[ARQUIVO] O SEGREDO DA LONGEVIDADE

Originalmente publicado em 4 de junho de 2012

O perfil da banda norte-americana Metallica, que completa 31 anos em plena forma

Bay Area, Los Angeles, Califórnia, costa oeste dos Estados Unidos. Maio de 1981. Lars Ulrich, baterista de ascendência dinamarquesa, participando da efervescência cultural da cidade, decide deixar de ser mero expectador e colecionador de fatos e informações para mergulhar de cabeça na agitação noturna como membro de uma banda. O rock ‘n’ roll – e mesmo o hard rock, bastante explorado nos anos 70 – tornava-se “coisa do passado”: ainda que os jovens bebessem da fonte e fossem influenciados por Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin e Mötley Crüe, o peso, a velocidade, o timbre e o tom precisavam de novo fôlego, de ser expressos, recriados, sob uma nova forma. Tempos mais agressivos e extremos precisavam de uma música que os refletissem melhor. Que espelhasse a angústia da nova geração, filhos da ressaca do Vietnã, os sobreviventes do auge das drogas (que nem todos puderam se gabar de vencer, como Jimi Hendrix e Janis Joplin). O novo barato musical (metafórico) seria diferente, mais sutil na proposta, mais arrasador por dentro…

Os novos expoentes de um tipo engajado, sério e ao mesmo tempo mais furioso de som ficaram conhecidos como os fundadores do thrash metal (termo que designa “pancada”, “baque”, ao mesmo tempo que solidez, frieza e permanência). Suas características básicas são seqüências rítmicas velozes e “quebradas” de guitarra, bateria seca e complexa, além de vocais rasgados, embora haja exceções. O figurino e a postura da banda (e dos fãs), pelo menos nos shows, são escolhidos a dedo. As letras das canções são de cunho pessimista, escolha que não deve ser confundida com uma pá de cal impiedosa jogada sobre as esperanças humanas, mas tão-somente uma forma à altura de revidar as agruras da vida: através do ataque e da revolta. Ataque a instituições seculares e discursos socialmente estabelecidos. Atmosfera apocalíptica, reflexão sobre a condição do indivíduo imerso em decadência política e preconceitos disseminados pelas classes dominantes. Sobretudo, o thrash metal era um grito cavernoso de descontentamento em relação a noções de cultura e estética até então em voga, claramente ultrapassadas.

O Metallica foi a grande banda-quarteto (com duas guitarras, sendo que um dos guitarristas acumulava a função de vocalista) do movimento thrash metal, estilo que embora ainda vivo em 2012 teve seu ápice nos anos 80 e se disseminou por vários países (inclusive o Brasil), depois de um começo explosivo na costa oeste dos EUA. A Califórnia sempre foi conhecida como o celeiro de vanguardas exóticas, muito devido à constituição peculiar da população do estado: nesta porção de terra ianque, as minorias, somadas, formam a maioria, e os princípios constitucionais de Liberdade e Fraternidade ganham sentido prático.

Resta que contemos como o jovem Lars Ulrich (então um menor de idade) conheceu James Hetfield, com quem estabeleceu grande amizade, e ao lado de quem selecionou cuidadosamente os outros dois membros do Metallica entre os músicos mais talentosos e irreverentes da cena.

A formação original do Metallica era: James Hetfield, Dave Mustaine, Ron McGovney e Lars Ulrich. Este último anunciou nos classificados que queria montar um quarteto de metal, em suas palavras, “sério”. Na época, o expediente de procurar gente com interesses afins através de seções interativas dos jornais locais era bastante comum. James foi o primeiro a responder ao anúncio. Com alguns amigos improvisados nos outros instrumentos, a protobanda (ainda sem nome) chegou a ensaiar em esparsas sessões e até gravar um cover (canção de outro artista) para uma coletânea de bandas incipientes da região, lançada em fita K-7. Todos se conheciam em Los Angeles, e Ulrich tinha facilidade em convencer os melhores contatos a abrir portas e em pescar oportunidades. No entanto, como quase todo músico do circuito já compunha outra banda, era complicado achar sujeitos ao mesmo tempo disponíveis e competentes. Foi após meio ano juntos que James Hetfield e Lars Ulrich conheceram um talentoso e problemático guitarrista chamado Dave Mustaine. Veio a gravação da primeira música, Hit The Lights, ainda com uma formação deficiente. A essa altura o nome Metallica já havia sido escolhido, por sugestão de um dos amigos de Ulrich, mas nas demos com compilações de bandas de metal californianas que se espalharam pelo cenário underground o nome foi impresso errado, com um “t” a mais…

De qualquer modo, o surgimento de um grupo de moleques ensandecidos, técnicos e ambiciosos (na época com 15, 16 anos) virou notícia e um baixista não tardaria a aparecer para completar o time. Com Ron McGovney, o Metallica gravou seu primeiro EP individual, “Power Metal”. Ao participarem de um evento num clube noturno, porém, descobriram um baixista várias vezes mais promissor, do grupo Trauma. Como McGovney não era verdadeiramente querido entre seus pares nem tecnicamente indispensável ou excepcional, foi demitido sem cerimônias. Sua estada no Metallica foi curtíssima!

O tal novo baixista de encher os olhos, por quem os outros três do grupo quase cometeram uma loucura, Clifford Burton (mais conhecido pelos futuros fãs apenas como Cliff), impôs algumas exigências e criou dificuldades até se tornar um músico do Metallica. Ele estava ansioso e assustado, pois não queria abandonar os companheiros do Trauma e trair suas origens, embora soubesse que sua habilidade incomum com o baixo cedo ou tarde lhe abriria convites e possibilidades inéditas, que ele contraditoriamente aguardava e rechaçava, por pudor ou insegurança. Por fim, Cliff cedeu e entrou oficialmente para o grupo. Já estávamos em 1983.

* * *

Os “moleques” aprendiam rápido e já tinham bagagem para lançar o primeiro vinil (o mesmo que um EP, mas com o dobro de músicas). Só não tinham o dinheiro. James, órfão de mãe, havia sido praticamente expulso de casa pelo pai, cuja religião não permitia um comportamento tão imoral quanto “montar uma banda de rock” por parte de um filho! Ulrich era o único abastado do quarteto, mas seu pai se decepcionara quando o rebento trocou uma brilhante carreira como atleta de tênis de quadra para se dedicar a um instrumento musical esquisito e barulhento e a incertezas e puerilidades juvenis… Os garotos chegaram a cruzar o país de ônibus, sem dinheiro para comer nem pagar diárias de hotel em Nova York, tudo a fim de tentar cair nas graças de algum bonado empresário do ramo da música. Depois de levantarem os recursos a duras penas, o “Kill ‘Em All” saiu do papel. Uma série de problemas acompanhou o período de gravação do álbum debutante. O primeiro deles é que o nome inicialmente aventado para batizá-lo (“Metal Up Your Ass”, algo como “Metal pelo seu Traseiro”) foi censurado pela gravadora por conter um palavrão e uma arte de capa considerada “de mau gosto”.

O segundo problema foi de ordem muitíssimo mais delicada: o alcoólatra e principal guitarrista do Metallica, Dave Mustaine, foi expulso do grupo, por consenso, devido a suas contínuas estripulias notívagas. A controvérsia do episódio não está no desligamento de Mustaine em si, mas no fato de que todos os jovens, não só ele, faziam uso abusivo de bebidas alcoólicas. Ao que parece, os outros três colegas foram mudando o jeito e adquirindo maturidade, levando a carreira de forma mais compenetrada, ao passo que Dave Mustaine não conseguiu acompanhar o ritmo. Além disso, segundo relatos de quem viveu essa época fervilhante no cenário da música pesada da Costa Oeste, Dave teria o gênio mais complicado e arredio, perdendo a cabeça com poucas doses de cerveja e provocando brigas. Faixa preta de karatê, Mustaine teria quebrado a perna de um músico de uma banda rival, quando este partira para cima de Lars Ulrich. O próprio Ulrich reconheceu à época que foi uma reação exagerada.

Ao ser obrigado a deixar a banda, o polêmico Mustaine, se possuía uma biografia atribulada, tinha também mostrado como era um artista prolífico. Até hoje se debate o que o Metallica pode ter perdido na área criativa ao ter tido que demiti-lo e como suas idéias ajudaram nos primeiros trabalhos da banda. Dave Mustaine não deixaria de ser creditado por isso, recebendo o seu quinhão pela co-autoria de faixas até mesmo do segundo álbum da banda, “Ride The Lightning”, que seria gravado apenas um ano depois de sua saída. Seja como for, Mustaine seguiria seu próprio rumo, fundando uma banda considerada ao mesmo tempo muito semelhante mas oposta conceitualmente ao Metallica, o Megadeth. Teria vivido décadas produtivas porém frustrado e amargo por dentro, pois apesar de o Megadeth ter feito sucesso, o Metallica o superava em todas as vendas, na proa da indústria fonográfica. Somente nos anos 2000 Mustaine, Lars Ulrich e James Hetfield fariam as pazes, voltando a tocar juntos pela América e Europa (embora cada um em sua banda).

Voltando à cronologia de nossa história, Kirk Hammett foi o escolhido para substituir Mustaine. Embora menos talentoso, Kirk trabalhava com afinco e aprendia as músicas em pouco tempo, além de que tinha um temperamento discreto, que encaixava perfeitamente em uma banda que já tinha dois líderes, pessoas com mais voz nas decisões internas.

Desde o lançamento do Kill ‘Em All o Metallica adquiriu o status de líder de uma geração. A estrutura progressiva e bem-acabada das músicas, aliada a certa dose de ingenuidade e utopia romântica da juventude, como que redigiram, na prática, o manifesto do gênero thrash metal: reuniam todas as características básicas do estilo, e na sua melhor forma, como fica evidente nas faixas “Os Quatro Cavaleiros” e “Caçar & Destruir” (*).

(*) Os nomes de canções em português deste texto são traduções livres (sem compromissos, intentadas pelo autor) dos nomes originais em inglês.

A ascensão meteórica da “mendicância musical” ao estrelato em pouco menos de 2 anos (1982-1984) possibilitou ao Metallica gravar seu segundo trabalho de peso (literalmente) do outro lado do mar, na terra natal do pai de Ulrich, a Dinamarca. Assim como o primeiro disco, esse tocava nas temáticas da morte e da violência, caras à banda durante todo o seu percurso. A capa desse vinil era uma sátira à condenação à cadeira elétrica, na opinião dos compositores uma prerrogativa de que o Estado se utilizava para ser uma espécie de Deus terreno, isto é, aquele que decide pela vida ou execução das pessoas. Ironicamente, a base da cidadania é que o contrato social deve proteger a existência dos indivíduos. O confinamento poderia proteger os cidadãos corretos e pacíficos dos homicidas, mas matar estes últimos seria como legitimar a própria ação irracional do homicídio, ou seja, “Combater Fogo com Fogo”, como reza uma das letras de Ride The Lightning.

A atmosfera do vinil de 1984 é mais soturna que a do antecessor e seus riffs, solos, viradas de bateria e linhas vocais menos rudimentares, como se dentro de poucos meses os garotos tivessem amadurecido intensamente. “Para Quem o Sino Toca” e “Desvanecer-se” eram existencialistas por excelência, e “O Chamado de Ktulu” era uma música instrumental (sem voz) inspirada num conto de terror do norte-americano H.P. Lovecraft. A extensão das músicas do Metallica já era planejada para afastar os leigos sem muita paciência para a aridez do gênero: de 6 a 8 minutos em cada música, o que tornava o produto da banda, embora de excelência técnica, incrivelmente inadequado para as rádios. Os “quatro cavaleiros” inclusive afirmavam em entrevista que “jamais gravariam um videoclipe”. Como dizem dois versos de uma canção do Kill ‘Em All, o Metallica “jamais desistiria”, justamente porque era “o Metallica”, e seria eternamente sustentado pela base de fãs.

Com efeito, o tráfico de fitas K-7 nos primeiros tempos ajudou e muito a alavancar a fama da banda. Apesar de soar inofensivo (diante de tantas mercadorias destrutivas que podem ser traficadas!), essa prática nunca foi apreciada pelas gravadoras. Fato é que a base de sustentação do Metallica já havia adquirido tais proporções que todos esperavam por um golpe ainda mais genial na seqüência, e os prognósticos não eram precoces: “Master of Puppets”, de 1986, é até hoje considerado o ápice do jeito antigo de se fazer metal. E o Metallica só alcançava resultados tão favoráveis através de intensas reformulações no som, que apesar de tudo conservava sua marca registrada, identificável em cada faixa, como a gritar nas entrelinhas: “isto é firme e forte, tanto quanto o logo metálico da banda!”

A capa do terceiro disco mostra um cemitério lotado de lápides. “Heróis Descartáveis” é um hino contra as guerras, a exaltar os honrados soldados que pereciam por motivos que sequer conheciam, na linha de frente, defendendo uma Pátria que existia somente no discurso das autoridades, dos generais e políticos que jogavam risonhos com argila e rios de sangue. Em termos sonoros o álbum era, em poucas palavras, uma selvageria bem-domada. Com formação estável depois do começo tumultuado, o Metallica havia aprendido a aparar as arestas do próprio talento jactante. Entretanto, do ângulo do ouvinte conservador, e do heavy metal mesmo, trata-se de um marco, de uma seqüência de pancadas sem dó, uma gema de agressividade concentrada, de verniz aristocrata. O som é mais encorpado nas faixas inaugural e final, “Batalhão” e “Dano S.A.”, sem dúvida as preferidas dos nostálgicos (não que o thrash tivesse, àquela altura, mais de 5 anos de existência!). Doses de virtuosismo temperavam o caldeirão, mediante uma balada a favor da loucura (“Sanatório”) e a continuação de Ktulu, dessa vez cantada, “A Coisa que Não Deveria Ter Sido”. E a própria voz de James mal podia lembrar aqueles gritos roucos e esganiçados do púbere do começo dos aos 80!

Um acontecimento brutal viria a interromper a ascensão vertiginosa da banda, como que para consumar uma profecia e justificar tantas letras amargas a narrar o funesto: a tragédia mora ao lado, e pode aparecer para um cafezinho sem ser convidada. Cliff Burton, tido como um deus do baixo, que solava nas grossas cordas de seu instrumento com a mesma facilidade de um guitarrista, fôra a vítima fatal do capotamento do ônibus de turnê do Metallica, em estrada congelada e escorregadia do norte europeu, na Suécia. Ao que parece, o motorista estava embriagado e teve estranhas visões, desviando-se do curso normal da rodovia.

* * *

Chegou-se a um ponto crucial na história do supergrupo de rock: sem o baixista clássico, a banda teria fôlego para continuar? Comercialmente falando, seria um suicídio – mesmo que os novos trabalhos não fossem tão bons – parar àquela altura, pois só o nome “Metallica” já continuaria gerando receita por muito tempo. Quem outrora apenas abrira concertos para outros grupos de renome como Venom, Slayer e Mercyful Fate, em 1986 era forçosamente o “cabeça” em qualquer turnê com bandas do estilo, inclusive essas três. Ultrapassou-as com sobras, em número de vendas mas também em talento genuíno. Seria uma grande honra para quem quer que fosse, à morte de Cliff Burton, estender os tapetes vermelhos aos 4… melhor dizendo, 3 desfalcados Cavaleiros. A “comunidade metaleira” não iria deixar os músicos do Metallica jogarem a toalha (negra), mesmo que os sobreviventes assim sinalizassem que desejavam fazer.

“Nós nunca vamos desistir…”, cantava uma das letras do Kill ‘Em All, lembram-se? O Metallica precisava de algo para chacoalhar as estruturas, ressuscitar a parte da banda que ainda podia ser salva de um destino trágico. Findo o período de luto, foi decidido que haveria um concurso para a sucessão do posto de baixista. O vencedor foi Jason Newsted, de uma promessa caçula do thrash, o grupo Flotsam and Jetsam. A curiosidade notória é que o Metallica era a banda favorita do rapagão. Da noite para o dia, ele se via como membro do grupo musical que mais o inspirava em seu próprio trabalho. Com ele o Metallica não só ganhava um jovem com tanta técnica e energia quanto Burton, mas um excelente showman, capaz de incendiar a platéia nas exibições e contribuir com backing vocals (vozes de fundo, em contraste com o cantor primordial James) em uma pá de músicas. Kirk Hammett ficava como que eclipsado em meio a tantos virtuoses com mais iniciativa.

A expectativa pelo primeiro trabalho de inéditas do Metallica desde o baque de 86 era muito grande. Seriam tempos difíceis e acres para a banda. Não havia mais garotos na formação. Porém, emocionalmente, havia carências no grupo que precisavam ser trabalhadas, e dessa época consta uma lista considerável de imaturidades dignas de um Dave Mustaine no auge da bebedeira! O fato é que “Findo o luto”, mais acima, é uma sentença algo mentirosa. Ainda condoídos pela partida de Burton, Hetfield e Ulrich se comportaram no fim dos 80 de modo duplo, ora saudando e louvando o novo companheiro, ora tratando-o de forma ostensiva, até mesmo praticando um “bullying” ou sabotagem interna, cujo enredo até o presente permanece não-esclarecido em muitos pontos. De brincadeiras de mau gosto com relativa inocência nos quartos de hotéis a mudanças deliberadas e insidiosas em estúdio, Newsted era limado em seu potencial pelos próprios companheiros. O novo disco, de meados de 1988, “…And Justice For All” (“…E Justiça para Todos”), veio com uma aparente falha crítica, apesar de estar muito bom: o baixo, instrumento de Newsted, não era audível! Está fora de questão a hipótese de que tal equívoco tenha partido de má mixagem acidental. Os técnicos de som escutam inúmeras vezes o material antes de prensá-lo em definitivo. Houve uma escolha, uma espécie de birra, como protesto contra a natureza e a fatalidade, que foram o que levou Cliff embora. Como dito, apesar disso, o álbum foi bem-recebido pela crítica e em 9 semanas recebeu platina, vendendo muito mais que os 3 primeiros. Jason não pôde contribuir com muitas idéias. Por alguma razão, só uma das 9 canções do And Justice teve seu nome entre os autores (e era uma das melhores do disco, abrindo-o soberbamente).

Em revelia com a má produção recebida pelo baixo, o quarto disco do Metallica era o que contava com linhas mais trabalhadas de bateria. Lars se encontrava no auge, e seu kit era tão enorme quanto eficaz. As faixas nunca foram tão extensas, pesadas e versáteis. James engrossou a voz para cantar com fúria. Os temas são todos mordazes sem exceção, falando do sistema de justiça falido do Estado ou até da criação questionável que James recebera dos pais. Kirk completava o caldo com alguns dos solos mais insanos da carreira da banda. A faixa instrumental, “Viver é Morrer”, era baseada em notações e fragmentos deixados pelo finado Cliff B. Posteriormente, os membros se arrependeriam de composições tão difíceis e preciosistas, alegando que era uma tortura tocar várias delas em seguida nos shows, de tanto que exigiam do físico.

Vinha por aí, ainda, a quebra de tabus. O antes intransigente Metallica, que dizia que jamais gravaria um videoclipe, cedeu aos apelos e gravou “One”, a faixa de destaque do disco, em formato audiovisual. Ainda assim, era praticamente uma obra caseira, com imagens em preto-e-branco num depósito abandonado entrecortadas por cenas de um filme “B” sobre a guerra. Por bem ou por mal, de guerreiros do underground, os caras do Metallica passaram rapidamente a queridinhos da MTV.

* * *

Em outubro de 90 começou a gravação do quinto álbum, o homônimo da banda, que ficou mais conhecido pelos fãs como “Black Album” (“Álbum Preto”), em contraposição ao épico trabalho dos Beatles, o “White Album”. Pela primeira vez o Metallica gravaria um CD de forma realmente luxuosa, com um produtor mainstream, Bob Rock. No processo de criação, Jason Newsted continuava desfavorecido, tendo crédito em apenas uma canção, “Through The Never” (“Através do Nunca”). O Black Album foi o disco mais vendido do Metallica em todos os tempos, estreou como número um nas principais listas e seus hits mais fortes estouraram nas rádios (dessa vez a banda investia em faixas mais curtas, de em média 4 ou 5 minutos). Além disso, o álbum foi agraciado com disco de platina 15 vezes nos Estados Unidos.

O Álbum Preto transcendia fronteiras, por motivos que agradavam e irritavam os headbangers ao mesmo tempo (headbangers são os “bate-cabeça”, isto é, os metaleiros, cuja principal forma de se agitar nos shows é balançando o membro superior do corpo – quem não tiver o pescoço resistente, melhor nem tentar!). Por um lado, nenhuma banda de thrash metal (ou mesmo de heavy metal, a vertente “mais leve e acessível, de guitarras menos distorcidas”) havia chegado tão longe; por outro, os fãs de raiz começaram a achar que o Metallica traía o movimento. Aí está o paradoxo de qualquer vanguarda subversiva: no momento em que conquista as massas, abdica dos propósitos iniciais e dos efeitos contestadores que seu som deveria provocar. Incontestavelmente, o Metallica foi o grupo mais grandioso do thrash metal. Exatamente por isso, o estilo ficou “pequeno” para os “Quatro Cavaleiros” e eles seguiram adiante, sem medo, explorando novas sendas.

Músicas como “Enter Sandman” e “Nothing Else Matters” passaram a fazer parte de toda e qualquer set list (seleção de músicas para um concerto) do Metallica dali em diante. Composições como “Wherever I May Roam” e “Of Wolf & Man” citavam escritores famosos e um despertar ecológico do homem, o fato de sentir-se mais animal e estreitar novamente suas relações com a natureza. “The Unforgiven” era o primeiro capítulo de uma longa balada em episódios que o Metallica começou a compor para ilustrar a vida de um homem que mal consegue se perdoar pelos erros do passado. Os riffs, seqüências rítmicas, se tornaram mais simples e diretos, a velocidade das músicas foi reduzida, e, em compensação, cada obra parecia de mármore, em harmonia e coerência interna, como se não houvesse notas fora do lugar. E como a duração das faixas era menor, cabiam mais delas no disco. James Hetfield deixou o orgulho de lado e recebeu aulas de canto. Sua voz já era uma das favoritas não só das mulheres mas também dos homens. Ao dom genético, só estava faltando um trabalho de lapidagem, como com uma pedra preciosa a princípio deformada.

Eventos curiosos tiveram lugar durante os muitos meses de turnês por todos os continentes que se seguiram ao Black Album, uma delas ao lado do então na crista da onda Guns N’ Roses. Em uma dessas noites de espetáculo para milhares de pessoas James Hetfield foi vitimado pelos fogos de um sofisticado porém desastrado aparato de efeitos especiais, ativado principalmente na introdução da música “One” (tradição da banda mantida até hoje). Devido a uma falha no raio de alcance do truque pirotécnico e ao posicionamento equivocado do cantor no palco, James saiu-se com queimaduras de segundo e terceiro graus em todo o corpo e a apresentação foi interrompida. Outro incidente famoso dessa época foi a semana em que James perdeu completamente a voz, durante a gravação do BA. Nem a vida dos músicos superestrelados é tão mole assim!

Em 1994, depois de rodar o mundo, era hora de se concentrar em estúdio para mais músicas inéditas. Dali a 2 anos seria lançado o “Load”, sexto disco do Metallica, como nº 1 da Billboard. E um novo choque atingiu os metaleiros conservadores: de repente, os membros da banda apareceram todos tosados (esse é bem o termo), isto é, sem suas respeitáveis cabeleiras, de caras comportadas, como a dizer: amadurecemos o som, estamos em outra! Novo visual, novo som: linhas de guitarra e baixo ainda mais limpas, efeitos modernos de mixagem, bateria soft e um vocal versátil e sem medo de inovar.

Já a capa do CD era um escândalo para muitos: o artista Andres Serrano, contratado pela banda, fotografou, dentro de um recipiente de plexiglass (vidro plástico), seu próprio sêmen misturado com sangue de boi. Dentro do encarte, os integrantes do Metallica encarnavam vários personagens em mil e uma situações, fantasiados de mafiosos, caipiras, dançarinos, mecânicos, etc. Era uma “autovenda” descarada, segundo os fãs oitentistas que não conseguiam reformular seus conceitos. O Metallica caía em definitivo nas graças da mídia, e o que antes era transgressão virou hábito: múltiplos clipes da banda bombaram na MTV e demais emissoras. A aproximação do Metallica aos gêneros do rock alternativo e do pop gerou convites inusitados, como estrelar o festival indie Lollapalooza ao lado da banda da viúva de Kurt Cobain, Hole.

A fase foi tão prolificamente criativa que ao invés de apenas um foram 2 álbuns: como as “raspas” de estúdio eram demasiadas, todas foram reunidas formando o duplo do Load, o “Reload”, lançado um ano depois. A capa, quase igual, foi outra sobreposição artística de Serrano, usando sangue e, dessa vez, urina. “Fuel” (“Gasolina”) foi de longe o maior sucesso destes tempos, embora (ou talvez por isso mesmo) fosse uma música excessivamente simples e de refrão clichê. “The Memory Remains” divagava sobre o estrelato, em um exercício metalingüístico interessante (“Enquanto o sol de Hollywood se põe às suas costas / A banda não pode continuar? / Apenas escute, eles tocam minha música!”), além de contar com uma “ponta” da cantora veterana Marianne Faithful. “Cadê sua coroa, Rei Nada?” é um dos refrões mais grudentos da carreira da banda e está na simples e eficiente “King Nothing”. “Devil’s Dance” é um hard rock direto e dançante, que não cairia mal em nenhuma festa com pista de dança. “The Unforgiven II” continua a composição original do Black Album e para alguns ainda a melhora. “Slither”, “Carpe Diem Baby” e “Attitude” são três exemplos de batidinhas viciantes, inebriantes nos vocais e radiofônicas até o talo, sem exatamente recair na breguice.

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Sem descanso, o Metallica continuou rumo ao fim da década de 90 esbanjando intensidade. Em 1998, remontando às origens, a banda decidiu lançar um álbum duplo só de regravações de seus sucessos favoritos, o “Garage, Inc.”. Ou melhor: dos sucessos favoritos que pertenciam a outros. Uma singela homenagem aos artistas que são considerados pelos próprios rapazes a razão de ser do Metallica.

Então cabe a pergunta: de onde é que o Metallica retirava sua vigorosa seiva? De um cardápio variado, pode-se imediatamente notar. O trabalho não era um saudosismo gratuito, mas o convite a inúmeros fãs jovens que não conheciam ainda as origens do verdadeiro rock ‘n’ roll: assim, poderiam garimpar, sem riscos de errar, o melhor do estilo. Essa matéria dividida em várias partes no jornal CAPPDiem ou publicada em bloco no meu blog se aproxima de seu ponto culminante e honra manifestamente o seu título: “O segredo da longevidade” do Metallica é cativar sempre um novo público enquanto mantém (pelo menos tenta ao máximo) uma velha clientela. “We’ll never quit, ‘cause we’re Metallica” – não desistir ou não sair de cena não significa se fossilizar ou manter uma homogeneidade, mas justamente se render a uma transformação perpétua e inesgotável, reinventar sua música, adaptar-se e não frear o ímpeto das descobertas, mutilando dogmas e preconceitos debatendo-se com a face mais antiquada da sociedade.

Entre as faixas selecionadas para ser regravadas “com um toque de Metallica” em estúdio, estão: “Free Speech” (um punk simplezinho); muitas de King Diamond e Diamond Head, dois ídolos diamantinos da banda (perdoem o trocadilho); um medley (fusão de várias canções em uma) do Black Sabbath; outras tantas do Mötorhead; a versão mais hard rock da clássica “Turn The Page” de Bob Seger, velho rockeiro de estrada americano, a qual muitos preferem em relação à original; “Loverman” (mostrando que hits românticos não escapavam dos olhos de lince da banda); “Astronomy”, do Blue Öyster Cult (o metal que precedeu imediatamente o estilo mais curto e grosso do Metallica, algo mais virtuoso e melódico); “Whiskey in The Jar” (considerada a melhor execução do ano no Grammy de 1998, por mais que a autoria não fosse do próprio Metallica!); “Tuesday’s Gone” (Lynyrd Skynyrd), “The Small Hours” (a mais pesada da coletânea, da britânica Holocaust); sem falar no visível apreço dos caras pelo Queen de Freddy Mercury.

Em 1999, chegou o “Symphony & Metallica” para fechar com chave de ouro a seqüência de álbuns duplos atrás de álbuns duplos dos últimos anos, também disponível em versão DVD, registrando as apresentações históricas do Metallica à frente da Orquestra de São Francisco (sua terra natal, nunca é demais lembrar) capitaneada pelo maestro Michael Kamen, um novo conceito em música (embora tenha havido essa mistura por iniciativa de grupos de rock anteriores, como o próprio Queen que acaba de ser citado, ou o Savatage, mas talvez não num tal grau de perfeição). Incrivelmente, não só sucessos remasterizados em grande estilo mas novas composições estavam no repertório dos dois grandes dias de show: a meiga “No Leaf Clover” e a respeitável “Human”. Destaque para a versão “anabolizada” de “Call of Ktulu”, a instrumental de Ride The Lightning, exibindo todo seu potencial assustador. Presenças naturais eram “Master of Puppets”, “The Thing That Should Not Be”, “For Whom The Bell Tolls” e “Battery”, massivamente entoadas pelo público. O parágrafo termina com o refrão tocante de No Leaf, que não é a primeira e nem seria a última metáfora do grupo ligada a trilhos de trem: “E então você vê uma luz no fim do túnel / é só um trem-bala vindo em sua direção”!

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Ao mar de flores, sucedeu um período negro para a banda. O Metallica decidiu se engajar em uma guerra perdida contra as novas tecnologias, acusando alguns usuários e donos de softwares de serem patrocinadores de um “neo-barbarismo”, no caso digital. Tudo porque não enxergaram que o formato compact disc havia sido absolutamente ultrapassado pela disseminação das MP3, fazendo parte hoje apenas de um culto ou uma homenagem que os mais fanáticos sentem a necessidade de prestar aos músicos que tanto causaram impacto em suas vidas. Em outras palavras, tudo que começa como diversão (4 rapazes sendo “autênticos”) termina com a guerra da única coisa que passa sem deixar nada de significativo no coração humano, mas que outrossim é a única importante no mundo atual: do dinheiro. Direitos autorais, isso o artista tem de saber: são mera convenção, bem anterior ao capitalismo e ao “profissionalismo”, privilégio consensual direcionado aos mais talentosos de uma sociedade, sob diferentes formas de acordo com a era e a região. Não obstante, aquele que não é mais grato para com seu público perde a honra e o direito de estar sobre um palco, pois não há criação que se sustente sem quem a contemple, não há grandes espíritos sem mediocridade em torno deles e não há como não perder a dádiva dos deuses sendo avarento… Para o trio culpado, James Hetfield, Kirk Hammett e Lars Ulrich, serve a antiqüíssima frase: “Aqui se faz, aqui se paga”. Por ironia do destino, o Metallica, que um dia proliferara graças ao troca-troca de cassetes piratas, resolveu atacar judicialmente o Napster – programa para baixar e compartilhar MP3 ilegalmente – e vários milhares de usuários que tinham feito download de músicas do Metallica através do serviço. Um autêntico papelão, pois era uma medida desproporcional contra muitos fãs de longa data da banda que não podiam ser chamados de criminosos. O episódio tinha mesmo de gerar o fim do Napster, ao menos como freeware (agora os usuários teriam de pagar taxas e só haveria compartilhamento de bandas que concordassem com os termos do site). Mas não só: a imagem e a credibilidade do Metallica em relação à comunidade de ouvintes ficou bem arranhada e chamuscada. Eles teriam de dar a volta por cima nos estúdios ou em cima do palco, porque nos bastidores, apesar de terem ganhado na justiça (a mesma que eles condenavam em seu quarto álbum), eles perderam feio.

A aurora do novo milênio realmente não foi nada agradável para o Metallica. Parecia um tempo de fechar para balanço. Ou mais que isso – a banda corria o risco de acabar. Em 2001 Jason Newsted, o baixista, se desligou do grupo. Sua motivação foi visivelmente dupla: não só teve danos físicos graves no braço direito devido aos intensos treinamento e agenda do grupo como parecia inevitável que um dia o desgaste na relação com os companheiros, que remontava à era …And Justice, estourasse.

Para além da carência na posição do baixo, o líder e porta-voz James H. decidiu que era o momento de se internar a fim de vencer a luta contra o alcoolismo e o estresse. O Metallica estava em cacos. A notícia das férias “pouco ortodoxas e nada agradáveis” de Hetfield caiu como uma bomba no QG dos músicos remanescentes (ia dizer rapazes, mas já devem saber que nos anos 2000 eles se tornaram verdadeiros coroas!), Ulrich e Hammett, onde, com a ajuda do produtor Bob Rock, assumindo o baixo, já se haviam iniciado as gravações do oitavo álbum oficial da banda, o primeiro de inéditas em 4 anos. Nada mais haveria que fazer a não ser esperar. O devenir do Metallica não passava de incógnita. A solidez encarnada do metal estava fraca e agonizante…

Dez meses depois, retornado do “exílio”, o quase-revigorado James espantou as especulações de que a banda terminaria naquele momento e, embora não pudesse estar tão presente como gostaria, o processo de composição voltou à regularidade do “segunda a sexta”. James fôra proibido pelos médicos de trabalhar mais do que 4h por dia, ao menos nesse começo, e sua reabilitação incluía dar mais atenção à família (o músico já era casado e tinha uma filha, bem como os outros dois da banda tinham as suas famílias). O novo baixista foi cirurgicamente escolhido: Robert Trujillo era membro do grupo Ozzy Osbourne, a carreira-solo do 1º vocalista do Black Sabbath, um dos principais responsáveis por Lars, James e Kirk terem traçado seus caminhos na música pesada. Da mesma faixa etária que seus colegas, o atlético e versátil Trujillo se adaptou rapidamente, recebendo diversos elogios de todos. Porém, na altura em que aterrissou, não pôde contribuir muito com o “St. Anger”, que estava prestes a sair do forno…

Sim, o novo CD do Metallica já tinha até nome, e expressava a intrincada antinomia em que a vida do recém-restabelecido quarteto se encontrava: Raiva Abençoada, vida e morte, fim e recomeço, céu e inferno, ressentimento e serenidade. Pensando bem, não há artista que sobreviva sem estes fatores. “Sem raiva, não se vence nada” – Aristóteles, filósofo grego.

As composições estavam carregadas de metalinguagem, refletindo o novo momento de auto-reconstrução da banda. Alguns temas eram meras ramificações das evocações simbólicas do Load-Reload, mas as músicas voltaram a ser mais compridas e era visível que os músicos se esforçaram por imprimir mais peso, voltando a suas origens. Mas o som era novo, relativamente inclassificável, impossível de rotular como heavy ou thrash metal. Era um hard rock com um feeling bem sujo e cru, notável nos timbres dos instrumentos, na voz intencionalmente rouca e expressiva de James e na bateria de Ulrich, cujos pratos traiçoeiros ficaram parecendo tampas de latas-de-lixo, para ódio da legião conservadora de fãs (ou eu deveria dizer “odiadores oficiais”?). A imprensa especializada torceu o nariz para o novo disco do Metallica, mas a prova de sua qualidade artística é que foi o quarto seguido do grupo a estrear em 1º lugar no ranking da Billboard, um feito inédito. Inclusive a música “Frantic”, sendo metal ou não, foi eleita pelo prêmio Grammy a melhor do gênero naquele ano (2003): apesar dos pesares, o Metallica se mantinha no topo! Então, bandas de rapazes de 20 e poucos anos que ouviam Metallica desde a infância já viravam sucesso e tinham a honra de dividir o palco com os mestres. Citarei alguns nomes à guisa de exemplo, mas apenas no final da matéria.

Uma coisa que desagradou muito o guitarrista Kirk Hammett foi a imposição do produtor Bob Rock de que não houvesse solos no St. Anger, o que limitava o desempenho de suas funções. A tal ponto que atualmente, quase 10 anos depois, o Metallica se nega a tocar músicas do St. Anger nos shows, bem como de sua fase mais light e de flerte com o pop – a Load –, com exceção da “mega-pedida” Fuel. Talvez parte disso seja pelas características muito peculiares do álbum: a canção “The Unnamed Feeling” (“O Sentimento Inefável”) tem linhas vocais tão sobrepostas e complicadas que seria quase impossível mantê-la razoavelmente parecida com a versão de estúdio em reprodução ao vivo, por exemplo.

Um detalhe engraçado é que durante esse período de estúdio o Metallica chegou a ter um terapeuta, para resolver seus problemas internos. Foi uma decisão polêmica, pitoresca e cara, que até hoje não sabemos se teve algum efeito. Não que os integrantes não tenham de fato resolvido suas diferenças e voltado a ser uma banda na acepção da palavra, mas atribuir o êxito somente ao terapeuta talvez fosse exagero. O que importa é que o Metallica estava consciente do que estava errado e se mexeu para buscar soluções. No fim das contas, o St. Anger parece, pelas letras, uma verdadeira sessão de terapia, pois está abarrotado de mantras e frases de auto-ajuda, enfáticas:

“Meu estilo de vida determina meu estilo de morte”, começa disparando a faixa-título. “Você vive ou você mente.” O teor autobiográfico é evidente: “A busca continua…” Nesse momento a banda está se debatendo com a pressão dos fãs, da imprensa, deles mesmos e do tempo. Para que a pressa para compor novos trabalhos sem esmero se for só para agradar os outros repetindo fórmulas? A cada novo dia os veteranos californianos tinham que provar que ainda mereciam sua boa reputação… A tal “busca” muitas vezes é frenética, e o refrão de Frantic é “tic-toc”, lembrando o badalar incessante do relógio.

O teor da ideologia do álbum oscila como um pêndulo entre o otimismo e o pessimismo. Versos do Kill ‘Em All são resgatados e reaparecem nas novas canções, misturados no furacão da raiva abençoada. Frantic, que cito pela terceira vez, representa quase um manifesto: “eu quero que minha raiva seja sadia, ela não pode me controlar”. Mas nisso, o eu-lírico aceita a raiva, sabe que ela é um ingrediente essencial do processo de criação. O Metallica pede às próprias forças inconscientes um terremoto produtivo. Na canção “Algum Tipo de Monstro”, tenta-se caracterizar o “monstro incorpóreo” do sentimento do descontentamento. “Essa é a voz do silêncio nunca mais / língua que fala por dentro / anda em círculos / [é] um deus nem tão santo”. Enfim, “é o fim que nunca termina”. Este momento (o da irracionalidade da raiva) somos nós. Temos de nos agüentar e a despeito de todos os reveses aprender a conviver.

Em outra música James berra: “sou juiz, júri e carrasco”. Alguns críticos se sentiram desconfortáveis em uma atmosfera de autismo e isolamento tão acentuados. A tônica do CD não os encantou: “eu me escondo, mas (se me cutucar) te mostrarei…” “Criança invisível” e “Meu Mundo” cutucam especialmente as feridas da infância: “Mamãe, por que chove no meu quarto? / neblina densa, nada eu vejo”. Minha favorita, particularmente, é “Shoot Me Again”: “manda bala de novo, ainda não morri / todos os tiros que levo cuspo de volta em você”. Às vezes o tom é altivo, seguro, quase arrogante. Noutras, cai no limbo da hesitação e do desespero.

Em outra passagem a entidade “raiva/fúria” reaparece: “Acorde o gigante adormecido / não, não, deixe-o hibernar!” Cabe espaço, nessa tempestade de desabafos, até para as relações amorosas, tema raríssimo no Metallica, ou cada vez mais freqüente, se se olhar a evolução temático-intelectual da banda: “Minto para obter um sorriso / doce fragrância do amor / será realmente doce? / Não danço com o que poderia ter sido / não danço com esqueletos”. Na continuação, insinua-se que o amor é raiva, mas também é controle dessa raiva. Até que ponto um dos amantes deve controlar o outro, já que se deixar levar pode ser o equivalente da indiferença mais insossa?

* * *

Depois de longas excursões, durante 3 anos, a banda estava ansiosa para se reunir de novo no “bunker” do estúdio, em 2006, para compor material novo, a parte mais divertida da vida do artista. O tema da morte jamais abandonava a banda: “Death Magnetic” veio a ser muito aclamado pela imprensa. Bob Rock foi demitido. O Metallica sentia que devia retomar o padrão de qualidade e evitar ingerências, re-insistir em complicados solos e agradar a fração da clientela que havia desistido há muito de ver um Metallica anos 2000 que ainda portasse um espírito parecido com o oitentista. Manter-se na vanguarda é uma tormenta, uma tarefa das mais árduas, como o leitor desvenda em cada nova iniciativa do Metallica!

Death Magnetic foi o álbum mais parecido com o …And Justice For All em anos. O disco possui 10 faixas, uma delas instrumental (que, inclusive, teve sua demo intitulada “K2LU”, em referência a “Call of Ktulu”, a faixa sem voz do distante mas ainda muito enaltecido Ride The Lightning). “Essa Era Só a sua Vida”, a música introdutória, já mostra que a banda não estava para brincadeira: vocais velocíssimos e um Kirk com solos ressuscitados e, aparentemente, mais cascudos, elaborados e invocados do que nunca! No fim, talvez a única escolha questionável do álbum inteiro tenha sido a bateria de bumbo único, abafado e homogêneo demais durante todas as composições. O vocal de James ficou bastante destacado em todos os trechos. Ao contrário da era Jason, Rob Trujillo teve maior participação na autoria, ou pelo menos os créditos o indicam – todas as canções são apresentadas como esforço conjunto dos 4 colegas. “O Fim da Linha” apresenta riffs dignos de e estrutura parecidíssima com a de “Master of Puppets”. A nietzscheana “Quebrado, Derrotado & Machucado” (de refrão “O que não te mata, te fortalece”) estoura os tímpanos com seu solo duplo sincronizado (às vezes a gente até se esquece que o Hetfiel ainda se desdobra na guitarra-base, para dar um suporte ao mais pirotécnico Hammett!).

A divulgação do álbum havia começado com o videoclipe de “O Dia Que Nunca Chega”, nova incursão do Metallica na crítica à guerra, reavivando “Heróis Descartáveis”, de 1986. Outro clipe gravado mais tarde, de “All Nightmare Long”, apresenta elementos de animação e filmagens propositalmente de baixo orçamento, deixando o produto com a mesma cara artesanal do Metallica antigo batendo cabeça num depósito abandonado, como em “One”. Para delírio dos fãs, o CD Death Magnetic ainda brinda o ouvinte com a suposta conclusão da “saga do alcoólatra cheio de remorsos”, “The Unforgiven III”, que aliás é uma espécie de estação tranqüila dentro de um álbum tão preenchido por pancadarias torrenciais! A banda, sempre produtiva, ainda gravou 4 outras faixas que não cabiam na mídia, que com as 10 canções originais possuía praticamente 1h de duração. Esse material excedente foi lançado em 2011 num EP sob a alcunha de “Além do Magnético”, só na internet (média com os fãs, depois de aprender algumas lições com o passado?), e apresenta canções mais longas e elaboradas, com passagens de voz melódicas de James: “Hate Train” (outra vez a metáfora do trilho e do fim da linha), “Just a Bullet Away” (o grande destaque, bem no estilo Pantera), “Rebelde da Babilônia” (o Metallica voltando a falar de religião) e “Ao Inferno e De Volta” (de letras românticas, apesar do título).

* * *

Falta pouco para chegar ao presente e finalizarmos nossa épica saga no CAPPDiem e no meu blog (O Esgoto a Céu Aberto na sua Rua) que narra a trajetória do eclético quarteto que virou um cânone da música pesada. Mas, antes, falta falar do último álbum de estúdio dos maus elementos: e eles fizeram das suas novamente – no melhor dos sentidos!

Algo tecnicamente inovador de artistas que já tinham tentado de tudo era, incrivelmente, possível. Um improvável encontro e troca de influências entre gerações foi o responsável por um dos trabalhos e experimentações mais diferentes que a indústria tem visto: o rockeiro “porra-louca” septuagenário Lou Reed, poeta do sórdido, Marquês de Sade do século XX, e o quarteto californiano de heavy metal, bem mais jovem, embora já veterano por si só, num mercado em que pululam jovens na casa dos 20 aninhos a cada dia! Só por essa razão já seria LOUvável (, Reed!) se não fizessem feio. Mas o projeto foi muito além disso…

Para variar, a inusitada parceria não coube num CD só, transformando-se em disco duplo, lançado no final de 2011. Certamente os fãs pagariam com prazer o custo extra. Mas é preciso especificar: os mais flexíveis dentre os fãs, somente, já que os headbangers ortodoxos e puristas continuam urrando irascivelmente e cuspindo abelhas africanas em todas as direções toda vez que o Metallica aparece em alguma operação arrojada que ultrapasse suas mentes limitadas. “Lulu”, o nome da empreitada radical, é uma peça de teatro de Frank Wedekind (um dramaturgo alemão que teria sido influência marcante de Bertold Brecht, este um cênico comunista bastante conhecido dos que aprenderam a História do século XX) convertida em música; com os versos geniais de Lou e o suporte instrumental dos desbravadores do metal por excelência, o ápice do lirismo foi atingido. James H. passa a maior parte do tempo apenas tocando a sua guitarra-base e só empresta a voz em 3 das 10 composições, não-raro no refrão. Lars volta com um kit de bateria mais diversificado. Hammett está ousado e nostálgico. Trujillo parece um bom árbitro de futebol – ajuda e dá substância porém sem ocupar os holofotes. A última música, “Junior Dad”, calhamaço de 20 minutos, teria arrancado lágrimas de todos da banda, devido ao tema ligado à paternidade, questão muito acintosa na vida de James, por exemplo. Lou Reed nunca havia perdido sua aura de bruxo ou feiticeiro dos palcos, mas alguns especialistas em sua carreira apontam este como seu melhor trabalho, além dele próprio. E temos razões para pensar que a declaração não se restringe a mero golpe de marketing!

Em quase toda a música “Mel Congelado” a guitarra de Hammett se parece com um zumbido de abelha. “Mistress Dread”, “Senhora Apavorada” ou “Senhora Pavor”, a depender da interpretação, parece tirada dos primeiros anos do Metallica, de tão potente. “Cheat On Me” tem um refrão leve e grudento, altamente cantante. “Pumping Blood” parece realmente fazer o sangue jorrar na frente do ouvinte. São detalhes tais que transportam o consumidor das ondas sonoras de Lulu a um mundo longe daqui e permitem afirmar que se trata de um novo clássico. As letras são muito polêmicas, soando a muitos críticos sem sensibilidade e tato, hiperbólicas e simples apologia da violência. Mas, não fosse a divergência de opiniões acerca de uma obra, não teria a menor graça! Podemos resumir a peça de Wedekind, cujo roteiro foi adaptado a devaneios filosóficos que tangem filmes de terror B de vez em quando, a algo que divaga principalmente sobre o vazio das relações amorosas e jogos de poder entre homem e mulher, muitas vezes preenchidos insuficientemente pelo prazer instantâneo da carne ou a inclusão do dinheiro, outra dinamite nesse coquetel já explosivo. Ora a perspectiva é a feminina, ora a masculina, às vezes na mesma canção. Lou não tem o menor pudor, e homossexualidade para ele nunca foi tabu.

A superficialidade e no fim das contas supremacia da beleza no amor é sentida principalmente entre os jovens, o que não escapa aos olhos perspicazes dos 5 que montaram Lulu em estúdio, ao longo de intensos meses. A canção de abertura grita: “Sou só uma garota de cidade pequena”, aquela que através do “coquetismo” hipnotiza e maltrata os homens desacostumados: “Eu cultivo a juventude / todo o resto me aborrece / Sua vida de razão / Você hesitando / quero te ver no chão”. E mais adiante: “Se eu sacudisse meu traseiro como uma prostituta obscena / Você pensaria mal de mim? / Você me cortaria, usaria uma faca em mim?”. Mas o homem também se humilha diante do sexo oposto, aliás como ninguém: “Você é perfeita, deixe-me seguir sua respiração e seus passos / Degrade-me! / Tem restos que eu possa beliscar?”. A mulher exibida aparece em incontáveis versos: “Muitos homens me amam / mas não amo nenhum deles”; “Acha que somos uma espécie de mesa / em que você descansa os pés quando bem entende? / nós te amamos, alteza / adoramos seu corpo perfeito / o seu cecê, o gosto da sua vulva e tudo nela / e você não tem significado / nunca nem ligou / pensar em você é uma outra forma de morrer / vou arrancar os seus mamilos! / seus azulejos brancos estão vermelhos agora / aquele que te rejeita é o vencedor”. Um drama psicológico reconhecidamente para poucos! Até o impulso sádico e inconsciente de muitos casais aparentemente harmônicos é descortinado: “Eu queria poder matar, machucar você / Case comigo, te quero como esposa”.

Alguns homens sentem-se afeminados diante de mulheres decididas e emocionalmente mais firmes: “Você é mais homem que eu / [Me sinto] seco e estéril sem-esperma como uma garota”. Outras vezes, os famosos milionários músicos expõem a crueldade da competição entre cãezinhos e grandes cães – na natureza, nada pode ser feito, mas no mundo humano o “tamanho” é comprável: “dinheiro te leva ao topo / a cadela não se importa com o resto / o cachorrinho com uma nota de 100 é um cachorrão, / [pois] já pode sentir o gostinho”.

* * *

Nem podemos descrever com detalhes e nem sabemos por onde começar para sintetizar a idéia do fenômeno que é esta banda chamada Metallica! Um exemplo bobo poderia ser o jogo de videogame Guitar Hero inteiramente dedicado à banda. Um segundo, a passagem do Metallica pelo Brasil no “Dia do Metal” do Rock in Rio 2011, altamente louvada. Outra ilustração, que todo dia 7 de Março é oficialmente o Dia do Metallica, baseado em decreto da prefeitura de SanFran! E nada de listas longas e fidedignas demais sobre os grupos musicais cuja maior influência é reconhecidamente o Metallica, caso contrário poderíamos gastar o dobro dos caracteres que já foram gastos na (extensa) matéria: Mastodon, Slipknot, Avenged Sevenfold e Vader são 4, só uma módica amostra de novos nomes em parte promissores – e que em parte já mostraram conteúdo o suficiente para deixarem de ser apenas promessas – que só chegaram aonde estão por intermédio do grupo de vastos horizontes que sempre idolatraram, o alvo de nossos esforços biográficos, o Metallica!

Amados ou odiados: esse é o renascível-das-cinzas-como-fênix-super-grupo-do-rock-‘n’-roll-e-metal Metallica! Lars, certa feita, em algum ponto dos anos 2000 que não me lembro, declarou que era muito provável que ainda se ouvisse falar das proezas desta banda musical incrível por mais uns 20 anos, pelo menos. E então, o que eles estarão aprontando neste exato momento? Não sei se conseguiremos esperar até 2013!

[ARQUIVO] LULU & OUTROS POEMAS

 

Originalmente publicado em 4 de junho de 2012

A MEMÓRIA PERSISTE (PRIMA-DONA)

E escurecer a luz de uma já apagada Prima Donna

Enquanto o sol de Hollywood se põe às suas costas

A banda não pode continuar?

Apenas escute, eles tocam minha música!

“Fade to black”

Pequena deusa de latão

Perfure a casca da maçã

Você morde mais do que precisa

Cuspa a semente da verdade!

O DRAMA DO NASCIMENTO

Toda criança toca o sol

Queima os dedos um por um…

Já aprende da guerra com soldados de plástico

Acorde, dorminhoco

Hora de salvar o mundo

*

Você traz o pobre cão da chuva

Só que ele só quer sair de novo

O espelho que eu quebrei

Para retratar a minha cara

Pode curar o que o pai fez?

Ou tapar o buraco no filho da mamãe?

LULUXO DA PRIMAVERA

Mas eu, estou feliz porque tenho minha fraldinha

e algum ópio para me deixar na linha

Realidade misturada com cachaça

Bread & Burger Gay

A frieza da maioria das belezas é um desafio que nossa juventude deve rapidamente transpor

Não há tempo para culpa

ou reflexão baseada no sentimento

Eu cultivo a juventude

todo o resto me aborrece

Sua vida de razão

quero te ver no chão

e no caixão

sua alma sacudindo

Você hesitando

em cada conhecimento acumulado

GORY

Tal qual abelhas no ar

Se eu sacudir meu traseiro como uma prostituta suja

Você pensaria menos de mim?

Você me cortaria, usaria uma faca em mim?

Violação suprema

Jack, eu te imploro!

Sangue na cozinha

Vou me render a sua lâmina mais afiada

como o pau de um homem de cor

O sangue esguichando

Perdão, perdão!

Você é perfeita, me deixe seguir sua respiração e seus passos

Degrade-me!

Tem restos que eu posso beliscar?

Cuspa na minha boca

Abra-me! Você é meu Golias

ASS: SENHORA APAVORADA

Você faz outros se sentirem gelatina

muitos homens me amam

mas não amo nenhum deles

*

Sou uma onda indiferente surfando o mar

Não tenho mais ninguém

*

No meu léxico do ódio

As batidas seguem num ritmo anormal

O medo percorre meu corpo

uma espada entre minhas coxas

Eu queria poder matar machucar você

case comigo, te quero como esposa

mas eu também amo seus olhos

ANATOMIA ANIMAL

Você é mais homem que eu

Estar seco e estéril sem-esperma como uma garota

o cachorrinho espera demais, é um monge

o cachorrão tomou seu lugar

ouça-o ganindo

ele quer entrar, ele quer entrar

*

um pintinho

dinheiro te leva ao topo

a cadela não se importa com o resto

enquanto puder aparentar

você pode sentir apenas o gostinho do que o cachorrão

tem à disposição

o cachorrinho com uma nota de 100 é um cachorrão

dinheiro pode fazer qualquer coisa

*

Você se acha especial

os outros são peões

para sua satisfação sexual

criatura penosa!

acha que somos uma espécie de mesa

em que você descansa os pés quando bem entende?

nós te amamos alteza

adoramos seu corpo perfeito

o seu cecê, o gosto da sua vulva e tudo nela

e você não tem significado

nunca nem ligou

pensar em você é uma outra forma de morrer

vou arrancar os seus mamilos

seu vestido de couro está guinchando

seus azulejos brancos estão vermelhos agora

aquele que te rejeita é o vencedor

tenho um truque na manga

chamado coração

as digitais correm seus cabelos que sensação

gloriosa

ser tão rejeitado!

REMIX ZURETA (SANTA RAIVA, MORTE MAGNÉTICA & CARGA)

Originalmente publicado em 9 de maio de 2012


You live it or lie it

Meu estilo de vida determina meu estilo de morte

Siga procurando

A busca continua…

Frenética tica tica tica tic-toc mente

*

PRA QUE A PRESSA?

*

ABENÇOADA RAIVA

*

Fuck it all and no regrets

I hit the lights on this dark sets

raiva no pescoço, eu me enforco, logo…

e eu quero que minha raiva seja sadia

só pra mim

ela não pode me controlar

*

ingrediente necessário

quero que ela seja eu

*

que ela se liberte! um terremoto produtivo

mensagens que beiram a redundância, é preciso estar vivendo ou ter vivido um período semelhante

*

ALGUM TIPO DE MONSTRO

*

Essa é a voz do silêncio nunca mais

língua que fala por dentro—explorando o corpo

ela anda em círculos

o deus nem tão santo

mais vivo do que nunca!

as garras que cutucam as feridas

é o fim que nunca termina

é uma nuvem de verdades

este momento somos…

*

Eu sou quem eu penso que sou?

julgamento, eu martelo—sou juiz, júri e carrasco

ambigüidade inerente

*

autismo, isolamento

preso no seu cérebro

qualquer um é suspeito

eu me escondo, mas (se me cutucar) te mostrarei…

me deixe desaparecer no horizonte

*

abra seu coração, estou batendo à porta

ó, que bom menino você é

desplugando de tudo

orbitando a si mesmo

foi invadido:

MEU MUNDO

Mamãe, por que chove no meu quarto?

anime-se, o tempo vai abrir

neblina densa, nada eu vejo

os filhos da puta tentam entrar na minha cabeça e me mudar

não é que eu não saiba a resposta

eu nem sei qual é a pergunta

manda bala de novo, ainda não morri

todos os tiros que levo

cuspo de volta em você

toda merda que atira

volta pra te assombrar

*

*

que diferença eu fiz?

*

*

Mesmo com uma bala nas costas, não sairei do lugar

Atire em mim, leve um tiro!

tô encalhado e por minha conta (TIC-TOC)

*

mordo minha língua tentando não revidar

*

acorde o gigante adormecido, a besta, o cão, não, deixe-me hibernar!

*

minto para obter um sorriso

doce âmbar—incenso (do amor)

quão doce é você

quão doce pode ficar?

*

gato e rato

eu fujo mas eu volto

*

já estive aqui antes

cada instante aqui morro um pouco mais

o sentimento inefável desperta e me domina

segurança na solidão

eu espero esse trem

joelhos sobre os trilhos-recorrentemente

*

tudo lavado, ficou branco, só sinto o cheiro doce do passado, não danço com o que poderia ter sido, não danço com esqueletos

*

amor é controle (raiva controlada?)

morrerei se me deixar levar

odeie-me

deixo-a correr depois puxo a rédea

*

só deixarei você respirar

o ar que eu te der

-se não quiser sufocar

depois veremos se deixarei me ama[ta]r

*

Desejo poder, desejo fazer

Satisfeito?

cuidado com o que deseja, pois pode obtê-lo! Você quer tirar a própria vida

*

você quer ficar só

*

desperdiçar o ódio

vou guardar pra mim

queria um abraço, mas só a pedra fria pode dá-lo

*

Enquanto nos reunimos hoje

Nos despedimos

O escravo se torna o senhor

Futuro e passado ambos discordam

vejo o fim em

mim…

[ARQUIVO] UMA ODE AOS COVERS

Originalmente publicado em 25 de abril de 2012

Há uma discussão tão longa e acalorada—principalmente entre os brasilienses, supostos habitantes de uma “cidade do rock”—que me propus a escrever sobre isso, para que não me repita em conversas por aí, além de poder ordenar melhor minhas idéias. Primeiramente, um pouco sobre mim: amo a música, mas não sou músico. Quando criança aprendi a tocar teclado como que obrigado pelos pais, portanto sem amor ou espontaneidade. Minha paixão por escutar bandas adveio somente na adolescência. Hoje tenho 24 anos, portanto obviamente haverá muitos leitores com mais experiência do que eu, podendo eu me desculpar desde já pela eventual leviandade de minhas palavras! Em segundo lugar, diria que durante 90% do tempo dedicado a ser ”expectador desta maravilhosa arte” estou ouvindo “metal e derivados” e disso são os shows que prefiro freqüentar. Considero que somente nesses meios tenho o que se pode chamar de amigos. Mas não me rotularia de metaleiro (ainda que meu vestuário cotidiano se componha quase totalmente de camisetas de bandas do gênero!), por não ser fechado a outros estilos nem me considerar pertencente a uma ideologia ou grupo exclusivamente de metalheads ou headbangers. A despeito das muitas pessoas brilhantes e visionárias que conheço e que se enquadram no rótulo, estas são as exceções. Devo retratar o metaleiro-padrão, o famoso “estereótipo”, como um ser desagradável e superficial, tanto quanto o pagodeiro-padrão, o indie médio ou o sertanejo-clichê. Creio que não preciso me alongar mais neste ponto.

Sem mais delongas à polêmica: incentivar ou não shows cover em Brasília? Dizem que “a cena morreu”, que “não se fazem mais bandas como antigamente”, “o pessoal não leva compromissos a sério”, “ninguém respeita os músicos”, “o preconceito ainda é grande contra nós roqueiros”, “não há casas de espetáculo disponíveis”, “não sabem produzir”, “a audiência não é fiel”, etc., etc. Não gostaria de repisar esses discursos, que ora refletem a realidade ipsis literis, ora não passam de falácia! Podemos contar nos dedos os eventos, a cada fim de semana ou mês, que contemplem a galera do heavy metal (procurando englobar gêneros adjacentes como punk, hard rock, hardcore, thrash, death, black, grindcore, grunge, stoner, crust na medida do possível) em todo o DF. Dentre estes, há(veria?) uma subdivisão do público: aqueles que preferem as bandas que tocam o som de outras bandas mais renomadas; e os que têm em mais alta conta os “artistas autorais”, isto é, que mandam ver com seu próprio som em cima do palco.

A meu ver, não existe música sem boa dose de ambas as vertentes, ainda que seja seu direito ter uma “favorita”. Estudar o passado é obrigatório para quem quer, por sua vez, fazer escola. E se ater exclusivamente ao passado é martelar pregos no caixão. Dos menores aos maiores nomes da música contemporânea, não vejo banda que não tenha dedicado tempo a regravar aqueles que os inspiraram, e que não tenha perdido noites pensando, rabiscando, compondo, ensaiando, enfim, criando material inédito…

À parte a dupla categorização, dizem que shows com apenas músicas próprias são economicamente inviáveis para bandas em seus começos, se não forem excepcionalmente qualificadas, porque não haveria demanda por procurá-las ou o menor interesse empresarial por revelá-las. Pode ser que sim. É até mais difícil cativar o público que não conhece as melodias (ou a falta delas, dependendo do estilo), as letras, às vezes nem o nome de quem está se apresentando! O que não entendo é por que isso se transforma, para alguns, em ódio manifesto aos concertos-tributos, de covers dos clássicos. Como se as bandas cover fossem as responsáveis pela propalada “decadência” do cenário das bandas independentes! Como se tais shows não ajudassem imensamente a divulgar aquele som e aquela cultura e a fomentar a criatividade em mentes férteis! Se os eventos cover são mais numerosos (e eu não sei se isso é mesmo verdade), mais bem-divulgados, vamos agradecer pela oportunidade de louvar os “deuses”—mortos ou vivos—do rock ‘n’ roll e do metal, ao invés de emburrar e nos lamentar por tal predomínio e pela escassez das “bandas de verdade” (como se um cover não fosse também uma performance autêntica, que exige energia e muito treino), como já me disseram.

Dever-se-ia militar por mais shows, de ambas as variedades (autorais e covers), por eventos que mesclassem ambas as tendências, não pela ABOLIÇÃO ou pelo BOICOTE de eventos cover. Sinto esse dissídio, essa eterna tensão entre dois extremos inconciliáveis, por onde passo. Posso estar pintando com cores exageradas e extravagantes, estilizando os pontos de vista um bocadinho. Talvez seja, ao cabo, uma percepção enganosa de minha parte, mas nas ruas, nos encontros e nas redes sociais é esse o teor da coisa. Sobre a credibilidade da testemunha, não posso opinar, porque qualquer auto-análise seria distorcida. Só gostaria de lembrar que a dita “cena” é construída por TODOS, ainda que não haja uníssono ou consenso entre as partes… E que todos que amam o estilo querem que ele cresça.

[ARQUIVO] CERVANTADAS

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

O lado bom de construir estádios monumentais, neo-Coliseus, para a Copa é que os pobres vão ter sua copa: se houver um desastre natural os desabrigados poderão contar com estas instalações como casa e escola—ao menos enquanto não houver jogo, não for sábado nem quarta, nem domingo, nem sexta, nem… show da Ivete, e que os polícias estejam de bom humor, valha-me Deus!

* * *

“se em seco faço tanto, que não faço no molhado?”

*

“deve contentar-se com dar cabeçadas na água”

*

“letra de processo, que nem Satanás entende.”

*

“A ninfa Eco, filha do Ar e da Terra, foi condenada por Juno [Hera] a só falar repetindo as duas últimas sílabas do que lhe diziam. Desprezada por Narciso, recolheu-se a uma gruta, onde se consumiu em pranto”

*

421: meu ancestral, Dom Pedro de Aguiar

* * *

Fazer coisas trabalhosas ou não fazer nada?

Eis a questão que posso me colocar—mas até qd?

Saudades infindáveis

de percorrer o minhocão como quem não quer nd

de pretender ser um trabalhador

saudade, ô saudade, de ainda não usar trajos sociais

e bater o ponto _____ xérox _____ café _____ cigarro ___ ônibus

a pé ______ tudo ____ cansa  até ___________ o tédio

cada obj concluído ______ plim ______ fumaça

os incomodados que se internem!

os abusado(re)s que se revelem!

olhar o horizonte e achar bom o inefável—

essa vidinha +-

* * *

Eu poderia te cor(o)ar com minhas macaquices, princesa!

*

“Fala por seis, bebe por doze”

*

O mais racional agora é esperar algo cair do céu

[ARQUIVO] ENTREVISTA COM O VAMPIRO — Anne Rice (na tradução de Clarice Lispector)

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

Visão em que os crucifixos não podem fazer nenhum mal e vampiros não podem virar vapor para passar pelo buraco de uma fechadura. Sangue demais dá enjôo. “podia me ver no espelho” “ele nos dizia para comermos tudo” “inofensivo, mas idiota, o produto de quatro gerações de casamentos entre primos de primeiro grau.” “Aos cochichos, as empregadas contavam como, por uma fenda da porta, nos viram jantar em pratos e baixelas vazios, levando copos vazios aos lábios, nossos rostos pálidos e fantasmagóricos sob a luz das velas”

“Pai e Filha. Amante e Amante.” “Havia algo terrivelmente sensual no modo como se estendia no sofá numa camisolinha de renda e pérolas.” “Era isto que ela era. Uma boneca mágica.” “apesar dela me evitar e me angustiar, como se tivesse sido minha noiva.”

“E suponha que o vampiro que o fez não sabia nada, e o vampiro que fez este vampiro não sabia nada, e que o vampiro anterior não sabia nada, assim por diante, o nada precedendo o nada, até o nada! E precisamos viver com o conhecimento de que não há conhecimento.”

“Acho que senti um arrepio de prazer quando ela disse tais palavras: Deixemos a carne guiar a mente.”

“Acho que vi Macbeth com ele umas quinze vezes.”

“O inferno é ódio, pessoas vivendo juntas em ódio eterno.” Um Big Brother.

Os vampiros deixam restos mortais! Mas o expediente da estaca no coração e da degola continua válido!

Pintores do grotesco: Brueghel, Bosch, Traini, Dürer, Boticelli.

“Não começava a tagarelar a cada pausa, nem a demonstrar que tinha compreendido algo antes do pensamento terminar, nem a discutir num impulso irresistível—as coisas que geralmente tornam um diálogo impossível.”

Vampiros, pela cessação da imortalidade, só podem suar sangue!

“Respiração”?

[ARQUIVO] STALIN(+)SKY

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

SOBRE A IMPORTÂNCIA QUE HITLER DÁ À ORALIDADE: “Esse critério de Hitler se baseia em grande parte, sem dúvida, em que não sabe escrever.” Stalin seria, por outro lado, péssimo orador.

“bêbado como um sapateiro”—ditado popular russo.

“Há só um povo no mundo que beba tanto vinho como os georgianos.”

“Não lhe apenou a prematura morte de seu pai; unicamente se sentiu mais livre.” “Desde sua juventude, a maquinação de tramas vingativas se converteu para ele num objetivo que dominava todos os seus esforços.” Os 3 irmãos mais velhos de Stalin morreram ainda bebês.

ESCOLA TEOLÓGICA: “As obras de Tolstoi, Dostoievski, Turgeniev e outros clássicos, permaneciam inacessíveis.” “O livro era o companheiro inseparável de José, que não se separava dele nem durante as refeições” <Expulso> da instituição, como eu! “Costumava replicar às bravatas de seus professores com suas risadinhas envenenadas e desdenhosas.”

Trostsklodyta

“A blusa suja, as botas sem engraxar, o cabelo despenteado eram também características gerais de todos os jovens agitadores”

“uma parte de Maquiavel com duas partes de Judas”

“ler durante a prisão o maior número possível de livros” “A onda terrorista alcançou sua culminância em 1907.” “estudava tranqüilamente o esperanto (estava convencido de que o esperanto era o idioma do porvir)”

“o sentimental semi-bolchevique Gorki”

“A preguiça, uma cautela desordenada, a falta absoluta de recursos literários, e, finalmente, uma indolência oriental extrema se combinavam para manter a pluma de Stalin pouco menos que improdutiva.”

T. tem raiva dos poetas.

“O Marxismo e o problema nacional é, indubitavelmente, a obra teórica de mais importância de Stalin.” 40 páginas

“Cada vez que os dirigentes do bolchevismo tinham que atuar sem Lenin, incorriam em erro, inclinando-se em geral à direita. Então surgia Lenin como um deus ex machina, e sinalizava o caminho certo.”

“Perezoso por naturaleza, Stalin puede trabajar a presión sólo cuando están en juego sus intereses; de otro modo, prefiere fumar una pipa y pasar el rato.” “Quanto mais calor há na atmosfera, mais frios são os manejos de Stalin.” “Ademais, inclusive os mais arrojados sentem algo de frio na boca do estômago em vésperas de uma insurreição.” “Stalin confiava na máquina muito mais que nas massas.” “Circunstâncias extraordinárias deram a sua ambição um vôo assombroso ainda para ele mesmo.” “Completamente distinto é o caráter da subida de Stalin. Não pode se comparar com nada de tempos passados. Parece não ter pré-história.”

“era heróica da Revolução”

“Contra a vontade de Lenin, por sua própria iniciativa, Stalin realizou a bolchevização ou estalinização de seu país natal…”

“O XII Congresso, que compreendeu a semana de 17 a 25 de abril de 1923, elevou Stalin do último ao primeiro posto dentro do triunvirato.”

“o cozinheiro dos pratos carregados de pimenta.”

“predecessores seus tais como César Bórgia.”

Seria mesmo possível que o da “boa-nova” amaria esse sofisticado maquiavelismo novecentino?

O envenenador de Nero, “o velho Locusta”.

Máximo Gorki foi morto no princípio do stalinismo. “Gorki nunca foi conspirador nem político. Era um velho bondoso, defensor do oprimido, um protestante sentimental.”

Trotsky vê nesses “hiatos morais no poder” encarnados em tiranos o indício de um novo modo de produção. “A vingança da História é mais terrível que a do mais poderoso secretário geral. Atrevo-me a dizer que isso é consolador.” Chama os tecnocratas de cupins.

436-7: a “arte”

“A atitude de Stalin ante esse crescente anti-semitismo era de amistosa neutralidade.”

Trotsky, esse desafortunado camarada-espelho de Robespierre. Rei do simplismo: “a propriedade privada é o único obstáculo sério que se opõe ao desenvolvimento adequado das forças produtivas.”

Os kulaks, os sobreviventes rurais dos “tempos de propriedade privada” (era necessário mantê-los vivos até a consolidação da revolução).

“Nem mesmo Napoleão I foi tão plebeu em suas origens como os ditadores de nosso tempo.” Napoleão III já era desprovido de talentos no campo de batalha. “Lenin vinha a ser um Cromwell moscovita.” Hitler assumiu na Alemanha 11 anos depois de Mussolini (“César + Siefried + Al Capone”). “a suástico não foi o escudo de Hitler, mas unicamente um símbolo roubado dos egípcios e dos indianos.” “Mussolini é a verdadeira personificação do egoísmo cínico e da covardia oculta detrás do disfarce de sua jactância.” “La societé c’est moi”

T. acima do Bem e do Mal, i.e., Bolcheviques e Mencheviques.

GLOSSÁRIO (espanhol):

encono: ressentimento

[ARQUIVO] PENSAMENTOS PASCALIANOS

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

“Dá-se hoje o nome de abismo de Pascal à dificuldade que certos problemas sociais ou morais oferecem em sua elucidação.”

Cromwell teria morrido por causa de um grão-de-areia em sua uretra.

Niilismo comendo pelas beiradas!

“Dediquem a esta leitura algumas das horas que tão inutilmente empregam fora: se alguma aversão experimentarem, talvez reconheçam ainda assim alguma coisa ou, pelo menos, não perderão muito.”

“As outras religiões, como as pagãs, são mais populares, porque se exteriorizam: não são, porém, para as pessoas hábeis.”

“Nenhuma outra religião pode, pois, agradar aos que odeiam a si mesmos e que procuram um ser verdadeiramente amável.”

“Quando se lê depressa ou devagar demais, não se entende nada.”

“Se considerarmos a nossa obra imediatamente depois de a termos executado, ainda somos bastante prevenidos; se muito tempo depois, não a entendemos mais.”

“Conhecemo-nos tão pouco que muitos pensam morrer quando estão passando bem; e muitos parecem passar bem quando estão próximos da morte.”

“Ora, em que pensa o mundo? (…) em dançar, em tocar alaúde, em cantar, em fazer versos, em correr o anel (…) em fazer-se rei”

“Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado.”

“toda a infelicidade dos homens provêm de uma só coisa, que é não saberem ficar em repouso num quarto.”

“Que quimera é então o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que motivo de contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, imbecil verme da Terra, depositário do verdadeiro, cloaca de incerteza e de erro, glória e escória do universo.”

Para Pascal, subsiste-se ora sendo pirroniano (estóico) ora sendo dogmatista.

“Por que me matais? Como! Não ficais do outro lado da água? Meu amigo, se ficásseis deste lado, eu seria um assassino, seria injusto matar-vos da mesma maneira; mas, desde que ficais do outro lado, sou um bravo, e isso é justo.” Sobre a divisão em nações.

“É preciso ter um ponto fixo para julgar. O porto julga os que estão no barco; mas, onde tomaremos um porto na moral?”

P.sacal

“Não mostramos nossa grandeza ficando numa extremidade, mas tocando as duas ao mesmo tempo e enchendo todo o intervalo.” “por mais elevados que estejam, unem-se aos menores dos homens por algum lugar.”

“Que tolo projeto teve Montaigne de se pintar!”

“César era muito velho, parece-me, para ir divertir-se em conquistar o mundo. Esse divertimento ficava bem em Alexandre: era um rapaz difícil de conter; mas César devia ser mais maduro.”

“Querei que se fale bem de vós? Não o faleis.”

Na segunda metade de seu trabalho, é um imoralista!

“Dois rostos semelhantes, dos quais nenhum faz rir em particular, fazem rir juntos pela sua semelhança.”

SIMPLESMENTE A ENUNCIAÇÃO DO ETERNO RETORNO (115, LXII): “A natureza recomeça sempre as mesmas coisas, os anos, os dias, as horas; os espaços também, e os números estão nos dois sentidos em seguida uns dos outros. Assim, faz-se uma espécie de infinito eterno. Não é que haja nada de tudo isso que seja infinito e eterno; mas, esses seres terminados se multiplicam infinitamente. Assim, parece-me, só o número que os multiplica é infinito.”

E A LEI DO TRÁGICO: “Tudo o que se aperfeiçoa por progresso perece também por progresso.”

“é preciso dizer como os outros, mas não pensar como eles.”

[ARQUIVO] PROMETEU ACORRENTADO

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

Zeus tratado como “novidade” no Olimpo. “Júpiter reina de fato por novas e iníquas leis, e procura destruir tudo o que era outrora digno de veneração.” A sucessão de Zeus—quem foi o primeiro filho, ou o varão mais forte? Poderia ser uma genocracia? Prometeu sabe quem há de roubar-lhe o trono!

“Tu não cedes, Prometeu, mesmo no cúmulo da desgraça!” “a força e a violência de nada valeriam; o ardil, tão-somente, decidiria da vitória.”

Poseidon, os Titãs ou qualquer outro… teriam governado de uma forma melhor ou pior?

O coro das ninfas de Poseidon (cunhadas de Prometeu) julga a esperança positivamente.

“teu irmão Átlas”

“E a fatalidade, quem a dirige?” “As três Parcas, e as Fúrias, que nada perdoam.” O próprio Júpiter se prostra diante delas.

Parece que ir para a Ásia, o além-mundo, era pior que o Tártaro!

Zeus se suicidará por conta de uma mulher…

Porque ter um filho que mais brilha e o fulmina é um suicídio! “a maldição que contra ele lançou Saturno”

[ARQUIVO] TRISTES TRÓPICOS — Lévi-Strauss (versão espanhola—trechos traduzidos por mim)

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

Rousseau considerado como o pai da Antropologia.

“os compassos do estudo nº 3 do opus 10 de Chopin.”

“Nada nos pode consolar quando pensamos detidamente” Pascal

“Odeio a viagem e os exploradores.”

“Uma recordação tão insignificante, merece ser registrada no papel?”

George Dumas, o mestre de Lévi-Strauss. Fundou a USP.

Fez cruzeiros dos mais luxuosos e travessias marítimas das mais penosas! Imagine-se 3 meses sem higiene… “sonho hidroterápico”

Não sabia ou me esquecera de que era judeu.

Inferno na Martinica. Evadiu clandestinamente da França no começo dos 40 para escapar dos alemães.

Bahia, “uma igreja para cada dia do ano”.

Mendigos “preferiam uma foto que jamais veriam” a que se os desse dinheiro. Foi preso pelos brancos por isso.

Em Santos, mais inconvenientes burocráticos.

Achava a alma do funcionário brasileiro corrupto repleta de Voltaire e Anatole France!

“embarquei para Porto Rico num bananeiro sueco”

“Compreendo a paixão, a loucura, o engano dos relatos de viagem.” Sobre o fetiche dos fazedores-de-mala.

“De aquí a unos cientos de años, en este mismo lugar, otro viajero tán desesperado como yo llorará la desaparición de lo que yo hubiera podido ver y no he visto.”

“Penso no Brasil como no cheiro de algo queimando, por causa da homofonia entre os vocábulos ‘Brésil’ e ‘grésiller’.”

Amigo de pintores com influência diplomática.

“Dizem que escrevo sem estilo! Por acaso Balzac tinha estilo?”

“Cinco anos na Sorbonne se reduziam à aprendizagem dessa ginástica [retórica] cujos perigos, não obstante, são manifestos.”

Complicações parecidas com as minhas na hora de se tornar professor.

“Ao contrário [das carreiras de medicina e direito], em letras e ciências, as saídas habituais: magistério, investigação e certas carreiras imprecisas, são de outra natureza. O estudante que as elege não diz adeus ao universo infantil, mas bem se apega a ele.” “O magistério não é por acaso o único meio que se oferece aos adultos para permanecer na escola?” “Uma reação quase conventual o leva a dedicar-se temporária ou duradouramente ao estudo” “su compromiso es una manera más de permanecer desligados.” Para ele, a etnografia seria o elo perdido. “desapego crônico” “ficará psicologicamente mutilado” “Como a matemática ou a música, a etnografia constitui uma dessas raras vocações autênticas.”

“Quanto à corrente de pensamento que vem se expandindo com o existencialismo, me parecia o contrário de uma reflexão válida pela complacência que manifesta em relação às ilusões da subjetividade.” “modista” “Em lugar de encerrar com a metafísica, a fenomenologia e o existencialismo introduziam dois métodos para conceder-lhe um álibi.”

“no Brasil, onde os professores da Universidade esperavam que eu contribuísse com o ensino de uma sociologia durkheimianas, à que os havia levado a tradição positivista”

“50km de rota terrestre podem dar a impressão de uma mudança de planeta, mas 5000km de oceano apresentam uma face imutável.”

“Mas para a noite, mas mesclas não têm limite, pois ela inaugura um espetáculo fantasmagórico: o céu passa do rosado ao verde; é porque não vi que certas nuvens se tornaram vermelho vivo que, por contraste, fazem aparecer verde um céu que era completamente rosado.”

SOBRE O NOVO MUNDO: “La humanidad nunca conoció una prueba tán desgarrante y jamás conocerá otra igual, a menos que alguna vez se revele algún planeta, a millones de kilómetros de distancia, habitado por seres pensantes.”

“tiburrones (en portugués tubarão)”

“el sol era tán ardente que la tripulación [de Colón] creyó que iba a ser quemada viva.” Colombo relata ter visto três sereias no Caribe. Tempos em que chamavam algodoeiras de “árvore de ovelhas”!

“Los que declaran que Nueva York es fea son tán sólo víctimas de una ilusión de la percepción.”

71-2: detalhes da colônia francesa no Rio (o católico—depois convertido calvinista—Villegaignon)

Termos de origem francesa: tamanduá, mandioca, jaguar, sagouin (sagüim), caimã, acajou (acaju), etc.

A índia que trocou um lôro por um canhão.

“Quanto mais baixos [na altura das moradias] mais altos [ricos] são os habitantes, no Rio de Janeiro”

Sobre as chuvas de verão paulistas. “Ytu”, “Campiñas” “cobina verdegueante y más aristocrática de Pacaembú.”

“el criminólogo era un dentista que, como sistema de identificación para la policía judicial, había introducido el vaciado de las mandíbulas en lugar de las impresiones digitales.”

“Compartir con los demás una teoría conocida equivalía a llevar un vestido ya visto; se exponían al ridículo.”

93: o puxa-saquismo aluno-professor

Goyaz

“otras asociaciones maléficas: pescado y carne, mango con bebida alcohólica o banana con leche.”

“capitán del matorral”

113: o distrito federal. Confunde com Goiânia! “empresa en el desierto”

“Lo que me espanta de Asia es la imagen de nuestro futuro, que ella anticipa.”

A única guloseima do sertão, a rapadura.

165: Lewis Carroll e o semblante de naipes nas vestimentas indígenas

187: anúncio de “cruzeiro pantaneiro” em francês

“jacarés—cocodrilos inofensivos”

Guiaba = Cuiabá

O açougueiro que queria ir ao circo… “la carne de sol, menos deleitosa que la carne de vento”

Vê os caminhoneiros abnegados com admiração.

Capoeira também é um tipo de vegetação.

O Estado dentro do Estado do garimpo ilegal de diamantes.

197: poesia sertaneja

Jibóia é “boa”.

Bororo, presos entre as formas de peixe e arara.

Índios, como crianças, vêem-se fascinados por armações de óculos.

1000 réis = 1 franco

“Nesse momento, não é raro passar de um máximo diurno de 40º C a um mínimo noturno de 8 ou 10º.”

Abelhas são também conhecidas como “lambe-olhos”, porque o suor das têmporas as atrai. 13 diferentes espécies de mel: é uma matéria-prima tão forte que o ideal seria misturá-la com água para o consumo. “os índios—que tomam a vibração característica de uma linha telegráfica como um enxame de abelhas selvagens em atividade.”

“aún en el cine mudo, se lo tomaría por carioca.”

“Después de ver el esplendor de las mansiones bororo, apenas puede creerse la indigencia en que viven las nambiquara.” Homens de 1,60m, mulheres de 1,50m.

Um tom “arenoso” nas mulheres que é “extremamente sedutor”.

“Los nambiquara duermen en el suelo y desnudos.”

A índia de 3 anos que as crianças nambí queriam casar com Claude!

“los padres de un niño no detestado no pueden participar de la vida colectiva.” “el empleo de los nombres propios está prohibido entre ellos” Cavaignac, o raro indígena barbudo.

“se dois cachorros ou pássaros familiares copulam, todo mundo se detém e contempla a operação com uma atenção fascinada”

“no son raras las parejas sin hijos” E, na dita “sociedade natural”, o aborto é assíduo.

“los huevos de gallina no se consumen”

Habitantes danadinhos, sempre com zombarias sexuais. Porém, fazem controle de natalidade, o que aqui só pode querer dizer abstinência: há inclusive a proibição do sexo no casamento por até três anos depois de uma gestação.

“Así, resultaba difícil vivir indiferente frente al espectáculo que ofrecían una o dos lindas muchachas que se revolcaban en la arena, desnudas como gusanos, y se enroscaban a mis pies riendo.”

“durante 7 meses do ano falta mandioca”

“Los nambiquara sólo tienen una palabra para decir lindo y joven, y otra para decir feo y viejo.”

“Comer lagosta” é uma atitude efeminada.

Impressionante como toda sociedade tem um conhecimento musical, e de como produzir instrumentos. “Los aires que se tocan en los octavinos se destacaban por un cromatismo y variaciones de ritmo que me parecían de un parentesco asombroso con ciertos pasajes de la Consagración de la primavera, sobre todo las modulaciones de las maderas en la parte titulada ‘Acción ritual de los antepasados’.”

“Sua recusa em tomar banho não só faz com que se lhe forme uma capa de pó e de cinzas sobre a pele e a cabeleira, como também que fiquem cobertos de pedaços podres de carne e peixe, que agregam seu odor ao do suor acre, fazendo insuportável sua aproximação. (…) não cessam de ter gazes” outro etnógrafo—K. Oberg

“Um nambiquara testemunha sua antipatia tomando seu pênis com as duas mãos e apontando com ele para seu adversário.”

“Nunca se empregam as flechas envenenadas com curare, de uso corrente na caça: o ferido as retiraria antes que o veneno tivera tempo de se difundir.”

“El jefe debe ser buen cantor y buen bailarín, alegre y dicharachero, siempre dispuesto a distraer a la banda y a romper la monotonía de la vida cotidiana.” “Só o chefe pode ter várias mulheres.”

Relações homoeróticas: tamindige kihandige. “Os participantes não se retiram ao matagal como os adultos de sexos opostos.” “mirada divertida de los vecinos” Permissão exclusiva entre cunhados (primos cruzados).

lobisomem: duende-lobo

Claude Lévi-Strauss descobriu uma tribo inteira nos rincões do Pantanal.

“prefiro a montanha ao mar”—mas não tão alta—2000m.

Com Lucinda, uma macaquinha que se prendia a seu pé esquerdo e o fazia coxear.

“Temos que acrescentar que os nambiquara são fumantes inveterados”

Grilos roedores de tecidos na baixa Amazônia! Roem apenas a parte superficial do couro: deixam os cintos e sapatos brancos.

“Abaitara, apesar de seus 30 ou 35 anos, estava perdidamente cativado pela sua prometida de 2 anos, quem lhe parecia uma esposa de acordo com seus sentimentos.”

Os tupi-kawaíb são homofóbicos.

“Después de la Consagración evocada por las flautas nambiquara, parecía oír una versión exótica de Bodas”

“Em 1938 a borracha valia 50x menos que seu próprio preço do final do grande boom”

Os seringueiros são munidos com uma calibre 44’!

E nos últimos dias dos 5 anos embrenhado no Brasil tinha Chopin torturando-o a cabeça…

“Que sería hoy de Occidente si la tentativa de unión entre el mundo mediterráneo y la India hubiera tenido un éxito durable?” Crítico do Islã, que destruiria todos os monumentos históricos anteriores a si. “la escultura está prohibida, la música es clandestina, la pintura es enseñada como un arte de recreación.” Paquistão muçulmano. Mais um francês islamofóbico? “Napoleão, esse Maomé do Ocidente” “[O Islã] passa o ferrolho no seio materno” O Cristianismo, que é teoricamente a síntese do Islamismo e do Budismo, por ironia histórica veio antes do primeiro.

GLOSSÁRIO (espanhol):

corrosol: graviola

hormigón: concreto

poroto: feijão

seno: no -bojo- de

[ARQUIVO] A ORIGEM DA FAMÍLIA, DA PROPRIEDADE E DO ESTADO

 

Originalmente publicado em 23 de abril de 2012

“se a estrita monogamia é o ápice da virtude, então a palma deve ser dada à tênia solitária que, em cada um dos seus 50 a 200 anéis, possui um aparelho sexual masculino e feminino completo, e passa a vida inteira coabitando consigo mesma em cada um desses anéis reprodutores.”

“a forma de casamento em que grupos inteiros de homens e grupos inteiros de mulheres pertencem-se mutuamente, deixando bem pouca margem para os ciúmes.”

“antes da invenção do incesto” “até o nascimento de um pimpolho” “família punaluana” matrimônio sindiásmico” Saturnais ocasionais em que o incesto voltava à tona.

“as mulheres babilônicas estavam obrigadas a entregar-se uma vez por ano, no templo de Milita” “disfarces religiosos” “Não tem pai, é filha da fortuna” “bus primae noctis” “direito da primeira noite” Só em 1486 esse direito do senhor feudal sobre a esposa do vassalo é abolido em Castela.

ORIGEM ROMANA: “Famulus quer dizer escravo doméstico e família é o conjunto dos escravos pertencentes a um mesmo homem.” “Quanto à vida em família no seio de tais comunidades familiares, deve-se ressaltar que, pelo menos na Rússia, os donos da casa têm fama de abusar muito de sua situação no que concerne às mulheres mais jovens da comunidade, principalmente suas noras, com as quais muitas vezes formam um harém; as canções populares russas são bastante eloqüentes a respeito.”

O Código de Napoleão sanciona a infidelidade masculina, desde que ela se realize fora de casa.

“Aristófanes fala de cães molossos para espantar adúlteros”

ENGELS NUNCA ENTENDEU O ESPÍRITO GREGO: “o envilecimento das mulheres refluiu sobre os próprios homens e também os envilece, levando-os às repugnantes práticas da pederastia e a desonrarem [!] seus deuses e a si próprios, pelo mito de Ganimedes.”

“o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia”

Atenas: prostituição patrocinada pela comunidade/polis. Em Esparta as mulheres eram mais consideradas, mas o Ocidente é tipicamente “ateniense”.

“contra o adultério, como contra a morte, não há remédio que valha”

“guardar as aparências, o que está muito de acordo com a hipocrisia protestante”

Esse “aborrecimento mortal, sofrido em comum, e que se chama felicidade doméstica.”

“na novela alemã, o jovem consegue a moça; na novela francesa, o marido ganha um par de cornos.” “o clima de aborrecimento da novela alemã inspira aos leitores da burguesia francesa o mesmo horror que a ‘imoralidade’ da novela francesa inspira ao filisteu alemão”

O direito de deserdar a prole está ligado a poder ou não escolher o casamento para os filhos (se não tem um, vai precisar do outro).

“Na família, o homem é o burguês e a mulher representa o proletário.”


ELITISMO & SUBSERVIÊNCIA

Após meditar bastante acerca das minhas últimas leituras “feministas”, cheguei à conclusão de que para que eu viesse a pensar como penso, não adiantava mesmo ser de qualquer outro modo, totalmente rebaixado ou totalmente superior no plano social: classe média, “deficiente”, mas homem branco; bem como se eu fosse apenas mulher ou negro poderia me tornar um “Thomas”. Mas ser filho dum barão midiático ou ter facilidade para ganhar dinheiro me acomodariam cegamente. Torna-se uma tônica, uma aceitação, para mim, do status quo burguês atual ser homem, e ver que nasci e sou legitimamente superior à mulher. Devo suportar a “injustiça” como já faço ao reconhecer a “justiça” que me foi brindada, “ao acaso”.


* * *

“em 90% dos casos, o noivado prolongado é uma verdadeira escola preparatória para a infidelidade conjugal.”

“Antes da Idade Média não se pode dizer que existisse amor sexual individual.”

“no poema dos Nibelungos, Krimhilda, embora esteja secretamente apaixonada por Siegfried e este por ela, quando Gunther lhe anuncia que a prometeu a um cavaleiro cujo nome não diz, responde apenas: ‘Não me precisais suplicar, farei aquilo que me ordenais, estou disposta, senhor, de boa-vontade, a unir-me àquele que me dais por marido’.” Engels não deixa de ser extremamente ingênuo!

35: mais capítulos da birra Marx-Gladstone!

Gordas citações do melhor amigo.

Engels, não sei se desautorizando Marx nos Manuscritos, parece fazer o Homo oeconomicus nascer perto de Homero “A autoridade da aristocracia vai aumentando cada vez mais, até chegar a se tornar insuportável (…) Os principais meios para estrangular a liberdade comum foram o dinheiro e a usura [!].” “o sistema monetário que se desenvolvia penetrou, como um ácido corrosivo, na vida tradicional das antigas comunidades agrícolas” “os atenienses já tinham inventado a hipoteca” “o camponês devedor tinha que vender seus filhos nos mercados de escravos estrangeiros para satisfazer por completo o seu credor.” “Essa foi a aurora da formosa civilização do povo ateniense.” “Semelhante revolução…” “Os atenienses (…) deviam aprender (…) como (…) o produto vem a dominar o produtor.” “divisão do trabalho [!!!]” “o Estado se desenvolvia sem ser notado”—grosseirão!

Protecionistas militarizados, encarnação do mal! Ó!

“a reforma de Sólon” 594 a.C.

“Não foi a democracia que arruinou Atenas, como pretendem os lacaios pedantes dos monarcas do professorado europeu, e sim a escravidão—que proscrevia o trabalho do cidadão livre.”

DIREITO CELTA: “Os motivos pelos quais a mulher podia divorciar-se sem prejuízo dos seus direitos eram muitos e diversos: bastava que o marido tivesse mau hálito.”

Diz que na Idade Antiga a cidade dominava o campo. Talvez uma cidade rural!

Napoleão e Bismarck nivelados: joguetes e uma balança entre oprimidos e opressores.


GLOSSÁRIO:

hetera: puta

[ARQUIVO] NIETZSCHE COMO PENSADOR POLÍTICO — Ansell-Pearson

Originalmente publicado em 22 de abril de 2012

“Há grandes perigos na leitura de Nietzsche. O leitor pode prejudicar seriamente sua própria saúde no decorrer do processo.” “Erich Heller escreveu que o exemplo de Nietzsche é tão único e aterrorizante que não pode ser imitado; e, todavia, é de tal importância que tampouco pode ser ignorado.”

“Apesar dos excessos retóricos dessa obra”

“os soldados alemães [da I Guerra] iam para o front, ao que se diz, com a Bíblia em um bolso da capa e Assim Falou Zaratustra no outro”

32-3: explicação de aforismo que tanto me intrigara

67: o destrambelhado Deleuze

A posteriori, excelente discussão sobre o Übermensch.

O cerne do livro (p. 88 e em muitas outras): “Seu pensamento político não reconhece que seu princípio aristocrático de governo é afetado pela estrutura moderna da questão da legitimidade.”

“O poeta é uma inspiração, mas freqüentemente infantil, enquanto o homem moral é amadurecido, mas muitas vezes enfadonho.”

“Nietzsche detecta uma ‘estupidez masculina’ no movimento das mulheres” “a garra de tigre sob a luva” “Ela é oca como um útero.”—nota 16—autor desconhecido (Nietzsche, Derrida ou uma mulher).

“Nietzsche quer atingir o impossível e desejar para trás a fim de dar a luz a si mesmo.”

“Sloterdijk levanta a questão crucial quando pergunta: ‘não é esse autonascimento (…) apenas o exercício da evasão original de uma origem intolerável?’”

“A senhora européia é uma criatura que absolutamente não deve existir.” Schopenhauer

“o primeiro niilista perfeito (…) não para ser imitado, o que seria loucura”

[ARQUIVO] CATECISMO POSITIVISTA — Comte (da coleção Os Pensadores)

Originalmente publicado em 21 de abril de 2012

“Os demolidores incompletos, Voltaire e Rousseau”

“meu precursor essencial, o eminente Condorcet.”

O POSITIVISMO COMO EXECUÇÃO OU EXTENSÃO DO QUE ENCETARAM HUME E KANT: “verdadeira filosofia moderna, Bacon, Descartes e Leibniz.”

“príncipe eterno dos verdadeiros pensadores, o incomparável Aristóteles.”

“Há mais de 5 séculos que o islamismo desistiu de dominar o Ocidente.”

Comte adotou uma de suas empregadas domésticas.

“a profunda inópia que sinto no meio de minhas melhores efusões cotidianas”

“25 de Carlos Magno de 64”—jeito estranho de cunhar datas!

Obras recomendadas de Auguste Comte: Homero; Sófocles (obs: recomenda que não leiam edições comentadas); Píndaro; Dáfinis (?); Virgílio “completo”; ao passo que Horácio, apenas a seleção do melhor; Ovídio; DANTE; Petrarca; Dom Quixote; Corneille; Molière completo; as fábulas de La Fontaine; escolhidos de Shakespeare; Milton; Robinson Crusoe; “as 7 obras-primas de Walter Scott”; escolhidas de Byron – (menos!) Don Juan; e Goethe; 1001 Noites; Carnot, pré-darwiniano (ah, coitado!); Buffon; Cook—As Viagens; Tácito completo; “A Bíblia completa. O Alcorão completo”; Pascal; até agora só uma mulher entre os citados (quanta equanimidade); De Maistre; ele mesmo, É CLARO!

“As mulheres e os proletários, que esta exposição tem principalmente em vista, não podem nem devem converter-se em doutores, e nem eles o querem.”

“Ninguém hesitará, então, em considerar tais cavalos, cães, bois, etc., como mais estimáveis que certos homens.”

Privar o sentido da visão para melhor contemplar os objetos de nossos pensamentos…

“Ninguém, segundo Dante, poderá nunca representar-se a sua suave Beatriz senão na idade de 25 anos.”

Agradeço a torrente do Devir por não ter modos afetados como o Farsante Rei dos Mantras Jr., que apenas reitera de forma autômata aquilo que não pode cumprir.

Pedir pouco é uma coisa que aprendi com resignação durante o purgatório universitário. “Acho que não quero nada, minha moça” E sem que percebessem… Quem sabe a oportunidade de amar de novo, de perdoar, de não perdoar (tudo misturado, se bem que discriminado), o “melhor escrever”, mas é claro! Ter uma ou duas febres a menos (!), um mês a mais (30 dias são muita coisa!)… Um fim digno. E o sono. Não tremer, subestimar mais os humanos enquanto estou com eles, olhar nos olhos, quem sabe até praticar algum tipo de arte-marcial ou dança que me locuplete…

“cada positivista deve ser, a certos respeitos, uma espécie de poeta, ao menos para seu culto íntimo.”

“todos se terão familiarizado com o canto, base essencial da música, e com o desenho, fonte geral da tríplice arte da forma, pintada, esculturada ou construída.”

Pelo menos não é um Platão!

“a cultura teórica deve permanecer indivisível.”

“Aristóteles teria sido um grande poeta e Dante um filósofo eminente.”

“Desde Homero até Walter Scott, não existem no Ocidente senão 13 poetas verdadeiramente grandes, 2 antigos, 11 modernos, incluindo mesmo neste número 3 pensadores.” (o outro antigo seria Ésquilo)

“a duração total de nosso culto cotidiano alcança somente duas horas” (!)

“viuvez eterna”, vinda de um cara que se casou de novo poucos anos depois da “tragédia”…

Homens devem ser 7 anos mais velhos que as mulheres.

Fã da cor verde.

A sociologia ou física social não é rainha soberana, perdendo para a moral.

“Quando a palavra Antropologia for mais e mais bem-usada, será preferível para este destino coletivo, pois que significa literalmente estudo do homem. Dever-se-á, porém, empregar por muito tempo o nome sociologia, a fim de caracterizar mais a principal superioridade do novo regime intelectual, que consiste sobretudo na introdução enciclopédica do ponto de vista social, essencialmente alheio à antiga síntese.”

482: o monstro indesejado chamado Estado

“Daí resultam os sonhos, estados passageiros de alienação mental” “Pode-se, pois, esperar que a teoria cerebral conduza finalmente a bem interpretar os sonhos, e mesmo a modifica-los, segundo o voto prematuro de toda a Antiguidade.”

“Sabeis, enfim, que uma ternura profunda constitui sempre o melhor preservativo contra a libertinagem.”

CURIOSA INVERSÃO: “Embora o casamento fique facultativo para os cidadãos ordinários, ele torna-se obrigatório para os padres, cujo ofício não pode ser dignamente preenchido sem a influência contínua, aliás objetiva ou subjetiva, da mulher sobre o homem.”

Contra os suicidas. E o álcool, obviamente.

“Quando a fé positiva houver prevalecido, chegará o tempo de compor um novo Catecismo mais análogo ao dos católicos” HAHA

“casamento (…) abstraído de toda sensualidade.”

“disciplinando o impulso carnal”

“a mais perfeita das amizades”

“desenvolver a ternura”

Eugenia, difícil saber por que você não ganhou essa guerra! “Na civilização moderna, em que todos os nascimentos são igualmente protegidos, esses tristes resultados multiplicam-se mais do que entre os antigos, que destruíam a maior parte dos descendentes débeis.”

Divórcio: o mesmo que Morus (escravidão + pena capital).

“Antes do fim do séc. XIX, a República Francesa achar-se-á livremente decomposta em 17 repúblicas independentes, formadas cada uma de 5 departamentos atuais.”

“Portugal e Irlanda (…) formarão, no começo do século seguinte, as maiores repúblicas do Ocidente.”

Clotilde, por compaixão, fingia acreditar em cada uma das idéias abiloladas desse homem! Não, não! Pensando bem, foi Comte que troçou de todos nós!

564: a fantástica dissolvição da classe média!

“2 mil banqueiros, 100 mil comerciantes, 200 mil fabricantes e 400 mil agricultores parecem-me fornecer chefes industriais em número suficiente para os 120 milhões de habitantes que compõem a população ocidental.”

“essas satisfações domésticas, nas quais reside sobretudo nossa verdadeira felicidade.”

“Quanto ao domicílio, vós sabeis que a maioria dos proletários está antes acampada do que alojada em nossas cidades anárquicas.”

“O porteiro (concierge) representa o proprietário e serve de laço entre os diferentes inquilinos.”

“Confundindo as palavras família e casa na palavra ménage…”

“Todos sabem, aliás, da tendência universal a não se trabalhar no lunedia [a segunda-feira comteana].”

O milagre teórico onipresente do ensino público superior ao privado!

“O Sumo Sacerdote da Humanidade constituirá, melhor do que nenhum papa da Idade Média, o único chefe verdadeiramente ocidental.”

Considera a conversão turca mais difícil que a russa.

“A poligamia é hoje, minha filha, mais real amiúde em Paris do que em Constantinopla.”

585: raças. Pelo menos não fala em apartheid.

“Assim, toda a história da Humanidade condensa-se necessariamente na história da religião. A lei geral do movimento humano consiste, sob qualquer aspecto, em que o homem se torne cada vez mais religioso.” Indisfarçável simpatia pela Idade Média, que é seu verdadeiro Espírito do Tempo. “Por isso, ao positivismo só resta agora retomar o conjunto do programa da Idade Média, para realiza-lo dignamente, mediante uma fé melhor”—importância do(a) culto/emancipação da Mulher no sistema comteano. “A Imitação de Cristo (…) este admirável livro que todo positivista deve ler diariamente.” “uma cega reprovação do conjunto da Idade Média, mal-compensada por uma irracional admiração pela Antiguidade.” Protestantismo, “doutrina puramente negativa”. “a religião final” “universal” “Desde então admirou-se a Idade Média, sem deixar de apreciar melhor a Antiguidade.”

“a admirável ditadura de Cromwell” anti-napoleônico

“ouso proclamar aqui os votos solenes que faço, em nome dos verdadeiros positivistas, para que os árabes expulsem energicamente os franceses da Argélia se estes não a souberem dignamente restituir àqueles.”

“Mas a anarquia e a retrogradação são ainda mais completas na arte, cuja natureza eminentemente sintética rechaçava com mais força o empirismo analítico.”

“o relativo sucede irrevogavelmente ao absoluto” “Em uma palavra, a Humanidade substitui-se definitivamente a Deus, sem esquecer jamais seus serviços provisórios.”

[ARQUIVO] OF WOLVES AND MEN — Barry Lopez

Originalmente publicado em 21 de abril de 2012

“The largest wolf on record is a 175-pound animal killed on 70 Mile River in extreme east central Alaska by a government hunter on July 12, 1939.”

Pelugem protege do frio até -40F.

“Short ears are less sensitive of the cold; long ears are efficient dissipaters of body heat.”

“I know of no other mammal so variously colored”

Coiotes são parentes mais rápidos.

42 dentes.

“Stories of hundreds of wolves traveling together are probably folklore.”

“Breeding normally occurs in February or March”—cópulas de 30min.

Gestação de 63 dias. 4 a 6 bebês. Nascem cegos e surdos! Demoram mais de 10 dias para abrir os olhos. E desmamados em 5 semanas. Mortalidade de 60%. “A pup exhibiting any untoward behavior, like epilepsy, is killed by the adults.”

Certo senso de moralidade (!) com as crianças.

De 8 a 14 anos de vida (2 anos lupinos = vida adulta).

Ursos: sua nêmese.

“They scare each other by pouncing on sleeping wolves and by jumping in front of one another from hiding places.”

“I’ve ever seen a wolf, with an air of not wanting to miss out, howl while defecating.”

59: sobre a inspeção anal canina

“The habit dogs have of rolling in putrid substances is also found in wolves.”

“meat drunk” 20% do peso corporal

Relatos de um lobo russo que sobreviveu a 17 dias de fome!

Lobos comem grama para ajudar na digestão e para matar ou combater vermes.

“People have heard loons and barred owls responding to wolf howls, and vice versa.”

Não sabia que cachorro e lobo podiam procriar!

Esquimós, muito mais sábios que a ciência.

“But if he hears the click of the rifle being cocked, he may disappear like fog.”

“Another Cheyenne shaman, Wolf Man, was considered bulletproof after a fight on the Powder River in 1865 when, having been struck by two bullets, he simply shook them out of his vest.”

“The Navajo word for wolf, mai-coh, is a synonym for witch.”

“No coração da tereofobia está o medo da própria natureza do sujeito.”

“And men went like Ahab after this white whale.”

Um Rei da Inglaterra já aceitou pagamento de impostos em cabeças de lobo.

Descartes: os animais não têm alma.

“American soldiers returning after World War II to the upper Midwest began to refer to all wolves as Nazis and to hunt them down with great intensity.”

Método heterodoxo de caça lupina: com águias treinadas!

Pogrom americano: 500 milhões de exemplares de animais de todo tipo teriam sido executados durante a segunda metade do séc. XIX.

ESPÉCIE DE SLOGAN DA ÉPOCA: “You couldn’t control storms or beef prices or prevent hoof and mouth diseases, but you could kill wolves.”

A presença do lobo em trechos capitais da Divina Comédia, como no oitavo círculo. Outras citações famosas: História naturalis (Plínio); Malleus Maleficarum (Lobisomens queimados na fogueira); Physiologus; Historia animalium (Aristóteles); Satyricon.

“The medieval mind, more than any other mind in history, was obsessed with images of wolves.” Crianças com Síndrome de Down na Idade Média se pareciam com Lobisomens… Cfr. Bosch & Brueghel

“hated nobles were represented by wolves in the proletarian literature.”

Conexão com Apolo. Loki e seu filho Fenris.

“elle a vu le loup” —perda da virgindade

“In French, to be known by everyone is to be as well known as the white wolf”

Diz-se que lobos detestam a música.

Adolf: Lobo nobre.

No latim, puta e she-wolf são o mesmo.

Deucalion é o “Noé grego”.

“one of the most odious documents in all human history is the Malleus Maleficarum, published in 1487. Its title, Hammer of Witches, derives from a title sometimes bestowed on Inquisitions, Hammer of Heretics. One of the purposes of the book was to refuse in tedious scholastic fashion every objection to the existence of werewolves.”

252: Rômulo e Remo 2 filhos da puta!

Rousseau e o caso de Herman Hesse (1344). “feral children”

Victor de Avyron, séc. XX.

Amala & Kamala—1920, Godamuri, próxima de Calcutá. Estavam com mais de dois “cubs” e 3 lobos adultos. Um ano e meio tinha Amala e 8 Kamala! Amala morre aos 2 e K. aos 17.

Little Red Riding Hood Literal Had Hiding Rude

2500 anos das fábulas de Esopo

FÁBULA VS. CONTO-DE-FADAS/FOLCLORE

tiro curto vs. inconsciente

moral rápida e clara vs. reconfortante

cinismo vs. polissêmico

“Ele é insano de acreditar na subserviência de um lobo, na saúde de um cavalo, no amor de um garotinho ou no juramento de uma puta.” Rei Lear

Esopo narra a original O Menino e o Lobo, mas que não é ambientada na floresta: trata-se de um pastorzinho de ovelhas.

La Fontaine, Montaigne vs. Descartes

« Seven Little Goats »

As várias versões de Chapeuzinho (amenizadas): “James Thurber, in 1930s version, has R.R.H. shooting the Wolf with a pistol she had hidden in her basket. Writes Thurber: ‘Moral: It’s not so easy to fool little girls nowadays as it used to be’.”

Wolfgang: “wolf going before”


GLOSSÁRIO:

lice: piolho

Lycaon: licantropo

theriophobia: medo da besta

[ARQUIVO] PAR|TIDO AO MEIO PELO (AM)ARG(OR) SARTREANO

PAR|TIDO AO MEIO PELO (AM)ARG(OR) SARTREANO

COMO MORTO

Originalmente publicado em 4 de abril de 2012

Isto é vida? Então era isto que era a vida? Explodindo de dentro para fora, a olhos vistos, arregalados, inertes. Todo o formigamento e sensação messiânica, prólogos dormentes do ingente? Desperta-se com fúria de um medo alimentado pelo absurdo contrário ao esperado. Aquilo que não pode ser representado pelas forças do circuito da ipseidade tenta ser figurado, retratado em objeto—ah, se não lhe escapa! que trote!

Um livro enorme que assusta pelo aspecto e pela capa negro-azul: um tijolo de letras e espaços atômicos entre os núcleos. Falar com exemplos tão profanos, cotidianos, de algo tão sério! Fumar um cigarro, ir ao teatro ou a uma exposição

Amor Dirty(coti)Diana

e desvendar o segredo! Corrente ultrapassada, mocada.

termos técnicos o poder ilustrar às massas o carisma

EU & A RAIVA, A RAIVA & EU

Uma relação que pode explicar a luta que eu venho travando há anos—talvez uma tentativa de desquite! O mais arcaico e notável sobre esta “força” em minha biografia é que me causava um prazer extraordinário sentir raiva. Não havia alusão a estados de nervos frágeis, cujo ideal seria a aparição apenas em último caso. Não havia fadiga e ao invés de evitar tais situações eu as forçava. D.S. vem à minha cabeça. Contra mulheres de perfídia, enfurecer-se era o melhor remédio.

Foi então que meu pai revelou o que havia de ancestral em tal vontade: meus antepassados respondiam por mim, eu podia sentir o peso deles e ver meu destino traçado, cumulado, em suma, de uma missão, que era ser um instrumento, empregar meu potencial. Havia um parente remoto que meu pai conhecia somente através de lendas, suponho, que “domaria todos pelo pulso”, o Brabo. Senti auto-identificação imediata. Mesmo evocar uma lembrança ou uma história do tipo era inútil ou redundante, já que havia um exemplar vivo, muito mais acessível: o próprio interlocutor, meu pai. De gênio ruim, beirando a hidrofobia, quase sempre se lhe escapou o controle. Eu recebi esse baú de herança. A raiva era minha amiga. Mas depois de tanto abusarem do dom, os mortos que me desculpem: a teimosia se tornou maldição. Na era recente, sou expectador da luta interna entre meu atavismo selvagem, os doutores, a disciplina, a adaptação, a sobrevivência.

Descobri que a frieza glacial pode ser a melhor postura diante de uma realidade inclemente que exige certo retardo, soro e contemplação de seus elementos em conflito. Se me sinto confortável com a idéia de jamais influir em algum acontecimento—como fatalidade, na medida do possível—, entrar no estado de precipitação emocional que carrego nos genes seria como pedir o papel de ator principal! Evito a ação porque depois preciso arcar com as labirínticas conseqüências…

Nada objetivo que seja utópico: quero apenas que me apaguem as manchas intempestivas do meu princípio ativo.

* * *

Quer salvar o mundo e o dana

o cavaleiro

Deseja o epílogo e principia

um conto o mago do mal

*

Quem perde uma, duas três vezes

está tão perto da vitória quanto

qualquer outro

*

Quem acumula êxitos,

coitado,

não passa de enganado!

*

Esperam o veredicto,

a medida provisória não convence

De La Mancha en biografía

Reino encantado no moinho

Sucessão, campanha alexandrina

ignomínia eternizada em estátua

* * *

Vai rolar a festança

Dom Quixote e Sancho Pança

Leve sua lança

Até a masmorra

Estandartes de Senegal e Andorra

Tem que ter muita pachorra

*

pra se negar a ir

gentis-homens ferir

e senhoras fazer ganir

*

Com tua sabedoria, esvazias tua piscina e deságuas n’oceano

*

Atrás de todo grande derribador de moinhos há sempre uma grande pança!

*

Alegro sua culpa

*

Se anjos não têm sexo, já sei que Lúcifer foi expulso do Paraíso porque era perigoso e tinha uma vagina!

*

Nem gays devem gostar de pornôs de homem com homem!

*

v(ida) Davi ganha

*

Espero que tenha um belo .com você, gata de respeito!

*

Uma convenção de loucos de todo o mundo. Eu seria o emissário de Brasília.

“Muitas vezes a presença da coisa amada perturba e emudece a intenção mais determinada e a língua mais atrevida.”

“A tal ponto o levaram os seus excomungados livros.”

Miguel de Cervantes

[ARQUIVO] AMOSTRA GRÁTIS PARA COLAR NA INTRODUÇÃO DO SEU TRABALHO ACADÊMICO

Originalmente publicado em 25 de março de 2012

Ver-se-á que o que era para se ater mais ao campo da economia (política!) até se dirigiu à Literatura e à Semiótica, para não falar de outros campos. O que, penso, só contribui para a intenção de riqueza epistemológica do trabalho; embora possa comprometer o foco dos menos atentos, ao “hibernar” e retomar tantas idéias em um espaço tão curto, na ânsia de não parecer simplista. Ainda acho que, a despeito de tudo, possa ser encontrada uma unidade, no ensaio abaixo. Outra observação é que nada digo tão-somente para “agradar” qualquer perspectiva de outrem neste trabalho—creio mesmo que o pré-requisito básico de um trabalho universitário nessa linha seja manter a idoneidade e expressar somente aquilo que lhe cabe segundo sua própria consciência (que é falível sem dúvida; que é doutrinária em algum ponto, sem dúvida, que é carregada de ideologia um mínimo que seja, sem dúvida; como todas as outras, mas não prescinde de uma apaixonada tentativa perene de autocrítica). Os méritos dessa missão ou tentativa quem há de julgar é o mentor da disciplina, e tenho certeza que, se discordar em alguns ou vários pontos, desde que não por debilidade gnosiológica minha, essa discordância não significará intolerância, mas uma rica troca de idéias, a qual deve ajudar na construção de seus próprios pontos de vista. Entendo que mesmo de alunos de graduação um professor pode aprender uma ou outra coisa, desde, é claro, que seja seletivo ao navegar pelos pensamentos daqueles. E não acho que o professor em questão pense diferente, uma vez que se não estivesse disposto a ler pensamentos de outrem pediria um tipo diferente de trabalho ou executaria uma prova mais hermética. Portanto, agradeço pela oportunidade e, se algo dito aqui porventura soar ofensivo, devemos responsabilizar unicamente meu afã de me expressar com o máximo de espontaneidade, sem me deslocar dos limites do tema, mas ciente de que vale mais a pena correr o risco de ser entendido como “afoito” em algumas conclusões do que simplesmente de me manter calado e perder a chance de um saudável debate.

[ARQUIVO] MI’A MOR-TO(N)TEM

Originalmente publicado entre 13 e 22 de março de 2012


MEIONÇA

Ora, que venha alguém com muitas onças m’enfrentar!

Garanto que nem todas as riquezas mais ferozes bastarão!

Não preciso comprar meus inimigos

Que eles venham inteiro ou ao meio(-dia)

O brio que sucede não fraciona

Diante do rugido fedorento, das garras bem-aparadas

De um animal de casa, grã-grosseria é a minha

Não sou preço ou dívida, para que se me abata

Por decreto, como se não existira

Gatuno, montanha de especulação

Quando alqueiras alquebrar-te, me avise!

Tão másculo és, não vives sem bolsa

On’tá teu instinto?

Eu sim não minto sobre minha tropa, ela é nada

não a guardo debaixo dum assento

para que vire púrpura urina!

Herança que queda aos meus filhos

deve de ser não ter nem temer

Animal silvestre, todos vão perecer

por terem vindo investir com cobiça nos réis da selva


MI’A MOR-TO(N)TEM

Se é verdade que a vida é uma reprise,

cada dia a seu dia os mesmos gestos

Não deixe para amanhã viver o hoje

porquanto amanhã é hoje e não o depois

Somente hoje se promete

se promete todo o tempo ao vento

Hoje viver, amanhã morrer

palavras de insignificância

não servem para amortecer a ânsia

Da queda perpétua

que se consuma /ou consome num instante

Pedante ante a vida

Morri pelo fim, vi o VT

Mercê me crê

Repise o quinto piso

O quanto insisto nisto

*

Novela móvel interativa

Mexi no constructo, não alterei a ordem

Destilo impaciência ao caminhar

Que mentira, escrevo um poema

Coisa que ontem não me ocorreu

De óculos mirando o breu

Cada dia um novo dia,

Festas, gestas

Gestalts, Gestapos, guess & penetras n’ farrapos

O pensamento me fugiu

enquanto pensava

Evaporou ao passo que se concretizava

O mote já nem sei, nasceu como motim

Um montão de ideias

correias de mar

-fim


COMILANÇAS DE ULISSES, E ARROTEI!

Tão burra que acredita na própria recuperação!

Yin-Yang são dois gordos

se devorando, eu não tenho lugar

no esbocexistencial, no bojo do nojo nostálgico!


MI’A MOR-TO(N)TEM II

“Deixe para amanhã viver o amanhã”

O amanhã nunca é vivido, criança!

Se é, é porque o amanhã é sempre hoje

“Sempre” ou até morrer

Um ontem a viver

Um amanhã déjà-visto

Um hoje fugidio como a esposa espevitada

Pula a cerca sem se ver

Mas amanhã que é o hoje sai nos jornais

Cristaliza—e se acredita

que se viveu, tem testemunhos!

Tempo que se vende quando se obtém

porque dele não se encontra proveito utilidade

E se choraminga, se pechincha quando

se inveja o alheio, enredado em obrigações

Picos de felicidade eterna

Constâncias de tristezas singelas dissolutas

dissolvidas

Prolongamento cantante

silêncio de missa

respeitoso, olha o dízimo!

Calvário proletário festinha se anima

Sindicato do tempo restituindo horas extras

para cedermos ao tédio egoisticamente

com aquela impressão de tempo perdido

mas usufruído

*

Feliz é quem vê TV aberta

Alerta sempre às novidades

mata os desafios com bocejos e risos

nenhuma fadiga, só a de retornar

a si

Ferroada fumada

tosse expectorada

Caminhada solitária

Pisadas de sapato no asfalto

Nó bem dado, semblante de te descontraio

Bem-aprumado, celular num saco

*

Tratantes insistentes

Sorrisos cheios de dentes

mas pouco conteúdo

Monólogo assistido, compulsão vazia

Julgamento doutrem, justo d’a quem falta

uma existência mais pia

*

Expulsa isso de mim

Roqueiros malcriados

Contatos desaforados

Textos não-mostrados

Nem com nervos de aço!

Anais dos amores passados,

ficaram para trás

hemorróidas voyeurísticas

Inocência embutida,

pressuposta

Fatura exposta dos meus

Ché, quês barras de códigos

lunáticos taxas que olvido cinismo além do barato

*

Conta-gotas de suor

Acréscimos de um tempo,

Preliminares da vida

Incertidumbre

Pascal me abisma!

Sebo e cravo nas canelas

o alarme toca

Ação toma conta

não enrol /e no anzol

*

Você só tem de fazer o que tem de fazer, tudo o mais é inútil.

Lamuriar é necessidade

Então o que é tudo o +?

[ARQUIVO] MADAME BOVARY

Originalmente publicado em 18 de fevereiro de 2012

Submeta (c)orações a Deus.

variedades de vaidades e de veleidades em idades variadas

Na França e colônias, ao que parece, dão-se (ou “antes davam-se”) livros aos alunos-destaque! O que temos nos trópicos? Picolés, balinhas, ovos de páscoa? Não me admira termos os melhores dentistas do mundo!

Casamentos rurais que duravam mais de um dia…

Se na vida eu sou lento, na literatura eu já me casei muitas vezes.

“Os vizinhos foram para as janelas ver a nova mulher do médico.”

“Mas, se no primeiro dia ela me amou, ela deve, pela impaciência de rever-me, amar-me ainda mais. Continuemos, então!”

“a terna monotonia da paixão, que sempre tem as mesmas formas e a mesma linguagem.” “como se a plenitude da alma não transbordasse pelas metáforas mais vazias”

“de tanto contemplar aquela imagem e de evocar a lembrança da modelo, os traços de Emma, pouco a pouco, confundiram-se em sua memória, como se a figura viva e a figura pintada, esfregando-se uma na outra, fossem apagar-se mutuamente.”

“todo notário traz em si os detritos de um poeta.”


GLOSSÁRIO:

segeiro: fabricante de carruagens

tule: tecido leve ou transparente de seda ou algodão

[ARQUIVO] O PRIMEIRO HOMEM — Albert Camus

Originalmente publicado em 23 de janeiro de 2012

“e na verdade não há ordem mas somente loucura e caos quando o filho é mais velho que o pai.”

Estava em depressão profunda porque não falava com ninguém, não falava com ninguém porque estava em depressão profunda…

Não se repita! Não se repita! Não se repita!

“Tavernáculo da língua”, disse o boêmio erudito.

Na Rússia as pessoas são muito calmas, a cabeça não lhes sobe tanto ao sangue!

Jogador que corre os 100m rasos antes de cobrar o lateral.

Gagárotão—O coroa transado

“Mas esse trabalho de escritório partia do nada e levava a lugar nenhum. Comprar e vender, tudo girava em torno desses atos medíocres e inapreciáveis.”

“Nunca tinha visto até então o que uma mulher usava debaixo da saia, e essa visão brusca secou-lhe a boca e causou-lhe uma tremedeira louca.”

Camus encenou (dirigiu) Os Possessos.

“Pede-se perdão àqueles que sabemos que nos podem perdoar.”

“MENTIRA

Desde quando o homem honesto que se recusa a acreditar no mentiroso é que é o cético?”

“A exceção é a antiguidade. Os escritores começaram na escravidão. Conquistaram sua liberdade.”

Brisville, talvez não o melhor mas o primeiro biógrafo de Camus.

“A natureza tem um grande livro onde registra minuciosamente todos os excessos que vocês cometem.” “tente conservar em branco a página que lhe é reservada no Grande Livro da natureza.”

[ARQUIVO] SHINING: L’enfant Lumière — Stephen King (versão em francês)

Originalmente publicado em 3 de janeiro de 2012

« Convaincu que tout hôtel digne de ce nom abritait bien un rat ou deux »

« et Dieu sait quoi encore ? »

« Quatre présidents nous ont fait l’honneur de séjourner dans la suite présidentielle : Wilson, Harding, Roosevelt et Nixon. »

« Je ne bois plus. » « Voici 14 mois que je n’ai pas touché une goutte d’alcool. » « le mal de blédards » Enclausurado por muito tempo no mesmo ambiente com as mesmas poucas pessoas.

20 anos, a idade para começar a falar palavrões.

Sesame Street

Alice au pays de merveilles

O protagonista—ou pai do protagonista—Jack é fortemente baseado na vida do próprio King: um professor, ou ex-professor, demitido de uma escola por causa de um aluno e um ataque temperamental, que tenta decolar na carreira de escritor. Mas será que S.K. tinha/tem/teve problemas com o álcool?

« um garçon qui allait peut-être devenir un écrivain important et qui en tout cas était éminemment qualifié pour initier les adolescents a ce grand mystère, l’art d’écrire. » « Il avait déjà publié 24 nouvelles, il travaillait sur une pièce de théâtre et il y avait peut-être un roman qui mijotait dans l’arrière-boutique. »

« Il bouvait du café très fort et un nombre incalculable de coca-cola. »

« Comme elle [son épouse] était étudiante en sociologie et n’avait pas fait d’études litteraires »

« Telle mère, telle fille »

« quand il passait la soirée avec Al Shockley, il n’y avait plus de limite. »

« il ne parvenait plus à écrire. »

« Devant ce paysage, Wendy découvrit la vérité du cliché littéraire »

Danny é chamado pelos pais ora de “professor” (referência ao Pernalonga, “velhinhos”) ora de “coelhinho”.

“conte de fées”

Danny detesta peixe…

“l’arriere-grand-père”

– On peut le prendre en toute confiance.

– C’est ce qu’on a dit du Titanic

« L’avion ne va pas s’écraser, prof. »

« Papa et Maman s’aimeient. C’était essentiel. Le reste, ce n’était que des images dans un livre. Elles pouvaient faire peur, mais elles ne puvaient pas faire mal. »

« Truman Capote (…) Un homme charmant, d’une politesse exquise, a l’européenne. »

« Va te faire foutre, espèce d’enculé. »

Segundo consta, NOVELAS são de tiro curto e ROMANCES são os tijolaços.

« Alcoolique, il l’était encore et le serait toujours. » « Il y avait seulement quelque part, dans son circuit intérieur, un interrupteur défectueux, un disjoncteur qui ne fonctionnait pas » « Quant à ses accès de colère, c’était la même chose. »

« rouleau compresseur »

« et plus il se passionnait, plus il bégayait. »

« Vous me détestez parce que vous savez que je sais…

Parce qu’il savait quoi ? »

« Jack Torrance (…) le Shakespeare américain! »

Le moment de Maman.

« Quel rapport pouvait-il avoir entre cet élegant palace et le monde ténébreux d’Edgar Allan Poe ? »

« Le phénix qui renaît de ses cendres. »

« haricots Campbell’s »

« Une moustache de lait sur sa lèvre »

De todas as modificações kubrickianas, a que me deixa mais indignado é mudar a cor das paredes do hotel de azul para vermelho.

« j’arrive même a trouver un certain charme à l’abstinence. »

« Et il s’irritait de petites choses. (…) Son langage était devenu plus grossier. »

« N’oublie pas de te servir du fil dentaire. »

« Ils avaient dépassé le point de non-retour. »

« Vous êtes vraiment la crème des barmen. »

« les 20 cocktails imaginaires »

« La vérité, c’est que le Droit Chemin ne méne pas au paradis, mais en prison. »

« Elle était n… n… elle ne portait rien. » « j’ai fait pipi dans ma culotte. Comme un bébé »

« Ce thême avait déjà été traité des milliers de fois. »


…E PSICOLOGIA REVERSA NÃO VAI FUNCIONAR

Não “encontro a paz” ou “sou feliz” ou “posso seguir tranqüilo com suficientes esperanças” desde há muito. Vai completar 5 anos, para se dizer a verdade, se é que eu não estou superestimando 2007, 2006… Primeiro foi a UnB. Finda, veio a escola. A maldição continuou depois de 3 de agosto com um “piripaque” em algum lugar do meu computador, sem falta, a cada menos de 60 dias: outubro, novembro… e agora em janeiro. Sinto que eu sou O Escolhido, só que ao contrário. Uma nuvem negra me perseguiria e trovejaria em mim até no Paraíso, lugar das nuvens brancas. Até no deserto, na estiagem de minhas emoções. Qualquer êxito profissional ou pessoal me é eminentemente proibido.


« Et nous y voilà de nouveau. »

« une bicyclette avec des stabilisateurs. »

« Californie, le pays des oranges y des self-made men. »

« Je n’ai fait que mon devoir. »

« Pas juste, bon Dieu de merde. »

« Un don ? Non, plutôt une malédiction. »

« bataille de boules de neige »

É muito engraçado comparar a mente de um menino de 5 anos e a de um adulto para lá de cético quando ambas enfrentam a mesma situação terrível—Jack se recusa a acreditar, filosofa sobre o mau funcionamento de seus nervos e se enraivece, rabugento; Danny quer correr e gritar nesse pesadelo que enfrenta acordado.

« Agent secret. Souviens-toi que tu es un agent secret. »

« Le lion [de pierre !] le plus proche n’était plus qu’à 5 pas de lui. »

« L’ascenseur, le sous-sol, le terrain de jeux, la chambre 217 et la suite présidentielle étaint des endroits dangereux. »

« Vous passez votre temps le cul sur une chaise à faire des parties de belote ? »

– C’est gratuit pour vous, Mr. Torrance

« La morsure du serpent est moins cruelle que l’ingratitude des enfants »

« Un homme qui ne peut pas s’imposer à sa propre famille n’intéresse pas notre manager. »

Exímia trilha sonora a desse livro!

« La fête était finie. » « Je me servirai moi-même, putain de merde. »

« Nous voilà arrivés sains et saufs. »

« Il était de plus en plus persuadé qu’il ne sortirait pas vivant de cette aventure. »

« Dieu veille sur les ivrognes et sur les enfants. Amen. »

« Du vin nouveau dans de vieilles bouteilles. »

« Mais le silence, encore plus inquietant que les cris »

« Et il n’était pas pressé de le decouvrir. »

« Qui aime bien, châtie bien »

« Le pire est passé maintenant. »

« Le monde ne nous veut pas de mal, mais il ne nous vet pas de bien, non plus. »

* * *

Somente aos 17 anos comecei a me aventurar de verdade pela literatura de quinta grandeza. Confesso que durante a adolescência primeva sofria dos mesmos males do tipo médio de colega da escola: lia os livros apontados para as provas sem muito gosto, porque não compreendia o contexto ou o sentido daqueles escritos, achava-os herméticos e maçantes. Lembro-me particularmente de ter tentado ler Cemitério de Elefantes do Dalton Trevisan, um exemplar quase que perdido aqui em casa, aos 12, sem nenhum sucesso! Confesso que os últimos seis anos, no entanto, parecem uma eternidade, uma vez que significaram o encontro do meu eu de carne com minha vocação espiritual. Clichê místico-verbal, mas sincero para descrever o que houve!

Vivemos tempos incertos em que inclusive escritores profetizam o fim do formato livro, a ressurreição do homem como um ente mais selvagem, desprezador de bibliotecas e de clássicos universais tais quais Dom Quixote, que já teriam cumprido sua missão. Não sei se terei filhos, posso até não plantar uma árvore diretamente (embora venere a natureza), mas se morrer antes de publicar um livro (é verdade que o ditado diz apenas “escrever”) não partirei em paz!


GLOSSÁRIO:

avocat: abacate; advogado.

châtier: castigar

maillet: martelo