um banquete no Mangai.

* * *

CORTINAS E LUAS / OU: PELO SIMPLES FATO DE

Sinto-me desconfortável em todo esse luxo

A luz azul que pisca e não se apaga

os travesseiros que quão mais numerosos mais me deixam na mão, alquebrado, dorido, retesado

Extensões dos meus olhos com os quais não posso ver senão contornos dos entornos

essas poderosas lentes

vaso sanitário de 5 em 5 minutos

dor nas pernas, a culpa é minha

fumo um cigarro, o chão está gelado

come uma maçã

podre pode-se lavar, o bom ovo é bom selecionar

*

Sonhos de estudos perdidos, não posso esquecer, dada minha natureza exigente, o quanto eu poderia ter exigido menos de mim todo esse tempo

Digita, digita, digita o manuscrito, estende a roupa, fecha a porta, dobra a trouxa

Dorme sem remédio para fracos

tudo menos trabalhos

escravidão a céu aberto

*

que gosto de nada no fim do cigarro

sim, gosto de água

70% de nosso corpo não existe

Tomo IV

Se eu morresse agora, qual seria meu preâmbulo?

[Inspirado pelo último episódio da série Lost.]

Não numa igreja; sem caixões. Incluiria pessoas de todas as épocas. (…)

Pode ser um grande Marreco’s Fest com um telão monstruoso mostrando a Libertadores de 2005. Todo mundo comemorando! Minha aparência? 16 anos.

Medo de que tudo esteja mais vazio e triste do que imagino…

Muitos parentes mortos, bem corados. Reunião da galera para jogar Mortal Kombat e Mario Kart. Uma ou duas aulas com alguns dos meus favoritos. Ah, e é claro, as melhores comidas! Prazeres são terrenos, temporário, lei do desapego/desapreço.

Dragon Ball. Uma espinha na testa, “pelos velhos tempos”. Aliás, estarei impecável de terno, farda e sapatos engraça…xados. Não procure representatividade no que não tem… Já escrevi demais, deixe agora que me leiam—tarde de autógrafos? Rádio Gisno (…) E o maior desejo ao final: poeira cósmica, chega de reencarnações!

Chegamos de dia, céu cinzento, partimos de noite… Grande antessala!

Talvez a antessala sejam os sonhos entrementes de todos os dias. As duas vidas irão se fundir, ao cabo.

[ARQUIVO] O DIA EM QUE BRASÍLIA ASSUMIU SUA VERDADEIRA FORMA

Originalmente publicado em 10 de setembro de 2013

Uma megalópole. Pessoas escorrendo pelo ladrão, como ratos, afobados, de cá pra lá. Quem sabe de longe façam sentido e sejam uma turba coordenada. É assim que um tempo se resume.

Mas falo do seguinte. Em um ponto que não chegou a vivenciar a realidade da superpopulação. Um oásis perdido de máscaras e parcos zumbis. É ainda mais estranho, ouso dizer, quando uma casa de um ou dois membros fica de repente vazia do que a deserção pós-festa ou banquete! Uma cidade que já era meio-fantasma, com a outra metade do copo finalmente vazia? Onde a normalidade não seria obtusamente diferente, mas aí é que está a sutileza do espanto. Pensávamos que estávamos acostumados ou que nos podíamos acostumar aos dias de solidão absoluta, quando ela era apenas relativa. E a solidão relativa é bastante acolhedora.

Olhei pela janela assim que acordei. Não notei nada de diferente. Saí do apartamento e desci pelas escadas, como de hábito, já que o elevador não funciona faz tempo. Ninguém na guarita. Nenhum carro em movimento. Ninguém dentro dos carros parados. A não ser que se ocultassem por trás dos vidros escuros. Um carro ou outro se encontrava parado no meio da rua, uma porta ou portas abertas. Percorri a quadra. Subi à W3. Ainda não senti vida, nem pombas ou pássaros. É de tarde, suponho. O silêncio não é ensurdecedor, como diz o clichê: ele só é ele mesmo, inacreditável tanto quanto a calma mantida pelo pulsar de meu organismo. Imaginei, um dia, que eu podia ser O Escolhido e que isso aconteceria, e então meu primeiro pensamento era poder correr pelado impune, invadir um frigorífico e ter com o que me suster por muito tempo. Agora que chegou, será realmente assim? A moral não me massacrará sempre? Ou eu me descobrirei a pior companhia tão rápido quanto o tédio me invadir e eu implorar pela “reversão”?

Devo começar lendo livros, praticando assaltos ou atingindo 200 por hora num veículo aleatório? Esperar inerte ou provocar a morte? Decidi escrever memórias antes de ter do que lembrar-me.

[ARQUIVO] IMPLICAÇÕES…

Originalmente publicado em 5 de setembro de 2013

Uma decepção tão copiosa quanto a de quem vê a Estátua da Liberdade parcialmente soterrada em areia. Falo da perspectiva de quem descobre que não há um último ideal: a) de homem; b) histórico em progresso. Que as guerras violentas das próximas castas não me dizem respeito. Mas não me dizem respeito não no sentido existencialista mesquinho e sim quando reparo que aquilo que os meus descendentes fazem, vingando-se por mim, não representa um acréscimo de valor, porque seria contraditório—dado o círculo—que eu fosse o acréscimo de valor deles mesmos. Nós somos os supra-homens. Que o cosmo se retroalimente e seja sempre novidade, isso nada tem que ver com o meu eterno. Ser o supra-homem é chegar a esta conclusão de inultrapassabilidade. Segue-se daí que na hesitação entre coroarmos o passado ou o futuro, coroamos a nós mesmos. Realizar-se sem suprimir-se.

Séculos áridos.

A principal implicação é para o Messias e sua busca infrutífera, posto que é perfeito.

Um alienígena mais bonito do que nós?

[ARQUIVO] OS PENSADORES — Epicuro, Lucrécio, Cícero, Sêneca & Marco Aurélio — Várias obras

Originalmente publicado em 31 de agosto de 2013


PRÓLOGO

“Ao contrário do que se propunha o socratismo, epicuristas e estóicos fazem da ciência sobre a natureza das coisas a base para suas construções morais.”

“Cícero foi o mais eminente representante da escola filosófica eclética”

“O neoplatonismo constituiu a mais perfeita manifestação de sincretismo religioso dessa época [séc. II ao séc. VI d.C.] e teve em Plotino (204-270) seu principal representante.” “o canto de cisne do pensamento da Grécia Antiga” “Antes de se calar, a filosofia medita sobre um último tema: o silêncio”

Epicuro: discípulo do discípulo de Demócrito. Um dos primeiros existencialistas ou o pai do existencialismo, no senso moderno.

“À dor do presente pode-se escapar por meio da lembrança dos prazeres passados ou pela expectativa de prazeres futuros.”

“Segundo Diógenes Laércio, a obra de Epicuro compreendia cerca de 300 títulos” Nenhum sobreviveu na íntegra.

Embora Zenão, o primeiro estóico, seja um apólogo da racionalidade cósmica absoluta, o espírito heraclitiano do eterno vir-a-ser nele reside.

Estóicos e epicuristas não se distanciam na busca pela SERENIDADE.

Zenão é, ainda, grego; Sêneca romano (nascido na Espanha).

“Cronologicamente, o segundo grande representante do estoicismo romano foi Epicteto (c. 50-130 ou 40-125)” Escreveu 8 livros e restaram 4. Marco Aurélio: seu ávido leitor. “Aos 11 (!) anos de idade, M.A. conheceu o estoicismo” Os dois são frasistas por excelência.


MARCO AURÉLIO

A) MEDITAÇÕES

Diz que seu pai, o imperador Antonino Pio, acabou com a pederastia.

“o entregar-se às tarefas habituais logo após os acessos de dor de cabeça, refeito e em pleno vigor” “o não tomar banho em hora imprópria” “não se preocupar com requintes à mesa” “o ter preservado minha juventude e não ter usado a virilidade antes do tempo, tendo-o, ademais, ultrapassado”

“é possível viver na côrte sem necessitar de guarda pessoal” “o ter-me curado das paixões amorosas concebidas ao depois”

Casou-se com a prima, filha de sangue de seu tio, quer seja, o antigo imperador e seu pai adotivo, pois foi órfão ainda cedo.

Ao mesmo tempo que se afirma livre de superstições e crendices, relata consultas com um oráculo. Estranhos tempos!

“Previne a ti mesmo ao amanhecer: ‘Vou encontrar um intrometido, um mal-agradecido, um insolente, um astucioso, um invejoso, um avaro’.” Às vezes tudo num só!

“Lança de ti a sede de leituras, para não morreres rezingando [resmungando] e sim com real contentamento, agradecendo de coração aos deuses.”

“desvairam, com efeito, aqueles que, ao cabo de tantas ações, se enfastiam da vida e carecem dum alvo para onde orientar todos os seus impulsos e, numa palavra, as suas cogitações.”

“Em todos os teus atos, ditos e pensamentos, procede como se houvesse de deixar a vida dentro de pouco.”

“Como tudo desaparece depressa! No espaço, os corpos mesmos; no tempo, sua memória!”

“Nada mais digno de pena do que aquele que a tudo faz a volta completa, investigando, como diz Píndaro, o âmago da terra”

“Mesmo se houveres de viver 3 mil anos ou 10 mil vezes esse tempo, [30 milhões de anos] lembra-te de que ninguém perde outra vida senão aquele que está vivendo, nem vive outra senão a que perde.”

“Heráclito, autor de tratados tão valiosos sobre a destruição do mundo pelo fogo, morreu cheio de água por dentro e todo untado de bosta.”

“Não esquece que o interesse por toda a Humanidade é conforme com a natureza humana.”

“seja o deus que há em ti, o superior de um ente viril (…), um príncipe que a si próprio tenha disciplinado”

“Quem é digno não encena dramas, não dá gemidos, prescindirá do isolamento e da multidão”

“A gente procura para si retiros nas casas de campo, na beira-mar, nas serras; tu também costumas anelar vivamente por isolamentos desse gênero. Tudo isso, porém, é o que há de mais estulto, quando podes retirar-te em ti mesmo à hora que o desejes.”

“Com efeito, com o que te irritas? Com a maldade humana? Sossega.”

“a gloríola te fascinará? (…) a volubilidade e falta de critério dos aparentes aplausos”

“O mundo é mudança; a vida opinião” Demócrito

“Suprime a opinião e estará suprimido o lesaram-me, suprime o lesaram-me e estará suprimido o dano.”

“A esses que hoje vêem em ti uma fera e um símio, dentro de dez dias parecerás um deus, se tornares atrás, aos princípios e ao culto da razão.”

A glória póstuma de Marco Aurélio

“Se as almas sobrevivem, como pode comportá-las o ar desde a eternidade? (…) Como aqui a transformação e dissolução de uns após alguma duração abrem para outros cadáveres, assim as almas transferidas pelo ar, depois de subsistirem algum tempo, se transformam, se derramam, ardem absorvidas pela razão seminal do universo e dessa maneira deixam lugar às que emigram depois.”

“Um apostema do mundo, quem se retira e aparta da razão da natureza comum por não se conformar com os acontecimentos; porque a natureza que os traz é a mesma que te trouxe.”

“Tudo é passageiro, logo se torna lendário, logo o olvido completo o sepulta. Isso digo daqueles que luziram de maneira admirável, porque os demais, apenas morrem, somem, são desconhecidos.

“Que é, afinal, a memória eterna? Um vazio apenas.”

“Todo ser é de certa forma a semente do que dele há de vir a ser.”

“ontem, um pouco de muco, amanhã, múmia ou cinzas.”

“Ser como o promontório onde se quebram incessantemente as ondas; ele queda-se ereto”

“Olha o abismo de tempo atrás de ti e o outro infinito à frente.” “Marco <O Plagiado por Jean-Paul Sartre> Aurélio

“mesmo a mais simpática das pessoas de teu convívio te custa suportar, para não dizer que a ela mesma custa agüentar-se.”

“De que tenho agora a alma? Duma criança? Dum adolescente? Duma mulherzinha? Dum tirano? Duma rês? Duma fera?” Provavelmente essa é sua hierarquia decrescente da pureza.

“V.13. Consisto em causa formal e material; das duas, nenhuma se desfará no não-ser, assim como não proveio do não-ser. Logo, cada parte de meu ser irá localizar-se, por via de transformação, numa parte do universo; esta, por sua vez, se mudará numa outra parte do universo e assim infinitamente. Por via de semelhante transformação surgi eu, bem como meus genitores; poder-se-ia remontar a outro infinito, pois nada impede se afirme isso, ainda que seja regido o universo por períodos delimitados.”

“Tu te irritas com quem tresanda bodum? Tu te irritas com quem tem mau hálito? Que queres que ele faça? Sua boca é assim; suas axilas são assim; tais partes hão de ter por força tais exalações.”

“O que tanto se estima na vida: vazios, podridões, ninharias, cães que se mordem, crianças briguentas, que riem e logo estão chorando.”

“A substância do universo é dócil e maleável; a razão que a rege não tem em si nenhum motivo de fazer o mal, não tem maldade, não faz mal nenhum e dela nada recebe nenhum dano.”

“A melhor maneira de arredá-los é não parecer com eles.”

Para euforia de Zagallo, os aforismos 13 são sempre os melhores.

“a presunção é uma embusteira formidável e quando mais te imaginas entregue a tarefas sérias, aí é que estás sendo mais ludibriado.”

“Como é estranha sua atitude! Não querem louvar os homens que vivem na mesma época e em sua própria companhia mas dão grande importância a terem o louvor da posteridade”

“A morte é o descanso das repercussões sensórias, do titerear dos impulsos, das divagações do intelecto e dos serviços à carne.”

“Que prazeres enormes terão experimentado os bandoleiros, os devassos, os parricidas, os tiranos!”

“Não vês como os artífices, com se adaptarem em certa medida aos profanos, nem por isso deixam de ater-se aos princípios de sua arte e não suportam afastar-se deles?”

“Quem viu o presente viu tudo, não só o que existiu desde a eternidade como tudo o que haverá no tempo infinito, pois tudo tem a mesma origem e o mesmo aspecto.”

“Assim como te enfadam as funções no anfiteatro e espetáculos semelhantes, assim deves sentir a respeito do curso da vida, pois tudo, de alto a baixo, são os mesmos efeitos das mesmas causas. Até quando?”

“Nada há de novo; tudo é corriqueiro, tudo é efêmero.”

“Ao homem é sumamente possível ser como um deus sem ser reconhecido por ninguém.”

“É cômico não fugir à própria maldade—o que é possível; e querer fugir à dos outros—o que é impossível.”

“Um dos fatos que contribuem para a despretensão é o de já não depender de ti o teres vivido toda a existência ou, pelo menos, desde a juventude, como filósofo.”

“Falar, quer no Senado, quer na presença de quem for; com apuro e clareza”

“Último de sua linhagem”

“Mecenas foi protetor de Horácio e Virgílio; seu nome tornou-se apelativo de todos os ricos que amparam escritores e artistas.”

“Ganhar sem orgulho e perder com abnegação.”

“A homem nenhum pode suceder nada que não seja contingência humana; nem ao boi que não seja de boi.”

“Comunicaram-te que fulano fala mal de ti. Comunicaram isso; que ficasses prejudicado não comunicaram.”

“Matam-te, espostejam-te, perseguem-te com maldições? Que há nisso que impeça tua mente de conservar-se pura, sensata, prudente, justa? É como se alguém, parado junto duma fonte clara e doce, a insultasse: ela não deixaria de manar sua água boa de beber.”

“Queres ser louvado por um homem que se maldiz três vezes por hora? Queres agradar a um homem que de si mesmo não se agrada?”

“As coisas, por si mesmas, param do lado de fora, sem nada saberem de si e nada manifestarem.”

“Qual a razão de dizeres que tudo saiu errado e que tudo sairá sempre errado e nenhum poder se encontrou jamais, entre tantos deuses, que venha a corrigi-lo, e que o mundo está condenado a afundar em misérias perpétuas?”

Receita de Epicuro: que o doente não converse sobre a doença e continue seus estudos habituais.

“Podia não haver impudentes no mundo? Não podia. Não reclames, portanto, o impossível” “Com a lembrança de que é impossível não existir essa espécie de gente, serás mais indulgente para com cada um.”

“O permaneceres tal qual tem sido até agora e te deixares nessa vida lacerar e conspurcar é próprio de indivíduo grosseiro e apegado à vida”

“O que querem os deuses? Não querem ser adulados e sim que a figueira faça o mister de figueira, o cão o de cão, a abelha o de abelha e o homem o de homem.”

“Quem depositou o sêmen na matriz retira-se; daí por diante outra causa se encarrega de completar e acabar o nascituro. O que foi e o que é!”

“Ninguém tão sortudo que à cabeceira de seu leito de morte não velem alguns jubilosos com o triste acontecimento.”

“por menos inteligência que tenha, o quarentão viu, em retrato, todo o passado e o futuro.”

“Que essa preparação [para a morte] provenha de um juízo próprio e não dum simples sectarismo, como o dos cristãos” Primeira menção à religião em seus escritos; surpreende a oposição!

“Crescer no mesmo tronco, som; adotar os mesmos princípios, não.”

“Desprezam-se mutuamente, mas mutuamente se bajulam; querem dominar uns aos outros, mas submetem-se uns aos outros.”

“O ente amado tudo compreende de imediato no olhar dos amantes.”

“Quão rançoso e falso quem diz: ‘Resolvi ser sincero contigo!’—Que fazes, homem? Esse preâmbulo não se usa. Sinceridade deliberada é cutelo. Nada mais ignóbil que amizade de lobo; foge dela mais que tudo.”

“O rato do mato e o caseiro; a timidez e fugacidade deste.”

“Quem beija um filhinho deve, ao que dizia Epicteto, murmurar no íntimo: ‘Talvez morras amanhã’.”

“Ladrão do livre-arbítrio não existe” Epicteto—e eu acresço: não se pode roubar o que inexiste!

“Não discutimos um tema qualquer, mas se estamos loucos ou não.”

“No uso dos princípios devemos ser como o pugilista e não como o gladiador; a este basta largar a espada e estará morto; aquele tem sempre a mão e não precisa mais do que fechá-la.”


SÊNECA

A) CONSOLAÇÃO A MINHA MÃE HÉLVIA

“Muitas vezes, minha boa mãe, estive a ponto de escrever-te para te consolar: sempre me detive. Muitas considerações levaram-me a ousar: principalmente, pensava que teria esquecido todas as minhas preocupações, se tivesse conseguido secar por um pouco tuas lágrimas, embora não podendo enxuga-las por completo; além disso, tinha certeza de que, se conseguisse confortar antes a mim mesmo, minha tentativa de tirar-te da prostração teria sido mais eficaz; enfim, temia que a sorte, sobre a qual fui vitorioso, pudesse vencer algum dos meus queridos; de qualquer maneira, pondo a mão sobre a minha chaga, era levado a querer curar tuas feridas.”

“nas doenças nada há mais danoso que um remédio intempestivo.”

“Toda dor que passa os limites do suportável tira necessariamente a faculdade de escolher as palavras”

“as pessoas que passaram toda a vida na desgraça devem suportar com forte e imutável constância mesmo as dores mais graves.”

“mas não há ninguém a quem uma madrasta ótima não tenha custado sempre demasiado caro.”

Filho do meio de três irmãos homens.

“Faz pouco tempo que recolheste os ossos de três netos no mesmo seio em que foram criados”—o filho de Sêneca é um deles; Sêneca que 20 dias depois é exilado.

“quão mais monumentais se erguem os tetos das salas de jantar, tanto mais todas essas coisas nos escondem o céu.”

“as mães, que, com feminina incapacidade de controle, querem controlar os poderes dos filhos”

“Nossos antepassados estabeleceram 11 meses de luto para as mulheres que choravam o marido”

“Se a ela [minha tia] fosse dado por sorte viver nos tempos antigos, tão simples em sua admiração pelas virtudes, quantos escritores, disputando entre si, celebrariam essa esposa que, esquecendo ser uma fraca mulher, esquecendo o mar, terrível mesmo para os corações mais fortes, expõe ao perigo sua própria vida para sepultar o cadáver [do marido]”

A província do Egito é sempre malfalada pelos homens públicos do Império: lugar instável, chacoalhado amiúde por intrigas e mexericos.

B) DA TRANQÜILIDADE DA ALMA

“que ninguém me roube um dia, pois jamais ele me indenizaria de uma tal perda”

“Escreve, pois, para ocupar teu tempo, escreve para ter proveito e não para tua glorificação, num estilo desprovido de brilho”

“Por Hércules!”

“O hipocondríaco considera como febre a menor impressão de calor.”

“tu não precisas mais nem lutar contra ti nem te censurar nem te atormentar. Estamos na etapa final: tem fé em ti mesmo e convence-te de que segues o bom caminho”

“A ausência de inquietações e o equilíbrio da alma a que aspiras são o que os gregos chamavam ‘euthymia’”

O transtorno do humor já era conhecido de há muito.

“sempre amam somente aquilo que abandonaram, como aqueles que só sabem suspirar e bocejar”

“é o cúmulo que um ancião carregado de anos seja incapaz de provar o quanto tem vivido, a não ser pela invocação de sua própria idade.”

“Por mais vasta que seja a parte do mundo que te é vedada, aquela que te é permitida será sempre maior.”

“outros não sabem dominar sua cólera e explodem com palavras imprudentes ao menor mau humor: para estes, o repouso é preferível à atividade”

“hoje em dia, [!] com tão grande penúria de pessoas honestas, deve-se ser menos exigente na escolha. [dos amigos]”

“Jamais um talento que se força produz o que se esperava; e forçar a natureza é sempre inútil.” “devemos sentir-nos sempre superiores à tarefa que realizamos” “As despesas de ordem literária, as mais justas de todas, não são estas mesmas razoáveis, a não ser que sejam moderadas.” “Para que servem inúmeros livros e bibliotecas, se o proprietário encontra apenas o tempo em sua vida para ler as etiquetas?” “Uma profusão de leituras sobrecarrega o espírito, mas não o ilustra.” “40 mil volumes foram queimados em Alexandria.” “Eu não vejo lá nem gosto nem solicitude, mas orgia da literatura; e quando digo da literatura minto, pois o cuidado pelas letras lá não era cultivado”

“Não invejemos as situações elevadas: pois o que julgamos ser o cume não é mais que a beira de um abismo.”

“Suas saídas absurdas e inúteis lembram as idas e vindas das formigas ao longo das árvores, quando elas sobem até o alto do tronco e tornam a descer até embaixo, para nada.” “preguiça agitada”

“devemos imitar Demócrito antes que Heráclito: este não podia aparecer em público sem chorar, o outro sem rir”

“o mais espontâneo de todos os sentimentos, a dor, tem também sua afetação.”

“Hércules queimado vivo”—mas acabei de ler na Divina Comédia que morreu envenenado vergando-se a uma túnica.

“Misturemos as duas coisas: alternemos a solidão e o mundo.”

“o sono também é necessário para restaurar nossas forças; mas se ele continua dia e noite é a morte. Suspensão e supressão não são absolutamente sinônimos.”

“É preciso, igualmente, ir passear em pleno campo, pois o céu aberto e o ar puro estimulam e avivam a inteligência”

“Pode-se mesmo, por vezes, chegar até a embriaguez: não, de modo algum, para nela mergulhar, mas para nela encontrar a calma, pois ela dissipa as inquietações, modifica totalmente o estado da alma e afasta as tristezas, assim como cura certas doenças.”

“É impossível alcançar o sublime e o inacessível, enquanto a alma pertencer a si mesma”

C) MEDÉIA (com um acento bem grande pra você!)

Iolco Ranma / Kurama Iolco

Rei Creonte

“Acasto, filho de Pélias, [o rei facínora assassinado por arte] subiu ao trono e perseguiu Jasão e Medéia, que fugiram para Corinto, onde foram recebidos pelo rei André Sanchez.”

Medéia, a verdadeira natureza da mulher.

“a tocha de pinho que precede o cortejo nupcial”

“Deixa de lado o medo feminino e reveste teu espírito com todas as crueldades do Cáucaso.”

“Mas são demais medíocres os crimes que agora estou lembrando… Tudo isso eu fiz, quando virgem; é preciso que minha dor se levante ainda mais terrível: agora que sou mãe, meus crimes devem ser maiores.”

A vida não é soldado para fazer sentido sempre que mandarem.

Jasão venceu Dioniso e venceu Apolo?

“tu que em tuas ações reúnes uma malvadez feminina a uma força viril e a uma completa inconsciência”

Cila, Sicília. Ex-ninfa siciliana do Peloro. Circe a transformou.

“Daqui a alguns séculos, chegará um momento em que o oceano abrirá as barreiras do mundo: uma imensa terra, Tétis descobrirá um novo mundo. E a Islândia não será mais o mais longínquo ponto da terra.”

“Caribde: O nome lhe adveio de um monstro feminino que, ao roubar os bois de Hércules, foi fulminado por Zeus e transformado em escolho”

Creonte é filho de Sísifo. Já Medéia, neta do Sol.

“O fruto de teus crimes é não considerar mais nada como criminoso. Apenas há lugar para a astúcia.”

“Vários são os mitos do fim de Orfeu: foi despedaçado pelas mênades [dionisíacas] enciumadas; ou foi dilacerado pelas mulheres trácias”

Aquiles se faz; Aquiles se paga.

Nem todos os Titãs juntos cometeram tantos crimes!

D) APOLOQUINTOSE DO DIVINO CLÁUDIO

“Em Atenas, as leis permitiam o casamento entre filhos do mesmo pai, não da mesma mãe; no Egito, também da mesma mãe.”

E) O PROBLEMA DO NIILISMO E DA VONTADE EM SÊNECA

“[Após descrever o perene estado de descontentamento do indivíduo consigo mesmo, que oscila de superexcitações à apatia] Tudo isto se agrava quando, superada uma tão odiosa angústia, nos refugiamos no ócio e nos estudos solitários, nos quais não se saberá resignar uma alma apaixonada, dotada de uma necessidade natural de movimento [calos nos pés!] e que não encontra em si mesmo [um poço cinza] quase nenhum consolo [como quando me estiro na cama pensando na Patrícia e leio o trecho mais vibrante e lúcido da Literatura Universal, o livro de cheiro de cola de capa verde, e sorrio para o amanhã ignoto] (…) De sorte que não mais suportamos nossa casa, nosso isolamento e as paredes de nosso quarto; e nos vemos com amargura abandonados a nós mesmos. (…) este redemoinho de uma que não se fixa em nada [deste blog que se repete, e a mensagem sai cada vez mais fraca] (…) esta sombria impaciência que nos causa nossa própria inércia (…) daí esta disposição para amaldiçoar seu próprio repouso, para lamentar-se por não ter nada a fazer e para invejar furiosamente todos os sucessos do próximo [E ainda rir disso. E rir, e rir, e rir de novo! O quão <sério> esse problema!] (…) [Então] começa o homem a se queixar do século, a se irritar contra a sorte, a se recolher cada vez mais em seu canto (…) qualquer coisa do mundo nos parece uma carga. Isto conduziu muitas pessoas ao suicídio”


EPICURO

A) ANTOLOGIA

“O ser bem-aventurado e imortal não tem incômodos nem os produz aos outros”

*

“Antes de mais, nada provem do nada”

Antes de mais nada, tudo provém do nada

*

“não deve supor-se que nos corpos limitados existe a possibilidade de continuar passando até o infinito a partes cada vez menores.”

As variedades de átomos não são infinitas. Eles, sim. “o universo também é infinito pela multidão dos corpos e pela extensão do vazio.” “Os [átomos] pesados não se moverão mais velozmente do que os pequenos e leves.” “É necessário que se movam com igual velocidade” “Nada impede a infinidade dos mundos.”

“não giramos em vão falando do bem”

“O homem que tenha alcançado o fim da espécie humana será honesto mesmo que ninguém se encontre presente…”

“Devemos escolher um homem bom e tê-lo sempre diante dos olhos, para vivermos como se ele nos observasse e para fazermos tudo como se ele nos visse.” Quem? Eu mesmo.


GLOSSÁRIO (português):

apostema: abscesso

bodum: cheiro forte de bode não-castrado

cutelo: arma de degolar

espostejar: esquartejar

saraiva: granizo

velo: pele de cordeiro, lã


GLOSSÁRIO (grego):

morón: idiota

[ARQUIVO] 2013: VELHOTES AUDAZES, LETRADOS & SARADOS!

Originalmente publicado em 20 de agosto de 2013

Trinta e cinco anos depois do (agora pen)último álbum de estúdio com Ozzy Osbourne, cerca de 45 anos após as primeiras reuniões da banda… a lenda negra revive. Sábado Negro, o quarteto que continua sendo o ápice e a referência máxima dentro do tema “música pesada”, dá uma volta completa no círculo: sua contemporaneidade são as próprias origens, com exceção do carcomido baterista. Muitos boatos há a respeito do seu não-retorno ao lado dos outros Três Cavaleiros do Apocalipse, mas pouco de confiável podemos entrever mediante tanta névoa—nem as entrevistas dos músicos deixam os entreveros claros. Mas, como a noite, essa banda nunca nasceu para ser clara!

O que esperar de [[[13]]], o álbum que nem precisaria ter saído numa sexta-feira para deixar todos de cabelos em pé? Mais do que uma revolução ou injeção de novo fôlego, é um pastiche que mostra que ninguém ali caducou de verdade, e todos sabem reprisar a velha fórmula das canções clássicas do Sabbath, aproveitando-se dos novos e tecnológicos instrumentos para maximizar o impacto.

“O Final do Começo” abre estrategicamente o CD. O clima é de faroeste. Versos-clichê, na boca de Ozzy, tornam-se uma verdade universal testada e consagrada pelo tempo. O ar “anti-científico” e pessimista das primeiras letras nos rememoram algumas incursões do Technical Ecstasy, embora a sonoridade esteja bem mais grave e intimidadora. Como sabemos, a lentidão do Black Sabbath é 50% de sua sensação de peso, e nem isso é capaz de manter os thrashers compulsivos e tarados por velocidade afastados da obra, graças ao virtuosismo não-aborrecido de Iommi e ao baixo sinistro de Butler, dobradinha que deixa qualquer malcriado dorme-sujo em casa onde quer que esteja ouvindo, estirado num sofá de veludo preto imaginário. Mas essa porrada foi só um aquecimento diante da faixa 02…

A faixa é 2, mas o número 4—Volume 4—é o que vem à tona de imediato. O jogo dialético sombra-luz não tem fim nas imediações do BS. Não que alguém esteja cansado por enquanto. O niilismo ataca novamente após hibernar quase meio siglo, e as filosofias do século XIX renovam sua fama de “as mais atuais” para o homem ou Homem, o que quer que ainda reste após o deicídio longamente anunciado pelas trombetas e promovido por nossas próprias mãos. Remanesce uma hesitação, uma dúvida. Ele realmente morreu? Continua, o evento, mero pressentimento de uma alma rancorosa e sem resposta no fundo da caverna…

Não é de um dia para o outro que o Além, cada vez mais desacreditado, perderá toda a sua importância paliativa, e que a esperança de sua existência de fato cessará. Até que a esperança se converta em maldição, nos agarraremos a qualquer indício de uma pós-vida. Interlocutor, você pode ajudar o eu-lírico perdido dessa canção-tumba? A agonia é muito mais longa que a duração das lamentações verbais, não se esqueça… Embora elas permaneçam como um eco surdo em nossas mentes por não poucos dias após escutarmos!

“Johnny Blade”: A Continuação? É o que parece. “Loner” é a revisitação de um tema muito conhecido pelos esquizóides fãs de Sabbath, incompreendidos entre seus pares inferiores. Ou superiores? Somos incapazes de adaptação por sermos além-do-medíocre ou sub-homens rapaces? Seria impossível tentar ser gregário sem culpa depois de ouvir o trecho:

I wonder if the loner can assimilate.

A life less lived alone plays devil’s advocate.

Através de uma música assim, comunica-se o incomunicável.

Em seguida, ninguém vai deixar de reparar que a Caravana de Planetas (não confundir com Caverna de Platão) ainda não terminou—também pudera, anos-luz são muita coisa para ser atravessados em décadas! Sabbath nunca foi sinônimo de clausura em um gênero só. Ele foi definidor, principalmente, de um (com seus diversos sub-ramos), mas isso não significa inaptidão para o restante. Lírico, melan(al)c(o)ólico, triste: assim é o lado sentimental dos quatro. Nada diferente do nosso, ou de uma criança. Só quando a Terra adquire as dimensões de um ponto perdido no espaço, oculto pelo brilho fraco e azul de Doppler de um Sol que já não é mais do que uma estrela semi-visível da galáxia vizinha, nos damos conta da nossa condição de desacompanhados de tudo e todos a não ser poeira que vaga sem gravidade por aí…

The love I feel as I fly endlessly through space

Lost in time I wonder will my ship be found

A idade da razão se sobrepuja ao desespero da nave perdida no abismo sem-fim e absurdo. Seu terror sobrepuja esse do viajante solitário, marujo do céu, porque talvez seja muito pior definhar na Terra, o falso lugar da lógica e do império da racionalidade. O relâmpago e o trovão—nessa ordem—são a síntese da desordem, e até hoje a ciência não os domou. Até hoje? Talvez estejamos no lucro de não termos sido tostados pela fúria vendética de uma nimbus gigantesca cansada de nós! Uma extinção sustentável a curto prazo é do que somos profetas. Como é viver sabendo-se que não há herdeiros para o que fize(r)mos? Nossa insônia é só um sintoma… Somos sementes estéreis, a despeito de podermos ser criativos acerca do nosso momento fatal.

Já se perguntou quando esses músicos morrerão? Se pensa que é heresia de fã, deveria, porque eles se perguntam o tempo todo. Como é isso de querer viver e morrer ao mesmo tempo? Ah, francamente… Todos nós sabemos! Somando o ontem, o hoje e o amanhã, ao menos. A vida carrega cores desbotadas de sonho, mas é melhor ter sonhos ruins e pesadelos do que afundar sem uma reminiscência, uma Musa a cantar suas desgraças…

Se existe uma canção que eu considero menos do que as outras nesse conjunto nada menos que semi-perfeito, é “Damaged Soul”, mas talvez seja só questão de tempo. Curiosamente, é a introdução mais intelectual do CD inteiro, me lembra o quase-jazz distorcido pelas assombrações do álbum seminal. O vocal de Ozzy também foi propositalmente trabalhado para parecer excepcionalmente jovem e altissonante aqui. “Evil” e “graveyard” já aparecem nas primeiras linhas. Isso que é saber pagar um tributo a si mesmo! “Age of Reason” e “Beginning of The End” refluem ainda neste ponto da trilha:

Religion won’t save me, the damage is done.

The future has ended before it’s begun.

Enquanto Deus e o Diabo duelam na Terra do Sol os perdedores somos apenas nós.

“Querido Pai”, o nome, havia me deixado cético quanto ao “fim” (proto-, ilusório) do ressurgimento. Mas não é só a chuva final que remete ao começo de tudo, senão a qualidade que perpassa todos os segundos da produção. Não se deixe enganar pelo título piegas como eu fui. Parece o cabeçalho duma carta, se pensar bem, algo já visto em Dehumanizer, sem o Ozzy. Até os “yeahs” do cantor se encaixam bem nessa música. Uma carta de despedida para deus, quem sabe. Quem sabe? Talvez o dentista de Ozzy que coleciona revistas TIME. Ou pode ser que “father” queira dizer aqui Padre. Crucificado numa cruz de espírito. Isso deve doer, sr. Frankenstein ao contrário! Somos melhores como formigas do formigueiro da fazenda de crianças ou como peças de um lego de um adulto? Em realidade esse foi um Juízo Final às avessas, com um martelo pesadíssimo segurado pelo povo.

Mas o epílogo era falso. Ainda tem o BÔNUS da orgia sonora. Quem um dia já fez um hino à maconha e outro tão poderoso ao pó agora está do lado de cá, do Proerd e da consciência da vaidade dos prazeres: “Methademic” é a vingança do corpo contra seus fugazes espoliadores. Titio Ozzy também é maxima moralia, meus amigos! Você jovem vive rápido demais, tão rápido quanto essa música, uma “Symptom of the Universe” deluxe edition. Uma Sabotagem tão gratuita quanto bem-vinda…

“Peace of Mind” e “Pariah” parecem nascidas do mesmo caldo, aquele caldo anticristão em eterna ebulição que, insaciável, depois de tanta porrada no disco ainda quis dar umas últimas chibatadas sádicas no mito do messias e seu ultra-ícone, Jesus:

A product of a virgin birth

Another god on earth

Yes that’s your fantasy (…)

Make your own truth, and get out of my way

Do outro lado do mundo foi onde tudo começou. O homem virou homem. Nada mais justo do que haver uma faixa exclusiva para os olhos-puxados, então. Faixa cujas iniciais equivalem a “N.I.B.”, um dos clássicos mais velhos da banda – fechando com chave negra.

[ARQUIVO] COMUNISTA CHATO

 

Originalmente publicado em 17 de agosto de 2013

Passa o ferro

carril, a mulher…

Jivagando pelas terras

De neve vermelha de sangue

onde o povaréu urra e geme

Ganharam, ganharam, aboliram a História

só o que sobra sobrou sobrará é um sobrado,

um chalé, um xale qualquer

fogão à lenha

Num ninho de palha se embrenha

Mas se o lobo uiva, não é nada mal!

[ARQUIVO] VIDANTE NOVANDANTE

 

Originalmente publicado em 16 de agosto de 2013


PURGATÓRIO & PARAÍSO

Mulder enganou a todos.

O que eu queria era encher a cara

Quebrou-se a jarra

Eu ouço um “E aí?” e acordo. Minha voz ou a do meu irmão. Mas que bela peça pregada!

Imploro aos Céus de Dante uma trégua.

Já sou ferido demais pela humanidade…


VIDA NOVA

Dante Alighieri não era “pedófilo” se ele também tinha 9 anos ao se apaixonar! Amor congelado.

Obedece ao tirano dos sonhos.

Sofria de “TOC das nove horas”. Vida Nove.

Adoeceu por 9 dias!

“como seja fato que se concede aos poetas maior licença no falar do que aos prosadores”

Corruptela:

Tem tal virtude em sua gostosura

Que nunca foi por outras penetrada,

Tida mulher fazendo andar pouco trajada

De decote, pós-plástica, a bunda dura

[ARQUIVO] FLORES VÃS

 

Originalmente publicado em 10 de agosto de 2013

As conversas com amigos. Inocentes. Sobre o futuro. Despretensiosas. De pé. Enrolando para haver a despedida. O estômago só roncará depois. O céu enegreceu. Sei que foi só fumaça, era como o interlocutor de dentro, eu quero crescer, estourar, enrugar, gemer, ah

O sofrimento é o que nos torna únicos. A música é a única prova. O único sofrer está nela.

Eu sou o que eu não posso ser na telinha jogando o jogo real da vida.

* * *

[untitled]

Já fui mais sozinho?

Me apegando a terapias

Rolando no vômito

Estudando

Sendo expulso, reentrando, descansando

Exasperando-me por coisas vãs

O pão comprando

Já fui mais sozinho?

Cinema sem amigos…

A família decepcionando

Não estou namorando

Quero pedir carona no coração de alguém

Muito ermo esta parada, este ponto.

* * *

VÃ VOCÊ

Você é o gato de Schroedinger do meu coração

viva e morta, puta e bela esposa, imprestável ex-amiga e vício mais vivo, meu amanhã, meu eterno e meu nada, insignificante a ponto de merecer meu poema.

*

Alguém mais interessante como um personagem que conservo.

Casca de carne.

*

Você é só isso

Casca de carne.

A musa inspiradora dum escritor

Mas eu prezo a escrita mais que qualquer coisa, então

Realmente isto está 20 mil léguas acima de 1 beijo.

*

Você é uma planta desprovida de atitude que tem pena de mim.

[ARQUIVO] BAUDELAIRE POR I. JUNQUEIRA (CCXXIII—Spleen 47)

 

Originalmente publicado em 1º de agosto de 2013

Chegado é o tempo em que, vibrando o caule virgem,

Cada flor se evapora igual a um incensório;

Sons e perfumes pulsam no ar quase incorpóreo;

Melancólica valsa e lânguida vertigem!

*

Cada flor se evapora igual a um incensório;

Fremem violinos como fibras que se afligem;

Melancólica valsa e lânguida vertigem!

É triste e belo o céu como um grande oratório.

*

Fremem violinos como fibras que se afligem;

Almas ternas que odeiam o nada vasto e inglório!

É triste e belo o céu como um grande oratório;

O sol se afoga em ondas que de sangue o tingem.

*

Almas ternas que odeiam o nada vasto e inglório

Recolhem do passado as ilusões que o fingem!

O sol se afoga em ondas que de sangue o tingem…

Fulge a tua lembrança em mim qual ostensório!