As duas crianças cutucam Gohan—outra criança ainda menor—com um galho, hesitantes. Temem um não sei quê do corpo inconsciente, estirado de bruços na areia.
– Será que ele tá morto, mano?
– É claro que sim, tá vendo que ele não se mexe, mana?
Mas antes que o cadáver pudesse ser alvo de mais exames interessantes por parte da dupla, um objeto brilhante chama ainda mais a atenção dos investigadores-mirins: é uma espada de bom fio, deposta ao lado do caído.
– Uau! Que maravilha! Eu sou um pirata, iá!
– Cuidado, você pode se cortar!—respondeu Gohan, tão de repente de pé, ao reparar no estranho balançando sofregamente sua espada pesada. As ondas batem nos calcanhares de Gohan. Ele ainda veste as mesmas botas.
– Um fantasma!
– Essa espada é minha…—mas Gohan, fraco, desfalece novamente.
O garoto solta a espada, de susto…
– Fantasmas podem morrer?—era a dúvida de sua irmã de 6 anos.
* * *
Quando Gohan voltou a acordar estava debaixo de um teto. Uma casa. Embora o lugar fosse velho e as paredes e o forro estivessem todos descascados.
– Ai minha cabeça!
Os dois estão de pé bem perto da cama improvisada, e parecem empolgados.
– Este é o Rum, Garrafa de Rum, meu irmão mais velho, e eu sou a Cris! Qual é o seu nome?
– Eu me chamo Gohan. Onde estou?
– Esse é um dos nossos esconderijos secretos, gostou?
– De onde você veio?
– Eu não sei! Acho que tentei atravessar o mar e de repente…
Gohan não pôde terminar a frase (e acho que não terminaria…) porque Rum, hiperativo, já havia saltado para o canto, onde se pôs a batucar sem ritmo e sem jeito no que sobrou de um antigo órgão aristocrata.
– Você quer ser nosso amigo? Aqui é a República das Crianças! Aqui não tem adultos mas todos que agüentam ficar sem chorar são bem-vindos!
Rum dá um peteleco na orelha direita de Cris, que faz meia-volta furiosa e começa a puxar o mano pelos cabelos, e depois o morde no cotovelo.
– Quem aqui é chorona?! Isso era antes!
– Ué, mas eu não disse nada!
Os três riram.
* * *
O primeiro lema dos órfãos é: os órfãos se ajudam uns aos outros! Que tal, CORRAM?
– Ã… é Gohan! GO! É que, bem, eu, ã, eu tenho uma… ã, uma…
– HAHA, GO-AN—Gohan! Você é gaguinho?
– Me desculpa! É que faz muito tempo que não falo com ninguém, a última pessoa com quem falei nem era assim uma pessoa, sabe?
– Não, não sei, garoto esquisito!
– Gohan, chega de papo besta, você não quer conhecer os outros?
– Os outros? Tem mais gente?
– Mas é claro que tem!
* * *
Não muito longe dali…
Um furgão com três pessoas uniformizadas de semblante fechado percorre a estrada esburacada…
* * *
E de volta:
– Sabe, Gohan… Há dois anos teve uma tsunami na vila, e você não vai acreditar! Quase nenhuma casa ficou de pé! E os adultos, nossos pais e os pais de todos, fizeram de tudo pra nos proteger. No final, os que não morreram afogados acabaram doentes e depois morreram! Uns amigos da gente também morreram! Foi muito triste!
– É sério? Quem é o mais velho de vo…
A sala estava lotada. Era uma assembléia de boas-vindas. Mas um apito, silvo realmente irritante, do lado de fora interrompeu a conversa. Quem ficou de sentinela na copa da árvore notou a aproximação do furgão.
– SÃO AQUELES CARAS DE NOVO!
– Ô, QUE SACO!
– GOHAN, CORRE, SE ESCONDE!
– Quem?
– VEM LOGO, VEM LOGO!
– Todo dia eles vêm, esses caras não desistem! Pessoal, pro plano!
O robusto motor parou de roncar com um breque. Barulho de portas se abrindo e se fechando rapidamente.
– É, esses moleques e suas emboscadas…
– Vamos! Hoje eles vão ter uma surpresa maior que a nossa!
Dois eram homens parrudos. Mas a motorista, uma mulher.
– Rápido, CORRAM, eles vão te pegar! Sobe, sobe, sobe!
Eram terríveis lances de escada, às escuras.
– Esse é o terraço! Olha ali, na ponta! Tem um bambu! A gente usa pra pular praquela casa da árvore! E ninguém alcança a gente aqui! Gohan, peraí, eu levo a Cris que não sabe pular, depois eu volto e te levo!
– Espere, garoto!
Antes de Rum voltar, os funcionários da van tinham adivinhado que se ocultavam no terraço e encurralaram Gohan. “Fim da linha, pivete! Ou se esborracha ou vem com a gente!” Um dos homens tirou um porrete de dentro das calças beges imundas.
Gohan deu os três passos pra trás que o parapeito ainda permitia.
– Não se mexe! Ninguém vai machucar você! A menos que peça!
Do outro lado as crianças gritavam: “E agora? Se o Gohan não tem o bambu, ele não…” Mas Gohan fechou os olhos, e quando um dos gorilas ia abraçá-lo…
ZOOOOMP!
Ele pulou feito o Homem na Lua. Todas as testemunhas se confundiram, relatando, depois, a história para quem não tinha visto: disseram que ele, o recém-chegado, o novato, um dos mais novos, não tinha nada de bobo, tanto é que VOAVA!
Os trabalhadores do orfanato da cidade vizinha se recusavam a acreditar no milagre.
– Mas o que eles querem? Tinha gritado Gohan, depois de chegar sem ajuda de uma vara de bambu à casa d’árvore.
– Eles vão levar a gente pra prisão!
– Vão comer a gente vivo!
– A mulher que tá com eles é bruxa!
– É sim! Um garoto que conseguiu fugir da prisão disse que não davam comida nenhuma e levavam surra!
– É verdade! Eles te levam pra tomar banho e até cortam suas unhas!
– Urg…!
Mas quando as crianças viram, os dois brucutus e a outra capanga já tinham se dispersado pelo acampamento juvenil. Um deles apareceu puxando uma linda moça pelo braço, de dentro de outra casa, metade desabada.
– Me solta agora, seu velho tarado!
Um vulto velocíssimo retirou a indefesa donzela do maciço pulso do gorilão de uniforme. De cara suja e uma faixa amarrada na testa, à moda de um revolucionário, o vulto se revelou como um outro menino, mas um pouco maior que todos os demais, aparentando uns 14 anos. A menina resgatada, de uns 11 anos, com cara de miss acampamento aliviada, se ocultou detrás do corpo do atlético adolescente, exceto que esticou o pescoço e mostrou a língua para o feroz ex-captor.
– É o Fígaro!, vários dos meninos na casa d’árvore exclamaram.
– Ela não quer ir com vocês, seus ratos! Rosnou ameaçadora a grossa voz do garoto delinqüente. Agora seria Fígaro contra o gorilão mais próximo. Ele avança com um cassetete, mas Fígaro não quer saber de machucar ninguém com as próprias mãos: só ginga com o corpo e faz o grandalhão tropeçar vexatoriamente e comer terra.
Os outros funcionários sabem que podem menos ainda com o rebelde mais velho e já ensaiam um recuo. Só para decretar o lado vencedor, os meninos abrigados no alto saúdam os do furgão com várias pedras. A mulher ao volante, contrariada, tenta argumentar, mas as crianças fazem um escarcéu e ela mal é ouvida por si mesma. Resolve chamar seus homens para o veículo e arrancar cantando pneu.
– Esses pirralhos acham que podem viver soltos assim pra sempre! Grrr…
Ponto para a República!
– Já podem descer! Hm… Você é novo aqui? Fígaro encara Gohan, mas seu olhar não é bem de censura, e sim complacência.
– É, encontramos o CORRAM na beira do mar depois da tempestade!—isto foi Rum quem disse.
– Não, o meu nome é Gohan! Muito prazer.
– Sabe, ele ainda é muito pequeno, vamos ter que cuidar dele e dar de comer também!—veio, oportunista e empurrona, a Cris.
– Rá, olha só quem fala! Você também é bem pequena, não é? Atalhou Fígaro. Risos gerais.—Bem, Gohan, a única regra é: um órfão é bonzinho com outro órfão!
Ambos, Gohan e Fígaro, apertaram as mãos.
* * *
O dia correu na maior tranqüilidade e despreocupação, típica da idade, e sem supervisão neste República livre, com todos os tipos de brincadeira, de adivinhação a combate policial, amarelinha a pega-pega. Gohan nem se lembra da última vez que riu tanto assim!
* * *
No dia seguinte, Gohan foi com seus novos amigos passear no restante da ilha, ou continente, o que quer que fosse essa terra, e descobriu que aquela não era a única cidade! Havia, a vários quilômetros das casas semi-destruídas, mais longe da costa, centros muito mais desenvolvidos—uma grande feira ao ar livre só com adultos trabalhando, por exemplo!
Já estava tudo esquematizado. Gohan parecia um filhinho-da-mamãe todo fofinho e arrumado, então ele é que devia dar início ao golpe: salivante diante da tenda onde anunciavam com vigor maçãs frescas e brilhantes, ele desmaiou convincentemente, fazendo uma roda de almas preocupadas se fechar em torno dele num instante. Virou o foco de atenção da feira.
Enquanto isso, enquanto prestavam socorro ao pobre Gohan, outros meninos esvaziavam os estoques de tudo que podiam, abastecendo seus sacolões de comida. Assim a República prospera!
Quando descobriram a armação, já era tarde demais. Uma negociante corpulenta ainda partiu pra cima do bando dizendo “Ô, mas que malandros sem-vergonha!”, mas cansou rápido, pois não estava habituada a exercícios. Os mais adiantados iam com toda a bagagem conquistada no saque-de-mestre, em bicicletas enferrujadas. Gohan, que longe de ser bobo se ergueu do chão assim que se vira ignorado pelos adultos em meio ao tumulto, corria quase tão depressa quanto as rodinhas das magrelas.
– Não foi divertido, CORRAM? Podemos viver sem os nossos pais!
– É, gostei muito!
Depois disso, inconscientemente, o sorriso de Gohan sumiu do rosto e ele ficou cabisbaixo.
– Mas o que foi?—perguntou a bonitinha do bando, salva por Fígaro no dia anterior, que era sensível para essas coisas.
– Ah, não foi nada, he-he!
* * *
De novo o sossego litorâneo, só se ouvindo o bater das ondas nas encostas pedregosas, o grasnido das gaivotas e o barulho do estômago trabalhando lento, depois da rica refeição. Aquela hora no fim da tarde que dá uma leseira na gente, danada de boa…
Muito estranho, mas pela primeira vez desde o desastre o furgão do orfanato não apareceu e as crianças puderam relaxar e curtir. O futuro era brilhante e promissor!
* * *
Escureceu. Gohan, enquanto os meninos dormem, procura uma moita do lado de fora. Esgueirando-se, percebe uma presença. Antes que pudesse se assustar, dá-se conta de que é Fígaro, imponente, ereto, ar de não-cansado.
– Oi, o que você tá fazendo aqui?
– Eu tô de sentinela, Gohan. Precisamos proteger a República o tempo todo. A gente nunca sabe quando aqueles brutamontes vão voltar…
– Você acha mesmo, Fígaro? Acho que eles desistiram!
(ou será na verdade que Gohan queria ir além de um passeio ao mictório?)
– Além do mais… Há outras pessoas com más intenções por aí, Gohan. Nem sempre são do orfanato.
– Fígaro…
– O que foi, Gohan?
– Eu tenho um segredo… Na verdade eu não sou órfão… Não sou… totalmente órfão… Tenho uma mãe que me espera na Montanha Paoz… E meu vovô também…
– Então era isso, por isso você é diferente!—um dos moleques mais novos gritou, do parapeito da janela. Não estavam tão adormecidos assim…
– Me… me desculpem!
– Ora, Gohan, não precisa se desculpar!—Fígaro—Só tem um problema: a Montanha Paoz fica meio longe, como você veio parar aqui?! Tem ainda uma extensa rodovia e aí sim na Floresta de Bambus você já pode se considerar em casa. Mas vamos te levar lá! Amanhã…
– Como?
– Eu tenho um plano pra roubarmos o veículo!
E deu uma piscadinha. Tudo dependeria da visita dos inconvenientes adultos do maldito orfanato.
– Ei, CORRAM, sua mãe é legal com você?
– Ãhm, acho que não, ela fica brigando e me mandando estudar o tempo todo!
Óbvio que riram, mas aqueles que sabiam que jamais veriam sua mamãe de novo sentiram uma muda ponta de inveja.
– Gohan, de que matéria você mais gosta?
– Ah, eu acho que sou bom em Geografia, Desenho e Matemática!
– Eu detesto Ginástica! Mas gosto de Inglês.
– Já eu prefiro Ciências!
– Eu nunca fui pra escola…—acrescentou a Cris, desanimada.
– É claro, você é muito novinha!
Ela faz seu gesto costumeiro de dar a língua. Aliás, quantos linguarudos na República!
– Pelo que eu tô vendo, vocês tão a fim de ir pra escola, certo?—Fígaro se intrometeu.
– Não, além disso tanto faz! Agora não adianta mais mesmo!
– Ué, vocês podem se matricular na escola quando quiserem!
– Não fala isso, Fígaro, que papo é esse agora?!? Aquele lugar cheira a remédio!!
– Eu também não quero voltar.
– É, nem eu!
– Você conhece bem, já que fugiu!
– HAHAHA!
O papo continuou, besta, mas confortador, e os grilos cricrilejavam.
– Então, pessoal, amanhã acordem cedo porque vamos levar o Gohan à mãe dele!
– Ié!
– Oba!
– Viva o CORRAM!
Gohan corou, mas se contentou por dentro, embora uma dúvida cinza ainda o importunasse em alguma parte…
Ninguém dormiu muitas horas àquela noite…
* * *
Todos a postos. Sabiam, no íntimo, que os gorilas impiedosos não os deixariam em paz dois dias consecutivos, sem falar que viriam mais bem-preparados. Mas a recíproca também era verdadeira: ninguém deixaria o ronco de um motor pegá-los de surpresa dessa vez.
– Não vê nada?
– Não!—Rum, de binóculo.
– Está passando da hora!—Fígaro, preocupado.
– Ei… E-espera! Tá vindo! Tão vindo!
– Abaixem-se todos! Vamos fingir que tá tudo normal!
Dessa vez eram três, e não dois, os seguranças-armários. Logo que se retiraram da van, uma salva de pedras destinada a batizá-los foi atravessando o ar.
— Tomem isso, e isso!—Até a Cris e as outras garotas caprichavam na pontaria dos estilingues.
Os homens se dispersaram para se tornarem alvos mais difíceis, afastando-se da combi. Era a brecha desejada por Fígaro, que não teve dificuldade em expulsar rispidamente a motorista choramingona. Ele assoviou e toda a molecada se preparou para embarcar no bagageiro gigante. Ninguém queria ficar pra trás.
— Ah não!
Sirenes se ouviram. Eles tinham se planejado ainda melhor.
— Desçam do carro!—vociferou Fígaro—Esses sabujos chamaram a polícia!
Estavam cercados por incontáveis motocas e viaturas. O incidente de ontem na feira já havia despertado a atenção das autoridades. Sem plano nenhum, os meninos começaram a lutar com funcionários do orfanato e homens-da-lei, indistintamente. Uns com mais dificuldade, outros menos. Era notória a vantagem no corpo-a-corpo de Fígaro e de Gohan, que sozinhos davam conta de vários deles. Até a Cris, valente, mordia o braço de seus aprisionadores! Voavam voadoras e pedrinhas pra tudo que era canto. Os adultos devolviam com bravatas, botinadas e cacetadas. Pois é. Para a jovem República, estava claro que toda resistência tinha um limite, e até Fígaro foi dominado e algemado ao furgão pelos mais velhos. Gohan, num rompante de fúria (sempre um rompante de fúria), sacou sua espada, deu um de seus pulos fenomenais e quebrou o elo de ferro com a maior facilidade. Mas quando Fígaro se ergueu, assustado, e virou-se de costas, viu que todos os mais novos exceto seu salvador já estavam sob custódia. Haviam perdido? Fígaro parou para meditar uns dez segundos, enquanto os policiais, confiantes, mantinham-se alertas, prestes a dar o bote final. Um relâmpago atravessou-lhe a mente. Estamos falando de Fígaro, o líder da República em dissolução: “Melhor assim… Sentirei saudades.”
— Gohan, vem comigo!—e correram.
O gesto surpreendeu os policiais, que não imaginavam que os pestinhas se deslocassem na direção oposta.
— E os outros?!
— Só vem comigo!
Ouviam-se os gritos daqueles pequeninos, já amarrados e sem consolo algum:
— Fígaro! Fujão!
— Traidor!
— Não deixa a gente aqui, Fígaro!!
G. e F. montaram num conversível da polícia, arrancaram e deixaram a República e as ruínas e as moscas, e os adultos, e a Lei, e os amigos, para trás. Para ser fiel aos fatos, o mais velho e parrudo dos capangas do orfanato ainda tentou se agarrar ao pára-choque, mas sua queda foi de gibi. As crianças-reféns só não sabiam se riam ou se lastimavam, enraivecidas pelo abandono do ex-estimado líder.
— Fígaro!!! CORRAM!!—Em vão um ainda tentou: eles já tinham sumido de vista…
* * *
Na auto-estrada os dois, Fígaro ao volante, ainda tiveram de fintar alguns policiais motorizados, mas estes acabavam batendo ou perdendo a pista. Quando chegaram à Floresta de Bambus e se retiraram do carro, Gohan abordou Fígaro, sério e indignado:
— Por que, por que você largou seus amigos? E empurrava seu parceiro de fuga na altura do quadril, sem querer compreender. Fígaro deu-lhe um murrão na cara que o derrubou.
— Acorda, Gohan! É a melhor saída pra todos eles! Eles não têm idade pra serem uns vândalos! Não merecem essa vida que eu levo!—Dava pra sentir a umidade em seus olhos—Gohan! Eu percebi… Você não é um garoto comum! É muito mais forte do que eu, e olha seu tamanho!
— Você vai voltar, Fígaro?
— Não! Se eu voltasse, não encontraria mais ninguém! Bom… A gente se vê… por aí! Seja bonzinho pra tua mãe!
— Traga eles, Fígaro! Mas esse grito foi só um último ornamento à amizade que cresceu entre eles. Assim como os moleques da finada República berravam à toa, Gohan já sabia que Fígaro não devia ter escutada nada, por causa do barulho do carro. E no fundo concordava com o mais velho, embora isso fosse bem triste. Rum, Cris, a “miss” e os outros! Então ele se virou e foi trotando pela mata… Em dez minutos chegaria…
— Tá perto! Já reconhecia os padrões de vegetação da vizinhança—Uf, uf… Puff!… Já posso ver minha casa!!! —Esbaforido, mas era todo sorrisos e alívio. Chi Chi, sua mãe, fatiando legumes na cozinha, nada podia ver, mas seu sexto sentido entrou em ação—seu coração apertou. Chi Chi correu para o quarto do garoto, deixado como estava havia seis meses, esperando o retorno do dono. Vários livros empilhados, repletos de equações e teorias das mais estranhas…
— Hum! Suspirou, e engoliu o vento, amarga.
Ela, sem saber a que estava obedecendo, saiu correndo da casa, mirando ao longe…
Era na mesma direção de Gohan que ela fitava. Ambos, mãe e filho separados pela catástrofe, não uma tsunami, mas algo bem pior, iriam voltar a se encontrar!
“…sua mãe é legal com você?…eu nunca fui pra escola!…seja bonzinho pra tua mãe!…” Essas frases invadiam a consciência do garoto-guerreiro-misterioso. Mas por quê? Por que agora? Espera… tem algo faltando!
“Garoto especial…”
“O mundo precisa de você…a invasão.”
Suas veias estalaram e se comprimiram…
— Eu não posso! Se eu voltar as costas, todas as casas e famílias vão acabar!
Seu problema de amnésia estava de todo curado, de súbito. Não só sua identidade no deserto, antes de conhecer o Senhor Robô, mas todos os eventos macabros de meses atrás se perfilaram em seu álbum de fotografias mental. Não só sua mãe, mas até seu pai, e o outro…
E ele correu ao avesso. Tarde demais para Chi Chi, que não conseguiria alcançá-lo por nada. Nem seu coração terno de mãe podia com as passadas miraculosas de Gohan, o eleito… E, de mais a mais, ela não viu nada nem ninguém nos contornos da floresta, a não ser folhas farfalhando e bambus balançando. Podia ter sido tudo uma ilusão da carência e da loucura da solidão…—Goku, Gohan!…—Ela amarrotou uma foto que segurava na mão direita…
* * *
Gohan já evadia a floresta e chegava ao pé de uma montanha. O céu límpido. Começou a ventar muito. Pétalas de cerejeira e folhas agrediram sua cara, em redemoinhos ascendentes. Ele olhou pra cima. Lá estava ele, tapando o Sol. O turbante impecavelmente branco, apesar da negra sombra que projetava. Semblante fechado, poderoso, pairando no ar.
— Qual é a sua missão, pequeno? Indagou, tonitruante, taxativo. Vamos, me diga!
— É vencer os saiyajins… E salvar… A TERRA!
— Isso mesmo. Vamos voltar.
Voltar? Pra onde, se não é pra casa?! Ao Deserto. Ao Deserto vasto e cruel, de onde só por milagre se poderia escapar. Mas Gohan não tinha escapado? Treinar lá, com seu mestre, para produzir mais milagres.
Contagem regressiva.
2 de fevereiro de 2013

